Basta pensar em sentir Para sentir em pensar. Meu coração faz sorrir Meu coração a chorar. Depois de parar de andar, Depois de ficar e ir, Hei de ser quem vai chegar Para ser quem quer partir. Viver é não conseguir. Fernando Pessoa, 14-6-1932
31 julho, 2008
Relax
Então: Amélia & eu estamos indo, agorinha mesmo, pra Diamantina-MG. Antes, uma noite na cidade do Serro, onde comeremos o genuíno "queijo do Serro", of course.
Até segunda, com bateria recarregada e algumas idéias na cabeça pra voltar a postar. Xô, preguiça!
17 julho, 2008
Vou dobrar-me à regra nova de viver?
- Como assim, cara pálida? perguntei.
No decorrer do texto, havia outros termos do campo psi, não necessariamente com embasamento científico, pois que se tratava de um texto leve, numa revista levíssima.
O autor quis agregar alguma reflexão psicológica à palavra adultescente.
Eu próprio já a ouvira antes, mas não custava nada socorrer-me na fonte inesgotável de saber (!), o buraco sem fundo chamado Google.
O primeiro link, texto de Sérgio Rodrigues, socorreu-me:
Adultescente é um neologismo jocoso de sentido óbvio, cruzamento de adulto com adolescente. No entanto, ainda não abriu caminho até os dicionários brasileiros e, mais do que isso, não parece ter vingado de verdade em nosso dia-a-dia. Tudo indica que vingará. Nascido no inglês americano como adultescent, registrado pela primeira vez em 1996 e eleito pelo dicionário Webster’s a “palavra do ano” de 2004, o termo já tomou assento firme pelo menos em espanhol, na forma adultescente, de grafia igual à nossa.
(...) adultescente tem consistência maior do que ajudar profissionais de marketing a bolar produtos destinados a esse nicho de mercado detectado no fim do século 20, o dos adultos “infantilizados”, consumidores de videogames e livros sobre magos mirins, que prolongam a dependência do lar paterno muitos anos além da média histórica, mesmo que – e isso é o mais intrigante – ganhem dinheiro suficiente para ter sua própria casa.
Um outro link remeteu-me para considerações de Maria Teresa Soares Eutrópio, mais próximas da interpretação psicológica:
Adultescente, pessoa imbuída de cultura jovem, mas com idade suficiente para não o ser. Geralmente entre os 35 e 45 anos, os adultescentes não conseguem aceitar o fato de estarem deixando de ser jovens.
A cronologia do fenômeno deu um salto de 20 anos! Vê-se bem que este critério não é lá muito confiável, inda mais que o psiquismo escapa do calendário.
Perseguindo o raciocínio do autor - não lhe lembro o nome e recuso-me a declinar o nome da revista. Confesso que estou sendo injusto, pois o que vi, a seguir, me agradou mais do que a primeira acepção (mercadológica), sendo mais profunda que a segunda (o que fundamenta a recusa em aceitar o fato de ser jovem?).
O conceito de adulto jovem seria aplicado, segundo o cara da revista, a alguns mecanismos psíquicos comuns ao que chamaríamos de pensamento mágico(Piaget), próprio da criança entre 7 e 11 anos, progressivamente abandonado até sua substituição por outra forma de estar-no-mundo, mais condizente com a realidade. Piaget diz que o egocentrismo é a base do pensamento mágico e a saída deste estágio de desenvolvimento intelectual se dará pela socialização e teste de realidade. É o que escreve Gobin:
Tratam-se de fenômenos psíquicos, complexos, com aspectos intelectivos, cognitivos, emocionais e sociológicos - inclusive dependentes da classe social a que pertence o tal jovem adulto.
- Vamos ao que interessa!
Três crenças alimentam o jovem adulto descrito na revista, as quais podem ser mais exacerbadas, caracterizando uma pessoa mais próxima da adolescência propriamente dita. Se mais tênues e diminuindo de intensidade, estaremos diante de um jovem entrando na fase adulta
- 1a. crença: Posso ser tudo!
- 2a. crença: Posso ter tudo!
- 3a. crença: O Tempo não passa!
O mundo do Marketing quer nos manter atrelados aí, prometendo-nos e aos jovens mais ainda, um mundo onde tudo é possível, o importante é viver o aqui e o agora, seja o que quiser: basta comprar tal ou qual gadget, o celular de última geração, o automóvel que suporta bombas, demolições e terremotos, já que transporta La Bündchen e Mr. Stallone! Seja você, também, um deles é o imperativo do marketing.
Assim, não dá mais para sair da casa dos pais, enfrentar o mundo (real), pois é preciso ter TUDO, ser TUDO e o futuro não existe!Mas não é preciso nenhuma 'psicologia' para revelar os conflitos que atravessam os adolescentes e os jovens adultos. Os poetas sabem dizê-lo, muito antes de inventarem palavras como adultescente e forjarem expressões tipo adulto jovem. Lembrei-me deste poema do Carlos Drummond de Andrade, que aprendi há anos e não me abandona:
“Vou dobrar-me à regra nova de viver.
Ser outro que não eu,
até agora musicalmente agasalhado
na voz de minha mãe, que cura doenças,
escorado no bronze de meu pai, que afasta os raios.
Ou vou ser menos, talvez isso,
apenas eu unicamente eu,
a revelar-me na sozinha aventura em terra estranha?
Agora me retalha o canivete desta descoberta:
eu não quero ser eu,
prefiro continuar objeto de família”.
[Drummond: "Fim da casa paterna"]
16 julho, 2008
Me engana que eu gosto

O que é que é?
Tem gosto de cigarro, solta fumaça
como cigarro, mas não é cigarro?Cada kit vem com 20 cigarros e custa US$ 49,95 nesta
loja virtual.
[Recebi e repasso.]
13 julho, 2008
À mesa, num domingo
Estava frio, pela manhã. A gente ficou naquela preguiça típica do inverno, tentando manter o calor dos cobertores até o sol garantir sua presença.
O café-da-manhã foi degustado sob forma de iogurte com frutas, pão com queijo canastra passado na frigideira, café pelando a língua e otras cositas más.
A natureza foi lembrar-nos do almoço no meio da tarde, quando ainda bezerrávamos placidamente pela casa, meias grossas nos pés, jornais espalhados, tv, computador, música...
Ângelo deu a dica, pegamos a Renatinha e buscamos o Bistrô, que fica pros lados da Pampulha, pertinho do Mineirão e da lagoa.
Sol plácido, ar puro e paisagem tão aprazível formavam o cenário quando estacionamos em frente à Floricultura Verde Essencial. Explico: o local abriga restaurante, flora e atelier:
Acomodamo-nos na varanda.A seleção de cogumelos frescos grelhados com ervas, azeite e redução de aceto balsâmico foi a entrada sugerida pela chef Heloísa Barreto:
A pièce de resistence seria escolha individual.Quanto a mim, oscilava entre camarões e salmão grelhado. Este último me pareceu mais consistente, já que prometia a leveza do pescado associada à crosta de gergelin e ervas, guarnição de purê de mandioquinha com creme de espinafre, além da sutileza do shimeji:
A tarde ainda nos brindava com sua cálida energia, o que justificou o sorvete de frutas do cerrado, como sobremesa.O sol, afinal, deslizou preguiçosmente para o outro lado do mundo, talvez fugindo do frio que descia da Serra do Curral.
- E o domingo foi ótimo!
30 junho, 2008
26 junho, 2008
Uma noite das Arábias
Recebemos a visita do Thiago, de Canis Familiaris, aqui em casa. Vocês sabem, blogueiro conhece blogueiro e o Thiago logo se lembrou de uma história que contei há uns 3 anos, verídica em todos os detalhes. Em sua homenagem, já que ele é de Teresópolis, republico o post:
À chegada, um mirante nos proporciona o espetacular panorama do famoso "Dedo de Deus" e de outros picos. Dali, descortina-se, lá embaixo, parte da cidade do Rio de Janeiro e da baía da Guanabara (à noite, as luzes brilham como num céu estrelado, só que aos nossos pés!).
A impressão dela quase se concretizou diante da cortina de plástico no box do banheiro, tal e qual. Agora só faltava o facão!!! [Com efeito, na minha cabeça, revi as cenas do mais famoso filme de Alfred Hitchcock, no qual uma jovem foge com o dinheiro da imobiliária onde trabalha e planeja encontrar o namorado, que mora em outra cidade, mas interrompe a viagem para dormir num velho motel administrado por um estranho rapaz (o psicótico Norman Bates) e sua mãe.]
O dia estava radiante, o sol banhava a floresta e os pássaros faziam algazarra. Um bando de maritacas passou gritando rente à varanda. Já de malas prontas, despedimo-nos do nosso anfitrião, transmutado em afável interlocutor. 22 junho, 2008
Ainda as Bodas
Aqui.
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(Veja algumas fotos das Bodas).
11 junho, 2008
Sexagésimo ano: Bodas de Diamante
Sexagésimo aniversário de casamento com saúde, lucidez e bom humor é para pouquíssimos casais.
Sexagésimo aniversário de união feliz seria impossível se não fossem os protagonistas deste feito: meus pais, Ismael (Soié) e Aparecida.
Quem melhor para contar essa história, senão ele próprio, meu pai?
AQUI
08 junho, 2008
NONADA
- Será pura sonhice ou é existível sabor tão penetrante?
Fechabri os olhos, para melhor sentir, disquirindo sabores e aromas. Pois foi. Amélia suputou quantidades e mandamos pesar um dos:
- É pra preparar uns pãozim-de-queijo...
Desfechei o bolso, pois que carecia pagar. Ela ainda refalou:
- Polvilho bom é Marinez.
Aos pouquinhos, a matlotagem se completou.
Beiradeando os corredores dos botecos, passamos por entre gaiolas onde tintipiava a passarinhada em turbulindo. No Café Dois Irmãos, tradicional ponto de paragem, nãostante ainda com lembranças do almoço, uma pedida:
- Um cafezim com broinha!
- Perfeitamém, ossenhor, perfeitamém.
Pois a mocinha deu e redeu, pois impossível desquerer mais e mais.
- Essezim, sim, que é cafezim, cujo Minas Rio era o nome.
Hora dirembora. Lá fora, o lusfús, a tocar Ave Maria.
É que a Editora Santa Clara, do amigo ZéMaria, acabou de publicar-lhe "Um abreviado do Grande Sertão:Veredas".
25 maio, 2008
Madeleine
16 maio, 2008
Com adrenalina ou sem adrenalina?
O pai, por sua vez, jamais negou atenção ao filho e, para o bem ou para o mal, exercia certo controle à base de promessas, presentes e raríssimas privações: eu compro o garoto, mas não tem outro jeito! Ele só faz o que peço mediante troca.
No capítulo 8, resume a "invenção" de Balint, criada para dar conta de explicar duas expressões comportamentais:
- certo tipo de pessoas se comprazem em viver perigosamente, nem que seja em jogos e esportes radicais, enquanto outras fogem do perigo, temem o incerto, aferram-se à rotina e aos objetos.
O moço que causava tanta preocupação se diz atraído pela aventura, admira os marginais que não temem pela própria vida. Frequenta as bocas e as quebradas, justifica, pois é onde reina a alegria, a zoação, o não-estou-nem-aí, o vamos fundo, brother! Apressa-se em se distinguir deles, porém: não bebo, não fumo, não faço coisa errada; tenho família! Seu critério para diferenciar o 'certo' do 'errado' é bem elástico, convém dizer. Refere-se aos boyzinhos classe-média como rabos-de-peru.
Já outro pai queixou-se da filha, moça de 26 anos, que era insegura, não conseguia terminar nenhuma das três faculdades que iniciara, sempre se dizia incapaz de competir, não desgrudava da mãe, de quem dependia até mesmo para escolher o que vestir. Exemplifica com uma situação recente, quando a filha recusara um emprego porque teria de pegar ônibus e chegar tarde em casa. A jovem não se permitia uma aventura sequer, um passo além do bairro, uma conquista acadêmica. Aferrou-se à segurança do ventre materno?
Balint repara que muitos brinquedos em parques-de-diversões oferecem prazeres por meio de atirar ou bombardear, quebrar coisas, vertigens de balanços, carrosséis e rodas gigantes, jogos de azar, horóscopos, enfim, prazeres ligados a sensações de vertigens.
Se os sintomas do rapaz são o avesso dos apresentados pela moça, algo existe em comum: tanto o primeiro quanto a segunda têm uma base de apoio: o jovem, como um saltador de bump jumping, tem a garantia da corda que lhe cinge o corpo, o elástico que o trará de volta à rampa do salto. O paraquedista, o marinheiro, o piloto de avião, todos se lançam ao espaço, arriscam-se mas esperam retornar ao chão firme, sãos e salvos. Mas não recusam a adrenalina!
Balint aponta três características deste comportamento:
- Um certo grau de medo consciente ou pelo menos a consciência de um perigo externo real.
- O fato de se expor voluntária e deliberadamente a este perigo externo e ao medo que ele provoca.
- A esperança mais ou menos firme de ser capaz de suportar e dominar o medo, de ver desaparecer o perigo e de estar à altura de reconquistar são e salvo a segurança.
Trata-se, segundo Balint, de um comportamento que se caracteriza pelo agarrar-se a objetos que dão segurança quando a pessoa se sente ameaçada. Ou seja, evita sempre as situações filobáticas.
Inventou outra palavra, também derivada do grego: akneo, que significa “furtar-se, hesitar, agarrar-se”, e filia (busca, aproximação, amizade) e surgiu termo Ocnófilo.
Balint:
O ocnófilo é a pessoa que evita situações de risco, de aventura, e prefere permanecer em zonas seguras ou se agarrar a objetos. A grosso modo, o filobata gosta de gozar das dificuldades, da independência e dos espaços livres; o ocnófilo gosta de objetos e coleciona coisas.
Assim, aparece uma tentativa de classificar as pessoas pela filobacia e ocnofilia que apresentam na maior parte de seus comportamentos. Não sei se existem mais autores dedicados a isso, se se pode comprovar estatisticamente a existência destas personalidades, mas acho muito interessante. Qualquer definição que pretenda enquadrar as pessoas corre o risco de ser desmentida, tal a diversidade de fatores que determinam o agir.
Exemplifico com a demanda feita por um jovem marido, especialista em flertar com todas as mulheres, jogar conversas de duplo sentido e até cometer umas aventuras extra-conjugais. Imagine que o rapaz se queixou de sua insegurança e solicitava ajuda para ser mais corajoso! Como assim? perguntei. Ele: É que gostaria de separar-me da minha esposa e morar com uma colega de trabalho pela qual estou apaixonado... mas tenho medo de dar errado e minha mulher não me aceitar de volta. Provoco: Fale com sua mulher, quem sabe ela aceita? Ao que, de pronto, responde: De jeito nenhum! E se ela não gostar e me mandar embora? Aí eu posso ficar sem ninguém!
Seria o caso de um pseudo filobata? Um ocnófilo borderline?
Eu próprio já tive algumas experiências de risco: Saí de Belo Horizonte e fui hospedar-me na casa do Milton Ribeiro, em Porto Alegre. Apenas o conhecera via blog. E se ele fosse o Vampiro de Dusseldorf? Outra: Comi lasagna na casa do Dom Afonso, autodenomimado O Chato. Nunca o tinha visto, a não ser pela sua chatura no blog, e nem pensei que o gremista pudesse envenenar um torcedor do Clube Atlético Mineiro. Mas arrisquei: filobata, eu? Pior: aceitei carona em um Honda Civic, no Rio de Janeiro!!! Diagnóstico definitivo!
Mas sou mineiro, montanhês, desconfiado, apegado à família, agarrado com Amélia, caseiro, estável no mesmo emprego e na mesma profissão. Pois que seja, sou mesmo ocnófilo!
Definir alguém como filobata ou ocnófilo pode ser, realmente, reducionista demais. Balint e Pierre Weil sabem disso e afirmam que não existem os tipos extremos, mas todos oscilamos entre um polo e outro, dependendo das circunstâncias e das fases da vida.
11 maio, 2008
Cartão virtual
04 maio, 2008
Viagem afetiva
Temos amigos valiosos na capital federal e queríamos estar perto deles e abraçá-los, para além do virtual internético ou dos telefonemas.
Assim, embornal a tiracolo, fomos num pé e voltamos no outro, mas a alegria dos encontros inundou nossos corações.
Primeiro, conhecemos a netinha meio-brasileira e meio-americana de Maria Auta e Valdir, numa festa de segundo aniversário cheia de brilho, balões, brincadeiras e boa conversa. O papai Guga, que vimos ainda de calças curtas, agora é um jovem empreendedor lá nos States. O tempo passa...
No dia seguinte, hora de abraçarmos mermão Paulo e sua Letícia, de quem falei algumas vezes, em especial neste post de 2004.Não era aniversário, mas também rolou a festa, juntou-se a família, filhos e namorado da filha, pois os laços afetivos são antigos e cultivados com encontros ocasionais, férias em conjunto, etc.
30 abril, 2008
28 abril, 2008
26 abril, 2008
Daylight
Quase posso tocá-las.
Se, ontem, a torre se banhava de luar, hoje mergulha no anil.
As coisas são sempre as mesmas ou mudam conforme o olhar?
Existem realmente ou apenas reverberam ondas de luz, mais intensas ou tênues, de dia e à noite?
Que mensagens são captadas por ouvidos tão atentos e numerosos, que florescem no tronco metálico?
Antenas são ouvidos e olhos?
Será que espiam meus passos, escutam-me ao piano, censuram meus pensamentos?
A torre é feia e bonita.
A torre.
23 abril, 2008
20 abril, 2008
Ecosofia
12 abril, 2008
Mirante
Serra do curral é a fortaleza de beagá [ouvi dizer há muito tempo: se acaso houvesse uma guerra nuclear nossa cidade seria protegida exatamente pela serra que deu o nome ao antigo arraial del rey, mais tarde belo horizonte capital das gerais].
Igualmente diziam que era tombada pelo patrimônio histórico ou pelo ibama ou por alguma outra entidade protecionista e que haveria o risco de a montanha acabar - o que não impediu às mineradoras tipo a famigerada mbr-mineradoras brasileiras reunidas que de brasileira mesmo só tinha a montanha já que o minério ia embora daqui a preço menor do que o de banana que por sinal está pela hora da morte [pelo menos é assim que diziam antigamente]... pois é não impediu às tais mineradoras que comessem quase tudo das entranhas do lado escondido daquele morro / a cidade do lado de cá foi subindo com favelas e com mansões tal como demonstra o aglomerado da serra e o taquaril e o alto vera cruz tudo favela sem falar do luxo do mangabeiras e do belvedere e da avenida seis pistas onde fica o biocor e mil outros empreendimentos imobiliários. Ufa!
...sempre foi uma alegria poder ver a serra lá do alto vindo de avião do rio de janeiro ele voando mais baixo preparando-se para descer na pampulha e eu de olho agarrado ali na janelinha a gente só vendo as serras da moeda e do rola moça à esquerda a br40 embaixo beirando a lagoa dos ingleses e lá longe à esquerda horrorizar-me com as crateras da mineração [solo lunar ou marciano tanto faz] muito feio e doído no coração da gente.
...de repente quase que num susto surge a cidade inteirinha por detrás do paredão da serra: um montão de prédio e casa e rua e a cidade toda espraiada sobre colinas com os carrinhos e ônibus de brinquedo correndo pelas ruazinhas tudo miniatura mas poluída mesmo assim bonita por natureza que beleza.
...e eu ali na janelinha do avião que se prepara para pousar em instantes no aeroporto da pampulha favor apertar os cintos e colocar o encosto das poltronas na vertical eu juntando jornais e revistas de bordo fecho a bandeja do lanche recém recolhido e guardo nas retinas nem tão fatigadas as imagens da cidade - pedacinhos que via e rotulava aqui é a praça do papa olha a avenida afonso pena ali e o mineirão já tão perto, nossa! a lagoa! a lagoa com a igrejinha de são francisco de niemeyer e o pic e o iate e o museu e a barragem.
Chegou!
Num tranco o trem de pouso bate na pista o bichão taxiando e meus olhos perscrutando (!) a varanda do aeroporto será quem veio me buscar? Amélia e os meninos ali.
Cheguei!
06 abril, 2008
LOUCURA: Festival e Museu
Hospício de Barbacena, 1912. Foto-reprodução by Cláudio Costa (5.abril.2008)A coisa se institucionalizou de tal forma que até a Estrada de Ferro Central do Brasil estendeu um ramal às suas imediações e autorizou a parada dos comboios, bem ali. Havia um desvio na estação, onde o guarda-freios desconectava o último vagão, repleto de loucos embarcados desde o longínquo norte mineiro: era o trem de doido, expressão elogiosa que define, hoje, algo muito bom.
1979: As possibilidades de transformação e extinção daquele inferno principiam em 1979, a partir do Movimento Nacional de Trabalhadores de Saúde Mental. Em julho, acontece em Belo Horizonte o Seminário de Psiquiatria Social, com a presença de Franco Basaglia, psiquiatra italiano, que visitou os hospitais psiquiátricos mantidos pelo Estado (Instituto Raul Soares e Hospital Galba Velloso, na capital; CHPB, em Barbacena). O jornalista Hiram Firmino escreve uma série de reportagens, intitulada "Os porões da loucura" . O cineasta Helvécio Ratton produz o documentário "Em nome da razão", retratando o interior dos porões, as precariedade da assistência, o descaso para com seres humanos desprovidos de qualquer dignidade. A sociedade se mobiliza. Os portões começam a ser abertos. Psiquiatras e outros profissionais se reúnem no II Congresso Mineiro de Psiquiatria. Bem devagar, mas inexoravelmente, as coisas começam a mudar.
2006: Em março de 2006, realiza-se o Primeiro Festival da Loucura de Barbacena, evento organizado pela Prefeitura. A princípio, só festa, como que para exorcizar os fantasmas e o estigma que traumatizava a própria menção do nome da cidade. Tom Zé, Hermeto Pascoal e Lobão fazem os shows. Há encenação de peças teatrais, exposição de artes e filmes.
Agora, em 2008, estive lá para o Festival da Loucura número 3: o evento cresceu e teve uma parte científica, com três mesas redondas: Nunca houve um homem como Heleno (aquele jogador do Botafogo, que faleceu no hospício); O Alienista (pelo centenário de Machado de Assis); Debate sobre o documentário Omissão de Socorro (de Olívio Tavares de Araújo), Van Gogh, o artista e o sujeito (sobre o homem que habitava o artista).
Neste final de semana pude ver a exposição de fotos, uma peça de teatro e visitei o Museu da Loucura.
Pois é, há 10 anos se criou, no "torreão" do antigo hospício, um museu com fotos, objetos e depoimentos sobre os porões da loucura. Métodos primitivos e desumanos para tratar os alienados não podem ser esquecidos para que nos lembremos de quão frágil era o pretenso cientificismo do início do século passado. Um alerta para nós, psiquiatras de hoje, que devemos avaliar cuidadosamente as promessas das neurociências: será que as certezas de hoje serão, um dia, objeto de museu?






