12 abril, 2006

Pirataria? Atire a primeira pedra...

Olhaí a notícia do portal Uai, dagorinha mesmo:
Uma pesquisa divulgada, nesta quarta-feira, revela que 84% dos belo-horizontinos já compraram ou compram com frequência produtos pirateados.

De acordo com o estudo, realizado pelo Ibope em todo o país, o valor ultrapassa o de estados como o Rio de Janeiro, onde 78% da população reconheceu adquirir produtos falsificados, e São Paulo, onde o índice chega a 69% dos entrevistados.

Metade dos entrevistados revelou que costuma comprar CDs, DVDs, roupas e brinquedos no comércio clandestino. Os números preocupam empresários e o governo pelos prejuízos que provocam. Dos que assumiram adquirir tais produtos, 67% afirmaram saber diferenciar a cópia do produto original, o que piora ainda mais a situação.
A pirataria, aqui, é oficial. De verdade:

A Prefeitura de BH conseguiu uma proeza e tanto: retirou da rua quase todos os camelôs - conhecidos entre nós como "toreros" - os ambulantes que se especializaram em se esquivar os ataques dos fiscais, tal como fazem os toreadores de Madrid. (Música de fundo: A habanera, da ópera Carmen, de Bizet).

Eu seu site oficial, o Prefeito Pimentel (PT-MG) conta vantagem:


Pimentel afirmou ver satisfação nos camelôs do Shopping Oiapoque em trabalhar de forma legal e segura. Disse ainda que a retirada dos ambulantes da área central foi responsável pelo registro profissional de muitos deles.

O preço foi a criação de alguns shoppings populares, eufemismo para conjunto de lojas especializadas em vender produtos contrabandeados, pirateados, etc.

Há alguns meses, escrevi um post sobre o mais famoso deles, o famoso Shopping Oiapoque, carinhosamente chamado de Shopping Oi (clique aqui para ver o site oficial do empreendimento). Leia aqui: Do Sahara ao Oiapoque...

Tenho um conhecido que é dono de algumas lojas legalizadas - paga impostos, alvarás, só compra com nota fiscal, etc. - e que possui, igualmente, lojas em shoppings populares. Explica:

- Tenho de fazer concorrência comigo mesmo, para não perder venda. Nas minhas lojas tradicionais, o preço é normal, pois repasso os impostos ao consumidor. Nos populares, vendo os mesmos produtos muito mais barato, pois compro no mercado paralelo, não dou nota fiscal, não aceito cheque, só dinheiro vivo. E mais: estou tendo mais lucro com o produto genérico (outro eufemismo) do que com o original.

Alguns produtos - acredito - são quase impossíveis de falsificar: câmeras fotográficas, por exemplo. E os preços, realmente, são convidativos. Há DVDs, CDs de MP3, roupas, bonés, perfumes (estes são falsificadíssimos!).

Não vou dizer, aqui, que já comprei algo por lá. Não, isso não vou dizer. Não digo mesmo. (E não tenho caseiro pra me dedurar...).

E você?
Atire a primeira pedra...

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Em tempo: mais uma do Soié, que acaba de postar Porco ou suíno?

10 abril, 2006

Decálogo (F)útil, com Leis (F)úteis, mais do que (In)úteis

1. Lei de Peer: A solução do problema muda o problema.

2. Fundamento de Lyall: A perna mais importante de uma mesa de três pernas é aquela que está faltando.

3. Pronunciamento de Gerrold: A diferença entre um político e uma lesma é que a lesma deixa um rastro gosmento.

4. Primeiro postulado do isomurfismo: As coisas que não são iguais a coisa nenhuma são iguais entre si.

5. Postulado de Harrison: Para cada ação existe uma crítica igual e no sentido contrário.

6. Lei da retroação de Stewart: É mais fácil conseguir o perdão que a permissão.

7. Observação de Horngreen: O mundo real é uma excessão.


8. Postulado de um filósofo ignoto: Nunca atribua à malicia aquilo que pode ser explicado aceitavelmente pela estupidez.

9. Lei de Shirley:
A maioria das pessoas se merecem.

10: Aforisma do Cláudio, ou seja, meu mesmo (até prova em contrário):
Um blog é um blog é um blog.

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Mais do mesmo:
Procure aqui e ache.

09 abril, 2006

O futuro é a morte


Os temas violência, criança abandonada, ausência do Estado, falta de Educação, miséria se entrelaçam e provocam intelectuais, sociólogos e políticos a buscarem causalidades e apontarem soluções. Por outro lado, o senso comum – entidade abstrata e intangível, porém prevalente – aponta o dispositivo policial como melhor remédio: “são os traficantes; é preciso acabar com o tráfico; isso é coisa de bandido”...
[leia a íntegra deste post no Bombordo]


05 abril, 2006

Crianças também sentem dor


Hoje será lançado, no Salão Nobre da Faculdade de Medicina da U.F.M.G. o livro "Dor em Pediatria" [Editora Guanabara-Koogan], dos colegas Yerkes Pereira da Silva e Josefino Fagundes da Silva.

A convite dos atores, escrevi o capítulo "Aspectos Psiquiátricos e Psicológicos da Dor Infantil", o que não deixa de ser uma honra e uma grande responsabilidade, pois se trata de obra de referência para pediatras e para todo o staff que se dedica a cuidar de crianças que padecem de dor.

Um resumo do meu capítulo:

Por muito tempo, a concepção que se tinha da infância relegou as crianças a um lugar secundário nas considerações sobre suas capacidades sensoriais, emocionais e expressivas.

Com efeito, a etimologia do termo ‘infância’ nos remete a uma impossibilidade: o não-falar. A palavra se origina do latim: infantia-ae, que significa 'dificuldade ou incapacidade de falar, mudez; infância, meninice'.

Realmente, se já é difícil medir a intensidade da dor no adulto, tanto mais será nos recém nascidos. Nestes, costuma-se até ignora-la...

Se não tem voz, não reclama. Se não reclama, é porque não sente. Este pensamento, embora não expresso de forma tão explícita, permeava a compreensão que se tinha a respeito das capacidades das crianças, principalmente dos recém-nascidos e dos bebês, às vezes se estendendo até mais ou menos a idade de 3 anos.

O choro foi a primeira manifestação reconhecida como expressão dolorosa presente desde o nascimento, apesar de que os procedimentos e cuidados com o recém nascido, de maneira geral, neguem essa evidência.

A compreensão e a escuta do que “falam” os infantes se concretizam, principalmente, a partir dos estudos de observação de bebês desenvolvidos por psicanalistas, desde Sigmund Freud: Anna Freud, Melanie Klein, Donald Winnicott, John Bowlby, Esther Bick.

A capacidade de experimentar prazer e desprazer (dor) faz parte do arsenal de sobrevivência de todo ser vivo e já se manifesta desde o nascimento.

O choro, mais do que reação indiferenciada, já teria uma função de ‘comunicação’ sobre estados dolorosos. As pesquisas de Lester & Boukydis demonstraram que o choro de dor pode ser diferenciado daqueles provocados por outros tipos de situações, o que proporciona o uso da resposta de choro como medida da intensidade dolorosa e como evidência de que recém-nascidos experienciam dor.

Por um viés neurofisiológico, vislumbra-se a precoce constituição da subjetividade do ser humano, deduzida de suas manifestações de júbilo diante do prazer e de sofrimento diante da dor. Não se trata de atribuir intencionalidade aos recém-nascidos que choram durante os procedimentos perinatais. O que se comprova é a sofisticada capacidade sensoperceptual desenvolvida desde o período pré-natal e os recursos utilizados pelo recém-nascido para ‘comunicar’ o que se passa. Isso é extremamente necessário para um organismo altricial (dependente de cuidados parentais para sua sobrevivência, em oposição aos organismos precoces, que apresentam grande autonomia logo após o nascimento). Como a sobrevivência do filhote de homem depende totalmente de cuidados, os seres humanos já nascem equipados para interações funcionais com o ambiente e cuidadores. A diversidade de manifestações diante de cada situação vivida ultrapassa os simples reflexos.

Os sinais de sofrimento emitidos pelos bebês e crianças pequenas diante da vivência dolorosa (orgânica ou emocional) dependem, portanto, do grau de desenvolvimento neuro-psicomotor e cognitivo. Existem várias escalas para que se avalie a intensidade de dor sofrida pelo bebê e pela criança.

Nas fases iniciais da vida, por excelência, é impossível a distinção entre dor física e sofrimento emocional, entre somático e psíquico. (Nos adultos também essa dicotomia é insustentável, como demonstra a Medicina Psicossomática). “Em relação ao bebê, as dificuldades são muito grandes, uma vez que, ao se apresentar como um ser sensório motor, a sintomatologia observada prende-se, na maioria das vezes, eminentemente na avaliação reflexa que, embora importante na detecção das grandes síndromes neurológicas e psiquiátricas, é pouco sensível na suspeita de quadros psiquiátricos que comprometem freqüentemente o padrão interacional e lingüístico do indivíduo afetado, refletindo a possibilidade adaptativa desse indivíduo”.

É muito importante considerar que a percepção dolorosa e a intensidade da dor não dependem unicamente do sistema nociceptivo. Ou seja, não basta a existência dos terminais sensoriais e a transmissão ao cérebro de informações sobre a presença e qualidade dos estímulos dolorosos ou agressivos, já que a experiência da dor é simultaneamente física e psíquica.

As respostas são tanto comportamentais quanto fisiológicas, tais como choro, enrijecimento, expressão facial típica, sudorese e taquicardia. [Veja aqui fotos de bebês e sua expressão de dor.]

Assim, um bebê em sofrimento expressará qualquer desconforto através de sintomas biopsicológicos: a dor desencadeará mal-estar, irritabilidade, inquietação, distúrbios do apetite e do sono, além da intensificação do comportamento do apego (protesto, desespero e indiferença). Comportamentos regressivos se tornam presentes, na forma de perda de funções já adquiridas (enurese, encoprese, sucção dos dedos, etc). A cronificação do quadro leva à passividade, desânimo, sentimentos de impotência, marasmo e agravamento dos sintomas físicos.

O comportamento da criança diante da dor está intimamente relacionado com outras variáveis, além da causalidade física, tamanho e localização das lesões, etc. Trata-se de uma experiência subjetiva, como o é no adulto.

Assim, por exemplo, um trauma físico durante um jogo ou atividade prazerosa, com certeza, será minimizado. Vejamos a seguinte situação: um menino se fere com certa gravidade durante uma partida de futebol e, após os cuidados dos pais ou colegas, volta a jogar. Numa situação muito menos grave, porém, como um simples arranhão, a mesma criança poderá expressar intenso sofrimento, queixar-se de dor insuportável, chorar e interromper a atividade (desde que não seja tão agradável). A paradoxal discrepância na reação a estímulos tão diversos confirma a pluralidade de variáveis envolvidas na percepção e valoração da dor.

Você sabia...
que estamos na Década contra a Dor e
que existe um Dia Mundial contra a Dor Infantil ?

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01 abril, 2006

Meu pai, Soié, escreveu hoje como foi a "Lua de Mel" dele e de minha mãe, em 1948, no Grande Hotel de Araxá.
Meu queixo caiu! O link é este mesmo.

28 março, 2006

Lembrete ao Guido Mantega

Toma posse, hoje, o novo Ministro da Fazenda, Guido Mantega. Entre outras providências, Sr. Ministro, que tal desonerar também os medicamentos?

Se não por humanidade, por isonomia: acontece que seu predecessor "desonerou" os investidores estrangeiros, poupando-os de pagar CPMF e impostos quando "investirem" na Bolsa, aqui no Brasil. Eles podem ganhar dinheiro sem produzir, né? Se algum outro país oferecer condições melhores, não hesitarão de retirar as verdinhas. Migram como gafanhotos: onde tem pastagem, lá estão eles, até esgostarem a última folha verde, o último grão.

E então? Continuaremos a pagar os 35% de imposto sobre medicamentos?

De qualquer forma, quem sabe o Ministério da fazenda poderia divulgar este meu recado de utilidade pública, dando dicas de como economizar? É só preferir outros "bens" ao invés de ficarmos comprando remédio...

"Economize, irmão, economize!"

Olhaí a nota publicada no Estado de Minas de sábado passado:

O consumidor paga R$ 35 de imposto em cada R$ 100 desembolsados com remédios nas drogarias brasileiras. A conclusão é de estudo feito pelo Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT)."

Continua a notícia:

O levantamento mostrou que a tributação sobre os medicamentos no Brasil é a mais alta do mundo. Em outros países, como os Estados Unidos, a taxação é de 5%; no Canadá de 7%; no México, 15% e na Alemanha e Espanha, 16%. Se for comparar a carga tributária incidente no preço final dos medicamentos com outros produtos essenciais à população, principalmente itens da cesta básica e insumos agrícolas, a tributação nos remédios surpreende, segundo Gilberto Luiz do Amaral, presidente do IBPT.

“A carga tributária é tão desigual que há a ironia no mercado que diz que a pessoa que entra mugindo em uma farmácia gasta menos do que tossindo. É uma incoerência de política pública”, afirma Amaral. Segundo o estudo, os medicamentos veterinários pagam 14,3% menos tributo do que os humanos."


Pois então: a dica de economia é a seguinte:


  1. não vá ao médico: vá ao veterinário;
  2. não vá à farmácia: vá a uma drogaria veterinária;
  3. não compre remédio: compre um iate, arroz & feijão, ração pra cachorro. Compre até mesmo um avião!
  4. não diga ao balconista da sua drogaria que o remédio é para você. Jure, de pé junto, que aquele remedinho pro estômago é pro seu gatinho ou pro seu papagaio;
  5. mas o melhor mesmo é: não adoeça nunca!

Ao final de um ano você verá a economia conseguida.

É ou não é uma boa dica de economia?

Ah! não se esqueça de me enviar 20% da economia que você fizer: afinal, eu não sou veterinário, mas também não sou bobo!

25 março, 2006

S.A.B. Síndrome de Abstinência Blogueira

1 - O Smart fechou seu Smart Shade of Blue. Mais do que imperdível, seu blog é necessário!

Agora está meio que sofrendo de umas coceirinhas nos dedos. Sua mente, que parecia lúcida, só pensa naquilo. Ou seja: anda pela casa tendo mil idéias e murmurando: "isso dá um belo post". Vê notícias na TV e a obsessão aferroa-lhe a alma: "vou fazer um post sobre essa manchete". Ao passear pelas margens do Lago Sul ou descobrir mais uma fofoca na côrte federal, suas entranhas exigem: "faça um post! faça um post!"

2 - O Idelber fechou seu Biscoito Fino e a Massa. Mais do que imperdível, seu blog é necessário!

Deve ter passado pelos mesmos sintomas do Smart: calafrios, tremores, uma ou outra alucinose blogológica. Provavelmente, em suas aulas de Literatura em Tulane (New Orleans), fala pros alunos, recomenda livros, faz palestras mas sua cabeça devia martelar: "Biscoito! Biscoito! Quero Biscoito!". Viria uma aluna com donuts ou cookies: "Eat this, please!" Escutaria a resposta: "Não, não é esse aí que eu quero. Quero é um biscoito fino."
Pois Idelber não resistiu à sua síndrome de abstinência. Para nosso gáudio (epa!), anunciou: "Vou voltar... sei que ainda vou voltar". Marcou a data pra 31 de março. Tá chegando, tá chegando...


3 - O Milton Ribeiro não fechou seu Milton Ribeiro. Mais do que imperdível, seu blog é necessário!

Milton já fez um post inteiro provocando o Smart. Nomeou-o o melhor blogueiro do Brasil. Anunciou que o Idelber já está voltando. Só faltou gritar - e eu faria coro: "Volta Smart! Volta!"

4 - Lúcia Malla não fechou seu Uma malla pelo Mundo. Mais do que imperdível, seu blog é necessário!

Lúcia viu o tratamento que propus pro Smart curar sua síndrome de abstinência e me disse: "Adorei essas dicas. Por que não publica no seu blog para "eterniza-las" blogosfericamente?".

5 - Elenara também não fechou seu Imaginação ao Poder. Mais do que imperdível, seu blog é necessário!

Elenara foi outra que gostou da receita, apoiou a Lúcia, aplaudiu Idelber e lamentou o bloguicídio do Smart.

Foi uma dica e tanto. Aqui vai:

Tratamento para Síndrome de Abstinência Blogueira

a) Retirar-se da droga - do blog! -progressivamente: faça um post a cada 5 dias; aumentar o intervalo até conseguir um post a cada 150 anos.

b) Substituir a droga - ou melhor, o blog - e começar a escrever no Bombordo - [Esta o SSoB já tá fazendo. E muito bem. Confira.]

c) Dar suas idéias de posts maravilhosos aos colegas blogueiros que a gente aproveita, escreve e dá um "créditozinho". Você vai ficar feliz e espalhar pelo mundo: "Idéia minha! Idéia minha!"

d) Visitar os blogs alheios e comentar tudo, até receita de pudim de leite condensado.

e) Essa é infalível: internar-se num resort à beira mar, com muitas caipirinhas, piscina, sol, mar, areia, água de coco, passeio de jet-ski, ultra leve e outras mordomias mais.
Mas, atenção: é preciso me levar como acompanhante terapêutico (no caso, não cobro honorários, só a hospedagem no mesmo resort).
Se não curar o paciente, pelo menos eu descanso um pouco!

O Smart já respondeu dizendo que tem outras idéias a respeito de quem levaria para um resort. Bom, para evitar mal-entendidos eu gostaria de esclarecer que minha co-terapeuta é a Amélia... e não abro mão!


E você, já escolheu o resort aonde nós vamos?

20 março, 2006

PEGA NA MENTIRA

Mentirosos compulsivos: acautelai-vos!
Tem gente que gosta de pregar uma mentira... mesmo não sendo pescador - sinônimo de exagerados, mentirosos, bons contadores de histórias mirabolantes nas quais os peixes pesam quase toneladas e os métodos podem ser os mais inusitados: com pauladas, com assobios, sem anzol, sem iscas, etc.
A Psiquiatria tem lidado com estes problemas - não os pescadores, que não mentem, apenas "exageram um pouquinho" - mas com os mentirosos contumazes.
Há diferentes modalidades de mentira, dentre as quais destaco:
  • A mentira da criança: falta de senso de realidade e medo de ser punido;
  • A mentira do mitômano: "A mitomania pode ser considerada patológica quando leva a um encerramento na necessidade de repetição", explica o professor Philippe Jeammet (Institut Mutualiste Montsouris, em Paris). "De um lado, o mitômano sempre sabe no fundo que o que ele diz não é totalmente verdadeiro. Mas ele também sabe que isso deve ser verdadeiro para que lhe garanta um equilíbrio interior suficiente. Em determinado momento, o sujeito prefere acreditar mais em sua realidade do que na realidade objetiva exterior. Ele tem necessidade de contar essa história para se sentir tranqüilizado e de acordo consigo mesmo."
  • A mentira do psicótico/delirante: na verdade, não se trata bem de mentira, mas de um delírio (transtorno de juízo sobre a realidade), como no exemplo do post anterior: "Revelação", no qual relato o caso de uma pessoa que está realmente delirante, não domina sua mente nem quer mentir.
  • A mentira do portador de "personalidade antisocial": este mente com propósito de causar danos à sociedade, para ocultar um crime, etc. Tratam-se de mentiras bem diferentes daquela do mitômano (v. acima). A mentira do mentiroso ou do fraudador tem finalidades práticas e desonestas. Para estes, o objetivo não é a mentira, sendo esta apenas um meio para fins excusos. Jamais se arrependem do que tenham feito (apenas lamentam "ter dado errado", quando presos, por exemplo). Os indivíduos com Transtorno da Personalidade Anti-Social não se conformam às normas pertinentes a um comportamento dentro de parâmetros legais. Eles podem realizar repetidos atos que constituem motivo de detenção (quer sejam presos ou não), tais como destruir propriedade alheia, importunar os outros, roubar ou dedicar-se à contravenção. As pessoas com este transtorno desrespeitam os desejos, direitos ou sentimentos alheios. Freqüentemente enganam ou manipulam os outros, a fim de obter vantagens pessoais ou prazer (por ex., para obter dinheiro, sexo ou poder). Podem mentir repetidamente, usar nomes falsos, ludibriar ou fingir.

Estes últimos parecem-se com certos políticos, não? Melhor dizer logo: muitos políticos são mesmo psicopatas... argh!

A "novidade científica" é que já se pode detectar, no cérebro dos mentirosos, uma certa alteração anatômica.
Vários estudos funcionais com ressonância magnética em indivíduos normais que mentem ou dissimulam falhas de memória mostraram aumento da ativação bilateral no córtex pré-frontral durante a mentira:

Com o intuito de avaliar se dados sobre as imagens estruturais cerebrais se correlacionam com mentir e enganar, os autores avaliaram o volume da substância branca e cinza pré-frontrais em indivíduos que mentem, enganam ou trapaceiam com o objetivo de testar a hipótese de que tais indivíduos apresentam uma anormalidade no córtex pré-frontal. Os volumes das substâncias branca e cinzenta pré-frontais foram avaliados pela ressonância magnética estrutural em 12 indivíduos que mentiam patologicamente, trapaceavam e enganavam (grupo mentirosos), 16 controles anti-sociais e 21 controles normais. Os mentirosos apresentaram de 22% a 26% de aumento na substância branca pré-frontal e uma redução de 36% a 42% na relação da substância pré-frontal cinzenta/branca quando comparados com os grupos controle anti-sociais e normais. Estes achados nos fornecem a primeira evidência de um déficit estrutural no cérebro dos mentirosos.
[Cf. artigo recente do British Journal of Psychiatry]

Daqui a pouco, teremos mais uma novidade: um teste para pegar os blogueiros mentirosos.
Verdade pura, eu juro de pés juntos e dedos cruzados.

Alguém aí se habilita a ser cobaia?

17 março, 2006

R e v e l a ç ã o

Seu paletó era pelo menos 2 números abaixo, as calças puídas e os pés descalços, mas nada disso apagava a altivez do porte, o rosto sereno e o olhar quase translúcido, talvez manso, com certeza fixado no infinito.

A cabeleira e o rosto hirsuto evocavam a figura de um dos profetas esculpidos por Aleijadinho, perenes em sua pétrea consistência no adro da Basílica Senhor Bom Jesus de Matozinhos, em Congonhas.

Puxei conversa, falei do tempo, quis saber o que o trouxera ali. Olhou-me como teria olhado Cristo para seus algozes, lá do alto da cruz ("Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem") e, apenas, sorriu.

Eu já sabia todas as respostas àquelas perguntas de praxe, pois lera seu prontuário antes de entrevistá-lo. Com certeza ele sabia disso e o demonstrara com um sorriso que destilava zombaria misturada a compaixão e uma pitada de sentimento de superioridade.

Não o enfrentei. Demonstrei sincero interesse em conhecer-lhe a história. Afinal, a relação médico-paciente pode ser ocasião de aprendizagem mútua. Com humor e, às vezes, com total razão, diz-se que a diferença entre um e outro pode ser denotada por quem possui a chave da porta de saída.

Ele percebeu minha "boa disposição":
- Se o senhor quer mesmo saber, tenho uma revelação a fazer.
- Como, assim, uma revelação?
- Minhas últimas descobertas que, ainda, mantenho em segredo.
- Que descobertas?
- Pesquisas científicas iluminadas pela Divina Providência.
- Além de tudo, o senhor é cientista?
- Isso e muito mais. Tenho a Luz!
- Anh...

Enquanto dialogávamos, apalpou o surrado paletó e, de um dos bolsos internos, retirou um papel cuidadosamente dobrado. Olhou para um lado e para outro, a certificar-se de que ninguém o observava e o entregou a mim:

- O senhor é médico, mas sua ciência é apenas humana. Eu não estudei na faculdade mas meu mestre é Aquele lá de cima. Tenho contato direto com Ele. Fui escolhido para transmitir à humanidade toda a onisciência do universo.

Principiei a desdobrar a folha manuscrita. Interropeu-me:
- Não, doutor. Aqui não. O senhor vá para casa, leia com atenção e, caso não entenda alguma coisa, amanhã posso explicar.

Levantou-se com a segurança de que era ele quem comandava a entrevista.
Tranquei o consultório e comecei a ler:

Revelação

Inicialmente, tomemos o universo para definir o Ser Humano. A palavra "universo", que remonta aos primódios do Homem, significa os milhões de compostos (cometas, satélites, planetas, planetóides) que temos dentro de nós. Somando ao todo, desde a célula até o átomo, são 82 espécies de pequenas partículas desde a célula, que é a flor, por assim dizer, desses elementos.

O Ser Humano, quando sai no esperma, já é portador desses 82 elementos. Entretanto, deve-se observar que, além do átomo, há ainda 14 mil classificações de sub-matéria.

Mas isso pode estar em desequilíbrio se o filho, que está dentro do organismo da mãe, mover-se em sentido contrário no seu corpo, descentrando as forças e desorganizando o universo interior. Poderá acontecer uma lesão que, fatalmente, se estenderá a outra parte das células, provocando o câncer. Explico: enquanto o corpo do feto, obedecendo a ordens foto-elétricas do cérebro faz tin-don, o universo canceroso está a fazer tin-tin.

O câncer nada mais é do que um universo estranho entranhado no todo universal, ou kaeeme, que é o corpo humano em sua plenitude.

Há um tipo de câncer, por exemplo, que adquirimos ao mantermos relações com uma prostituta. Cito um artigo do Reader's Digest no qual um professor universitário disse para um atleta de 105 kg que, se seus átomos fossem comprimidos, o seu corpo - ou núcleo - pesaria e teria o volume de um grão de pó, mesmo assim contendo todo o universo. Conclui-se, então, que uma gota de blenorragia adquirida de uma prostituta pode conter vários universos.

Todas essas explanações foram conjuradas ao meu Luminoso, após ter sido eu encarregado de isolar o Ser Humano de doenças ancestrais. A doença atinge a humanidade há 2 bilhões de anos retró.

Mas não vou estender mais considerações, apenas indicar o principal, ou seja, a solução:

(XH x 4) . (Y x H/2) = 4% de decímetros de potássio sólido + 4% de decímetros de carboneto sólido + 9% de carbono líquido + 10 centilitros de sangue de morcego.

Por que sangue de morcego?
Porque o sangue de morcego não move suas moléculas como o do Ser Humano. Ele é classificado pela Ciência da Nave como "o lídimo", o "legítimo". Por isso se aproveita de outros animais, sugando-lhes o sangue para que sobreviva e seja sustentado em seu componente hétero-esotérico, no interior de seu carma.

Se a humanidade quiser saber mais, que leia meu livro: "Os deuses não tocaram"
Assinado: J.B.O.

16 março, 2006


Amigos: domingo, dia 19, a partir das 18h, estaremos lá!!!
Chapéu Panamá, a nova guarda do samba!
Blogueiros daqui e de alhures, vamos? Alô Márcio Candiani, sei que você gosta...
O Jequitibar fica logo ali, depois do Viaduto Sta. Tereza, no início da subida da Av. Assis Chateaubriand, à direita. Não tem erro.
Quem não gosta de samba
bom sujeito não é:
Tá ruim da cabeça
ou doente do pé!

15 março, 2006

Zarpou!


Hoje, 15 de março de 2006, zarpou a nau que não é dos loucos, nem insensata: Bombordo é blog de leitura diária! Visite hoje e sempre!
A cada dia, um artigo diferente sobre temas atuais. É um coletivo, fruto do desejo de alguns, da utopia de outros, da disposição de provocar e dialogar de todos. Sem unanimidades. Mas no mesmo barco... clique na figura ou aqui.

13 março, 2006

Panis et circenses

Aécio Neves anuncia show de Pavarotti e Roberto Carlos
O governador Aécio Neves anunciou, nesta quarta-feira (23/02), que o tenor Luciano Pavarotti dividirá o palco com o rei Roberto Carlos em um show gratuito para todos os mineiros, no próximo dia 18 de março. As negociações para a realização do espetáculo em Minas Gerais já estão fechadas e fazem parte da estratégia do governo mineiro de atrair grandes eventos para o Estado, como forma de dar maior visibilidade e incrementar a economia, gerando mais emprego e renda para a população.
Segundo Aécio Neves, a definição do local será tomada nos próximos dias, mas ele antecipou que o show deverá ser realizado em um espaço de eventos em Santa Luzia , na Região Metropolitana de Belo Horizonte.

"É com muita alegria que hoje eu possa confirmar oficialmente que Minas Gerais receberá aquele que talvez seja o maior evento artístico aqui já acontecido. O tenor (Luciano) Pavarotti estará fazendo uma turnê de encerramento de sua carreira com nove shows pelo mundo e o único show que ocorrerá no Brasil será o show na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Provavelmente – estamos definindo isso de hoje até o início da semana que vem – no espaço feito para shows em Santa Luzia , que nos pareceu mais seguro, já que será um evento aberto para a população. Todos os mineiros estão convidados", afirmou.



A mídia berra a todo instante "O Maior Show de Todos os Tempos", anunciando o espetáculo promovido pelo Governo de Minas "para todos os mineiros"!

Demagogia confessada:

"Responsável pela produção dos shows do U2, em São Paulo, Alexandre Accioly confessa que só aceitou trazer o encontro de Roberto Carlos e Pavarotti para Minas por insistência do governador Aécio Neves. Os organizadores não estão autorizados a detalhar valores, mas garantem que 100% dos investimentos vieram da iniciativa privada (Fiat, Bradesco, Oi FM, Cia Vale do Rio Doce e Fiemg)."

Pois é!

15.MAR.06 - UP DATE: CANCELADO O SHOW!

11 março, 2006

As Alterosas


Uma das marcas registradas de Minas Gerais são as montanhas. Belo Horizonte já foi apelidada de "Capital das Alterosas" e hoje possui uma estação de TV de nome TV Alterosa. Pois "alteroso (ô)" significa de altura elevada; alto . Por extensão: cheio de altivez; sobranceiro, majestoso.

Penso que nós, mineiros, diante da obviedade dos horizontes definidos pelas serras, cultivamos uma postura altiva, sobranceira e majestosa: orgulhamo-nos dos maciços ferrosos e os introjetamos como nos dizia Drummond:

Alguns anos vivi em Itabira
Principalmente, nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

No final desta sua "Confidência do Itabirano", é bem verdade, o Poeta confessa outro lado da personalidade dos mineiros, tidos como calados, desconfiados, humildes, "aqueles que trabalham em silêncio":

De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa...
Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!

Há um ressentimento diante da ação predatória sobre nosso tesouro: As montanhas de Minas estão sendo carregadas pelas mineradoras. O minério de ferro é colocado nos vagões e exportado, restando-nos, pouco a pouco, imensas crateras:

Cada um de nós tem seu pedaço no pico do Cauê
Na cidade toda de ferro
as ferraduras batem como sinos.
Os meninos seguem para a escola.
Os homens olham para o chão.
Os ingleses compram a mina.

Só, na porta da venda,Tutu Caramujo cisma na derrota incomparável.

Se falarmos da “nostalgia do mar”, então, aí já é covardia! Durantes as férias e fins-de-semana prolongados, os conterrâneos entopem as estradas em busca do litoral, das praias, das areias monazíticas de Guarapari, do sol generoso do sul da Bahia, da sofisticada cidadezinha de Búzios ou da cinematográfica “Cidade Maravilhosa”. Mineiro não perde o trem, nem a praia!

Talvez seja como um bálsamo inconscientemente aplicado ao orgulho dos moradores das Alterosas que os belorizontinos recebem a Torre Alta Villa, bem no alto da Serra do Curral, divisa com o município de Nova Lima.

Tornou-se lugar obrigatório para levar os turistas (sempre poucos, por aqui). Há um shopping temático, restaurante (Hard Rock Café), salão para festas, até mesmo um colégio. Paga-se R$ 5,00 para ascender nos elevadores até à cúpula, de onde se avistam a cidade e as montanhas, vales, condomínios, céu, nuvens e um horizonte quase infinito.

Já existe uma câmera permanentemente online, no alto dos 101 metros do Alta Villa. Para sentir, um pouco, o “espírito das alterosas”, clique aqui.

A câmera é móvel, faz closes e mostra panorâmicas. No momento em que escrevo, por exemplo, a torre está envolta em neblina, pois o tempo está chuvoso. Vamos lá?

04 março, 2006

Bye, Idelber!



O "embaixador" das Minas Gerais em New Orleans, Idelber Avelar, gentilmente nos convidou para suas despedidas de Belô: está decolando de volta aos States, onde retoma suas atividades de professor de Literatura na Universidade de Tulane.

Idelber é daqueles que com sorriso e simpatia arrebata as pessoas e nos coloca à vontade desde a primeira hora.
Conheci o "professor" pela blogosfera, em seu famosíssimo blog O biscoito fino e a massa, caldeirão de cultura, futebol, arte, literatura, política e... O Biscoito está de recesso, mas vale uma passadinha por lá: os arquivos contêm pérolas!

Pois o Idelber nos recebeu juntamente com a Ana, escritora, cujo dom da palavra pode ser desfrutado em suas 100 MEIAS CONFISSÕES DE ANINHA, imperdível!

Sua delicadeza nos presenteou com seu livro "Ao lado e à margem do que sentes por mim". A dedicatória confirma a perspicácia da Aninha em desvendar a alma: "Para Cláudio e Amélia, que já se encontraram na busca sobre a qual fala esse livro..."

A casa estava repleta de ex-colegas de faculdade, conhecidos há mais de 15 anos, numa demonstração de que o afeto, quando verdadeiro, resiste "ao tempo, que sobre tudo lança o pó do esquecimento".
Conhecemos a Valéria, a Tida e o Luís, o Thales que preparou a melhor caipirinha da noite e, pasmem, assou deliciosos pãesinhos-de-queijo.

Essa turminha, mais o escriba aqui e minha Amélia, estamos enfeitando as fotos do mural acima.

Apesar de ser uma despedida, era só alegria: pelo reencontro e pela promessa de que, em maio, tem mais festa!

01 março, 2006



Carnaval em Nova Era tem que ter:
Banda dos Farrapos
e o Soié homenageado.
A festa é do povo
Sem Rede Bobo
Sem globalização
Sem socialites
Muita Cerveja
Diversão e Alegria
E agora...
só no ano que vem!

26 fevereiro, 2006

Carnaval em família

Viemos para Nova Era-MG, Amélia, eu e nosso filho Leo para comemoramos, juntos aos familiares, o meu aniversário.

Como sempre, meu pai Soié operou como fotógrafo oficial e folião número 01 de Nova Era (afinal, é homenageado especial da Banda dos Farrapos
).

O almoço foi preparado pela mãezona, Aparecida. Festa & carnaval... com direito a churrasco caprichado pelos manos Bonifácio & Clóvis.


Na cidade, o Carnaval já não é mais como nos velhos tempos - as coisas, afinal, devem permanecer imutáveis?


As lembranças da infância me transportam a tempos idos, quando a serpentina, os confetes e as marchinhas davam o tom de alegria inocente. Pelo menos para aquele garoto de 7-8 anos, a pular pelo salão do pequeno clube, na matinée das crianças. Os frascos de lança-perfume eram vendidos livremente e espalhavam um odor típico, que eu achava delicioso. Ao receber uma borrifada, sentia na pele a mistura de éter geladinho que rápidamente se evaporava. Nunca me passou pela cabeça a possibilidade do uso abusivo que, mais tarde, acarretou a proibição do "perfume de Carnaval".


Nas ruas, foliões quase avulsos se fantasiavam de piratas, palhaços, monstros. Alguns homens se vestiam de mulheres. Um batuque improvisado ou uma bandinha formada de trompete, saxofone, trombone, tarol e tambor completava o "bloco sujo" - como era chamado aquele agrupamento exótico.


Nos anos 70, talvez por influência das transmissões televisionadas dos desfiles do Rio de Janeiro, organizaram-se as "escolas de samba", que chegavam a disputar prêmios e classificações, desfilando nas ruas estreitas provocando aplausos do povão. Formou-se tradição que já está em declínio: ontem à noite passaram algumas alas, sem empolgar. No máximo, acorremos às portas ou janelas dos sobrados.


Mas a "Banda dos Farrapos" e o bloco "Boca de Gole" tentam, ainda, manter a tradição, embora sem o vigor de outrora.

A Banda dos Farrapos se compõe de pseudo-músicos em pseudo-uniformes compostos por velhos e puídos paletós. Desfilam numa bagunça extremamente organizada (!) e com irreverência inocente provocam comerciantes a fornecerem cerveja de graça. O Soié Bar, do meu pai, era parada obrigatória durante anos. Hoje, meu pai Soié é homenageado pelos componentes e recebe, a cada ano, a "camisa" oficial da "corporação".

À noite, domina o "carnaval moderno": Agora, um palco é armado numa rua mais larga e... tome Axé! O som eletrônico derrama aquele baticum imutável sobre a platéia convocada a "assistir" um grupo de rapazes bombados e duas garotas rebolativas em coregografias ensaiadas, provavelmente copiadas de alguns sucessos "baianos" (desculpem os baianos, por quem tenho apreço). Durante a meia-hora que assisti ao "show, junto à Amélia, menininhas de 8 a 10 anos foram convocadas ao palco e disputaram os aplausos do público enquanto "dançavam" miméticamente. Tratava-se de um anacrônico Programa do Chacrinha, animado pelo condutor da "banda" Suingueiros". Os rapazes provocaram "delírios" ao tirarem as camisas...


Melhor foi voltar para a casa dos meus pais, partir a torta de nozes e cantar o "Parabéns pra você".

Enquanto isso, a cidade estatelava-se em frente à TV, "vendo o Carnaval passar".


22 fevereiro, 2006

Ver com os ouvidos

Quando lidamos com pessoas portadoras de completa surdez inata (desde o nascimento), aprendemos que há muitas outras maneiras de "ouvir" o mundo.

São comuns os relatos de hipoacúsicos que descrevem "sensações auditivas" percebidas com outros órgãos do corpo, principalmente pelas sensações vibracionais. Este entrecruzamento de interpretações derivadas dos diversos sentidos do corpo é o que se chama sinestesia. [cf. Houaiss: sinestesia = relação que se verifica espontaneamente (e que varia de acordo com os indivíduos) entre sensações de caráter diverso mas intimamente ligadas na aparência (p.ex., determinado ruído ou som pode evocar uma imagem particular, um cheiro pode evocar uma certa cor etc.); cruzamento de sensações; associação de palavras ou expressões em que ocorre combinação de sensações diferentes numa só impressão].

A cenestesia já é outra propriedade do cérebro em organizar e interpretar as sensações internas do organismo, como por exemplo o sentimento de bem estar ou sensação de relaxamento ou tensão, etc.

Outro tipo de percepção, desta vez relacionada ao próprio peso, movimento, resistência e posição do corpo compõe a cinestesia.

Agora imagine o grau de sensibilidade cenestésica, cinestésica e sinestésica de alguém privado do sentido da audição ou da vista! Para se localizar no mundo, interpretar as alterações sutis do próprio corpo e do meio exterior, os sentidos internos desenvolvem-se espetacularmente.

Por isso os cegos dizem que vêem com outros sentidos: olfato, sensações corporais difusas, alterações mínimas de movimento, etc. Alguns chegam a descrever "cores e volumes": enxergam com os olhos da alma.

Em nós, também, percepções podem desencadear vivências emocionais singulares, originadas em acontecimentos remotos, dos quais não restam lembranças claras, às vezes inconscientes.

O linguajar popular incorporou expressões que utilizamos sem nos dar conta das metáforas (analogias) e metonímias (deslizamento do significado) operadas pela linguagem: voz de taquara rachada; agudo como um estilhaço de cristal, botar a boca no trombone, som aveludado, etc.

Compartilho aqui pequeno trecho da autobiografia de Vladimir Nabokov, autor do célebre e "escandaloso" romance Lolita. Em Speak, Memory!, publicado pela Companhia das Letras sob o título A pessoa em questão (1994), Nabokov nos brinda com uma deliciosa descrição do que é ver com os ouvidos, uma verdadeira audição colorida:

"O longo 'aaa' do alfabeto inglês tem para mim o matiz de madeira desgastada pelo tempo, mas o 'a' francês evoca o ébano polido. Esse grupo preto [de som] inclui o 'g' duro (borracha vulcanizada); e o 'r' (um trapo sujo de fuligem sendo rasgado).
O 'n' de mingau de aveia, o 'l' flácido como macarrão e o espelho de mão com o verso de marfim do 'o' cuidam dos brancos.
Fico desconcertado com o meu 'on' francês, que vejo como as bordas de tensão superficial do álcool em um pequeno vidro.
Passando para o grupo azul, existe o 'x' da nuvem carregada e o 'k' de buckleberry.
Já que existe uma sutil interação entre som e forma, vejo o 'q' mais marrom que o 'k', enquanto o 's' não é o azul-claro do 'c', mas uma curiosa mistura de azul-celeste e madrepérola."

Após ler o parágrafo acima, fiquei tentado a fazer algumas associações entre som e imagem, mas não consegui mais do que o óbvio. Experimentei, entretanto, algo que me pareceu interessante: fechar os olhos enquanto escuto alguém falar ao telefone e construir uma imagem a partir daí. Cada 'coisa' veio na minha cabeça!

Um interlocutor que sibilava muito nos "sss" , sugeriu-me uma serpente. Outra voz me pareceu um céu enluarado. Cheguei a 'visualizar' tartarugas e pedras rolando no fundo de um rio (e não eram os Rolling Stones, garanto!).

Não foi bem a experiência do Nabokov, tão poética e bizarra.
Infelizmente...

21 fevereiro, 2006

OVO DE COLOMBO URUGUAIO

Um engenheiro uruguaio, Armando Regusci, acredita ter encontrado a maneira de fazer seu país economizar US$ 2 milhões diários com a importação de petróleo, além de melhorar o ar das cidades. Ele inventou uma motocicleta que não usa gasolina, nem álcool e nem hidrogênio no motor, mas ar comprimido.
Será o "ovo de Colombo" do transporte sobre rodas?
A engenhoca é simples como colocar um ovo em pé: comprime-se o ar em dois cilindros, regula-se a saída. Com sua força, o ar nosso de cada dia move engrenagens que produzem movimento das rodas.
Pronto: anda-se para um lado e outro, sem queimar óleo, sem poluição: devolve-se ao ar o que é ar...
“Com um motor elétrico ligado à rede pública se comprime ar a alta pressão, por exemplo, 200kg por centímetro quadrado. Com o ar comprimido, nesses depósitos, é possível andar 100 quilômetros a 50km/h", garante o novo Colombo, ou melhor, o velho Regusci.

Preço de uma motoquinha movida a vento encanado: U$ 600, o que dá, pelo Real supervalorizado, a bagatela de 1200 e poucas pílulas.

Problema à vista: ruas e estradas entupidas, cada um montado em seu aerocar, ou motoar, ou bicicletar.

Já pensaram num avião movido a ar, voando no ar? É o supra-sumo da homeostase. Ou seria um pleonasmo?

E mais: se o ar que respiramos virar combustível, vão nos cobrar imposto respiratório, não?

Vem aí a Arbrás: o ar é nosso e ninguém tasca!

[(Fonte: Caderno de Ciência do EM (link para assinantes)].

20 fevereiro, 2006

(DES)HONESTIDADE NOSSA QUE NOS AFLIGE

Brasil:
  • Valor do PIB-2005 + ou - da ordem de 1,6 Trilhão de Reais
  • Economia Informal (não paga impostos) = 700 Milhões de Reais
  • Autuações por sonegação de tributos federais em 2005 = 80 Bilhões de Reais
  • Contrabandos descobertos pela Polícia Federal em 2005 = 601 Milhões de Reais
  • Gastos anuais com a Dívida Pública = 150 Bilhões de Reais
  • Pacote anunciado por Lula para Setor Habitacional = 18 Bilhões de Reais
  • Dados levantados pela CPI dos Correios = Sonegação de 200 Bilhões
  • Prejuízos causados pela pirataria = 30% do PIB
  • Solegação da Previdência Social = 100 Bilhões de Reais
  • Sonegação de Impostos + pirataria + corrupção da previdência + economia informal + juros da dívida pública = 1,8 Trilhão de Reais

Pergunto:
  • Você conhece e já denunciou algum sonegador?
  • Você compra ou já comprou produtos pirateados e ou falsificados?
  • Você já votou em algum candidato que foi denunciado por corrupção?
  • Você já subornou funcionário público para obter alguma vantagem (não ser multado pela Polícia Rodoviária Federal, por exemplo?)
  • Você acredita, realmente, que falta dinheiro ao Governo para consertar estradas, melhorar o acesso à saúde, financiar pesquisas, cuidar do meio ambiente?
  • Você descobriu, pela salada de números acima, que o Brasil, ou seja, nós mesmos, deixamos escapar pelo ralo, a cada ano, um PIB inteirinho?

[PIB = Produto Interno Bruto = Soma de todas as riquezas produzidas no país]