Basta pensar em sentir Para sentir em pensar. Meu coração faz sorrir Meu coração a chorar. Depois de parar de andar, Depois de ficar e ir, Hei de ser quem vai chegar Para ser quem quer partir. Viver é não conseguir. Fernando Pessoa, 14-6-1932
08 junho, 2006
06 junho, 2006
Cadê a Bahia?
Mas agora é tempo de refletir:
O empreendimento é espetacular: são 5 hotéis de alta categoria e 5 pousadas também de alto nível, tudo num espaço geográfico abençoado por Deus e bonito por natureza: mangues, dunas, mata atlântica, fauna e flora exuberantes, riachos e rios límpidos, praias quase infinitas... Mas... cadê a Bahia?
- Uai, mas você não estava exatamente na Bahia?
Pois é, acontece que a Costa do Sauípe tem um padrão globalizado, que nos priva do contato mais próximo com a genuína cultura local. Poderia estar situado nas Bahamas, na Flórida, no Ceará, na Indonésia que seria a mesma coisa!
- Anh? mas lá não tem comida baiana, lojas de artigos baianos na Vila da Praia, shows de axé-music e camisetas bordadas com berimbau, peixes, tartarugas, deuses do Candomblé, figuras de capoeira e artesanato indígena?
Tem tudo isso. Até algumas serviçais, no restaurante - aquelas que servem à mesa, por exemplo - estão vestidas de roupas típicas. Porém é tudo pasteurizado, globalizado, talvez até mesmo banalizado.
Por outro lado, não sei até que ponto as áreas de preservação foram respeitadas. Quero acreditar que os estudos de impacto ambiental foram feitos e suas conclusões obedecidas.
- Então, você não gostou?
Gostei e muito! Vale a pena passar uns dias lá, não restam dúvidas. Acho que, do ponto de vista econômico, aquele conjunto hoteleiro acrescenta muito ganho aos centenas - talvez milhares - de empregos gerados: numerosíssimos empregados atendem aos hóspedes diuturnamente, seja como arrumadeiras, cozinheiros, professores de ginástica, comerciários, prestadores de serviços, todos ganham seu salário e aprendem muita coisa. O treinamento parece ser de primeira qualidade e tudo flui muito bem. Além disso, há os fornecedores para restaurantes, bares, lojas de roupas e artesanato, etc., etc. As divisas geradas pelo turismo são enormes: passagens aéreas, translados, investimentos em infra-estrutura, etc. Não nego isso e sei que é uma "indústria sem poluição", como dizem. Viva o turismo!
- Talvez o "produto interno bruto" da Costa do Sauípe seja maior do que da maioria dos municípios brasileiros.
Entretanto, um turista que se limite a gozar suas férias ali dentro não terá a menor noção do que seja a Bahia e, muito menos, do que é o brasileiro. Isso me causou certo desconforto, digamos, espiritual e cívico.
Comparei com outras viagens que já fizemos, nas quais o contato com a população em seu habitat nos proporciona uma experiência quase antropológica. Um turista mais atento às peculiaridades humanas dos habitantes poderá vivenciar a espontaneidade da população, ao invés de se deparar com sorrisos bem treinados ou a atenção estudada apenas com intuito de nos vender algo, como se tudo no mundo fosse pura mercadoria.
Pois a sensação de sermos meramente um consumidor privilegiado nos é passada num lugar tão bonito, tão deliciosamente desenhado para o máximo prazer. É quase impossível escapar do apelo do marketing.
Sei que há turistas que só pensam em gastar e comprar, voltam pra casa com as malas cheias de souvenires e outras bugigangas, sequer prestando atenção à realidade local. São capazes de ir a Nova York, a Paris, a Roma ou a Petrópolis apenas pensando em descobrir lojas e shoppings onde possam exercitar seu poder de compra. Estes, a meu ver, foram, isso sim, comprados pelo sistema: são consumidores consumidos pela apelo do consumo! Vão à Costa do Sauípe e não à Bahia.
A estes, gostaria de perguntar:
- Cadê a Bahia?
05 junho, 2006
Passeio pela blogosfera
- 1. Um pouco de psicologia bem humorada, no Ontem e Hoje, do Soié.
- 2. O dia dos namorados vem aí. Mas o amor... no Livros & Afins.
- 3. E não é que as Mineras entem de Futebol? Mineiras, uai!
- 4. Mais comentários, críticas, notícias, bastidores, estórias sobre a copa? Um bando de "cobras" dá um banho na imprensa convencional no Verbütsfussballbloge. (Tá em Português, só o título é esse amontoado de consoantes!)
- 5. Já na contagem dos seus "anos 50", D. Afonso, o Chato menos chato que os não chatos, voltou.
04 junho, 2006
Sauípe, últimos minutos...
02 junho, 2006
Costa do Sauípe-Bahia
30 maio, 2006
Querer ou Desejar?
Quantos de nós respondemos a um convite, com a indefectível fórmula: -"Gostaria muito de ir". Se usamos a esfarrapada desculpa do "ah! esquecí-me!, nosso interlocutor nos olha com ar de desprezo ou ironia, como se dissesse: -"Arranja outra desculpa, ô meu!
O "querer" é algo consciente, dito abertamente ou não. Quero isso e não quero aquilo. O "desejar" mora em outro cenário, bem mais embaixo, lá no "porão" do inconsciente, e nem sempre é tão acessível. Pode até acontecer de a gente "querer" o que não se deseja e "desejar" algo que, conscientemente, negamos. Tratam-se de desejos inconfessáveis, socialmente incorretos, o dos quais nos envergonhamos. Ou desejos que conflitam com nossa formação, nossos valores. Às vezes tememos o que queremos. É como se torcêssemos - sem o saber - para algo dar errado: assim, alguém fracassa num concurso para não ter de mudar de cidade; outro "se esquece" de um telefonema importante para resolver certo problema... somos mesmos complicados.
Aliás, o "desejo" nunca se realiza completamente, estando o "objeto desejado" escorregando sempre para um mais além, o que, graçasadeus, sustenta o próprio desejo.
Nós não somos donos dos nossos desejos, mas somos responsáveis por eles.
Como nem sempre se coadunam "desejo" e "querer" mais os "laços sociais" que se tramam ou se desfazem de acordo com a cultura, ficamos por aí, "peregrinando neste vale de lágrimas" que é a nossa vida, pontuada de momentos felizes e de vicissistudes.
Agora, tem uma coisa: quase sempre, para não dizer sempre, somos presenteados de acordo com nosso empenho.
Sem esforço, nada feito.
29 maio, 2006
Surfando no Houaiss
Quando leio, se me deparo com um vocábulo desconhecido, não sossego enquanto não encontrar o significado exato, mesmo que já o tenha deduzido pelo contexto.
Acho também muito divertido descobrir as diferenças entre o linguajar de Portugal e o nosso: Saramago, por exemplo, me provoca a buscar no dicionário aquelas palvras que só os "patrícios" utilizam.
Um dos papos que tenho com meu filho Léo, quando lhe dou carona pela manhã, gira em torno de palavras que surgem sei-lá-de-onde. De repente, pergunto-lhe:
- Léo, o que é mequetrefe?
- Sei lá, pai.
- Pois olhei ontem no Houais. Mequetrefe é indivíduo intrometido, dado a meter-se no que não é de sua conta; enxerido; indivíduo de caráter duvidoso; patife, mariola, biltre; indivíduo sem importância, inútil, insignificante; borra-botas, joão-ninguém.
- Nossa! conheço tanto mequetrefe, hahaha...
Descubro, outrossim, nomes impensáveis para coisas do dia-a-dia. Aqui em Minas é de um jeito, lá no Sul é de outro e, no Norte, mais diferente ainda.
- Por exemplo?
- Aqui, aquele cítrico que descascamos com a mão, com odor delicioso, é a mexerica. No Sul, um aluno meu, de Florianópolis, me disse que é bergamota. Outros chamam de tangerina. Será que são frutas diferentes ou são a mesma?
Outro dia, numa daquelas conversas com o Léo, perguntei-lhe:
- Léo, você que cursa Direito, pretende ser um leguleio?
- Ah! pai, não enche!
- Vamos, diga!
- Sei lá, fala logo o que é.
- Tá bom. Leguleio é aquele advogado que observa rigorosamente as formalidades legais, interpretando a lei sem atentar para o espírito que a norteia; profissional formalista; advogado que se vale de meios para confundir uma questão ou protelar o andamento das causas.
- Ih! pai, tá cheio de advogado assim! O pessoal adora protelar as coisas. Tem ação judicial que demora anos, tantos e infinitos recursos são utilizados.
Pois não é que, recentemente, o mesmo Léo, que já é estagiário em um escritório de Advocacia, chegou todo contente?
- Pai, utilizei aquela palavra numa "Apelação de Contra Razões a um Recurso Extraordinário", encaminhada ao STF!
- Qual palavra?
- Aquela: leguleio!
É, pelo visto, a peste tá contaminando o garoto, hehehe...
28 maio, 2006
Sobremesa improvisadíssima de domingo
Inredientes:
Para o pudim
• 3 copos de leite
• 5 ovos inteiros
• 9 biscoitos tipo maria
• 3 colheres de açúcar
Para a calda
• 1 xícara de açúcar
• Meio copo de água
Como fazer: Bater no liqüidificador o leite, os ovos, os biscoitos e o açúcar. Fazer, na própria fôrma de pudim, uma calda mais grossa, espalhando-a bem na vasilha – a calda deve ocupar três dedos da fôrma. Despejar a massa na fôrma e assar o pudim em banho-maria, em forno pré-aquecido (180 graus), durante 40 minutos. Desenformar e deixar esfriar. Pode ser levado à geladeira antes de servir.
Fica igualzim pudim-de-leite-condensado!!!
[Receita fornecida por Norma Barreto da Silva,
de Medina-MG]
Mais receitas típicas de nossas Minas Gerais, selecionadas por região, você tem no imperdível site: Sabores de Minas.
25 maio, 2006
"Caracu com ovo" é delicioso???
Lá na pequena Nova Era - banhada pelo Rio Piracicaba, no Vale do Aço - a "modernidade chegou um pouco antes. Pouquíssimas famílias tinham TV e nós, crianças, ficávamos doidos para assistir algum programa e, na maior cara-de-pau, pedíamos aos vizinhos que nos deixassem vem desenhos e até filmes. Hoje, imagino o quanto éramos inoportunos em nossa curiosidade infantil. Tanto assim que os pais nos repreendiam e tentavam controlar nossa falta de senso crítico.
Os próprios adultos, porém, não resistiam e, quando iam buscar os filhos nas casas dos vizinhos, ficavam para assistir ao Repórter Esso, o telejornal emitido pela TV Tupi e retransmitido, em Minas, pela TV Itacolomi.O Repórter Esso tinha credibilidade total. Seu locutor era o Gontijo Teodoro, que dava "Boa Noite" ao Brasil pontualmente às 20h. Nunca me esqueci do jingle que marcou a propapaganda brasileira:
Só Esso dá a seu carro o máximo
Só Esso dá a seu carro o máximo
Veja o que Esso faz!"
Mas foi uma propaganda que eu adorava que me levou a desacreditar das "verdades" do marketing. Era o jingle da Caracu, repetido em todos os intervalos, que eu decorei:
Um receita
Muito gostosa
E fácil de fazer:
Arranje um ovo
E uma Caracu
E bata no liquidificador
Chá-chá-chá
Caracu com ovo
é delicioso
Caracu com ovo
É delicioso..."
Menino, eu nem tomava cerveja. Mas o desenho animado da propaganda e aquela musiquinha me convenceram. Um dia, insisti com meu pai para fazer a tal receita. Ele argumentou que deveria ser muito ruim, não era coisa para criança, amargava, etc. Mas tanto insisti, ajudado por meus irmãos, que Soié finalmente cedeu. Corri ao bar da esquina, comprei a garrafinha daquela cerveja preta e cheguei ofegante em casa. Meu pai, minha mãe e meus irmãos em torno da mesa, o ovo já esperando! "Ovo cru", eu lembrei. O líquido foi derramado dentro do copo do liquidificador, ajuntamos o ovo e... chá-chá-chá! Cada um com seu canequinho, loucos para provar daquilo que a tv nos convencera de que seria de-li-ci-o-so!Ninguém conseguiu engolir aquele troço espumante amargo, ruim, gosmento.
Meu pai caiu na gargalhada:
- Não falei? Eu bem disse que não era bom.
Ainda tentei argumentar:
- Mas na televisão fala que é delicioso!
E ele:
- E vocês acreditam em tudo que passa na tv?
Aprendi. E isso me serve de lição até hoje...
24 maio, 2006
Auxilium profligatis contumelia est.
Muita gente se pergunta por que os iraquianos, afegãos e outros povos invadidos pelos norte-americanos, especialmente pelos "Bush boys", reagem agressivamente contra aqueles que se propõem a "ajudar a restaurar a democracia, acabar com a fome e a miséria, melhorar as condições de vida" e outras benesses. E garantir o fornecimento de petróleo, que ninguém aqui é bobo, né?Sem menosprezar as explicações dadas por especialistas internacionais, sabedores de geopolítica e quejandos, nomeio este post com uma das sentenças de Siro.
- Quem é este Siro?
- PUBLIUS SYRUS(c. 85 - 43 a.C), era poeta latino, escravo em Roma durante sua juventude e, após ser libertado, percorreu diversas vilas da Itália, declamando suas peças burlescas, recheadas de lições de moral. Algumas de suas sentenças se conservaram até hoje.[M.-N. Bouillet, Dictionnaire Universal d’Histoire et de Géographie. Paris: Hachette, 1857, p. 1462].
- Anh!...
Pois bem , o que Siro teria a dizer ao pretenso Senhor do Universo, aquele presidente "bonzinho" do Norte?
- Auxilium profligatis contumelia est!
- Traduza:
- Taqui a tradução para Bush: Help wounds the pride of those whose cause is lost!
- Como dizia meu avô: Ajuda depois da derrota é afronta...
Dica para quem quer arrumar a companhia ideal até o Dia dos Namorados
Não sei o que tem a vaca a ver com a coisa, ou a coisa a ver com a vaca, mas a notícia saiu no jornal de hoje e repasso. O link é este AQUI.22 maio, 2006
Pequeno exercício de memória literária
Desde criança, os livros são minha companhia. Em casa, tinha incentivo e exemplo dos meus pais, Soié e Aparecida. O meu tio Ismar me presenteava, volume a volume, com a coleção completa do Monteiro Lobato, em cujas páginas descobri o Sítio do Pica-pau Amarelo, Dona Benta, Narizinho, Pedrinho, Emília e o impagável Visconde de Sabugosa! Cheguei a ter um porco batizado de Rabicó, cujas carnes deliciosamente temperadas por minha mãe eu saboreei quase chorando!
No Colégio do Caraça, onde fiz o "ginásio", o regulamento era rigoroso, as atividades cronometradas e os momentos de estudo se revezavam com os desejadíssimos "recreios". Havia horário para tudo, inclusive para "leitura livre". Este era o momento em que podíamos ir às estantes da biblioteca e retirar livros de aventura, policiais, literatura, poesia, enciclopédias.
Os mais velhos hão de lembrar do Tesouro da Juventude, indicado para crianças e adolescentes, provavelmente cheio de referências educacionais da pequena burguesia americana do pós-guerra. Na época, esse tipo de crítica nem passava na minha cabeça. Nunca mais vi seus 18 volumes, encadernados e ilustrados, com capítulos que abordavam temas de ciências naturais, física, literatura infanto-juvenil, curiosidades. Eu adorava a seção "O livro dos porquês"! Por que o barulho do trovão aparece depois que vemos o raio? Por que a água ferve? Por que o iceberg flutua? Por que a lua parece maior perto do horizonte? Lá ia eu viajando em busca de conhecimento. Hoje, talvez, um jovem pesquisaria nas ondas da internet, mas creio que não tem o mesmo frisson dos meus 13 anos.
Li toda a coleção de Agatha Christie, com crimes e mistérios resolvidos sempre de maneira surpreendente pelo detetive Hercule Poirot.
Devorei quase todos os volumes de Sherlock Holmes, o detetive criado por Conan Doyle. "Elementar, meu caro Watson" virou expressão minha, também, quando era perguntado sobre algo que meus colegas não sabiam.
Julio Verne e seus livros premonitórios alimentaram meus desejos de me tornar cientista - hoje tanta coisa se realizou, a começar pela viagem à lua e pelas navegações dos submarinos... Sentia-me na pele do Capitão Nemo, viajava pelas profundezas do oceano, temia os tentáculos do imenso polvo que ameaçava o Nautilus.
A adolescência foi passando e me aproximei dos clássicos: Dostoievski! Quanta emoção ao ler Crime e Castigo. Quanto suspense com Os Irmãos Karamazov!
Machado de Assis e seus contos abriram as comportas da literatura brasileira. Sem falar no Bras Cubas, Bentinho e sua Capitu... Júlio Ribeiro e o escândalo de A carne me apresentaram a libido, o proibido... Aluísio de Azevedo e seu Ateneu...
Conheci os cronistas Drummond, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos... Os poetas Drummond e Bandeira; Thiago de Melo e Raul Bopp - quem conhece? Clarice Lispector... ah! bons tempos de descobertas dos meandros da alma humana.
Passei pela fase dos best-sellers: Morris West e as Sandálias do Pescador, O Advogado do Diabo; Sidney Sheldon... nada de grande literatura, mas o mundo desfilava ali naquelas páginas recheadas de aventuras em lugares exóticos, distantes, cidades que jamais imaginava poder visitar.
A literatura fantástica latino-americana foi uma revolução! Gabriel Garcia Márquez e sua cidade impossível: Macondo, os Buendía e gerações que se misturavam em Cem Anos de Solidão. Livro de cabeceira, este. Inesquecível!
Daí, foi um pulo só para descobrir Guimarães Rosa, esse sem-nome de tão impressionante, rico, revolucionário da língua. Rosa me fez mergulhar na minha terra, que pouco conhecia: o sertão, o rio Urucuia, jagunços, Diadorim, Riobaldo: Grande Sertão: Veredas!!! Primeiras Estórias, Tutaméia, os contos, a linguagem inventada, ali, na boca dos personagens: "Minas são muitas".
Já nas décadas de 70 e 80, enquanto cursava Filosofia na UFMG, conheci os clássicos gregos, os filósofos, Édipo Rei... quem sabe aí nasceu minha vocação para a Psiquiatria e a Psicanálise? Sartre, Simone de Beauvoir, Albert Camus, esses existencialistas também "fizeram minha cabeça".
Freud veio depois: descobri "o outro lado", "os porões do inconsciente", os códigos dos sonhos...
Aprendi a evitar os best-sellers. Foi a custo que li as pseudo-revelações do Código da Vinci: dever de ofício que me divertiu um pouco. Não tem literatura nenhuma ali, já disse isso em um post anterior.
Agora virou filme. Quando passar "a febre", vou lá conferir. Será que vale a pena?
20 maio, 2006
Sábado é dia de...
O tema foi:
Paprocki abordou rapidamente a evolução dos conceitos de doença psiquiátrica, os avanços da indústria de psicofármacos, aspectos estatísticos da Depressão e Transtorno Obsessivo Compulsivo. É impressionante o preconceito que ainda dificulta a busca de tratamentos: apenas 10% dos brasileiros podem pagar medicamentos "originais". Os demais 90% dependem de genéricos, similares, manipulados e ... crendices.
Sua opinião sobre a confiabilidade nos divesos tipos de medicamentos oferecidos:
- medicamentos originais, produzidos por indústrias sérias: crença na seriedade das indústrias - "seriam os melhores, mais confiáveis, porém caros.
- medicamentos similares: crença na qualidade dos insumos - Paprocki diz: não acredita. Exemplifica: apenas nos países sub-desenvolvidos (ex.: Brasil) existem similares! Se os "asiáticos" falsificam tênis, CDs, aparelhos eletrônicos, por que não falsificariam medicamentos, que é muito mais fácil?
- medicamentos genéricos: crença nos insumos e na fiscalização da Anvisa: são apenas 1800 fiscais no Brasil para fiscalizar centenas de laboratórios...
- medicamentos manipulados: Paprocki duvida dos insumos - onde são produzidos? , como testar sua bioequivalência, se cada teste custa, em média R$ 600 mil?, quem fiscaliza? Para ele, só mesmo "crença em Deus". E acrescenta: "não que eu duvide da Divina Providência, mas acho que Êle não está muito preocupado em vigiar e fiscalizar as farmácias de manipulação!".
2. Consertar dois chuveiros elétricos aqui em casa, queimados exatamente num dos dias mais frios do ano! Mas deu tempo: afinal, "homem em casa" serve pra quê?
3. Continuar a leitura do imperdível "Um defeito de cor", da Ana Maria Gonçalves. Uma brevíssima apresentação do livro de 952 páginas está bem aqui. E no MineirasUai! tem comentário feito pela Ana Letícia.
4. Atender telefonema da filhota Ana Letícia, que uma hora dessas está num casamento lá em Santa Bárbara do Oeste-SP! Saudades...
5. Morrer de rir lendo o último post do Soié, meu pai: Ontem e Hoje.
6. Uma namoradinha também, para aquecer corações e lençóis...
18 maio, 2006
Uma noite muito louca
Minha mulher e eu, depois de uma semana de férias no litoral norte do Estado do Rio, resolvemos passar um fim-de-semana em Teresópolis.
Deixamos para trás a baixada fluminense, após derivarmos à direita, na Via Lagos, via Itaboraí, depois Guapimirim, já no entroncamento com a BR-116, no sopé da Serra dos Órgãos. Daí, serpenteamos...
Leia a íntegra aqui : Livros & Afins.
16 maio, 2006
Da violência
- Anh?
- Lembra-se do "Mal estar na civilização", de Freud?
- Ah! vou ler.
- Tá nas Obras Completas dele, vai lá.
A história da violência (violência = uso da força) se confunde, pois, com a história do ser humano. Já no primeiro livro bíblico, aprendemos que os filhos de Adão e Eva se envolveram numa briga, por ciúmes: Caim, não suportando o que ele interpretou como preferência divina por Abel (já que a fumaça de seus sacrifícios -ao cremar as oferendas- subia em linha reta para o céu) deu cabo de seu único irmão.
Tá bom, isso pode ser apenas uma lenda judaica, mas serve de paradigma: se mesmo os irmãos de sangue brigam e se matam, quem não será capaz matar? Assassinatos ocorrem em nome do amor... Guerreiros executam inimigos em nome da pátria... A polícia mata defendendo a legalidade... A Igreja, o Islã, o Protestante, todos mataram e ainda o fazem em nome da Fé... (Diz-se que as motivações religiosas já foram responsáveis por matanças mais numerosas do que todas as guerras por território!) E matam em nome-de-Deus!
Existem casos de homicídio, parricídio, filicídio, etc. A maioria dos casos de abuso sexual e violência física contra crianças acontece dentro de casa, por uma parente!!!
Quando ficamos com raiva de alguém, dizemos: "Fulano morreu prá mim!", ou seja: Eu o matei
A raiva mobiliza os impulsos agressivos (normais, naturais e necessários à sobrevivência) e há uma identificação com o agressor: prega-se a violência contra o bandido, já que ele é ou foi violento contra a sociedade. Daí a Lei do Talião: "olho por olho, dente por dente".
Para controlar a violência inerente ao ser humano a própria humanidade tem se esforçado desde tempos imemoriais. Na antiga Mesopotâmia, criou-se o primeiro código legislativo de que se tem notícia: o famoso Código de Hamurabi (meu irmão Bonifácio e minha filha Ana Letícia podem dar aulas sobre isso).
Muitos confundem "violência" com "agressividade".
Violência é o uso da força (geralmente o termo é empregado quando se trata de abuso do mais forte sobre o mais fraco - mesmo que seja mais forte psiquicamente (violência psicológica), mais forte porque se tem mais dinheiro, mais forte porque se tem mais poder, mais forte por se sabe mais, mais forte porque se é mais esperto, etc.). A violência é um ato de poder.
Já "agressividade" significa "caminhar com esforço em direção a".
- Como?
- É, vem do Latim: ad+gredere.
- Anh...
Assim, alguém que busca com determinação conquistar determinado objetivo está sendo "agressivo" - no bom sentido.
Pessoas que não exercem sua capacidade de agredir geralmente são frouxas, bananas, não buscam o que querem.
- No bom sentido, né?
- É.
A violência pode ser exercida através de atos agressivos - no mau sentido, agora - mas também pode ser sutil, disfarçada, travestida de bondade. Os psicopatas sabem como fazer isso muito bem.
A civilização humana se erigiu sempre pela violência: guerras de conquistas, espoliação dos vencidos, invasões de territórios, negação dos direitos humanos. Assistimos a "construção" da civilização diariamente nos noticiários. Aprendemos isso, pois este é nosso caldo de cultura.
- Alguém conhece um jeito diferente?
- Difícil.
- Eu também acho.
- Sonhar não custa...
- Tá bom, ciao!
15 maio, 2006
Direto do front
14 maio, 2006
Chafurdando, chafurdando...
Não estou defendendo o atual ocupante do Palácio do Planalto, muito menos seu partido, mas reflito sobre a destituição do "lugar" da autoridade.
Criticar, denunciar, apontar os erros: tudo isso deve ser feito pela imprensa, cuja liberdade é direito constitucional.
Mas o que se vê, por aí, é do mais baixo nível e acaba por banalizar a denúncia e amortecer a indignação.
Há um outro lado da mesma moeda:
Há algo de podre na imprensa, quando as reportagens deixam de ser informativas e se tornam puramente opinativas, caluniadoras, propagadoras de ideologias (de direita ou de esquerda, não importa).
Há jornais que enaltecem o "governante de plantão". Vedem-se por quaisquer 30 dinheiros e elogiam o Governador, o Prefeito, o poderoso. Escondem as falcatruas, elogiam os governantes "da hora", em troca de favores, anúncios oficiais, anistia fiscal, etc.
2. A cidade e o estado de São Paulo estão mergulhados na maior onda de violência comandada pelo crime organizado de que se tem notícia.
Agora, há pouco, os números atualizados indicam que já foram assassinadas 52 pessoas em menos de 48 horas. Sem falar em rebeliões nos presídios do interior. O governador em exercício, Cláudio Lembo, disse que "já sabia que os ataques iriam acontecer".
- Pois é, e por que não alertou a polícia? Hein? Hein?
O ministro da Justiça ofereceu ajuda da Polícia federal. Olhe aqui a resposta:
"O governador de São Paulo, Cláudio Lembo, descartou neste domingo a ajuda da Polícia Federal para conter a onda de ataques de facções criminosas que aterroriza a população do estado de São Paulo desde sexta-feira. Apesar de terem sido registradas 52 mortes, cem ataques e mais de cinqüenta rebeliões estarem em andamento em São Paulo, o governador disse que a situação está sob controle."
- Se está tudo sob controle, então podemos dormir em paz... enquanto os políticos transformam uma tragédia social em campanha eleitoral.
Argh!
________
UP DATE: o caos piorou hoje, segunda-feira!!! Como disse o Cláudio "Limbo": "tudo sob controle"...
12 maio, 2006
"Um defeito de cor", da Ana Maria Gonçalves
- Quem é Kehinde?
- Kehinde nasceu no reino do Daomé, em 1810 e a cena antiga, primordial da qual se lembra é traumática. Abre o livro. Revelar, numa resenha, o que acontece nas primeiras 10 páginas deste livro seria um pecado comparável a revelar o final do melhor thriller. Ela foi violada, foi escrava, foi mãe; foi também preta liberta, pequena capitalista, refugiada, mulher de inglês, dona de padaria, revoltosa com os muçurumins da Bahia de 1835, libertadora de outros pretos, brasileira de volta na África. Ela é o Riobaldo-Diadorim dos subterrâneos da história brasileira do século XIX. Ana contou essa história. (leia mais no Biscoito Fino e a Massa.)
- Quem é Ana?
- Ana Maria Gonçalves é a autora de Um defeito de cor, escritora, poeta, que nos brinda com suas letras e emoções no blog (sim, blogueira, a danada!): 100 Meias Confissões da Aninha. Se o blog é imperdível, que dizer de Um defeito de Cor?
Taí o convite:
É claro que estaremos lá, hoje à noite.Se não bastasse essa efeméride (êpa!), a última, quase um furo de reportagem, leiam esta comunicação:
Assessoria de Imprensa do Gabinete
Palácio Itamaraty
Térreo
Brasília - DF
CEP: 70170-900 Telefones: 0(xx) 61-3411-6160/2/3
Fax: 0(xx) 61-3321-2429
E-mail: imprensa@mre.gov.br
Nota nº 295 - 11/05/2006
Distribuição 22 e 23
Resultado do Concurso Internacional de Monografias Machado de Assis
A Comissão Julgadora do Concurso Internacional de Monografias Machado
de Assis, reunida no último dia 28 de abril em Brasília, anunciou os
nomes dos candidatos premiados. São os seguintes os vencedores, por
ordem de classificação:
- 1º lugar: Idelber Avelar, "Ritmos do popular no erudito: política e
música em Machado de Assis" (Consulado-Geral em Miami).
Mais um motivo para ir à festa da Ana Maria Gonçalves, pois o Idelber estará lá, em corpo e alma. Mais motivos para distribuir meus amplexos (êpa!).
Vamos?
A foto registra o momento em que Ana Maria Gonçalves nos autografa seu livro e nos brinda com uma dedicatória delicadíssima.Idelber e Ana nos receberam com muito carinho e logo nos sentimos à vontade, entre os amigos que já degustavam uns tira-gostos, uma caninha e uma cervejinha. (Tudo no diminutivo, coisa de mineiro mesmo, que bota um "inhozinho" quando o coração fala alto e as emoções brotam espontaneamente).
"Um defeito de cor" demandou 2 anos de pesquisa, nove meses de escrita e 1 ano e meio de revisão: "de reescrita", diz a Ana. São 952 páginas. Para obra tão bem elaborada, não cabe o "inho": é um livrão!
Idelber, o premiado do Itamaraty, me apresentou o livro que publicou há 2 anos: Alegorias da Derrota: a ficção pós-ditatorial e o trabalho do luto na América Latina. Trata-se de um estudo do luto e da melancolia nas literaturas e culturas latino-americanas pós ditatoriais. Tem muita literatura e psicanálise. Biscoito fino, já viram, né?
Agora, vocês dão uma licencinha que vou ler um pouquinho. Aqui do lado, apesar da hora, tem um pedacim de queijo e um cafezim.
- Aceitam?
07 maio, 2006
Ouro Preto, Livre do Tempo
Ouro Preto fala com a gente
de um modo novo, diferente.
Outras cidades se retraem
no ato primeiro da visita.
Depois desnudam-se, confiantes,
e seus segredos se oferecem
como café coado na hora.
Há mesmo cidades, sensuais,
concentradas na espera ansiosa
de quem, macho, logo as domine.
Abrem-se as portas de tal modo
que são coxas, braços abertos.
Em Ouro Preto, redolente,
vaga um remoto estar-presente.
Há em Ouro Preto, escondida,
uma cidade além-cidade.
Não adianta correr as ruas
e pontes, morros, sacristias,
se não houver total entrega.
Entrega mansa de turista
que de ser turista se esqueça.
Entrega humílima de poeta
que renuncie ao vão discurso
de nomes-cor, palavras-éter.
A hera e a era, gravemente,
aqui se apagam, na corrente.
De nada servem manuscritos
de verdade amarelecida.
Não é lendo nem pesquisando
que se penetra a ouropretana
alma absconsa, livre do tempo.
É deixando correr as horas
e, das horas no esquecimento,
escravizar-se todo à magia
que se impregna, muda, no espaço
e no rosto imóvel das coisas.
Pois tudo aqui é simplesmente
lucilação do transcendente.
A metafísica tristeza
que rói as vestes do passado
desaparece ante a serena
sublimação de todo crime,
lance heróico e lance romântico.
Ouro Preto, a se desprender
da sua história e cincunstância,
é agora ser de beleza,
completo em si, de todo imune
ao que lhe inflija o ser humano.
A ruína ameaça inutilmente
essa idéia não contingente.
Quem entende Ouro Preto sabe
o que em linguagem não se exprime
senão por alusivos códigos,
e que pousa em suas ladeiras
como o leve roçar de um pássaro.
Ouro Preto, mais que lugar
sujeito à lei de finitude,
torna-se alado pensamento
que de pedra e talha se eleva
à gozosa esfera dos anjos.
Ouro Preto bole com a gente.
É um bulir novo, diferente.
______ooo)0(ooo______
Fotos: Cláudio Costa
05 maio, 2006
Pernas pro ar...
Curtiremos, curtiremos...
Até!
04 maio, 2006
Memória x repressão x poesia
Lembrei-me agora de como fui me despertando para o mundo simbólico da poesia. Não aquela poesia "escolar" aprendida no Grupo Escolar Desembargador Drummond, lá de Nova Era, terrinha mineira e simpática às margens do Rio Piracicaba...não. Falo de quando minha cabeça foi se abrindo... [leia o texto integral no Livros & Afins]
30 abril, 2006
Visita especial
- Como assim?
- E quem não conhece o Soié e sua eterna namorada, Aparecida?
- Uai, nunca ouvi falar.
- Pois corra lá no blog dele. Tem cada história...
Pois é, arrancaram-se lá de Nova Era, trazidos pelo mano Clóvis. De quarta-feira a sábado, hospedaram-se na casa do mano. Ontem, pela manhã, vieram para cá, de mala e cuia. São apenas os dois, mas a casa fica cheia: cheia de alegria, conversas, casos imperdíveis como apenas o Soié sabe contar. A "mama" participa de tudo, relembra os tempos em que conheceu o "eterno namorado". Às vezes, nos animamos e, ao piano, acompanho-a enquanto canta as músicas de antigamente, aliás, eternas.

Tê-los junto a nós, com saúde e lucidez, é uma felicidade.
- Uma bênção, emenda minha mãe.
- Isso mesmo, uma bênçao.
Ainda ontem assistimos o grupo folclórico Sarandeiros, da UFMG, que apresenta danças e cantos no espetáculo Gerais de Minas: congado, catira, festas do Rosário, folia de Reis, cantos das lavadeiras, etc. Foi uma "viagem" ao interior de nossa terra, cantigas de outros tempos, procissões, estandartes, referências da cultura afro-religiosa que moldaram os grotões recônditos entre vales e montanhas.- Gostaram?
- Muito, muito, espetacular! exclamou Soié.
Hoje o almoço foi festivo: aniversário dos sobrinhos Fabrício e Lílian, filhos do mano Clóvis. Escolhemos o Rancho do Boi, um belíssimo restaurante situado bem no interior da Mata do Jambreiro, na saída da BR-40, em direção ao Rio. Muita festa, comida, alegria, música ao vivo, bolo e "parabéns pra você", como convém. A picanha maturada argentina grelhada e finalizada pelo garçom na chapa com pasta de alho é um dos pratos principais da casa. Fomos 11 pessoas: Soié, Aparecida, Clovis, Consola, Fabrício, Lílian, Sheila - minha irmã - Ana Letícia e Daniel, Amélia e eu aqui.
Feriadão em família... há muito tempo isso não acontecia. E ainda resta amanhã, segunda, dia do Trabalhador.
Dia do Trabalho rima com Dia de Folga.
- Anh?
- Ninguém é de ferro, uai
24 abril, 2006
Meu imposto de renda e Balzac
Pra mim, é difícil achar atividade mais ingrata, por vários motivos:
1. a própria definição da "coisa": imposto, o que não é voluntário: ou faz ou então...
2. a constatação de que trabalho quase 5 (isso, mesmo, cinco!) meses ao ano para pagar os impostos, tributos, contribuições previdenciárias, iof, ipmf, etc. Sem falar nos impostos embutidos em tudo quanto é produto que a gente compra.
3. a odisséia de procurar os documentos do ano passado, conferir cpfs e cnpjs, olhar recibos de pagamentos efetuados, saldos bancários, etc.
4. constatar que o ítem do tal "evolução patrimonial" continua mirrado, mirrado. Enquanto os bancos lucram bilhões com a nossa contribuição, a gente continua suando a camisa pro arroz e feijão, mais uma ou outra gracinha.
5. descobrir, contra toda a esperança, que NÃO vou ter restituição nenhuma, pelo contrário, vou é contribuir mais e mais.
6. saber - ai, que dor - que dificilmente veremos algum benefício concreto com o imposto pago: as estradas vão continuar esburacadas, as filas vão continuar nos postos de saúde, muitos ficarão sem remédios, as escolas públicas não darão conta do recado - e a gente vai ter mesmo de custear empresários particulares que estão ganhando tubos de dinheiro com suas instituições educacionais (algumas são arapucas, todos sabem)...
Para descansar a cabeça, aliviar o espírito e curtir um pouco o domingo, aceitei a sugestão da filhota Ana Letícia e aluguei um DVD:
Nome do filme: Balzac e a costureirinha chinesa
Título Original: Balzac et la Petite Tailleuse Chinoise
Produção França/China (2002)
Direção: Dai Sijie
O resumo da história:
A história de BALZAC E A COSTUREIRINHA CHINESA se passa no fim da década de 60, quando o líder chinês Mao Tse-Tung lança uma campanha que mudaria radicalmente a vida do país: a Revolução Cultural. Entre outras medidas drásticas, o governo expurga das bibliotecas obras consideradas como símbolo da decadência ocidental. Mas, mesmo sob a opressão do Exército Vermelho, uma outra revolução explode na vida de três adolescentes chineses quando, ao abrirem uma velha e empoeirada mala, eles têm as suas vidas invadidas por Balzac, Dumas, Flaubert, Baudelaire, Rousseau, Dostoievski, Dickens...Os proibidos!
BALZAC E A COSTUREIRINHA CHINESA é uma crônica da vida na China durante a revolução de 68. Um romance sobre a felicidade da descoberta da literatura, a liberdade adquirida através dos livros e a fome insaciável pela leitura, numa época em que as universidades foram fechadas e os jovens intelectuais mandados ao campo para serem "reeducados por camponeses pobres".
Entre os que tiveram de abandonar as cidades está o narrador de BALZAC E A COSTUREIRINHA CHINESA e seu melhor amigo, Luo. O destino deles é uma aldeia escondida no topo de uma montanha. A vida não é fácil para a dupla, mas com muita coragem, senso de humor, uma forte imaginação e a companhia da Costureirinha — a menina mais bela da região — o tempo vai passando. Até que descobrem a mala repleta de livros banidos pela Revolução Cultural. As obras, sobretudo Ursule Mirouët, de Balzac, revelam aos adolescentes uma realidade que nunca haviam imaginado. E é por intermédio desse mudo novo além das fronteiras chinesas, e dos grandes mestres da literatura que o narrador, Luo e a Costureirinha compreendem que suas vidas pertencem a algo muito maior.
Minha opinião: trata-se de um filme muito bem feito, reconstituindo o ambiente da década de 60, nas altas montanhas da China. Delicado, romântico, ótima música, "bom pras cabeças".
Valeu!
22 abril, 2006
Saiu no Jornal
Trata-se de reflexão provocada pelo documentário "Falcão - Meninos do Tráfico", de MV Bill e Celso Athaíde, que sacudiu corações e mentes. Como tudo que aparece na TV, o impacto é grande, todo mundo comenta e, depois, cai no limbo do esquecimento.
Assim começa o artigo O futuro é a morte:

Fotograma do documentário - publicada no Jornal Estado de Minas
"Falcão – Meninos do tráfico, documentário de MV Bill e Celso Athayde, reavivou as discussões acerca de uma realidade praticamente negada. A negação não significa desconhecimento, mas um mecanismo de defesa – quase sempre necessário – para suportarmos a vida."
O texto integral você lê AQUI. Se você quiser, deixe seu comentário. A interlocução é benvinda.
19 abril, 2006
Cidadão ou voyeur?
Há algum tempo, João Paulo – editor do caderno Pensar do Estado de Minas escreveu:
- “A curiosidade, que é base do jornalismo, também escora a fofoca”.
A curiosidade é, também, a base do desejo de conhecimento (epistemofilia) que, segundo Freud, pode ser entendido como uma “sublimação” da escopofilia (para o fundador da psicanálise, o termo “escopofilia” se refere ao desejo de ver a nudez e as relações sexuais dos adultos, presente em certa fase do desenvolvimento psicossexual da criança).
É impressionante como a escopofilia (prazer em ver, também chamado de voyeurismo) movimenta milhões de dólares. As bancas, por exemplo, estão cheias de revistas sobre celebridades que vendem cada vez mais todas as vezes que saem reportagens (fofocas) acerca de crises conjugais, flagrantes de adultério, fotos picantes obtidas por paparazzi, etc.
Os canais abertos da TV investem na mesma seara, ocupando a maior parte da grade de programação vespertina em programas voltados à satisfação da curiosidade voyeurística da população. Diante do milionário lucro da TV com os reality shows (tipo Big Brother) o prêmio de 1 milhão de reais para o finalista não passa de gorjeta miúda, é claro!
O filão da pornografia na Internet é outra conseqüência da exploração comercial do voyeurismo, movimentando bilhões de dólares por ano.
Tudo farinha do mesmo caso: reportagens sensacionalistas, pornografia e programas voltados para a “invasão de privacidade”.
O voyeur é insaciável: uma vez tendo satisfeito seu desejo (ver uma cena “proibida”, vislumbrar as partes genitais de alguém, etc), ele pode até se apaziguar por um tempo, para logo buscar novas e novas satisfações. Segundo os manuais de Psiquiatria, apenas uns 7% dos voyeurs partem para um ato sexual violento contra sua vítima (geralmente mulheres).
“Na teoria psicanalítica, a Dra. Phyllis Greenacre associa o fetichismo a um severo complexo de castração em homens e um conjunto mais complicado e menos prontamente estabelecido de reações relacionais no sexo feminino. Para o homem, o fetiche serve a uma função defensiva, um adjunto de reforço para um pênis de potência incerta. O fetiche serve para aumentar a eficiência do órgão (ou seja, do pênis), que não tem bom desempenho sem ele.” [clique aqui para saber mais].
Até onde a avalanche de notícias sobre o atual escândalo da corrupção política já esgotou sua capacidade de “chocar” o cidadão, não mais produzindo o prazer em saber das “coisas” ocultas, muito menos a mobilização do que comumente se chama “opinião pública” em se manifestar politicamente?
Será que a apatia frente à gravíssimas denúncias de corrupção é uma prova de que o noticiário intenso se tornou apenas fetiche para uma população (da qual fazemos parte) que se sente impotente (tal qual o portador de um pênis “de impotência incerta”?
Vamos continuar votando nos mesmos políticos corruptos, corruptores, mentirosos e falsos, mas que nos garantem “diversão e gozo” pelas suas falcatruas escancaradas diante das TVs, Revistas e Jornais?
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Ah! hoje foi minha estréia no Livros & Afins, com um "conto de natal".
17 abril, 2006
Calligaris: Leitura obrigatória
O verdadeiro petista
A vida moderna é cansativa. Não estou pensando na correria, na
competição forçada, na expectativa constante de crescimento (aprenda mais, ganhe mais, compre mais, namore mais, transe mais, "seja"
mais).
Tudo isso pode, de alguma forma, ser administrado, mas sem grande
resultado: o cansaço permanece. Por quê?
A explicação é simples: não é a vida, é a subjetividade moderna que
é cansativa. Já faz séculos que vivemos, no fundo, sem regras.
Claro, há hábitos morais e princípios nos quais acreditamos, mas,
justamente, eles valem só porque queremos respeitá-los.
Todas nossas escolhas, em última instância, são questões de foro
íntimo; nós devemos decidir, a cada instante, se o que é legal ou
conforme aos costumes coincide com o que NOS parece certo ou justo.
Agir segundo os costumes e a lei não basta para justificar nem para
desculpar. "Fiz assim porque é o que todos fazem ou porque assim
manda a lei", para nós, não é uma razão suficiente, visto que
respeitar os costumes ou a norma é uma escolha nossa.
Na clínica psicoterápica, aliás, constata-se que as culpas dolorosas não são as culpas por ter transgredido leis e costumes, mas as
culpas por ter deixado de escutar nossa voz interior, por ter
deixado de seguir nosso desejo ou nossa consciência moral.
Em suma, o que é extenuante, na modernidade, é ser sujeito.
A esse cansaço responde uma nostalgia de tempos passados, em que as
regras e a tradição se encarregariam de decidir por nós: apelos
aos "valores" perdidos, aspirações a uma vida simples e rural,
vocações monásticas.
Mas a grande "cura" desse cansaço é oferecida pelas paixões de
grupo, que afogam nossa incerteza no funcionamento coeso de uma
coletividade onde esqueceríamos a tarefa de sermos sujeitos para
sermos apenas (alívio) funcionários exemplares.
Uma vez que
estivermos perdidos no grupo, a extenuante pergunta íntima sobre o
bem e o mal poderá ser substituída pela questão, mais
simples: "Agimos ou não como o grupo manda? Fomos ou não seus
instrumentos adequados?".
Os grupos que preenchem essa função estão ao serviço da covardia do
sujeito: "A tarefa de decidir no foro íntimo é cansativa? Pois bem,
há grupos que oferecem férias, férias da subjetividade".
Um exemplo: um bando de torcedores cruza alguém que se aproxima do
estádio com uma bandeira do time oposto. Um torcedor do bando
arranca a bandeira das mãos do "inimigo". Em seu estado normal,
longe do grupo, o torcedor poderia se perguntar: "Quem sou eu? Um
sujeito com história, família, valores, pensamentos próprios? Ou me
defino apenas como um torcedor? Quem dita meus atos é minha complexa subjetividade ou o grupo ao qual pertenço hoje?".
A história fornece exemplos menos inócuos:
Há as palavras de Stálin aos camaradas que mostravam um certo
desconforto na hora de arrancar aos camponeses russos seus míseros
meios de subsistência: elas fazem apelo à necessidade, para os
bolcheviques, de serem, como se dizia, "homens de ferro", ou seja,
homens de palha de um grupo que os aliviava da responsabilidade de
seus atos ("Stálin, a Corte do Czar Vermelho", de Simon Montefiore,
acaba de sair em português; é imperdível).
Há o famoso discurso de Himmler aos oficiais SS que se dedicariam
à "solução final": salienta a necessidade de eles se mostrarem "à
altura" da tarefa genocida, ou seja, de esquecerem os escrúpulos, as compaixões e aquelas "picuinhas" que atormentam e cansam a
subjetividade moderna, para que pudessem "ser" SS e exterminar
sem "fraquezas".
Dediquei meu doutorado à sedução que é exercida pelos grupos que
autorizam seus membros a descansar e a desistir de sua
subjetividade. Mantive a tese inédita talvez porque sua questão
central me parecesse pertencer a uma outra época, à época "passada"
dos totalitarismos.
Pois bem, acho que vou mudar de idéia graças ao deputado Jorge
Bittar, que, nestes dias, mostrou-me que a questão continua viva e
urgente. A tentação de sacrificar "escrúpulos" morais, de esquecer o foro íntimo e deixar o grupo decidir por nós não é coisa do passado.
Está dormindo num canto, esperando momentos propícios.
Jorge Bittar, deputado do PT, não gostou do relatório da CPI dos
Correios (ou seja, achou que o relatório não era partidário como ele queria que fosse) e xingou o senador Delcídio Amaral, presidente da
dita CPI, também do PT. Além das palavras chulas -as quais
substituem uma violência que, num Estado democrático, não pode ser
física (não dá para eliminar Delcídio, eh?)-, ele disse (frase
impagável) que o senador não se portou "como um verdadeiro petista".
Para quem desiste de ser sujeito para se fazer instrumento do grupo, o outro, o que escuta seu foro íntimo, é um "traidor".
Não é a Câmara, mas o PT que deve condenar oficialmente as palavras
de Jorge Bittar. Ou então deveremos entender que o PT é um daqueles
grupos que oferecem férias à subjetividade de seus membros, ou seja, que pedem que eles ajam não segundo a complexidade da consciência,
não segundo o que lhes parece certo ou errado, mas só como
instrumentos ao serviço do partido.



