03 outubro, 2007

Viagem no tempo

Minha alma de criança demonstra sua imortalidade toda vez que me deparo com alguns brinquedos. Lembram-me fantasias de outrora, quando um pedaço de madeira virara revólver ou uma latinha vazia de sardinha era a carroceria de um caminhão.
O quintal era um reino encantado, cheio de possibilidades, onde tudo poderia ser qualquer coisa, bastava imaginar, sonhar, viajar nas fantasias.
Alguns brinquedos remetiam à realidade que me atraía. Por exemplo: o ferrorama era o trem-de-ferro que apitava de madrugada, ao atravessar as brumas sob as quais a cidade dormia. Lá vai o trem para Vitória... lá vem o trem de Belo Horizonte. Meu pai trabalhava nos Correios e despachava malas, conferia fardos, às vezes até viajava (e eu com ele, algumas vezes) acompanhando o carro-correio.
Em Curitiba, ano passado, fiquei babando diante do ferrorama do Shopping Estação. Voltei no tempo e mais horas passaria ali caso o relógio fosse mais camarada. Lembrei-me da Sony N1 a tiracolo e trouxe comigo o 'trem de Curitiba'. Voltei a ser criança.




Lembrei-me deste post que escrevi em 2004:
O trem-de-ferro compõe o cenário mágico das viagens (reais e imaginárias) de grande parte da minha infância, pois era a melhor maneira de visitar tios e primos. Alguns viviam ferrovia abaixo (CVRD), em Coronel Fabriciano. Outros, ferrovia acima (EFCB), em João Monlevade. De N.Era a Belo Horizonte eram 07 horas de viagem!
Duas lembranças fortes:
Primeira: a chegada do trem na estação: "Olha o trem!", berravam todos, diante daquele monstro de ferro, apitando e silvando os freios. Correria para pegar o melhor assento: "Eu na janela, eu na janela!" O apito do chefe-da-estação anunciava a partida e lá íamos, alvoroçados, deixando para trás a plataforma apinhada, os acenos de despedida e um frio enorme na barriga: uma aventura!
Segunda: o vendedor de comidas, cambaleando com o sacolejar incessante do trem, a oferecer sanduíches de "salame" com guaraná e maçãs enroladinhas naquele papel de seda azul claro. Como cheiravam! Raramente tínhamos maçãs em casa, portanto era uma festa só.
Ah! e os biscoitos de polvilho? E o chacoalhar dos vagões? E os apitos que anunciavam ponte ou túnel?
Minha primeira grande saída de casa foi quando fui estudar no Colégio do Caraça: meu pai e eu, no trem, no tempo remoto de meus 11 anos... A cidade ficava lentamente para trás, o casario rareava e os campos se sucediam. O comboio sempre margeando o Rio Piracicaba ou outro qualquer. Os postes de telégrafo surgiam a tempo certo, com os fios fazendo uma enorme barriga, até novo poste, e outro, e mais outro, infinitamente.
Mais tarde, uma emoção estética: assisti à estréia do ballet "O último trem", com o grupo Corpo. Música de Milton Nascimento! Revivi tudo: O tac-tatac das rodas de ferro marcava as emendas dos trilhos e servia de improvisado metrônomo para canções murmuradas a sós.
Meu pai trabalhava nos Correios e, ocasionalmente, conduzia as malas num compartimento especial, chamado Carro-Correio, no qual me levava, vez por outra - eu não teria de pagar passagem! Era mister certo cuidado, entretanto: "O chefe-de-trem não pode vê-lo!". Uma aventura: eu e meu pai, meu pai e eu, contando as estações, descobrindo árvores, horizontes, rios e - sublime momento - cachoeiras! "Olha uma ali!", gritava quem via primeiro.
A volta para casa era plena de casos e, sempre, com uma preciosidade: maçãs para os meninos!

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