26 setembro, 2006

A Nova Guarda do Samba

TerSamba no Reciclo Asmare de BH


Toda terça-feira é dia de TerSamba no Reciclo Asmare Cultural, em Belo Horizonte.
E hoje, 26/09, é dia de Chapéu Panamá.(link do blog)


Estaremos lá, a partir das 20:30h, para curtir uma roda de samba com nossos dois filhotes, o Ângelo e Leo, integrantes da banda. Afinal, a família que samba unida jamais será vencida!

O Reciclo Asmare é um centro de ajuda a catadores de papel, que recicla todo o material coletado nas ruas. A decoração do bar, que fica na Av. Contorno, 10564, é toda feita de produtos da própria Asmare.

Release:
O Samba, mais do que nunca, mora em Belo Horizonte. Formado por universitários amantes da música brasileira, o grupo Chapéu Panamá trabalha atualmente no projeto "O Samba mora aqui", que intitula uma das mais conhecidas músicas do grupo. Em suas apresentações o Chapéu Panamá oferece à capital mineira a oportunidade de relembrar e reverenciar grandes clássicos do Samba.

O grupo nasceu no início de 2005 em encontros na casa de Matheus Brant. "A idéia surgiu quando amigos se encontravam para tocar e conversar sobre música, partilhar canções e descobrir o que é realmente o Samba", conta o percussionista Dudu. Mas o talento do grupo não poderia ficar restrito aos integrantes, amigos e familiares...

Usando o característico chapéu que virou marca dos mestres imortais do estilo, Matheus Brant, Renato Rosa, Thiago Prata, Dudu Faleiro, Bruno Sant`Anna, Gelo Procópio, Cacá, Léo Procópio e Entusiasta, passaram a se apresentar em diversos eventos do meio universitário e casas de Samba em BH.

O repertório da banda é variado, indo de Jorge Ben Jor à Adoniran Barbosa. "Procuramos tocar músicas menos conhecidas de sambistas famosos e composições próprias" , explica o vocalista Renato Rosa. Agradando, ao mesmo tempo, àqueles que gostam do tradicional samba de raiz e aos que esperam pela renovação do estilo, os jovens integrantes do Chapéu Panamá vêm conquistando, dia a dia, seu espaço no tradicional cenário do Samba.

O papai e a mamãe aqui vestem a camisa da banda!
Foto durante o Festival de Música de Belo Horizonte, na Praça Duque de Caxias, no Bairro Santa Tereza, em Belo Horizonte.

24 setembro, 2006

Viagem ao interior

Fim-de-semana de viagem ao interior. Se BH já é 'interior" (estamos a mais de 400km do litoral), imagine o 'interior' das Minas Gerais.

Enfrentamos a BR262, direção leste, até o km 70. Depois, à esquerda, mais 70km até Santa Maria de Itabira (região à direita da Serra do Cipó: Itabira, Ipoema, Itambé, Ferros...). Estrada Real.
Êta Minas infinita, sô!

Da viagem, três imagens:

1 - Conselho amigo: Tome Decisão!

2- Problemas? Remédio caseiro!

3- Fome? Pães e bolos da Tia (da Amélia) Nhanhá!

20 setembro, 2006

ZOOPOLÍTICA

Brizola afirmou que Lula era um 'sapo barbudo'.
Lula é animal marinho: octópode? cefalópode?
Lula diz que ACM é o 'hamster do nordeste'.
Alckmin foi o indicado dos 'tucanos'.
Newton Cardoso, de MG, é conhecido como 'porcão'.
Muitos candidatos são 'raposas políticas'.
Em toda foto de político tem um 'papagaio de pirata' querendo aparecer.
O Congresso está infestado pela máfia das 'sanguessugas'.
Heloísa Helena já foi apelidada de 'gralha nordestina'.
Mauro 'Lobo' é candidato a deputado, aqui em Minas.
Os petistas próximos ao Presidente são verdadeiros 'amigos-da-onça'.
Sarney escreveu 'Marimbondos de fogo' e entrou pra Academia.
Os projetos de interesse nacional andam a passos de 'tartaruga'.

O dinheiro das campanhas vem dos 'tubarões'.
Muitos congressistas agem como 'aves de rapina'.

A política virou 'gatunagem'.
E o eleitor paga o 'pato'!

__________________
Espero não ser processado pela Sociedade Protetora dos Animais por ofender as espécies. Muito menos pelo Ibama

18 setembro, 2006

Filosofia pura

Generated Image

Sim, sou fílósofo!

Formei-me pela Faculdade de Filosofia, a Fafich-UFMG, quando ainda funcionava na Rua Carangola. Foi lá que descobri minha vocação médica/psiquiátrica/psicanalítica.
- Como assim? perguntará o incrédulo leitor.
- Explico. Dentre as disciplinas, a gente estudava: Ética, Estética, Lógica, História da Filosofia e... Psicologia!

Na verdade, não se tratava da Psicologia dos cursos específicos, pois não discutíamos clínica nem teorias psicológicas. O que nos interessava - do ponto de vista filosófico - era a discussão acerca das funções psíquicas, teoria do conhecimento (epistemologia), dos atributos da alma (psiché) e coisas que tais.

Tinha um colega que era psicanalista. As discussões eram interessantíssimas. Comecei a ler Freud, Karen Horney e outros freudianos. Aí, deu-se o curto-circuito: que filósofo que nada, quero ser psiquiatra e psicanalista.

Formado, busquei passar em outro vestibular. Entrei na Medicina-UFMG, fiz estágios em clínicas psiquiátricas, submeti-me à análise, especializei-me em psiquiatria... enfim, uma trajetória da qual não me arrependo.

Aprendi muito. Principalmente, duas coisas:

1)
Conheça-te a ti mesmo. Aforisma inscrito na entrada do Templo de Apolo e tomada por Sócrates como norteador da vida.
2)
Mantenha o bom humor. Melanie Klein dizia: quando o paciente ri de si mesmo já está no caminho da cura.

Pois, então, vamos filosofar com humor, pois brincadeiras também nos fazem pensar.
Por isso publico um spam recebido de meu amigo João Bosco, outro filósofo.
Autor? Não sei. Fica registrado o copy&paste.

Por que o sapo não lava o pé?

Olavo de Carvalho: O sapo não lava o pé. Não lava porque não quer. Ele
mora lá na lagoa, não lava o pé porque não quer e ainda culpa o
sistema, quando a culpa é da PREGUIÇA. Este tipo de atitude é que
infesta o Brasil e o Mundo, um tipo de atitude oriundo de uma complexa
conspiração moscovita contra a livre-iniciativa e os valores humanos
da educação e da higiene!

Marx: A lavagem do pé, enquanto atividade vital do anfíbio,
encontra-se profundamente alterada no panorama capitalista. O
sapo,
obviamente um proletário, tendo que vender sua força de trabalho para
um sistema de produção baseado na detenção da propriedade privada
pelas classes dominantes, gasta em atividade produtiva alienada o
tempo que deveria ter para si próprio. Em conseqüência, a miséria
domina os campos, e o
sapo não tem acesso à própria lagoa, que em
tempos imemoriais fazia parte do sistema comum de produção.

Engels: isso mesmo.

Foucault: Em primeiro lugar, creio que deveríamos começar a análise do
poder a partir de suas extremidades menos visíveis, a partir dos
discursos médicos de saúde, por exemplo. Por que deveria o
sapo lavar
o pé? Se analisarmos os hábitos higiênicos e sanitários da Europa no
século XII, veremos que os sapos possuíam uma menor preocupação em
relação à higiene do pé - bem como de outras áreas do corpo. Somente
com a preocupação burguesa em relação às disciplinas - domesticação do
corpo do indivíduo, sem a qual o sistema capitalista jamais seria
possível - é que surge a preocupação com a lavagem do pé. Portanto,
temos o discurso da lavagem do pé como sinal sintomático da sociedade
disciplinar.

Weber: A conduta do sapo só poderá ser compreendida em termos de ação
social racional orientada por valores. A crescente racionalização e o
desencantamento do mundo provocaram, no pensamento ocidental, uma
preocupação excessiva na orientação racional com relação a fins. Eis
que, portanto, parece absurdo à maior parte das pessoas o
sapo não
lavar o pé. Entretanto, é fundamental que seja compreendido que, se o
sapo não lava o pé, é porque tal atitude encontra-se perfeitamente
coerente com seu sistema valorativo - a vida na lagoa.

Nietzsche: Um espírito astucioso e camuflado, um gosto anfíbio pela
dissimulação - herança de povos mediterrâneos, certamente - uma
incisividade de espírito ainda não encontrada nas mais ermas
redondezas de quaisquer lagoas do mundo dito civilizado. Um animal
que, livrando-se de qualquer metafísica, e que, aprimorando seu
instinto de realidade, com a dolcezza audaciosa já perdida pelo
europeu moderno, nega o ato supremo, o ato cuja negação configura a
mais nítida - e difícil - fronteira entre o
Sapo e aquele que está por
vir, o Além- do-
Sapo: a lavagem do pé.

Filmer: Podemos ver que, desde a época de Adão, os sapos têm lavado os
pés. Aliás, os seres, em geral, têm lavado os pés à beira da lagoa.
Sendo o
sapo um descendente do sapo ancestral, é legítimo, obrigatório
e salutar que ele lave seus pés todos os dias à beira do lago ou
lagoa. Caso contrário, estará incorrendo duplamente em pecado e
infração.

Locke: Em primeiro lugar, faz-se mister refutar a tese de Filmer sobre
a lavagem bíblica dos pés. Se fosse assim, eu próprio seria obrigado a
lavar meus pés na lagoa, o que, sustento, não é o caso. Cada súdito
contrata com o Soberano para proteger sua propriedade, e entendo
contido nesse ideal o conceito de liberdade. Se o
sapo não quer lavar
o pé, o Soberano não pode obrigá-lo, tampouco recriminá-lo pelo chulé.
E ainda afirmo: caso o Soberano queira, incorrendo em erro, obrigá-lo,
o
sapo possuirá legítimo direito de resistência contra esta
reconhecida injustiça e opressão.

Kant: O sapo age moralmente, pois, ao deixar de lavar seu pé, nada faz
além de agir segundo sua lei moral universal apriorística, que
prescreve atitudes consoantes com o que o sujeito cognoscente possa
querer que se torne uma ação universal.
Nota de Freud: Kant jamais lavou seus pés.

Freud: Um superego exacerbado pode ser a causa da falta de higiene do
sapo. Quando analisava o caso de Dora, há vinte anos, pude perceber
alguns dos traços deste problema. De fato, em meus numerosos estudos
posteriores, pude constatar que a aversão pela limpeza, do mesmo modo
que a obsessão por ela, podem constituir-se num desejo de autopunição.
A causa disso encontra-se, sem dúvida, na construção do superego a
partir das figuras perdidas dos pais, que antes representavam a fonte
de todo conteúdo moral do girino.

Jung: O mito do sapo do deserto, presente no imaginário semita, vem a
calhar para a compreensão do fenômeno. O inconsciente coletivo do
sapo, em outras épocas desenvolvido, guardou em sua composição mais
íntima a idéia da seca, da privação, da necessidade. Por isso, mesmo
quando colocado frente a uma lagoa, em época de abundância, o
sapo não
lava o pé.

Kierkegaard: O sapo lavando o pé ou não, o que importa é a existência.

Hegel: podemos observar na lavagem do pé a manifestação da Dialética.
Observando a História, constatamos uma evolução gradativa da
ignorância absoluta do
sapo - em relação à higiene - para uma
preocupação maior em relação a esta. Ao longo da evolução do Espírito
da História, vemos os sapos se aproximando cada vez mais das lagoas,
cada vez mais comprando esponjas e sabões. O que falta agora é, tão
somente, lavar o pé, coisa que, quando concluída, representará o fim
da História e o ápice do progresso.

Comte: O sapo deve lavar o pé, posto que a higiene é imprescindível. A
lavagem do pé deve ser submetida a procedimentos científicos universal
e atemporalmente válidos. Só assim poder-se-á obter um conhecimento
verdadeiro a respeito.

Schopenhauer: O sapo cujo pé vejo lavar é nada mais que uma
representação, um fenômeno, oriundo da ilusão fundamental que é o meu
princípio de razão, parte componente do principio individuationis, a
que a sabedoria vedanta chamou "véu de Maya". A Vontade, que o velho e
grande filósofo de Königsberg chamou de Coisa-em si, e que Platão
localizava no mundo das idéias, essa força cega que está por trás de
qualquer fenômeno, jamais poderá ser capturada por nós, seres
individuados, através do princípio da razão, conforme já demonstrado
por mim em uma série de trabalhos, entre os quais o que considero o
maior livro de filosofia já escrito no passado, no presente e no
futuro: "O mundo como vontade e representação".

Aristóteles: O [sapo] lava de acordo com sua natureza! Se imitasse,
estaria fazendo arte . Como [a arte] é digna somente do homem, é
forçoso reconhecer que o
sapo lava segundo sua natureza de sapo,
passando da potência ao ato. O
sapo que não lava o pé é o ser que não
consegue realizar [essa] transição da potência ao ato.

Platão:
Górgias: Por Zeus, Sócrates, os sapos não lavam os seus pés porque não
gostam da água!
Sócrates: Pensemos um pouco, ó Górgias. Tu assumiste, quando há pouco
dialogava com Filebo, que o
sapo é um ser vivo, correto?
Górgias: Sou forçado a admitir que sim.
Sócrates: Pois bem, e se o
sapo é um ser vivo, deve forçosamente fazer
parte de uma categoria determinada de seres vivos, posto que estes
dividem-se em categorias segundo seu modo de vida e sua forma
corporal; os cavalos são diferentes das hidras e estas dos falcões, e
assim por diante, correto?
Górgias: Sim, tu estás novamente correto.
Sócrates: A característica dos sapos é a de ser habitante da água e da
terra, pois é isso que os antigos queriam dizer quando afirmaram que
este animal era anfíbio, como, aliás, Homero e Hesíodo já nos atestam.
Tu pensas que seria possível um
sapo viver somente no deserto, tendo
ele necessidade de duas vidas por natureza,ó Górgias?
Górgias: Jamais ouvi qualquer notícia a respeito.
Sócrates: Pois isto se dá porque os sapos vivem nas lagoas, nos lagos
e nas poças, vistos que são animais, pertencem e uma categoria, e esta
categoria é dada segundo a característica dos sapos serem anfíbios.
Górgias: É verdade.
Sócrates: precisando da lagoa, ó Górgias meu caro, tu achas que seria
o
sapo insano o suficiente para não gostar de água?
Górgias: não, não, não, mil vezes não, Ó Sócrates!
Sócrates: Então somos forçados a concluir que o
sapo não lava o pé por
outro motivo, que não a repulsa à água
Górgias: de acordo

Diógenes, o Cínico: Dane-se o sapo, eu só quero tomar meu sol.

Parmênides de Eléia: Como poderia o sapo lavar os pés, ó deuses, se o
movimento não existe?

Heráclito de Éfeso: Quando o sapo lava o pé, nem ele nem o pé são mais
os mesmos, pois ambos se modificam na lavagem, devido à impermanência
das coisas.

Epicuro: O sapo deve alcançar o prazer, que é o Bem supremo, mas sem
excessos. Que lave ou não o pé, decida-se de acordo com a
circunstância. O vital é que mantenha a serenidade de espírito e fuja
da dor.

Estóicos: O sapo deve lavar seu pé de acordo com as estações do ano.
No inverno, mantenha-o sujo, que é de acordo com a natureza. No verão,
lave-o delicadamente à beira das fontes, mas sem exageros. E que pare
de comer tantas moscas, a comida só serve para o sustento do corpo.

Descartes: nada distingo na lavagem do pé senão figura, movimento e
extensão. O
sapo é nada mais que um autômato, um mecanismo. Deve lavar
seus pés para promover a autoconservação, como um relógio precisa de
corda. Diria, até: lavo o pé, logo sou.

Maquiavel: A lavagem do pé deve ser exigida sem rigor excessivo, o que
poderia causar ódio ao Príncipe, mas com força tal que traga a este o
respeito e o temor dos súditos. Luís da França, ao imperar na Itália,
atraído pela ambição dos venezianos, mal agiu ao exigir que os sapos
da Lombardia tivessem os pés cortados e os lagos tomados caso não
aquiescessem à sua vontade. Como se vê, pagou integralmente o preço de
tal crueldade, pois os sapos esquecem mais facilmente um pai
assassinado que um pé cortado e uma lagoa confiscada.

Rousseau: Os sapos nascem livres, mas em toda parte coaxam
agrilhoados; são presos, é certo, pela própria ganância dos seus
semelhantes, que impedem uns aos outros de lavarem os pés à beira da
lagoa. Somente com a alienação de cada qual de seu ramo ou touceira de
capim, e mesmo de sua própria pessoa, poder-se-á firmar um contrato
justo, no qual a liberdade do estado de natureza é substituída pela
liberdade civil.

Horkheimer e Adorno: A cultura popular diferencia-se da cultura de
massas, filha bastarda da indústria cultural. Para a primeira, a
lavagem do pé é algo ritual e sazonal, inerente ao grupamento
societário; para a segunda, a ação impetuosa da razão instrumental, em
sua irracionalidade galopante, transforma em mercadoria e modismo a
lavagem do pé, exterminando antigas tradições e obrigando os sapos a
um procedimento diário de higienização.

Gramsci: O sapo, e além dele, todos os sapos, só poderão lavar seus
pés a partir do momento em que, devido à ação dos intelectuais
orgânicos, uma consciência coletiva principiar a se desenvolver
gradativamente na classe batráquia. Consciência de sua importância e
função social no modo de produção da vida. Com a guerra de posições -
representada pela progressiva formação, através do aparato ideológico
da sociedade civil, de consensos favoráveis- serão criadas
possibilidades para uma nova hegemonia, dessa vez sob a direção das
classes anteriormente subordinadas.

Bobbio: existem três tipos de teoria sobre o sapo não lavar o pé. O
primeiro tipo aceita a não-lavagem do pé como natural, nada existindo
a reprovar nesse ato. O segundo tipo acredita que ela seja moral ou
axiologicamente errada. A terceira espécie limita-se a descrever o
fenômeno, procurando uma certa neutralidade.

Cláudio Costa: o sapo não lava os pés. Ele não tem pés, tem patas.

15 setembro, 2006

"A M A R É . . ."

Tenho visitado inúmeros blogs, com os quais aprendo, divirto-me, irrito-me, espanto-me, rio, me identifico, surpreendo-me. Ou seja: esse mundo virtual é o espelho do mundo real, onde as vicissitudes do dia-a-dia se traduzem e se metaforizam de forma multifacetada, instantaneamente.

Alguns blogs chamam a atenção pelo conteúdo lamentoso em função das frustrações amorosas vivenciadas por quem os escreve: tal como um muro das lamentações, os diários virtuais, trazem à tona a carência maior do ser humano: o desejo de ser amado incondicionalmente! Oh! missão impossível!

Comecemos pelo princípio: ao nascer, o filhote do homem é totalmente dependente, frágil, incapaz de se manter. Graças aos cuidados maternos (ou de quem se assume como cuidador), sobrevive-se. Uma relação imediata se configura: necessitado + cuidador. Ou seja: no início da vida, somos "seres da necessidade". Até aí, funcionamos como todo ser vivo, animais: a mãe/cuidador se apresenta indispensável até que, pelo próprio desenvolvimento do bebê e pelas outras atribuições do adulto, ela (mãe) se afasta lentamente... já consegue se atrasar para acudir as necessidades do recém-nascido que, por seu lado, começa a antecipar os indícios de que será atendido: o ruído de passos, a voz, o barulhinho da colher mexendo o mingau, etc. Um hiato (uma fenda, um vazio) se interpõe na díade mãe-filho, propiciando ao bebê uma experiência fundamental: clamar pelo que precisa!

O chôro, o grito, a agitação de braços e pernas, tudo passa a se configurar como linguagem que é interpretada e verbalizada pela mãe: neném tá com frio, neném tá com dor-de-ouvido, neném tá com fome!

A evocação da figura ausente e dos objetos de satisfação instauram os princípios da linguagem simbólica (símbolo = representação da "coisa", sem a "coisa"). Nasce o "desejo"!

O que, pois, inaugura a linguagem é a "falta", a "perda do objeto" de necessidade e sua substituição pelo "objeto do desejo". Muito além das funções de sobrevivência (objetos de necessidade) clamamos por uma atenção colorida de afeto. Fornecer comida, apenas, não basta, é preciso que o ato de alimentar seja atencioso, cuidadoso, amoroso! "Com açucar e com afeto", na canção do Chico Buarque.

Se, antes, a mãe era identificada ao objeto necessário aos instintos básicos (sobrevivência, alimentação, proteção contra frio, etc), agora passa a ser a benfeitora que propicia a satisfação. É quem garante a vida e o prazer (éros/libido), constituindo-se como primeiro objeto erótico/libidinal da criança. Nasce o AMOR, expressão de reciprocidade gratificante entre mãe e criança (ainda sem romantismo, invenção tardia na história da humanidade).

A experiência fundadora do amor se expande vida afora, com a saudável substituição da mãe como objeto único de amor por outros objetos a serem conquistados - um ser a quem amamos e que nos ame (resolução do "complexo de Édipo").
Entretanto, uma ILUSÃO pode permanecer: a de que haverá alguém que nos garanta a satisfação plena, o afeto total, o amor incondicional! Inconscientemente, queremos repetir o idílio da primeira infância, quando nenhum esforço tínhamos que fazer: bastava desejar e... pronto! Satisfação garantida!

Muito mais tarde vamos aprender que "o amor é conquistado": temos de perguntar sempre ao outro: "o que queres de mim"? Só assim seremos amados. Enganam-se aqueles que se julgam dignos do amor, sem nada oferecerem.

O jogo é complexo e interminável: de um lado, projetamos no outro as qualidades que o tornam digno de nosso afeto. O outro, por sua vez, tudo faz para corresponder e, às vezes, se julga realmente portador de todas aquelas qualidades. E vice-versa!
Sobre isso, Jaques Lacan retoma uma frase platônica: "Amar é dar o que não se tem a quem não sabe o que quer"... Decifre-a quem puder.

O Amor, assim, é indefinível por natureza, incomensurável (nada matemático), inconsistente, sem garantia de retorno, absolutamente assimétrico - já que cada um tem seu inconsciente e seu imaginário forjados na mais tenra idade, com experiências tão singulares quanto incomunicáveis! Só mesmo os poetas para darem conta de falar do Amor: O amor é mesmo "fogo que arde sem se ver..." (Camões); é "...ânimo dos desmaiados, arrimo dos que vão a cair, braço dos caídos, báculo e consolação de todos os desditosos" (Cervantes); "Ninguém é pobre quando ama". (Camilo Castelo Branco). "Há amores sem felicidade, mas nunca felicidade sem amor" (Jacques Lelouch) e "ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor... nada disso me aproveitaria" (S.Paulo).

13 setembro, 2006

Bizarrices

Um dos sinais de esquizofrenia é o tal de "comportamento bizarro".
Bizarrice à parte, corro ao dicionário:

Bizarro = adj. (a1595 Jorn 72) 1 que se destaca pela boa aparência ou expressão pessoal; bem-apessoado 1.1 que tem bom porte ou boa postura corporal; garboso 1.2 elegante nos gestos e nos trajes 2 que se faz notar pelo refinamento das maneiras ou pela pureza do caráter 2.1 primoroso no comportamento; gentil 2.2 dotado de magnanimidade; nobre, generoso, liberal 3 que demonstra seu valor pessoal em grandes feitos 3.1 dotado de valentia; brioso 4 p.ext. digno de admiração ou louvor; magnífico, esplêndido (diz-se de ação, comportamento etc.) 5 que se impõe ou tenta se impor perante os demais 5.1 que demonstra insolência; arrogante 5.2 jactancioso, bazofiador 6 infrm. bem-disposto física e/ou moralmente; que tem ou está com boa saúde 7 infrm. que é esquisito, estranho, excêntrico ¤ gram acp 7 consid. gal. pelos puristas, que sugeriram em seu lugar: estranho, extravagante, excêntrico, desusado ¤ gram/uso aum.irreg.: bizarraço ¤ etim esp. bizarro (sXVII) 'varonil, guapo, generoso'; a acp. 'estranho, esquisito' por infl. do fr. bizarre (sXVI) 'extravagante'; o voc. provém do it. bizarro 'furioso, fogoso', formado de bizza 'cólera, ira'. (Houaiss eletrônico).

Descubro, entre perplexo e incrédulo (construção bizarra, esta, não?) que o único significado utilizado pela Psiquiatria é a 7a. e última acepção : esquisito, estranho, excêntrico!

Não seria uma bizarrice da Psiquiatria?

Vou em frente e descubro algo mais.
- O que, diga logo.
- Digo:

Descubro que existem "esportes bizarros" e "campeonatos mundiais de esportes bizarros" e uma publicação da Guinness World Records Limited dedicada aos recordes bizarros.

Ganhei um opúsculo intitulado "Os melhores recordes mundiais de esportes bizarros" (Ediouro, 2006), vejam só. Existe coisa mais esdrúxula do que campeonato de cuspe à distância!

Alguns exemplos:

  • Campeonato Mundial de Assassinato de Mosquitos: Recorde obtido em 1995, quando Henri Pellompää (Finlândia) matou 21 mosquitos em 5 minutos. Acho que já matei muito mais em menos tempo, numa casa de praia em Guarapari.
  • Campeonato Mundial de Corrida de Galochas: Recorde de participação com 981 atletas,em 2003, na Nova Zelândia. Pois por aqui mesmo conheço um cara que bate o recorde de chatice: é um chato de galochas! (Alguém aí sabe o que é galocha?).
  • Campeonato Mundial de Corrida Carregando a Esposa nas Costas: Dois estonianos levaram 55,5 segundos para completar os 235 m da pista com obstáculo, na Finlândia, no ano de 2000. Só vale esposa acima de 49kg. E o brasileiro que carrega a família toda nas costas, ano após ano, com um salário mínimo? Isso não é recorde?
  • Campeonato Mundial de Encatamento de Minhocas... vou parar por aqui, é bizarrice demais. Um cara do Reino Unido encantou 511 minhocas em 30 minutos! Não me perguntem como...

Quanto a mim, prefiro minha bizarrice sadia: escrever um post desses, de quando em vez.

09 setembro, 2006

Parabéns!

Hoje é o aniversário de minha mãe, Aparecida, a "eterna namorada" do Soié, meu pai.
Daremos uma chegadinha a Nova Era-MG e almoçaremos juntos.
Vamos eu, Amélia, Ana Letícia e Daniel.

Para a mamma: Parabéns!!!

04 setembro, 2006

Jamie Cullum em BH

Quiseram os deuses que eu tenha sido premiado com um par de convites para o show de Jamie Cullum, hoje, no Chevrolet Hall!!!

Já me considerava "abençoado por Deus e bonito por natureza" (desconsiderem a segunda parte, please!) e o destino não me decepcionou: na quinta-feira fiz a inscrição pro sorteio via internet; na sexta-feira a Ana Letícia me liga:
- Paiê, você foi sorteado.
- Sorteado pra que, minha filha?
- Uai, pro show do Jamie Cullum!
- Beleeeeza! e pra pegar os convites?
- Tem de ir na sede do Estado de Minas até 18h de hoje.
- Nossa, minha filha, e agora? Tô aqui no consultório, não vai dar.
Daí a pouco ela telefona de novo:
- Olhaqui, pai, consegui lá que reservassem até 2a. feira.
- Tá bom! Segunda eu pego.
O diálogo não podia ser tão expansivo quanto merecia o assunto, mas é que estava atendendo um cliente, cês compreendem, né?

23:45h - O certo é que acabamos de chegar do show, Amélia e eu - claro!
O rapaz é criativo, espontâneo e muito doido - no melhor sentido da palavra. Teve a coragem de dar roupagem nova a alguns standards do jazz, sem perder a técnica refinadíssima. "Estraçalha" ao piano!

Algumas de suas músicas já tocaram em novelas globais, mas isso não lhe tira o mérito. Concordo com a jornalista Mariana Peixoto, do Caderno de Cultura do EM:

Pop ou jazz? Cullum usa o melhor dos dois mundos. No álbum de estréia, Pointless nostalgic (de 2002, que a Deckdisc, aproveitando a turnê brasileira, lança agora no país), gravou os irmãos Gershwin (It ain’t necessarily so) e Radiohead, hoje a banda mais influente da música pop (High and dry). No segundo, Twentysomething (2003), repetiu o feito, já sob a égide de uma major – a Universal, que lançou em edição nacional seus dois mais recentes CDs. Dessa vez, atacou, de um lado, com o clássico Singin’ in the rain (outra que acabou indo para o horário nobre, na trilha de Senhora do destino), e, do outro, de Jimi Hendrix (The wind cries Mary) e Jeff Buckley (Lover, you should’ve come over). Ter se tornado conhecido por meio de versões de forma alguma tira o mérito de Cullum. Como poucos, ele conseguiu dar frescor a canções bastante conhecidas. Mais do que isso, teve batuta suficiente para dar a sua versão para músicas cujas gravações anteriores pareciam definitivas.

Fiz três filminhos de 90 segundos cada, que colocarei no YouTube quando tiver tempo. Algumas fotos vou mandar pro meu álbum e depois compartilho aqui. Por enquanto, eis aqui o par de convites, muito bem aproveitados:

03 setembro, 2006

Ronaldo, contador de histórias

Ronaldo Simões Coelho é psiquiatra e escritor, ou vice-versa.
Tem mais de 40 livros publicados, o homem.

Diz ele:
- Eu tinha seis anos e falei que ia ser médico e escritor. Consegui ser as duas coisas. Engraçado: como médico psiquiatra, passo o tempo ouvindo histórias. Como escritor, conto histórias. As que eu conto são inventadas por mim. As que eu ouço são histórias de vida, tão fantásticas como qualquer ficção

Nasceu em São João d'El Rey, terra de muitos artistas e de muito casario colonial preservado, além das mais lindas igrejas dessas Minas Geraes. Aprendeu, desde cedo, a ouvir e contar casos:
- Na cidade vizinha, terra de minha mãe, todo mundo é músico e contador de histórias. Chama-se Prados e tem pouco mais de três mil habitantes. Foi ali, onde passei quase todas as minhas férias na infância e adolescência, que aprendi a ouvir casos.

Seus livros, classificados como 'literatura infanto-juvenil', na verdade são impregnados de poesia e criatividade. Agradam a qualquer leitor com humor e sensibilidade.
- Parece-me, porém, que o mais estimulante para me tornar um escritor foram os meus sete filhos. Nos últimos trinta anos venho inventando histórias para eles. E há vinte anos venho publicando essas histórias em livros, que vêm sendo lidos por milhares e milhares de crianças de todo o Brasil e até de fora dele.

Quando o conheci, ele era psiquiatra na antiga Fundação Estadual de Assistência Psiquiátrica (FEAP): médico competente e humano, dedicado, precursor da, hoje, denominada 'reforma psiquiátrica'.

Sexta-feira, encontrei o Ronaldo em uma festa de casamento. Lá estava ele todo feliz, sorridente, amabilíssimo. Relembramos algumas histórias. Falei sobre a incrível habilidade de meu pai, Soié, em contar histórias.
- Seu pai também publica livros?, perguntou.
- Não, ainda não. Ele tem um blog.
- É mesmo? Me dê logo o endereço, pois quero ler.
- Chama-se Ontem e Hoje.
- Ele mora aqui em Beagá?
- Não, mora lá em Nova Era.
- Pois então vou entrar em contato com ele. Estou interessado em histórias e casos, tradições orais que têm muito valor cultural. Um dia, combino de encontrá-lo lá em Nova Era!
E o papo continuou...

Antes do final da festa, uma pose para a posteridade!
Ronaldo Simões Coelho e Cláudio Costa

29 agosto, 2006

Cuide de sua panema

Manoel Tosta Berlinck , diretor do Laboratório de Psicopatologia Fundamental da Pontifícia Universidade Católica (PUC-São Paulo), é sociólogo e psicanalista e tem feito contribuições espetaculares no seu campo de pesquisa. Leio regularmente seus artigos.

Outro dia, navegando pelo site da revista eletrônica Psichyatry OnLine Brazil, deparei-me com um artigo que me trouxe muitos conhecimentos e quero compartilhar alguns, aqui. É claro que recomendo os textos em sua integridade, mas blog é blog, não um livro técnico. As filigranas ficam a critério dos mais interessados.

Pois bem, a primeira coisa que aprendi foi o conceito de 'panema'.
- Panema ou Ipanema?
- Vamos por partes, como dizia meu professor de álgebra.

Panema ou panemice é uma força mágica, não materializada, que à maneira do mana dos polinésios é capaz de infectar criaturas humanas, animais e objetos. Panema é, porém, um mana negativo. Não empresta força ou poder extraordinário; ao contrário, incapacita o objeto de sua ação.

Berlinck cita o livro "Santos e Visagens" , em que o antropólogo Eduardo Galvão descreve o que vem a ser essa tal de 'panema'. O sentido mais usado do termo é 'incapacidade' mais permanente, inércia, desânimo, algo que inibe o sujeito e o impede de tomar atitudes mais decididas na vida.

Já os psiquiatras identificam esse estado a um dos sintomas de depressão: a apatia, o anedonismo (incapacidade de sentir prazer). Sobre isso a gente pode conversar depois.

A 'panema' pode ser desencadeada, segundo as crenças de alguns indígenas da Amazônia, quando o indivíduo transgride uma regra tribal, uma proibição, um tabu. Cita-se o exemplo: comer peixe preparado por uma mulher grávida.

Mas a parte mais interessante disso tudo é outra associação: os efeitos da maconha no organismo.
- Como assim?, perguntariam meus interlocutores.

Sabe-se que os efeitos do tetrahidrocanabinol (THC) são, predominantemente, uma certa sedação, calma, desligamento do estresse ambiental e interior.
Quando em uso constante e imoderado, o THC leva ao desinteresse pelos estudo, pelo trabalho e, às vezes, até pelo sexo. O oposto do que produzem os 'psicoestimulantes' como a cocaína e o álcool.

Cocaína e álcool, com efeito, geram estados de desinibição e euforia, muito prazerosos. Esses estados duram pouco tempo e, caso o sujeito demore a usá-los, vem a 'depressão, a ressaca, a rebordosa'.

- Eureka! Então maconha é a droga da melancolia!

É isso que Tosta Berlinck defende em seu artigo:
Quanto à maconha, penso que seu efeito é oposto ao da cocaína ou da anfetamina, que são drogas maníacas. Neste sentido, é possível dizer que a maconha coloca o sujeito num estado melancólico.
Penso, porém, que a maconha estimula um estado esquizo, uma certa fragmentação do ego sem ser acompanhado, necessariamente, pela paranóia, que freqüentemente acompanha esses estados de fragmentação. A maconha aumenta a sensibilidade, reduz o contato com o chamado "superego" e possibilita viagem "livre-associativa".

O autor não termina aí.
Mas eu vou terminar com um outro achado:

Se 'panema' é o estado de inibição, melancolia, travamento e culpa, qual o nome do estado de liberdade, ausência de culpa?

No tupi-guarani, a partícula "i", colocada antes do adjetivo, significa "não". Portanto, "não-panema" é Ipanema!

É o que afirma Berlinck:

Ipanema seria, então, um estado sem pecado, sem proibições, como bem observou Chico Buarque ("Não há pecado do lado de baixo do Equador"). Mas, também, sem mania, acrescento. Pois a mania é a impossibilidade de reconhecer o estado de melancolia que nos afeta.

Pois então, Ipanema é nome de um dos bairros e praia mais famosos da zona sul carioca, lugar de bares, teatros, festas, "Banda de Ipanema" e da famosa "Garota de Ipanema", não é? Portanto, um lugar ideal pra afastar qualquer panema...
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(Viram o que é associação puxando associação? A gente começou lá no Amazonas e terminou na beira da praia de Ipanema!)

26 agosto, 2006

Fim das utopias?

"Você, meu amigo de fé, meu irmão, camarada (...) me lembro de todas as lutas, meu bom companheiro" são versos de Amigo, música cantada pelo Roberto Carlos. Fala de amizade, companheirismo, afetos cultivados desde a infância e presentes pela vida a fora.
Faço um recorte e destaco: "amigo de fé"!

Será que existem ainda 'amigos de fé' num mundo de tantos incrédulos?
Não me refiro, apenas, à fé religiosa, que irmana as pessoas sob a garantia de que Deus é pai de todos e, portanto, a todos ama igualmente - este é o princípio que garante a coesão de qualquer religião (vã tentativa de se evitarem as brigas, dissensos, guerras: na verdade, nada segura nossa propensão ao egoísmo, à luta pela supremacia, o temor do desprezo e da rejeição.]

A 'fé' - em qualquer coisa - é o suporte simbólico para que suportemos a incompletude inerente ao ser humano. Saber-se incompleto, faltoso, manco e mortal é uma ferida narcísica tão grande que seria insuportável viver se não tivéssemos algum recurso para mitigar nossa dor. Cairíamos no desespero - falta de esperança.

Quando falta este suporte simbólico, então caímos na descrença. Falo de muitas incredulidades: descrença na política, nos políticos, nos ideais de mudança, de mais igualdade, etc. Alguns chamam isso de 'fim das utopias'. Desesperança que enfraquece qualquer desejo de lutar. Se 'cada um tem que se virar', se vivemos numa época do 'salve-se quem puder', se perdemos a crença na fidelidade, na amizade, na honestidade, então não temos mais 'irmãos de fé, irmãos camaradas'...

Será este o mal contemporâneo?
Será possível distinguir suas causas?

O discurso da Psicanálise sobre a função paterna talvez nos dê uma pista.
Os psicanalistas compreendemos o Pai como a instância que garante a Lei. Como isso se dá? Pela castração, termo inventado por Freud para descrever a instituição de limites à onipotência do bebê - e do ser humano, por extensão.
Ao sofrer a 'barra' que impede a realização dos desejos sexuais em direção à mãe, a criança aprende que 'nem tudo é possível'. A função paterna (castração) inaugura a linguagem - uso de símbolos - saída para que não se 'passe ao ato'. Sem a palavra, o que nos resta senão o puro fazer? Sem o simbólico, resta-nos o desespero.

O declínio da função paterna se caracteriza pela ausência de referência, ou seja, a destituição de autoridade, o apagamento de valores e, o pior de tudo, a crença na onipotência.

O que vemos imperar por aí? Desigualdade social, desamparo dos mais pobres, falta de perspectiva na escalada social, privação dos bens oferecidos pelo mercado, maracutaias dos políticos, corrupção generalizada e o império do 'deus mercado'.
Tudo isso leva o homem contemporâneo a descrer de um poder maior com o qual poderia se identificar e ao qual se submeteria. Mundo sem Pai = mundo sem Lei.

A Política, então, deixa de ser um meio para se resolverem conflitos sociais, administrar a coisa pública, aparar diferenças. Não! Política é lugar de ganhos pessoais, mecanismo de se locupletar e obter vantagens corporativas e pessoais.
A descrença impera: quem aí tem paciência para ouvir propaganda eleitoral? Quem quer discutir política?

Alguém aí acredita que as propostas dos candidatos sejam, realmente, para melhorar o país?

Não há mais 'tranferência vertical', ideais a serem cultivados. Resta a 'transferência horizontal', caracterizada pela adaptação mimética aos imperativos da moda e do consumo: "se tenho o que o outro tem, se compro o que o vizinho comprou, se uso o que todos agora usam, então estou bem, estou 'por dentro', serei aceito".

As tribos se aglutinam, então, pela adesão maciça a um determinado tipo de música, pela adoção comum de objetos de consumo, pela freqüência a um restaurante especial, etc. Tudo numa ilusão de que, com isso, se estará 'completo', 'realizado', 'inteiro'.
A falta? Ora, nada me faltará se tiver dinheiro para comprar tudo que me é oferecido. Mesmo sem dinheiro, há o cartão de crédito...

Não existem mais impeditivos éticos à consecução daquilo que se almeja: rouba-se, corrompe-se, guerreia-se para que se tenha mais e mais. Quem tem, é. Quem não tem, não existe!

Assim com se fala do fim das utopias, podemos falar do fim das fantasias:

Não há mais o que fantasiar: o Mercado nos oferece tudo e a Ciência tudo promete: corpo perfeito e sarado (há quem acredite em juventude eterna); iPod capaz de armazenar 15 mil músicas (que nunca escutarei); um automóvel que faz 300km por hora (mesmo que as estradas sejam esburacadas e as placas proíbam velocidade acima de 80km)...
O importante é gozar, não importa como: pode ser pelas drogas, pela violência, pelo excesso.

A morte? Ora, a morte! Como dizem alguns jovens ('meninos do tráfico') marginais ou marginalizados: "Se eu morrer, que é que tem? A vida não vale a pena!"

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Por falar em pai, tenho orgulho de recomendar o Ontem e Hoje do meu pai, Soié. Tem post novo: Aprendi com meu pai.

22 agosto, 2006

Resiliência

Li que foi feita uma pesquisa acerca de "famílias de risco" para transtornos de conduta.
Entenda-se por "risco":
  • situação econômica precária;
  • um dos pais, ou ambos, desempregados;
  • ambiente familiar desestruturado;
  • pais separados ou com relacionamento hostil;
  • presença de pais usuários de drogas (lícitas ou ilícitas);
  • atitudes violentas, etc.

A pergunta era: nas famílias de risco há maior probabilidade de que pelo menos um dos filhos se torne marginal, criminoso, participante de gangue, usuário de drogas - uma dessas desgraças ou todas juntas?

Alguns achados surpreenderam:
Às vezes, por mais desestruturadas que fossem as relações familiares, uma criança poderia 'escolher' ser diferente: não repetir a desordem, a violência, o esgarçamento da lei. Crianças assim, mobilizados por forças internas, se engajariam em programas de cidadania, buscariam estudar e alcançariam um crescimento inusual comparado com seus pares.

A Psicologia denomina resiliência à capacidade de resistir aos fatores ambientais, familiares e relacionais adversos ao desenvolvimento de uma personalidade sadia.
O termo tem origem na Física: capacidade de certos corpos de retornarem à forma original após terem sofrido deformaões elásticas. Em Medicina, explica a resistência de algumas pessoas frente a infecções, por exemplo.

[ O dicionário Houaiss define bem: Resiliência: s.f. 1 fís propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação elástica 2 fig. capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças ¤ etim ing.
resilience (1824) 'elasticidade; capacidade rápida de recuperação' ]

Alguns fatores favorecem a resiliência em jovens submetidos a "condições familiares de risco", tais como a participação em programas de inclusão social proporcionados pelo poder público (escolas integrais) ou por empresas com "responsabilidade social" (inclusão digital, grupos de dança, arte, esportes, religiosos, etc;

Saliento, entretanto, uma constatação no mínimo curiosa:
  • o hábito de a família toda tomar junta uma refeição pelo menos uma vez ao dia era um diferencial significativo para diminuir os riscos de marginalidade!

Mesmo sendo o ambiente tumultuado, o encontro em torno da mesa de jantar se constitui como ocasião de discussões, acertos, programações, combinações, cobranças, manifestações de afetividade, etc. E esse encontro, segundo a pesquisa, aumentava a resiliência.

No mesmo sentido, leio no EM de sábado passado (Caderno Pensar, disponível online só para assinantes) um artigo da psicanalista Inês Lemos, no qual ela tece considerações sobre a descrença atual nas utopias que pregavam a liberdade e o progresso social.

Fala de seus tempos de estudante de Filosofia e relembra:
Ao som de Joan Baez, sonhávamos e acreditávamos nas músicas e nos livros! E como líamos! Marcuse, Sartre, Camus, Althusser, Foucault. Os franceses sempre nos seduziam. O Collège de France,por exemplo, era um paradigma, um ideal de cultura e estudo a ser perseguido.

Do artigo de Inês, coloco aqui os primeiros parágrafos, pois foram eles que despertaram em mim as associações que iniciam meu post de hoje:

Na mesa falta o pai.
A mãe às vezes vem, às vezes. E a criança, na solidão imposta pelo mundo moderno, prossegue sua jornada agonística.

Em outros tempos, a mesa era lugar para puxar prosa, resolver conflitos, deixar as palavras caírem e, com elas, traçar itinerários, viagens – para dentro e para fora. Porém, agora, as mesas servem mais para computadores serem instalados.

As refeições, essas podem ser feitas rapidamente no self-service da esquina, ou no sofá em frente à TV.

Mas devemos voltar ao tempo das mesas, mesmo que modestas, mas intensas de conversas e afeto. Naquela época, a comida era desculpa para reverenciar a vida. Apetite, todos tinham, e muito! Não se usava fluoxetina. Tudo parecia mais manso, sereno, e a bebida servia ao congraçamento. Era lá, “em torno da mesa larga, largavam as tristes dietas, esqueciam seus fricotes, e tudo era farra honesta acabando em confidência”. A mesa de Drummond – que, em seus versos, homenageia a vida – agora se ressente da falta de gente para comer, juntos, a confiança e a crença no mundo.

(...)
Educar virou sinônimo de dinheiro,
toda a gente deve estudar,
para rico logo ficar.
E o menino cresce sem ídolos admirar.
O mito moderno é o que aparece na televisão,
sem erudição.
Que decepção!
Ela é cheia de frustração,
essa vida de desmoralização.

Tudo a ver com resiliência.

20 agosto, 2006

Você conhece William Moreira?

Carlos Perktold é psicanalista e advogado, dublê profissional que trabalha com as palavras. Foi meu aluno na PUC-MG, onde cursou Psicologia. A importância desta última informação é constatar que, mais uma vez, um bom aluno supera o mestre!

Encontramo-nos, há pouco, em um evento do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, conforme atesta nossa foto.

O Carlos, além de desenvolver as atividades jurídicas e psicanalíticas, é pesquisador na área de História e um colecionador de obras de arte. Entende das coisas, o homem.


Escreveu Ensaios de Pintura e Psicanálise, leitura para admiradores, críticos e para quem quer conhecer os meandros inconscientes da criação artística.

Publicou, também, Caixa de Ferramentas, coletânea de crônicas e contos, dentre os quais destaco O Perverso. Corra para ler, aqui.

Foi ele quem descreveu a Síndrome de William Moreira:

Todo portador desse sintoma tem uma singularidade: entende apenas o que ouve e não o que lê. Tiago, por exemplo, reclamava de um erro no computador e recebeu instruções escritas para corrigi-lo. Não conseguiu entender o que leu. Depois de ouvir a leitura do que estava escrito disse: "Ah, é isso? Não tem problema, faço agora".

O sintoma William Moreira parece, mas não é, oligofrenia. Também não é analfabetismo funcional, porque não se manifesta apenas em pessoas com baixa escolaridade. Não é, enfim, uma doença catalogável. É, sim, um fenômeno intelectual de um tempo em que o texto praticamente sucumbiu ao recurso visual e, principalmente, à imagem da televisão. O batismo do sintoma vem, assim, do cruzamento dos nomes dos dois mais conhecidos locutores-apresentadores de televisão: William, de William Bonner, e Moreira, de Cid Moreira.


A causa é a falta de leitura!
Muitas pessoas não aprenderam a ler na escola, mesmo que tenham diploma de curso superior. Desconhecem o hábito da leitura. Aprendem de orelhada. Têm informação, mas não têm conhecimento. Ouvem falar disso e daquilo, passeiam os olhos nas manchetes de jornal, apreendem um fiapo de ciência no Globo Reporter, participam da política como carneirinhos conduzidos pelos locutores de telejornais e... é só.
Alguns dominam sua área de trabalho e podem ser bem sucedidos. Mas não lhes peça para fundamentar argumentos, pois raciocinam com a profundidade de um pires. Aqui em Minas a gente diz: "ouvem o galo cantar e não sabem onde". Abusam dos clichês, dos lugares comuns e das generalizações. Gostam mesmo é de divertimento e muito barulho. Quanto mais barulho, menos pensamento. Pior, sem conhecimento de causa, costumam ter convicções e certezas. Com essa gente não adianta discutir.


Para que você não seja um desses, leia O Sintoma William Moreira e, depois, uma ótima entrevista com o Autor.

Existe remédio: leitura, leitura, leitura.

Agora me responda:
- Você conhece William Moreira?
- Ou estou falando com o próprio?

18 agosto, 2006

Remédio Caseiro

Alguém conhece piada "politicamente correta"? Gozam-se as louras, criticam-se os puritanos, ridiculariza-se o padre, o pastor e o presidente. Piada com termos chulos, machistas, indecentes, tudo isso rola, não é?
Então. Está calminho(a)?
Dito isso, aqui vai:

Remédio caseiro

Gente Boa vai fazer exames de rotina e o médico, depois de ouvir sua história clínica, dá início ao diálogo:

Fuma?

- Pouco, Dr.

- Você tem que parar de fumar.

- Bebe?

- Pouco, Dr.

- Você tem que parar de beber.

Sexo?

- Pouco, Dr.

- Você tem que fazer muito sexo, pois irá lhe ajudar.

Gente Boa toma o rumo de casa, conta para a mulher o que o médico lhe receitou e, imediatamente, entra no chuveiro.

A mulher, esperançosa, enfeita-se, perfuma-se, põe seu melhor baby-doll e fica na espera.
Ele sai do banho, começa a vestir-se, a perfumar-se e a mulher, surpresa, pergunta-lhe:
- Onde você vai?
- Você não ouviu o que o médico me disse?
- Sim, mas aqui estou eu prontinha para você.
Então ele lhe diz:
- Ah, Lourdes, lá vem você de novo com essa mania de remédio caseiro!

15 agosto, 2006

La marche de l'Empereur

Hoje é feriado municipal em Belo Horizonte, em homenagem à padroeira da cidade, N.S. da Conceição - aqui chamada, também, de N.S. da Boa Viagem.

Espremido entre uma segunda e uma quarta-feira - sem que fosse possível "enforcar" a segunda, resolvi passar na locadora. Atendi à sugestão de um amigo e trouxe "A marcha dos Pingüins".
Trata-se de um documentário com toques de ficção, pois humaniza o esforço instintivo dos pingüins da espécie "Imperador", no esforço em preservar a espécie.

Os danadinhos dos bichos fazem um percurso de várias semanas para longe do mar, em busca de local seguro para o acasalamento. As fêmeas ainda voltam ao oceano para se reabastecerem de alimentos e retornam em busca dos filhotes. Há tempestades de neve e perigosos predadores. Foram 4 anos de filmagem em paisagens lindíssimas, desconhecidas, geladas.

A humanização do documentário, para alguns, tira a seriedade do projeto. Para mim, trouxe reflexões a respeito do valor da vida e de como a natureza é sábia.

Vale a pena ver.


Diretor: Luc Jacquet
Elenco:
(documentário)
Nome Original:
La Marche de l´Empereur
Ano:
2005
País:
EUA/FRA
Duração:
85 minutos
Site
Oficial

13 agosto, 2006

São demais os perigos dessa vida...

Se Guimarães Rosa perguntava "viver não é muito perigoso?", eu concordo e acrescento: vida de consumidor também é!

As armadilhas lembram um verso do Vinicius: "são demais os perigos dessa vida". Sei que ele continua: "pra quem tem paixão". Ou
pra quem quer comprar, digo eu.

Os anúncios de jornais e revistas, as letrinhas miúdas dos contratos, as pseudo-liquidações e promessas mirabolantes dos cosméticos ("elimine a calvície em três aplicações de nosso produto"; "elimine a barriga em duas semanas usando o Total Shape"; "seja feliz para sempre tomando nosso antidepressivo") só pretendem enganar os incautos para vender mais. O lucro é o que importa. Mais do que a saúde.

Hoje me deparei com uma série de faixas próximas a um restaurante classe A:
"Oferta: rodízio a R$ 19,90!".
Pensei com meus borbotões - ou botões:
- Uai, o preço diminuiu logo hoje, dia dos Pais? Será um presente?

As filas na porta quase me confirmam isso, reduzi a marcha e pude ler: "apenas após 18h, de segunda a sexta".

Tocamos pra frente, rumo ao local previamente escolhido pro almoço de domingo. No cardápio, o preço da salada completa indicava R$ 11,90. Ao fazer o pedido, sou advertido pelo garçom:

- Hoje não servimos salada, só no buffet montado ali, a R$ 9,90 por pessoa! E se quiserem comer apenas salada, são R$ 16,90 por pessoa!!!

Como éramos quatro, fiz mentalmente a conta e disse - com delicadeza:

- Ah! e você acha isso certo?

O cara sorriu amarelo, falou com o 'gerente' e voltou:

- Tudo bem, vamos servi-los conforme seu pedido.

Pois é, quase nos dão um golpe!

________________________

Ser pai também é ensinar aos filhos que o bom consumidor é o consumidor consciente. Principalmente hoje, NOSSO dia!

10 agosto, 2006

Sopa ou salada?

Até um deputado banana consegue um assessor que aceita ser laranja. Recebe o tutu, sem mesmo corar as maçãs de seu rosto. O povo que pague o pato: que vá às favas! Além do mais, tem de aturar propaganda política, osso duro de roer. Candidatos falam batatas, prometem pão, prometem circo. Tudo farinha do mesmo saco. Difícil escolher.

Aécio e Alckmin reprisam a política do café-com-leite, puxando a sardinha pro PSDB. Dão entrevistas, pomposos, mas se questionados, enchem linguiça, inventam firulas, como quiabo escorregam, inventam mentiras rocambolescas e gato por lebre nos querem vender. Douram a pílula, mas o que se vê é picolé de chuchu. Ou lula requentada, por que não? O certo é que essa política está um angu-de-caroço, intragável! Embananam tudo, fazem marmeladas, atolam o pé na jaca e, ao final, nos servem pizza! É um prato muito indigesto, ora pois!

A moça da TV tem lábios de mel. É mesmo uma uva e com olhos de amêndoa oferece produtos a cada intervalo. Pipocam ofertas e logo compramos. Depois, o que resta? Um tremendo abacaxi: pagar as contas do cartão de crédito, não é? O operário, coitado, come o pão que o diabo amassou. Do salário não sobra sequer um tostão. Se não pagar: cana!

E eu por aqui, queimando o tutano. Não tenho recurso senão inventar: misturo as palavras, invento bobagens, não sei se é salada ou sopa de letras.

Primavera antecipada


Ipê com bem-te-vi, originally uploaded by ClaudioCosta.

O veranico decretou o fim da estação e a primavera rompeu a gaiola do tempo.
Uma barreira de ar seco bloqueou o vento sul e toda a natureza se desnorteu.
Para o mal
E para o bem

As aves que aqui gorgeiam
fazem onomatopéias várias
Uma, porém, me denuncia:
Bem-te-vi! Bem-te-vi!

Se o poeta é manco e claudica
O fotógrafo rápido engatilha
E num clic aprisiona
Árvore Flor Bem-te-vi

Deixa livre, entretanto,
Árvore, flor, passarim.