No fogão-a-lenha, a chaleira borbulhava de água fervente, logo derramada no coador de pano com boa porção de pó de café. Uma azáfama!
Finalmente, ali estávamos, vovó, vovô Ilidinho, as tias e os meninos aguardando os biscoitos que saíam quentes, corados ou mais branquinhos, crocantes e deliciosos. Não sei o que era mais gostoso, o sabor ou o barulho de mordê-los. Impossível parar de comer.
Podiam ser em forma de palitos, um dedo de espessura, ou mais encorpados. Às vezes, em anéis; outras, sinuosos, cobrinhas ou minhoquinhas de biscoito, como os chamava.
Pois, outro dia, deu-se o revirar do tempo: Amélia recebe uma receita da Dona Hilda, 94 anos, cujos biscoitos saboreamos algumas vezes. Anima-se e vamos em busca dos ingredientes:
- 5 copos (+ ou - 800g) de polvilho azedo
- 1 copo de óleo (aqui em casa, canola)
- 1 copo ( + ou - 250ml) de água
- 1 colher de sopa de sal
- 4 ovos
Como fazer?
Tudo medido, chega a hora de escaldar a massa.
Amélia ferveu o óleo, a água e o sal e derrama tudo sobre o polvilho, que esperava dentro de uma grande tigela. Com uma colher-de-pau vai fazendo um grude. Esperou amornar e sobre este grude quebrou os quatro ovos (gema e clara, claro!). Misturou bem e acrescentou água morna para dar o ponto de massa mole.
Por que? Porque essa massa será colocada em um saco plástico, com um furinho. Assim, vai espremer a massa, formando os biscoitinhos. As formas (tabuleiros) deverão estar untadas com manteiga ou margarina, senão agarra tudo. Levou ao forno, já bem quente.
A gente ficou arrodeando, doido pra comer. Menos de 30 minutos e o visor já nos deixa ver que estão levemente crescidos e corados.
O café exala aquele aroma irresistível e a mesa é posta. Você não vai acreditar, mas essa mistura rendeu pouco mais de quatrocentos biscoitinhos, eu disse quatrocentos! Então, sem economizar na comilança, ainda sobrou pra guardar nos potes. Eis a prova:
O dia terminou assim, em plena metrópole, na pós-modernidade: os aromas e os sabores do lanche reanimaram lembranças antigas, acomodadas em algum lugar de nossas mentes. Não havia o burburinho dos primos e das tias, nem os casos do vovô Ilidinho, muito menos os passinhos miúdos da vovó Nhanhá. Mas a família ao redor da mesa, a conversa animada e aconchego de casa aconteceram. O tempo parou.Quisera ser um Proust, que ao comer madeleines, foi assaltado por lembranças tais que escreveu: Em busca do tempo perdido...

























