05 setembro, 2004

Tempos Sombrios

Realmente, vivemos tempos sombrios!
A inocência é loucura.
Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade.
Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.
Que tempos são estes,
em que é quase um delito
falar de coisas inocentes,
pois implica em silenciar
sobre tantos horrores.
[Mais uma de Bertold Brecht, porque me faltam palavras]

04 setembro, 2004

De que serve a bondade?

"Ao menos trezentas e vinte e duas pessoas, entre elas 155 crianças, morreram no desfecho da invasão de uma escola por terroristas em Beslan, na Ossétia do Norte, sudoeste da Rússia."

1 - A notícia, assim, curta e seca, não tem a força das imagens vistas sem parar nas telas da tv: horror, horror, horror... Mais uma vez, a pergunta: são humanos os que praticam tais barbáries? Sim, são humanos! Cabe-nos, mais uma vez, refletir sobre a "nossa" natureza e suas marcas na história da humanidade, um rosário infindável de violência, dominação, sangue derramado, etc. Nessas horas, lembro-me de um poema, que compartilho com vocês:
De Que Serve A Bondade?

De que serve a bondade
Se os bons são imediatamente liquidados,ou são liquidados
Aqueles para os quais eles são bons?

De que serve a liberdade
Se os livres têm que viver entre os não-livres?

De que serve a razão
Se somente a desrazão consegue o alimento de que todos necessitam?

Em vez de serem apenas bons,esforcem-se
Para criar um estado de coisas que torne possível a bondade
Ou melhor:que a torne supérflua!

Em vez de serem apenas livres,esforcem-se
Para criar um estado de coisas que liberte a todos
E também o amor à liberdade
Torne supérfluo!

Em vez de serem apenas razoáveis,esforcem-se
Para criar um estado de coisas que torne a desrazão de um indivíduo
Um mau negócio.
[Bertold Brecht(1898-1956)]

2- Agora, só prá lembrar: em 20 de novembro de 1959, a Assembléia Geral das Nações Unidas proclamou a Declaração dos Direitos da Criança, ratificada pelo Brasil:
  • Toda criança será beneficiada por esses direitos, sem nenhuma discriminação por raça, cor, sexo, língua, religião, país de origem, classe social ou riqueza. Toda e qualquer criança do mundo deve ter seus direitos respeitados!
  • Toda criança tem direito a proteção especial, e a todas as facilidades e oportunidades para se desenvolver plenamente, com liberdade e dignidade.
  • Desde o dia em que nasce, toda criança tem direito a um nome e uma nacionalidade, ou seja, ser cidadão de um país.
  • As crianças têm direito a crescer com saúde. Para isso, as futuras mamães também têm direito a cuidados especiais, para que seus filhos possam nascer saudáveis.
  • Toda criança também tem direito à alimentação, habitação, recreação e assistência médica! (Isto é um resumo, são 10 princípios, que você poderá conferir aqui.)

3- Voce sabe quantas crianças brasileiras morrem antes dos 5 anos de idade, por falta de condições sanitárias, água encanada, alimentação adequada, exclusão social? Veja aqui e não se espante ao descobrir que a barbárie ocorre tembém entre nós. Tristes trópícos...

28 agosto, 2004

Olga: "Lutei pelo justo, pelo bom e pelo melhor do mundo."

Assistimos, Amélia, Ângelo e eu, ao filme "Olga", baseado no livro homônimo de Fernando Morais. [Clique aqui para saber quem foi Olga.]
O diretor, Jayme Monjardim (dirigiu a novela "Pantanal"), enfatizou o aspecto romanesco da saga espetacular da jovem revolucionária, deixando os aspectos políticos e ideológicos como pano de fundo. Funciona: a carga dramática do filme, às vezes exacerbada, prende a atenção e os corações dos espectadores. Alguns críticos detonam o filme por isso, mas não concordo. Se há uma história de amor permeando as lutas dos protagonistas, em momento algum deixamos de vivenciar as angústias e os horrores da perseguição política, o aterrorizante aparelho político-militar nazista e as crueldades praticada pelo ditador brasileiro, Getúlio Vargas (cujo suicídio, há 50 anos, abalou a nação).
Alemã de origem judia e revolucionária comunista, Olga Benário foi designada pelo Partido Comunista para proteger Luís Carlos Prestes em sua viagem secreta de volta ao Brasil. Já o admirava antes mesmo de conhecê-lo, por ter ouvido falar da Coluna Prestes. [Prestes havia liderado um movimento político-militar de origem tenentista, que entre 1925 e 1927 se deslocou pelo interior do país, percorrendo 25 mil km (!) pregando reformas políticas e sociais e combatendo o governo do então presidente Arthur Bernardes e, posteriormente, de Washington Luís.]
Getúlio, através de seu chefe de Polícia, Fellinto Muller, prendeu o casal Prestes e Olga, entregando a jovem à Gestapo. No filme, as cenas do nascimento da filha Anita e sua separação da mãe se constituem num dos momentos mais dramáticos.
O filme é imperdível, seja pelo conteúdo e carga dramática, seja pelas referências históricas, seja pela denúncia implícita dos movimentos totalitários.
Saí do cinema refletindo sobre a força dos ideais. Pensei: será que não mais acreditamos que podemos mudar o mundo? Estamos resignados ao papel coadjuvante de meros consumidores (embora pobres) a sustentar o "capital" sem pátria? Será que a queda do muro de Berlim derrubou, também, os ideais de igualdade, justiça social, do bom e do justo?
Já no campo de concentração, às vésperas de sua execução, Olga escreve estas últimas palavras à filha e a Prestes:
Querida Anita, Meu querido marido, meu garoto: choro debaixo das mantas para que ninguém me ouça pois parece que hoje as forças não conseguem alcançar-me para suportar algo tão terrível. É precisamente por isso que me esforço para despedir-me de vocês agora, para não ter que fazê-lo nas últimas e difíceis horas. Depois desta noite, quero viver para este futuro tão breve que me resta. De ti aprendi, querido, o quanto significa a força de vontade, especialmente se emana de fontes como as nossas. Lutei pelo justo, pelo bom e pelo melhor do mundo. Prometo-te agora, ao despedir-me, que até o último instante não terão porque se envergonhar de mim. Quero que me entendam bem: preparar-me para a morte não significa que me renda, mas sim saber fazer-lhe frente quando ela chegue. Mas, no entanto, podem ainda acontecer tantas coisas... Até o último momento manter-me-ei firme e com vontade de viver. Agora vou dormir para ser mais forte amanhã. Beijos pela última vez.
Olga.”

24 agosto, 2004

Festival Gourmet de Tiradentes-MG

Em janeiro deste ano, Amélia e eu estivemos na cidade de Tiradentes , uma das cidades mais charmosas de Minas, com um centro histórico muito bem conservado. Fica pertinho de Belo Horizonte (170km), em direção sul, próxima a S.João del-Rei e Barbacena. O casario colonial, as ruas calçadas com lajes, emoldurada pela Serra de S. José, é destino privilegiado do maior circuito turístimo em implantação no país, a Estrada Real., juntamente com Outro Preto e Diamantina, Durante uma semana inteira, participamos da Mostra de Cinema. Na Pousada em que ficamos, a Mãe D´água, bem no centro histórico, convivemos com os diretores, produtores e artistas do cinema nacional. Assitimos em praça pública e no "Cine Tenda" aos lançamentos de filmes que, agora, já estão no circuito comercial. Uma beleza de passeio que recomendamos a quem quiser alto astral, cultura, diversão&arte, culinária, caminhadas pela Serra de S. José, com direito a cachoeiras, etc. Guarde aí: última semana de janeiro/05 tem mais!
Outra dica: agorinha mesmo, está acontecendo em Tiradentes o Fest Gourmet, ou seja, o VII Festival Internacional de Cultura e Gastronomia: Os mais conceituados chefs estrangeiros e brasileiros levam a Tiradentes os mais novos conceitos e tendências da gastronomia mundial. São cursos, degustações, almoços, jantares e festins - jantares mais glamourosos, requintados, à luz de velas, com música erudita ao vivo - que são um verdadeiro convite ao doce prazer da gula. No bom sentido, claro! Saborear um belo prato emoldurado pela rica arquitetura barroca de Tiradentes é um deleite!. No "delicioso" site de Eduardo Maya, o "Chef-on-line" você pode conferir a programação e receitas de pratos irrecusáveis.
Para dar água na boca, uma "receitinha" simples, mineirinha, gostosinha, prá tomar com um cafezinho bem quentinho, sem dispensar um queijim fresquim: Broa de Fubá:
Primeiro, você vai separar os seguintes ingredientes:
02 ovos
04 xícaras de fubá
1 e 1/2 xícara de açúcar
1/2 litro de leite
04 colheres de manteiga
Sal a gosto
02 colheres (de chá) de fermento em pó
Em seguida, mãos à obra: bata o açúcar e os ovos e depois misture ao fubá. Com todo o carinho, acrescente o leite, continue batendo e, aí, coloque o fermento. Unte bem a forma para não agarrar, despeje a massa e ponha para assar em forno pré-aquecido, por um tempo de 40 minutos a uma hora. Retire do forno e espere amornar para, aí sim, desenformar, partir e... saborear. Tem gente que coloca uns pedacinhos de queijo minas na massa, antes de levar ao forno. Eu adoro desse jeito! Ah! um café quentinho com broa de fubá é uma guloseima inesquecível. Ao degustar, separe um pedacim prá mim, tá bom?

22 agosto, 2004

Duas viagens e um pijama

Uma semana sem postar, em que os dias foram ocupados pelo prosaico cotidiano e por duas viagens:
Dia 13 de agosto, de ônibus, parti em direção sudoeste de Belo Horizonte, em busca do cruzamento do paralelo 20S com o meridiano 45W, ou seja,
Divinópolis. A cidade estava em plena DivinaFolia, evento que abre o calendário do segundo semestre do CarnaBrahma 2004 - o maior circuito do carnaval fora de época do país –, que percorrerá o Brasil com a promoção de micaretas e festas do gênero nas regiões Sudeste e Nordeste.
Entre as atrações, as bandas Chiclete com Banana, Babado Novo e Bartucada para agitar a festa até o sol raiar. Também se apresentaram bandas locais, como KSamba, Ká Entre Nóis e Fernanda Garcia, em oito horas seguidas de show em cada dia de festa.
Mas eu não fui prá festa nenhuma, fui a trabalho (!), ministrar um Curso de Transtornos de Aprendizagem para professores(as) da Rede Municipal de Ensino. Além do trabalho, valeu o peixe-no-espeto, devorado na Churrascaria Savassi, bom demais!
Semana seguinte, anteontem, embarquei no vôo 5586 da Total, em direção ao Vale do Aço, aterrisando em Ipatinga, 30 minutos depois, onde daria um Curso sobre Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade, assunto que já abordei, aqui.
A 3.500m de altura pude comprovar a destruição de nossas montanhas, perpetrada pelas mineradoras, que estão esburacando o solo para retirar minério de ferro [perpetrar: v.t.d. - cometer, praticar (ato moralmente inaceitável, crime, delito etc., segundo o Houaiss]. Vai tudo pro Japão e pro império do norte! Logo saindo de Belo Horizonte, avista-se a Serra da Piedade, comida pelas beiradas, as encostas erodidas, a mata ferida, as nascentes secando, como denuncia o movimento SOS Serra da Piedade!
Ipatinga, entretanto, me surpreendeu pela beleza e organização da cidade, pelas largas e ajardinadas avenidas, pelo alto índice de saneamento, pelos dispositivos de atenção à saúde proporcionados pela admnistração municipal e pelos parques, como são chamadas as enormes praças. Poucas cidades do Brasil se dão ao luxo de ter uma área verde com cerca de um milhão de metros quadrados e 12 mil árvores plantadas, situada praticamente no centro e aberta a toda a população. Pois Ipatinga tem o Parque Ipanema, complexo de lazer projetado pelo paisagista Roberto Burle Marx, um dos últimos concebidos antes de sua morte.
Foi uma viagem agradável, ao lado do colega Francisco Goyatá, psiquiatra e psicanalista de carteirinha, bom de papo, culto, engraçado, espontâneo e verdadeiro ator (atuamos juntos no Show Medicina e no Show Anatomia, em priscas eras [prisco: adj. - que pertence a tempos idos; antigo, velho, prístino].
Quase rolei de rir ao ver o Goyatá desembrulhando um pacote, extraindo dele um pijama azul-bebê, novinho em folha, arrancando-lhe a etiqueta, a dizer: "-Foi minha mulher, a Martinha, que me deu, pois achava um absurdo eu dormir no mesmo quarto com você usando minha velha camiseta!". Isso é que é prestígio! Tenho de agradecer à Marta por tamanha delicadeza!
Depois desta, só mesmo uma noite de sonhos, pontuada por roncos, a me lembrar as escavadeiras devorando as serras das Gerais.

15 agosto, 2004

Sepultura, Clube da Esquina, etc

Pois é, como relatei no post Da vicissitude à ventura, minha vesícula foi retirada por causa de uns cálculos biliares pelo Dr. Júlio, cujo apelido é "Julinho Sepultura". Não me intimidei com isso e, mesmo com um cirurgião com cemitério no apelido, sabia que estava em boas mãos. Tanto é que estou aqui hoje, vivinho da silva! Fui tirar a limpo a razão do epônimo (êpa!) e descobri que o Dr. Júlio fôra um dos primeiros guitarristas da famosa banda de heavy metal, Sepultura, nascida aqui em Belo Horizonte, no famoso bairro de Santa Tereza, onde se formou o Clube da Esquina [Milton Nascimento, Beto Guedes, Lô Borges, etc.]. Fui retirar os pontos da cirurgia na quinta-feira passada e, de viva voz, confirmei com o próprio: "Realmente tocamos juntos, pode conferir no site do Sepultura, no link do Igor!", disse o Julinho. Corri pra internet e lá está, no verbete Igor Cavalera: "RELATE TODAS AS FORMAÇÕES/MEMBROS QUE O SEPULTURA TEVE:
Ale Caveira, Beto Pinga, Gato, Dr Julio, Jairo, Roberto Ufo." Taí o Julinho!
Belo Horizonte tem sido um centro de criação musical importante, com grupos e músicos já conhecidos no mundo inteiro: Milton Nascimento (Clube da Esquina), Beto Guedes, Família Borges, Fernando Brant, Skank, Jota Quest, Pato Fu, TiaNastácia, Wilson Sideral... Agora vai pro meu currículo a cicatriz deixada pelo Julinho Sepultura!
Ah! eis outro site legal sobre o Clube da Esquina.

10 agosto, 2004

Beba água e fique feliz

O Estado de Minas de ontem transcreveu notícia publicada no The Observer - jornal britânico - de domingo, afirmando que estão sendo encontrados traços do antidepressivo Prozac (cloridrato de fluoxetina) na água consumida pelos ingleses. A Agência para o Meio Ambiente da Grã-Bretanha sugere: tanta gente vem tomando o tal remédio que seus resíduos, expelidos principalmente na urina, estão se concentrando em rios e na água encontrada no subsolo. Taí um "efeito colateral" não previsto nas bulas.
O título irônico da reportagem do The Observer diz "Stay calm everyone, there's Prozac in the drinking water" [Fiquem todos calmos, há Prozac na água potável].
It should make us happy, but environmentalists are deeply alarmed: Prozac, the anti-depression drug, is being taken in such large quantities that it can now be found in Britain's drinking water.
Environmentalists are calling for an urgent investigation into the revelations, describing the build-up of the antidepressant as 'hidden mass medication'. The Environment Agency has revealed that Prozac is building up both in river systems and groundwater used for drinking supplies.
Por que será que tantos de nós recorrem a drogas lícitas e ilícitas?
A sociedade pós-industrial tem características interessantes, acompanhando a evolução tecnológica para diminuir cada vez mais o esforço físico dispendido na produção de bens (reservando-o aos cidadãos de segunda categoria, conforme bem salientou o Allan Robert em seu último post na Carta da Itália.)
Por outro lado, a indústria química (aí incluída a indústria farmacêutica) desenvolve produtos mais sofisticados e eficientes, numa promessa de felicidade plena, ausência de conflitos e de dor. "Prazeres imediatos" (imediato significa "sem mediação" do esforço, do trabalho, da busca, da espera, etc.) são o objetivo de tanto recurso às drogas (legais e ilegais). Eles proporcionam, imediatamente, a sensação de prazer, euforia ou desligamento do mundo - além de cortar as dores, físicas e espirituais: vide o aumento do consumo dos antidepressivos e ansiolíticos, maconha, extasy...).
Na esfera sexual, a facilidade para se terem relações sexuais -sem mediatização da côrte, da amizade, do namoro- faz com que as aproximações pessoais fiquem mais difíceis, paradoxalmente. A internet com sua oferta de "sexo-virtual" dá a ilusão tanto a homens e mulheres, principalmente jovens, de que gozar é ato puramente mecânico, basta o estímulo certo. "Dá trabalho chegar numa menina, convencê-la a ficar e, ainda por cima, corro o risco de receber um não", lamenta um jovem cliente.
Tenho observado aumento incrível de pacientes que já entram em meu consultório de Psiquiatria e Psicanálise com o explícito pedido: "Dr., quero que o senhor me receite aquele remédio que dá felicidade, o Prozac"!
É preciso relembrar aquelas palavras com que o velho Sigmund Freud, já em 1929, iniciava seu delicioso texto O mal estar na civilização:
O trabalho psicanalítico nos mostrou que as frustrações da vida sexual são precisamente aquelas que as pessoas conhecidas como neuróticas não podem tolerar. O neurótico cria, em seus sintomas, satisfações substitutivas para si, e estas ou lhe causam sofrimento em si próprias, ou se lhe tornam fontes de sofrimento pela criação de dificuldades em seus relacionamentos com o meio ambiente e a sociedade a que pertence. Esse último fato é fácil de compreender; o primeiro nos apresenta um novo problema. A civilização, porém, exige outros sacrifícios, além do da satisfação sexual.
Freud salienta que a felicidade completa, a ausência de sofrimento, de conflitos, de dores, de aborrecimentos e de sacrifícios é utopia legítima buscada por nós, humanos. Existem, entretanto, obstáculos intransponíveis: a fragilidade do corpo (dores, doenças, envelhecimento e Morte!), as incontroláveis forças da natureza (maremotos, terremotos, vulcões, furacões, enchentes, raios, etc.) e a pulsão agressiva, que habita cada um de nós.
Será que a solução está em beber a água-com-prozac da Inglaterra ou uma boa caninha?

08 agosto, 2004

Olha o trem!

No Dia dos Pais, nada como uma lembrança de algo que compartilhamos juntos, meu PAI e eu:
Nasci no interior de Minas, numa pequena cidade chamada Nova Era.
O trem-de-ferro compõe o cenário mágico das viagens (reais e imaginárias) de grande parte da minha infância, pois era a melhor maneira de visitar tios e primos. Alguns viviam ferrovia abaixo (CVRD), em Coronel Fabriciano. Outros, ferrovia acima (EFCB), em João Monlevade. De N.Era a Belo Horizonte eram 07 horas de viagem!
Duas lembranças fortes:
Primeira: a chegada do trem na estação: "Olha o trem!", berravam todos, diante daquele monstro de ferro, apitando e silvando os freios. Correria para pegar o melhor assento: "Eu na janela, eu na janela!" O apito do chefe-da-estação anunciava a partida e lá íamos, alvoroçados, deixando para trás a plataforma apinhada, os acenos de despedida e um frio enorme na barriga: uma aventura!
Segunda: o vendedor de comidas, cambaleando com o sacolejar incessante do trem, a oferecer sanduíches de "salame" com guaraná e maçãs enroladinhas naquele papel de seda azul claro. Como cheiravam! Raramente tínhamos maçãs em casa, portanto era uma festa só. Ah! e os biscoitos de polvilho? E o chacoalhar dos vagões? E os apitos que anunciavam ponte ou túnel?
Minha primeira grande saída de casa foi quando fui estudar no Colégio do Caraça: meu pai e eu, no trem, no tempo remoto de meus 11 anos... A cidade ficava lentamente para trás, o casario rareava e os campos se sucediam. O comboio sempre margeando o Rio Piracicaba ou outro qualquer. Os postes de telégrafo surgiam a tempo certo, com os fios fazendo uma enorme barriga, até novo poste, e outro, e mais outro, infinitamente.
Mais tarde, uma emoção estética: assisti à estréia do ballet "O último trem", com o grupo Corpo. Música de Milton Nascimento! Revivi tudo:
O tac-tatac das rodas de ferro marcava as emendas dos trilhos e servia de improvisado metrônomo para canções murmuradas a sós.
Meu pai trabalhava nos Correios e, ocasionalmente, conduzia as malas num compartimento especial, chamado Carro-Correio, no qual me levava, vez por outra - eu não teria de pagar passagem! Era mister certo cuidado, entretanto: "O chefe-de-trem não pode vê-lo!". Uma aventura|: eu e meu pai, meu pai e eu, contando as estações, descobrindo árvores, horizontes, rios e - sublime momento - cachoeiras! "Olha uma ali!", gritava quem via primeiro.
A volta para casa era plena de casos e, sempre, com uma preciosidade: maçãs para os meninos!

07 agosto, 2004

Da vicissitude à ventura

Desde 26jul não faço um post! Preguiça? Falta de inspiração? Nada disso: Pior! Simplesmente, fui parar no hospital Biocor, com uma cólica fdp, que pensava ser uma gastrite ou "ar preso" (se é que isso existe). Pesquisa daqui, revira dali, ultrasom, ressonância magnética, endoscopia, exames laboratoriais... internação hospitalar compulsória "para normalizar o fígado". Duas pedras (cálculos) habitavam e cresciam dentro de minha humilde vesícula biliar. Ah! tava explicado! Vamos para a cirurgia com o Dr. Júlio César, vulgo Julinho Sepultura (!) que seria ex-guitarrista do Sepultura, em seus primórdios, aqui em Belorizonte (década de 80). [Verdade? Mentira? Enviei um e-mail para a Banda perguntando isso.]
Pois bem, as danadas das pedras, especialistas em fazer-me doer todo, aumentar as transaminases e ficar hospitalizado por 10 (dez) longos dias, foram retiradas através de uma videolaparoscopia, sob anestesia geral e tudo!
Além do carinho da enfermagem, do cuidado especialíssimo dos médicos: Dr. Hélcio(meu "salvador da Pátria", mesmo!, Dra. Michele (sorrisos, sorrisos, sorrisos), Dr. Alexandre, Dr. Júlio, Dra. Adriana (endoscopia), outra Dra. Adriana (gastroenterologista), Dr. Leandro, Dr. Eduardo e Dr. Ronaldo, tive a felicidade da presença física e espiritual dos amigos Luciana(+ seu pai) e Cuca, Goretti e Cândido, JM Maciel e Cida, Sérgio e Adriane, Telma e Pimenta, Mariza, Beth Teixeira, Júlia, Maria Inês, Ione, Andreína, Ronaldo, Israel, D.Aparecida, Regina, Mary (a sogra de minha filha)...
Ah! Ana me lembrou e acrescento aqui a visita pessoal do colega dela, Thiago Zanini, pós-graduando em Paris, pasando férias aqui em Beagá e blogueiro. Alguns clientes, cujas consultas tive que desmarcar, telefonaram.
Do lado familiar, então, nem se fala: meus pais, Soié e Aparecida (presentes no dia da cirurgia) tia Zizina, tia Irani, "Tia" Zilah (visitou e levou rosquinhas!), meus irmãos (Clóvis com a esposa Consola estiveram no Biocor), Cléver, Ismael, Sheilinha (esteve lá, também), Ilídio, Jaques, Nélio e Boni (este último,presente no apartamento 757, de surpresa, após o ato cirúrgico). Rosa Ormy e Vicente, Gusmão (o sogrão), Gusmeire, Clarice... Quem não ficou sabendo estava igualmente do meu lado, tenho certeza!
Que segurança e emoção com a presença constante dos filhos Ana Letícia -assessora para assuntos gerais!- e o namorado Daniel (que veio de Macaé-RJ!) Ângelo e Leonardo, companheiros amorosos, conversando, vendo TV, lendo jornal, animando, brincando, acarinhando e "dormindo" comigo no hospital!
Finalmente, quem seria eu sem minha fada, minha deusa, minha
mulher de verdade!: Amélia! Companheira fiel, amiga, amada, amante, tudo tudo tudo: Lá estava Amélia: até se deitando no leito comigo, me dando calor, fazendo massagens, providenciando roupa, sabonete, barbeador... coisas tão triviais e tão importantes: sinal de vida, esperança, Amor!
Por tudo isso, digo, sem nenhuma dúvida: sou FELIZ!

26 julho, 2004

Querer não é desejar

Muita gente se expressa assim, quando algo não vai bem:"Queria tanto que tal acontecesse...". Nessas horas, cabe a pergunta: -"Queria mesmo?" Ou como aquele bordão antigo, num homorístico em que Jô Soares exclamava, irônico: -"Querias!". Quantos de nós respondemos a um convite, com a indefectível fórmula: -"Gostaria muito de ir.". Quando usamos a esfarrapada desculpa do "ah! esquecí-me!, nosso interlocutor nos olha com ar de desprezo ou ironia, como se dissesse: -"Arranja outra desculpa, ô meu!
Parece que sabemos, mesmo sem teoria alguma, que há uma diferença enorme entre DESEJAR e QUERER. O "querer" é algo consciente, dito abertamente ou não. Quero isso e não quero aquilo. O "desejar" mora em outro cenário, bem mais embaixo, lá no "porão" do inconsciente, e nem sempre é tão acessível. Pode até acontecer de a gente "querer" o que não se deseja e "desejar" algo que, conscientemente, negamos. Tratam-se de desejos inconfessáveis, socialmente incorretos, o dos quais nos envergonhamos.
Mas esse desejo é poderoso, tanto assim que, sem mais nem menos, cometemos um "ato falho": um esquecimento, um gesto, uma fala que nos traem, desnudando o que estava escondido (muitas vezes escondido até de nós mesmos).
Freud, o criador da Psicanálise, escreveu um livro sobre isso: Psicopatologia da Vida Cotidiana. Nessa obra, de linguagem elegante e acessível, ele ensina que o pensamento aparentemente mais sem sentido, o lapso mais casual, o sonho mais fantástico possuem um significado que pode servir para desvendar os segredos da mente. (Você não vai se arrepender de ler.)
O sofrimento de cada um se constitui, no fundo, no fundo, num conflito entre o "querer" e o "desejar", muitas vezes incompatíveis. A gente acaba aprendendo que vai ser necessário fazer algumas concessões, tanto de um lado quanto de outro, e que o fato de não se poder ter tudo não é o fim do mundo. Aliás, o "desejo" nunca se realiza completamente, estando o "objeto desejado" escorregando sempre para um mais além, o que, graçasadeus, sustenta o próprio desejo.
Nós não somos donos do nosso desejo, mas somos responsáveis por eles. Como nem sempre se coadunam "desejo" e "querer" mais os "laços sociais" que se tramam ou se desfazem de acordo com a cultura, ficamos por aí, "peregrinando neste vale de lágrimas" que é a nossa vida, pontuada de momentos felizes.... Agora, tem uma coisa: quase sempre, para não dizer sempre, somos presenteados de acordo com nosso empenho. Sem esforço, nada feito.

22 julho, 2004

Gênio incompreendido, idiota sábio ou "louco varrido"?

O psiquiatra Márcio Candiani, a propósito do meu post "Uvas Verdes, fez o seguinte comentário:

Cláudio... atendi hoje a um paciente no Cersam Noroeste que se acha um gênio incompreendido... mas ele é... fez medicina por 2 anos... engenharia e largou.. por um surto psicótico... Era epiléptico e apresenta um transtorno delirante agora. Mora no interior e veio pra BH tratar de uma depressão. Cara inteligentíssimo, com um QI certamente muito elevado. Como há gênios incompreendidos... a professora de Einstein dizia que ele era um idiota... parecia uma pessoa com dificuldade de atenção (ou autista de alto funcionamento?) com capacidade genial para cálculos... como você já leu nos livros de psiquiatria da infância...
 
Márcio, o tal paciente se julga um gênio incompreendido? Acho que o juízo (ou a falta de) do próprio sujeito é que o faz se identificar como "gênio incompreendido". Talvez ele seja um gênio "incompetente". Há inteligências brilhantes (vide os filmes "Shine" e "Uma mente brilhante") que não têm um suporte afetivo, relacional e comunicativo adequado. Se a pessoa, por ser psicótica, não consegue estabelecer laços sociais (o psicanalista diria: não entra no mundo do simbólico), ela terá muita dificuldade em alcançar algum reconhecimento. Aliás, o povo costuma dizer que "todo gênio é um louco". Será que isso procede?
Às vezes, a gente escuta isso: -"Cuidado, não estude tanto que você vai ficar doido." Ou: -"Fulano estudou tanto que pirou!"
Há casos interessantes de idiotas sábios, como o personagen de Tom Hanks em Forrest Gump ou o "autista" (Dustin Hoffman) de Rain Man. A Psiquiatria tem um diagnóstico para estes casos, a Síndrome de Asperger, aplicado aos portadores de um tipo de transtorno grave do desenvolvimento. Tais indivíduos, mesmo apresentando lacunas importantes na área afetiva e relacional, demonstram inteligência altamente desenvolvida para campos restritos do conhecimento. Sua linguagem costuma ser típica, com maneirismo verbais, rebuscamentos e utilização de vocabulário muito elaborado para a idade cronológica.   Alguns destes "idiotas sábios" (idiot-savant) decoram listas telefônicas, roteiros aéreos ou minúcias de paisagens, fazem cálculos matemáticos complicadíssimos em segundos, etc. Entretanto, seu relacionamento afetivo-social é muito comprometido. Será que se tornarão "gênios incompreendidos" ou "loucos varridos"?
Voltando ao tema do post "Uvas Verdes", o que o Alexandre Cruz Almeida criticava eram os inteligentes, bem dotados, não psicóticos nem idiotas sábios, mas que não venciam na vida por falta de esforço, preguiça, adiamentos sucessivos de tomadas de posição, protelações, procrastinações, etc. Em um determinado momento da vida, lá vêm eles com aquela ladainha: "Se me tivessem dado uma chance..." ... "Se aquele chefe não me tivesse dispensado...", etc. Aí, meu, o Alexandre termina assim: "O gênio incompreendido é péssima companhia." Eu digo: "Um saco!"

21 julho, 2004

Observatório da Imprensa publica PrasCabeças!

Achei mais do que bom o Observatório da Imprensa publicar meu post acerca da manchete obscura do Jornal Estado de Minas, em 16/7/04. Na verdade, enviei uma carta ao jornal mineiro, que não se dignou a responder nem a publicar. Pois o "Observatório" acolheu minha manifestação, que você pode ler aqui ou aqui.

Rosto de Gelo

Não sei quem é Roberta Wollen, mas tropecei com este poema e... gostei!
Não sei se é por causa de meu nariz gelado neste inverno siberiano que se abateu sobre Belo Horizonte ou porque conheço gente assim, "frio, calculista, rosto impassível" a esconder sentimentos.

Congelei meu rosto
para suportar o frio
que vem de fora de mim.
Fiz uma máscara risonha,
modelada com a dor
de disfarçar meus sentimentos.

E as pessoas me aceitaram,
apreciando o ruge e o batom,
a coloração do rímel nos meus olhos
cujo brilho sugere a umidade
de um pranto a querer-se insinuar.

Aceitaram até a palidez
que não pude esconder,
as rugas tensas da testa,
a escuridão do olhar.

E atrás do riso estridente
que irrompe alto e banal,
preso em represa
de estática energia,
debatem-se lágrimas revoltas
de uma revolta impossível,
formando uma barreira que
- até quando? -
me impede de sair deste lugar.

E essas lágrimas apagam a fogueira
que me incendeia o coração por dentro,
para que não derreta o gelo
tão duramente esculpido,
o gelo do meu rosto
que é como o mundo quer...

[Poema de Roberta Wollen]

20 julho, 2004

Rumo ao interior

Tenho lido no Caneta de Saia, blog do Carrazzoni(SP), sua opinião acerca de São Paulo, cidade em que mora. Entre outras causas das mazelas da grande metrópole, Carrazzoni, acertadamente, aponta o inchaço populacional, com o aporte incessante de migrantes, desde o final da década de 40, durante o processo de industrialização. Firmou-se em nossa cultura um preconceito contra o interior do Brasil, e das pessoas "da capital" contra o "interior".
Acho que isso nasceu na época do famigerado "Jeca Tatu", dos "caipiras"... Monteiro Lobato, o que escreveu o livro "Jeca Tatu", acabou se retratando acerca de sua descrição pejorativa do homem da terra, agricultor, em que apontava a "lerdeza" e a "preguiça", a fala arrastada, o raciocínio primário, a inércia que deixava o mato crescer ao invés de plantar para colher e comer. Alertado por  médicos sanitaristas, atentou para o fato de que os "jecas" eram assim por causa da subnutrição, dos maltratos pelos senhores das terras e pelas precaríssimas condições de vida. Lobato abriu a própria cabeça e  se transformou num defensor do "verdadeiro" Brasil, denunciando a expropriação dos pobres. Defendeu o "petróleo é nosso" e valorizou a "esperteza e sabedoria" do povo simples. Foi até preso pela polícia política do Getúlio.
Engraçado que, em Brasília, fala-se mal do "interior": por exemplo, quando alguém faz algo errado no trânsito, dizem: "Ô goiano!" O brasiliense, que mora no mais profundo interior do Brasil, bem no meio do cerrado, não se acha "do interior".
Aqui em Belo Horizonte, diante da direção arriscada ou de um descuido qualquer no trânsito, logo alguém grita: "Ô baiano!".
O que é o interior? De onde vem essa expressão? É lógico que tudo começou já no descobrimento do Brasil, com a criação de vilas e arraiais no litoral. São Vicente, São Sebastião do Rio de Janeiro, Illhéus, Porto Seguro, Olinda... estes foram os sítios mais bem estruturados. Pouco a pouco, com as descobertas de riquezas (pau-brasil,cana-de-açucar, ouro, café) a população deslocou-se para as montanhas, os altiplanos, subindo o curso de grandes rios (São Francisco, Rio Doce) e abrindo trilhas ("Estrada Real", por exemplo, de Paraty-RJ a Diamantina).
Mais recentemente, com a expansão da fronteira agrícola e agroindústria, implementação de parques industriais, mineração e metalurgia e, por último, incremento do turismo rural, nosso interior tem alcançado nível de qualidade de vida surpreendente, muito melhor do que nas degradadas metrópoles.
A cultura circula rapidamente através da TV, Rádio, estradas (ainda esburacadas... mas isto é outra história) e internet.
 

17 julho, 2004

"Uvas verdes"

Tenho visitado o blog do Alexandre Cruz Almeida, onde leio coisas bem interessantes. Ultimamente, ele tem comentado o fim de seu casamento. Fala abertamente das dificuldades enfrentadas e abre espaço para comentários dos leitores, muitos leitores. Alexandre fala de outros fracassos e do propósito de ser feliz, que não abandona. Selecionei uns pedacinhos de seu último post, muito pertinente e instigante:  
Os Uvas-Verdes e os Gênios Incompreendidos
O mundo é cheio de pessoas que escolheram não ser bem-sucedidas. Vocês devem conhecer alguém assim. Há o colega que tirou 5 na prova, mas tem certeza que teria tirado 10, se tivesse estudado - mas não quis. Há a dona-de-casa, com uma bela voz, que se tivesse seguido carreira hoje seria maior que a Maria Rita - mas preferiu criar 8 filhos no Grajaú. E por aí vai. São os uvas-verdes, pessoas blasé que nunca mergulham de cabeça em nada, que nunca se esforçam 100% para alcançar nenhum objetivo.
Assim, deixam sempre aberta a possibilidade de dizer: é, não consegui, mas a verdade é que nem tentei. Se tivesse tentado, teria conseguido, mas preferi minha vidinha.
Fracassos e Fracassos
Alguns de vocês sugerem que meu problema talvez seja não meu fracasso, mas meus objetivos. Não me considero um fracasso porque não sou rico, porque não sou bonito, porque não fui publicado, porque não vendi trolhões de livros, porque não tenho uma coluna no Globo, porque não ganho R$15.000 por mês, nada disso - apesar de serem todas coisas que eu gostaria muito. Me considero um fracasso por ter fracassado em alcançar dois objetivos relativamente simples: manter minha empresa e manter meu casamento.
Como não sou uva-verde, não posso nem me consolar dizendo que teria conseguido se tivesse me esforçado mais. Não. Eu dei 100%, me esforcei ao máximo, usei todos os truques. E, ainda assim, falhei. Por isso, estou me sentindo fracassado. Meu "fracasso" em alcançar objetivos não-importantes (nunca fui campeão de surfe) ou até mesmo objetivos importantes, mas para os quais eu não me esforcei (ter coluna no Globo), é absolutamente irrelevante.
O Gênio Incompreendido
O mundo também é cheio de gênios incompreendidos. Vocês devem conhecer alguns. Por definição, o gênio incompreendido tem mais de 30-35 anos. É fácil perceber porquê. Quando o cara tem menos de 30, ele ainda não se acha incompreendido: só gênio. Ele é gênio, sabe que é gênio, sua genialidade só ainda não estourou porque ele é muito novo, ainda é cedo, o mundo ainda vai ouvir falar muito dele. O sujeito apenas se torna um gênio incompreendido com o passar do tempo, a medida em que nada acontece, ele não estoura, o mundo não ouve falar nele. Então, ao invés de reconhecer que ele não é gênio coisa nenhuma, o indivíduo conclui que o mundo não o compreendeu, que o mundo não o merece, que ele está a frente de seu tempo.
Na verdade, não acho que esse é um modo intrinsicamente errado de se encarar a situação. Por um lado, há a real possibilidade de ele ser mesmo um gênio que o mundo não percebeu - Bach, Kafka, etc. Por outro, acredito mais em felicidade do que na verdade: de que lhe adianta encarar uma verdade - sua total incompetência - que só vai lhe trazer tristeza? Melhor ser feliz na crença de sua genialidade não-compreendida.
Infelizmente, raros são os gênios incompreendidos felizes: quase todos chafurdam na amargura e na inveja com a mesma sofreguidão com que porcos chafurdam na lama.
Pior que fracassado, o gênio incompreendido é um amargurado. O erro foi do mundo, não dele. E como o mundo é um adversário grande demais, o tipo de amargura do gênio fracassado leva à imobilidade e ao rancor. Para que lutar, se o mundo está contra mim? Para que produzir, se o mundo é incapaz de entender minha mensagem? Melhor ficar pelos bares, bebendo cerveja e destilando veneno contra o establishment cultural. A princípio, alguns são até fascinantes, mas é ilusão. O gênio incompreendido é péssima companhia.
Eu gostei muito disso tudo aí de cima. E você?

16 julho, 2004

What is this?

Embora embebido pelo temor de ser tachado de xenófobo, anglófobo, purista ou ranzinza, não posso deixar de opinar acerca da manchete de hoje (16.jul.2004) de alguns jornais brasileiros, dentre os quais o Estado de Minas: "Ranking da ONU vira briga entre Lula e FHC". A utilização de termos estrangeiros é um recurso legítimo em toda e qualquer língua, uma vez que há palavras intraduzíveis ou tão conhecidas que vão sendo assimiladas e enriquecem o vocabulário. Certas traduções, é verdade, forçam a barra, tal como os lusitanos fazem com termos da computação: empregam rato ao invés de mouse, por exemplo. Outros povos igualmente se utilizam de termos portugueses (ou brasileiros), quando não há equivalente ou para transmitir o espírito próprio original. Pois bem, a manchete (do francês, manchette, que pode significar título de notícia, notícia principal e modalidade de receber a bola, no voleibol) traz a palavra ranking (do inglês, rank = fila, fileira, classe. Daí: ranking: classificação, placar, etc.). Minha implicância (má vontade; quizila, embirração, birra) vem da suposição de que uma importante notícia deveria ser transmitida  claramente, inteligível à maior parte dos prováveis leitores. O tal Índice de Desenvolvimento Humano, fator da suposta discórdia entre assessores - e não entre o atual Presidente com seu antecessor - restou obscurecido. Creio que muitos alfabetizados passaram os olhos rapidamente sobre o sujeito da oração (ranking) e foram logo atraídos para o complemento (briga entre Lula e FHC). Se essa foi a intenção do Editor, sobrou-lhe sutileza, pois pode ser mais interessante discutir as brigas entre poderosos que levar os leitores a se concientizarem do baixíssimo nível de desenvolvimento e suas causas. Caso contrário, acho que foi um anglicismo desnecessário.

14 julho, 2004

O melhor e o pior daqui

Várias pessoas vivem falando em sair do país, mudar de cidade, ir para o interior. Elogiam cidades distantes; ou, ao contrário, as comparam com Belo Horizonte e dizem que aqui é muito melhor. Sem pensar muito, deixando virem as imagens, aqui vai minha lista.
Adoro:
1.O clima
2.Praça JK
3.Mercado Central
4.Pampulha – Mineirão e Museu de Arte
5.Palácio das Artes
6.O horizonte, as montanhas, a vista do alto
7.Barzinhos e Restaurantes mil
8.Comida: Pão-de-queijo; feijão-tropeiro
9.Café-do-Museu
10.Livraria Status
Detesto:
1.A desigualdade social, com suas conseqüências óbvias
2.Flanelinhas (“guardadores” de carros)
3.Pedintes, panfleteiros e malabaristas em toda esquina
4.Pixações
5.Briga de torcida (Galo x Cruzeiro)
6.Descaso com as calçadas, principalmente nos bairros
7.Feiúra de tudo que não é bem cuidado
8.Abundância de esquinas e conseqüente abundância de semáforos
9.A construção de metrô mais lenta do mundo
10.Os fiscais do BHTrans, multando, multando, multando
É acabar de fazer as listas e logo aparecem mais 20 coisas que adoro e que detesto.... Fica pra outra.

13 julho, 2004

Pão, o vilão

Segundo a Revista Americana de Nutrição Clínica, American Journal of Clinical Nutrition, o pão-de-forma branco é um dos fatores principais para o aumento da barriga daqueles que o consomem. A notícia publicada pela BBC informa que "os pesquisadores avaliaram cinco diferentes estilos de dieta, cada uma delas tendo um tipo de comida como principal alimento. Participaram do teste 459 homens e mulheres em bom estado de saúde.
De todos eles, aqueles que tiveram a dieta à base de pão de forma branco foram os que ganharam mais circunferência na linha da cintura.
Em um ano, tiveram um aumento médio de um centímetro na medida da cintura, três vezes mais do que o registrado pelos que tiveram uma dieta mais saudável à base de comidas integrais e pão preto."

É lógico que "não só de pão vive o homem", mas todos sabemos que comer alimentos ricos em carbo-hidratos (massas, doces, pães, bebidas alcoólicas) e gorduras (queijo gordo, carnes gordas, etc) é o caminho mais curto entre uma cintura fina e uma pança rotunda.
O pior é o trabalho que dá "perder" barriga! Além da reeducação alimentar, haja caminhadas, corridas, musculação, abdominais, plásticas e um milagrezinho do santo padroeiro.

12 julho, 2004

O sermão de Bill Gates - será?

Conta a lenda, com o título: Bill Gates authored a list of 'Rules Kids Won't Learn in School.' que o dono da Microsoft teria sido convidado a falar sobre o sucesso e de quais seriam as regras para vencer na vida. Gates teria formulado as seguintes regras:
O que as crianças não aprendem na escola
Segundo Bill Gates :
1 : A vida não é fácil, acostume-se com isso.
2 : O mundo não está preocupado com a sua auto-estima. O mundo espera que você faça alguma coisa útil por ele ANTES de você sentir-se bem com você mesmo.
3 : Você não ganhará US$ 40.000 por ano assim que sair da escola. Você não será vice-presidente de uma empresa com carro e telefone à disposição antes que você tenha conseguido comprar seu próprio carro e telefone.
4 : Se você acha seu professor rude e chato, espere até ter um chefe. Ele não terá pena de você em nenhuma circunstância. Você será cobrado o tempo todo.
5 : Fritar hambúrgueres, cortar grama ou lavar carros não está abaixo da sua posição social. Seus avós têm uma palavra diferente para isso: eles chamam de "oportunidade".
6 : Se você fracassar, não é culpa de seus pais, então não lamente seus erros, aprenda com eles.
7 : Antes de você nascer seus pais não eram tão chatos como são agora. Eles só ficaram assim por pagar as suas contas, levar você à escola, lavar suas roupas, fazer comida para você e ter que ouvir você falar o quanto você é legal.
Então, antes de salvar o planeta para a próxima geração, querendo consertar os erros da geração dos seus pais, tente limpar seu próprio quarto, lavar seus talheres e ser mais amável com sua mãe.
8 : Sua escola pode ter eliminado a distinção entre vencedores e perdedores por imposição da Associação de Pais, Alunos e Mestres, a vida não é assim, ela sempre fará esta distinção.
Em algumas escolas não se repete mais o ano letivo , e o aluno tem quantas chances precisar até acertar. Isto não se parece absolutamente em nada com a vida real.
A vida não é dividida em semestres. Você não terá sempre os verões livres e é pouco provável que outros empregados o ajudem a cumprir suas tarefas no fim de cada período.
09 : Televisão não é vida real. Na vida real, as pessoas têm que deixar o barzinho ou o clube e ir trabalhar.
10: Seja legal com os " Nerds": Existe uma grande probabilidade de você vir a trabalhar para um deles.
Sejam ou não do Bill Gates, essas palavras parecem conter alguns corolários lógicos, ou não?
Obs.: Crédito deste post:
Físico Cínico. Mais detalhes sobre o assunto em:Urban Legends.

10 julho, 2004

ExpoCachaça: alto astral

Realiza-se neste final de semana a 7a. ExpoCachaça, feira anual de produtores de cachaça, pinga, água-que-passarim-não-bebe, caninha, "da boa", e outros mil sinônimos, como nos ensina o sábio Aurélio:
Cachaça: Aguardente que se obtém mediante a fermentação e destilação do melaço. [Sinonímia: abre, abrideira, aca, aço, a-do-ó, água-benta, água-bruta, água-de-briga, água-de-cana, água-que-gato-não-bebe, água-que-passarinho-não-bebe, aguardente, aguardente de cana, aguarrás, águas-de-setembro, alpista, aninha, arrebenta-peito, assovio-de-cobra, azougue, azuladinha, azulzinha, bagaceira, baronesa, bicha, bico, birita, boa, borbulhante, boresca, branca, branquinha, brasa, brasileira, caiana, calibrina, cambraia, cana, cândida, canguara, canha, caninha, canjebrina, canjica, capote-de-pobre, catuta, caxaramba, caxiri, caxirim, cobreira, corta-bainha, cotréia, cumbe, cumulaia, danada, delas-frias, dengosa, desmancha-samba, dindinha, dona-branca, ela, elixir, engasga-gato, espírito, esquenta-por-dentro, filha-de-senhor-de-engenho, fruta, gás, girgolina, goró, gororoba, gramática, guampa, homeopatia, imaculada, já-começa, januária, jeribita ou jurubita, jinjibirra, junça, jura, legume, limpa, lindinha, lisa, maçangana, malunga, malvada, mamãe-de-aluana ou mamãe-de-aruana, mamãe-de-luana, mamãe-de-luanda, mamãe-sacode, mandureba ou mundureba, marafo, maria-branca, mata-bicho, meu-consolo, minduba, miscorete, moça-branca, monjopina, montuava, morrão, morretiana, não-sei-quê, óleo, orotanje, otim, panete, parati, patrícia, perigosa, pevide, pilóia, pinga, piribita, prego, porongo, pura, purinha, quebra-goela, quebra-munheca, rama, remédio, restilo, retrós, roxo-forte, samba, sete-virtudes, sinhaninha, sinhazinha, sipia, siúba, sumo-da-cana, suor-de-alambique, supupara, tafiá, teimosa, terebintina, tira-teima, tiúba, tome-juízo, três-martelos, uca, veneno, xinapre, zuninga.]Pois estamos chegando de lá, quase tontos, eu, Amélia, AnaLetícia e Daniel. Passamos 4 horas peregrinando de stand em stand e provando da quebra-guela, prá não fazer desfeita com os expositores. Gente da boa, atenciosa, animada, alegre, risonha e franca. Êta povo bão, sô! Prá começar, um desfile com a Russo Jazz Band:
. Prova daqui, prova dali, a gente vai conhecendo gente boa. A Daniela, debutando com sua Prosa&Viola foi logo nos presenteando com uma garrafa da boa:
. Outra purinha que a gente provou -e adorou!- foi a Rainha das Gerais, produzida em Curvelo, portão do sertão mineiro, terra do casal de "cachaçólogos", José Carlos & Maria das Graças, que virou os olhinhos abraçando o filho:
. A feira é uma festa que ninguém pode perder! Foi montada na Serraria Souza Pinto, um velho galpão construído nos primórdios da capital mineira, totalmente remodelado para eventos de alto nível. Tão alto, que não resisti e fiz pose com a dupla Lula&Palocci. Prá não dizer que é conversa de bêbado, aqui está a foto: