A polêmica não é nova. Kant e Benjamin Constant travaram um debate sobre o direito de mentir por razões humanitárias, em pleno furacão do iluminismo. Do debate entre os dois, defensores com o mesmo fervor do credo universalista da razão, somadas as contribuições de Rousseau e Schopenhauer, nasceu uma corrente rica de reflexão sobre direito, ética e moralidade. Kant era radical em seu imperativo moral: em absolutamente todas as situações deve-se falar a verdade. Já Constant, acreditava que por razões, como as filantrópicas, é possível se pensar em um certo direito de mentir. Kant achava que garantir estatuto de racionalidade à mentira era abandonar a civilização em nome da barbárie. Constant apelava para outros valores de civilização para entender a emergência da mentira, em alguns casos, como imperativo de outra forma de justiça.
O que escapa a esse debate hoje é o nível dos debatedores e das verdades e mentiras em jogo. Os filósofos do esclarecimento falavam de um homem reto e de um jogo público afeito às regras e aos contratos. Hoje, nosso horizonte de falsidade foge a todas as regras. O filósofo da mentira é Roberto Jefferson, capaz de se portar como arauto da verdade, apenas porque afirma, com requintes de detalhes, que sua mentira é mais honesta pelo fato de apresentar de forma deslavada.
O resultado social do que a sociedade brasileira vem acompanhando é grave. O desmonte da moralidade da política parece dar operacionalidade à alienação que sempre rondou uma sociedade patrimonialista como a nossa. Num terreno em que os valores públicos se desmancham nas mãos indecentes e concupiscentes dos novos heróis da amoralidade, a credibilidade das instituições vaza pelo ralo. Para quem achava “que todo político é ladrão”, a situação presente não instiga à revolta, mas ao abandono. Como num jogo do já sabido, a corrupção é dada uma variável humana da qual, no máximo, só se pode querer distância."











