Basta pensar em sentir Para sentir em pensar. Meu coração faz sorrir Meu coração a chorar. Depois de parar de andar, Depois de ficar e ir, Hei de ser quem vai chegar Para ser quem quer partir. Viver é não conseguir. Fernando Pessoa, 14-6-1932
16 março, 2005
ACALME-SE!
Minha prática demonstrou que alguns esclarecimentos ajudam bastante. Ocasionalmente até dispensam o uso de drogas.
Eis a transcrição de um texto que costumo dar aos que considero capazes de bem aproveitar as instruções nele contidas:
1 - A "ansiedade paroxística aguda", também chamada “síndrome do Pânico”, é uma entidade clínica que consiste em crises agudas de ansiedade. Tem inúmeros sintomas, sendo esses os principais:
a) taquicardia
b) sudorese
c) falta de ar
d) formigamento das extremidades, câimbras
e) sensação grande de desconforto
f) sensação de morte iminente
g) dores abdominais
h) vista escura
i) medos
j) dificuldade em permanecer no local
k) desorientação (raro)
l) perda da conexão com a realidade (raro)
2 - o início dos sintomas geralmente é abrupto: de repente a pessoa é tomada pela ansiedade, sem um fator causal determinado. As crises ocorrem com freqüência, costumando chegar a várias vezes por semana! Por isso,o quadro pode ser incapacitante para o trabalho ou para a vida social.
3 - há crises que se desencadeiam em lugares públicos, com muita gente (restaurante, supermercado, praça pública): é o "transtorno de pânico com agorafobia"; as pessoas passam a evitar estes lugares, por causa do medo de ter medo!
4 - Para se enfrentar a "síndrome do pânico" é necessário que se tenha conhecimento dos processos fisiológicos da ansiedade e se tomem medidas práticas, como a seguir:
5 - Como se desencadeiam as sensações fisiológicas da ansiedade?
A partir do momento em que a crise é deflagrada, há uma ativação do sistema nervoso autônomo (simpático), ou seja, a pessoa começa a respirar mais rápido e menos profundamente (hiper-ventilação e hiper-respiração). Como conseqüência, diminui o nível de oxigênio no organismo, especialmente no cérebro, provocando uma sensação aguda de falta-de-ar (dispnéia). Os vasos sanguíneos periféricos se contraem, pois se desencadeia a reação de "luta e fuga", própria dos seres vivos, diante de qualquer ameaça (descarga de adrenalina). As mãos esfriam. O indivíduo fica pálido, com a boca seca, a garganta constricta. A baixa oxigenação (hipóxia) leva o coração a bater mais depressa (taquicardia) a fim de compensar a falta de oxigênio e prover o organismo do calor necessário à musculatura. Tanto a hiperventilação quanto a hiperventilação e a taquicardia, a temperatura corporal se altera, ocasionando suor frio e abundante (sudorese). Cria-se um círculo vicioso em que, cada vez mais, os sintomas se agravam, a sensação de falta de ar aumenta, o coração bate muito depressa, a sudorese aumenta e a pessoa tem a sensação de que vai morrer. Muitas pessoas buscam ajuda em pronto-socorro, pensando que estão tendo um enfarto. Um cliente meu relatou que foi parar 6 vezes no Sócor, nas últimas semanas. Chegou a ir para o CTI, onde os cardiologistas nada constataram de anormal. São apenas reações fisiológicas que, NÃO MATAM e constumam cessar rapidamente (entre 01 e 03 minutos)!
6 - Exercícios para controle da ansiedade aguda::
Bernard Rangé,terapeuta comportamental, propõe uma palavra chave: ACALME-SE. Ele fez um acróstico: A.C.A.L.M.E.S.E, que designa os 8 passos para controlar a crise:
1. Aceite sua ansiedade: trata-se de uma reação ao estresse, que não mata!
2. Contemple o mundo exterior: distraia-se, preste atenção a outra coisa fora de você, leia, cuide de uma planta, conte "ladrilhos", etc...
3. Aja com a ansiedade, não deixe de fazer o que tem a fazer.
4. Libere o ar de seus pulmões: respire calma e profundamente, para que você tenha bastante oxigênio, seu coração bata mais lentamente, as sensações fisiológicas de calor, sudorese, falta-de-ar, formigamento, tonteira, etc., passem aos poucos. Em geral, uma série de 16 (dezesseis) sequências de inspiração-expiração bem profundas e lentas são suficientes para, em 01 minuto, debelar a sensação de desconforto e o medo de morrer.
5. Mantenha os passos anteriores: consciência de si, controle da respiração...
6. Examine bem o conteúdo de seus pensamentos catastróficos: que prova você tem de que tudo de ruim e trágico vai mesmo acontecer? Você não está exagerando o mal-estar? Você tem consciência de como está, neste momento, sua respiração? (Quanto mais angustiada uma pessoa, mais insuficiente a respiração. Aqui, vale o inverso: Quanto pior a sua respiração, pior a sensação física de desconforto, medo, etc...). Reconheça sua capacidade de se auto-controlar.
7. Sorria, você está conseguindo!!! Até já conseguiu!
8. Espere o melhor: na medida em que você se exercitar dessa forma, as crises serão menos ameaçadoras. Com a ajuda do seu médico/terapeuta, as crises vão sendo controladas. Se for necessário, o médico lhe receitará algum medicamento.
Portanto: A C A L M E - S E !
[Apesar de parecer orientações simplórias e puramente sugestivas, há fundamentos fisiológicos para o papel da respiração no equilíbrio do organismo. Na angústia, está comprovado que a respiração se torna superficial. Aliás, a palavra angústia vem do latim ( ángor = aperto, constrição )]
Se você conhece alguém com os sintomas descritos acima, passe-lhe o texto. Ah! não custa dizer - e não é brincadeira: ao persistirem os sintomas, corra para o médico!!!
14 março, 2005
A VIDA EM CENA
A arte de bem viver está na proporção direta da capacidade de desempenharmos bem os diversos papéis que a vida nos exige.
Que é isso, representar papéis?
A palavra “papel” tem sua origem no antigo teatro, quando os atores decoravam o texto que vinha escrito em pergaminhos, enrolados em bastões. Enquanto atuavam no palco, um leitor ia desenrolando o rolo do texto e “assoprava” as falas aos atores, como hoje se faz com o que se chama “ponto”. Este “rolo”, em francês, se diz “rôle”; em inglês, “role”, donde a expressão: to play a role = desempenhar um papel, atuar.
Tanto no palco quanto na vida real, a qualidade está na espontaneidade. Ac
Para lidar com este tão funesto destino, uma das técnicas que utilizo, em meu trabalho como psicoterapeuta é o Psicodrama.
Psicodrama é uma técnica psicoterápica que tem raízes no teatro, na psicologia e na sociologia. Em termos teóricos, sua constituição se deu a partir da prática, na medida em que JACÓ LEVY MORENO (1892-1974) e seus seguidores intentaram formalizar.
O ponto básico do Psicodrama é a "dramatização" ou "representação":
A representação se faz com vários atores, daí o Psicodrama se caracterizar como uma técnica grupal, onde não mais é o indivíduo isolado que dramatiza, mas um grupo que expressa suas inter-relações.
Uma sessão de Psicodrama obedece, basicamente, ao seguinte plano:
- aquecimento: momento de fusão grupal, o warming up se constitui como a situação propiciadora para surgimento de um tema e da construção de um enredo sobre o qual se improvisará a representação;
- representação: é o momento mais importante da sessão, uma vez que a improvisação colocará o "ator" diante de sua própria "produção": falas, gestos, atitudes, indecisões, atos falhos (que, sob o enfoque psicanalítico, são manifestações do inconsciente), etc;
- comentários: na "volta-ao-grupo", os participantes e o terapeuta tecem considerações sobre o vivido. Cada participante tem a oportunidade de se expressar como se sentiu, como percebeu os colegas, que tipo de percepção nova obteve. Eventualmente, o terapeuta agrega algum comentário sobre o acontecido.
Na sua relação com o outro, o ator se depara com a farsa e o disfarce proporcionados pela rigidez de posturas, pelas condutas habituais na vida pessoal, familiar e profissional.
Em Belo Horizonte, há um grupo que trabalha com uma modalidade interessante de Psicodrama. Chama-se VIDA EM CENA. Utilizam o playback theatre, que é uma técnica especial: consiste em solicitar aos participantes de uma platéia que narrem histórias pessoais vividas. A seguir, o próprio grupo de atores improvisa um pequeno sketch, uma pequena dramatização, na qual realçam certos temas e sentimentos percebidos na narrativa.
É uma prática lúdica, interativa, desencadeia emoções e proporciona insights interessantes tanto ao protagonista – criador da história – quanto à platéia. Aplica-se como técnica de dinâmica de grupos em empresas, universidades, equipes de trabalho, etc.
13 março, 2005
Promessa
Os pequenos cachos de uva encerram promessas de vida.
Apesar de tenros e frágeis, contêm uma incrível energia.
Enfrentarão tempestades, frio, vento, chuva, sol, calor...
até que se transformem em uvas suculentas, saborosas, rubras.
Depois, quem sabe, encherão taças cristalinas e aquecerão momentos felizes.
Evoé, Baco!
11 março, 2005
O ninho
2 - Um relato imperdível: a cigana e o sapateiro.
3 - Bom fim de semana!
06 março, 2005
Blog da semana!
05 março, 2005
Crepúsculo após a chuva
O soneto "de pé quebrado" foi uma brincadeirinha - espero que desculpável... Bati a foto em fins de 2004, após uma grande tempestade que se abatera sobre Belo Horizonte. As núvens negras permaneceram no céu, mas o vento as tangia para leste.
No poente, o sol se despedia da cidade e ainda teve tempo de demonstrar sua força. A força do Astro-Rei.
03 março, 2005
"PINGA NI MIM"
Se ontem falava de vinho, hoje é a danada da cachaça que me sobe à cabeça. Se é bom "pras cabeças", tenho lá minhas dúvidas. Mas acontece que o Daniel Caborges, o melhor genro que tenho, me mandou o informe a seguir, como sugestão para postar. Pedido de genro a gente não contraria. Então, vamos lá:
cana-de-açúcar em um tacho e levavam ao fogo.
Não podiam parar de mexer até que uma consistência cremosa surgisse.
Porém um dia, cansados de tanto mexer e com serviços ainda por terminar, os
escravos simplesmente pararam e o melado desandou !
O que fazer agora ? A saída que encontraram foi guardar o melado longe das vistas do feitor.
vezes e misturaram o tal melado azedo com o novo e levaram os dois ao fogo.
Resultado: o "azedo" do melado antigo era álcool que aos poucos foi
evaporando e se formou no teto do engenho umas goteiras que pingavam
constantemente. Era a cachaça já formada que pingava.
Daí o nome "PINGA".
Quando a pinga batia nas suas costas marcadas com as chibatadas dos feitores
ardia muito, por isso deram o nome de "ÁGUA-ARDENTE". Caindo em seus rostos
e escorrendo até a boca, os escravos perceberam que, com a tal goteira,
ficavam alegres e com vontade de dançar. E sempre que queriam ficar alegres
repetiam o processo.
Hoje, como todos sabem, a AGUARDENTE é símbolo nacional !!!
Mas há outras explicações para o nome tão brasileiro. Olhaqui, Daniel, encontrei esta história num jornal do Ceará:
Foi por acaso que se descobriu a cachaça. A bebida, tão popular em todo o País, começou a ser feita pelos escravos a partir das impurezas retiradas durante o processo de fervura do caldo da cana. Era um subproduto dos engenhos. Ao lado do tacho com o mel da cana, colocava-se outro com água fria para limpar os resíduos da escumadeira, uma espécie de colher que retira a escuma.
Era essa água com impurezas que os escravos chamavam de cachaça. Fermentada naturalmente, a cachaça começou a ser bebida preferida dos escravos. Tempos depois passou a ser destilada e ganhou o nome de pinga porque no processo de destilação o alambique fica pingando. Além de ser consumida pelos escravos nos engenhos - servia de desjejum, estimulante e até remédio -, era usada como moeda, junto com os rolos de fumo, no comércio de escravos vindos da África.
Já o Sérgio Reis, aquele cantor que era da Jovem Guarda e se tornou um sertanejo-romântico, já fala em goteira na casa, uma mulher traidora e berrou aos quatro cantos:
Muito Doido Enciumado,
Daquela Linda Mulher,
Meu Sentimento É Profundo,
Não Quero Nada No Mundo,
Se Ela Não Me Quiser
Estou Amando Demais
Esquece-La Não Sou Capaz,
Eu Preciso Dar Um Jeito.
Se Eu Vejo Em Outros Braços,
Vou Fazer Um Tal Regaço
E Meter Pinga No Meu Peito,
Nesta Casa Tem Goteira
Pinga Ni Mim, Pinga Ni Mim, Pinga Ni Mim
Nesta Casa Tem Goteira
Pinga Ni Mim, Pinga Ni Mim, Pinga Ni Mim
Por falar nisso, já vou lá na cozinha. É servido?
02 março, 2005
VINHO E REZA BRAVA: SE NÃO MATA, ENGORDA!
Muitos destes ditados foram coligidos por médicos e se conectam com aforismos hipocráticos, com sentenças galênicas e prescrições avicênicas. Se isso não garante, também não atrapalha. Na tradição catalã, temos dois exemplos clássicos: “Vinho de Guadalajara, todo mal me sara” e “Vinho de Madrigal, livra-me de todo o mal.” Propagam-se por praças e ruas da Galícia os relatos alusivos aos efeitos curativos do vinho, principalmente do tinto.
Uma pessoa de classe média e razoavelmente ilustrada conta: uma senhora estava internada num hospital de Zurich em estado de agonia ou quase; seu filho, aproveitando-se de pouca vigilância, conseguiu burlar as normas do pessoal sanitário e introduziu na UTI uma garrafa de vinho tinto e deu, aos pouquinhos, para sua mãe, que tomava de bom grado. Após algum tempo, ela se mostrou mais animada. Viveu meses.
Outro caso: Ricardo, relojoeiro na província de Rosal, cantava uma expressiva cantiga popular que descrevia a confiança nas virtualidades terapêuticas do vinho: “O vinho de Rosal / de Rosal/ é vinho de Goián, de Goián / é a cura radical/ radical / cura todo o mal.”
Acredita-se, ainda na força catártica do vinho: tanto no plano físico como agente purificador dos vírus e partículas nocivas que se alojam no organismo ou que nele se introduzissem, como no plano psíquico. Há um relato que atribui a Frei Don Veremundo de Rebordechán, prior dos sanxoanistas de Beade, em sua obra “O desengano do prior”, a crença na “força catártica” do vinho. Este autor atribui ao “sumo da uva” sua virtude purificadora e depurativa, além de capacidade de servir de antídoto contra substâncias tóxicas. Na peça teatral nomeada anteriormente, descreve-se a vida de um personagem, o Rei Don Sancho, que teria sido envenenado por uma maçã e, por não ter tomado umas taças de vinho tinto, acabou vencido pelo veneno.
Víctor Lis Quibén assinala em seu “A medicina popular na Galícia” que, para a cura das enfermidades em geral, existiam bruxos que faziam uns xaropes à base de ervas diversas, vinho e aguardente. Cita uma receita de um curandeiro de La Coruña, conhecido como Pepe do Boi, que fervia, durante horas, um preparado composto de ervas (pulitania, herbamoura, carbueira e rateira) com mel, azeite, bosta de galinha, enxofre, canela, figos, aguardente e quatro litros de vinho tinto! Quando a fervura reduzia o líquido à terça parte, deixava esfriar e servia ao doente, gole a gole, até que “se arrebentasse ou que se curasse” !!!
As indicações para se utilizar o vinho incluem doenças diversas, desde transtornos digestivos de etiologia complexa, até doenças psíquicas. A inter-relação entre aspectos psíquicos e somáticos eram aceitas amplamente em todas as questões de saúde.
Para lombrigas, tomava-se tanto aguardente quanto vinho, ambos considerados vermicidas. Mas também se expulsavam os vermes com infusão de erva lombrigueira misturada com vinho.
Para doenças causadas pelo ar ou por emanações maléficas de animais vivos ou mortos, uma receita era tiro e queda: bastava aspergir o paciente ou a sua parte afetada com três ramos de funcho embebido em vinho, recitando-se: "Eu te bendigo, eu te disciplino / com três raminhos de funcho / com vinho tinto do Ribeiro / com a graça de Deus”. Para casos mais complexos, usam-se ramos de funcho e de alho. Aí, não há mau olhado que resista. Nunca se esquecer de embeber os ramos em vinho. O tratamento deve durar nove dias, dando-se ligeiros golpes uma vez ao dia ou, se necessário, duas vezes, antes de o sol nascer e logo após o crepúsculo.
Quanto a mim, não preciso estar doente pra gostar de um bom vinho. Em vez de ervas, um queijo curado. Para os males da alma: boa companhia. Amém.
28 fevereiro, 2005
PAPO DE CINEMA
- O Israel Barros me pergunta: Jura que você gostou do The Vilage e to The sixth sense?
- A Luma e o Edgar comentaram sobre a escolha de Antônio Banderas para interpretar Al otro lado del río, que acabou ganhando o Oscar de melhor música de filme estrangeiro.
- O Bia cobrou: e a nicole tá ótima, vai dizer?
- A Lara pergunta: Scarlett Johanson é a moça de "Encontros e Desencontros"?
- O Allan, da Itália, disse que não se empolga com a festa do Oscar e acrescenta: Fico mais emocionado quando vejo, por exemplo, o blog Ontem e Hoje indicado como um dos blogs da semana no Inagaki.
27 fevereiro, 2005
OUT OF OSCAR OU PORQUE NÃO FUI À FESTA EM HOLLYWOOD
1- Moça com brinco de pérolas (Girl with a Pearl Earring) de Peter Webber. Conta um episódio da vida do pintor Johannes Vermerr, holandês, séc XVII. A atriz Scarlett Johansson desempenha o papel da criada (Griet), representada no quadro que dá nome ao filme.
2 – Dogville, de Lars von Trier é imperdível, um dos melhores que já vi. A sobriedade do cenário ressalta a expressão dos atores, com diálogos bem desenvolvidos. Uma história impressionante. A protagonista é Nicole Kidman.
- Do diretor M. Night Shyamalan, vimos três filmes excelentes:
3 - A Vila (The Village) - uma cidade vive um pesadelo por causa de um segredo. O isolamento e paranóia aterrorizam os habitantes. Até que...
4 - Sinais (Signs) - uma boa trama de suspense, com alguns recursos fantasiosos em tornos de extra-terrestres. Vale a pena ver.
5 - O sexto sentido (The sixth sense) – O mais antigo (1999) e o melhor de todos! Surpreendente!
Então, já sabem, ao sentirem minha ausência na hora da premiação, lembrem-se:
- 'tou aqui, quietim, no meu cantim, comendo pipoca e tomando cafezim. Com queijim, uai!
- Agora podem curtir umas fotos que ando batendo por aí. Se quiserem mais, clique em "more of clcosta's photos". Que tal?
20 fevereiro, 2005
O blog do Soié
Telefonei-lhe para dar os parabéns e ele se nostrou satisfeito demais, impressionado com a aceitação de suas histórias, casos, lembranças... A família (netos e netas, sobrinhos e sobrinhas, filhos, cunhadas, todos estão comentando a disposição do Soié e de sua eterna namorada Aparecida, que ficam trocando idéias, matutando sobre "qual história vamos contar agora?".
Não é por corujice ou pieguice que fico feliz. Minha maior felicidade é vê-los felizes, entretidos com o exercício da escrita, da memória, vivazes e sempre bem humorados. A duplinha Soié-Aparecida é assim mesmo: não deixam a peteca cair; a vida inteira devotados um ao outro e a nós, filhos e filha.
Papai já foi seleiro (alguém sabe o que é isso? Pois é, fazia selas para cavalos, em seu tempo de rapaz. Ele tinha uma Selaria!). Depois trabalhou na Empresa de Correios e Telégrafos (ECT), como telegrafista e outras funções. Ele e mamãe estiveram à frente da Contadoria Judicial do Fórum de Nova Era-MG, foram donos de bar, o "famoso" e inesquecível Soié Bar. Já foi Juiz de Paz (fazia casamentos e mais casamentos). Ambos ministraram cursos preparatórios para noivos. Após a aposentadoria, viajam pelo Brasil a fora: Rio, Fortaleza, Poços de Caldas, Porto Seguro... juntos com a "Turma da Feliz Idade", pessoal animado lá de minha terra...
Pelo Ontem e Hoje passaram inúmeros blogueiros, ilustres, de perto e de longe, deixando comentários elogiosos, dizendo-se felizes por conhecerem a figura do Soié.
Como filho, sinto-me, igualmente elogiado. Será isso impróprio?
Agradeço, aqui, as recomendações da Cora Rónai, do Idelber Avelar (USA). Tantas pessoas que é impossível listar todas.
Mesmo conhecendo meu pai, estou, eu mesmo, surpreso. Aliás, sem surpresas, a vida é um tédio, não?
18 fevereiro, 2005
O CÓDIGO DA VINCI: nota 4, em 10
As resenhas falam que o romance(?) é genial e que vendeu mais de 15 milhões de exemplares. Há 43 semanas ocupa o primeiro lugar na lista dos Mais Vendidos na revista Veja!
Acho que estou atrasado em falar do livro: pelo menos 15 milhões o leram antes de mim; na internet/blogs há milhares de sites/posts e, quando comento, todo o mundo diz que já leu! I´m the last reader.
Outro dia, deixei meu carro num estacionamento próximo à Santa Casa, em Belô. O tomador-de-conta, ao ver-me com o Código, comentou:
- Ah! já li esse aí, é muito bom. O senhor já chegou na hora da Maria Madalena?
- Sei...
- Será que é verdade?
- Anh?
- Todo o mundo engana a gente, até o Papa, o senhor vai ver lá.
- É?
- E dizem que o vão fazer um filme com o Tom Hanks.
- Humm..
[Eu devia estar de ótimo humor!]
Pensei comigo: talvez o filme seja melhor que o livro. Se escolherem bem a trilha sonora, vai arrebentar! Por que?
Porque é exatamente isso: um roteiro esquemático, amarradinho, tudo acontecendo em pouco mais que uma noite. Apenas ação frenética, suspense, cortes em momentos de maior tensão, soluções quase mágicas, reviravoltas... Um Indiana Jones mais pretensioso. Um Lara Croft sem explosões espetaculares. Um thriller policial metido a besta. Devem colocar uns cantos gregorianos...
Se me perguntam se estou gostando, digo: "Embora não seja literatura, é um bom divertimento."
Li durante horas, numa fila, e o tempo passou rapidinho. Além do mais, estimulou-me a pesquisar alguns temas em torno dos quais a trama se desenrola - evangelhos apócrifos, criptografia, pentagramas... - e isso que me enriquece.
Mas acho que não merecia estar na lista dos mais vendidos. Enfim, moda é moda!
16 fevereiro, 2005
AL OTRO LADO DEL RÍO
Jorge Drexler é um uruguaio de 40 anos, que deixou a profissão médica - era otorrinolaringologista - para se dedicar à música. "Fui convidado pelo cineasta Walter Salles, que deixou um recado em minha secretária eletrônica", conta o compositor. "Até hoje não conheço o diretor, pessoalmente."
A letra é totalmente integrada ao espírito do filme: uma travessia feita pelo jovem Che Guevara - também médico - que se transforma a partir da viagem pela América Latina:
AL OTRO LADO DEL RÍO
Clavo mi remo en el agua
llevo tu remo en el mío.
Creo que he vista una luz
al otro lado del río.
El día le irá pudiendo
poco a poco al frío.
Creo que he vista una luz
al otro lado del río.
Sobre todo, creo que
no todo está perdido.
Tanta lágrima, tanta lágrima,
y yo soy yn vaso vacío...
Oigo una voz que me llama,
casi un suspiro:
Rema, rema, rema!
En esta orilla del mundo
lo que nos es presa es baldio.
Creo que he visto una luz
al otro lado del río.
Yo, muy serio, voy remando,
y muy adentro, sonrío.
Creo que he visto una luz
al otro lado del río.
14 fevereiro, 2005
D I V I S A
Mais importante do que a ciência, é o seu resultado,
Uma resposta provoca uma série de perguntas.
Mais importante do que a poesia, é o seu resultado,
Um poema invoca uma centena de atos heróicos.
Mais importante do que o reconhecimento, é o seu resultado,
Mais importante do que a procriação é a criança.
Mais importante do que a evolução da criação é a evolução do criador.
Em lugar de passos imperativos, o imperador.
Em lugar dos passos criativos, o criador.
Um encontro de dois : olhos nos olhos, face a face.
E quando estiveres perto, arrancarei teus olhos
E os colocarei no lugar dos meus;
Para colocá-los no lugar dos teus
Então ver-te-ei com os teus olhos
Assim, até a coisa comum serve ao silêncio
E o nosso encontro permanecerá a meta sem cadeias:
Um lugar indeterminado, num tempo indeterminado
Uma palavra indeterminada para um homem indeterminado.
J.L.Moreno, pag 3, publicado em Viena, l.914]
12 fevereiro, 2005
Make love, not war
das Forças Armadas para entregar uma pizza à namorada, também do Exército,
conforme informação do Ministério da Defesa
Ao invés de jogar bombas, os helicópteros entregam pizzas e flores. Das bocas dos canhões são lançadas pétalas de rosas, flores silvestres. Ao reprimir passeatas, a polícia atira bombas perfumadas, sprays de aromas diversos, de acordo com o gosto dos manifestantes. Ah! tudo pode acontecer num mundo assim.
Nos finais de semana, as viaturas policiais transportam os cidadãos aos campos, onde piqueniques acontecem ao som das sirenes - que não apitam nem azucrinam, mas tocam "A Pastoral" de Beethoven.
No 7 de setembro, as bandas militares executam cirandas, enquanto os soldados dançam e os generais recitam poesias, sonetos de amor de Vinicius de Moraes, românticos, românticos... No Independence Day, desfilam os bonecos da Disney, ao som de jazz, blues, Gershwin, enquanto os F-16 escrevem no ar: Peace and Love...
A guarda-feminina, de sapatilha, apresenta minuetos e balés. Os traficantes traficam bombons, chocolates, balas, doces de cidra e outras iguarias.
Israelenses e palestinos ocupam a faixa de Gaza para plantar tulipas, disputam as cores mais inusitadas e se inebriam de jasmim. Os homens-bomba explodem champagne, que servem a borbulhar nas taças transportadas pelos C-130 da US Air Force.
- ACORDA AÍ, Ô CARA!!!
09 fevereiro, 2005
Evoé, Baco! Falando de uvas e de vinho.
A primeira safra, mirrada, quase desanimadora, ocorreu em 2004. Mas agora, em janeiro, é hora de cantar: Evoé, Baco!
Assim, as uvas: as parreiras parecem morrer e, de repente, eis que brotam exuberantes, cheias de vida. Aos poucos, os cachinhos vão se formando, amadurecem e... chega a hora da vidima.
Finalmente, a primeira safra de verdade aconteceu. As uvas já foram devidamente esmigalhadas e, agora, repousam em lenta fermentação nos tonéis. A adega recende o aroma de vinho fresco pelos corredores do vetusto Colégio, anunciando um vinho encorpado a partir das uvas Bordeaux e um rosé mais suave com as uvas Niágara.
08 fevereiro, 2005
Rápidas e rasteiras
Hora de dormir — dormir!
Hora de vadiar — vadiar!
Hora de trabalhar?
— Pernas pro ar que ninguém é de ferro!
a) Na "beira-rio", patrocinada pelo povão, a festa é animada por uma banda mais popularesca, de 22h às 5h da madruga. A cidade inteira escuta e... dorme(?).
b) Na rua "do comércio", bandas locais - bem rebimbas - tentam animar o povo. Tocam a partir das 15h, no domingo e na terça-feira
c) Na segunda, o mais interessante: sai a Bandinha dos Farrapos, saborosamente descrita pelo Ismael Cirilo no recém criado Ontem e Hoje.
Ismael, nascido em 1923, é nada mais nada menos que meu pai, Soié, o espirituoso! Deverá entrar para o Guiness Book como o blogueiro mais idoso do cyber-space... Façam-lhe uma visitinha, deixem comentários, incentivem-no! Na foto acima, brinda a sua "namorada" Aparecida, companheira há 57 anos!
d) Há o bloco Boca de Gole: os rapazes da nata da sociedade local (êpa!) se vestem de mulher, enchem a cara e desfilam suas belezas pelas ruas do centro. Há cada menina linda, só vendo! Os figurinos vão da meia arrastão, sutiãs recheados com limão ou laranja (dependendo do gosto do freguês), perucas drag queen ao salto alto e batom, muito batom.
Este escriba, nos tempos áureos, em gozo de plena beleza (!!!), já desfilou carregando filho no braço e experimentando o outro lado - sem chegar às últimas consequências, pois que o papai aqui é ôme com Ó maiúsculo, uai!
e) No domingo, apenas uma escola de samba desfilou. Não se compara aos G.R.E.S. da Sapucaí, mas as calçadas ficam apinhadas de espectadores. É quando as janelas da casa de meus pais se transformam em camorotes vips, de onde assistimos tudo. O destaque da Unidos do Manjaí, negão de dois metros de altura, desabou em pleno sambódromo: as cachaças o derrubaram, bem à nossa frente. Caiu como uma jaca. Sob a fantasia de plumas arriou, até que a namorada, solícita, o levasse. Um fim melancólico: glória efêmera, abreviada em meio à folia.
Qual fênix, retorno ao trabalho.
Sem exagero:
ninguém é de ferro!
03 fevereiro, 2005
Carnaval radical
Já que ninguém é de ferro, prevendo mais de um mês sem ingestão de carne, o que fazer? Vamos comer tudo a que temos direito, agora, já!
Se muitos botam, outros despem as fantasias mantidas durante o ano todo (bom moço, boa moça, funcionário certinho, marido fiel, esposa dedicada), jogam tudo pro alto, ligam o botão foda-se e se apresentam tal qual são, ou como gostariam de ser. E tudo volta ao normal na quarta-feira.
Bem, na quarta-feira de cinzas é tempo de se lembrar de que ao pó retornaremos: Memento homo quia pulvis es et in pulverem reverteris.... Até as estátuas, um dia, voltarão ao pó!
Assunto chato, esse!
Se você leu até aqui, nem precisa ler o que o Frei Betto escreveu em sua crônica semanal no EM. É um carnaval bem radical, o que ele propõe, não acha? Olhacá:
31 janeiro, 2005
Para corações e mentes
Receita pra lavar palavra suja
Mergulhar a palavra suja em água sanitária.
Depois de dois dias de molho, quarar ao sol do meio dia.
Algumas palavras quando alvejadas ao sol
adquirem consistência de certeza. Por exemplo a palavra vida.
Existem outras, e a palavra amor é uma delas,
que são muito encardidas pelo uso, o que recomenda esfregar
e bater insistentemente na pedra, depois enxaguar em água corrente.
São poucas as que resistem a esses cuidados, mas existem aquelas.
Dizem que limão e sal tira sujeira difícil, mas nada.
Toda tentativa de lavar a piedade foi sempre em vão.
Agora nunca vi palavra tão suja como perda.
Perda e morte na medida em que são alvejadas
soltam um líquido corrosivo, que atende pelo nome de amargura,
que é capaz de esvaziar o vigor da língua.
O aconselhado nesse caso é mantê-las sempre de molho
em um amaciante de boa qualidade. Agora, se o que você quer
é somente aliviar as palavras do uso diário, pode usar simplesmente
sabão em pó e máquina de lavar.
O perigo neste caso é misturar palavras que mancham
no contato umas com as outras. Culpa, por exemplo,
a culpa mancha tudo que encontra e deve ser sempre alvejada sozinha.
Outra mistura pouco aconselhada é amizade e desejo, já que desejo,
sendo uma palavra intensa, quase agressiva, pode,
o que não é inevitável, esgarçar a força delicada da palavra amizade.
Já a palavra força cai bem em qualquer mistura.
Outro cuidado importante é não lavar demais as palavras
sob o risco de perderem o sentido.
A sujeirinha cotidiana, quando não é excessiva,
produz uma oleosidade que dá vigor aos sons.
Muito importante na arte de lavar palavras
é saber reconhecer uma palavra limpa.
Conviva com a palavra durante alguns dias.
Deixe que se misture em seus gestos, que passeie
pela expressão dos seus sentidos. À noite, permita que se deite,
não a seu lado mas sobre seu corpo.
Enquanto você dorme, a palavra, plantada em sua carne,
prolifera em toda sua possibilidade.
Se puder suportar essa convivência até não mais
perceber a presença dela,
então você tem uma palavra limpa.
Uma palavra limpa é uma palavra possível.
30 janeiro, 2005
26 janeiro, 2005
Tá olhando o quê?
Há muitos anos, o quadro (na verdade, um grande painel) ornamentava uma das paredes do refeitório do Colégio - hoje hospedaria, reserva natural protegida, centro de cultura -.
Durante as refeições, fixava-me, principalmente, no semblante de Judas Iscariotes, o apóstolo que indicou aos soldados romanos quem seria o subversivo pregador denominado Jesus.
Judas aparece em primeiro plano, um pouco à direita, a segurar firmemente um saco de tecido, dentro do qual repousavam os "trinta dinheiros" recebidos pela traição.
A ceia à qual compareceram os 12 apóstolos é chamada de Última Ceia e teria ocorrido na quinta-feira. Ainda não havia se consumado o gesto traidor: a prisão ocorreria no dia seguinte, dando início à Paixão.
Judas é o único personagem daquela cena que não tem os olhos voltados para o Messias. Estava muito preocupado, temeroso de que fosse desmascarado. Sua face vigia o espectador! Encara-nos de frente. Sua paranóia é captada pelo virtuosismo do Mestre Ataíde através de um efeito extraordinário: em qualquer posição que fiquemos - mais ao lado, à direita ou à esquerda do quadro, não importa - acompanha-nos com o olhar vigilante. Ainda criança, eu andava de um lado para o outro, agachava-me, olhava de soslaio ou de repente: o traidor me seguia, era impossível surpreendê-lo!
Uma vez, pensei: Hoje eu tiro a prova! Chamei um colega e nos dividimos: ele à esquerda, eu bem à direita. E aí, o Judas está olhando prá você? perguntei-lhe. Pois não é que estava? Simultaneamente me vigiava, também. Nós nos aproximamos vagarosamente do centro do quadro e ambos éramos acompanhados pelo traidor.
Esta foi uma das primeiras e significativas experiências estéticas de minha vida.
O mistério daquela obra de arte se repetiu em algumas igrejas de Ouro Preto, admirando outros quadros com o mesmo efeito. Será uma especialidade dos pintores barrocos?
A tela foi restaurada pelo Instituto do Patrimônio Histórico de Minas Gerais e se encontra na lateral esquerda da nave principal da Igreja de Nossa Senhora Mãe dos Homens. O Judas não perdoa: a todos vigia. Paranóico ele. Ou nós?
23 janeiro, 2005
Vade Retro!
Tomei um taxi.
Percebi logo um odor de incenso, muito forte. O motorista fez o sinal-da-cruz, beijou um crucifixo e, dando partida, murmurou: - Vade Retro, Satanas.
- O que disse?
Não queria que o tivesse escutado, pois respondeu, defensivamente: - Nada não, senhor!
Insisti, até que começou a contar:
- Peguei essa mania há muito tempo, desde quando nem existia este aeroporto. É uma formula que utilizo para espantar os fantasmas noturnos.
- Por acaso tenho cara de fantasma?
- Não, é claro que não, embora a gente nunca possa ter certeza. O senhor me desculpe, mas comigo aconteceram algumas coisas muito estranhas e não posso deixar de me prevenir. Vou explicar: da primeira vez, eu trabalhava com um Opala Chevrolet. Meu pai ficava com o carro durante o dia e eu, por ser mais novo, pegava à noite. Numa sexta-feira, noite fria de junho, descia a Avenida Afonso Pena bem devagar, procurando passageiros. Naquela época, havia muitas árvores, a iluminação era fraca e os ônibus demoravam a passar. Pois foi exatamente num ponto, pertinho da Praça Tiradentes, que uma mulher acenou. Era alta, loura, usava sapatos altos e estava vestida como se fosse para uma festa. Achei estranho, pois as mulheres daquele tipo não andavam sozinhas, só as putas, o senhor entende. Mas não tinha cara de puta, de jeito nenhum.
Abri-lhe a porta. Ela entrou e, com ela, um perfume que nunca havia sentido:
- Leve-me à Rua Mariana, no Carlos Prates.
"Deve ser uma delas", pensei, pois naquela região havia umas casas de mulheres suspeitas, ou da vida, como diziam. Não puxei assunto, nem ela falou nada. Apenas aquele perfume do qual nunca mais esqueci. As tais casas ficavam no início da Rua Mariana, mas ela pediu para tocar em frente. Fui subindo devagar, esperando que me mandasse parar. Até que chegamos, sabe onde? Em frente ao Cemitério do Bonfim.
"Pare aqui", disse, com voz ríspida.
Olhei o taxímetro e dei o preço. Ainda era em cruzeiros, o senhor se lembra?
Pois a dona me deu uma nota de cinco mil, para pagar uma corrida de dois e quatrocentos. Abri minha carteira para pegar o troco e, quando me virei, o banco de trás estava vazio! "Cadê a mulher?", perguntei a mim mesmo. Estremeci, pois o perfume foi substituído por um cheiro forte de enxofre. Olhei para fora e vi o portão do Bonfim fechando-se lentamente, mas não vi ninguém, nenhuma alma. Deu-me uma tremedeira danada... Gritei: "Valha-me São Cristóvão!" É o padroeiro dos motoristas, sabia? Acelerei o carro, nem olhei prá trás.
Desde aquele dia, sempre faço minhas orações. Depois que aprendi a fórmula do exorcismo com um padre, então fiquei mais seguro. Por isso, o senhor me desculpe, não tem nada a ver com o senhor, por isso, toda vez que entra qualquer passageiro no meu taxi, já me previno: "Vade retro, Satanas". O senhor vai prá onde, mesmo?
Respondi, com um sorriso diabólico:
- Rua Mariana, por favor...
[A lenda da Loura do Bonfim alimenta o imaginário belorizontino desde a década de 50. Já virou filme. Eu aumento, mas não invento.]
22 janeiro, 2005
Os putos
Os putos
Uma bola de pano, num charco
Um sorriso traquina, um chuto
Na ladeira a correr, um arco
O céu no olhar, dum puto.
Uma fisga que atira a esperança
Um pardal de calções, astuto
E a força de ser criança
Contra a força dum chui, que é bruto.
Parecem bandos de pardais à solta
Os putos, os putos
São como índios, capitães da malta
Os putos, os putos
Mas quando a tarde cai
Vai-se a revolta
Sentam-se ao colo do pai
É a ternura que volta
E ouvem-no a falar do homem novo
São os putos deste povo
A aprenderem a ser homens.
As cáricas brilhando na mão
A vontade que salta ao eixo
Um puto que diz que não
Se a porrada vier não deixo
Um berlinde abafado na escola
Um pião na algibeira sem cor
Um puto que pede esmola
Porque a fome lhe abafa a dor.
[José Carlos Ary dos Santos]
1. Puto = s.m. menino, filho, criança
2. Fisga = s.f. instrumento pontiagudo, semelhante ao arpão
3. Chuto = s.m. chute
4. Chui = s.m. guarda civil; polícia ¤ uso ger. pejorativo ¤ etim orig.obsc. ¤ sin/var ver sinonímia de policial
5. Cárica = s.f. bagas freq. comestíveis, como o mamão; das plantas do gên. Carica
6. Berlinde = 1: bolinha de vidro ou pedrinha redonda e lisa us. num jogo infantil; bola de gude. 2: p.met. jogo praticado com essas bolinhas; gude ¤ etim orig.obsc. ¤ sin/var belindre; ver sinonímia de gude
20 janeiro, 2005
Os Sonhos Não Envelhecem
Seus últimos posts, principalmente o comentário sobre o mais recente CD de Toninho Horta, motivaram-me a recomendar o delicioso livro: "Os sonhos não envelhecem: histórias do Clube da Esquina", de Márcio Borges, um dos parceiros de Milton Nascimento. Márcio pertence à "família Borges, que abrigou Milton Nascimento logo após sua chegada a Belo Horizonte. Essa turma criou o famoso Clube que abrigou talentosos artistas das alturas das Minas Geraes.
É uma viagem no tempo, na música, na mineiridade. Os personagens caminham por uma Belo Horizonte quase inocente, naqueles anos sessenta e setenta. Havia a Ditadura e havia a resistência. Um tempo de perplexidades e descoberta do mundo. Bituca - Milton - fora acolhido pelos Borges, que moravam bem no centro da capital mineira, num apartamento em que a música era o pão-nosso-de-cada-dia.
Márcio Borges vai desfiando história como quem conta causos, descrevendo o surgimento de canções inesquecíveis e emblemáticas como Travessia, lançada no Maracanãzinho: "Solto a voz nas estradas / já não posso parar / meu caminho é de pedra..."
De repente, me vi incluído no livro! Não, não participei do Clube da Esquina, mas minha cidade natal, Nova Era, aparece como um dos lugares onde foi criada uma das músicas maravilhosas daquele pessoal. É o Márcio quem conta:
Fazia um céu límpido de um azul suave e luminoso. Comecei a cantarolar a melodia baixinho, aconchegado ao colo de minha namorada. Embalado pelo balanço do ônibus, entrei num devaneio desses em que os elementos da natureza se nos afiguram extraviados de sua essência, fazendo, de repente, uma nuvem tornar-se o perfil de um gigante ou, quando faltam nuvens, transformando o próprio céu num oceano profundo e siolencioso, e se acaso uma ave corta nosso campo de visão, ela é adornada pela imaginação com os atributos de um peixe voador ou os de um iate de velas içadas ao vento, e se o devaneio vai além, podemos sentir o balanço do mar e até mesmo enjoar, ou ter vertigens. Nesse peculiar estado de vigília, recebi uns versos que fui fazendo encaixar na melodia que trauteava quase sem ruído: Vento solar e estrela do mar / a terra azul da cor de seu vestido... E repetia uma variante: Vento solar e estrela do mar / um girassol da cor de seu cabelo.
Foi um final de semana inesquecível. Passeei com Duca pelos campos, namoramos numa casa semi-abandonada da Fazenda Japuré, pertencente ao tio. Quando voltamos para Belo Horizonte, domingo de tarde, "Um Girassol da Cor de Seus Cabelos" estava prontinha. Outra vez, dentro do ônibus, cantei para ela a música inteira: Vento solar e estrela do mar / a terra azul da cor do seu vestido...
Ler "Os sonhos" e um presente que você poderá se dar. Depois, me conte.
17 janeiro, 2005
Apocalypse Now
Não resisti à provocação. Envei um relato verídico, com algumas modificações exigidas pela Ética Médica, garantindo o sigilo profissional. Já saiu lá publicado. Os relatos são curiosos. Conquanto despretenciosos, são verdadeiros estudos psico-sócio-antropológicos oferecidos pela observação cotidiana. Mais que curiosos são instigantes. O ser humano é tão cheio de possibilidades e a singularidade de cada um é tão absoluta que, afinal, onde estará a fronteira entre o normal e o patológico? Já dizia o Caetano, com propriedade: De perto, ninguém é normal! Anime-se a colaborar.
Aqui está minha contribuição, que espero seja a primeira de uma série.
João Antônio tinha trinta e três anos e uma certeza: era o Cristo que retornara para julgar os vivos e os mortos.
- É... o Cristo do Apocalipse, conhece, doutor?
E desfiou as razões que fundamentavam sua certeza, tal um matemático demonstra um teorema ou um filósofo deduz com silogismos perfeitos.
Primeiramente, a idade.
- Trinta e três anos tinha o Cristo quando foi crucificado e eu aqui estou continuando sua trajetória terrena.
- Além disso, o número do medidor da companhia de eletricidade em minha casa termina com uma sequência de seis, a da Besta do Apocalipse: 666. Descobri quando fui fazer uma reclamação na CEMIG e tive de anotá-lo. Foi uma mensagem, um sinal. Um Sinal, com S maiúsculo, sabe, doutor? A gente precisa ler os sinais, decifrar os códigos que estão à nossa volta, como fez Nostradamus.
- E mais: nasci no Brasil, cujo nome primeiro foi Terra da Santa Cruz. A cruz é a síntese: cruzamento do horizontal com o vertical, tempo e espaço. Pois o meu sobrenome, o senhor já anotou aí, é da Cruz. João Antônio da Cruz. Outro dia, uma kombi parou de repente num cruzamento. Bati na traseira e já saí gritando seu estúpido, por que parou sem avisar? O motorista saiu sorrindo, na maior calma. Vestia uma camiseta de crente, na qual estava escrito Jesus te ama. E a placa daquela kombi era: JAC-1972. Era a o ano de meu nascimento e minhas iniciais, doutor! Só não vê quem não quer.
- Você é quem diz, João Antônio.
Outras provas foram descritas, fundamentadas em fatos vivenciados e interpretações que eu chamaria de delirantes.
João insitiu mais uma vez:
- Vou perguntar de novo, ou o senhor responde ou Deus mesmo enviará um sinal. O senhor acredita?
Neste exato momento, uma pomba, das muitas que infestam os arredores, pousa sobre o peitoril da janela.
- Tá vendo? Nem precisa responder. Eis o sinal. Quando chegar a hora, o senhor saberá.
15 janeiro, 2005
Um sábado como convém
2 - Já pensando no almoço, Amélia retirou o salmão da geladeira: só filé, sem pele, para descansar um pouco.
4 - A avenida Pedro II liga o centro à região noroeste, repleta de oficinas mecânicas, lojas de peças automotivas (novas e usadas), ferros velhos, capotaria, lojas de radiadores, conserto de pára-choques, espelhos, retrovisores, rodas... Verificar preço e condições para reparo do radiador tomou tempo, mas aprendi muito! Na segunda-feira o destino certo: deixo o carro pela manhã e o recebo à tarde, por R$ 170,00. Um radiador novo cutaria muito mais.
5 - Hora de preparar o salmão: envolvo-o com um pouco de tempero para peixe adquirido no Mercado Central, à base de pó-de-limão, sal e ervas.
Descasco 3 batatas grandes, partindo-as em rodelas de 5mm que ponho a cozinhar al dente. Num refratário, repousa o filé sobre quatro das rodelas, ainda cruas.
Salpico pimenta-do-reino, manjericão, cebola picadinha e orégano, tudo regado com azeite extra-virgem, sem dó nem piedade. As batatas, após o brevíssimo cozimento, servirão de moldura ao peixe. Também sobre elas, um pouco de azeite, sal e orégano. No forno, bastam 15 minutos.
6 - Neste momento, o aroma delicioso invade a casa e as narinas do Léo, outro filho:
"- Tá pronto, pai?". Colabora preparando a mesa, com pratos grandes, talheres, uma garrafa de Merlot da Casa Rivas, chileno, safra de 2002, previamente esfriado.
7 - Amélia finaliza o arroz cozido na panela de pedra, à moda mineira: branquinho, soltinho, enfeitado com salsinha. A salada também é por conta dela, que chama:
"- Benhê, está na mesa!"
8 - É servido?