21 março, 2005

EDUCAR É DESILUDIR

O Idelber Avelar é um dos mais lúcidos blogueiros que conheço. O cara é professor universitário em Tulane, nos EEUU há anos. Fala - e bem - de literatura, política, música, cultura em geral e... Clube Atlético Mineiro! Seu Biscoito Fino e a Massa é um dos blogs mais visitados, antes mesmo de completar 1 ano. Ou seja, se você não o conhece, saiba que está perdendo.
Desde o dia 18 passado, há menos de uma semana, começou uma enquete acerca da hipótese de considerarmos a opção de voto nulo, nas eleições de 2006. Tá dando pano prá manga! Eis as reflexões iniciais do Idelber:
1) o voto nulo, como movimento organizado da sociedade civil, pode ser uma forma legítima para que o eleitorado expresse seu descontentamento com a progressiva desaparição de toda a diferença entre os projetos políticos colocados na mesa;

2) o atual governo completa 27 meses não tendo melhorado nem um único
mísero índice social, tendo aplicado a mesmíssima receita ortodoxa, monetarista e concentradora de renda do governo anterior e utilizado todos os seus métodos mais fisiológicos, inclusive com extensa evidência de acobertamento de crimes;

3) o Partido do Trabalhadores chega ao cabo de um processo de liquidação completa de sua democracia interna;

4) o quadro partidário brasileiro mostra a consolidação de dois blocos (PT junto com PL, PP, PC do B e PTB, do outro lado PSDB junto com PFL e PDT, com migalhas do PMDB caindo dos dois lados) absolutamente idênticos em sua política econômica, prática política e pautas (não)éticas;

Considerando tudo isso, não espanta que vários setores da sociedade civil e da blogosfera, incluindo o Biscoito Fino e a Massa, estejamos considerando participar de uma campanha cívica pelo voto nulo de protesto em 2006, não só para presidente como para os cargos legislativos também.

Não me cobrem, por favor, que eu saiba de antemão o que se conseguiria com uma acachapante, escandalosa porcentagem de votos nulos em 2006. Não sei. Mas uma multidão votando nulo de forma organizada pode produzir algum movimento.

Caso você seja contra, por favor poupe-me do cliché de que é importante votar em Lula para que a “direita” não volte ao poder. A direita está no poder. Se for criticar a iniciativa, eu sou todo ouvidos (ainda estou tomando minha decisão), mas apresente um argumento mais inteligente.
Eu confesso que morro de curiosidade: Você está também considerando a possibilidade de anular seu voto em protesto? Você participaria de uma campanha pelo voto nulo? Seria receptivo a ela?

Trata-se de uma questão muito importante.
Todos somos educados, desde a infância, a acreditar na força do voto para o exercício da democracia e que cabe aos políticos garantir e proporcionar condições de vida mais igualitárias para o cidadão. Pensar em voto nulo é quase uma heresia - na verdade, o Idelber não propõe o voto nulo, apenas traz à baila essa possibilidade, como protesto contra a continuidade da política neo-liberal pelo governo Lula. Idelber afirma:

Mas não acho que a decepção seja uma questão de “falhas” ou “falta de coragem” ou “de vontade” do governo (...) Para este blogueiro houve traição profunda.
Já andei dando meus pitacos na caixa de comentários do Biscoito Fino, assim como têm feito outras pessoas muito mais importantes do que este pobre escriba: Por exemplo, o Rafael Galvão, cujo post "Sobre o voto nulo" merece ser lido.
H
No post de hoje, Idelber apresenta uma palavra importante: desencanto. Desencanto = perder o encanto.
O que é "encanto"?
Entre as 4 acepções propostas pelo indefectível Houaiss, escolho duas nas quais destaco a segunda:
a) quem ou o que agrada, atrai, deslumbra por suas qualidades (p.ex., beleza, inteligência, simpatia);
b) palavra, frase ou qualquer outro recurso que supostamente possui poderes mágicos de enfeitiçar; encantamento .
Tá na hora de deixarmos de acreditar em mágica, em encantos, na política.
Lembro-me da definição para "educação", feita pelo inglês Winnicott: educar é desiludir.
Que bom que o povo se desiluda, se desencante e passe a engajar-se mais nas discussões e ATUAÇÕES pela melhoria da vida. Iludir-se com políticos e encantar-se com suas pirotecnias? Não!
Há muitas AÇÕES que poderiam ser adotadas pela população (ou seja, por nós mesmos) no sentido de cobrar mais, agir mais, nos organizarmos melhor, etc. Inclusive, esta discussão proposta pelo Idelber, que está trazendo à consciência de todos que é preciso nos envolvermos mais e mais nas questões políticas, ao invés de ficarmos alienados, encantados e seduzidos por discursos demagógicos (deste e de todos os governos e de quase todos os políticos. Ou de todos?
Apesar do "desencanto" de muitos com o governo Lula, com a política econômica e fiscal draconiana (tudo vale para controlar a inflação e "acalmar" o mercado - leia-se: os detentores de riqueza), a última pesquisa do Instituto Sensus, feita em fevereiro/05, aponta Lula como vencedor das eleições presidenciais em 2006, por ampla maioria, em tcinco cenários diferentes apresentados ao entrevistado:

PRESIDENTE 2006 – 1º Turno

LISTA 1

FEV 05

%

Lula

46,5

Anthony Garotinho

14,3

Aécio Neves

11,1

César Maia

6,6

Outros

,5

Indecisos/Branco/Nulo

21,2

Total

100,0

PRESIDENTE 2006 – 1º Turno

LISTA 2

FEV 05

%

Lula

45,2

Anthony Garotinho

14,3

Geraldo Alckmin

12,9

César Maia

6,4

Outros

,7

Indecisos/Branco/Nulo

20,7

Total

100,0

PRESIDENTE 2006 – 1º Turno

LISTA 3

FEV 05

%

Lula

45,4

Anthony Garotinho

15,9

Tasso Jereissati

8,2

César Maia

7,3

Outros

,9

Indecisos/Branco/Nulo

22,5

Total

100,0

PRESIDENTE 2006 – 1º Turno

LISTA 4

FEV 05

%

Lula

44,4

José Serra

18,3

Anthony Garotinho

12,4

César Maia

5,4

Outros

,8

Indecisos/Branco/Nulo

18,9

Total

100,0

PRESIDENTE 2006 – 1º Turno

LISTA 5

FEV 05

%

Lula

45,4

Anthony Garotinho

13,8

Fernando Henrique

13,2

César Maia

7,0

Outros

,6

Indecisos/Branco/Nulo

20,2

Total

100,0

Será que o voto nulo impediria a reeleição de Lula? Quem e o que faria outro político eleito no lugar de Lula e, por suposto, de outro partido diferente do PT? O PT ainda é o PT? Será que o povo (nós, o povo) ainda temos esperança de que, num segundo mandato, Lula e seu governo cumpram as promessas de campanha?
A mobilização pelo voto nulo teria o poder de sensibilizar o atual governo e os políticos em geral? São perguntas para as quais não tenho resposta.

Mas ainda considero, talvez iludido e encantado, a importância do voto.
O nível da discussão está excelente e respeitoso. E você? O que acha?

20 março, 2005

PAPO ABERTO

O post sobre Psicodrama rendeu muitos comentários e algumas questões. Então vamos esticar o papo:

1. Os manos Clóvis e Sheila, que coordenam o Vida em Cena, disseram que sua troupe está a pleno vapor e que, brevemente, divulgarão em evento aberto ao público. Darei a notícia, aqui. Já o mano Ismael José, lá de Vitória-ES, filosofa: Viver é representar vários papeis.


A vida tem dessas coisas, temos que parar para nos encontrar.


não pra fazer bonito para os outros e sim por mim mesma. É isso aí, nem no Psicodrama se deve fazer bonito para os outros. Ser o que se é, eis a questão. Acontece que, quase sempre, não sabemos o que somos, pois não sabemos o que queremos. Afrodite, lembra-se do Desejar não é querer ?


4. Márcio Candiani, psiquiatra e atleticano, publica um blog no qual descreve seu trabalho no Centro de Convivência Carlos Prates. Tem fotos dos trabalhos manuais feitos pelos pacientes. Confira.


5. Ismael Cirilo, já famoso na blogosfera, publica seus “causos” originalíssimos vividos ao longo de seus 81 anos no Ontem e Hoje e deixou um recadinho simpático. Como sempre, elogiando o filho. Divirta-se com o último post: E a maré subindo! Subindo... Já sua neta, Ana Letícia, co-produtora do Mineiras, Uai!, já participou de algumas apresentações do Vida em Cena e reforça o belo trabalho do grupo. Seu último post, sobre CIÚMES no Orkut está muito interessante.


6. O Alexandre Inagaki, agradece a etiologia da palavra “papel” para designar o desempenho dos atores numa peça teatral. Sobre a vida e suas vicissitudes, acaba de produzir um post relevante. Não deixe de ler.


7. Alline disse que gostou do post. Tânia, do Ser somente mulher, também. Esta última acaba de replicar um texto do Jabor, que termina bem no espírito do Psicodrama: "A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso cante, chore, dance e viva intensamente antes que a cortina se feche". É isso aí.



11. Mônica, dona do confessional Monicômio, disse: Ter espontaneidade é uma coisa difícil, por questão de ferrugem, medo... Seu post de hoje está ótimo: “Sexismo é coisa chata”.


Muito interessante o post, Cláudio. Pensei numa questão. Erving Goffman, autor de "A representação do eu na vida cotidiana (The Presentation of Self in Everyday Life)", fala de "atuações" "cínicas" e "sinceras". Ou seja, posso ser "cínico" e manipular o significado de alguns elementos da minha atuação para provocar certos resultados na "platéia". Esse tipo de coisa estaria presente no psicodrama? Dá pra perceber e analisar quando alguém está tentando "manipular a situação"?


13. Reginaldo Siqueira, do polivalente Singrando, pergunta: Um terapeuta (ou psicólogo) trabalha em particular o resultado ao fim da apresentação? Geralmente, não. Se se trata de uma sessão “psicoterápica em grupo”, tudo é dito no grupo, durante a sessão. Faz parte do contrato. Numa apresentação do playback theatre, especialidade do Vida em Cena, aí, sim, dependendo do que foi abordado pelo espectador. Neste caso, porém, não se trata de psicoterapia!


14. E a Bete, do feminino Believe in Life, pontua: as pessoas adoram representar papéis. Por isso mesmo o Psicodrama é uma técnica muito utilizada. Ao “representar”, as máscaras se desmancham e o sujeito é surpreendido pelo ato impensado!


15. Tex Murphy, nome de pistoleiro do velho oeste que luta Por uma Vida Menos Ordinária, pergunta: a pessoa que se expõe em uma sessão de Psicodrama costumam aceitar numa boa a visão das demais sobre o seu problema? Pode até não gostar, mas não é pra isso mesmo que está ali?


16. E o Ricardo Brazooca concorda que realmente é difícil não perder a espontaneidade na vida. Por isso mesmo o Psicodrama existe. Seu criador, o Moreno tem uma frase espetacular: “Deus é espontaneidade, daí seu mandamento: SÊ ESPONTÂNEO!”


Bom Domingo!


16 março, 2005

ACALME-SE!

Muitas pessoas procuram o psiquiatra ou o psicoterapeuta com queixas de ansiedade acompanhada de sensações corporais desconfortáveis (desde falta-de-ar a "iminência de morte"). Em alguns casos, o diagnóstico se impõe: trata-se da famosa "síndrome do pânico" - de tão falada, virou moda e, para alguns, caiu no descrédito. Seus portadores, às vezes, são vistos com desdém. Para os reais sofredores, no entanto, há tratamentos específicos, nos quais a medicação se inclui.
Minha prática demonstrou que alguns esclarecimentos ajudam bastante. Ocasionalmente até dispensam o uso de drogas.
Eis a transcrição de um texto que costumo dar aos que considero capazes de bem aproveitar as instruções nele contidas:

1 - A "ansiedade paroxística aguda", também chamada “síndrome do Pânico”, é uma entidade clínica que consiste em crises agudas de ansiedade. Tem inúmeros sintomas, sendo esses os principais:
a) taquicardia
b) sudorese
c) falta de ar
d) formigamento das extremidades, câimbras
e) sensação grande de desconforto
f) sensação de morte iminente
g) dores abdominais
h) vista escura
i) medos
j) dificuldade em permanecer no local
k) desorientação (raro)
l) perda da conexão com a realidade (raro)

2 - o início dos sintomas geralmente é abrupto: de repente a pessoa é tomada pela ansiedade, sem um fator causal determinado. As crises ocorrem com freqüência, costumando chegar a várias vezes por semana! Por isso,o quadro pode ser incapacitante para o trabalho ou para a vida social.
3 - há crises que se desencadeiam em lugares públicos, com muita gente (restaurante, supermercado, praça pública): é o "transtorno de pânico com agorafobia"; as pessoas passam a evitar estes lugares, por causa do medo de ter medo!
4 - Para se enfrentar a "síndrome do pânico" é necessário que se tenha conhecimento dos processos fisiológicos da ansiedade e se tomem medidas práticas, como a seguir:
5 - Como se desencadeiam as sensações fisiológicas da ansiedade?
A partir do momento em que a crise é deflagrada, há uma ativação do sistema nervoso autônomo (simpático), ou seja, a pessoa começa a respirar mais rápido e menos profundamente (hiper-ventilação e hiper-respiração). Como conseqüência, diminui o nível de oxigênio no organismo, especialmente no cérebro, provocando uma sensação aguda de falta-de-ar (dispnéia). Os vasos sanguíneos periféricos se contraem, pois se desencadeia a reação de "luta e fuga", própria dos seres vivos, diante de qualquer ameaça (descarga de adrenalina). As mãos esfriam. O indivíduo fica pálido, com a boca seca, a garganta constricta. A baixa oxigenação (hipóxia) leva o coração a bater mais depressa (taquicardia) a fim de compensar a falta de oxigênio e prover o organismo do calor necessário à musculatura. Tanto a hiperventilação quanto a hiperventilação e a taquicardia, a temperatura corporal se altera, ocasionando suor frio e abundante (sudorese). Cria-se um círculo vicioso em que, cada vez mais, os sintomas se agravam, a sensação de falta de ar aumenta, o coração bate muito depressa, a sudorese aumenta e a pessoa tem a sensação de que vai morrer. Muitas pessoas buscam ajuda em pronto-socorro, pensando que estão tendo um enfarto. Um cliente meu relatou que foi parar 6 vezes no Sócor, nas últimas semanas. Chegou a ir para o CTI, onde os cardiologistas nada constataram de anormal. São apenas reações fisiológicas que, NÃO MATAM e constumam cessar rapidamente (entre 01 e 03 minutos)!
6 - Exercícios para controle da ansiedade aguda::
Bernard Rangé,terapeuta comportamental, propõe uma palavra chave: ACALME-SE. Ele fez um acróstico: A.C.A.L.M.E.S.E, que designa os 8 passos para controlar a crise:
1. Aceite sua ansiedade: trata-se de uma reação ao estresse, que não mata!
2. Contemple o mundo exterior: distraia-se, preste atenção a outra coisa fora de você, leia, cuide de uma planta, conte "ladrilhos", etc...
3. Aja com a ansiedade, não deixe de fazer o que tem a fazer.
4. Libere o ar de seus pulmões: respire calma e profundamente, para que você tenha bastante oxigênio, seu coração bata mais lentamente, as sensações fisiológicas de calor, sudorese, falta-de-ar, formigamento, tonteira, etc., passem aos poucos. Em geral, uma série de 16 (dezesseis) sequências de inspiração-expiração bem profundas e lentas são suficientes para, em 01 minuto, debelar a sensação de desconforto e o medo de morrer.
5. Mantenha os passos anteriores: consciência de si, controle da respiração...
6. Examine bem o conteúdo de seus pensamentos catastróficos: que prova você tem de que tudo de ruim e trágico vai mesmo acontecer? Você não está exagerando o mal-estar? Você tem consciência de como está, neste momento, sua respiração? (Quanto mais angustiada uma pessoa, mais insuficiente a respiração. Aqui, vale o inverso: Quanto pior a sua respiração, pior a sensação física de desconforto, medo, etc...). Reconheça sua capacidade de se auto-controlar.
7. Sorria, você está conseguindo!!! Até já conseguiu!
8. Espere o melhor: na medida em que você se exercitar dessa forma, as crises serão menos ameaçadoras. Com a ajuda do seu médico/terapeuta, as crises vão sendo controladas. Se for necessário, o médico lhe receitará algum medicamento.
Portanto: A C A L M E - S E !
[Apesar de parecer orientações simplórias e puramente sugestivas, há fundamentos fisiológicos para o papel da respiração no equilíbrio do organismo. Na angústia, está comprovado que a respiração se torna superficial. Aliás, a palavra angústia vem do latim ( ángor = aperto, constrição )]
Se você conhece alguém com os sintomas descritos acima, passe-lhe o texto. Ah! não custa dizer - e não é brincadeira: ao persistirem os sintomas, corra para o médico!!!

14 março, 2005

A VIDA EM CENA

A arte de bem viver está na proporção direta da capacidade de desempenharmos bem os diversos papéis que a vida nos exige.
Que é isso, representar papéis?
A palavra
“papel” tem sua origem no antigo teatro, quando os atores decoravam o texto que vinha escrito em pergaminhos, enrolados em bastões. Enquanto atuavam no palco, um leitor ia desenrolando o rolo do texto e “assoprava” as falas aos atores, como hoje se faz com o que se chama “ponto”. Este “rolo”, em francês, se diz “rôle”; em inglês, “role”, donde a expressão: to play a role = desempenhar um papel, atuar.
Tanto no palco quanto na vida real, a qualidade está na espontaneidade. Acontece que, ao longo da vida, seja pelo processo educacional seja pela repressão social a que somos submetidos, seja pelas neuroses pessoais, vamos reduzindo a nossa capacidade de ser espontâneos. Incorporamos certos padrões de comportamento, cristalizando reações e modelos de funcionamento que acabam não sendo adequadas para as complexas exigências da vida. A rigidez de posições – o inverso da espontaneidade – dificulta ou impede o bom relacionamento interpessoal e nos faz sofrer. A nós e a quem nos cerca.
Para lidar com este tão funesto destino, uma das técnicas que utilizo, em meu trabalho como psicoterapeuta é o Psicodrama.
Psicodrama é uma técnica psicoterápica que tem raízes no teatro, na psicologia e na sociologia. Em termos teóricos, sua constituição se deu a partir da prática, na medida em que JACÓ LEVY MORENO (1892-1974) e seus seguidores intentaram formalizar.
O ponto básico do Psicodrama é a "dramatização" ou "representação":
A representação se faz com vários atores, daí o Psicodrama se caracterizar
como uma técnica grupal, onde não mais é o indivíduo isolado que dramatiza, mas um grupo que expressa suas inter-relações.
Uma sessão de Psicodrama obedece, basicamente, ao seguinte plano:

  • aquecimento: momento de fusão grupal, o warming up se constitui como a situação propiciadora para surgimento de um tema e da construção de um enredo sobre o qual se improvisará a representação;
  • representação: é o momento mais importante da sessão, uma vez que a improvisação colocará o "ator" diante de sua própria "produção": falas, gestos, atitudes, indecisões, atos falhos (que, sob o enfoque psicanalítico, são manifestações do inconsciente), etc;
  • comentários: na "volta-ao-grupo", os participantes e o terapeuta tecem considerações sobre o vivido. Cada participante tem a oportunidade de se expressar como se sentiu, como percebeu os colegas, que tipo de percepção nova obteve. Eventualmente, o terapeuta agrega algum comentário sobre o acontecido.

Há variedade quanto às formas de se desenrolar cada uma destas etapas. O importante é permitir o afloramento do Inconsciente e que os atores (protagonistas e antagonistas) se deixem levar pela espontaneidade e possam se deparar com a reconstrução simbólica possível (re-significação): o sujeito, ao nos propor um tema, nos propõe uma metáfora e uma pergunta "- Quem sou eu, sob a pele deste personagem? Quem emerge? Que quero eu?".
Na sua relação com o outro, o ator se depara com a farsa e o disfarce proporcionados pela rigidez de posturas, pelas condutas habituais na vida pessoal, familiar e profissional.
Em Belo Horizonte, há um grupo que trabalha com uma modalidade interessante de Psicodrama. Chama-se VIDA EM CENA. Utilizam o playback theatre, que é uma técnica especial: consiste em solicitar aos participantes de uma platéia que narrem histórias pessoais vividas. A seguir, o próprio grupo de atores improvisa um pequeno sketch, uma pequena dramatização, na qual realçam certos temas e sentimentos percebidos na narrativa.
É uma prática lúdica, interativa, desencadeia emoções e proporciona insights interessantes tanto ao protagonista – criador da história – quanto à platéia. Aplica-se como técnica de dinâmica de grupos em empresas, universidades, equipes de trabalho, etc.

13 março, 2005

Promessa


Promessa, originally uploaded by clcosta.

Os pequenos cachos de uva encerram promessas de vida.
Apesar de tenros e frágeis, contêm uma incrível energia.
Enfrentarão tempestades, frio, vento, chuva, sol, calor...
até que se transformem em uvas suculentas, saborosas, rubras.
Depois, quem sabe, encherão taças cristalinas e aquecerão momentos felizes.
Evoé, Baco!

11 março, 2005

O ninho


1 - As videiras renascem com a poda, feita duas vezes ao ano. Renascem com força: brotam as folhinhas, os ramos se alongam e, rapidamente, os cachinhos se formam. Em apenas quatro meses as uvas estão quase no ponto de colheita. Há um milagre que se repete. Pois outro aconteceu: uma ave construiu seu ninho bem no meio da parreira, escondido entre as folhas verdes. À minha aproximação, um alvoroçado bater de asas atraiu minha meu ohar: entre a ramagem, os filhotinhos. Deixei-os lá, contrariando os princípios da viticultura: "cuidado, vão comer-lhes os frutos!". Que comam!

2 - Um relato imperdível: a cigana e o sapateiro.
3 - Bom fim de semana!

06 março, 2005

Blog da semana!

Foi o Allan, da Carta da Itália, quem me deu a notícia: O Inagaki, do Pensar Enlouquece, indicou o PrasCabeças como um dos "Blogs da Semana". Na semana passada, o Blog do Soié, Ontem e Hoje foi selecionado. Penhoradamente, agradeço. A responsa aumenta. Prometo não mais fazer sonetos de pé quebrado. Talvez nem sonetos perfeitos! Valeu, INAGAKI.

05 março, 2005

Crepúsculo após a chuva


Soneto por-do-sol, originally uploaded by clcosta.

O soneto "de pé quebrado" foi uma brincadeirinha - espero que desculpável... Bati a foto em fins de 2004, após uma grande tempestade que se abatera sobre Belo Horizonte. As núvens negras permaneceram no céu, mas o vento as tangia para leste.
No poente, o sol se despedia da cidade e ainda teve tempo de demonstrar sua força. A força do Astro-Rei.

Chove em BH


Chove em BH, originally uploaded by clcosta.

Tempo fechado. Chuva. Frio.

03 março, 2005

"PINGA NI MIM"

Parece que só penso nisso, mas é que um assunto puxa outro e, como psicanalista, não posso recusar uma "livre associação"!
Se ontem falava de vinho, hoje é a danada da cachaça que me sobe à cabeça. Se é bom "pras cabeças", tenho lá minhas dúvidas. Mas acontece que o
Daniel Caborges, o melhor genro que tenho, me mandou o informe a seguir, como sugestão para postar. Pedido de genro a gente não contraria. Então, vamos lá:
Antigamente, no Brasil, para se ter melado, os escravos colocavam o caldo da
cana-de-açúcar em um tacho e levavam ao fogo.
Não podiam parar de mexer até que uma consistência cremosa surgisse.
Porém um dia, cansados de tanto mexer e com serviços ainda por terminar, os
escravos simplesmente pararam e o melado desandou !
O que fazer agora ? A saída que encontraram foi guardar o melado longe das vistas do feitor.
No dia seguinte, encontraram o melado azedo fermentado. Não pensaram duas
vezes e misturaram o tal melado azedo com o novo e levaram os dois ao fogo.
Resultado: o "azedo" do melado antigo era álcool que aos poucos foi
evaporando e se formou no teto do engenho umas goteiras que pingavam
constantemente. Era a cachaça já formada que pingava.
Daí o nome "PINGA".

Quando a pinga batia nas suas costas marcadas com as chibatadas dos feitores
ardia muito, por isso deram o nome de "ÁGUA-ARDENTE". Caindo em seus rostos
e escorrendo até a boca, os escravos perceberam que, com a tal goteira,
ficavam alegres e com vontade de dançar. E sempre que queriam ficar alegres
repetiam o processo.
Hoje, como todos sabem, a AGUARDENTE é símbolo nacional !!!
Essa da "pinga pingando" é um achado!
Mas há outras explicações para o nome tão brasileiro. Olhaqui, Daniel, encontrei esta história num jornal do Ceará:
Foi por acaso que se descobriu a cachaça. A bebida, tão popular em todo o País, começou a ser feita pelos escravos a partir das impurezas retiradas durante o processo de fervura do caldo da cana. Era um subproduto dos engenhos. Ao lado do tacho com o mel da cana, colocava-se outro com água fria para limpar os resíduos da escumadeira, uma espécie de colher que retira a escuma.
Era essa água com impurezas que os escravos chamavam de cachaça. Fermentada naturalmente, a cachaça começou a ser bebida preferida dos escravos. Tempos depois passou a ser destilada e ganhou o nome de pinga porque no processo de destilação o alambique fica pingando. Além de ser consumida pelos escravos nos engenhos - servia de desjejum, estimulante e até remédio -, era usada como moeda, junto com os rolos de fumo, no comércio de escravos vindos da África.
Já o Sérgio Reis, aquele cantor que era da Jovem Guarda e se tornou um sertanejo-romântico, já fala em goteira na casa, uma mulher traidora e berrou aos quatro cantos:
Eu Estou Apaixonado
Muito Doido Enciumado,
Daquela Linda Mulher,
Meu Sentimento É Profundo,
Não Quero Nada No Mundo,
Se Ela Não Me Quiser
Estou Amando Demais
Esquece-La Não Sou Capaz,
Eu Preciso Dar Um Jeito.
Se Eu Vejo Em Outros Braços,
Vou Fazer Um Tal Regaço
E Meter Pinga No Meu Peito,
Nesta Casa Tem Goteira
Pinga Ni Mim, Pinga Ni Mim, Pinga Ni Mim
Nesta Casa Tem Goteira
Pinga Ni Mim, Pinga Ni Mim, Pinga Ni Mim
Na verdade, apesar de mineiro ter fama de gostar de uma pinguinha, não tomo da "mardita". Volto a insistir: meu negócio é vinho. Uva e vinho, uai. Ah! um queijinho também não pode faltar! Cafézinho e pão-de-queijo, também. Biscoito de polviho, broa de fubá, canjiquinha e angu-com-quiabo!
Por falar nisso, já vou lá na cozinha. É servido?

02 março, 2005

VINHO E REZA BRAVA: SE NÃO MATA, ENGORDA!

Puxando a sardinha - ou melhor - o tonel pro meu lado vinhateiro, vão aqui algumas dicas de boa saúde, física e mental. Foram recolhidas, "de orelha", da tradição catalã, terra boa da Espanha, ou Galícia dos velhos tempos. São criações populares que provêm, geralmente, da observação empírica, portanto não podem ser entendidas de acordo com a ciência biomédica, mas eu cá não sou bobo, anotei, pois nunca se sabe...
Muitos destes ditados foram coligidos por médicos e se conectam com aforismos hipocráticos, com sentenças galênicas e prescrições avicênicas. Se isso não garante, também não atrapalha. Na tradição catalã, temos dois exemplos clássicos: “Vinho de Guadalajara, todo mal me sara” e “Vinho de Madrigal, livra-me de todo o mal.” Propagam-se por praças e ruas da Galícia os relatos alusivos aos efeitos curativos do vinho, principalmente do tinto.
Uma pessoa de classe média e razoavelmente ilustrada conta: uma senhora estava internada num hospital de Zurich em estado de agonia ou quase; seu filho, aproveitando-se de pouca vigilância, conseguiu burlar as normas do pessoal sanitário e introduziu na UTI uma garrafa de vinho tinto e deu, aos pouquinhos, para sua mãe, que tomava de bom grado. Após algum tempo, ela se mostrou mais animada. Viveu meses.
Outro caso: Ricardo, relojoeiro na província de Rosal, cantava uma expressiva cantiga popular que descrevia a confiança nas virtualidades terapêuticas do vinho: “O vinho de Rosal / de Rosal/ é vinho de Goián, de Goián / é a cura radical/ radical / cura todo o mal.”
Acredita-se, ainda na força catártica do vinho: tanto no plano físico como agente purificador dos vírus e partículas nocivas que se alojam no organismo ou que nele se introduzissem, como no plano psíquico. Há um relato que atribui a Frei Don Veremundo de Rebordechán, prior dos sanxoanistas de Beade, em sua obra “O desengano do prior”, a crença na “força catártica” do vinho. Este autor atribui ao “sumo da uva” sua virtude purificadora e depurativa, além de capacidade de servir de antídoto contra substâncias tóxicas. Na peça teatral nomeada anteriormente, descreve-se a vida de um personagem, o Rei Don Sancho, que teria sido envenenado por uma maçã e, por não ter tomado umas taças de vinho tinto, acabou vencido pelo veneno.
Víctor Lis Quibén assinala em seu “A medicina popular na Galícia” que, para a cura das enfermidades em geral, existiam bruxos que faziam uns xaropes à base de ervas diversas, vinho e aguardente. Cita uma receita de um curandeiro de La Coruña, conhecido como Pepe do Boi, que fervia, durante horas, um preparado composto de ervas (pulitania, herbamoura, carbueira e rateira) com mel, azeite, bosta de galinha, enxofre, canela, figos, aguardente e quatro litros de vinho tinto! Quando a fervura reduzia o líquido à terça parte, deixava esfriar e servia ao doente, gole a gole, até que “se arrebentasse ou que se curasse” !!!
As indicações para se utilizar o vinho incluem doenças diversas, desde transtornos digestivos de etiologia complexa, até doenças psíquicas. A inter-relação entre aspectos psíquicos e somáticos eram aceitas amplamente em todas as questões de saúde.
Para lombrigas, tomava-se tanto aguardente quanto vinho, ambos considerados vermicidas. Mas também se expulsavam os vermes com infusão de erva lombrigueira misturada com vinho.
Para doenças causadas pelo ar ou por emanações maléficas de animais vivos ou mortos, uma receita era tiro e queda: bastava aspergir o paciente ou a sua parte afetada com três ramos de funcho embebido em vinho, recitando-se: "Eu te bendigo, eu te disciplino / com três raminhos de funcho / com vinho tinto do Ribeiro / com a graça de Deus”. Para casos mais complexos, usam-se ramos de funcho e de alho. Aí, não há mau olhado que resista. Nunca se esquecer de embeber os ramos em vinho. O tratamento deve durar nove dias, dando-se ligeiros golpes uma vez ao dia ou, se necessário, duas vezes, antes de o sol nascer e logo após o crepúsculo.
Quanto a mim, não preciso estar doente pra gostar de um bom vinho. Em vez de ervas, um queijo curado. Para os males da alma: boa companhia. Amém.

28 fevereiro, 2005

PAPO DE CINEMA

O post anterior provocou uma série de comentários.
  • O Israel Barros me pergunta: Jura que você gostou do The Vilage e to The sixth sense?
Gostei demais de "O sexto sentido", sim. "A vila" é muito mais fraco, embora trate de um tema de que gosto e do qual me ocupo: as relações intra-grupais, o poder das forças grupais, a questão da alienção... Mas não se compara com "O sexto sentido" - este me toca, igualmente, por apresentar um quadro psicopatológico, um profissional da minha área (psicoterapeuta), relações familiares, etc. O final surpreendente é a chave de ouro do filme. O diretor Shylaman, a meu ver, parece ser um aprendiz do Alfred Hitchcock. Até aparecer nos próprios filmes o rapaz tá fazendo igual ao Mestre.
  • A Luma e o Edgar comentaram sobre a escolha de Antônio Banderas para interpretar Al otro lado del río, que acabou ganhando o Oscar de melhor música de filme estrangeiro.
Já estava torcendo prá isso: Gostei de "Diários da Motocicleta", que assisti com meu filho Leo; gostei da música e da letra - aqui -; o compositor Jorge Drexler é latino-americano e médico (duas razões para minha escolha bairrista e auto referente!) Acho que foi uma "claudicada" terem escolhido o Banderas prá cantar...
  • O Bia cobrou: e a nicole tá ótima, vai dizer?
Realmente, a Nicole Kidman, além de lindíssima, faz uma interpretação ótima: contida, expressiva, não explorou sua beleza. Dogville é um filmaço! Tocou-me pela estética e dramaturgia (afinal, eu trabalho com Psicodrama, sem usar cenário, só o imaginário). O argumento tem alguma semelhança com The Village: alienação, manipulação das massas, paranóia... como os conflitos emocionais das pessoas interferem a ponto de torná-las cegas.
  • A Lara pergunta: Scarlett Johanson é a moça de "Encontros e Desencontros"?
Lara, Scarlett Johanson foi, sim, a "Charlotte" no filme "Encontros e Desencontros". A mulher é fera, basta ver sua filmografia em: Scarlett.
  • O Allan, da Itália, disse que não se empolga com a festa do Oscar e acrescenta: Fico mais emocionado quando vejo, por exemplo, o blog Ontem e Hoje indicado como um dos blogs da semana no Inagaki.
Aí, eu é que fico emocionado. Falou no Soié, inda mais dando a notícia da indicação do Inagaki, mexeu comigo. Afinal, não é prá menos. Papo de cinema é bom mesmo!

27 fevereiro, 2005

OUT OF OSCAR OU PORQUE NÃO FUI À FESTA EM HOLLYWOOD

Hoje é dia de Oscar. Alguns vizinhos já encomendaram black-tie e minhas amigas estão preparando os Versace, tirando as L. Vuitton do armário. Em homenagem à minha “eterna namorada” Amélia, que está de ombrinho dodói, com o bracinho na tipóia, declinei do convite – mesmo desagradando à Academia – e ficamos em casa, curtindo filmes que não disputarão. Recomendo:
1- Moça com brinco de pérolas (Girl with a Pearl Earring) de Peter Webber. Conta um episódio da vida do pintor Johannes Vermerr, holandês, séc XVII. A atriz Scarlett Johansson desempenha o papel da criada (Griet), representada no quadro que dá nome ao filme.
2 – Dogville, de Lars von Trier é imperdível, um dos melhores que já vi. A sobriedade do cenário ressalta a expressão dos atores, com diálogos bem desenvolvidos. Uma história impressionante. A protagonista é Nicole Kidman.

- Do diretor M. Night Shyamalan, vimos três filmes excelentes:
3 - A Vila (The Village) - uma cidade vive um pesadelo por causa de um segredo. O isolamento e paranóia aterrorizam os habitantes. Até que...
4 - Sinais (Signs) - uma boa trama de suspense, com alguns recursos fantasiosos em tornos de extra-terrestres. Vale a pena ver.
5 - O sexto sentido (The sixth sense) – O mais antigo (1999) e o melhor de todos! Surpreendente!

Então, já sabem, ao sentirem minha ausência na hora da premiação, lembrem-se:
- 'tou aqui, quietim, no meu cantim, comendo pipoca e tomando cafezim. Com queijim, uai!

  • Agora podem curtir umas fotos que ando batendo por aí. Se quiserem mais, clique em "more of clcosta's photos". Que tal?

20 fevereiro, 2005

O blog do Soié

A repercussão do Ontem e Hoje, do meu pai, Ismael Cirilo (Soié, o espirituoso) na blogosfera está dando o que falar.
Telefonei-lhe para dar os parabéns e ele se nostrou satisfeito demais, impressionado com a aceitação de suas histórias, casos, lembranças... A família (netos e netas, sobrinhos e sobrinhas, filhos, cunhadas, todos estão comentando a disposição do Soié e de sua eterna namorada Aparecida, que ficam trocando idéias, matutando sobre "qual história vamos contar agora?".
Não é por corujice ou pieguice que fico feliz. Minha maior felicidade é vê-los felizes, entretidos com o exercício da escrita, da memória, vivazes e sempre bem humorados. A duplinha Soié-Aparecida é assim mesmo: não deixam a peteca cair; a vida inteira devotados um ao outro e a nós, filhos e filha.
Papai já foi seleiro (alguém sabe o que é isso? Pois é, fazia selas para cavalos, em seu tempo de rapaz. Ele tinha uma Selaria!). Depois trabalhou na Empresa de Correios e Telégrafos (ECT), como telegrafista e outras funções. Ele e mamãe estiveram à frente da Contadoria Judicial do Fórum de Nova Era-MG, foram donos de bar, o "famoso" e inesquecível Soié Bar. Já foi Juiz de Paz (fazia casamentos e mais casamentos). Ambos ministraram cursos preparatórios para noivos. Após a aposentadoria, viajam pelo Brasil a fora: Rio, Fortaleza, Poços de Caldas, Porto Seguro... juntos com a "Turma da Feliz Idade", pessoal animado lá de minha terra...
Pelo Ontem e Hoje passaram inúmeros blogueiros, ilustres, de perto e de longe, deixando comentários elogiosos, dizendo-se felizes por conhecerem a figura do Soié.
Como filho, sinto-me, igualmente elogiado. Será isso impróprio?
Agradeço, aqui, as recomendações da Cora Rónai, do Idelber Avelar (USA). Tantas pessoas que é impossível listar todas.
Mesmo conhecendo meu pai, estou, eu mesmo, surpreso. Aliás, sem surpresas, a vida é um tédio, não?

18 fevereiro, 2005

O CÓDIGO DA VINCI: nota 4, em 10

Estou acabando de ler O Código da Vinci, de Dan Brown.
As resenhas falam que o romance(?) é genial e que vendeu mais de 15 milhões de exemplares. Há 43 semanas ocupa o primeiro lugar na lista dos Mais Vendidos na revista Veja!
Acho que estou atrasado em falar do livro: pelo menos 15 milhões o leram antes de mim; na internet/blogs há milhares de sites/posts e, quando comento, todo o mundo diz que já leu! I´m the last reader.
Outro dia, deixei meu carro num estacionamento próximo à Santa Casa, em Belô. O tomador-de-conta, ao ver-me com o Código, comentou:
- Ah! já li esse aí, é muito bom. O senhor já chegou na hora da Maria Madalena?
- Sei...
- Será que é verdade?
- Anh?
- Todo o mundo engana a gente, até o Papa, o senhor vai ver lá.
- É?
- E dizem que o vão fazer um filme com o Tom Hanks.
- Humm..
[Eu devia estar de ótimo humor!]

Pensei comigo: talvez o filme seja melhor que o livro. Se escolherem bem a trilha sonora, vai arrebentar! Por que?
Porque é exatamente isso: um roteiro esquemático, amarradinho, tudo acontecendo em pouco mais que uma noite. Apenas ação frenética, suspense, cortes em momentos de maior tensão, soluções quase mágicas, reviravoltas... Um Indiana Jones mais pretensioso. Um Lara Croft sem explosões espetaculares. Um thriller policial metido a besta. Devem colocar uns cantos gregorianos...
Se me perguntam se estou gostando, digo: "Embora não seja literatura, é um bom divertimento."
Li durante horas, numa fila, e o tempo passou rapidinho. Além do mais, estimulou-me a pesquisar alguns temas em torno dos quais a trama se desenrola - evangelhos apócrifos, criptografia, pentagramas... - e isso que me enriquece.
Mas acho que não merecia estar na lista dos mais vendidos. Enfim, moda é moda!

16 fevereiro, 2005

AL OTRO LADO DEL RÍO

A canção Al otro lado del río, de Jorge Drexler, composta para o filme Diários de motocicleta, foi indicada para o Oscar de "Melhor Música".
Jorge Drexler é um uruguaio de 40 anos, que deixou a profissão médica - era otorrinolaringologista - para se dedicar à música. "Fui convidado pelo cineasta Walter Salles, que deixou um recado em minha secretária eletrônica", conta o compositor. "Até hoje não conheço o diretor, pessoalmente."
A letra é totalmente integrada ao espírito do filme: uma travessia feita pelo jovem Che Guevara - também médico - que se transforma a partir da viagem pela América Latina:

AL OTRO LADO DEL RÍO

Clavo mi remo en el agua
llevo tu remo en el mío.
Creo que he vista una luz
al otro lado del río.

El día le irá pudiendo
poco a poco al frío.
Creo que he vista una luz
al otro lado del río.

Sobre todo, creo que
no todo está perdido.
Tanta lágrima, tanta lágrima,
y yo soy yn vaso vacío...

Oigo una voz que me llama,
casi un suspiro:
Rema, rema, rema!

En esta orilla del mundo
lo que nos es presa es baldio.
Creo que he visto una luz
al otro lado del río.

Yo, muy serio, voy remando,
y muy adentro, sonrío.
Creo que he visto una luz
al otro lado del río.

Há muitas "travessias" a se fazerem durante a vida. É preciso cravar o remo na água, remar, remar...