22 janeiro, 2009

Queijo canastra

A tradição mineira de presentear com queijo ("um queijim") vem de longe...
A reportagem do "Terra de Minas" desta semana falou da Serra da Canastra, onde se produz o melhor queijo das Gerais. Num dos segmentos do programa, um pouco do nosso linguajar típico e 'segredos' de fabricação do famoso "queijo canastra". Clique e veja.

05 janeiro, 2009

Três filmes: 2 bons, 1 dispensável

Nunca antes na história deste país tivemos tão grande sequência de feriados e, graças à minha amnésia meteorológica, creio que jamais caiu tanta chuva em tão pouco tempo. Daí, que o programa mais frequente foi, mesmo, permanecer em casa, usufruindo as delícias domésticas (interprete como quiser; critique se puder).
Um dos programas foi assistir aos filmes da hora:
1- Sete vidas (Seven Pounds/ EUA, 2008)
Diretora:
Gabriele Muccino
Roteirista(s): Grant Nieporte
Elenco: Will Smith, Rosario Dawson
Sinopse: No filme, Smith interpreta Ben Thomas, um agente do Imposto de Renda com um segredo trágico que embarca numa extraordinária jornada de redenção que mudará para sempre a vida de sete estranhos. Um mistério intrigante e uma história de amor surpreendente, Sete Vidas (Seven Pounds) levanta questões perturbadoras acerca da vida e da morte, arrependimento e perdão, estranhos e amizades, amor e redenção - e explora as relações que unem os destinos das pessoas de modos surpreendentes.
O argumento é interessante, prende nossa atenção e suscita algumas De início, achei bastante lento e fragmentado. Mas a trama ganha densidade a partir do ponto em que se centra na relação entre o Will e Dawson. Não é moralista, apesar de tocar na universal questão da culpa. Em resumo: gostei muito e recomendo. Trailer.
2. Crepúsculo (Twilight/EUA 2008)
Direção: Catherine Hardwicke
Roteiro: Melissa Rosenberg
Elenco: Kristen Stewart, Robert Pattinson
Sinopse: Isabela Swan vai morar com seu pai em uma nova cidade, depois que sua mãe decide casar-se novamente. No colégio, ela fica fascinada por Edward Cullen, um garoto que esconde um segredo obscuro, conhecido apenas por sua família. Eles se apaixonam, mas Edward sabe que quanto mais avançam no relacionamento, mais ele está colocando Bella e aqueles à sua volta em perigo. Quando ela descobre que Edward é, na verdade, um vampiro, ela age contra todas as expectativas e não tem medo da sede de sangue de seu grande amor, mesmo sabendo que ele pode matá-la a qualquer momento.
Embora seja classificado como 'suspense', trata-se de um mix de ação, suspense e romance água-com-açucar. É o velho tema da atração pelo perigo, pelo estranho, pelo diferente. Pelo que li, está fazendo grande sucesso pelo mundo afora, com legiões de meninas (adolescentes) morrendo de amores pelo Robert Pattinson. Talvez seja pelo 'olhar feminino' que rege a direção: as meninas querem desvendar o mistério que possuem os homens e se mostram dispostas a tudo para isso. Um 'romeu e julieta' meio dark, com fotografia pálida, quase noir. Quase não consegui ultrapassar os primeiros 20 minutos, até que a trama envereda pela ação. Há uma certa mensagem acerca da aceitação das diferenças.
Fraco. Pior: parece que já está programado o Crepúsculo-2, a seqüência.
3. Na Natureza Selvagem (Into the wild/EUA, 2007)
Site Oficial: www.intothewild.com
Direção: Sean Penn
Roteiro: Sean Penn
Sinopse: Após concluir seu curso na Emory University, o brilhante aluno e atleta Christopher McCandless (Emile Hirsch) abre mão de tudo o que tem e de sua carreira promissora. O jovem doa todas as suas economias - cerca de US$ 24 mil - para caridade, coloca uma mochila nas costas e parte para o Alasca a fim de viver uma verdadeira aventura. Ao longo do caminho, Christopher depara-se com uma série de personagens que irão mudar sua vida para sempre.
Só por ter sido dirigito e roteirizado por Sean Penn, já é uma recomendação para Na Natureza Selvagem. Minha filha Ana Letícia foi quem me recomendou: - "Pai, você vai adorar este filme!"
A história é baseada em fato real e a família McCullen demorou a permitir sua filmagem. Quem é que nunca pensou em 'sumir no mato', 'morar numa praia primitiva' ou 'fugir da cidade grande'? Hoje, a Natureza é vista como o lugar de onde nunca deveríamos ter saído, o Éden perdido pelo pecado original.
O que não podemos esquecer é daquilo que nos falou Freud, em O mal estar na civilização: sair da natureza e entrar na cultura exige do homem enormes sacrifícios e repressões para regular a agressividade intrínseca que nos habita.

31 dezembro, 2008

Museu de Artes e Ofícios


Museu de Artes e Ofícios, upload feito originalmente por ClaudioCosta.

O domingo estava chuvoso e a preguiça submergia qualquer atividade. Mas mexer-se é preciso.
Eis que surge a idéia: visitar o Museu de Artes e Ofícios, tão elogiado por todos que o conheceram. Fica logo ali, bem no centro da cidade, na antiga estação da EFCB (Estrada de Ferro Central do Brasil). Com a decadência do transporte ferroviário de passageiros - uma aberração deste país - a estação estava quase totalmente ociosa, embora por ela transitasse, ainda, o Metrô de superfície de Belo Horizonte.


Pois agora lá está o MAO e fomos conhecê-lo.


Seriam necessárias várias visitas para usufruir de tanta informação, tantos objetos e fotos, uma viagem ao passado e um resgate dos ofícios e seus instrumentos.
Há história, há arte, há antropologia... tudo ali, bem disposto, com textos explicativos e estética impecável. É um dos mais completos e bem estruturados do Brasil (leia mais).
No próximo domingo chuvoso, quem sabe, driblemos a preguiça!

27 dezembro, 2008

Triz


Árvore de Natal na Pampulha, upload feito originalmente por ClaudioCosta.

Onde estão aqueles olhos cansados
que agora brilham, alertas?

Uma criança esquecida
dentro do corpo do adulto
sacode o corpo maduro
descrente de tudo que vê

Onde está o feitiço
que, olho no olho, prendia
o olhar de Pedro e Maria?

Eis que baila no espaço
ou sobre as águas - não sei -
um cone de luz que reluz.

É festa, é fogo, ilusão,
é busca, esperança, utopia talvez.

Foi quase por distração,
mas não dá pra mentir:
Por um triz,
fui feliz!

____________

Clique aqui pra ver os efeitos especiais.

23 dezembro, 2008

Jandira ou O Padre e a Moça

Aos 13 anos, Jandira saiu de Ponte Nova e veio morar com parentes em Belo Horizonte. Passou a residir na praça da igreja matriz de um bairro próximo ao centro, lugar ainda aprazível nos meados da década de 60.

Rapidamente envolveu-se nos chamados grupos de jovens da paróquia. Menina esperta e graciosa, entrosou-se com todos. Ao lado da igreja, os padres mantinham pequena gráfica onde imprimiam, além de folhetos litúrgicos, livros e revistas de sadia literatura, vidas de santos, calendários e impressos em geral.

Jandira, a pedido da tia, foi contratada pelo Padre Antero, conhecedor da disposição da menina. Ela estudava pela manhã, ali mesmo no bairro e, tão logo almoçava, já estava separando papéis, paginando e grampeando fascículos. Miudinha, esticava-se na ponta dos pés diante daquelas mesas que lhe pareciam altas, enquanto tagarelava com os outros funcionários.

Sábado à tarde acontecia o "grupo de jovens", no qual se combinavam passeios, atividades pastorais, barraquinhas, etc. Até viagem à praia fizeram! Uma aventura somente permitida porque o senhor padre acompanharia os rapazes e as moças. Foi quando Jandira conheceu o mar. Lembrança para nunca se perder.

A menina se transformou em moça, vigiada pela tia zelosa. Dentro do espírito de
aggiornamento do Concílio Vaticano II, o próprio vigário patrocinava, ocasionalmente, uma Hora Dançante no pátio interno da casa paroquial. O som era garantido pelas primeiras bandas-de-garagem surgidas em Belo Horizonte. Guitarras estridentes embalaram muitos namoros e flertes com as baladas dos Beatles e do romântico The Mamas and Papas...

A moça Jandira era comunicativa e adorava conversar com o padre Antero, a quem chamava de Tio. Eram conversas alegres, despretenciosas, sem maldade. Certa vez, organizou-lhe uma despedida, designado que fora para um curso especial de Teologia, em Roma. Nem bem o padre viajara e o carteiro passou a entregar, semanalmente, cartões postais vindos da Europa, exibidos orgulhosamente para toda a família e para os amigos. Um privilégio só dela, pois a mais ninguém o padre escrevia.

No dia de seus 20 anos, chega um pacote cheio de selos e carimbos, direto de Roma, par avion.
-Gente, exclamou, o tio lembrou-se de meu aniversário!
Rodeada de amigos e parentes, desembrulhou cuidadosamente a encomenda. Um cartão trazia as mais lindas palavras de Feliz Aniversário, lidas e relidas para todos, atentíssimos. Havia, ainda, duas pequenas caixas. Na primeira, um xale de seda, multicolorido - "a coisa mais linda que já vi". O que haveria no outro?
-Olha, gente, é uma camisola!
Ouviu-se um longo "Ohhhh!". Ali, em suas mãos alvas e trêmulas, cintilava minúscula lingerie vermelha, de seda pura, finíssima, de ótimo gosto, coisa nunca vista!
-Ohhhh!, o padre Antero lhe enviou isto?, exclamou a tia.
Jandira, inocente, não percebeu qualquer insinuação por parte dos outros, simplesmente se emocionava com o carinho que lhe devotava o Tio Antero. Nem lhe passou pela cabeça qualquer sentido além da pura amizade e dedicação de um pastor por uma humilde ovelha...

O sacerdote chegou algumas semanas depois e logo Jandira foi dar as boas vindas e agradecer tantos cartões e presentes. Padre Antero abraçou-a efusivamente. Ao ficarem a sós, disse-lhe:
-Jandira, vim para casar-me com você!
A moça deixou escapar um riso solto, quase uma gargalhada:
-Que isso, tio? O senhor é padre!. (Não conseguia parar de rir).
-Eu vou me casar com você, estou dizendo, nós vamos nos casar!

Foi aí que a moça se deu conta de que ele falava sério. Tomou o maior susto de sua vida, pois nunca imaginara que aquele homem 35 anos mais velho, ainda mais um padre, se interessasse por ela. Nem ela mesma jamais sentira qualquer atração pelo vigário.

Atordoada, atravessou a pracinha já decidida a voltar imediatamente para Ponte Nova. Largou tudo: escola, emprego, amigos. Pai e mãe, católicos tradicionais, a receberam com uma chuva de recriminações. Pouco a pouco
, como a calmaria sucede as tempestades, o assunto se extinguiu, instaurou-se a rotina e namorados se sucederam na vida daquela mocinha.

Um ano se passou.
Era o mês de maio. O céu do domingo estalava de azul, enquanto o sol aquecia o vale do Rio Piranga. Jandira estendia roupas no varal do terraço quando percebeu um movimento incomum de automóveis. Contou cinco carros dos quais desciam pessoas que nunca vira. No meio delas, reconheceu o padre Antero, sem batina! Coração aos pulos, desce correndo e já encontra a comitiva sendo recebida pelo seu pai. A mãe, lá dos fundos, vem enxugando as mãos no avental. Ninguém entendia nada de nada. Todos falavam alto. No meio daquele alvoroço, o irmão do padre diz:
-Viemos para o noivado!
Padre Antero se adianta e
, solenemente, declara ao pai da Jandira:
-Estou aqui para pedir a mão de sua filha em casamento. Consegui que o Papa me dispensasse dos sagrados votos do sacerdócio e meu Bispo já me liberou. Os papéis estão aqui.
Apresentou um documento da Cúria Romana, timbrado com a Mitra Papal, onde se liam palavras em Latim. Em seguida, abre uma caixa minúscula, forrada de veludo vermelho:
-Para demonstrar a seriedade de minha proposta, eis as alianças. Vieram meus irmãos, minhas irmãs e alguns paroquianos como testemunhas.
O pai gaguejou qualquer coisa, esticando os beiços para os lados de Jandira:
-Isso é ela quem resolve.
Diante de todos, o agora ex-padre se aproxima da moça:
-Não falei que iria casar-me com você?

Apesar das advertências dos parentes, pais e amigos que vaticinavam futuras desavenças, desentrosamento entre cônjuges com tamanha diferença de idade e discriminação social, celebra-se o casório vinte dias depois, numa capela de Belo Horizonte. O fato era tão extraordinário que uma emissora de rádio perseguiu o carro da noiva, na tentativa de cobrir a cerimônia, ao vivo.

Casaram-se e tiveram três filhos.

. . .

Outro dia, aos 89 anos, faleceu o ex-padre Antero.
-Ele sempre me amou muito. Aprendi a gostar dele depois do casamento, pois nem namorar a gente namorou, diz-me Dona Jandira. Agora estou só, como é triste a solidão... Nós nos amávamos tanto!
____________________
Essa história é verídica. Republiquei-a com os comentários anteriores, pois há novidades no ar. Depois eu conto.

22 dezembro, 2008

Blogs'n soup

O tempo úmido pedia encontros calorosos e alimentos quentes regados a cervas geladas. Foi exatamente o que providenciou o grande Idelber, acrescentando biscoito fino & massa a um encontro agradabilíssimo: intimou-nos a comparecer ao tradicional Skaldos [46 tipos de caldo de fabricação própria, desde o de carne com cebola, pimentão, cebolinha, salsa, azeitona, creme de leite, palmito e milho verde ao caldo de camarão com catupiry, cebolinha, salsa e tomate] na Praça Duque de Caxias, em Santa Tereza (pertinho da famosa esquina onde nasceu o mineiríssimo Clube da Esquina).

Nem precisa dizer que havia blogueiros e comentaristas de blog, categoria de leitores atentos que enriquecem os debates provocados por textos inteligentes da blogosfera.

Lá fomos nós, Amélia, Ana Letícia&Thiago e moi-même. Ao garçon coube a façanha de rearranjar as mesas, de tal forma que todos nos acomodássemos em torno de bate-papo agradabilíssimo, animado, multi-temático, levemente alcoólico [olha a lei seca aí, gente!], futebolístico, político, psicanalítico, jornalístico, jurídico e literário [lá estava Ana Maria Gonçalves, autora de um dos mais densos, interessantes e irresistíveis romances da língua portuguesa: Um defeito de cor].
Tudo de bom foi este encontro:
Altos papos

17 dezembro, 2008

Presépio mineiro

A tradição católica diz que o presépio surgiu no século 13, quando São Francisco de Assis quis celebrar um Natal o mais realista possível e, com a permissão do papa, montou um presépio de palha, com uma imagem do Menino Jesus, um boi e um jumento vivos perto dela. Nesse cenário foi celebradada em 1223 a missa de Natal. O sucesso dessa representação do presépio foi tanta que rapidamente se estendeu por toda a Itália. Logo se introduziu nas casas nobres européias e de lá foi descendo até as classes mais pobres. [daqui]

Desde a infância acompanhei a construção de presépios na minha casa. Início de dezembro era época de a meninada correr aos quintais em busca de pedras bonitas e musgos, que serviriam de caminhos e jardins no bucólico cenário de casinhas, pastagens e a gruta onde nasceria o Menino.

Aos adultos (lá em casa era minha mãe, mesmo) competia preparar as montanhas. Como? Cobriam-se com areia de minério azul escuro e faiscante os sacos de aniagem ou o grosso papel de cimento, previamente preparados com grude feito de polvilho e água.

Aos poucos, uma cidadezinha ia surgindo, fabricada com casinhas de madeira, cerâmica e papel maché, retiradas cuidadosamente das caixas que as guardavam do ano anterior.

Era um momento mágico: minha mãe e a criançada ao lado a desmbrulhar cuidadosamente os personagens e adereços guardados do ano anterior. Alegria maior era quando surgiam os bichos: ovelhas, burro, vaca, leões, girafa, patinhos, galinhas, um zoo inteiro! Não podia faltar um garboso galo carijó, que seria colocado em destaque. Ao galo caberia cantar bem alto, anunciando o nascimento de Jesus.

Seria apenas uma lembrança do passado, não fosse a determinação da Amélia de manter a tradição aqui. Nem que fosse simples improvisação, um aranjo com manjedeoura, o Menino, José e Maria.

Aos poucos, Amélia se sofisticou e, ultimamente, o presépio foi tomando importância e ganhando detalhes. Posso dizer que se amineirou, pois se caracteriza como uma vila do interior, construída com casinhas de cerâmica moldadas pela Jovita no Vale do Jequitinhonha e outras advindas de várias regiões do Brasil.

Se, ano passado, o presépio se restringiu a uma cidade plana com suas ruazinhas tortas ladeadas de casinhas, agora em 2008, novamente ajudada pelo filho Ângelo e pela norinha Renata, as montanhas de Minas compõem o cenário:

16 dezembro, 2008

Me engana que eu gosto

Reza a lenda que nós, mineiros, vendíamos bondes elétricos aos cariocas e paulistas interioranos. O gajo adquiria o trambolho que chocoalhava na novel capital das Alterosas, mas jamais o levava pra casa.
E os mineiros ricos e bobos que compraram dos cariocas o morro do Pão de Açucar? Não comeram nem mesmo os brioches da Confeitaria Colombo.
Há terráqueos que adquiriram terrenos na Lua, desde que um sujeito esperto a registrou como propriedade particular.
No aeroporto de Brasília vi, com estes olhos que um dia a terra há de comer, ampolas contendo "ar de Brasília" vendidas em lojas de lembranças. Na época, custavam R$ 5,00 a unidade. Pois havia turistas que compravam várias!
Alguns inconformados com a aproximação da morte desembolsaram milhares de dólares para que fossem congelados pelo tempo necessário à descoberta da cura de suas doenças: esperam acordar fresquinhos, lampeiros e saltitantes, após reaquecidos da hipotermia. Pelo menos não ficarão ardendo no fogo do inferno, já que repousam no freezer.
Ao me olhar no espelho, vejo um sujeito com cara de bobo que mantém o despertador 20 minutos adiantado pra não perdar a hora!!!

Eduardo Giannetti escreveu sobre este tal de auto-engano: auto-engano é muito bom e talvez indispensável para nos sustentar neste vale de lágrimas, expulsos que fomos do Éden, após sucumbirmos às vãs promessas de uma serpente esperta. Falácias nos arrebatam, promessas elegem candidatos e fantasmas nos assombram.
Viver de ilusões e praticar a máxima "me engana que eu gosto" é tão velho quanto o salto evolutivo de macaco a homo sapiens (sapiens?). Há dois posts anteriores, quase acreditei na matéria do Estado de Minas, eu lá estampado na capa, casal vinte posando de celebridade (hehehe).
Toda essa falação aí é para recomendar este post do Milton Ribeiro: um time gaúcho comprou o nome de uma estrela da Constelação de Orion!

14 dezembro, 2008

111

Cento e onze anos completou Belô, dia 12/dez.

Igreja S. Francisco - Pampulha - BH

É uma jovem cidade, com belezas e mazelas, tão nova e tão cheia de problemas: trânsito, falta de transporte público digno, diferenças sociais gritantes. Mas é época de festa e a cidade tem lá seu lado bom, bonito, arrumado, moderno e "mineiríssimo".


Edifício projetado por Oscar Niemeyer - Praça da Liberdade - Belo Horizonte-MG


Acolheu-me há décadas. Aqui me formei, casei, tive filhos. Aqui me sustento. Não diria que já sou belorizontino, pois Nova Era ainda está em mim: menino do interior, carrego lembranças e emoções, saudades do meu pai e minha mãe que lá estão, dos irmãos, parentes.
Mais fotos AQUI.

Video sobre processo de produção e suas mazelas

Recebi o link deste vídeo. Achei interessante, apesar dos 21min de duração.

18 novembro, 2008

14 novembro, 2008

Doce-de-laranja e queijos.

Santa Maria de Itabira fica logo ali, 140km a nordeste de Belo Horizonte, depois de Itabira, a terra do Drummond. Se nada tivesse de especial, já teria a maior importância na minha vida: foi a cidade em que Amélia nasceu; é onde vive meu sogro, até hoje.

Pois foi com produtos de Santa Maria de Itabira que minha cunhada e minha sobrinha (Rosa & Adélia) presentearam-me regiamente: queijos variados e um divino doce-de-laranja (este, feito pela própria Rosa).

Assim, em pleno dia-de-semana, o almoço aqui em casa virou festa, pelo menos na hora da sobremesa, genuinamente mineira e familiar. Tivemos queijo "minas" e dois tipos de requeijão, moreninho e com raspa. Impossível comer apenas um pedaço.
Quer provar?Requeijão de raspa e moreninho, queijo "minas" e doce-de-laranja "da Rosa". Foto by Clcosta.

13 novembro, 2008

Memória x repressão x poesia

Lembrei-me agora de como fui me despertando para o mundo simbólico da poesia.

Não aquela poesia "escolar" aprendida no Grupo Escolar Desembargador Drummond, lá de Nova Era, terrinha mineira e simpática às margens do Rio Piracicaba....

Falo de quando minha cabeça foi se abrindo para o
mundo mundo vasto mundo, nas aulas de Literatura Brasileira, no antigo Colégio do Caraça. Maurílio Camello e João Batista Ferreira, outrora padres e professores, fizeram-me a cabeça. Por conta disso, tive a ousadia de escrever uma cartinha ao tio-padrinho Ismar, pedindo um livro do poeta Carlos Drummond de Andrade.

Tio Ismar tinha um modo especial de me presentear: foi-me dando, aos poucos, os livros de Monteiro Lobato, desde O Sítio do Picapau Amarelo até História do Mundo para as Crianças. Como eu viajava naquelas narrativas...

Tenho outras histórias com o Tio Ismar: deu-me o primeiro método para aprender piano, o Schmmol; levava-me a passear na Capital e, com ele conheci o asfalto (que ele brincava de chamar "chão preto"); levou-me a almoçar num restaurante "giratório", onde fiquei entre a comida deliciosa e o assombro diante das mesas que, literalmente, davam uma volta completa sobre o salão!!!


Pois bem, o tio atendeu meu pedido e enviou-me um exemplar da Antologia Poética, de Drummond. A correspondência passava na "censura prévia" do padre disciplinário (como casam os padres, este já se casou, também). Chamou-me ao seu gabinete, senho franzido, aspecto grave, tom de preocupação:

"-Meu filho, olhaqui, chegou um livro prá você, de um poeta muito esquisito!".


Impetuosamente lancei mão do livro recém desembrulhado, sobre a mesa.


"-Calma! quero comentar com você algumas coisas: veja essa poesia aqui... nem sei se é poesia".

Leu no meio do caminho tinha uma pedra..., "isso parece coisa de ateu, meu filho, sem esperança!".

Selecionou outro poema,
A Mão Suja. Escandindo bem as palavras, voz de mistério, reticente:


"- Minha mão está suja.
Preciso cortá-la.
Não adianta lavar.
A água está podre.
Nem ensaboar.
O sabão é ruim.
A mão está suja,
suja há muitos anos."


"-Tá vendo, meu filho? isso não é coisa para um jovem puro e inocente como você. O autor está incentivando a masturbação! Isso vai desviar você do bom caminho!".


Dito isso, guardou o livro sob chave, numa gaveta da escrivaninha.

Desde então, nunca mais vi a Antologia Poética do Drummond!


Minha mãe, sabedora do meu gosto pela literatura e pelo poeta itabirano, passou a me enviar, semanalmente, recortes do jornal Estado de Minas, com as crônicas e poemas do poeta C.D.A.! Mãe é mãe.


Até que, saindo do Colégio, com um dos meus primeiros dinheirinhos, logo comprei aquele livro e muitos outros.... Só então, após anos, pude, enfim, usufruir do "presente" do Tio Ismar!

12 novembro, 2008

Vade retro

Dentre as muitas vicissitudes por que passam os viajantes aéreos, os atrasos nos vôos talvez sejam os menos trágicos.

Foi um desses atrasos de Brasília para BH que me fez chegar ao Aeroporto de Confins (oficialmente "Tancredo Neves) às 23,50h de uma sexta-feira, 13.
Para vencer os 40km até o centro da cidade, tomei um taxi. Ao me acomodar no banco de trás, senti logo um odor muito forte de incenso, ao mesmo tempo que vi o motorista fazer o sinal-da-cruz. Beijou o crucifixo pendurado no retrovisor e, dando partida, murmurou:
- Vade Retro, Satanas.
- O que disse?
Imagino que não queria que o tivesse escutado, pois respondeu, defensivamente:
- Nada não, senhor!
Insisti, até que começou a contar:
- Peguei essa mania há muito tempo, desde quando nem existia o aeroporto tão distante. É uma formula que utilizo para espantar os fantasmas noturnos.
- Por acaso tenho cara de fantasma?
- Não, é claro que não, embora a gente nunca possa ter certeza. O senhor me desculpe, mas comigo aconteceram algumas coisas muito estranhas e não posso deixar de me prevenir. Vou explicar: da primeira vez, eu trabalhava com um Opala Chevrolet. Meu pai ficava com o carro durante o dia e eu, por ser mais novo, pegava à noite. Numa sexta-feira, noite fria de junho, descia a Avenida Afonso Pena bem devagar, procurando passageiros. Naquela época, havia muitas árvores, a iluminação era fraca e os ônibus demoravam a passar. Pois foi exatamente num ponto, pertinho da Praça Tiradentes, que uma mulher acenou. Era alta, loura, usava sapatos altos e estava vestida como se fosse para uma festa. Achei estranho, pois as mulheres daquele tipo não andavam sozinhas, só as putas, o senhor entende. Mas não tinha cara de puta, de jeito nenhum. Abri-lhe a porta. Ela entrou e, com ela, um perfume que nunca havia sentido: - Leve-me à Rua Mariana, no Carlos Prates. "Deve ser uma delas", pensei, pois naquela região havia umas casas de mulheres suspeitas, ou da vida, como diziam. Não puxei assunto, nem ela falou nada. Apenas aquele perfume do qual nunca mais esqueci. As tais casas ficavam no início da Rua Mariana, mas ela pediu para tocar em frente. Fui subindo devagar, esperando que me mandasse parar. Até que chegamos, sabe onde? Em frente ao Cemitério do Bonfim. "Pare aqui", disse, com voz ríspida. Olhei o taxímetro e dei o preço. Ainda era em cruzeiros, o senhor se lembra? Pois a dona me deu uma nota de cinco mil, para pagar uma corrida de dois e quatrocentos. Abri minha carteira para pegar o troco e, quando me virei, o banco de trás estava vazio! "Cadê a mulher?", perguntei a mim mesmo. Estremeci, pois o perfume foi substituído por um cheiro forte de enxofre. Olhei para fora e vi o portão do Bonfim fechando-se lentamente, mas não vi ninguém, nenhuma alma. Deu-me uma tremedeira danada... Gritei: "Valha-me São Cristóvão!" É o padroeiro dos motoristas, sabia? Acelerei o carro, nem olhei prá trás. Desde aquele dia, sempre faço minhas orações. Depois que aprendi a fórmula do exorcismo com um padre, então fiquei mais seguro. Por isso, o senhor me desculpe, não tem nada a ver com o senhor, por isso, toda vez que entra qualquer passageiro no meu taxi, já me previno: "Vade retro, Satanas".
O senhor vai prá onde, mesmo?
Com um sorriso diabólico, respondo:
- Rua Mariana, por favor...
[A lenda da Loura do Bonfim alimenta o imaginário belorizontino desde a década de 50. Já virou filme. Eu aumento, mas não invento.]

10 novembro, 2008

Pro Allan


Licor Piacenza 1, upload feito originalmente por ClaudioCosta.

Esta foto vai pro Allan, do Carta da Itália. Ele mora na cidade de Piacenza.

Quem diria que no Mercado Central de Belo Horizonte existe um licor com o nome de Piacenza? Pois é...

A gente vai andando, olha uma coisa ali, outra lá e, de repente, topa com o nome Piacenza. Aí, vem à lembrança: Conheço quem mora lá, o Allan. A seguir, num ímpeto, saco da algibeira (quer dizer, do bolso mesmo) a máquina fotográfica: Vou mandar esta foto pra ele. Bom, pra ser sincero, acho que pensei em comprar o licor Piacenza e levar até lá, bem ali pertinho, só atravessar o Atlântico.

[O Piacenza é fabricado em Brumadinho, a 60km de BH. Parece que algum imigrante italiano resolveu homenagear suas origens. Há um número de telefone; chamei e ninguém atendeu. Se descobrir, conto. A propósito, a cidade abriga o Centro de Arte Contemporânea de Inhotim.]

O rótulo presentificou uma pessoa que nunca vi (a não ser por foto e pelos deliciosos textos).

No seu post de hoje, Allan comenta as implicações da diferença de fuso horário, que varia de 3 a 5 horas entre Piacenza e Brasil. Por uma coincidência cósmica (não acredito nisso, mas existe!), só agora, ao postar, observo o mostrador do relógio da foto acima. Alguém percebeu algo curioso?

Pra você, Allan, um brinde.

05 novembro, 2008

Soié na Folha de São Paulo

Mais um feito grandioso do Soié, meu pai: uma entrevista com ele, na Folha de São Paulo, no caderno de Informática de hoje.
Veja lá no blog dele, o Ontem-Hoje.

28 outubro, 2008

Aniversário de casamento

Informo a todos que ganhei na loto,
na loteria esportiva e no bingo.
Ganhei na mega-sena, sim, senhor!
Achei um trevo de quatro folhas e
caminhei até o fim do arco-iris:
o pote de ouro é meu.
Olhei pro céu e vi
a estrela cadente:
fiz o pedido,
concedido!
Furei a pedra: petróleo!
Cavei o chão: diamantes!
Olhei pra ela e ela sorriu.
Brinquei. Riu.
Amei.
Amo.
Amélia.

18 outubro, 2008

Congresso e amenidades

O Planalto Central está quente e seco. Mas há razoes para um passeio no Pontão, à beira do lago Paranoá: alguns restaurantes, os reflexos das luzes da Capital e a lua cheia soberana que me convida a passear tranquilamente com Amélia. Não diria que enlouqueci e, como Ismália, enxerguei ''uma lua no céu, outra lua no mar''. Não. Mas o poeta Alphonsus, certamente, repetiria a metáfora se aqui estivesse e fosse estimulado pelo chopp geladíssimo do Bierfass.

Congressos são para trabalho, estudo, encontros com um milhão de colegas e centenas de ex-alunos, muitos deles espalhados por esse país: Florianópolis, Recife, São Paulo, Juiz de Fora, Ceará, interior de Minas, etc.

Mas vir a Brasília teve outro especial sabor, o sabor dos abraços aos amigos Paulo & Letícia e Valdir & Autinha.

No mais, é correr de uma sala a outra, caminhar meia maratona dentro do Centro de Convenções Ulisses Guimarães, enorme. Além disso, há os stands da indústria farmacêutica, tal como uma feira de parque de diversões, cada laboratório brigando para atrair a atenção dos congressistas para seus produtos. Distribuem material científico, claro, mas repartem brindes, lanches, sorvetes, bugigangas. Também há utilidades, como livros técnicos, vídeos educativos (na área psiquiátrica) e ilhas de conforto onde nos assentamos com os colegas, descansamos as pernas e combinamos o que fazer, à noite, que ninguém é de ferro.

Tudo isso aconteceu de quarta até hoje. À tarde, encerra-se o evento e amanhã estaremos de volta a Beagá.

O intervalo na rotina diária é, igualmente, outra grande motivação para sair por aí, todo ano, cada vez em uma cidade. Ano que vem o Congresso da Associação Brasileira de Psiquiatria será em Sampa. Depois, em Fortaleza.

A ciranda continua, a engrenagem gira e a lusitana roda.

11 outubro, 2008

O psicopata: camaleão social

São impressionantes os relatos, teorias, estatísticas e conclusões com as quais me deparei ao ler o "O Psicopata - um camaleão na sociedade atual", do espanhol Vicente Garrido.
Psicopatia é tratado pela Psiquiatria como um transtorno de personalidade, muito grave, cujos critérios diagnósticos o DSM-IV (manual diagnóstico da Associação Psiquiátrica Americana) enumera:

Ocorrência de um padrão de desrespeito e violação dos direitos dos outros, ocorrendo desde a idade de 15 anos, como indicado por três ( ou mais ) dos seguintes comportamentos:

1) falhas em adaptar-se às normas sociais que regem os comportamentos legais, indicadas pela repetição de atos que são motivos para prisão.

2) propensão para enganar, indicada por mentiras repetitivas, uso de
codinomes e manipulação dos outros para benefício ou prazer pessoal.

3) impulsividade ou falha em planejar o futuro.

4) irritabilidade e agressividade, indicado por brigas e agressões repetitivas.

5) desrespeito negligente pela própria segurança ou dos outros.

6) irresponsabilidade, indicada por falhas repetitivas em sustentar um trabalho consistente ou honrar obrigações ( financeiras ou morais ).

7) falta de remorso, indicado pela indiferença ou racionalização ao ter maltratado alguém ou roubado alguma coisa.

Estas características do transtorno antissocial são facilmente reconhecidas e nos fazem acreditar que somente criminosos cruéis e serial killers seriam psicopatas. Vicente Garrido salienta que há os dissimulados, os camaleões:

Muitas outras pessoas são psicopatas e não se dedicam ao crime. Podem viver em nosso prédio, ser nosso marido, esposa ou amante, nosso filho, nosso colega de trabalho, um político... É vital compreender isso, enxergar a magnitude do problema.

Tenho quase certeza de que o leitor deste post conhece um ou mais camaleões psicopatas, basta atentar para alguns de seus traços: têm eloquência e encanto superficial: falam muito, expressam-se com encanto, têm respostas espertas; não têm remorsos, são egocêntricos, mentem e manipulam o outro; são impulsivos, quase sempre irresponsáveis.
Meu primeiro psicopata
Meu primeiro contato com um psicopata se deu quando eu era estudante de medicina, fazia estágio em uma clínica psiquiátrica. Lembro-me com detalhes do caso e do paciente que fora internado enquanto se discutia sua inimputabilidade num crime hediondo.
Tratava-se de um jovem de vinte e poucos anos, bancário. Ao rapaz competia levar grande soma de dinheiro vivo para ser depositado no cofre do Banco do Brasil. Era acompanhado por um colega. Apenas algumas quadras separavam as agências, de forma iam os dois, quase todos os dias, carregando uma bolsa recheadíssima.
Pois nosso personagem convenceu o colega a sumirem com tudo. Deixaram um fusquinha nas imediações e fugiram com a grana pela BR-40, em direção ao Rio. Num local ermo, entra numa estradinha de terra, mata o amigo e põe fogo no corpo e no carro. Some. Alguns dias depois reaparece e acusa o colega de sequestrá-lo e tentar assassiná-lo. Lutaram e o carro se desgovernou, capotando e se incendiando, explicou. O crime se esclareceu e os advogados alegaram "doença psiquiátrica".
Pois bem, acreditem se quiserem, mas o jovem tinha bom papo, era cordial com todos. Entretanto não se mostrava arrependido, dizendo que foi tudo loucura. Jogou papo pra cima de uma jovem psiquiatra que por ele se apaixonou! Conseguiu relaxamento da vigilância e fugiu da clínica. A médica quase morreu de paixão.


O livro do Garrido discorre sobre teorias da psicopatia, causas, etc. Fala do psicopata no mundo dos negócios e das profissões. Está disponível, no Brasil, pelas Edições Paulinas.

Temos assunto para mais um post: o psicopata nas organizações/instituições.