28 outubro, 2006

Soié & Castelo do Batel

1) Quem visita este pedaço há mais tempo, já sabe que Soié é o meu pai: Ismael. Neste 28out, infelizmente, não poderei abraçá-lo pessoalmente pelo seu aniversário. Faz 83 anos! Com saúde, inteligência, bom humor, savoir-vivre e BLOGUEIRO.

Certamente, lá em Nova Era, haverá encontro da família Costa: filhos e filha, netos, etc. Imagino, daqui, a animação reinante com a casa cheia de gente. Minha mãe, Aparecida, atenta a tudo e a todos, ansiosa por servir um almoço especial. Churrasquinho, cerveja, alegria, fuzarca, brincadeiras e, à noite, sessão de "causos" na varanda.

Para o papai, um grande abraço e PARABÉNS!

2) Castelo do Batel é uma construção em estilo neoclássico francês (os arquitetos que me perdoem, se não for exatamente assim) que pertence à família Lupion, aqui em Curitiba. Fica na esquina da Av.Batel com Rua Teixeira Coelho, no centro de um imenso lote ajardinado. Atualmente funciona como casa de recepçoes. Estivemos lá, ontem à noite, para um jantar oferecido por uma indústria farmacêutica. Ofereceram, antes, uma palestra com o intuito de nos convencer que o antidepressivo deles é o melhor do mundo. A gente já está escolado: não existe a pílula da felicidade!A indústria farmacêutica, como todo sistema capitalista, visa o lucro.

Investem milhões de dólares em pesquisa e 'precisam' vender. É assim. Cabe aos bons profissionais estudarem muito e aprenderem a fazer leituras críticas, filtrar as afirmações, checar as estatísticas. Diz-se que, à indústria, interessa 'realmente' um bom produto, seguro e eficaz, pois venderão mais e não serão processadas por fazerem mal aos usuários (os pacientes, nós mesmos). Se não forem picaretas, até dá pra acreditar.

Por outro lado, nós, os profissionais, também queremos (digo dos honestos) cuidar bem dos pacientes, mitigar o sofrimento e não prejudicar ninguém. Há riscos com a química, todos sabemos. Risco x benefício, eis a questão.

Tudo isso deve estar na mente da gente quando 'aceita' um convite para eventos "científicos" regados a bons jantares, vinhos saborosos e charme. Foi assim, ontem, no Castelo de Batel. (Nossas fotos serão postadas, em breve).
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Amanhã: Belo Horizonte.

27 outubro, 2006

MON

MON é a sigla do Museu Oscar Niemeyer aqui em Curitiba.
O gênio do artista (sei que alguns torcem o nariz pro Niemeyer, mas acho que é pura inveja) se imortalizou em muitas obras. Inventor de formas que surpreendem e desafiam a Lei da Gravidade.
Aqui, o MON é um 'grande olho' que observa a cidade e que pode ser visto de vários lugares: fica numa colina, próximo ao Centro Cívico da cidade.
Trata-se de um espaço espaço, onde predomina a cor branca da construção, contrastando com o verde do bosque adjacente e com o azul cobalto dos vidros que compõem o 'olho'. O site do MON é este
aqui, um link valioso.
Amélia e eu passamos algumas horas admirando as exposições simultâneas: arte de Cuba, fotografia de Cláudia Andujar, Siron Franco e as Santanas da coleção particular da mineira Angela Gutierrez. Falar o quê? Arte se vive, se respira, emociona.
À tarde: Congresso.

26 outubro, 2006

Arame e Pasta

A Ópera de Arame é algo de arrepiar. O link leva a uma foto achada na internet. Quando voltar a BH, postarei as minhas.
Estivemos lá, ontem. Trata-se de um teatro de armação de ferro, com paredes de vidro, suspenso sobre um lago, num anfiteatro de rocha e floresta. Entendeu?
Um passeio imperdível, não só pelo inusitado da construção, mas porque demonstra o valor dado às artes nesta Curitiba que ora visitamos.
Ao lado, um espaço natural, muito bem tratado, onde fica a "Pedreira", local de shows ao ar livre: rock, festivais de música, etc.
Mas hoje o Congresso está a pleno vapor e, até agora (17,30h), estou por conta de palestras, mesas redondas, etc. O tempo é curto.
À noite, já programamos um jantar no Bairro Santa Felicidade, reduto italiano que se caracteriza (provavelmente mais por interesses turísticos) pela sucessão quase infinita de restaurantes, trattorias, tarantellas e muita 'macarronada'. Tutti pasta!
Até à noite, no "Porta Romana"!
Salute!

24 outubro, 2006

Graciosa

A Serra do Mar se ergue como um paredão verde lá longe, após os descampados do planalto curitibano. Tomamos a rodovia 116 (Curitiba-SPaulo), não sem umas voltas desnecessárias, já que o motorista aqui se perdeu. Nada desesperador, apenas aumentou a vontade de chegar logo à Estrada da Graciosa.
A "Graciosa", como chamam por aqui, é a antiga ligação entre o planalto e o litoral. Serpenteia por entre a vegetação preservada da Serra do Mar, pedaço de Mata Atlântica que ainda resta. Estreitinha, ora asfaltada ora pavimentada com paralelepídedos. Riachos, pequenas cachoeiras, pontes, amuradas de pedras e muitas, muitas hortências transformam a viagem em um passeio pelo jardim.
A certa altura, temos um mirante. Uma parada e... já se avista a baía de Paranaguá, lá embaixo, meio que entre as brumas de uma terça-feira ainda meio nublada.
Descemos devagar, sentindo o cheiro de mato e escutando pássaros, mil pássaros. Eram duas graciosas: a estrada e a companhia ao meu lado: Amélia.
Em Morretes, nosso destino, caminhamos pelas margens do Rio Nhundiquara, sobre o qual se debruçam alguns restaurantes avarandados. A especialidade do local é o "Barreado", uma carne preparada com toucinho ou bacon, muita cebola, cominho, louro. A tampa da panela é selada com uma massa de mandioca e farinha de trigo e, segundo a tradição, deve-se deixar cozinhar por 24h. Após, "soca-se" a carne e tem-se um caldo grosso, com aquelas fibras bem macias, com cheiro apetitoso.
Nossa escolha, porém, foi um linguado grelhado com alcaparras, acompanhado de rica e abundante salada. Não fosse a viagem de volta e o sol inclemente, uma taça de vinho seria ótima pedida.
Morretes é cidade antiga, onde tem uma estação da linha férrea, ponto final da "litorina", um ou dois vagões que descem a serra através da mais incrível ferrovia: abismos por sobre florestas, deslumbrante. Fizemos este passeio há anos e preferimos, agora, a Graciosa. Valeu.
À tardinha, já em Curitiba, visitamos o Jardim Botânico, muito bonito. Tudo "cartão postal", o que demonstra como vale a pena investir no embelezamento: ótimo para os cidadãos, atração para os turistas, apaziguamento em meio às turbulências do viver.
Amanhã começa o Congresso Brasileiro de Psiquiatria. Como ninguém é de ferro, sempre haverá tempo para mais alguns passeios.

23 outubro, 2006

Curitiba - dia 1

Viagem ótima de BH a Curitiba. O transponder do Airbus 320 ficou ligado o tempo todo, deu pra sentir. Céu lindo, na saída de BH, com um mar de nuvens abaixo dos 30 mil pés, com o sol da tarde dourando as cristas das ondas - ou seja, das nuvens. Filmei e vou colocar no YouTube.
Escala em Congonhas. Durante 3h caminhamos pra lá e pra cá: desta vez o mar era de camisas vermelhas, agasalhos vermelhos, bonés vermelhos: o povo que foi assistir à Fórmula 1, vitória do Massa, estava de volta às cidades de origem. Impressionante a força deste evento! Corredores, lojas, restaurantes, salas de embarque, tudo lotado de fãs da Ferrari. Um ou outro vestido do azul da Renault, do Alonso Campeão. Agora que o Felipe Massa ganhou aqui, com certeza mais gente vai usar o vermelho da Ferrari. Acho.
Às 22h aterrisamos no Aeroporto Afonso Pena, em S.J. dos Pinhais, na grande Curitiba. Ótima impressão: uma van (Sprinter) só por nossa conta, cujo motorista havia sido camioneiro e, segundo disse, "rodara pelo Brasil inteiro". Não sei se foi para nos agradar, mas garantiu que, de todos os lugares e pessoas, mais gostou foi de Minas e dos mineiros! Acreditamos, claro! Se não foi sincero, mesmo assim a gente fica feliz: boas palavras são sempre bem recebidas.
O Quality Hotel fica no Bairro do Batel, região nobre. Já rodamos (a pé) pelos arredores, incluindo a belíssima Praça do Japão. Descemos (sempre caminhando) até Centro. Não pode faltar a visita básica à Rua 24 Horas (dizem que está perdendo o charme, mas vale uma passadinha lá). À tarde: giro calmo pelo Shopping Estação, em cujo Convention Center será o Congresso da ABP que se iniciará na4a. feira. Por lá almoçamos.
Volta pro hotel foi de 'articulado', um busão sanfonado, enorme. Deu pra sentir como o investimento no transporte coletivo pode resolver muitos problemas de trânsito. Pena que em Belo Horizonte a gente esteja tão atrasado e o transporte público é inviável.
À noite, faremos um passeiozinho.
Amanhã tem mais!

22 outubro, 2006

Rumo ao Sul

Às 17,15h de hoje, Amélia & eu decolaremos de Confins, o aeroporto urbano de Belo Horizonte, com destino a Curitiba, escala em Sampa.
Já tomamos algumas providências, dentre as quais, a mais importante: levaremos, na bagagem de mão, um
transponder portátil, que ficará permanentemente ligado. Ninguém sabe se o do avião vai funcionar, né?

Dois motivos nos animam a alçar vôo:

1. nossa comemoração pelo aniversário de casamento (civil: 21.out/religioso: 28/out). É ou não é um bom motivo pra sair por aí igual passarim, voando pelos céus do Brasil? (ficou meio ufanista, mas fazer o quê?). Uma semana inteirinha por nossa conta: eu & ela, ela & eu.


2. participarei de uma Mesa Redonda no Congresso Brasileiro de Psiquiatria, entre 25 e 28, lá mesmo em Curitiba. Não deixa de ser um bom pretexto pra sair daqui das Alterosas. Entre uma palestra e outra, uma descida pela estrada da Graciosa, visita à Ópera de Arame... alguém sugere mais alguma coisa? Ficaremos hospedados ali mesmo, no bairro Batel.

Caso haja tempo e disposição, vou postar alguma notícia de lá...

18 outubro, 2006

Pra quem acredita em reencarnação

Uma notícia auspiciosa (alguém se lembra desta palavra?) pra quem acredita em reencarnação: o ano 3000 vai encontrar homens e mulheres "muito melhores" do que são hoje! O assunto está na última página do primeiro caderno de hoje do EM.
Um cientista inglês (ah! esses ingleses...) prevê, baseado em pesquisas (ah! essas pesquisas...) que daqui a 1000 anos (O tempora, o mores...) homens e mulheres serão muito mais bonitos e saudáveis. Diz o cabra que as pessoas terão de 1,80m a 2,20m.
O homem terá um pênis (ah! esse complexo de castração...) maior e a mulher terá seios maiores (ah! esse complexo de Édipo...) Mais ainda: o homem padrão será moreno, alto, bonito e sensual (ah! já escutei uma música que fala exatamente isso...)
O futurólogo (ah! esses futurólogos...) prevê que, mais uns mil anos e tudo vai entrar em decadência: as pessoas estarão mais fracas, pois a medicina (ah! esses médicos...) tratará tão precocemente cada problema que não haverá mais correção genética pela seleção natural. Além disso, todos estarão completamente dependentes das máquinas (ah! esses cyberaddicted....) e haverá duas raças humanas distintas: os bonitos e saudáveis, genéticamente perfeitos e os outros.
Como serão esses outros? Explica o cientista lá das Inglaterras: "os outros serão uma raça de troncudos, baixinhos, barrigudos".
É aí que me incluiria. Melhor não ter reencarnação. Agradeço!

14 outubro, 2006

Desejos...

  • Era uma vez Erasmo Carlos, compositor da Jovem Guarda, que embalou muitos adolescentes enamorados pela coleguinha com os seguintes versos:

Eu queria ser o seu caderninho / Pra poder ficar juntinho de você
Inclusive na escola / Eu iria com você entrar
E na volta juntinho ao teu corpo eu iria ficar
E em casa então / Você me abriria para me estudar
E se assustaria ao ver revelado em seu caderninho
Meu rosto olhando, dizendo baixinho:
"benzinho, eu não posso viver longe de você"

  • Tempos depois, no Reino da Inglaterra, um príncipe chamado Charles, já casado com a linda princesa Diana, arranjou uma amante. Chamava-se Camila. Alguém grampeou (já era moda) o telefone dela e gravou a seguinte declaração do nobre Charles:

"Meu bem, eu queria ser seu Tampax."

Diana morreu (sniff) e Charles desposou Camila. Coisas da realeza!

  • Agora, um jornalzinho do Bairro Betânia, aqui em Belo Horizonte, conta que a professora de uma escola pública pediu aos alunos que redigissem uma redação com o seguinte tema: "O que você quer que Deus faça com você". Uma criança escreveu:

“Senhor, lhe peço algo especial: me transforme em um televisor. Quero ocupar seu lugar. Viver como vive a TV de minha casa. Ter um lugar es pecial pra mim e reunir minha família ao meu redor.

Ser levado a sério quando eu falo. Quero ser o centro das atenções e falar sem ser interrompido. Quero receber o mesmo cuidado que a TV recebe quando não funciona. Ter a companhia de meu pai quando ele chega em casa, mesmo cansado. E que minha mãe me procure quando ela estiver sozinha , em vez de me ignorar. E ainda que meus irmãos briguem para estar comigo.”

E você, queria ser o quê?

12 outubro, 2006

No Stress - No Problem - A Panacéia

Pra quem tem: ziquizira, candonga, inhaca, olho-gordo, dor-de-cotovelo, unha encravada, dente ciso, triglicérides lá no alto e auto-estima lá embaixo, varizes, estrias, brochadas, falta de energia, farol baixo, celulite, lumbago, desgosto, urucubaca, hepatomegalia, coceira na perseguida, genuvalgo e genuvaro, espinhela caída, coração sincopado, vesânia e desvario, trique-trique, mazelas e achaques de todo tipo;
Pra quem está meio que abilolado, zureta, mentecapto ou desatinado, aluado ou aloprado, pinel, mouco ou biruta, cheio de leseira ou lelé;
Pra quem tá achando que já-já vai abotoar o paletó e está a caminho do beleléu;
Pra quem quiser se prevenir contra todos os males, amém!

Eis a solução:

Onde?
No Mercado Central, em Belo Horizonte.
Se não matar, engorda!

11 outubro, 2006

A Dália Negra de Brian DePalma

Algo inusitado é 'achar tempo' para ir ao cinema durante a semana. Ontem, porém, mais uma vez os deuses conspiraram a meu favor: ganhei convites para o filme "A Dália Negra", dirigido por Brian DePalma. O filme estreou em setembro deste ano nos EUA e já está passando aqui em BH.
Trata-se de uma produção primorosa, desde a escolha do elenco, o figurino, a trilha sonora, a ambientação na LosAngeles da década de 40.
É o que se pode chamar de um autêntico
film noir: enredo intrincado, personagens ambíguos, sombras, traição, prostitutas, traficantes, policiais corruptos, fumaça de cigarros...
O roteiro se baseou em fatos reais, em torno da investigação do assassinato de Elizabeth Short, uma aspirante a atriz, cujos cabelos negros lhe emolduravam um rosto bonito, sorridente e sedutor.

» Direção: Brian De Palma
» Origem: Alemanha/Estados Unidos
» Gênero: Drama/Musical/Suspense
» Duração: 120 minutos
» Trailer: Clique aqui
» Site Oficial: Clique aqui

Sinopse: 'Dália Negra' é uma história de obsessão, amor, corrupção, cobiça e devassidão, baseada na história real de um violento crime que chocou e fascinou os Estados Unidos em 1947.caso que permanece até hoje sem solução. Os detetives e ex-boxeadores Lee Blanchard e Bucky Bleichert são encarregados da investigação do brutal assassinato da aspirante a estrela Elizabeth Short, conhecida como a 'Dália Negra'. A obsessão que os dois desenvolvem por ela acaba por arruinar suas vidas. Baseado no best-seller homônimo de James Ellroy, o filme foi exibido em competição no Festival de Veneza de 2006. (informações tiradas daqui)

» Elenco Principal: Aaron Eckhart, Fiona Shaw, Gregg Henry, Hilary Swank, Josh Hartnett, Mia Kirshner, Mike Starr, Rachel Miner, Rose McGowan, Scarlett Johansson, Troy Evans

Gostei muito, recomendo. Talvez um pouco longo, mas não cansa. A trilha sonora é espetacular, com clássicos da década de 40 em orquestrações pertinentes, criando o clima noir do filme.

Ah! Scarlett Johansson, a atriz de Moça com Brinco de Pérola e de Match Point está sensacional.

09 outubro, 2006

Verdade (?)

Conforme previa no post de ontem, o debate entre os dois candidatos à Presidência foi uma luta de cego no escuro, com faca, facão, foice, titica de galinha, etc.
Foi um verdadeiro festival de acusações mútuas, sem espaço para que alguma proposta mais clara fosse apresentada e discutida.
O que mais se usou foi o 'último estratagema' da Erística:

Último estratagema: quando percebemos que o adversário é superior e que acabará por não nos dar razão, então nos tornemos pessoalmente ofensivos, insultuosos e grosseiro. Ataquemos a honra do outro - esqueçamos seus argumentos, já que não temos mais chance de refutá-los!

Quem venceu?
Melhor perguntar:
- 'quem perdeu?'
Respondo logo:
- 'nós, os eleitores, os cidadãos, o país.'
Parece que, mais uma vez, a escolha será de acordo com a miopia de cada um, ou sua ilusão, ou seu capricho:

Verdade

A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

08 outubro, 2006

Como Vencer um Debate ...sem Precisar Ter Razão

O domingo amanheceu nublado, quase chuvoso, em Belo Horizonte. Algumas manchetes de jornais relembram que, hoje à noite, haverá o primeiro debate entre Alckmin e Lula. Este, busca a reeleição - perdida por pouquíssimos votos. Aquele, animado pela improvável chegada ao segundo turno, repete bordões.
Propostas de governo? É o que menos importa. Agora, é guerra, como descreve o lead da notícia no EM de hoje:

As armas para a primeira batalha
Certos de que o primeiro debate hoje na TV será cartada decisiva na acirrada disputa pela Presidência da República, os dois candidatos ao segundo turno, o presidente Lula (PT) e Geraldo Alckmin (PSDB), passaram os últimos dias preparando as armas para o confronto. Serão apresentadas propostas e exibidas realizações, mas também não deverão faltar acusações de parte a parte.

Já que é 'guerra', o importante é vencer, parece.

Meu amigo Lucas Monteiro de Castro, neuropediatra de alta estirpe, formado em Direito, expert em Filosofia (ufa!), recomendou-me e me emprestou o livro de Arthur Schopenhauer: Como Vencer um Debate sem Precisar Ter Razão (Editora TopBooks).
O subtítulo explica: Em 38 estratagemas(1): dialética erística(2).

(1) Estratagema: s.m. (1559 CDP VIII 151) 1 mil manobra, plano empr. ger. em guerras para enganar, confundir o inimigo 2 p.ext. plano, esquema etc. previamente estudado e posto em prática para atingir determinado objetivo 3 p.ext. qualquer ato ardiloso; subterfúgio ¤ etim gr. stratêgéma,atos 'manobra de guerra, estratagema, astúcia, artifício de guerra'.

(2) Erística: s.f. (1873 cf. DV) fil 1 na antiguidade grega, arte ou técnica da disputa argumentativa no debate filosófico, desenvolvida sobretudo pelos sofistas, e baseada em habilidade verbal e acuidade de raciocínio 1.1 pej. em Platão (427-348 a.C.), argumentação que, buscando unicamente a vitória em um debate, abandona qualquer preocupação com a verdade ¤ etim substv. do gr. eristikê subentendido tékhné

Há um sentido pejorativo (cf. acepção 1.1) para Erística, provavelmente adotado por Platão, ao afirmar que, em busca da vitória, não importa a verdade na argumentação. Muitas vezes, sua marca registrada é o sofisma(3).

(3) Sofisma: s.m. (sXIV cf. FichIVPM) 1 lóg argumento ou raciocínio concebido com o objetivo de produzir a ilusão da verdade, que, embora simule um acordo com as regras da lógica, apresenta, na realidade, uma estrutura interna inconsistente, incorreta e deliberadamente enganosa 2 lóg argumentação que aparenta verossimilhança ou veridicidade, mas que comete involuntariamente incorreções lógicas; paralogismo

Poder-se-ia pensar que, por isso, tais debates entre candidatos não devem ser levados muito a sério, já que aos debatedores interessa vencer a qualquer preço, inclusive às custas da verdade.

Ora, conhecendo as 'artimanhas' da Erística, o eleitor poderá ficar mais atento às distorções e estratagemas de cada um dos presentes à cena do duelo verbal, incluindo-se o(s) entrevistador(es). Estes têm um grande poder de sedução, pois ao grande público aparecem como imparciais, quando, na verdade, não o são: geralmente fazem perguntas capciosas quando querem 'derrubar' o entrevistado pelo qual (seus patrões) não têm simpatia ou, ao contrário, 'levantam a bola' para o candidato do seu (patrão).

Os debates na esfera política (e em muitas outras, evidentemente) são caracterizados pela necessidade de vitória sobre o outro, custe o que custar. Isso contraria as propostas da dialética de Aristóteles e de Sóprates por exemplo, que propõe uma disputa limpa, sem truques, cujo exercício leva à 'verdade', objetivo único a ser perseguido: 'arte da controvérsia, da argumentação sutil' "Pela decomposição e investigação racional de um conceito, chega-se a uma síntese, que também deve ser examinada, num processo infinito que busca a verdade."

Ah... mundo ideal...

Schopenhauer, no Intróito do seu livro, já define assim a tal de Dialética Erística: é a arte de discutir, mais precisamente a arte de discutir de modo a vencer, e isto per fas et per nefas (por meios lícitos ou ilícitos).

A seguir, distingue que ter razão nem sempre significa que se tem a verdade:

Assim ocorre, por exemplo, quando o adversário refuta minha prova e isto é tomado como uma refutação da tese mesma, em cujo favor se poderiam aduzir outras provas. Neste caso, naturalmente, a situação do adversário é inversa àquela que mencionamos: ele parece ter ração, ainda que objetivamente não a tenha. Por conseguinte, são duas coisas distintas a verdade objetiva de uma proposição e sua validade na aprovação dos contendores e ouvintes.
Dentre os 38 estratagemas descritos por Arthur Schopenhauer, enumero alguns mais comuns:

  • Ampliação indevida: levar a afirmação do adversário para além de seus limites naturais, interpretá-la do modo mais geral possível, tomá-la no sentido mais amplo possível e exagerá-la. (Quanto mais geral uma afirmação se torna, tanto mais ataques se podem dirigir a ela!).
  • Mudança de modo: tomar uma afirmação relativa como se fosse absoluta e refutá-la neste segundo contexto.
  • Pré-silogismos: quando se quer chegar a uma certa conclusão, evita-se que esta seja prevista, de tal modo que o adversário, sem o perceber, admita as premissas uma de cada vez e dispersas, sem ordem.
  • Perguntar em desordem: Fazer, de uma só vez, várias perguntas pormenorizadas e, assim, ocultar o que, na verdade, queremos que seja admitido. Confundir o outro, eis a questão.
  • Encolerizar o adversário: provoque a cólera do adversário para que, em sua fúria, ele não seja capaz de raciocinar corretamente e perceber sua própria vantagem. Como? Tratando-o com insolência, fazendo ofensas, humilhando-o e acusando-o injustamente!
  • Alternativa falsa: induza o adversário a aceitar uma tese apresentando-lhe a tese contrária, ressaltando essa oposição com estridência, de tal forma que ele tenha que se decidir pela nossa tese, em comparação com a outra (falsa).
  • Proclamar-se, precocemente, vitorioso: trata-se de um golpe descarado, principalmente diante de um adversário tolo ou tímido.
  • Impelir o adversário ao exagero: quando o pato cair no exagero, explore isso, refutando-o e expondo-o ao ridículo.
  • Falsa redução ao absurdo: extraia conseqüências absurdas das afirmações do adversários, distorcendo-as perante a platéia.
  • Argumento de autoridade: apele para a própria sabedoria ou à sabedoria de alguém tido como conhecedor do assunto, ao mesmo tempo que minimiza o conhecimento do adversário.
  • Ironia: finja incompetência e se declare incompetente para compreender o que o outro diz. Insinue que a afirmação do outro é tão incompreensível e insensata, que escapa à compreensão!
  • Discurso incompreensível: desconcerte o adversário com um caudal de palavras sem sentido.
  • Último estratagema: quando percebemos que o adversário é superior e que acabará por não nos dar razão, então nos tornemos pessoalmente ofensivos, insultuosos e grosseiro. Ataquemos a honra do outro - esqueçamos seus argumentos, já que não temos mais chance de refutá-los!

A tudo isto estarei atento, hoje.
Se conseguir dormir depois, será por exaustão!
(Exaustão, esta, que espero não tenha atingido meus dois ou três leitores deste post 'quase' filosófico...)

04 outubro, 2006

Confit de carne-de-sol

Fomos convidados para uma "boca-livre" de lançamento imobiliário, perto daqui de Belo Horizonte. Programinha descompromissado, sábado pela manhã, em meio à natureza.
A incorporadora caprichou: montou um mega-toldo, muito bem decorado, com flores e música ambiente. Recepcionistas, vendedores, garçons: vender é preciso!
Se o negócio extrapolou nossa pobre conta bancária, nem por isso nos excusamos de degustar os comes-e-bebes... afinal, mineiro que é mineiro não faz desfeita com o dono da casa!
Uma amostrinha tá aqui na foto: confit de carne-de-sol com creme de mandioca e couve frita.
Vem servido numa mega colherinha de porcelana. Sem intenção de marketing: produção do Bouquet Garni.
Como dizia o mais famoso colunista social do Brasil, Ibrahim Sued: sorry, periferia!

02 outubro, 2006

Vá pro 2° turno "sabendo das coisas" ou Como se curar da Síndrome de William Moreira

1 - CURSO "Para mandar um palerma para o 2° turno":
"Para mandar um palerma para o segundo turno é preciso, antes de mais nada, contar com o apoio de uma mídia imparcial. Ou seja, como o nome bem indica, uma mídia que tome partido. Mas não o partido dos jornalistas, evidentemente. Afinal, os profissionais de imprensa precisam ser honestos, quer dizer, reproduzir honestamente a opinião dos seus patrões." - continue aqui

2 - A RELATIVIDADE DOS VOTOS:
"Há muito o que pensar sobre a vontade do povo. Muito mesmo. Especulações e análises apressadas, feitas no calor do resultado das eleições de domingo, não permitem decifrar com segurança a exata tradução do recado das urnas. São muitas as traduções e, por certo, elas sugerem relativizar as certezas. E, desde já, inclusive os supostos efeitos da questão ética no destino de vencedores e perdedores do pleito, mesmo que tenha virado objeto de uso político, cantada e decantada por falsos arautos da moralidade." - continue aqui

3 - O DESTINO DA ESQUERDA:
"Um desafio para todas as esquerdas, inclusive a esquerda da esquerda: se elas não recompuserem uma frente comum a partir de agora, em função da reeleição de Lula na disputa federal e dos candidatos progressistas nas disputas estaduais, é isto que nela vai virar: coadjuvante de tucano." - continue aqui

4 - O QUE ESTÁ EM CAUSA:
"Os adversários de Lula e do povo neste 2º turno serão os senhores do poder econômico, que controlam a maioria dos meios de comunicação. Esses tradicionais donos do Brasil farão de tudo para impedir a continuidade do processo de construção de uma nova cidadania no país." - continue aqui

5 - PLAY IT AGAIN, JANGO!
"Morri no exílio, na província argentina de Corrientes, em 6 de dezembro de 1976, sozinho, vítima de ataque cardíaco, numa fazenda da fronteira. Tentava voltar para o Brasil, de onde me expulsaram com o Golpe Militar depois que anunciei, no dia 13 de março de 1964 num comício para 150 mil pessoas na Central do Brasil que iria fazer a Reforma Agrária, Urbana, as reformas na Educação, a Reforma Eleitoral, Tributária..." - continue lendo

6 - NÃO SEJA IMBECIL, VOTE CONSCIENTE:
"Ah, quer dizer que você acha que todo político é ladrão e que se você votar nulo e deixar de participar do "corrompido processo eleitoral" estará ajudando o Brasil a se tornar um país melhor? Com o devido respeito, não posso deixar de expressar minha opinião: você é uma besta." - continue aqui

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Dá um trabalho danado a gente ficar sabendo das coisas.
É mais fácil assistir o J.N. e contrair a síndrome de William Moreira...

28 setembro, 2006

Que tipo de brasileiro vai às urnas?

Caráter geral do brasileiro

  • Os brasileiros são entusiastas de um belo ideal, amigos da sua liberdade, e mal sofrem perder as regalias que uma vez adquiriram.
  • Obedientes ao justo, inimigos do arbitrário, suportam melhor o roubo que o vilipêndio; ignorantes por falta de instrução, mas cheios de talento por natureza; de imaginação brilhante, e por isso amigos de novidades que prometem perfeição e enobrecimento; generosos, mas com bazófia; capazes de grandes ações, contanto que não exijam atenção aturada, e não requeiram trabalho assíduo e monotônico; apaixonados do sexo por clima, vida e educação.
  • Empreendem muito, acabam pouco.
  • Sendo os atenienses da América, se não forem comprimidos e tiranizados pelo despotismo.
  • Avulsos, os brasileiros mostram altivez nas baixezas, amor-próprio nas bagatelas, e obstinação em puerilidades.
  • Congonhar, fumar e cavalhotar são as três felicidades dos paulistas de serra acima.
  • Falsidade e dissimulação fazem o caráter geral dos brasileiros - curiosos e inquietos, mas não ativos, nem aplicados.
  • No Brasil a natureza é amiga do homem; mas o homem é ingrato às meiguices da natureza; e todavia o homem vive aqui mais com a natureza do que com os outros homens.
  • No Brasil, a virtude, quando existe, é heróica, porque tem que lutar com a opinião, e o governo.
  • A maior corrupção se acha onde a maior pobreza está ao lado da maior riqueza.
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Os textos curtos que você acaba de ler foram escritos por José Bonifácio (o patriarca da Independência) no exílio, como anotações pessoais, entre 1823 e 1829.
Provavelmente não visavam à publicação. O título é do próprio autor. Versão conforme o livro "Projetos para o Brasil", da coleção "Retratos do Brasil", da Companhia das Letras, editado em 1998 e organizado por Míriam Dolhnikoff. Sob o subtítulo "Avulsos", estão incluídas outras anotações dispersas de JB sobre os brasileiros.

26 setembro, 2006

A Nova Guarda do Samba

TerSamba no Reciclo Asmare de BH


Toda terça-feira é dia de TerSamba no Reciclo Asmare Cultural, em Belo Horizonte.
E hoje, 26/09, é dia de Chapéu Panamá.(link do blog)


Estaremos lá, a partir das 20:30h, para curtir uma roda de samba com nossos dois filhotes, o Ângelo e Leo, integrantes da banda. Afinal, a família que samba unida jamais será vencida!

O Reciclo Asmare é um centro de ajuda a catadores de papel, que recicla todo o material coletado nas ruas. A decoração do bar, que fica na Av. Contorno, 10564, é toda feita de produtos da própria Asmare.

Release:
O Samba, mais do que nunca, mora em Belo Horizonte. Formado por universitários amantes da música brasileira, o grupo Chapéu Panamá trabalha atualmente no projeto "O Samba mora aqui", que intitula uma das mais conhecidas músicas do grupo. Em suas apresentações o Chapéu Panamá oferece à capital mineira a oportunidade de relembrar e reverenciar grandes clássicos do Samba.

O grupo nasceu no início de 2005 em encontros na casa de Matheus Brant. "A idéia surgiu quando amigos se encontravam para tocar e conversar sobre música, partilhar canções e descobrir o que é realmente o Samba", conta o percussionista Dudu. Mas o talento do grupo não poderia ficar restrito aos integrantes, amigos e familiares...

Usando o característico chapéu que virou marca dos mestres imortais do estilo, Matheus Brant, Renato Rosa, Thiago Prata, Dudu Faleiro, Bruno Sant`Anna, Gelo Procópio, Cacá, Léo Procópio e Entusiasta, passaram a se apresentar em diversos eventos do meio universitário e casas de Samba em BH.

O repertório da banda é variado, indo de Jorge Ben Jor à Adoniran Barbosa. "Procuramos tocar músicas menos conhecidas de sambistas famosos e composições próprias" , explica o vocalista Renato Rosa. Agradando, ao mesmo tempo, àqueles que gostam do tradicional samba de raiz e aos que esperam pela renovação do estilo, os jovens integrantes do Chapéu Panamá vêm conquistando, dia a dia, seu espaço no tradicional cenário do Samba.

O papai e a mamãe aqui vestem a camisa da banda!
Foto durante o Festival de Música de Belo Horizonte, na Praça Duque de Caxias, no Bairro Santa Tereza, em Belo Horizonte.

24 setembro, 2006

Viagem ao interior

Fim-de-semana de viagem ao interior. Se BH já é 'interior" (estamos a mais de 400km do litoral), imagine o 'interior' das Minas Gerais.

Enfrentamos a BR262, direção leste, até o km 70. Depois, à esquerda, mais 70km até Santa Maria de Itabira (região à direita da Serra do Cipó: Itabira, Ipoema, Itambé, Ferros...). Estrada Real.
Êta Minas infinita, sô!

Da viagem, três imagens:

1 - Conselho amigo: Tome Decisão!

2- Problemas? Remédio caseiro!

3- Fome? Pães e bolos da Tia (da Amélia) Nhanhá!

20 setembro, 2006

ZOOPOLÍTICA

Brizola afirmou que Lula era um 'sapo barbudo'.
Lula é animal marinho: octópode? cefalópode?
Lula diz que ACM é o 'hamster do nordeste'.
Alckmin foi o indicado dos 'tucanos'.
Newton Cardoso, de MG, é conhecido como 'porcão'.
Muitos candidatos são 'raposas políticas'.
Em toda foto de político tem um 'papagaio de pirata' querendo aparecer.
O Congresso está infestado pela máfia das 'sanguessugas'.
Heloísa Helena já foi apelidada de 'gralha nordestina'.
Mauro 'Lobo' é candidato a deputado, aqui em Minas.
Os petistas próximos ao Presidente são verdadeiros 'amigos-da-onça'.
Sarney escreveu 'Marimbondos de fogo' e entrou pra Academia.
Os projetos de interesse nacional andam a passos de 'tartaruga'.

O dinheiro das campanhas vem dos 'tubarões'.
Muitos congressistas agem como 'aves de rapina'.

A política virou 'gatunagem'.
E o eleitor paga o 'pato'!

__________________
Espero não ser processado pela Sociedade Protetora dos Animais por ofender as espécies. Muito menos pelo Ibama

18 setembro, 2006

Filosofia pura

Generated Image

Sim, sou fílósofo!

Formei-me pela Faculdade de Filosofia, a Fafich-UFMG, quando ainda funcionava na Rua Carangola. Foi lá que descobri minha vocação médica/psiquiátrica/psicanalítica.
- Como assim? perguntará o incrédulo leitor.
- Explico. Dentre as disciplinas, a gente estudava: Ética, Estética, Lógica, História da Filosofia e... Psicologia!

Na verdade, não se tratava da Psicologia dos cursos específicos, pois não discutíamos clínica nem teorias psicológicas. O que nos interessava - do ponto de vista filosófico - era a discussão acerca das funções psíquicas, teoria do conhecimento (epistemologia), dos atributos da alma (psiché) e coisas que tais.

Tinha um colega que era psicanalista. As discussões eram interessantíssimas. Comecei a ler Freud, Karen Horney e outros freudianos. Aí, deu-se o curto-circuito: que filósofo que nada, quero ser psiquiatra e psicanalista.

Formado, busquei passar em outro vestibular. Entrei na Medicina-UFMG, fiz estágios em clínicas psiquiátricas, submeti-me à análise, especializei-me em psiquiatria... enfim, uma trajetória da qual não me arrependo.

Aprendi muito. Principalmente, duas coisas:

1)
Conheça-te a ti mesmo. Aforisma inscrito na entrada do Templo de Apolo e tomada por Sócrates como norteador da vida.
2)
Mantenha o bom humor. Melanie Klein dizia: quando o paciente ri de si mesmo já está no caminho da cura.

Pois, então, vamos filosofar com humor, pois brincadeiras também nos fazem pensar.
Por isso publico um spam recebido de meu amigo João Bosco, outro filósofo.
Autor? Não sei. Fica registrado o copy&paste.

Por que o sapo não lava o pé?

Olavo de Carvalho: O sapo não lava o pé. Não lava porque não quer. Ele
mora lá na lagoa, não lava o pé porque não quer e ainda culpa o
sistema, quando a culpa é da PREGUIÇA. Este tipo de atitude é que
infesta o Brasil e o Mundo, um tipo de atitude oriundo de uma complexa
conspiração moscovita contra a livre-iniciativa e os valores humanos
da educação e da higiene!

Marx: A lavagem do pé, enquanto atividade vital do anfíbio,
encontra-se profundamente alterada no panorama capitalista. O
sapo,
obviamente um proletário, tendo que vender sua força de trabalho para
um sistema de produção baseado na detenção da propriedade privada
pelas classes dominantes, gasta em atividade produtiva alienada o
tempo que deveria ter para si próprio. Em conseqüência, a miséria
domina os campos, e o
sapo não tem acesso à própria lagoa, que em
tempos imemoriais fazia parte do sistema comum de produção.

Engels: isso mesmo.

Foucault: Em primeiro lugar, creio que deveríamos começar a análise do
poder a partir de suas extremidades menos visíveis, a partir dos
discursos médicos de saúde, por exemplo. Por que deveria o
sapo lavar
o pé? Se analisarmos os hábitos higiênicos e sanitários da Europa no
século XII, veremos que os sapos possuíam uma menor preocupação em
relação à higiene do pé - bem como de outras áreas do corpo. Somente
com a preocupação burguesa em relação às disciplinas - domesticação do
corpo do indivíduo, sem a qual o sistema capitalista jamais seria
possível - é que surge a preocupação com a lavagem do pé. Portanto,
temos o discurso da lavagem do pé como sinal sintomático da sociedade
disciplinar.

Weber: A conduta do sapo só poderá ser compreendida em termos de ação
social racional orientada por valores. A crescente racionalização e o
desencantamento do mundo provocaram, no pensamento ocidental, uma
preocupação excessiva na orientação racional com relação a fins. Eis
que, portanto, parece absurdo à maior parte das pessoas o
sapo não
lavar o pé. Entretanto, é fundamental que seja compreendido que, se o
sapo não lava o pé, é porque tal atitude encontra-se perfeitamente
coerente com seu sistema valorativo - a vida na lagoa.

Nietzsche: Um espírito astucioso e camuflado, um gosto anfíbio pela
dissimulação - herança de povos mediterrâneos, certamente - uma
incisividade de espírito ainda não encontrada nas mais ermas
redondezas de quaisquer lagoas do mundo dito civilizado. Um animal
que, livrando-se de qualquer metafísica, e que, aprimorando seu
instinto de realidade, com a dolcezza audaciosa já perdida pelo
europeu moderno, nega o ato supremo, o ato cuja negação configura a
mais nítida - e difícil - fronteira entre o
Sapo e aquele que está por
vir, o Além- do-
Sapo: a lavagem do pé.

Filmer: Podemos ver que, desde a época de Adão, os sapos têm lavado os
pés. Aliás, os seres, em geral, têm lavado os pés à beira da lagoa.
Sendo o
sapo um descendente do sapo ancestral, é legítimo, obrigatório
e salutar que ele lave seus pés todos os dias à beira do lago ou
lagoa. Caso contrário, estará incorrendo duplamente em pecado e
infração.

Locke: Em primeiro lugar, faz-se mister refutar a tese de Filmer sobre
a lavagem bíblica dos pés. Se fosse assim, eu próprio seria obrigado a
lavar meus pés na lagoa, o que, sustento, não é o caso. Cada súdito
contrata com o Soberano para proteger sua propriedade, e entendo
contido nesse ideal o conceito de liberdade. Se o
sapo não quer lavar
o pé, o Soberano não pode obrigá-lo, tampouco recriminá-lo pelo chulé.
E ainda afirmo: caso o Soberano queira, incorrendo em erro, obrigá-lo,
o
sapo possuirá legítimo direito de resistência contra esta
reconhecida injustiça e opressão.

Kant: O sapo age moralmente, pois, ao deixar de lavar seu pé, nada faz
além de agir segundo sua lei moral universal apriorística, que
prescreve atitudes consoantes com o que o sujeito cognoscente possa
querer que se torne uma ação universal.
Nota de Freud: Kant jamais lavou seus pés.

Freud: Um superego exacerbado pode ser a causa da falta de higiene do
sapo. Quando analisava o caso de Dora, há vinte anos, pude perceber
alguns dos traços deste problema. De fato, em meus numerosos estudos
posteriores, pude constatar que a aversão pela limpeza, do mesmo modo
que a obsessão por ela, podem constituir-se num desejo de autopunição.
A causa disso encontra-se, sem dúvida, na construção do superego a
partir das figuras perdidas dos pais, que antes representavam a fonte
de todo conteúdo moral do girino.

Jung: O mito do sapo do deserto, presente no imaginário semita, vem a
calhar para a compreensão do fenômeno. O inconsciente coletivo do
sapo, em outras épocas desenvolvido, guardou em sua composição mais
íntima a idéia da seca, da privação, da necessidade. Por isso, mesmo
quando colocado frente a uma lagoa, em época de abundância, o
sapo não
lava o pé.

Kierkegaard: O sapo lavando o pé ou não, o que importa é a existência.

Hegel: podemos observar na lavagem do pé a manifestação da Dialética.
Observando a História, constatamos uma evolução gradativa da
ignorância absoluta do
sapo - em relação à higiene - para uma
preocupação maior em relação a esta. Ao longo da evolução do Espírito
da História, vemos os sapos se aproximando cada vez mais das lagoas,
cada vez mais comprando esponjas e sabões. O que falta agora é, tão
somente, lavar o pé, coisa que, quando concluída, representará o fim
da História e o ápice do progresso.

Comte: O sapo deve lavar o pé, posto que a higiene é imprescindível. A
lavagem do pé deve ser submetida a procedimentos científicos universal
e atemporalmente válidos. Só assim poder-se-á obter um conhecimento
verdadeiro a respeito.

Schopenhauer: O sapo cujo pé vejo lavar é nada mais que uma
representação, um fenômeno, oriundo da ilusão fundamental que é o meu
princípio de razão, parte componente do principio individuationis, a
que a sabedoria vedanta chamou "véu de Maya". A Vontade, que o velho e
grande filósofo de Königsberg chamou de Coisa-em si, e que Platão
localizava no mundo das idéias, essa força cega que está por trás de
qualquer fenômeno, jamais poderá ser capturada por nós, seres
individuados, através do princípio da razão, conforme já demonstrado
por mim em uma série de trabalhos, entre os quais o que considero o
maior livro de filosofia já escrito no passado, no presente e no
futuro: "O mundo como vontade e representação".

Aristóteles: O [sapo] lava de acordo com sua natureza! Se imitasse,
estaria fazendo arte . Como [a arte] é digna somente do homem, é
forçoso reconhecer que o
sapo lava segundo sua natureza de sapo,
passando da potência ao ato. O
sapo que não lava o pé é o ser que não
consegue realizar [essa] transição da potência ao ato.

Platão:
Górgias: Por Zeus, Sócrates, os sapos não lavam os seus pés porque não
gostam da água!
Sócrates: Pensemos um pouco, ó Górgias. Tu assumiste, quando há pouco
dialogava com Filebo, que o
sapo é um ser vivo, correto?
Górgias: Sou forçado a admitir que sim.
Sócrates: Pois bem, e se o
sapo é um ser vivo, deve forçosamente fazer
parte de uma categoria determinada de seres vivos, posto que estes
dividem-se em categorias segundo seu modo de vida e sua forma
corporal; os cavalos são diferentes das hidras e estas dos falcões, e
assim por diante, correto?
Górgias: Sim, tu estás novamente correto.
Sócrates: A característica dos sapos é a de ser habitante da água e da
terra, pois é isso que os antigos queriam dizer quando afirmaram que
este animal era anfíbio, como, aliás, Homero e Hesíodo já nos atestam.
Tu pensas que seria possível um
sapo viver somente no deserto, tendo
ele necessidade de duas vidas por natureza,ó Górgias?
Górgias: Jamais ouvi qualquer notícia a respeito.
Sócrates: Pois isto se dá porque os sapos vivem nas lagoas, nos lagos
e nas poças, vistos que são animais, pertencem e uma categoria, e esta
categoria é dada segundo a característica dos sapos serem anfíbios.
Górgias: É verdade.
Sócrates: precisando da lagoa, ó Górgias meu caro, tu achas que seria
o
sapo insano o suficiente para não gostar de água?
Górgias: não, não, não, mil vezes não, Ó Sócrates!
Sócrates: Então somos forçados a concluir que o
sapo não lava o pé por
outro motivo, que não a repulsa à água
Górgias: de acordo

Diógenes, o Cínico: Dane-se o sapo, eu só quero tomar meu sol.

Parmênides de Eléia: Como poderia o sapo lavar os pés, ó deuses, se o
movimento não existe?

Heráclito de Éfeso: Quando o sapo lava o pé, nem ele nem o pé são mais
os mesmos, pois ambos se modificam na lavagem, devido à impermanência
das coisas.

Epicuro: O sapo deve alcançar o prazer, que é o Bem supremo, mas sem
excessos. Que lave ou não o pé, decida-se de acordo com a
circunstância. O vital é que mantenha a serenidade de espírito e fuja
da dor.

Estóicos: O sapo deve lavar seu pé de acordo com as estações do ano.
No inverno, mantenha-o sujo, que é de acordo com a natureza. No verão,
lave-o delicadamente à beira das fontes, mas sem exageros. E que pare
de comer tantas moscas, a comida só serve para o sustento do corpo.

Descartes: nada distingo na lavagem do pé senão figura, movimento e
extensão. O
sapo é nada mais que um autômato, um mecanismo. Deve lavar
seus pés para promover a autoconservação, como um relógio precisa de
corda. Diria, até: lavo o pé, logo sou.

Maquiavel: A lavagem do pé deve ser exigida sem rigor excessivo, o que
poderia causar ódio ao Príncipe, mas com força tal que traga a este o
respeito e o temor dos súditos. Luís da França, ao imperar na Itália,
atraído pela ambição dos venezianos, mal agiu ao exigir que os sapos
da Lombardia tivessem os pés cortados e os lagos tomados caso não
aquiescessem à sua vontade. Como se vê, pagou integralmente o preço de
tal crueldade, pois os sapos esquecem mais facilmente um pai
assassinado que um pé cortado e uma lagoa confiscada.

Rousseau: Os sapos nascem livres, mas em toda parte coaxam
agrilhoados; são presos, é certo, pela própria ganância dos seus
semelhantes, que impedem uns aos outros de lavarem os pés à beira da
lagoa. Somente com a alienação de cada qual de seu ramo ou touceira de
capim, e mesmo de sua própria pessoa, poder-se-á firmar um contrato
justo, no qual a liberdade do estado de natureza é substituída pela
liberdade civil.

Horkheimer e Adorno: A cultura popular diferencia-se da cultura de
massas, filha bastarda da indústria cultural. Para a primeira, a
lavagem do pé é algo ritual e sazonal, inerente ao grupamento
societário; para a segunda, a ação impetuosa da razão instrumental, em
sua irracionalidade galopante, transforma em mercadoria e modismo a
lavagem do pé, exterminando antigas tradições e obrigando os sapos a
um procedimento diário de higienização.

Gramsci: O sapo, e além dele, todos os sapos, só poderão lavar seus
pés a partir do momento em que, devido à ação dos intelectuais
orgânicos, uma consciência coletiva principiar a se desenvolver
gradativamente na classe batráquia. Consciência de sua importância e
função social no modo de produção da vida. Com a guerra de posições -
representada pela progressiva formação, através do aparato ideológico
da sociedade civil, de consensos favoráveis- serão criadas
possibilidades para uma nova hegemonia, dessa vez sob a direção das
classes anteriormente subordinadas.

Bobbio: existem três tipos de teoria sobre o sapo não lavar o pé. O
primeiro tipo aceita a não-lavagem do pé como natural, nada existindo
a reprovar nesse ato. O segundo tipo acredita que ela seja moral ou
axiologicamente errada. A terceira espécie limita-se a descrever o
fenômeno, procurando uma certa neutralidade.

Cláudio Costa: o sapo não lava os pés. Ele não tem pés, tem patas.

15 setembro, 2006

"A M A R É . . ."

Tenho visitado inúmeros blogs, com os quais aprendo, divirto-me, irrito-me, espanto-me, rio, me identifico, surpreendo-me. Ou seja: esse mundo virtual é o espelho do mundo real, onde as vicissitudes do dia-a-dia se traduzem e se metaforizam de forma multifacetada, instantaneamente.

Alguns blogs chamam a atenção pelo conteúdo lamentoso em função das frustrações amorosas vivenciadas por quem os escreve: tal como um muro das lamentações, os diários virtuais, trazem à tona a carência maior do ser humano: o desejo de ser amado incondicionalmente! Oh! missão impossível!

Comecemos pelo princípio: ao nascer, o filhote do homem é totalmente dependente, frágil, incapaz de se manter. Graças aos cuidados maternos (ou de quem se assume como cuidador), sobrevive-se. Uma relação imediata se configura: necessitado + cuidador. Ou seja: no início da vida, somos "seres da necessidade". Até aí, funcionamos como todo ser vivo, animais: a mãe/cuidador se apresenta indispensável até que, pelo próprio desenvolvimento do bebê e pelas outras atribuições do adulto, ela (mãe) se afasta lentamente... já consegue se atrasar para acudir as necessidades do recém-nascido que, por seu lado, começa a antecipar os indícios de que será atendido: o ruído de passos, a voz, o barulhinho da colher mexendo o mingau, etc. Um hiato (uma fenda, um vazio) se interpõe na díade mãe-filho, propiciando ao bebê uma experiência fundamental: clamar pelo que precisa!

O chôro, o grito, a agitação de braços e pernas, tudo passa a se configurar como linguagem que é interpretada e verbalizada pela mãe: neném tá com frio, neném tá com dor-de-ouvido, neném tá com fome!

A evocação da figura ausente e dos objetos de satisfação instauram os princípios da linguagem simbólica (símbolo = representação da "coisa", sem a "coisa"). Nasce o "desejo"!

O que, pois, inaugura a linguagem é a "falta", a "perda do objeto" de necessidade e sua substituição pelo "objeto do desejo". Muito além das funções de sobrevivência (objetos de necessidade) clamamos por uma atenção colorida de afeto. Fornecer comida, apenas, não basta, é preciso que o ato de alimentar seja atencioso, cuidadoso, amoroso! "Com açucar e com afeto", na canção do Chico Buarque.

Se, antes, a mãe era identificada ao objeto necessário aos instintos básicos (sobrevivência, alimentação, proteção contra frio, etc), agora passa a ser a benfeitora que propicia a satisfação. É quem garante a vida e o prazer (éros/libido), constituindo-se como primeiro objeto erótico/libidinal da criança. Nasce o AMOR, expressão de reciprocidade gratificante entre mãe e criança (ainda sem romantismo, invenção tardia na história da humanidade).

A experiência fundadora do amor se expande vida afora, com a saudável substituição da mãe como objeto único de amor por outros objetos a serem conquistados - um ser a quem amamos e que nos ame (resolução do "complexo de Édipo").
Entretanto, uma ILUSÃO pode permanecer: a de que haverá alguém que nos garanta a satisfação plena, o afeto total, o amor incondicional! Inconscientemente, queremos repetir o idílio da primeira infância, quando nenhum esforço tínhamos que fazer: bastava desejar e... pronto! Satisfação garantida!

Muito mais tarde vamos aprender que "o amor é conquistado": temos de perguntar sempre ao outro: "o que queres de mim"? Só assim seremos amados. Enganam-se aqueles que se julgam dignos do amor, sem nada oferecerem.

O jogo é complexo e interminável: de um lado, projetamos no outro as qualidades que o tornam digno de nosso afeto. O outro, por sua vez, tudo faz para corresponder e, às vezes, se julga realmente portador de todas aquelas qualidades. E vice-versa!
Sobre isso, Jaques Lacan retoma uma frase platônica: "Amar é dar o que não se tem a quem não sabe o que quer"... Decifre-a quem puder.

O Amor, assim, é indefinível por natureza, incomensurável (nada matemático), inconsistente, sem garantia de retorno, absolutamente assimétrico - já que cada um tem seu inconsciente e seu imaginário forjados na mais tenra idade, com experiências tão singulares quanto incomunicáveis! Só mesmo os poetas para darem conta de falar do Amor: O amor é mesmo "fogo que arde sem se ver..." (Camões); é "...ânimo dos desmaiados, arrimo dos que vão a cair, braço dos caídos, báculo e consolação de todos os desditosos" (Cervantes); "Ninguém é pobre quando ama". (Camilo Castelo Branco). "Há amores sem felicidade, mas nunca felicidade sem amor" (Jacques Lelouch) e "ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor... nada disso me aproveitaria" (S.Paulo).