Basta pensar em sentir Para sentir em pensar. Meu coração faz sorrir Meu coração a chorar. Depois de parar de andar, Depois de ficar e ir, Hei de ser quem vai chegar Para ser quem quer partir. Viver é não conseguir. Fernando Pessoa, 14-6-1932
14 outubro, 2004
Inveja mata!
07 outubro, 2004
Oropa França e Bahia
Dou-te xale de Tonquim!
Dou-te uma saia bordada!
Dou-te leques de marfim!
Queijos da Serra Estrela,
perfumes de benjoim...
Nada.
A mulata só queria
que seu Manuel lhe desse
uma nauzinha daquelas,
inda a mais pichititinha,
prá ela ir ver essas terras
"De Oropa, França e Bahia"...
(...)
Maria atirou-se n´água,
Seu Manuel seguiu atrás...
— Quero a mais pichititinha!
(...)
— As eternas naus do Sonho,
de "Oropa, França e Bahia"...
Pois é, alguém sugere um programa "imperdível", que não seja prá enganar turista trouxa? Dizem que 'mineiro compra até o Pão de Açucar' mas acho que já estamos vacinados... Podemos comprar acarajé? Podemos ver Olodum? Prometemos publicar algumas fotos, contar alguns "causos", não deixar este blog morrer...
[Saiba mais do Ascenso Ferreira no Guia de Poesias do espetacular Luiz Alberto Machado!]
30 setembro, 2004
Felicidade Total!
"Designers japoneses inventaram o que está sendo considerado por muitos
O travesseiro é o parceiro ideal porque ele não ronca, não puxa as cobertas
Cada travesseiro vem com duas capas em rosa e azul,
Além de tudo, o travesseiro-namorado funciona como um relógio despertador,
Um porta-voz do fabricante afirma que o travesseiro tem sido um sucesso absoluto de vendas,
"-Mulheres de todas as idades estão fazendo fila no quarteirão para levar um destes", disse.
O travesseiro pesa 20 quilos e está disponível apenas no Japão.
Eis o paradigma da comtemporaneidade: o imperativo do prazer [drogas], o gozo garantido ["viagras"], o sexo perfeito [técnicas performáticas], a vida como espetáculo [reality show], a pílula dourada [aparência, semblant]. No final, será que a felicidade está ali onde se promete encontrá-la?
Imagine um kinder ovo sem a surpresinha dentro! O fato de se ter um travesseiro que te abraça ou um gadget no telefone celular para ser cuidado pode ser um produto qualquer. A questão é a promessa contida na embalagem, impossível de ser cumprida. O marketing quer nos atingir nas mais profundas necessidades: afeto, emoção, laço social, medo do abandono... Daí a utilização da palavra mágica, namorado(a).("Mágica" porque atinge o desejo humano mais inconsciente: desejo de SER AMADO!: A surpresinha - faltante - dentro da embalagem! O kinder ovo está, irremediavelmente, oco!
Adoramos ser enganados, ávidos de felicidade completa, fazendo semblant de que tudo vai bem, a correr atarantados em busca do elixir da felicidade. Somos inseridos (ou coagidos) a cair no maior conto-do-vigário de todos os tempos: -"Compre, nós temos a solução para todas as suas carências".
Já não importa o que somos, sob o império do Deus Mercado. Não é necessário esforço, não é necessário trabalhar suas dificuldades pessoais, seus conflitos, suas dúvidas. Não é necessário aperfeiçoar-se, crescer como ser humano. Não, não! Basta ter dinheiro, money, tutu, la plata. Seja um consumidor e seja feliz!
28 setembro, 2004
Poema minúsculo
O sol está quente, quente:
Com razão duvida o padeiro
se a vida se torna um inferno
ou um forno mal regulado.
22 setembro, 2004
Na morada dos índios
Com essa pergunta, assim começa a reportagem publicada hoje no Estado de Minas, acerca de Andréia Duarte, mineira de 24 anos. A mocinha está morando, há 4 anos, com os índios tupis-guaranis, no coração do Brasil, numa aldeia próxima de Água Boa-MT.
Lembrei-me imediatamente de uma reportagem do Jornal do Brasil, na qual se afirmava que ela estaria apaixonada pelo cacique Kotoki, o que a teria arrastado para fora da "civilização". A fantasiosa história já a colocava como a quarta esposa do cacique!
Hoje, Andréia explica: "Não sou índia, não quero me tornar índia. Respeito aquele povo. Não vivemos (os brancos) como se soubéssemos que um dia vamos morrer. Estamos numa época em que as pessoas se prendem ao corpo, à estética, ao dinheiro. Você até ouve falar sobre as camadas pobres da população, mas ninguém faz nada por elas. Quero ter atitude, mesmo que seja ali, numa tribo de 300 pessoas. Esta é a minha fé. É uma luta por uma causa, não um romance. Eu, ele (Kotoki) e o pai dele conversamos sobre o assunto (boatos do casamento), achamos uma pena que, com tanta coisa importante para ser dita sobre os povos indígenas, as pessoas queiram falar sobre isso."
Escolheu a aldeia porque era a única que não possuía escola. Criou uma.
Isso serve prás cabeças, pensei: Não sei quem aprende mais, se os curumins [etim. tupi kunu'mi ou kuru'mi = 'menino, rapaz novo ou jovem'] ou ela mesma - e através dela, nós aqui, ditos civilizados.
Alguns exemplos citados pela Andréia:
- Cultura: "costumo dizer que os kamayura são índios aristocratas. Eles não se assentam encurvados, não falam alto, não têm discussões entre si. Não são preguiçosos, chegam a ficar 6 meses construindo uma casa, pescam diariamente e plantam tudo que comem."
- Sexo e casamento: "Os homens têm a função de construir a casa, plantar a roça. As mulheres colhem e buscam a água. Eles assam o peixe e elas fazem o polvilho. Tudo é muito organizado. Eles podem se casar com quantas mulheres quiserem e, muitas vezes, o casamento acontece para que haja divisão do trabalho. Transam por prazer, adoram sexo. Acho que o brasileiro parece ter herdado isso do índio."
- Catarse coletiva: "Há um ritual em que as mulheres passam a noite xingando os homens. Já participei e adorei. Às vezes eles acham ruim, correm atrás das mulheres e jogam mingau na gente. Em outro ritual, eles dão o troco."
- Ciúme: "Existe sim, mas não se separam por isso; as mulheres também pulam a cerca. São todos parentes e decidem quem pode se ralacionar com quem".
O Cacique Kotoki tem defendido a preservação da natureza, sendo que a principal preocupação dos índios do Xingu é com o desabastecimento de água. “As fazendas de soja desmatam e poluem as águas dos rios com os agrotóxicos”, denunciou Kotoki, o cacique da aldeia Kamayurá.
E ainda tem gente que, ao se referir a alguma coisa ruim, diz: -"Programa de índio!".Eu cá me pergunto: será?
A mineirinha Andréia disse que vai se tornar antropóloga. Só a entrevista já valeu por uma aula, não é?
19 setembro, 2004
Qual o seu preço?
Um pastor português, 49 anos, comprou uma mulher por 2,5 mil euros + 15 cabras! Chama-se Diamantino Curtinhas, o tal pastor. O problema é que não recebeu a "mercadoria" conforme lhe prometeram os vendedores. Armou-se de uma carabina, pediu uma burra emprestada e foi à caça da moça de 22 anos, de nome Mariza Fernandes. Com o negócio feito no Carnaval, só há pouco tempo é que Diamantino Curtinhas encontrou a escolhida Marisa. O duo de negociantes lhe disseram que a "mercadoria" chamava-se Andreia e morava em Mesão Frio. O pastor, que já é casado e tem três filhos, foi reclamá-la de caçadeira em punho, barricando-se numa garagem em frente à habitação da jovem. Os vizinhos de Diamantino Curtinhas estão revoltados e indiganados com o engano de um "homem bom e pronto a ajudar" que apenas possui uma fraqueza: as mulheres.
Pois é, ao invés de querer justiça pelas próprias mãos (afinal ele "tinha direito", pois pagou e não levou), deveria ter ido ao PROCON - ou em Portugal não tem dessas coisas? Coitado do bom homem (assim pensam os vizinhos...).
Talvez este fato não seja lá tão espantoso, pois me recordo de uma amiga recém chegada do Marrocos. Contou-nos, quase orgulhosa, que seu marido recebera a proposta de trocá-la por duas garbosas camelas, mais alguns tapetes, de bônus...
Será que isso ocorre por aqui, também? Por quanto as pessoas estão se vendendo?
Nas eleições próximas, quantos eleitores se vendem (vendem sua ideologia, suas crenças, seu voto) a um candidato em troca de camiseta, um churrasco ou pela promessa de benefício qualquer, "caso eu seja eleito"?
E você, qual o seu preço?
Êta mundão, sô! Ah! você quer ler a notícia completa? Clique aqui.
15 setembro, 2004
Déficit de Atenção e Hiperatividade
É uma doença da moda? Não. Na verdade, as revistas semanais e os principais jornais, até mesmo a TV, têm feito reportagens sobre o assunto, provavelmente porque a indústria farmacêutica está lançando alguns medicamentos novos (ou em nova apresentação) para tratar os portadores de TDAH.
Essa constatação, no entanto, não invalida a preocupação dos educadores, psicólogos e psiquiatras com o transtorno, pois, segundo a Academia Americana de Medicina, o diagnóstico e tratamento deste quadro está muito bem estabelecido, com validade superior à de muitas doenças físicas:
- é a condição mórbida crônica de maior prevalência em crianças na idade escolar;
- é o distúrbio neurocomportamental mais comum na infância;
- cerca de 40% das crianças portadoras, não tratadas, evoluem para abuso de drogas, comportamentos antisociais e de risco, na adolescência;
- o transtorno persiste até a idade adulta, com sérias consequências.
O quadro clínico pode ser predominantemente de Desatenção, de Hiperatividade, de Impulsividade ou, ainda, um misto disso tudo. O diagnóstico é clínico, quer dizer, não depende de exames laboratoriais (sangue, eletroencefalograma, imagens).
Desatenção - os principais sintomais são estes:
- dificuldade a prestar atenção, descuidar das atividades escolares e profissionais, parece não escutar o que se lhe diz, não seguir instruções, não terminar tarefas escolares ou deveres profissionais, dificuldade em organizar tarefas e atividades, evitar envolver-se em atividades que requeiram esforço mental constante, perder coisas, distrair-se facilmente...
Hiperatividade - eis os principais sintomas:
- agitar as mãos, tamborilar frequentemente, mexer-se nas cadeiras, balançar pernas e pés, abandonar o assento em momentos inadequados, correr incessantemente quando não apropriado, dificuldade em se envolver silenciosamente em atividades de lazer, estar frequentemente a "mil", como se fosse movido por um motorzinho, falar demais...
Impulsividade - caracteriza-se por:
- frequentemente dar respostas precipitadas antes das perguntas serem concluídas, apresentar constante dificuldade em esperar a vez (em filas, por exemplo), interromper ou meter-se em assuntos de outros, irritar-se rapidamente quando algo não vai bem, não tolerar frustração, envolver-se em brigas, apresentar comportamentos opositivos com frequência...
Como se pode ver, uma criança, adolescente ou adulto com TDAH terá dificuldades nas áreas principais de sua vida: acadêmica, relacional e profissional.
Sobre este tema, já escrevi um post anterior. Fui mais objetivo neste atual, pois estou preparando um curso sobre o assunto, promovido pelo Ciclo-Ceap. Será no próximo sábado, dia 18, de 9h às 18h.
- Um ótimo site, em português, sobre o assunto, é o da ABDA.
07 setembro, 2004
Namorada virtual
A gente já fala de "amigo(a) virtual" e até de "sexo virtual", proporcionados pela internet. Creio que é uma força de expressão: na verdade, as imagens e sons disponibilizados nos jogos eletrônicos e sites especializados apenas alimentam a imaginação de cada um. Os artistas de TV, os apresentadores mais populares, as figuras públicas, todos podem experimentar o carinho ou ódio dos telespectadores e do público: são reconhecidos nas ruas e tratados, às vezes, com uma intimidade desconcertante. Seria uma espécie de "intimidade virtual"? -Ah! você é a Xuxa? Te adoro! Olá Ronaldinho, como vai a Daniela?
Mas o termo virtual se aplica, mais especificamente, às criações digitalizadas, que nos dão a impressão de realidade: cenários de filmes, jogos eletrônicos, personagens imaginários, como a Lara Croft, de Tomb Raider.

Lara Croft
O fenômeno, porém, é mais antigo: conta-se que Michelangelo, impressionado com a perfeição de seu Moisés, martelou o mármore, dizendo: "Parla!". A virtualidade estaria em transferir para os objetos inanimados as características só encontradas em seres vivos, como se aqueles pudessem expressar ou sentir como se humanos fossem.
Há um exemplo ótimo, representado pelo quadro "Pigmaleão e Galatéa, de Jean-Léon Gérôme, 1824-1904, atualmente no The Metropolitan Museum of Art, New York, USA.
Neste quadro, Gerôme capturou muito bem a perfeição da estátua, a tal ponto que escultor a abraça - e a deseja - como a um ser humano. Afinal, a textura do mármore, as convexidades e concavidades caprichosamente moldadas pareciam ter vida, até mesmo querer se mover!

Pigmaleao e Galatea
Acho que estes exemplos demonstram nossa fragilidade diante do real e a força de nosso imaginário. Por isso, não duvido nada de que muitos gastarão seu dinheirinho presenteando as Virtual Girlfriends, tranferindo para elas seu amor e esperando delas a satisfação de suas fantasias e desejos. Só não sei se o slogan de uma antiga loja (acho que da multinacional Sears) poderá ser evocado: Satisfação garantida ou seu dinheiro de volta! Afinal, a idealização do outro, a superestimação de suas qualidades e o engano dos sentidos não resistem ao duro teste de realidade. Enquanto isso, no meu "mundo blog", estou cheio de amigos e leitores, cuja virtualidade se esvanece cada vez que deixam aqui seus comentários. Então, tenho certeza, tem gente do lado de lá. Graças a Deus!
05 setembro, 2004
Tempos Sombrios
A inocência é loucura.
Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade.
Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.
Que tempos são estes,
em que é quase um delito
falar de coisas inocentes,
pois implica em silenciar
sobre tantos horrores.
[Mais uma de Bertold Brecht, porque me faltam palavras]
04 setembro, 2004
De que serve a bondade?
1 - A notícia, assim, curta e seca, não tem a força das imagens vistas sem parar nas telas da tv: horror, horror, horror... Mais uma vez, a pergunta: são humanos os que praticam tais barbáries? Sim, são humanos! Cabe-nos, mais uma vez, refletir sobre a "nossa" natureza e suas marcas na história da humanidade, um rosário infindável de violência, dominação, sangue derramado, etc. Nessas horas, lembro-me de um poema, que compartilho com vocês:
De Que Serve A Bondade?
De que serve a bondade
Se os bons são imediatamente liquidados,ou são liquidados
Aqueles para os quais eles são bons?
De que serve a liberdade
Se os livres têm que viver entre os não-livres?
De que serve a razão
Se somente a desrazão consegue o alimento de que todos necessitam?
Em vez de serem apenas bons,esforcem-se
Para criar um estado de coisas que torne possível a bondade
Ou melhor:que a torne supérflua!
Em vez de serem apenas livres,esforcem-se
Para criar um estado de coisas que liberte a todos
E também o amor à liberdade
Torne supérfluo!
Em vez de serem apenas razoáveis,esforcem-se
Para criar um estado de coisas que torne a desrazão de um indivíduo
Um mau negócio.
[Bertold Brecht(1898-1956)]
2- Agora, só prá lembrar: em 20 de novembro de 1959, a Assembléia Geral das Nações Unidas proclamou a Declaração dos Direitos da Criança, ratificada pelo Brasil:
- Toda criança será beneficiada por esses direitos, sem nenhuma discriminação por raça, cor, sexo, língua, religião, país de origem, classe social ou riqueza. Toda e qualquer criança do mundo deve ter seus direitos respeitados!
- Toda criança tem direito a proteção especial, e a todas as facilidades e oportunidades para se desenvolver plenamente, com liberdade e dignidade.
- Desde o dia em que nasce, toda criança tem direito a um nome e uma nacionalidade, ou seja, ser cidadão de um país.
- As crianças têm direito a crescer com saúde. Para isso, as futuras mamães também têm direito a cuidados especiais, para que seus filhos possam nascer saudáveis.
- Toda criança também tem direito à alimentação, habitação, recreação e assistência médica! (Isto é um resumo, são 10 princípios, que você poderá conferir aqui.)
3- Voce sabe quantas crianças brasileiras morrem antes dos 5 anos de idade, por falta de condições sanitárias, água encanada, alimentação adequada, exclusão social? Veja aqui e não se espante ao descobrir que a barbárie ocorre tembém entre nós. Tristes trópícos...
28 agosto, 2004
Olga: "Lutei pelo justo, pelo bom e pelo melhor do mundo."
O diretor, Jayme Monjardim (dirigiu a novela "Pantanal"), enfatizou o aspecto romanesco da saga espetacular da jovem revolucionária, deixando os aspectos políticos e ideológicos como pano de fundo. Funciona: a carga dramática do filme, às vezes exacerbada, prende a atenção e os corações dos espectadores. Alguns críticos detonam o filme por isso, mas não concordo. Se há uma história de amor permeando as lutas dos protagonistas, em momento algum deixamos de vivenciar as angústias e os horrores da perseguição política, o aterrorizante aparelho político-militar nazista e as crueldades praticada pelo ditador brasileiro, Getúlio Vargas (cujo suicídio, há 50 anos, abalou a nação).
Alemã de origem judia e revolucionária comunista, Olga Benário foi designada pelo Partido Comunista para proteger Luís Carlos Prestes em sua viagem secreta de volta ao Brasil. Já o admirava antes mesmo de conhecê-lo, por ter ouvido falar da Coluna Prestes. [Prestes havia liderado um movimento político-militar de origem tenentista, que entre 1925 e 1927 se deslocou pelo interior do país, percorrendo 25 mil km (!) pregando reformas políticas e sociais e combatendo o governo do então presidente Arthur Bernardes e, posteriormente, de Washington Luís.]
Getúlio, através de seu chefe de Polícia, Fellinto Muller, prendeu o casal Prestes e Olga, entregando a jovem à Gestapo. No filme, as cenas do nascimento da filha Anita e sua separação da mãe se constituem num dos momentos mais dramáticos.
O filme é imperdível, seja pelo conteúdo e carga dramática, seja pelas referências históricas, seja pela denúncia implícita dos movimentos totalitários.
Saí do cinema refletindo sobre a força dos ideais. Pensei: será que não mais acreditamos que podemos mudar o mundo? Estamos resignados ao papel coadjuvante de meros consumidores (embora pobres) a sustentar o "capital" sem pátria? Será que a queda do muro de Berlim derrubou, também, os ideais de igualdade, justiça social, do bom e do justo?
Já no campo de concentração, às vésperas de sua execução, Olga escreve estas últimas palavras à filha e a Prestes:
Olga.”
24 agosto, 2004
Festival Gourmet de Tiradentes-MG
Outra dica: agorinha mesmo, está acontecendo em Tiradentes o Fest Gourmet, ou seja, o VII Festival Internacional de Cultura e Gastronomia: Os mais conceituados chefs estrangeiros e brasileiros levam a Tiradentes os mais novos conceitos e tendências da gastronomia mundial. São cursos, degustações, almoços, jantares e festins - jantares mais glamourosos, requintados, à luz de velas, com música erudita ao vivo - que são um verdadeiro convite ao doce prazer da gula. No bom sentido, claro! Saborear um belo prato emoldurado pela rica arquitetura barroca de Tiradentes é um deleite!. No "delicioso" site de Eduardo Maya, o "Chef-on-line" você pode conferir a programação e receitas de pratos irrecusáveis.
Para dar água na boca, uma "receitinha" simples, mineirinha, gostosinha, prá tomar com um cafezinho bem quentinho, sem dispensar um queijim fresquim: Broa de Fubá:
Primeiro, você vai separar os seguintes ingredientes:
02 ovos
04 xícaras de fubá
1 e 1/2 xícara de açúcar
1/2 litro de leite
04 colheres de manteiga
Sal a gosto
02 colheres (de chá) de fermento em pó
Em seguida, mãos à obra: bata o açúcar e os ovos e depois misture ao fubá. Com todo o carinho, acrescente o leite, continue batendo e, aí, coloque o fermento. Unte bem a forma para não agarrar, despeje a massa e ponha para assar em forno pré-aquecido, por um tempo de 40 minutos a uma hora. Retire do forno e espere amornar para, aí sim, desenformar, partir e... saborear. Tem gente que coloca uns pedacinhos de queijo minas na massa, antes de levar ao forno. Eu adoro desse jeito! Ah! um café quentinho com broa de fubá é uma guloseima inesquecível. Ao degustar, separe um pedacim prá mim, tá bom?
22 agosto, 2004
Duas viagens e um pijama
Dia 13 de agosto, de ônibus, parti em direção sudoeste de Belo Horizonte, em busca do cruzamento do paralelo 20S com o meridiano 45W, ou seja,
Divinópolis. A cidade estava em plena DivinaFolia, evento que abre o calendário do segundo semestre do CarnaBrahma 2004 - o maior circuito do carnaval fora de época do país –, que percorrerá o Brasil com a promoção de micaretas e festas do gênero nas regiões Sudeste e Nordeste.
Entre as atrações, as bandas Chiclete com Banana, Babado Novo e Bartucada para agitar a festa até o sol raiar. Também se apresentaram bandas locais, como KSamba, Ká Entre Nóis e Fernanda Garcia, em oito horas seguidas de show em cada dia de festa.
Mas eu não fui prá festa nenhuma, fui a trabalho (!), ministrar um Curso de Transtornos de Aprendizagem para professores(as) da Rede Municipal de Ensino. Além do trabalho, valeu o peixe-no-espeto, devorado na Churrascaria Savassi, bom demais!
Semana seguinte, anteontem, embarquei no vôo 5586 da Total, em direção ao Vale do Aço, aterrisando em Ipatinga, 30 minutos depois, onde daria um Curso sobre Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade, assunto que já abordei, aqui.
A 3.500m de altura pude comprovar a destruição de nossas montanhas, perpetrada pelas mineradoras, que estão esburacando o solo para retirar minério de ferro [perpetrar: v.t.d. - cometer, praticar (ato moralmente inaceitável, crime, delito etc., segundo o Houaiss]. Vai tudo pro Japão e pro império do norte! Logo saindo de Belo Horizonte, avista-se a Serra da Piedade, comida pelas beiradas, as encostas erodidas, a mata ferida, as nascentes secando, como denuncia o movimento SOS Serra da Piedade!
Ipatinga, entretanto, me surpreendeu pela beleza e organização da cidade, pelas largas e ajardinadas avenidas, pelo alto índice de saneamento, pelos dispositivos de atenção à saúde proporcionados pela admnistração municipal e pelos parques, como são chamadas as enormes praças. Poucas cidades do Brasil se dão ao luxo de ter uma área verde com cerca de um milhão de metros quadrados e 12 mil árvores plantadas, situada praticamente no centro e aberta a toda a população. Pois Ipatinga tem o Parque Ipanema, complexo de lazer projetado pelo paisagista Roberto Burle Marx, um dos últimos concebidos antes de sua morte.
Foi uma viagem agradável, ao lado do colega Francisco Goyatá, psiquiatra e psicanalista de carteirinha, bom de papo, culto, engraçado, espontâneo e verdadeiro ator (atuamos juntos no Show Medicina e no Show Anatomia, em priscas eras [prisco: adj. - que pertence a tempos idos; antigo, velho, prístino].
Quase rolei de rir ao ver o Goyatá desembrulhando um pacote, extraindo dele um pijama azul-bebê, novinho em folha, arrancando-lhe a etiqueta, a dizer: "-Foi minha mulher, a Martinha, que me deu, pois achava um absurdo eu dormir no mesmo quarto com você usando minha velha camiseta!". Isso é que é prestígio! Tenho de agradecer à Marta por tamanha delicadeza!
Depois desta, só mesmo uma noite de sonhos, pontuada por roncos, a me lembrar as escavadeiras devorando as serras das Gerais.
15 agosto, 2004
Sepultura, Clube da Esquina, etc
Ale Caveira, Beto Pinga, Gato, Dr Julio, Jairo, Roberto Ufo." Taí o Julinho!
Belo Horizonte tem sido um centro de criação musical importante, com grupos e músicos já conhecidos no mundo inteiro: Milton Nascimento (Clube da Esquina), Beto Guedes, Família Borges, Fernando Brant, Skank, Jota Quest, Pato Fu, TiaNastácia, Wilson Sideral... Agora vai pro meu currículo a cicatriz deixada pelo Julinho Sepultura!
Ah! eis outro site legal sobre o Clube da Esquina.
10 agosto, 2004
Beba água e fique feliz
O título irônico da reportagem do The Observer diz "Stay calm everyone, there's Prozac in the drinking water" [Fiquem todos calmos, há Prozac na água potável].
Environmentalists are calling for an urgent investigation into the revelations, describing the build-up of the antidepressant as 'hidden mass medication'. The Environment Agency has revealed that Prozac is building up both in river systems and groundwater used for drinking supplies.
Por outro lado, a indústria química (aí incluída a indústria farmacêutica) desenvolve produtos mais sofisticados e eficientes, numa promessa de felicidade plena, ausência de conflitos e de dor. "Prazeres imediatos" (imediato significa "sem mediação" do esforço, do trabalho, da busca, da espera, etc.) são o objetivo de tanto recurso às drogas (legais e ilegais). Eles proporcionam, imediatamente, a sensação de prazer, euforia ou desligamento do mundo - além de cortar as dores, físicas e espirituais: vide o aumento do consumo dos antidepressivos e ansiolíticos, maconha, extasy...).
08 agosto, 2004
Olha o trem!
Nasci no interior de Minas, numa pequena cidade chamada Nova Era.
O trem-de-ferro compõe o cenário mágico das viagens (reais e imaginárias) de grande parte da minha infância, pois era a melhor maneira de visitar tios e primos. Alguns viviam ferrovia abaixo (CVRD), em Coronel Fabriciano. Outros, ferrovia acima (EFCB), em João Monlevade. De N.Era a Belo Horizonte eram 07 horas de viagem!
Duas lembranças fortes:
Primeira: a chegada do trem na estação: "Olha o trem!", berravam todos, diante daquele monstro de ferro, apitando e silvando os freios. Correria para pegar o melhor assento: "Eu na janela, eu na janela!" O apito do chefe-da-estação anunciava a partida e lá íamos, alvoroçados, deixando para trás a plataforma apinhada, os acenos de despedida e um frio enorme na barriga: uma aventura!
Segunda: o vendedor de comidas, cambaleando com o sacolejar incessante do trem, a oferecer sanduíches de "salame" com guaraná e maçãs enroladinhas naquele papel de seda azul claro. Como cheiravam! Raramente tínhamos maçãs em casa, portanto era uma festa só. Ah! e os biscoitos de polvilho? E o chacoalhar dos vagões? E os apitos que anunciavam ponte ou túnel?
Minha primeira grande saída de casa foi quando fui estudar no Colégio do Caraça: meu pai e eu, no trem, no tempo remoto de meus 11 anos... A cidade ficava lentamente para trás, o casario rareava e os campos se sucediam. O comboio sempre margeando o Rio Piracicaba ou outro qualquer. Os postes de telégrafo surgiam a tempo certo, com os fios fazendo uma enorme barriga, até novo poste, e outro, e mais outro, infinitamente.
Mais tarde, uma emoção estética: assisti à estréia do ballet "O último trem", com o grupo Corpo. Música de Milton Nascimento! Revivi tudo:
O tac-tatac das rodas de ferro marcava as emendas dos trilhos e servia de improvisado metrônomo para canções murmuradas a sós.
Meu pai trabalhava nos Correios e, ocasionalmente, conduzia as malas num compartimento especial, chamado Carro-Correio, no qual me levava, vez por outra - eu não teria de pagar passagem! Era mister certo cuidado, entretanto: "O chefe-de-trem não pode vê-lo!". Uma aventura|: eu e meu pai, meu pai e eu, contando as estações, descobrindo árvores, horizontes, rios e - sublime momento - cachoeiras! "Olha uma ali!", gritava quem via primeiro.
A volta para casa era plena de casos e, sempre, com uma preciosidade: maçãs para os meninos!
07 agosto, 2004
Da vicissitude à ventura
Pois bem, as danadas das pedras, especialistas em fazer-me doer todo, aumentar as transaminases e ficar hospitalizado por 10 (dez) longos dias, foram retiradas através de uma videolaparoscopia, sob anestesia geral e tudo!
Além do carinho da enfermagem, do cuidado especialíssimo dos médicos: Dr. Hélcio(meu "salvador da Pátria", mesmo!, Dra. Michele (sorrisos, sorrisos, sorrisos), Dr. Alexandre, Dr. Júlio, Dra. Adriana (endoscopia), outra Dra. Adriana (gastroenterologista), Dr. Leandro, Dr. Eduardo e Dr. Ronaldo, tive a felicidade da presença física e espiritual dos amigos Luciana(+ seu pai) e Cuca, Goretti e Cândido, JM Maciel e Cida, Sérgio e Adriane, Telma e Pimenta, Mariza, Beth Teixeira, Júlia, Maria Inês, Ione, Andreína, Ronaldo, Israel, D.Aparecida, Regina, Mary (a sogra de minha filha)...
Ah! Ana me lembrou e acrescento aqui a visita pessoal do colega dela, Thiago Zanini, pós-graduando em Paris, pasando férias aqui em Beagá e blogueiro. Alguns clientes, cujas consultas tive que desmarcar, telefonaram.
Do lado familiar, então, nem se fala: meus pais, Soié e Aparecida (presentes no dia da cirurgia) tia Zizina, tia Irani, "Tia" Zilah (visitou e levou rosquinhas!), meus irmãos (Clóvis com a esposa Consola estiveram no Biocor), Cléver, Ismael, Sheilinha (esteve lá, também), Ilídio, Jaques, Nélio e Boni (este último,presente no apartamento 757, de surpresa, após o ato cirúrgico). Rosa Ormy e Vicente, Gusmão (o sogrão), Gusmeire, Clarice... Quem não ficou sabendo estava igualmente do meu lado, tenho certeza!
Que segurança e emoção com a presença constante dos filhos Ana Letícia -assessora para assuntos gerais!- e o namorado Daniel (que veio de Macaé-RJ!) Ângelo e Leonardo, companheiros amorosos, conversando, vendo TV, lendo jornal, animando, brincando, acarinhando e "dormindo" comigo no hospital!
Finalmente, quem seria eu sem minha fada, minha deusa, minha
mulher de verdade!: Amélia! Companheira fiel, amiga, amada, amante, tudo tudo tudo: Lá estava Amélia: até se deitando no leito comigo, me dando calor, fazendo massagens, providenciando roupa, sabonete, barbeador... coisas tão triviais e tão importantes: sinal de vida, esperança, Amor!
Por tudo isso, digo, sem nenhuma dúvida: sou FELIZ!
26 julho, 2004
Querer não é desejar
Parece que sabemos, mesmo sem teoria alguma, que há uma diferença enorme entre DESEJAR e QUERER. O "querer" é algo consciente, dito abertamente ou não. Quero isso e não quero aquilo. O "desejar" mora em outro cenário, bem mais embaixo, lá no "porão" do inconsciente, e nem sempre é tão acessível. Pode até acontecer de a gente "querer" o que não se deseja e "desejar" algo que, conscientemente, negamos. Tratam-se de desejos inconfessáveis, socialmente incorretos, o dos quais nos envergonhamos.
Mas esse desejo é poderoso, tanto assim que, sem mais nem menos, cometemos um "ato falho": um esquecimento, um gesto, uma fala que nos traem, desnudando o que estava escondido (muitas vezes escondido até de nós mesmos).
Freud, o criador da Psicanálise, escreveu um livro sobre isso: Psicopatologia da Vida Cotidiana. Nessa obra, de linguagem elegante e acessível, ele ensina que o pensamento aparentemente mais sem sentido, o lapso mais casual, o sonho mais fantástico possuem um significado que pode servir para desvendar os segredos da mente. (Você não vai se arrepender de ler.)
O sofrimento de cada um se constitui, no fundo, no fundo, num conflito entre o "querer" e o "desejar", muitas vezes incompatíveis. A gente acaba aprendendo que vai ser necessário fazer algumas concessões, tanto de um lado quanto de outro, e que o fato de não se poder ter tudo não é o fim do mundo. Aliás, o "desejo" nunca se realiza completamente, estando o "objeto desejado" escorregando sempre para um mais além, o que, graçasadeus, sustenta o próprio desejo.
Nós não somos donos do nosso desejo, mas somos responsáveis por eles. Como nem sempre se coadunam "desejo" e "querer" mais os "laços sociais" que se tramam ou se desfazem de acordo com a cultura, ficamos por aí, "peregrinando neste vale de lágrimas" que é a nossa vida, pontuada de momentos felizes.... Agora, tem uma coisa: quase sempre, para não dizer sempre, somos presenteados de acordo com nosso empenho. Sem esforço, nada feito.
22 julho, 2004
Gênio incompreendido, idiota sábio ou "louco varrido"?
Cláudio... atendi hoje a um paciente no Cersam Noroeste que se acha um gênio incompreendido... mas ele é... fez medicina por 2 anos... engenharia e largou.. por um surto psicótico... Era epiléptico e apresenta um transtorno delirante agora. Mora no interior e veio pra BH tratar de uma depressão. Cara inteligentíssimo, com um QI certamente muito elevado. Como há gênios incompreendidos... a professora de Einstein dizia que ele era um idiota... parecia uma pessoa com dificuldade de atenção (ou autista de alto funcionamento?) com capacidade genial para cálculos... como você já leu nos livros de psiquiatria da infância...
Às vezes, a gente escuta isso: -"Cuidado, não estude tanto que você vai ficar doido." Ou: -"Fulano estudou tanto que pirou!"
Há casos interessantes de idiotas sábios, como o personagen de Tom Hanks em Forrest Gump ou o "autista" (Dustin Hoffman) de Rain Man. A Psiquiatria tem um diagnóstico para estes casos, a Síndrome de Asperger, aplicado aos portadores de um tipo de transtorno grave do desenvolvimento. Tais indivíduos, mesmo apresentando lacunas importantes na área afetiva e relacional, demonstram inteligência altamente desenvolvida para campos restritos do conhecimento. Sua linguagem costuma ser típica, com maneirismo verbais, rebuscamentos e utilização de vocabulário muito elaborado para a idade cronológica. Alguns destes "idiotas sábios" (idiot-savant) decoram listas telefônicas, roteiros aéreos ou minúcias de paisagens, fazem cálculos matemáticos complicadíssimos em segundos, etc. Entretanto, seu relacionamento afetivo-social é muito comprometido. Será que se tornarão "gênios incompreendidos" ou "loucos varridos"?
Voltando ao tema do post "Uvas Verdes", o que o Alexandre Cruz Almeida criticava eram os inteligentes, bem dotados, não psicóticos nem idiotas sábios, mas que não venciam na vida por falta de esforço, preguiça, adiamentos sucessivos de tomadas de posição, protelações, procrastinações, etc. Em um determinado momento da vida, lá vêm eles com aquela ladainha: "Se me tivessem dado uma chance..." ... "Se aquele chefe não me tivesse dispensado...", etc. Aí, meu, o Alexandre termina assim: "O gênio incompreendido é péssima companhia." Eu digo: "Um saco!"
