07 setembro, 2008

Amar é...

Se há um tema recorrente em toda a literatura, este é o Amor. Com A maiúsculo ou a minúsculo, com sentido sublime ou carnal, o Amor é cantado em prosa e verso. Além de inspirar poetas, dramaturgos, artistas de toda espécie, o sentimento amoroso desafia um entendimento racional e é impossível de ser tabulado, medido, previsto, quantificado, etc.

Mais recentemente, cientistas alardeiam ter encontrado uma área cerebral responsável pelo amor: sítios neurológicos que "captam" mais dopamina e desencadeiam sensações de prazer quando alguém se depara com o objeto amado (a palavra objeto, aqui, não tem nenhum significado pejorativo, coisificante).

Os poetas hão de desdenhar a apropriação biologicista de sentimento tão universal quanto inexplicável. Dirão - com razão - que "amor não é pulsão sexual".

Os filósofos se definem como "amantes" da sabedoria, pois se entem inspirados pelo "amor ao conhecimento"!

O Dicionário Larousse de Psicanálise (Dictionnaire de la Psychanalyse - reférences Larousse) assim definiu o Amor: "sentimento de afeição de um ser por outro, às vezes profundo, violento mesmo, mas sobre o qual a análise mostra que pode estar marcado pela ambivalência e, sobretudo, que não exclui o narcisismo". Ufa! Nada simples: sentimentos quase antagônicos se misturam no que seria o amor: afeição, violência, ambivalência, narcisismo - poderíamos acrescentar: ilusão, imaginário, projeção, sentimento de posse, ciúmes, ódio, medo, sexualidade e um longuíssimo etcoetera!

"Amor e ódio são as duas faces de uma mesma moeda", já ouvi em algum lugar. Por isso se diz que "o contrário do amor não é o ódio - como parece - mas a indiferença".
Quantas vezes escutei, na clínica, os lamentos de gente recém-saída de um relacionamento amoroso:
-"O pior, doutor, é que nem se passaram duas semanas e ele já arrumou alguém! Eu, aqui, sofrendo. Como posso acreditar que em nossa relação teve amor? Se ele gostasse mesmo de mim, não arrumaria outra pessoa tão rapidamente! Isso mostra que eu não significava nada!" A dor está aí: nada significar para o outro, ser-lhe indiferente.

Ou então:
-"Após a separação eu estava ótimo, já me acostumando com a vida de solteiro, dando minhas saídas. Mas outro dia, num restaurante, eu a vi acompanhada e meu mundo desabou!" Constata-se que é substituível. Oh dor!

Por mais dicionários que se utilizem, pouco saberemos do Amor. Usa-se o A maiúsculo para indicar que essa experiência quase inefável seja um "deus". Nas religiões, principalmente no Novo Testamento, há uma definição de Deus: "Deus é amor". Lembro-me de meus tempos de Colégio do Caraça, onde as Semanas Santas eram comemoradas ainda de acordo com a liturgia romana em latim: Ubi amor est, Deus ibi est: onde existe amor, Deus aí está. Cantávamos em gregoriano...

Só mesmo poetas descobrem palavras para falar do amor. Para quem não experimentou este sentimento, tudo parece ridículo. Dizem: "amantes são ridículos".

O amor não se explica, vive-se. Quem está de fora jamais poderá compreender como se formou este ou aquele casal.
Outro dia, escutei:
-"Não sei o que fulano viu naquela garota tão sem graça."
Ainda:
-"Como pode uma menina tão feiinha arrumar um cara tão gato?"

Geralmente, após uma ruptura ou durante um relacionamento tumultuado por brigas e até maus tratos, a "vítima" se lamenta:
-"Não sei porque, mas não consigo me livrar daquele cafajeste!"
-"Por mais que eu tente, não me esqueço daquela vagabunda!"

Nosso inconsciente não têm explicação racional, visível. Algo foge de nosso controle e somos apanhados por um objeto que desperta nosso desejo. Quantas fantasias embalam o sentimento amoroso e edulcoram o objeto amado! Fantasias necessárias, saudáveis, deliciosas. Explicações não são mesmo necessárias. Quanto as encontramos, descobrimos logo que são insuficientes. Melhor mesmo é amar e pronto!

Não há como negar a propriedade do psicanalista francês, Jaques Lacan, quando assim define o amor:

-"Amar é dar o que não se tem a quem não sabe o que quer."

E você, discorda?

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Republicado com os comentários anteriores.

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