06 julho, 2004

Festa no interior

Meu irmão Clóvis, dublê de engenheiro e psicodramatista, acaba de me enviar uma história das boas, coisa típica de mineiro. Imagine a cena: à noite, assentados no caramanchão de seu sítio no Retiro do Chalé, irmãos, esposas, cunhadas, sobrinhos, filhos... cada um de nós contando o "causo" mais pitoresco, e vem o Clóvis com este aqui:
-"Vamos para Jaboticatubas?", perguntei. -"Vamos, a gente chega lá, faz uma "patela" cozida no fogão de lenha, com mandioquinha e outras guloseimas, uma pinguinha do "Sô Cazinho", e no domingo a gente volta", foi a resposta.
O convite veio rápido, a resposta mais depressa ainda, e rapidinho estávamos em Jaboticatubas.
Retiramos os excessos de gorduras e nervos da patela, chama crepitando no fogão à lenha, panelas de pedra e de ferro aquecendo a água e cozinhando a mandioca, tempero caseiro (da roça mesmo!) e ... aquele cheirinho delicioso de comida da roça, cachacinha pura de primeira, papo legal, com D. Luzia, Clé, Cristiane, Carmen, Ludmila, Antônio, outros, eu e Consola, curtindo um início de noite super agradável, à beira do fogão de lenha.
-"Vamos ao aniversário do Daniel? O Daniel do buffet", alguém falou. -"Olha, eu acho que não vou, pois não fui convidado!", respondí. -"Pode ir sim, todo mundo da cidade está convidado, e os visitantes também!", explicou. -"Mas primeiro vai ter missa de São Benedito, procissão, reza no terreiro da casa dele, e depois comida à vontade", esclareceu o André.
D. Luzia falou: -"É isso mesmo, ele fez uma promessa para São Benedito curar a esposa dele, São Benedito curou, e todo ano ele dá a festa para todo o povo. Já é o sétimo ano consecutivo, quem quiser pode ir..."
E lá fomos nós. Primeiro à missa na Igreja Matriz. São Benedito sendo homenageado, cânticos especiais, e o Daniel, agradecendo as graças alcançadas e convidando todo mundo para a sua festa.
-"Agora estou oficialmente convidado", comentei com Consolação. -"Então também vamos".
Acompanhamos a procissão até à casa do Daniel. No caminho, orações, banda de música, foguetes. Chegando lá, um altar especial para São Benedito, mais orações, cantos religiosos, danças (camdoblé) em sua homenagem, velas, agradecimentos e mais promessas. Num mastro, no terreiro da casa do Daniel, foi içada uma pintura de São Benedito, mais uma homenagem do povo, que realmente tem fé!
Toda a rua reservada, somente para os convidados, com várias barraquinhas: canjica, caldo de feijão, caldo de mandioca, quentão, bolos e doces. Tudo por conta do Daniel... Fogueira (mais ou menos 2,5 m de altura) no meio da rua (no meio da festa) aquecendo todas as pessoas que quiseram participar. E, acreditem, não ví nenhum empurrão, nem uma baderna. Tudo na mais perfeita paz. Os garçons, com as bandejas de bolo, broas de fubá, copos com canjica grossa, quentão, caldos, oferecendo para todos. E todo mundo comendo, se fartando de felicidade. Um bolo de 4m de comprimento esperava a hora do parabéns para ser servido aos convidados. Após às homenagens merecidas a São Benedito, em um palco, algumas apresentações artisticas, músicas e canto.
"Vamos embora? Já são mais de 23h, o parabéns só vai ser cantado mais tarde, e tem uma "carninha" deliciosa esperando a gente lá em casa". "E o bolo?". "Fica para o próximo ano...".
E voltamos para casa, para saborear a deliciosa cachaça do "Cazinho", a patela quentinha e o calor do fogão de lenha. E depois de agradecer pelo dia maravilhoso, um bom sono de felicidade!

05 julho, 2004

Festa do Vicente

Hoje é aniversário do cunhado Vicente Camilo. Cunhado é isso: começamos a namorar as irmãs Rosa e Amélia quase na mesma época. Vicente, estudante de Engenharia. Eu, na Medicina. Passeios juntos não faltaram. O grande e emocionante passeio, quase fugido, foi à praia, Guarapari-ES, distante 500km de Belorizonte! Um fuscão verde, varando as estradas, serpenteou pela encaracolada BR-262, subiu a Serra dos Aimorés (onde fica o Pico da Bandeira) e desceu ao litoral. Após aquela distância toda, eis três mineirinhos (eu, Amélia e Rosa) desfilando nossa branquice, enquanto o Vicente, moreno alto, bonito e sensual, chegara já "no ponto".
Alugamos um apartamento num famoso edifício com "varandas de fora-a-fora". Desempacotamos roupa de cama e corremos para fazer o supermercado: cerveja, refri, presunto, queijo e pão. Pronto! Com a despensa bem fornida, era hora de correr prás areias monazíticas (seja lá o que for isso). Bem, Amélia e Rosa foram pegar uma cor enquanto os barbados no barzinho, à sombra, enxugávamos garrafas. Nem precisa dizer que, à tardinha, eram camarões tostados, sem poder encostar... inda bem que passou logo e ainda restavam uns dias...
Hoje, séculos depois, estamos aqui saboreando pão-de-queijo recheado com pernil assado, vinho, cerveja, lembranças e muito riso. A torta recheada de creme de coco, branquinha como neve, dormita sobre a mesa, à espera do ataque. O tempo passa, mas recordar é viver!

04 julho, 2004

A excomunhão do cronista

A "censura" do Jornal Estado de Minas a tantos quantos discordam do governo "em exercício" se materializou na omissão do artigo do cientista político Fenando Massote, reproduzido aqui no post de ontem, e culminou com sua exclusão do quadro de colaboradores. Após mais de 20 anos nas páginas do diário, eis que recebo a seguinte mensagem:
Crônica de uma morte anunciada
(A imprensa garroteada pelo Estado em Minas Gerais)
Os leitores que por anos me acompanharam às sextas-feiras, na página de opinião do Estado de Minas, foram tomados de surpresa no dia 02 de julho p. passado, quando o meu último artigo - A Última Batalha de Brizola - não foi publicado. Disseram-me que a cadeia dos Diários Associados nada queria publicar a favor de Brizola. Mas a direção do jornal não se limitou a recusar o artigo. Ela me declarou “persona non grata” depois de 23 anos de colaboração tendo, nos últimos anos, regularidade semanal e quinzenal.
O fato é que minhas relações com o Estado de Minas prosseguiam tensas - por razões políticas - desde a campanha política de 2002. O então candidato do PSDB Aécio Neves e seu staff de campanha, manifestamente, não gostavam de meus artigos. Para comprovar isto – já que nada tenho contra a pessoa do governador que não tive ainda o prazer de conhecer pessoalmente - abro aspas para publicar trecho de uma carta do Sr. Robson Damasceno dos Reis, chefe do comitê de imprensa do candidato Aécio Neves, enviada ao EM e publicada em 19.09.02.
“... artigo (do prof. Fernando Massote) da edição de 6/09/2002, então, é um primor de propaganda explicita e ofensiva contra o candidato Aécio Neves".
JK e Tancredo não teriam, absolutamente, subscrito o envio desta carta. O artigo que o Sr. Robson, a mando de Aécio Neves, incriminou nos termos acima, foi publicado no EM sob o título “Oh, Minas Gerais!”. Eis o trecho que mais provocou a ira de então candidato:
“Um candidato a governador que é apresentado como "jovem e bonito" na melhor linha do marketing comercial é o mais direto filho do passado (...) Na falta de qualquer militância política própria ele se sustenta, prodigiosamente, como se vê, como filho político do avô, Tancredo Neves!”.
Este artigo – que não teria sido publicado pelo EM depois da posse de Aécio - repercutiu nos programas de TV durante a campanha. Mas a ojeriza do governador pelos meus artigos não é, assim, tão recente.
Na noite de 15 de maio de l999, vendendo a casa que tinha em Nova Lima, a uma quadra da minha residência, o então presidente da Câmara dos Deputados, Aécio Neves, reuniu ali centenas de convivas para uma festa que fechou o bairro. O barulho infernal dos aparelhos de som dominou o ambiente das 20h. De sábado às 9h. de domingo.
Protestei, então, pelo fato, em defesa da cidadania publicando em l9.05.1999, no EM, o artigo Viva o Barulho, em que escrevia:
“Procuraremos a justiça contra o deputado, mas a sua defesa é praticamente insuperável: ele tem imunidade parlamentar que reforça a impunidade”.
Em 25.09.03, reagindo à onda de repressão contra a liberdade de imprensa advinda do Palácio da Liberdade, publiquei – na A Gazeta (ES), no Correio da Cidadania, de Contagem e aqui, no Proposta – o artigo Paixão e Ambição, também censurado pelo EM. estabelecendo uma comparação entre o avô, Tancredo Neves e o neto.
“Não cabe, portanto, comparação entre o avô e o neto já tão divididos pela distância entre seus dois mundos. A diferença começa no palanque onde o avô se comportava como um artista e onde Aécio gosta de agir como o chefe, atento a todos os detalhes e preocupado em determinar quem deve ou não falar!... A discrepância não se limita, enfim, aos palanques. Nos últimos dias correram notícias (...) de demissão e remoção de jornalistas de órgãos da mídia. O antigo respeito pela imprensa (...) que impregnava o velho PSD liderado por Tancredo Neves parece, assim, ser considerado hoje demodée por novos políticos mais controlados pela ambição do que pela paixão”.
Na mais recente entrevista do nº 09 do jornal Proposta com o presidente do Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais, Aloísio Lopes, foram feitas criticas ao jornal de ser subserviente, sempre, ao governador de turno. Participei da entrevista como membro do Conselho Editorial do jornal. Foi este o álibi de que a direção do Estado de Minas se utilizou para transformar-me em objeto da sua vendetta e declarar-me “persona non grata”.
Despeço-me aqui (sem poder recorrer nem mesmo à secção de cartas do EM) portanto, dos leitores do EM, depois desta dispensa abrupta, sem comunicação alguma por parte do jornal. O EM não respeita seus funcionários, seus colaboradores e seus leitores. Ele se pauta sempre pela vontade política do governador “em troca do que dele recebe”.
Nesta situação, a luta pela liberdade de imprensa deve obedecer a um planejamento político consciente, crítico e amplo para defender e ampliar os espaços de cidadania de que dispomos atualmente. Não faço, com as minhas posições inarredavelmente democráticas, catarse pessoal, politicamente irresponsável e imprevidente das reações autoritárias que deverei enfrentar. Nunca cutuquei a onça com vara curta e sempre estive preparado - intelectualmente, moralmente, politicamente e materialmente - para reagir aos atos autoritários que critico.
Esta não é, no entanto, a situação da grande maioria dos jornalistas, em um mercado de trabalho sempre mais restrito e mal remunerado. Seus patrões e governos - como o de Minas Gerais - querem mantê-los sob o império do medo. Aí está toda a importância das tomadas de posição corajosas do atual presidente do Sindicado dos Jornalistas, Aloísio Lopes. A defesa dos jornalistas contra o autoritarismo das empresas e do governo Aécio Neves se confunde com os interesses do próprio desenvolvimento democrático da sociedade.
Conheça melhor o Fernando Massote.

03 julho, 2004

A Santificação de Brizola

Fernando Massote, professor de Ciências Políticas na UFMG, de renome internacional, publica no maior jornal de Minas, o Estado de Minas, comentários sempre pertinentes, às vezes irônicos, perfunctórios e mordazes. Seus estilo, muitas vezes querelante, não transige frente ao comodismo dos arranjos (ao contrário do mineiro "come-quieto", morde e grita, se preciso for). Os muitos e fiéis leitores, às sextas-feiras, abriam direto na página de "Opinião" para conferir. Lá estava o Massote! Por razões não reveladas, o EM restringiu-lhe a frequência para quinzenal. Finalmente, nesta última semana, cadê o artigo do Professor? Em seu lugar, lá estava o ex-presidente Sarney, com uma insossa prosopopéia. Cadê o professor? Por intermédio de amigos, recebi uma cópia da crônica censurada. Confira aqui e divulgue!

A última batalha de Brizola
As elites - udenistas e udenistizadas - viram Brizola partir com alívio. E ensaiaram, com Sarney e outros, um adeus isento, procurando enterrá-lo definitivamente, sem apelo nem sobrevida. Pura retórica e literatura decadente de velhos conservadores correndo, sempre - sem alcançá-lo nunca - atrás do trem da história! Procurando cancelar o que Brizola teve de mais característico – uma grande causa à qual sempre permaneceu fiel - Sarney o apresentou, num artigo recente, como um eterno espadachim “que não escolhe a causa e o lado quando se põe na raia”. Um herói sem causa!...
Lênin denunciou, certa vez, esta manobra, afirmando que “quando morremos, os inimigos nos transformam em santos!” Os santos são (ou foram), em geral, heróis que tiveram uma causa bem terrena, como Jesus na sua luta contra o Império Romano, mas dela foram desvinculados pela ressurreição/beatificação da igreja católica que corta as amarras com os grupos sociais ou nacionais que lhe deram origem!... Instituição interclassista e cosmopolita muito ciosa de si mesma, a igreja não aceita concorrência e cancela, na história dos seus santos, as marcas das suas origens sociais e nacionais.
Foi sempre do mesmo modo que as elites udenistizadas trataram Brizola: como um herói sem outro compromisso que com o próprio temperamento exaltado e as próprias alucinações. “Já que herói importante ele é - do povo e não nosso –“ cogitavam e cogitam sempre, os conservadores, permanentemente amedrontados pela luta popular: “procuremos impingir, colar em seu rosto, um dístico historicamente desvirilizante, para ver se pega e dar-lhe uma morte definitiva: “herói sem causa”. Ou santo. Um ser sem qualquer energia histórica.
Desmentindo Sarney, a militância brizolista, rouca pela intensa vaia ao presidente que virou as costas à promessa – de mudar o Brasil – pela qual foi eleito, demonstrou que mesmo do além, Brizola continuou e continuará a inspirar os que se apaixonam pelos destinos democráticos do Brasil. Para não prolongar a vaia, Lula não pôde permanecer no local mais do que cinco minutos!...
Brizola pôde, assim, tendo passado pelo purgatório histórico-político, partir imune, histórica ou moralmente ileso, escapando e sobrevivendo, definitivamente, às tocaias e laços insidiosos com que seus inimigos sempre procuraram liquidá-lo. Derrotando as últimas manobras oligárquicas contra o líder que, parodiando a carta testamento de Getúlio, “deixava a vida para entrar na história”, o povo, entristecido ao dar-lhe o último adeus, agitava o lenço ensopado com as lágrimas de quem perdeu mais um dos seus heróis mais verdadeiros. (massote@massote.pro.br)
O pensamento político e as crônicas podem ser conferidas no site
Fernando Massote.

28 junho, 2004

O intraduzível

Este post vai pro paraense Marcus Pessoa, que escreveu: "o mito da saudade não tem idade". Visitando seu blog, pensei:
Há sentimentos e experiências que podem ser consideradas "inenarráveis", uma vez que só se pode ter noção do que se trata se a pessoa passar pela mesma situação. Mesmo assim, cada pessoa é única e singular e, em última instância, as palavras que vier a utilizar serão sempre coloridas pela sua particularidade. Mesmo aqueles vocábulos (os "nomes comuns" ou "substantivos comuns") que nomeiam objetos cotidianos, ao serem utilizados por alguém ou ao se intrometerem no discurso carregam significados pessoalíssimos, construídos ao longo da vida de cada um de nós. É mais ou menos isso que J.Lacan afirma quando diz que um significante (uma palavra qualquer, um signo, um traço) tem inúmeros significados [ S/s1,s2,s3... ]. Um exemplo óbvio seria a palavra "mãe", que, embora esteja associada indelevelmente à experiência pessoal de cada um com aquela entidade que nos gerou, ou cuidou, ou adotou, ou amparou, ou acarinhou... ou... ou... tá vendo? "mãe" são muitas, infinitas e, ao mesmo tempo, "mãe é uma só!": a minha!
Assim, cada palavra (=significante) tem significados múltiplos que se sucedem numa cadeia infindável.
Por isso mesmo podemos afirmar que a linguagem (a língua, qualquer língua) é insuficiente para dizer tudo o que se quer dizer! Haverá sempre um resto, um indizível, um inenarrável (palavra danada de bonita, essa). Os poetas são aqueles que, ao se apropriarem das palavras, fazem delas sua matéria prima com que conseguem exprimir as mais recônditas emoções, surpreendendo-nos com achados tão originais que se transformam em arte. E por falar em poesia, leia este post aqui, antigo e sempre novo!.
Agora, imagine só quando pulamos de idioma em idioma, onde o contexto cultural (tempo, espaço, geografia, história, etc.)varia desmedidamente. Surge o problema da tradução: traduttore tradittore (o tradutor é um traidor).
Pelo Marcus Pessoa cheguei ao site da BBC no qual o correspondente brasileiro em Londres, Ivan Lessa, comenta o resultado de uma pesquisa britânica acerca das palavras mais difíceis de serem traduzidas. Nossa "saudade" ficou em sétimo lugar:
1. Ilunga (tshiluba) uma pessoa que está disposta a perdoar qualquer maltrato pela primeira vez, a tolerar o mesmo pela segunda vez, mas nunca pela terceira vez.
2. Shlimazl (ídiche) uma pessoa cronicamente azarada
3. Radioukacz (polonês) pessoa que trabalhou como telegrafista para os movimentos de resistência o domínio soviético nos países da antiga Cortina de Ferro
4. Naa (japonês) palavra usada apenas em uma região do país para enfatizar declarações ou concordar com alguém
5. Altahmam (árabe) um tipo de tristeza profunda
6. Gezellig (holandês) Aconchegante
7. Saudade, segundo o "Aurélio-SéculoXXI"=Lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de tornar a vê-las ou possuí-las; nostalgia;pesar pela ausência de alguém que nos é querido.
8. Selathirupavar (tâmil, língua falada no sul da Índia) palavra usada para definir um certo tipo de ausência não-autorizada frente a deveres
9. Pochemuchka (russo) uma pessoa que faz perguntas demais
10. Klloshar (albanês) perdedor

Ah! olhaqui: 'saudade' também é nome de flor, de acordo com o mesmo Aurélio: Designação comum a diversas plantas da família das dipsacáceas, principalmente da espécie Scabiosa maritima, e às suas flores; escabiosa, suspiro: "E ela deu-lhe do seio uma saudade / Murcha, e no entanto bela" (Gonçalves Dias, Obras Poéticas, II, p. 98).

27 junho, 2004

A verdade real

Um monarca nunca permitia que lhe fizessem o retrato. Finalmente, cedeu aos pedidos do filho para que, antes de falecer, deixasse sua imagem à posteridade. Impôs, entretanto, uma condição: caso não aprovasse a obra, executaria o artista! Três píntores se dispuseram a arriscar o próprio pescoço.
O primeiro retratou o monarca tal e qual, com o narigão enorme e tudo. O rei, diante do quadro, embora admirando o gênio artístico, enfureceu-se com a figura horrenda e mandou enforcar o infeliz artista.
O segundo, apesar de temeroso, pintou o rei fielmente, com exceção do aberrante apêndice nasal, em cujo lugar colocou irrepreensível narizinho. O soberano, sentindo-se ridicularizado, condenou o pintor à pena capital, sem comiseração.
Chegou, a vez do terceiro. Habilidoso, conhecendo a paixão real pela caça, retratou o soberando portando um arco, a atirar numa raposa. O antebraço na arma tapava-lhe justamente o nariz. Diante do trabalho, o monarca sorriu satisfeito e recompensou o artista generosamente.
Alguém comentou:
- Há várias formas de se falar a verdade:
A primeira é a franqueza rude, contundente, que não hesita em expor toda a realidade dos fatos, doa a quem doer. Os partidários dessa atitude podem revelar o mérito da coragem e do desinteresse, mas tiram nota zero em relações humanas.
A segunda é a hipocrisia interesseira. Os deste grupo podem revelar inteligência e engenhosidade para distorcer os fatos, a fim de agradar aqueles a quem desejam conquistar.
A terceira é a dos partidários da verdade construtiva, evidenciando o que é útil, edificante, e elegante, omitindo sutilmente os aspectos menos agradáveis da vida do próximo.

Aqui vai um poema do Carlos Drummond de Andrade: Verdade.

25 junho, 2004

Minha Casa

Fiquei lisongeado pelo que fez e disse o paraense Marcus Pessoa, de Belém, que confessa ter feito um post inspirado no meu Mundo Sacudido. Olha o que ele disse: "O Cláudio Costa, do blog Pras Cabeças, publicou uma foto de satélite da praia de Ipanema, a propósito de falar do site Apolo 11, que divulga dados interessantes sobre geografia e astronomia. Eu, invejoso que só, resolvi postar aqui essa imagem de minha querida cidade, Belém." Pois então, vejam aqui a foto de minha casa (!)[na coluna da esquerda, clique em localizar bairro e digite "Gutierrez"], tirada de não sei quantos metros de altura, por uma firma de aerofotogrametria (ufa!), que tem um site muito legal, com fotos de toda a área metropolitana de minha cidade.

22 junho, 2004

Mundo sacudido

Ontem e hoje (até agora), houve 13 (treze) terremotos no mundo, a maioria de pequena intensidade. Isso acontece sem parar! E nós, aqui, heim? Deitado eternamente em berço esplêndido... será que precisamos de uns terremotinhos (ou terremotozinhos?) prá sacudir a poeira, vestir uma camisa amarela e sair por aí? Quer saber onde tem terremoto, vulcão, ciclone e outras sacudidas, agora mesmo? Entre Apolo11. Tem previsão do tempo e umas fotos muy lindas, como essa aqui,
da Praia de Ipanema, vista do espaço (e nós aqui, num frio de gelar os ossos!)Dá prá ver a Lagoa Rodrigo de Freitas, Leblon, etc.

Acredite se quiser

1) As mulheres já têm a solução definitiva para celulite. Gastando entre R$ 342,00 e R$ 485,00, levam para casa uma calça jeans cujo tecido contém microcápsulas de Skintex. O atrito com a pele faz liberar um derivado de vitamina A, que estimula o colágeno, revigorando a pele e... eureka!: acabando com a celulite. A griffe que comercializa essa maravilha se chama Miss Sixty. A notícia completa está no cadeno D+ do Estado de Minas de hoje.
2) Alexandre Cruz Almeida reproduziu no seu espetacular blog LiberalLibertárioLibertino (tem um banner vermelho dele, ao lado), notícia publicada em O Globo de 18 p.p.: Filmes de Sexo Ajudam Panda a Engravidar- PEQUIM. Programa desenvolvido na China para estimular a reprodução de pandas criados em cativeiro por meio da exibição de filmes de sexo parece estar dando resultado. Cientistas do Centro de Proteção dos Pandas Gigantes Wolong, no sudoeste do país, anunciaram ontem que uma ursa de 4 anos está grávida. Os pandas dificilmente se reproduzem em cativeiro e estão ameaçados de extinção na natureza.
Já mandei pro Alexandre meu comentário: Tá na cara que esse negócio de filme pornô para ensinar panda a transar é puríssima e barata sacação. Quem sabe a gente não poderia passar filme de passarim voando pros filhotinhos de periquito sairem por aí? E os humanos filhos de proveta, terão de aprender a transar? E em povos ancestrais e, ainta, nalgumas tribos africanas, onde não se tem a menor idéia do papel masculino na procriação? Cumé que nasce gente lá? Na medida em qua o tal panda vai se acostumando ao novo habitat e convivendo com a amiguinha panda, os hormônios deles se entendem. O resto é história da carochinha (de péssima qualidade). Vai dar no Ripley´s: "Acredite se quiser".


21 junho, 2004

Dormir faz bem!

Com o título: Sono melhora o insight, o último número do jornal de informes científicos da Libbs, NeuroPsicoNews, traz a seguinte nota:
"Em estudos prévios, investigadores demonstraram que uma boa noite de sono consolida memórias recentes, até mesmo a aquisição de habilidades mediante a prática. Num novo estudo da Alemanha, investigadores sugerem que o sono também aumenta o insight e o pensamento criativo.
Ensinou-se aos participantes como transformar séries de dígitos em novas séries, seguindo duas regras explícitas. À medida que repetiam essa tarefa, realizavam-na mais rapidamente. Realizar repetidamente a tarefa, expôs cada participante a uma regra oculta ou implícita que, se reconhecida, subitamente os fez transformar as séries de maneira muito mais simplesmente.
Por oito horas depois de suas sessões de treinamento, os participantes dormiram normalmente ou foram mantidos acordados (durante o dia ou à noite). Depois, todos os participantes novamente realizaram a tarefa repetidamente. Com a retomada da tarefa, 60% dos participantes que tinham dormido, mas somente 22% dos participantes que tinham sido mantidos acordados (ou seja, durante o dia ou a noite), reconheceram a regra implícita e melhoraram acentuadamente seu desempenho.
Esses resultados podem indicar que o sono estimula um processo cognitivo que leva ao insight súbito. Este fenômeno poderia explicar o porquê cientistas ou artistas subitamente têm tiveram idéias inspiradas ao acordarem. Em qualquer evento, os resultados reforçam as crescentes evidências de que realmente nos beneficiamos de uma boa noite de sono"
.
E nós, os blogueiros, que às vezes só temos as noites e madrugadas para publicar? Numa pesquisa (completamente aleatória) em inúmeros blogs, constatei que a hora de postagem mais freqüente está entre 00:00h e 02:00h am. Para quem trabalha ou estuda durante o dia, o tempo surrupiado ao descanso poderia afetar a criatividade, o desempenho, etc... Será isso mesmo? Alguém tem essa experiência?

20 junho, 2004

Tyrodep

Tyrodep é o nome de uma bebida rica em aminoácidos, desenvolvida no Reino Unido pelo Departamento de Psiquiatria de Oxford, em pesquisa conduzida pelo professor Guy Goodwin. Ele afirma: “A bebida que desenvolvemos, quando tomada junto com tratamento regular, tem demonstrado ser um verdadeiro passo adiante”. Deve ser ingerida por pacientes que fazem uso de antipsicóticos, medicamentos eficazaes no controle da maioria dos sintomas da Esquizofrenia mas que, infelizamente, causam certos efeitos colaterais.
Informe-se melhor aqui (em Inglês) e aqui (em português).

Sal e pimenta do reino

Mais um post nessa minha "fase de gastronomia", onde meu alterego, o grand chef M. Claude Costa vai prá cozinha e prepara um Poisson à poivre avec finne herbes... Se vai ficar bom, só a Amélia, a Ana, o Ângelo e o Leo, meus trés bons gourmets de hoje poderão dizer. Para tudo sair direitim, uma passada, pela manhã, na fabulosa Banca Santo Antônio, do Mercado Central, amealhando os temperos ideais. Sal e pimenta do reino não pode faltar, como diz o Dr.Lenilson Moreira, Presidente do Conselho Diretor da área médica, especialista em Nutrologia, Medicina Biomolecular e Radicais Livres: "-Uma receita para quem quer manter a energia sexual e o coração saudável. As folhas verdes, ricas em vitaminas e sais minerais, são também fonte de fibras digestivas. O salmão e o azeite extra virgem contêm gorduras insaturadas que combatem o colesterol elevado e a pressão alta. A pimenta de sabor leve, é fonte de vitaminas B e C e de muita energia. É muita saúde”. Estou seguindo as dicas do chef Emmanuel Bassoleil, do Roanne: grand cuisine de Dijon! Onde? Onde você pode pegar uma receita de salmão com pimenta? Clique rapidim no site do Café Cancun e deixe baixar o santo do grand chef que dorme em você!
Ah... por falar nisso, foi numa madrugada dessas que me deparei com a paisagem ao lado
"o painel do banheiro masculino do Café Cancun de BH". Inspirador, não?

19 junho, 2004

Botecos, butecos e botequins

Segundo o Aurélio, boteco =
[Por *botiquim, dim. de botica (1).]S. m. 1.Estabelecimento comercial onde se servem bebidas em geral (bebidas alcoólicas, refrigerantes, café, etc.) e pequenos lanches; bar.
[Sin., bras.: boteco. Cf. café (4).]
Pois bem, aqui em Belô, saibam todos, existe a maior relação de botecos por habitante. Uns dizem que é porque não temos mar; outros afirmam que é porque mineiro é muito acolhedor e qualquer coisa é motivo de comemorações; já disseram que os homens, para não enfrentar o mal falado conservadorismo mineiro, evita beber em casa e fica até mais tarde na rua... Por mim, acho que tanto boteco se deve à variedade infinita de temperos, manjares, marcas de cachaça e à igualmente infinita criatividade do povo daqui. A cada esquina, meu irmão, tem um botequim. Ao lado tem outro, assim como logo ali em frente. Ou seja, do trabalho para casa e vice-versa, você tem que driblar tanto cheiro gostoso e tampar os ouvidos para não sucumbir ao apelo dos amigos, tal como Ulisses para não ouvir as sereias. Para "piorar", agora temos um festival de Comida di Buteco: cada um querendo suplantar o outro, numa atmosfera de camaradagem, amizade e muita "água-que-passarim-não-bebe". Confira a página Comida di Buteco e aprenda as receitas mais apetitosas. Uma sugestão? Experimente o delicioso Angu a Jipeiro. Adispois, ôcê mi conta, cumpáde.

17 junho, 2004

TV na sala

Retorne a televisão ao seu lugar de origem: a sala. Essa é a orientação de psicólogos, neurologistas e terapeutas sexuais entrevistados. Nos primórdios da telinha, havia um aparelho para toda a família. Hoje, manter uma TV em cada aposento é parte do processo de individualização pelo qual o mundo está passando --cada um tem sua televisão, seu celular, seu computador.
Este é o primeiro parágrafo do artigo publicado na FolhaOnline.
Segundo pesquisas feitas por psicoterapeutas sexuais e educadores, o aparelho de televisão ligado no quarto atrapalha o relacionamento "na hora H", além de provocar o isolamento das pessoas, cada qual em seu quarto, vendo sua TV!
Foram avaliadas várias atividades em família bem como prejuízos às pessoas que ficam muito tempo diante da telinha: sono, postura, relacionamento interpessoal, isolamento social, tudo isso pode estar sendo afetado. Leia mais aqui.

Casamento

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.

O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.
[Adélia Prado]

16 junho, 2004

Lembrete

Se procurar bem, você acaba encontrando
não a explicação (duvidosa) da vida,
mas a poesia (inexplicável) da vida.
(de novo, CDA em "Corpo", pág. 95)

Pânico na TV! Lixo que vale ouro?

Saiu um interessante artigo na revista Bravo!, já nas bancas. O articulista Nelson Hoineff faz uma crítica altamente elogiosa ao programa das tardes de domingo, Pânico na TV, sucesso no horário. Caótico, espontaneísta, mordaz e conscientemente imitador de outros programas da mídia, coloca no ar as caricaturas de repórteres e jornalistas televisivos, bem como uma paródia sensacional de Sílvio Santos, o mais famoso apresentador da TV popular do Brasil.
O artigo se intitula: O talento do trash
Pânico na TV, o humorístico que não tem vergonha da própria ruindade, é o antídoto contra a hipocrisia de uma programação estúpida.
Foi a arrogância dos medíocres, foi a hegemonia dos perfeitos idiotas travestidos de sapientíssimos conselheiros de subservientes telespectadores que transformou a televisão brasileira no lixo que ela é, tolheu a criatividade, desestimulou a utilização das mais notáveis potencialidades do veículo. Foi tudo isso que fez com que a televisão brasileira, em sua maior parte, falisse moralmente, se idiotizasse a níveis constrangedores tanto para quem assiste quanto para quem faz — ainda por cima conseguisse a façanha de mergulhar numa crise financeira inimaginável para um negócio que atinge 100 milhões de consumidores todos os dias. [Saiba mais sobre a dívida da Rede Globo]
Vale uma leitura completa do texto e dos comentários que podem ser lidos AQUI.
Você assiste o Pânico na TV? Escuta na Jovem Pan?

13 junho, 2004

Vila Rica de Ouro Preto

Um feriadão cheio de cultura, diversão e arte: assim passamos o Corpus Christi em Ouro Preto, sob o frio úmido das montanhas mineiras, em meio a anjos, escadarias, ladeiras, pedra sabão, casario colonial, vinhos, sabores mineiros e, principalmente, a amizade dos amigos brasilienses, Paulo e Letícia, que aparecem na foto com a minha esposa Amélia
.
Um dos melhores programas foi uma "jam session" no Café Geraes, com o pianista Danilo Avellar, o saxofonista Daniel e o percussionista Davi.
Noite inesquecível, bem como o acolhimento especial do casal proprietário, José Alberto Pinheiro e Eunice. Imperdível o Café Geraes.
Comemorando o "dia dos Namorados", Amélia e eu percorremos becos e a famosa Rua Direita,
onde os barzinhos, cada qual mais original que o outro, convidam para a festa dos sentidos.
Hoje pela manhã, antes do retorno a Belo Horizonte, uma visita à amiga Anna Amélia, artista plástica e dona da Pousada Nello Nuno, aconchegante recanto bem no miolo mais barroco do Brasil.
A Pousada Nello Nuno está numa autêntica casa colonial, mantida com carinho e arte pela proprietária Anna Amélia, sobre quem farei um post inteirinho...

08 junho, 2004

Hipótese

E se Deus é canhoto
e criou com a mão esquerda?
Isso explica, talvez, as coisas deste mundo.

[mc escher]
(Carlos Drummond de Andrade, in Corpo, RJ,Record,1984. Pág. 61)

Hino para funeral de um tirano

OBITUARIO CON HURRAS (Mario Benedetti)
Vamos a festejarlo / vengan todos
los inocentes /los damnificados
los que gritan de noche / los que sueñan de dia
los que sufren el cuerpo / los que alojan fantasmas
los que pisan descalzos / los que blasfeman y arden
los pobres congelados / los que quieren a alguien
los que nunca se olvidan

vamos a festejarlo / vengan todos
el crápula se ha muerto / se acabó el alma negra
el ládron/ el cochino / se acabó para siempre
hurra

que vengan todos/ vamos a festejarlo
a no decir / la muerte siempre lo borra todo
todo lo purifica / cualquier día

la muerte / no borra nada
quedan / siempre las cicatrices

hurra
murió el cretino / vamos a festejarlo
a no llorar de vicio / que lloren sus iguales
y se traguen sus lágrimas

se acabó el monstruo prócer
se acabó para siempre / vamos a festejarlo
a no ponermos tibios
a no creer que éste/ es un muerto cualquiera

vamos a festerjarlo / a no volvermos flojos
a no olvidar que éste
es un muerto de mierda

Tradução pelo próprio autor:
OBITUÁRIO COM FESTA

Vamos festejar
venham todos os inocentes
os mutilados /os que gritam de noite
os que sonham de dia / os que sofrem o corpo
os que guardam fantasmas / os que pisam descalços
os pobres congelados / os que querem alguém
os que nunca esquecem

vamos festejar / venham todos
o crápula morreu
acabou-se o alma negra o ladrão o sujo
acabou-se para sempre
viva

que venham todos vamos festejar
ao invés de achar que a morte
sempre apaga tudo
e tudo purifica algum dia

a morte não apaga nada
ficam sempre as cicatrizes

viva
morreu o cretino vamos festejar
ao invés de chorar por costume
que chorem os da sua laia
e engulam suas lágrimas

acabou-se o monstro maioral
acabou-se para sempre vamos festejar
ao invés de nos condoer
ou crer que este é um morto qualquer

vamos festejar ao invés de fraquejar
ou esquecer que este
é um morto de merda