19 julho, 2007

Balaio de Gatos e Gatas

Que Belo Horizonte é a capital mundial dos botecos, todo mundo sabe. Aqui acontece, há anos, o festival gastronômico Comida di Buteco, que movimenta a saudável boemia dos sem-praia: programa garantido é ir a um barzinho.

A palavra barzinho concentra todo e qualquer estabelecimento com mesas internas ou espalhadas na calçada e uma infinita variedade de tira-gostos, para todos os gostos e bolsos. A cerveja tem de estar geladíssima, o atendimento tem de ser de primeira e a comida é atração especial de cada um.

Natural, pois, que o Idelber e Ana Maria Gonçalves nos convocassem para o encontro dos blogueiros no Balaio de Gato. Éramos blogueiros e blogueiras, daí já me considerei um gato e saltei dentro do balaio.

O encontro foi ontem, plena quarta-feira. Dia útil, e daí? Todo dia é dia de boteco na capital das alterosas!

O local é super simpático, misto de barzinho e bazar de artesanato, badulaques, enfeites, lembranças, antiguidades, quadros, roupas, luminárias. Você acha de um tudo.





Quando chegamos, Amélia e eu, a mesa já estava composta dos gatos e gatas, blogueiros mineiros: Idelber e Ana Maria Gonçalves, Letícia e Fernando Lara, Juliana Mothern Sampaio, Fernanda Fefê e Maurício. Pouco depois chegou Ana do MineirasUai!
Então, estávamos lá:
  • Juliana Sampaio, uma das duas Mothern, sucesso de blog e TV (GNT).
  • Ana Letícia, filhota nossa, representando todas as Mineiras, Uai!

  • Letícia Marteleto, nossa professora demógrafa na Universidade de Michigan (USA), descreve suas aventuras no Letícia na Web, além de ser mãe da Helena e esperar mais um filhote do:

  • Fernando Lara, também nosso professor na Universidade de Michigan (USA), que ensina arquitetura, fala de espaços e de tudo o mais em Parede de Meia.

  • É claro que este que vos fala estava muitíssimo bem acompanhado pela primeira dama do Pras Cabeças, meu bem-querer Amélia.
Foi um encontro delicioso: a empatia e camaradagem nos irmanaram imediatamente. Em minutos, já estávamos íntimos, quase que descobrindo parentescos. Descobrimos amigos e referências comuns, confirmando, mais uma vez, que este mundo é muito pequeno. Mas nossa alma, ah!, nossa alma é enorme!

Eis os gatos e as gatas da noite:

Você pode ver todas as fotos do Balaio bem aqui.

17 julho, 2007

Fabrício Carpinejar em BH

Há pouco mais de 1 mês fiz um pequenino post no qual citei o poeta Fabrício Carpinejar, gaúcho.

Hoje, fico sabendo que o próprio estará aqui em BH, para lançamento do seu livro "Meu filho, minha filha", dentro do projeto Sempre um Papo [Sala Juvenal Dias - Palácio das Artes - hoje às 19,30h - entrada franca].

Clique na figura abaixo para ler a matéria completa:



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Update [22:50h] - Eis que me apresso em deixar aqui um agradecimento ao Carpinejar, que tão gentilmente acedeu em dar-me seu autógrafo. Disse-me que, como eu, vários presentes se apresentaram como "leitores de seu blog". Deixou-me a dedicatória: "BH, 17/7/07. Para Cláudio amigo, essa nossa letra tremendo: como uma boca pedindo um copo d'água. Bj, Carpinejar."

Na primeira página de O Amor Esquece de Começar, leio:


Quando estamos sozinhos, somos pela metade.

Quando somos dois, somos um.

Quando deixamos de ser um dos dois,

não somos nem a metade que começamos a história.


Dei o livro de presente para Amélia...

15 julho, 2007

Una derrota que duele en el alma (La Nación)

Confesso que preparei meu espírito para não ficar muito triste com a provável derrota da seleção de futebol na final da morna Copa América. Até concordo com muitos que torciam francamente contra a "seleção de Dunga", aquele que disse "desprezar jogo bonito". Mas...
¿Hay algo peor qu perder una final de la Copa América con Brasil? Sí. Perder una final de un Mundial con Brasil.
Pero siempre perder con Brasil y más en un partido definitorio, clave por donde se lo mire, obliga a una de las especialidades de la prensa deportiva argentina: narrar lamentos.
Pero acá no hubo robos, ni quejas para soltar por el aire, ni reclamos para hacer. Brasil fue mejor de principio a fin, en el partido más importante de todos. [Marcelo Gantman]
O primeiro gol brasileiro, logo aos 4 minutos mexeu com a tradição impregnada dentro de mim. O gol-contra, logo depois, liberou o torcedor que é movido por emoção e não pela razão: daí pra frente acompanhei cada jogada, sofrendo nos ataques "deles", desejando o terceiro e sonhando com goleada.
"Venceu o melhor" é lugar-comum que se aplica ao jogo de hoje e aplaca o ranço mobilizado pela convocação de ilustres desconhecidos (com pouquíssimas exceções).
Tenho saudades de saber de cor o nome dos jogadores da Seleção Brasileira, reconhecer cada um, como acontecia durante aquelas transmissões televisivas com imagens ruins, vestir a camisa verde-amarela e escutar os fogos a espoucar nos céus da cidade.
Hoje, após o jogo, Belo Horizonte já estava coberta pelo manto noturno e, no céu, apenas o brilho forte do planeta Vênus (stella vespertina) chamou-me a atenção. Não havia fogos, nem buzinaços. Algumas janelas dos prédios vizinhos tremeluziam azuladas, denunciando o império da TV nas tardes de domingo.
Vem aí a segunda-feira...

10 julho, 2007

Memória gustativa de comidas mineiras: o simples que é o máximo!

  • Conversa vai, conversa vem, o assunto aportou as praias da culinária, mais precisamente das comidas simples e gostosas. Aí, surgem as memórias olfativas e gustativas, lembranças de comidinhas do tempo de criança, da adolescência e até mesmo do que se comeu ontem. Parece mesmo que somos feitos de memória e de...Sonhos!

  • "Somos feitos da matéria dos sonhos". ["We are such stuff as dreams are made on." ( Shakespeare, in The tempest, 4.156)].
  • Já os nutrólogos ensinam: "diga-me o que come e direi o que você é".
  • Os sexólogos: "diz-me quem comes e dir-te-ei quem és".
  • Pois os filósofos, estes elucubrarão: "Quem como? Como como? Quando e porque como? Como?".
  • Caetano Veloso simplifica tudo: "eu como, eu como, eu como, eu como..."

Mas isto são prolegômenos, com certeza fátuos.

Retomemos do princípio: Conversa vai, conversa vem, lembrei-me de comidas simples, prosaicas, aqueles petiscos ou pouco mais que isso dos quais ainda sinto o gosto e o cheiro, mesmo que saboreados há décadas. Então, vamos lá:

1. purê de batata recheado com sardinha ao molho de tomate: minha mãe fazia uma espécie de pastel gordo com o purê, recheava, passava no ovo batido e na farinha (ou seja, à milanesa) e fritava. Muito bom!

2. arroz-feijão-couve refogada-angu e ovo frito, que minha avó preparava quando ia visitá-la, de surpresa. O feijão ficava na trempe do fogão "a serragem" (alguém conhece?), cozinhando por horas, lentamente. Simples e divino.

3. arroz-de-forno, que era comida de domingo. Hoje nem sei se existe, se alguém faz...

4. sanduíche de pão francês com mortadela, acompanhado de guaraná Champagne Antárctica. Querem combinação mais banal? Era uma exceção, geralmente em viagens, quase sempre longe de casa. Dizem que paulista gosta disso até hoje. Há anos que não provo e fico pensando nas calorias, no sódio excessivo, na mistura cabulosa das carnes (até de cavalo, dizem)... então fico na lembrança.

5. lombo fatiado, acebolado, com fatias finíssimas de jiló, tudo passado na chapa, na hora do pedido, na frente do freguês. Onde: no Mercado Central de Belo Horizonte, quase todo domingo. Acompanhado de cerveja geladíssima. A gente come em pé, no balcão: é um ritual imperdível para quem sabe o que é bom. Virou marca registrada do local.

6. pão-de-queijo quentim com cafezim. Este aí, meus caros, é hors concours, nem vou falar. [várias receitas aqui]. Para variar o lanche, Amélia faz uma broa de fubá que parece coisa do céu! [Aproveite a receita secreta da Amélia aqui].

7. canjiquinha de milho com costelinha de porco. Amélia, aqui em casa, é mestre nesta iguaria, saborosíssima quando quente, com pimentinha, cebolinha, pedaços de queijo derretendo. Meu pai, Soié, adora. No Mercado Central é prato premiado, chamado Mineirinho Valente [receita aqui].

8. feijão tropeiro no Bar 10 ou outro, no Mineirão, em dia de jogo: é servido em prato descartável de alumínio. Acompanhado de um ovo frito e um bife de pernil, preparados ali na nossa frente! Uma celebração à gastronomia que tem a unanimidade das torcidas. [Receita aqui].

9. Macarronada fria, sobra do almoço, devorada no final do domingo. Alguém discorda?

10. a décima iguaria fica por sua conta, caríssimo leitor: compartilhe comigo.

- Agora, com licença: vou "forrar o estômago".

09 julho, 2007

De duas, uma...

Ou você vê este vídeo, ou não.
Se não vir, tudo mal.
Se vir, de duas uma:
ou você não gosta ou você gosta.
Se você não gostar, aí tudo mal;
Mas, se gostar, de duas uma:
ou você não comenta ou você comenta.
Se você não comentar, e tudo mal;
e se você comentar, de duas uma:
Posso ler ou não.
Se eu não ler, tudo mal.
Mas se eu ler, com certeza só uma coisa pode acontecer:
Vou ficar feliz em saber que você me visitou.

Inspirado (mal e porcamente) neste vídeo aqui
:

08 julho, 2007

BH by night

BH by night por ClaudioCosta

Vista noturna de Belo Horizonte, a partir da casa de uma colega, no Alto Santa Lúcia.

No centro da foto vê-se a avenida Raja Gabaglia, que parte do Bairro Santo Agostinho até o Belvedere: são 7km de avenida, sempre subindo, até chegar ao BHShopping, na saída para o Rio de Janeiro.

Agorinha mesmo, Amélia e eu acabamos de descer por esta avenida, vindos do Salão Chevals, feira de artesanato e decoração no Vale do Sol.

Pra quem está a fim de um bom programa neste julho, um convite: BH tem programação demais, muita cultura, jazz, artesanato, comida boa, frio suportável e o jeito mineiro de ser.

É bom demais ou não?


03 julho, 2007

Ocultação de cadáver

Quem conta um conto aumenta um ponto, reza o ditado ao qual recorro para me eximir de quaisquer responsabilidades pelo que vem a seguir.
Dr. Maciel é legista da Delegacia Regional de Segurança Pública numa grande cidade do interior de Minas, onde cumpre sua missão de emitir laudos cadavéricos, explicar causa-mortis, avaliar as lesões corporais, sua gravidade e suas sequelas, definir a consumação de estupros, descobrir tóxicos nos fluidos corporais, etc. Ao legista chega de tudo.
Num dos últimos jornais da Associação Médica de Minas Gerais, Dr. Maciel conta um episódio digno de ser aqui compartilhado.

Aconteceu o seguinte: chegou ao Instituto Médico Legal um tal sr. Winter, tomado de ansiedade, tão apressado que quase tropeçou nos degraus da portaria. Carregava um saco plástico, desses de supermercado. Seu rosto exprimia nojo e sua mão direita, guiada por um braço mais cabeludo do que o do Toni Ramos, mantinha o fardo o mais longe possível de si. Foi direto à recepção:

- Onde eu entrego este material?

- Que material, senhor?

- Isto aqui que encontrei no cemitério do distrito de Vila São Roque, aqui perto. Foi a polícia que mandou.

- Mas o que é isso?

- Como vou saber? Deve pesar uns 2 quilos, é meio mole e já está fedendo. Levei ao posto da Polícia Militar mas eles nem quiseram abrir e me mandaram trazer pra cá. Disseram-me que corpos em decomposição têm de ser examinados no IML. Inclusive, enviaram um envelope com este documento.


Tratava-se de papel timbrado da Secretaria Estadual de Segurança Pública, intitulado: Requisição de Exame. O texto era bem formal:


"Encaminho ao Sr. Dr. Médico Legista do IML desta Comarca o material recolhido no cemitério local. Solicitamos o competente exame, objetivando constatar se se trata de carne humana ou feto, estando o material da mesma forma como foi encontrado. Nesta data, aguardo parecer."


O Dr. Maciel pediu que se esvaziasse o saco sobre uma mesa de granito claro, chamada de 'mesa de exame'. Cuidando para não receber respingo algum, quase dois passos distante da mesa, o sr. Winter desfez o nó do pacote e despejou tudo de uma vez.


Fim do suspense: ali jaziam vários exemplares de peixes podres, provavelmente comprados no supermercado há uns dois dias. Talvez fossem traíras ou cascudos, muito comuns por aquelas bandas. O médico e seu ajudante dispararam em gargalhadas. O sr. Winter não se conteve e pôs-se a xingar a corporação policial do seu distrito, chamando-os de incompetentes e outros adjetivos impublicáveis.


Mas dever é dever, e carecia responder à Requisição: a documento oficial dá-se resposta oficial, justificou o médico, procedendo minuciosamente à autópsia das piabas (seria esta a espécia aquática?) e elaborou o seguinte laudo:


"Na forma da lei, faço emitir o seguinte Laudo Necroscópico:

1. material enviado para exame em saco plástico onde se lê Supermercado Fome Zero;

2. odor fétido típico de material em decomposição;

5. composto de 15 exemplares adultos de Hyphessobrycon reticulatus ellis, vulgo lambari, peixes teleósteos caraciformes, da família dos caracídeos, medindo entre 5 e 12cm;

6. aparência compatível com óbito datado de 48h;

7. todos os exemplares exibem secção céfalo-caudal longitudinal mediana ventral, acompanhada de evisceração compatível com preparo para fritura;

8. guelras com acentuada hiperemia de esforço;

9. nadadeiras amputadas;

10. ferida perfurante na região periobicular, compatível com lesão por anzol.


Conclusão: Face às circunstâncias e aos achados, pode-se concluir, a priori, haver elementos suficientes para caracterização de lambaricídio doloso em série, com premeditação (fritura), por meio insidioso (retirada do meio líquido) e por meio cruel (morte por asfixia). Agravante: ocultação de cadáver.

Solicita-se da autoridade policial as medidas cabíveis.

Com elevada estima e consideração, Dr. Maciel."


Dura lex, sed lex.

29 junho, 2007

MP1D ou MDA?

Este post vai pra dois portoalegrenses: 1 - Milton Ribeiro, que hoje está fazendo mudança. 2 - Afonso Chato, que enfrentou um cano estourado, nos dias em que estive lá. Cláudia e Kaya que se cuidem: seus respectivos podem querer arranjar um maridaço!

Antes que me chamem de mentiroso, confiram a reportagem do Estado de Minas, depois me digam se o meu xará não vai criar escola.

ATENÇÃO: não sou eu o tal Cláudio Nolasco da reportagem - já sou marido por 24h de minha Amélia e, mesmo não sendo tão polivalente quanto o MP1D (marido por 1 dia) do anúncio, ainda não fui despedido.



O certo é que o anúncio distribuído em bairro nobre da capital mineira mexeu com a imaginação das 'solteiras por um dia ou não', ou seja, daquelas mulheres que se vêem às voltas com pequeninos problemas do cotidiano, tipo trocar lâmpadas, carregar piano, cortar a grama do jardim, segurar o pitbull pelo pescoço, trocar os 4 pneus da Cherokee, lavar o carro que atolou na volta do sítio... coisinhas assim, que um super-homem não resolva. Quanto a mim, ainda estou no primeiro grau da escala: já aprendi a trocar lâmpadas, desde que alguém carregue a escada, segure-a para não balançar e implore antes, implore muuuuito, né, Amélia?


Falando sério: se há uma coisa que me irrita é chegar em casa e me deparar com uma lâmpada queimada, um eletrodoméstico estragado, uma válvula de banheiro que disparou, a máquina de lavar com vazamento, a torneira da pia pingando, a cadeira manca, etc. Tudo isso já aconteceu e até que me saí bem. Quando termino o serviço, fico na maior empolgação, a Amélia diz que sou o tal - e acredito! - e penso: - Da próxima vez resolvo logo, não vou reclamar nem deixar para depois. Mas o próximo evento me desmente.


Pois o moço do anúncio é mesmo prendado: Foi assim que Cláudio Nolasco, de 44 anos, ganhou a simpatia de mulheres de BH, exaustas com o acúmulo de funções em casa. Conhecido como MacGyver pelos amigos de infância, justamente em função de suas habilidades em montar e desmontar brinquedos, ele fez um curso técnico de eletricidade, em 1981, mas, dois anos depois, embarcou para os Estados Unidos em busca do sonho americano. Com a cara e a coragem e um dicionário de inglês/português debaixo do braço, fez de tudo na terra do Tio Sam. [texto da reportagem de Déa Januzzi, no Caderno Bem Viver, de 24jun07].


Não lhe faltará serviço, com certeza. Conseguir mão-de-obra idônea e competente para os chamados serviços gerais é um dos problemas das grandes cidades. Ninguém se conhece, há uma infinidade de picaretas (não tanto quanto no Congresso, claro!) e o risco de piorar o que já se estragou é enorme, fora os orçamentos estapafúrdios: cobra-se pela cara do freguês.


Conversa vai, conversa vem, fico sabendo que a idéia não é tão original, pois em São Paulo já existe um tal de marido de aluguel [MDA].
Googlei e achei:

Agora, convenhamos, apresentar-se como "marido por um dia" ou "marido de aluguel", pode ser uma boa estratégia de marketing, mas não deixa de ser esquisito. Ou ambíguo. Talvez, por isso mesmo, façam tanto sucesso.

28 junho, 2007

A profecia

Em 5 de junho, agora, meus pais comemoraram 59 anos de casados!
Vamos abraçá-los neste final de semana, almoçaremos juntos e nos recordaremos de muitas histórias vividas.
Uma delas, com certeza, será o 'caso da profecia da cigana'.

26 junho, 2007

À procura da mulher bem resolvida

WILSON BENTOS, daqui de Belo Horizonte, escreveu o seguinte texto. Já está circulando pela www - às vezes sem o nome do Autor. Pois estive com ele e autorizou-me a publicar tudo. Mas vou colocar só o início e você poderá ler o resto no link original.


A mulher bem resolvida não anda por aí, dando sopa. É verdade.
Porque mulher resolvida mesmo já resolveu tudo, inclusive com quem compartilhar o travesseiro. É independente, inteligente, bem sucedida e não é carente, já que para ser bem resolvida tem que começar... [continua]


Depois que você ler tudim, me diga:
- Existe a mulher bem resolvida?

21 junho, 2007

Paranóia

Pintura de Radaelli (Porto Alegre-RS) - Photo by Cláudio Costa

Os padres que dirigiam o antigo Colégio do Caraça e lá ministravam aulas eram "vicentinos", religosos da congregação fundada por São Vicente de Paulo, cuja sede fica em Paris, à rua Saint Lazare. Por isso, são denominados 'lazaristas'.

Assim, o sistema de ensino e toda a disciplina foram adaptados dos costumes europeus e, ainda por cima, obedeciam aos rigores das 'regras' monásticas: acordávamos às 5,25h da manhã, mesmo no mais rigoroso inverno, no alto da Serra do Caraça. Aos sábados, domingos e feriados, eram condescendentes e dormíamos até mais tarde: 5,55h! Isso mesmo, ansiosamente esperávamos o bendito 'descanso': nunca trinta minutos fizeram tanta diferença. Após a missa cotidiana, seguia-se o café-da-manhã, composto de pão, café-com-leite e mingau-de-fubá. Aos domingos, um luxo: tínhamos manteiga. Aprendíamos a frugalidade monástica, por bem ou por mal. Quem não se adaptasse, que descesse a serra e voltasse 'para o mundo, lá fóra'.

O currículo era muito apertado, com aulas de Português, Literatura, Latim, Francês, Inglês, Grego, Ciências, Matemática e Religião. Esporte era obrigatório, assim como o banho frio.

Até hoje louvo a organização: cada aula durava 45 minutos, precedida de igual período para prepará-la. Todos os alunos tinham de ficar em suas carteiras, num enorme salão, a estudar a matéria específica da aula que viria. Silêncio absoluto. O padre disciplinário, ocasionalmente, percorria os corredores entre uma carteira e outra, conferindo se realmente o aluno se dedicava ao estudo determinado. Às vezes, é claro, pegava alguém a ler uma revista, um livro de contos, uma carta recebida da famíia. Era repreendido à vista de todos, um vexame.

Por um tempo, eu ocupava a última fileira do salão, logo à entrada da porta, nos fundos. Assim, quando o padre disciplinário aparecia, ninguém percebia. Chegava de mansinho e observava os oitenta jovens debruçados sobre os livros. Calmamente conferia um a um e retornava a seu gabinete.

Certo dia, no primeiro horário da manhã, pus-me a ler O Cão de Baskerviles de Sir Arthur Conan Doyle, aventura de Sherlock Holmes e seu amigo Dr. Watson. O suspense era enorme e me desligara completamente do mundo, concentrado no fog londrino e na trama policial.

Súbito, com o canto dos olhos, percebo algo a balançar suavemente um pouco atrás de mim e logo me convenci de que era a borda da batina do disciplinário. Fora descoberto! O desfecho era previsível. Em voz alta, o padre exclamaria: - Muito bem, "senhor" Cláudio, os problemas de geometria, hoje, serão resolvidos pelo detetive Sherlock? Todos os colegas se voltariam para mim e aguardariam o castigo: - Hoje você ficará sem a sobremesa e não poderá brincar durante o recreio após o almoço. Era a senha para uma gargalhada geral.

O que fazer? Se eu escondesse o livro, seria tachado de hipócrita dissimulador. Terrível. Se não o fizesse, então seria descarado, desafiador, impertinente e sem-vergonha. Terrível, também. Minha imaginação trabalhou a todo vapor e inventei uma esperança: quem sabe o padre não percebera meu deslize, estaria olhando lá para frente e nem se dera conta de minha falta? Alívio!

Fingi que nada me perturbava e debrucei-me mais um pouco para tentar encobrir a prova de meu crime. É claro que não conseguia ler e um suor frio escorregou fronte abaixo, coração disparado e respiração suspensa. Com o canto dos olhos, contudo, ainda percebia o vulto a balançar logo ali atrás, um pouco à minha esquerda. O danado do padre não saíria dali nunca mais?

Resolvi enfrentar o inevitável. Arranquei do medo e da vergonha um resto de coragem: confessaria meu crime e acataria o castigo. Não seria a primeira vez. Voltei-me resoluto e já enunciava um "desculpe-me, sr. padre" quando descobri, aliviadíssimo, a origem daquela sombra balançante: era a ponta de meu cachecol, pendurado no encosto da cadeira, que oscilava ao sabor da brisa matinal. Não havia padre nenhum e, portanto, nada de castigo. O mundo continuava a girar, o silêncio imperava e eu só escutava o bater assustado de meu coração. Joguei Conan Doyle para a gaveta da estante e ri, ri muito de mim mesmo.

...ooo)000(ooo...

Ao lado, o que restou após o incêncio que destruiu parte do Colégio, em 1968. O salão de estudos ficava no segundo andar, acima dos arcos. Atualmente, funciona, aí, o museu do Caraça.

[Clique aqui para ver mais fotos]

Caraça-MG - Photo by Ana Letícia (Art director: Cláudio Costa)

20 junho, 2007

Um defeito de cor & Mothern

Junho, aqui em Belo Horizonte, é repleto de feiras, atrações culturais, programas gratuitos ou pagos, tudo isso, acho eu, para 'esquentar o inverno'. Este chega oficialmente amanhã, mas já deu sinais de vigor há duas semanas, fazendo-me ressuscitar roupas de lã, adormecidas no aconchego dos armários desde o ano passado.

Um dos acontecimentos culturais mais empolgantes é o Salão do Livro, na 8a. edição. É ótima oportunidade para crianças e adultos conhecerem, de perto, autores e seus livros, folhear as últimas novidades ou os clássicos, livros técnicos, de arte, de literatura, infantis, importados, usados, etc e tal.

O 'Encontro Marcado' é um evento especial durante o salão, no qual o escritor responde a perguntas de um 'apresentador' e, a seguir, dialoga com o público: A proposta é promover conversas descontraídas, no formato de entrevista, que apresentam a trajetória do convidado, seu processo de criação, experiências, identificação no universo literário e suas obras.
Compareci, a convite do Idelber e da própria, ao Encontro Marcado com Ana Maria Gonçalves, que escreveu "Um defeito de cor". Muita gente já escreveu e falou sobre a maravilhosa epopéia produzida por Ana Maria Gonçalves.
Idelber assim a apresentou:
- É a primeira grande saga histórica em voz feminina no romance brasileiro, e é muito mais que isso. São umas 1.000 páginas, uns 400 e tantos personagens, 80 anos de história do Brasil-África-Atlântico-negro e uma voz alinhavando tudo: Kehinde, possivelmente Luiza Mahin, talvez a mãe do poeta negro Luiz Gama (continua aqui ).

Millor Fernandes simplesmente cai de joelhos diante do livro:
- Em suas 952 páginas, Um Defeito de Cor não tem hausto, parada pra respirar. Desmintam-me, por favor. É um dos livros mais importantes, coloco entre os melhores que li em nossa bela língua eslava. Entre os 100 melhores, Millôr? Que exagero é esse, rapaz?, entre os 10. TE CUIDA, SARAMAGO! (leia o Texto completo do Millôr)

Muita gente pergunta:
- Por que um livro tão extenso?
Ana responde:
- Foram dois anos de pesquisa e nove meses escrevendo, de domingo a domingo. Durante todo esse tempo, não fiz outra coisa, foi dedicação integral mesmo. Eu sou publicitária, e quando decidi parar tudo para escrever vendi minha agência em São Paulo e fui para a Bahia disposta a só pesquisar e escrever (Continua aqui).

Eu afirmo:
- Se você é daqueles que desanimam diante de 952 páginas, faça o seguinte: comece a ler! Duvido que não fique 'possuído' pela escrita, pelo personagem, pelo clima, pela história, pela emoção e pela abrangência de "Um defeito de cor". É começar e não parar. Depois me conte. Antes de completar um ano de lançamento, "Um defeito de cor" já ganhou o Prêmio de Literatura da Casa de las Americas!
E tem mais:


Ao final da entrevista, enquanto a Autora autografava seu romance, encontro o Idelber já bem acomodado numa mesa do "Café da Feira", em companhia das
Mothern, Juliana e Laura. Acheguei-me, é claro. Lá estava eu entre as globais do GNT: afinal, Mothern é um blog que virou sitcom de canal pago. Se você ainda não lê Mothern, não sabe o que anda perdendo.

Juliana, Idelber, Cláudio e Laura

Foi uma noite e tanto, mermão!

18 junho, 2007

Passeio de domingo


O domingo foi dia de passear: a filhota Ana Letícia e eu resolvemos, num repente, fugir de Belo Horizonte e respirar oxigênio puro a 1400m de altitude. Em 90 minutos estávamos no alto da Serra do Caraça, usufruindo da paisagem preservada, do silêncio quase monástico e da comida caseira "que só padre come"!
Se você quiser mais fotos, clique bem aqui.
Posted by Picasa

15 junho, 2007

Novos Amigos

Completa uma semana que me assentei à mesa no Atelier das Massas, do chef Radaelli, em Porto Alegre.

À porta, fila de espera, enfrentada sem muito sofrimento, pois compartilhada com alguns colegas que participavam do Congresso de Psiquiatria da Infância e Adolescência [foto à esquerda]. O Atelier fora sugerido pelo mineiro Fabiano, em curso de especialização na capital dos pampas.

Entretanto, pouco antes das 20h, o colorado Milton Ribeiro, em resposta a telefonema que lhe fizera, liga-me convidando para jantar. Por instantes, instalou-se o conflito:
"-E agora? saio com a turma ou com o Milton, que desejo tanto conhecer pessoalmente?"

Durou um átimo e devolvi-lhe a ligação:
"-Já estou de saída e espero você e a Cláudia dentro de uma hora, para a sobremesa." Ele topou!

O grande Milton, porém, de coração grande e alma generosa, prega-me supresa e tanto ao aparecer sorridente, ainda a tempo de entrarmos juntos: decidiram-se a compartilhar conosco o programa de sexta-feira, ele e Cláudia.
Reconhecemo-nos imediatamente e o virtual cedeu ao real. Tal como acontecera, na véspera, quando abracei Dom Afonso e sua família, no aeroporto.
O jantar foi maravilhoso: o bom humor e a espontaneidade do Milton e da Cláudia logo nos contagiaram e posso dizer, sem exagero, que nossa mesa era a mais loquaz, animada e estrepitosamente gargalhante do lugar.



Mais um amigo para ser guardado do lado esquerdo do peito, como diz a canção.

O cardápio? Massas, of course. Precederam-nas os frios, outra marca registrada do lugar. Fui premiado com o Spaghetti Brody, exuberantemente guarnecido de camarões, champignons, ervas, brócolis...

Tudo muito bem regado ao Boscato Gran Reserva Extra, produto da terra. Tal como na casa de Dom Afonso, brindamos com vinho da terra. Nota 10!
__________
Mais fotos: aqui.
Ah! assista à entrevista hilária que o Flávio Prada acaba de postar, com o próprio Milton.

07 junho, 2007

A Condessa e o Plebeu

Era uma vez um reino muito distante, daqueles que só existem na imaginação. Ouvia-se falar que o clima era frio no inverno e quente no calor. Às vezes o sopro do vento vinha do nordeste, por isso chamavam-no 'nordestão'. Outro vento, pior ainda, descia dos Andes, enregelando a alma e o seu envoltório, e nomearam-no 'minuano'.

Falava-se, igualmente, de lutas e guerras farroupilhas, do 'homem do laço', do porto, das guaíbas, dos banhados e até mesmo da serra e do néctar que jorra de suas videiras. Seriam paraguaios, uruguaios, platinos ou gaúchos?

Pois que tem alma de aventureiro não se intimida.

Arriei e montei no cavalo ao qual eu chamarei de Fokker 100, da raça TAM. Sacode um pouco, tem selas meio apertadas, veio na base do pinga-pinga (Campinas e Curitiba) e apeei no tal reino, ao sul do equador, mais ao sul do trópico. Setentrional, o reino? Não sou afeito a geografias mas voei pelos céus, sobre montanhas e rios, planícies e outros "acidentes geográficos".

Ao desembarcar, eis que sou recebido por uma condessa, a Condessa Clarissa, acolitada pelo papai e pela mamãe, nobres, todos eles muito nobres.


Nobreza e fidalguia não rimam, mas fazem bem ao coração: quase me matam de tanta emoção (agora, rimou!).







P
alavras não há - socorram-me, poetas e trovadores!
Inspirem-me, musas e ninfas!
Forneçam-me significantes para um significado maior do que eu mesmo, plebeu das grimpas das Gerais, sendo recebido por tão ditoso séquito.

Morram de inveja, se invejosos forem os meus leitores.

Então, o céu estava límpido, o sol brilhava tépido, o vento não era nem minuano nem nordestão, era brisa que vivifica a alma e nos confirma que "amigo é coisa pra se guardar, no lado esquerdo do peito".
A Condessa

No mais, aqui estou. Acabei de chegar, nem esquentei lugar e já estou "em casa", neste reino do Rio Grande.

06 junho, 2007

De poetas, congresso e gentileza

Muita gente pensa que as ciências ditas "psi" - Psicologia, Psicanálise, Psiquiatria, Psicopatologia - desvendam todos os mistérios, profundos mistérios, de nossa alma. Um dos maiores enganos do leigo e, principalmente, do profissional psi é acreditar nisso, apesar de reconhecermos que o radical grego 'psiché' possa ser traduzido como 'alma' - não no sentido teológico, claro.

Na verdade, quem mais sabe - muitas vezes sem o saber - do que nos vai no fundo da alma são os poetas e os escritores. Não qualquer poeta. Não qualquer escritor.


Querem um exemplo?




Poesia e prosa, arte pura, psicologia sem psicologismo, psicanálise sem psicanalice. Este aí sabe desvendar mistérios e narrar o inenarrável.

Ah! o Fabrício tem um blog. Imperdível!
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Aterriso em Porto Alegre, na manhã desta quinta-feira, dia 7. Participarei do Congresso da Associação Brasileira de Neurologia e Psiquiatria Infanti e Profissões Afins (ABENEPI).
Serei recepcionado, no aeroporto, pelo blogueiro D. Afonso Chato que não tem nada de chato, pelo contrário, disponibilizou-se com a maior presteza e demonstrou que as trocas virtuais de comentários e idéias podem gerar amizades reais.
Vou conhecê-lo ao vivo e a cores. Espero, ainda, ter o privilégio de trocar figurinhas com o Milton Ribeiro e a blogoseira toda. Depois eu conto.


04 junho, 2007

O futuro é a morte

Alguém ainda se lembra do documentário "Falcão-Meninos do Tráfico" de MV Bill? Escrevi o texto abaixo em 09.abr.2006 e o publiquei no Bombordo (que está parado sei lá por quê):

Falcão – Meninos do Tráfico (
MV Bill – “Mensageiro da Verdade) reavivou as discussões acerca de uma realidade praticamente negada. A “negação” não significa desconhecimento, mas um “mecanismo de defesa” – quase sempre necessário – para que suportemos a vida.
Os temas violência, criança abandonada, ausência do Estado, falta de Educação, miséria se entrelaçam e provocam intelectuais, sociólogos e políticos a buscarem causalidades e apontarem soluções. Por outro lado, o senso comum – entidade abstrata e intangível, porém prevalente – aponta o dispositivo policial como melhor remédio: “são os traficantes; é preciso acabar com o tráfico; isso é coisa de bandido”.
Transgressões, com efeito, clamam por medidas corretivas e punitivas. Entretanto, mais do que o respeito (medo?) ao ordenamento jurídico da sociedade, a submissão à Lei é um dos componentes da subjetividade (“realidade psíquica, emocional e cognitiva do ser humano, passível de manifestar-se simultaneamente nos âmbitos individual e coletivo” – apud Houaiss).
O documentário de MV Bill é protagonizado por 17 crianças, das quais apenas uma sobreviveu. A crueza das cenas e das falas chocou a muitos, principalmente pelos pequenos “falcões” – os meninos usados pelos traficantes.
O desprezo à própria vida e a falta de senso do que é socialmente classificado como bom ou ruim, certo ou errado e a falta de identificação a modelos “éticos” de comportamento provocam-nos a interrogar:
- Qual o sentido da vida para esses meninos? De onde vêm tanta insensibilidade e ausência de temor à punição? Será que não sentem culpa? Não têm medo de morrer? Colocam-se no lugar do outro? São vítimas ou delinqüentes juvenis? De quem ou do que é a culpa?
As respostas não são simples, muito menos unânimes.
Ao apropriar-se da tragédia grega do Édipo, Freud toma o personagem criado por Sófocles como paradigma das vicissitudes de todo ser humano no caminho de entrada na cultura. Assim como “Falcão”, Édipo não tem nome, é simplesmente “aquele que tem os pés inchados” – conseqüência do furo em seus calcanhares, feito pelo pastor que o salvou da morte.
O “medo à castração” determina sua fuga para Corinto. O castigo seria aplicado pelo pai caso o filho realizasse os desejos incestuosos em relação à mãe. Isso remete à passagem da natureza à cultura, condicionada à relação com a Lei. O temor à Lei é condição para que o sujeito estabeleça uma “sociedade” com a cultura humana: é mister que se obedeçam as regras da linguagem, por exemplo, sob pena de não ser compreendido ou ser tachado de louco.
“Uma lei que não é temida – que não tenha potência de interdição e de punição – é uma lei fajuta, de fancaria, impotente. No entanto, o temor à lei, sendo necessário, é absolutamente insuficiente para fundar a relação do ser humano com a Lei. Uma lei que se imponha apenas pelo temor é uma lei perversa, espúria – lei do cão.” (Hélio Pellegrino).
A “civilização”, é verdade, provoca sempre um “mal-estar”. Embora garanta um certo ordenamento, exige uma dose de renúncia pulsional, controle dos instintos (erótico e agressivo). Mas também proporciona alguns ganhos, é claro.
Freud não chegou a fazer uma crítica à sociedade capitalista e não menciona que a violência da repressão em nossa sociedade existe também pela forte carga de injustiça social. Mas o mito é um paradigma.
A “solução” estaria num pacto: renúncia à onipotência (tudo é permitido) em nome de ganhos para o indivíduo e para a sociedade. Compensam-se as perdas com a conquista de certos direitos: ao nome, à filiação, à estrutura de parentesco, à sobrevivência digna. O pertencimento à cultura que acolhe o indivíduo supõe acordo a respeito de seus valores e ideais – até mesmo direito para criticá-los e denunciar as injustiças.
A compreensão do tal “complexo de Édipo” para além da construção da subjetividade pode iluminar um pouco as discussões acerca da tragédia que se abate sobre incontáveis “Falcões”. Estes nascem e morrem nas sombras. "Existem" apenas nas estatísticas que acusam índices assustadores: o enorme número de jovens entre 12 e 18 anos que são assassinados, vítimas da violência, caso não sejam atingidos, antes, pela mortalidade infantil por fome e doenças causadas por falta de saneamento básico, etc.).
A Lei imposta na micro-esfera do romance familiar (pai-mãe-criança) deve ser compensada pelo atendimento às necessidades da criança (afeto, sustento, educação, acesso aos bens materiais e culturais), do mesmo modo que as renúncias exigidas pela sociedade deveriam garantir a todos os cidadãos os direitos inalienáveis a cada um: trabalho, remuneração digna, expectativas de ascensão social, preservação da integridade física e psíquica, etc.
Sempre que fracassa a figura do Pai (não necessariamente o pai da realidade, mas o pai “simbólico”, representante da Lei e garantidor das compensações), a criança romperá o pacto estabelecido e as exigências da cultura serão insuportáveis: reaparecem os impulsos agressivos, incestuosos, predatórios.
Da mesma forma, quando falha o Estado – garantidor do que chamaríamos de “pacto social” – o que esperar senão a emergência dos impulsos delinqüênciais e homicidas? Com que autoridade pode a sociedade exigir o fim da verdadeira guerra civil travada em forma de assaltos, tráfico de drogas, desrespeito às normas, quando predominam as leis implacáveis do capitalismo selvagem, que mantém um número crescente de cidadãos sem nome, sem casa, sem trabalho, sem remuneração digna, sem esperança de inclusão social? As promessas e ofertas do Mercado não incluem os excluídos.
Os “Falcões”, de alguma forma, expressam o fracasso de políticas sociais excludentes. Em “nome-de-qual-Lei” adotarão os valores defendidos por uma sociedade – que somos nós mesmos – que lhes nega nome, identidade e futuro?
- O futuro é a morte.

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Referência: Pellegrino, Hélio. Pacto Edípico e Pacto Social in: Grupo Sobre Grupo - Luiz Alberto Py et alii - Editora Rocco, RJ, 1987.

02 junho, 2007

Blogar é Falar

Gerbera - By Cláudio Costa

Pois é, quando se puxa o "fio" da memória, nunca se sabe o que vem lá do fundo de nossas lembranças.

O passado é como um tesouro escondido.

Bobo quem pensa que "o que passou já morreu".

O inconsciente não conhece o tempo, tudo está lá, gravado e tão vívido

quanto o que foi vivido: emoções se reanimam

e todos os nossos sentidos são atiçados.

Perfumes de outras épocas, sons distantes, imagens esmaecidas, tudo se revigora quando as associações se desencadeiam.

Eis o segredo das "Mil e Uma Noites", o segredo de Sherazade, que para não ser morta pelo califa, vai desfiando contos intermináveis.

Ou seja: falar, narrar, contar, rememorar, ter alguém que queira nos escutar e... faz-se o milagre do viver.

O homem inventou a linguagem - ou fomos por ela inventados?

In principio erat Verbum... No princípío, o Verbo.

Por isso se bloga tanto: falar, falar, falar.

Assim nos mantemos vivos, na suposição de que haja quem se interessa em ouvir.

Quando alguém comenta, dá um pitaco, palpiteia, discorda, provoca, faz um ruído qualquer, raspa a garganta, gargalha ou ironiza, eis que tomamos vida.

Afinal, somos constituídos pelo Outro, pois para ele existimos.

30 maio, 2007

Evocações

A propósito do post Matadouro Municipal, muitos se manifestaram, tanto na caixa de comentários quanto nos emails.
Parece que mexi num baú de lembranças, uma coisa puxando outra. Conversa de mineiro é assim mesmo: devagar, como quem não quer dizer nada, um e outro acrescentam um pormenor à narrativa. Há os que viveram cenas semelhantes; os que conhecem data, hora e local; os testemunhas oculares dos bastidores; os exagerados e os que emendam com outra história. De repente, dá-se o "causo".
# Ismaelzinho, mano que está morando em Marataízes, no Espírito Santo, relembra:

- O melhor era colocar um barbante (cordinha) amarrado a um pedaço de carniça. Urubu comia e voava para bem alto. Aí eu dava linha, como quem solta uma pipa, pendurava-me no barbante e o grande pássaro preto me carregava pelos céus da cidade. Às vezes, ao "sobrevoar" o rio Piracicaba, eu caia em suas águas e tinha que nadar rápido, para fugir do jacaré. Um dia, um urubu bem grande me levou até a caixa dágua, no alto do morro atrás do Hospital São José. E como conseguia fugir de todos os jacarés e sempre cair em lugar macio, estou aqui a contar como acontecia.

# Meu pai, Soié, lembrou-se de quando eu saía de mãos dadas com o vovo Ilidinho. Ao passar próximo ao matadouro municipal, diante dos animais abrigados no pequeno curral anexo, apontava para um ou outro e perguntava:

- Vovô, aquele boi ali é boi ou vaca?

# Tia Irani, irmã de meu pai (Soié), relembrou um fato acontecido também na minha infância. Eu já aprontava das minhas, é claro. Tia Irani comentou assim:

- GOSTEI e lembrei-me da vaca que entrou na venda (armazém) que meu pai (Ilidinho) tinha aqui junto à nossa casa... Foi o seguinte:
Era costume que os fazendeiros conduzissem sua boiada pelas ruas da cidade. Às vezes, uma ou outra rês se desgarrava e investia sobre os passantes. Numa dessas ocasiões, gritaram:

- "Vaca braaaaava"!

Todos correram para apreciar o espetáculo e o pobre do Claudinho, que estava assentado na porta do Foto Irineu, defronte à venda, saiu em disparada atravessando a rua e gritou:

- Vovôôôôô me acode!!!.

Acontece que a vaca, que estava bem próxima, deve ter pensado que o menino fosse seu bezerrinho (!) e igualmente atravessou a rua e adentrou as instalações do meu pai que, num relance, puxou o menino que tremia e berrava alojado num canto. A vaca tentou passar para detrás do dentro balcão, ficando "engasgalhada" na porta, bufando e batendo c/as patas no assoalho.
Os vaqueiros logo chegaram com um laço e arrastaram a coitada para a rua, onde o povo aglomerado aplaudia. Cláudio, nos braços do avô, chorava e reclamava:
-"Vovô, a vaca queria me pegar".
Nesta hora, foi chegando minha mãe com um copo d’água e biscoitos para acalmar o bezerrinho... ou melhor, o netinho!!!. Boas lembranças, muitas saudades!!!

# Ah, lembro-me dessa minha tia Irani, mocinha nova, a fazer bordados juntos às outras tias. Eu, menino de calça-curta, zanzava pela sala de costuras, pois era casa do meus avós Nhanhá e Ilidinho. E não é que as danadas das tias, quando queriam que não entendesse o que diziam, principiavam a falar na língua do pê? Espertinho, logo logo decifrei o código. Pois então, inventaram mais uma:

Umpumapa daspas coipoisaspas quepe mepe ipirripitapavampam eperapa epessapa linpinguapa dopo pêpê quepe minpinhaspas tipiaspas upusapavampam enpenquanpantopo cospostupurapavampam, napa capasapa dopo vopovôpô Ipilipidinpinhopo.
Depemoporeipei apa depecopodipifipicarpar.
Quanpandopo despescopobripri quepe eperapa apa linpinguapa dopo pêpê, epelaspas copomepeçaparampam apa upusarpar apa linpinguapa dopo epefeperrepe:
Voforrocêfêrrê confonronheferreceferre afarra linfinringuafarra doforro eferreeferre?

24 maio, 2007

Cotidiano

Outro dia chegou-me ao consultório um rapaz com queixas de "ter perdido a alegria de viver". Salientou esses termos e evitou declarar-se propriamente deprimido:
- Continuo na escola, vou a algumas a festas, faço academia, tenho amigos; mas algo não vai bem comigo. Tenho um relacionamento afetivo há alguns anos, "mais sério que um namoro, menos sério que um noivado", mas... O pior é que os defeitos dela começaram a me incomodar, embora eu sempre compreendesse, pois houve um tempo em que estive mesmo apaixonado.
- Explique melhor o que você quer dizer com perder a alegria de viver, como é isso no dia-a-dia.
- No início, eram só cansaço, impaciência, algum distúrbio tipo dor-de-cabeça, desânimo, por aí. Algumas pessoas me perguntavam sobre o que estava acontecendo. Inventava desculpas, tipo "foi algo que comi" ou "esta noite não dormi bem". Mas o certo, doutor, é que me tornei mais introspectivo, conversando menos, achando menos graça nas coisas, entende? Ah, tem também minha obsessão pela internet: comecei a ficar horas no MSN, Orkut, esses sites, o senhor conhece?
- E aí?
- Bem, aí comecei a dar corda para algumas conversas, principalmente com meninas que se propunham a conhecer alguém. Dei o telefone para uma pá de gente. Chegava da escola e corria pro computador, nem lanchava, nem conversava com meus familiares: minha mãe, coitada, ia chegando com um toddy e eu dizia: "espera aí, mãe, que 'tou ocupado'. Ela até reclamou, mas não mudei.
- E?
- Agora estou sentindo uma angústia danada, pois vou terminar com minha namorada-quase-noiva e não sei como falar. Sinto duas coisas: angústia e culpa.
- Como assim?
- Estou com medo de dar um passo errado: e se eu me arrepender, depois? E se eu quiser voltar e ela não? Tenho medo de ficar sozinho, pois só tenho relacionamentos virtuais, quer dizer, só converso pela internet. Fico desanimado de sair pras baladas, puxar assunto. Acho que nem sei mais como se faz para chegar nas meninas.
- E culpa, culpa por que?
- Porque já estou fazendo minha namorada-quase-noiva sofrer: ela percebe minhas esquivas em conversar. Digo-lhe que estou fazendo pesquisa no computador, mas ela sabe que é mentira, estou sempre on line no MSN. Engraçado que é mais fácil conversar com ela pela internet do que ir à casa dela ou sair prum barzinho, fazer algum programa juntos.
- E o que você pretende?
- Queria que me receitasse um remédio, um antidepressivo, sei lá, um remédio que me fizesse esquecer essas coisas, ficar bem...
- ...
- É, eu sei que não existe pílula da felicidade.
- Não existe mesmo.
- Mas ajuda, né?
- Parece-me que talvez seja mais lógico você tentar mudar seu esquema de vida, rapaz. É preciso definir o que você quer, se gosta ou não da menina, entender por que você se enfurnou na internet.
- Eu sei disso, mas não adianta. Hoje em dia tá todo mundo assim: à noite, de madrugada, o MSN fica bombando de gente; parece que ninguém dorme, ninguém sai.
- Muito menos você, né?

23 maio, 2007

Comentário em forma de Recado

Filhota mia!
Será que paguei um mico tão grande? Deus ama os inocentes, por isso estou salvo: entrei realmente pelo lado D, já que, defronte à entrada da catedral, havia um montão de gente, mercedes prateada, etc. e tal. Ao ver que a porta ainda não houvera sido aberta, empertiguei-me e me propus a atravessar a nave central.
Eis que a pequena orquestra ataca de Marcha Nupcial, enquanto meu corpo já desencadeara os movimentos necessários às passadas largas e rápidas programadas pelo córtex frontal. Não houve tempo de interromper o deslocamento dos 74kg acomodados em parcos 1,65m. Fazer o quê?
Como artista hollywoodiano, acostumado aos tapetes vermelhos da Academia ou de Cannes, desfilei! Senti falta, porém, de algo: os aplausos da platéia e o pipocar dos flashes. De qualquer forma, seu post eternizou aquele momento, doravante inesquecível graças à sua capacidade literária e seu humor perspicaz.
Pra mim, é a glória!
Seu pai.
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Por que? Por que? Entenda, clicando aqui.

19 maio, 2007

Matadouro municipal

Tom Jobim era um admirador dos urubus. É o que João Paulo afirma em sua crônica de hoje, no Caderno Pensar, do EM.

Muito antes da disseminação do pensamento ecológico entre nós, Tom Jobim soube ver beleza e sabedoria naquela ave de rapina, causadora de repulsa e de "cruz-credo" pela lembrança da morte. Os urubus aproveitam as correntes térmicas e fazem vôos elegantes, sobranceiro entre as nuvens, sobrepujando montanhas, matas e casas.

O tema lembrou-me a infância, povoada de urubus.

Explico:

Minha terra natal (Nova Era-MG), até hoje preguiçosamente debruçada sobre as curvas do rio Piracicaba, tinha um matadouro municipal bem na região central. Fora construído, é provável, no final do século XIX, bem próximo à ponte que seria inaugurada por Getúlio Vargas, anos depois.

O local se tornou passagem obrigatória para quem quisesse atravessar o rio, buscando o bairro mais novo, chamado, inicialmente, de bairro da "Rua Nova".

Ali, bem à entrada da ponte, os magarefes matavam e esfolavam as reses, à vista de todos, num espetáculo tão macabro quanto banalizado pela frequência diária com que se oferecia aos olhos e ouvidos dos passantes: olhos que se arregalavam diante da decidida paulada perpetrada na fronte do animal e da subsequente e certeira punhalada que lhe seccionava a medula, bem no meio da nuca; ouvidos que captavam os estrebuchares e mugidos medonhos, pavor e lamento de que não me esqueço.

Pequeno e curioso, eventualmente pedia ao meu avô Ilidinho que me levasse a passear na beira do rio. Às vezes, coincidiam passeio e espetáculo mórbido. De olhos estatelados e ouvidos sensíveis fui-me acostumando àquela cena. Acompanhava cada momento, desde a chegada do boi, os laços que o puxavam para o tronco central onde, amarrado, recebia a sentença. Não me lembro de maiores escrúpulos ou lembranças aterrorizantes. Afinal, era natural que se matasse para comer. Pelo menos foi assim que aprendi.

Uma imagem, porém, impressionava-me: aos montes, fazendo de poleiro as cercas, os arbustos e os arcos da ponte, os urubus esperavam. Pacientemente, desde horas antes, lá estavam os bichos negros, de asas abertas para "quentar sol" nas manhãs de inverno, aguardavam o banquete recém preparado.
De repente, como que tangidos por uma orquestra bem compassada, voavam direto à carniça e ao sangue que escorria em direção ao rio.
Pinicavam os ossos até não restar fiapo de músculo. Saciavam a fome e limpavam o mundo. Não restava podridão e a cidade continuava a respirar em paz. Mais tarde, com as termas que subiam do fundo do vale, faziam geometrias harmônicas contra o azul do céu.

O ciclo da natureza se completava e o menino, curioso, aprendia que a vida é mesmo assim.