27 setembro, 2008

À mesa, como convém

Não foi hoje nem no ano passado, talvez tenha acontecido há 15 anos. A lembrança me assaltou agorinha mesmo, ao almoçar com Amélia e o filhote Leo, mais a Julinha dele.

Você já deve ter constatado que assunto puxa assunto, o que Freud chamaria de 'livre associação' e o mineiro simplesmente diz um causo puxa outro causo. Quer exemplo? Se alguém conta um acidente terrível, o amigo aparece com outro pior. Se você relata uma decepção, o desencanto alheio acabou de acontecer. E por aí vai.

Em restaurante é assim: enquanto o pedido não chega, belisca-se um tira-gosto (ou couvert, se o local for mais chique) e fala-se de... comida!

Pois foi a legítima livre associação que me transportou no tempo.
Fomos - Amélia & eu - comemorar aniversário de casamento no Mandrágora, outrora um dos melhores restaurantes portugueses daqui de Beagá. Cito-lhe o nome sem receio algum de ser desmentido, pois não existe mais, sumiu do mapa (não por minha culpa, juro!) e talvez ninguém se lembre dele.

O Mandrágora ficava pros lados da Savassi, próximo do local onde estávamos hoje. A região e a espera pelo prato que demorava desataram as amarras mnêmicas.

No Mandrágora, pedimos o prato mais conceituado: bacalhau gratinado ao molho branco sei-lá-de-quê e vinho, comme il faut. Seria um jantar à luz de velas, apetrecho que dá upgrade no romantismo, você sabe. Amélia estava linda, como sempre - continua linda até hoje, ao contrário do marido dela.

Demorava o garçom, quase tanto quanto contou outro dia a Elza, mas não nos incomodava. Estávamos em plena comemoração, tínhamos tempo e não nos perderíamos em contrariedades.

O garçom, enfim, anunciou um tanto afetado: "Posso servir o jantar?". Assenti com leve mesura, como pedia a ocasião.

Delicadamente pousou sobre a mesa um belíssimo gratinado, estalando de quente. Serviu primeiro a dama que me acompanhava.

Olhos nos olhos, tilintamos as taças e principiamos a comer:

- E aí, está gostando?
- É, parece que está bom, disse Amélia.
- E o bacalhau?
- Ainda não senti gosto algum.
- Eu também não.

Mais uma ou duas porções e... nada de bacalhau.
- Vamos chamar o garçon?
- É mesmo, ele já vem aí.
- Seu garçon, por favor, pode servir o bacalhau?
- Ele já está servido, senhor.
- Onde?
- No seu prato, senhor, com o molho.
- Interessante, não sentimos o gosto...
- É o melhor prato, senhor, nunca tivemos reclamação.
- Vou pedir-lhe uma coisa, talvez imprópria, mas não vejo alternativa. Prove e confira.

Meio a contragosto, recolhe a travessa e a leva de volta à copa. Minutos depois, retorna:
- Desculpe, senhor, houve um engano.
- Qual?
- A cozinheira se esqueceu de colocar bacalhau, senhor.

Amélia e eu nos entreolhamos e, como nos é típico, caímos na gargalhada:
- Bacalhau sem bacalhau, hahaha!

O garçom, sério:
- Os senhores nos desculpem. O gerente autorizou-me a serví-los corretamente. Já está sendo providenciado novo prato. Como prova de nossa consideração e sinceridade, não lhes cobraremos o jantar, exceto o vinho. Está bem assim?
- Claro! Afinal é nosso aniversário de casamento e o Mandrágora nos presenteará, não é mesmo?
- Será um prazer, senhor.

Jantamos um delicioso bacalhau ao molho de não-sei-o-quê, bebemos ótimo vinho e a noite apenas começava.
__________________
O título deste post é homenagem aos velhos e bons tempos do Jornal do Brasil(RJ), quando eu lia a coluna de gastronomia do Apicius e não podia pagar sequer uma sardinha, quanto mais um bacalhau.

14 setembro, 2008

Broken heart

A notícia:
Um órgão parecido com um coração foi encontrado, no ínicio da tarde desta terça-feira, dentro de um vidro na lixeira de um dos banheiros do terminal de passageiros do Aeroporto de Confins. De acordo com a assessoria de imprensa do aeroporto, o órgão foi encontrado por um passageiro.


O que o jornal não contou é que havia uma carta!

No saguão do aeroporto, eu esperava o Milton Ribeiro que prometera vir de Porto Alegre. Minha atenção foi atraída por um moço a gritar:
- Polícia!
Carregava um saco plástico transparente. Dentro havia um vidro daqueles de boca larga, de guardar biscoito de polvilho. Lá em casa tem vários desses, pensei.

Aproximei-me e distingui o que me pareceu uma peça anatômica. Identifiquei-me como psiquiatra e pedi às pessoas se afastarem um pouco para que pudesse socorrer o moço em crise de histeria.
Foi logo dizendo:
- Dr., toma isso aqui, não aguento nem ver sangue, quanto mais um coração ainda fresco!
- Acalme-se, deve ser doação para transplante. Sou médico e vou levá-lo para o Hospital das Clínicas.

Havia um envelope junto ao recipiente e não hesitei em surrupiá-lo, despistadamente. Pensei: "deve ser a explicação".
Aos seguranças apontei o moço:
- O pacote é dele. Eu vi quando saiu do sanitário masculino.
Levaram-no para a Administração, acho.

Quanto a mim, saí de fininho. Longe de todos, li:

"Se você achou este vidro contendo um coração, não o jogue fora. É o meu. Durante meses amei uma pessoa linda, maravilhosa, alegre e radiante. Ela não me conhecia, mas eu descobri onde morava. Toda manhã estava no mesmo ponto em que ela tomava o ônibus para o centro. Talvez nem me enxergasse, nunca respondeu a um Bom dia! sequer. Pensava nela durante o trabalho, o dia inteiro. Ensaiei muitas vezes chegar perto, identificar-me e declarar meu amor, mas não consegui. Imaginava: Olha, moça, não te conheço, mas quero te dizer que meu coração te pertence. Eu te amo!

De repente, ela sumiu.
Hoje cedo, vi a aliança em sua mão esquerda. Concluí que se casara, deve ter viajado para lua-de-mel e, agora, voltou. Fui traído covardemente!

Resolvi desaparecer, viajar para longe, sem volta. Antes de embarcar, arranquei do peito meu coração pulsante e o deixei bem à vista. Já vou embarcar. Adeus!

Peço a quem encontrar que
entregue o vidro e o bilhete na Rua Eng° José Schultz Leonel, s/n. Bairro da Saudade."


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Nas gravações das câmeras de segurança do aeroporto, a polícia constatou a presença de um jovem que claudicava em direção à fila para vôo 3341, das 8,30h.
Semblante tranquilo, não chamava a atenção, exceto por ter um imenso buraco no peito.

13 setembro, 2008

Flower at night


Flower at night, upload feito originalmente por ClaudioCosta. Foto: by Cláudio Costa.

No repente: 

um olhar

 uma idéia

uma foto

Sob o negrume do céu
Em cálida noite
a Flor

08 setembro, 2008

Número 13

O site da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais(FHEMIG) noticia o lançamento, amanhã, do número 13 da Revista de Psiquiatria & Psicanálise com Crianças & Adolescentes (ISSN 0104 8414):

A Revista de Psiquiatria & Psicanálise com Crianças & Adolescentes, do Centro Psíquico da Adolescência e Infância (Cepai), da Rede Fhemig, chega a sua décima terceira edição.


A publicação divulga artigos de interesse da saúde mental ligados à criança e o adolescente e é distribuída gratuitamente.

Os interessados podem entrar em contato pelo e-mail do Cepai [ cepai.nep@fhemig.mg.gov.br ] e solicitar um exemplar.
No Estado de Minas Gerais, quatros instituições formam médicos psiquiatras.
Ao todo, 15 equipamentos, entre públicos e privados, no Brasil oferecem essa modalidade de especialização médica. A residência médica é regulamentada pelo Ministério da Educação e foi instituída em 1977 como pós-graduação.
O Cepai oferece cinco vagas para Residência Médica em Psiquiatria da Infância e Adolescência. Participam do lançamento, nesta terça-feira, dia 9, às 9h30, no auditório do Cepai, o presidente da Fhemig, Luís Márcio Araújo Ramos, e diretores de Ensino e Desenvolvimento de Pessoas, Christiano Canêdo, do Complexo de Saúde Mental da Fhemig, Daniel Freitas, e do Cepai, Augusto Nunes Filho. Além de funcionários da casa e instituições parceiras.

Como editor da Revista e Coordenador da Residência Médica de Psiquiatria da Infância e Adolescência, terei prazer em recebê-los, amanhã (09.set), às 9,30h, para um café receptivo (é assim que se diz?), no Cepai.

[O lançamento do número 12, em fins de 2006, mereceu um histórico caprichado no jornal da instituição, que publiquei aqui.]

07 setembro, 2008

Amar é...

Se há um tema recorrente em toda a literatura, este é o Amor. Com A maiúsculo ou a minúsculo, com sentido sublime ou carnal, o Amor é cantado em prosa e verso. Além de inspirar poetas, dramaturgos, artistas de toda espécie, o sentimento amoroso desafia um entendimento racional e é impossível de ser tabulado, medido, previsto, quantificado, etc.

Mais recentemente, cientistas alardeiam ter encontrado uma área cerebral responsável pelo amor: sítios neurológicos que "captam" mais dopamina e desencadeiam sensações de prazer quando alguém se depara com o objeto amado (a palavra objeto, aqui, não tem nenhum significado pejorativo, coisificante).

Os poetas hão de desdenhar a apropriação biologicista de sentimento tão universal quanto inexplicável. Dirão - com razão - que "amor não é pulsão sexual".

Os filósofos se definem como "amantes" da sabedoria, pois se entem inspirados pelo "amor ao conhecimento"!

O Dicionário Larousse de Psicanálise (Dictionnaire de la Psychanalyse - reférences Larousse) assim definiu o Amor: "sentimento de afeição de um ser por outro, às vezes profundo, violento mesmo, mas sobre o qual a análise mostra que pode estar marcado pela ambivalência e, sobretudo, que não exclui o narcisismo". Ufa! Nada simples: sentimentos quase antagônicos se misturam no que seria o amor: afeição, violência, ambivalência, narcisismo - poderíamos acrescentar: ilusão, imaginário, projeção, sentimento de posse, ciúmes, ódio, medo, sexualidade e um longuíssimo etcoetera!

"Amor e ódio são as duas faces de uma mesma moeda", já ouvi em algum lugar. Por isso se diz que "o contrário do amor não é o ódio - como parece - mas a indiferença".
Quantas vezes escutei, na clínica, os lamentos de gente recém-saída de um relacionamento amoroso:
-"O pior, doutor, é que nem se passaram duas semanas e ele já arrumou alguém! Eu, aqui, sofrendo. Como posso acreditar que em nossa relação teve amor? Se ele gostasse mesmo de mim, não arrumaria outra pessoa tão rapidamente! Isso mostra que eu não significava nada!" A dor está aí: nada significar para o outro, ser-lhe indiferente.

Ou então:
-"Após a separação eu estava ótimo, já me acostumando com a vida de solteiro, dando minhas saídas. Mas outro dia, num restaurante, eu a vi acompanhada e meu mundo desabou!" Constata-se que é substituível. Oh dor!

Por mais dicionários que se utilizem, pouco saberemos do Amor. Usa-se o A maiúsculo para indicar que essa experiência quase inefável seja um "deus". Nas religiões, principalmente no Novo Testamento, há uma definição de Deus: "Deus é amor". Lembro-me de meus tempos de Colégio do Caraça, onde as Semanas Santas eram comemoradas ainda de acordo com a liturgia romana em latim: Ubi amor est, Deus ibi est: onde existe amor, Deus aí está. Cantávamos em gregoriano...

Só mesmo poetas descobrem palavras para falar do amor. Para quem não experimentou este sentimento, tudo parece ridículo. Dizem: "amantes são ridículos".

O amor não se explica, vive-se. Quem está de fora jamais poderá compreender como se formou este ou aquele casal.
Outro dia, escutei:
-"Não sei o que fulano viu naquela garota tão sem graça."
Ainda:
-"Como pode uma menina tão feiinha arrumar um cara tão gato?"

Geralmente, após uma ruptura ou durante um relacionamento tumultuado por brigas e até maus tratos, a "vítima" se lamenta:
-"Não sei porque, mas não consigo me livrar daquele cafajeste!"
-"Por mais que eu tente, não me esqueço daquela vagabunda!"

Nosso inconsciente não têm explicação racional, visível. Algo foge de nosso controle e somos apanhados por um objeto que desperta nosso desejo. Quantas fantasias embalam o sentimento amoroso e edulcoram o objeto amado! Fantasias necessárias, saudáveis, deliciosas. Explicações não são mesmo necessárias. Quanto as encontramos, descobrimos logo que são insuficientes. Melhor mesmo é amar e pronto!

Não há como negar a propriedade do psicanalista francês, Jaques Lacan, quando assim define o amor:

-"Amar é dar o que não se tem a quem não sabe o que quer."

E você, discorda?

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Republicado com os comentários anteriores.

31 agosto, 2008

Périplo ou odisséia?

Périplo - s.m. (a1858 cf. MS6) 1 viagem de circunavegação em torno de um país, de um continente 2 fig. viagem turística de longa duração 3 (a1858) p.ext. relato dessas viagens ¤ etim gr. períploos ou períplous,ou 'circunavegação', perí- 'em torno de' e plóos,ou 'navegação', pelo lat. perìplus,i 'id.' [Houaiss].
Odisséia - s.f. (1873 cf. DV) 1 longa perambulação ou viagem marcada por aventuras, eventos imprevistos e singulares 2 narração de viagem cheia de aventuras singulares e inesperadas 3 travessia ou investigação de caráter intelectual ou espiritual
[Houaiss]

De repente, surgiu o convite do mano Boni para festa de 15 anos de casamento com a Cida que, por sua vez, comemoraria aniversário. Além disso, ir a Nova Era tem sabor de encontro de família, rever os meus pais e outro irmão que moram por lá.
Juntamos mala e cuia e saímos daqui de BH às 16,50h de sábado, com tempo de sobra. Éramos: Amélia, eu, nosso filho Ângelo & a namorada Renatinha.
Foi o início comum de uma longa viagem.

Sair de Belo Horizonte em direção ao Vale do Aço (nome da região por causa das grandes metalúrgicas Arcelor/Belgo-Mineira, Acesita e Usiminas) requer paciência e cuidado para enfrentar uma estrada saturada, com traçado absolutamente maluco, abarrotada de caminhões, ônibus e automóveis. Trata-se da 'rodovia da morte'. Sei que quase todas são "de morte", mas a BR262/381 ganha com muitos corpos de vantagem (argh! que coisa horrível este trocadilho!).

Tudo corria bem, exceto o trânsito que se arrastava, como sempre. Entardeceu e começou uma ventania fortíssima. Há três meses sem chuva, pequenos galhos e miríades de folhas (sempre quis usar essa palavra) rodopiavam à luz dos faróis. Antes que acabasse de falar Vai chover, a tempestade desabou. Mal e mal vislumbrava o farolete do veículo à frente, o olho-de-gato que divide as pistas, mais nada. Assim dirigi por 1 hora inteira, palmo a palmo vencendo chuva, enxurrada, (in)visibilidade, tensão. Éramos quatro pares de olhos, cada par tentando adivinhar o que havia 30 cm à frente: Devagar! Olha, o carro ali freou! Aquele ali saiu da pista! Ó o caminhão! Vamos parar?

Dentro do carro era muita tensão, medo, sensação de extremo perigo. Às margens da rodovia, carros parados, alguns com as rodas dentro das valetas, impossibilitados de continuar viagem... Amélia e Renatinha contavam casos engraçados, riam, mas era nervosismo puro. Chegaram a rezar. Entretanto, não havia como sair daquela situação: trânsito à frente e atrás, uma fila indiana da qual só se viam as lanternas da frente e o farol no retrovisor.

Paramos. Ou melhor: tudo parou, a fila de luzinhas vermelhas, pisca-pisca piscando. Stop! a vida parou ou foi o automóvel?, poetou, um dia, Carlos Drummond de Andrade. [Cota Zero, Alguma Poesia, 1930]. Parou tudo, mesmo. Estávamos no contorno de João Monlevade, próximos a um posto da PRF; dei meia volta e fui lá saber do guarda o que estava acontecendo. Explicou: uma árvore caiu lá na frente, fechou a estrada. Não há previsão de liberar, pois estamos sem energia elétrica e não dá pra chamar ajuda. Pergunto: E por dentro de Monlevade, dá prá passar? Ele: Lá está tranquilo. Nós: Então vamos!

Ledo engano! [Fala aí, professor, o que é ledo? "Ledo" vem do latim 'letus', que significa alegre. Daí 'Letícia", que significa alegria. Ah, bom, continuemos.] A alegria durou pouco, pois a entrada para a cidade estava inundada. Mas um chevettinho passou, porque não passaríamos? Pisei fundo e seguimos em frente. Dentro da cidade a avenida principal estava quase intransitável.

Próximo à usina fomos envolvidos pela neblina, um
fog intenso, apesar de Londres estar do outro lado do oceano. Os alagamentos eram numerosos. Avaliávamos o risco, engatávamos uma segunda marcha, acelerávamos com determinação e ganhávamos mais uns metros à frente.

Em Bela Vista de Minas, o caos: uma chuva de granizo cobriu o asfalto. Deslizamos numa ladeira mas, graças ao
empurrãozinho do Ângelo e à perícia do condutor (este humilde servo que vos fala) vencemos os obstáculos, com denodo e arte.
[Que isso, professor? Uai, procura no Houaiss e você vai achar:
denodo: /ô/ s.m. (sXIV cf. IVPM) 1 ousadia, bravura diante do perigo; intrepidez, coragem 2 p.ext. atitude arrojada e irrefletida; precipitação, afoiteza 3 p.ext. agilidade na ação; desembaraço, soltura, desenvoltura 4 fig. procedimento nobre e valoroso; brio, distinção. Nossa! Que exagero!]

Br262/381, em Bela Vista de Minas-MG, coberta de gelo. Foto by Cláudio Costa.

Pra encurtar tamanha prosopopéia, digo logo que chegamos mais de 4 horas após o início de uma viagem prevista para a metade do tempo. A festa estava ótima, ainda deu tempo de abraços, conversas, comes e bebes.

Hoje, 10,30h, pé na estrada. Vamos voltar cedo, que o trânsito deve estar bom, almoçamos em Belorizonte, meio dia a gente tá chegando em casa. Ângelo e Renatinha teriam um compromisso às 14h. Mais tarde, uma festa de aniversário. A gente queria descansar. Então, vamos!

Na descida da Serra de São Gonçalo, um caminhão baú tombara fora da estrada, à beira do abismo. Passamos devagar, porém aliviados por não haver retenção do tráfego. Se continuar assim, chegaremos antes das 13h, exclamei.

Subíamos um trecho sinuoso, cercado de eucaliptos, contando as 11 curvas fechadas para a direita e esquerda. Na quinta curva, a 50km da capital, encontramos tudo parado. Até quando?

Sinalizo para um motoqueiro solitário que desce na pista contrária; ele vem, pára e explica : Uma carreta tombou lá na frente; 4km de engarrafamento, vai demorar!

Fazemos uma mini-assembléia: Esperar? Voltar até um restaurante, almoçar e ver o que vai dar pra ver como é que fica? Dar uma volta de 150km em torno da Serra do Caraça, passar por Barão de Cocais, Santa Bárbara, Sta. Rita Durão, Mariana, Ouro Preto, Itabirito e chegar a BH pela Br 040?

Venceu a última alternativa, a mais complicada, com o forte argumento de podermos almoçar no velho Colégio do Caraça [a comida lá é boa demais, é só uma subidinha à serra, foda-se, vamos passear, turismo é assim, de tardinha a gente chega, tudo é festa quando a alma não é pequena, não existe pecado ao sul do Equador... Chega!].

Resultado: almoço na serra, paradinha em Catas Altas, cruzamento com carreata política em Mariana [Roque já ganhou!], empadinha com guaraná em Cachoeira do Campo, virar à direita na Br040 alí perto de Alphaville, depois o Miguelão, Belvedere, Raja Gabaglia e... casa! Mais tempo de estrada que de festa.

Foi um périplo! Ou seria uma odisséia?



Clique na imagem para aumentá-la.

29 agosto, 2008

Pra não dizer que não falei das flores... para onde foi a política?

Se eu disser que já assisti um pouquinho só a propaganda eleitoral gratuita na tv e que já escutei por uns minutos apenas, talvez muita gente não acredita. Realmente, é dose!
Primeiro, o formato (en)quadrado, determinado pela ditadura militar, que permanece quase inalterado: os candidatos a vereador aparecem por alguns segundos, falam o próprio nome, uma frase de efeito e logo aparece outro, sucessivamente. Os nomes são hilários: Zé Borracha, Tião da Comunidade, Ninico de não sei o quê. Aqui em Belo Horizonte tem até um tal de Maradona!
É ridículo!
Um slogan guardei: Vote em mim: quem chorou vai sorrir! Já estou sorrindo, gargalhando, nunca fui tão feliz (argh!).
Todos prometem fazer o que todos sabem que deveria estar sendo feito desde sempre: melhor qualidade de vida, melhoria no trânsito, melhor educação, melhor distribuição de renda, mais emprego, cidadania (ó palavra enxovalhada!), ambulâncias, pontes, viadutos, escola para todos...
E a política? Onde está a política?
Neca de pitibiribas, não existe política no horário político! Não há nenhum candidato a prefeito que fale de política, ideologia, nada disso. A oposição não se opõe, a situação vê tudo cor-de-rosa. Uma e outra dizem que farão mais e melhor, mas não dizem uma palavra sequer a respeito da filosofia do partido a que pertencem, porque o ideário deles é melhor, a que princípio obedece o governo atual e porque este princípio é nocivo à população. Não, nada disso. Tudo igual: querem o poder, gastam uma dinheirama que não se sabe de onde vem (dizem que tudo tem origem legítima, está registrado no TRE, não existe caixa dois, dinheiro na mala... talvez nem usem cuecas, os mais honestos).
Nas conversas do dia-a-dia o comentário é sempre em tom de deboche, uns apontando a feiura de tal candidato, outros o baixo nível deles. Quando alguém declara o voto, não sabe bem explicar o motivo. Se começa a falar de motivos políticos, ideológicos, então é alvo de chacota e o papo termina assim:
- Qual o quê, político é tudo igual.
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PS: Outro dia o amigo Idelber Avelar deu uma geral nas eleições. Confira.

15 agosto, 2008

Em breve: mais um empreendimento...

Nas últimas semanas observei movimento de pessoas num terreno próximo ao nosso prédio. Estava todo tomado pelo mato, a ponto de servir de pasto para uns cavalos que pertencem a charreteiros que teimam em trabalhar com recursos de outros tempos.

O bairro tem uma parte baixa e uma parte alta, esta que habitamos. Quem mora em cidades planas não imagina o que é nossa rua: íngreme, muito íngreme. Confesso que nunca a subi a pé!

Belo Horizonte sintetiza, assim, a própria geografia do Estado e suas avenidas percorrem vales onde, antes, corriam riachos e ribeirões. As ruas do plano inicial da cidade foram traçadas a régua e esquadro, ignorando totalmente os acidentes geográficos: algumas são intransitáveis! Entretanto, há certa beleza nessa paisagem acidentada e diversa, que alguns comparam com San Francisco-CA, por exemplo.

O certo é que a especulação imobiliária nunca tem fim e prédios são construídos em locais improváveis, já que os recursos de engenharia atendem ao desejo de se habitar bairros mais centrais.

Pois o nosso bairro, o Gutierrez, é assim: começou no fundo de um vale, atendendo à classe média no final da década de 50. Pouco a pouco evoluiu morro acima, onde terrenos valiosos e novos prédios foram erguidos, alguns até luxuosos.

O movimento no terreno ali ao lado, finalmente, fez sentido: eram agrimensores com seus teodolitos e planilhas. Imaginei: vem mais um prédio, aí.

Finalmente, uma incorporadora, qual conquistadores de outrora, fincou suas bandeiras amarelas no perímetro extenso do quarteirão. Teremos vizinhos:

09 agosto, 2008

Mineirão e Diamantina

1. Hoje é dia de Mineirão: Galo x Grêmio.

O CAM derrotou o Santos, de virada, outro dia. Vantagem? Nem tanto, diante da incompetência do time da Vila Belmiro, na zona de rebaixamento há décadas, quer dizer, semanas. O Galo sassaricou por ali, mas acabou subindo na tabela, não sei se por méritos próprios ou pela ruindade dos demais. Apesar de atleticano, acho que vai dar zebra, hoje: quer dizer, o Galo vence o Grêmio.
[Up date: não deu zebra! Pior: o esquadrão gaúcho saboreou churrasco de galináceo: 4x0.]


Aliás, tá duro assistir aos jogos! De qualquer forma, eu não vou ao estádio, mas deixo aqui duas fotos do palco que será utilizado à tardinha:

Mineirão! Foto by Hugo (meu vizinho, do helicóptero da PMMG)


2. Há uma semana chegamos de Diamantina. Valeu o passeio, um mergulho na região central das Minas Gerais, paisagem áspera palmilhada e descrita por Guimarães Rosa, telhados coloniais, igrejas para todos os santos, Chica da Silva, cristais, tradição das serestas, Vesperata, etc.


Diamantina-MG. Mercado. Foto by Cláudio.



3. Amanhã, comme il faut, almoço com o pai Soié, em Nova Era, cidadezinha que se debruça às margens do Rio Piracicaba, onde até a ponte mandada construir por Getúlio Vargas é atração:


01 agosto, 2008

Serro e Diamantina

Estamos aqui em Diamantina, após uma passadinha no Serro.

São cidades do ciclo do ouro e do diamante, históricas por motivos vários: seja pela riqueza que gerou e foi transferida para Portugal e Inglaterra, seja pelos desmandos dos capitães de escravos e contratadores de garimpeiros, seja pela origem de JK, seja pelo queijo "do Serro", enfim, pela paisagem interessantissima: campos altos da Serra do Espinhaço, que começa com a Serra do Caraça (próximo a Ouro Preto), continua como Serra do Cipó, perto de Jaboticatubas e passa por aqui (hoje vi a nascente do Rio Jequitinhonha) e se estende até à Bahia.
Muita aridez, pedra pra chuchu, cachoeiras, etc.

Ah, tem a casa de Chica da Silva, logo ali. E, em frente, o mercado que foi cenário do filme sobre a Chica. Mais adiante, a casa onde nasceu J.K., o presidente "bossa nova", hehehe

A gente anda pra baixo e pra cima, muita ladeira calçada com pedras escorregadias, lisas pelo tempo.
Igrejas não faltam: ô povo rezador, aquele daquela época.

Muito universitário pelas ruas, ou melhor, pelos botecos: como bebem! Também, a dose de pinga é 0,50 , a garrafa custa R$ 3,50 e o frio é de lascar, pelo menos nessa época.
Amanhã à noite, "Vesperata": músicos ficam a tocar das janelas dos casarões e a gente na rua, escutando, bebendo, namorando.
Terra de Minas, essa. Cada povo com seu uso, cada roca com seu fuso...

E o porta-malas repleto de "queijo do Serro", que ninguém é de ferro.
Segunda-feira voltamos ao trabalho, que a vida não é mole. Mas, por enquanto, nosso endereço é este aqui.

31 julho, 2008

Relax

Relax total: férias são pra isso mesmo...
Então: Amélia & eu estamos indo, agorinha mesmo, pra Diamantina-MG. Antes, uma noite na cidade do Serro, onde comeremos o genuíno "queijo do Serro", of course.
Até segunda, com bateria recarregada e algumas idéias na cabeça pra voltar a postar. Xô, preguiça!

17 julho, 2008

Vou dobrar-me à regra nova de viver?

Numa dessas leituras descompromissadas que a gente começa sem muito interesse, encontrei a expressão adulto jovem, seguida de um asterisco. No rodapé, o autor - cujo nome me escapa - explica que adulto jovem engloba as pessoas entre 15 e 23 anos.


- Como assim, cara pálida? perguntei.


No decorrer do texto, havia outros termos do campo psi, não necessariamente com embasamento científico, pois que se tratava de um texto leve, numa revista levíssima.


O autor quis agregar alguma reflexão psicológica à palavra adultescente.
Eu próprio já a ouvira antes, mas não custava nada socorrer-me na fonte inesgotável de saber (!), o buraco sem fundo chamado Google.


O
primeiro link, texto de Sérgio Rodrigues, socorreu-me:
Adultescente é um neologismo jocoso de sentido óbvio, cruzamento de adulto com adolescente. No entanto, ainda não abriu caminho até os dicionários brasileiros e, mais do que isso, não parece ter vingado de verdade em nosso dia-a-dia. Tudo indica que vingará. Nascido no inglês americano como adultescent, registrado pela primeira vez em 1996 e eleito pelo dicionário Webster’s a “palavra do ano” de 2004, o termo já tomou assento firme pelo menos em espanhol, na forma adultescente, de grafia igual à nossa.
(...) adultescente tem consistência maior do que ajudar profissionais de marketing a bolar produtos destinados a esse nicho de mercado detectado no fim do século 20, o dos adultos “infantilizados”, consumidores de videogames e livros sobre magos mirins, que prolongam a dependência do lar paterno muitos anos além da média histórica, mesmo que – e isso é o mais intrigante – ganhem dinheiro suficiente para ter sua própria casa.

O artigo do Sérgio é de 2004 e alude à dimensão mercadológica do termo, um nicho que seria (e é) explorado pelo Mercado.
Um
outro link remeteu-me para considerações de Maria Teresa Soares Eutrópio, mais próximas da interpretação psicológica:


Adultescente, pessoa imbuída de cultura jovem, mas com idade suficiente para não o ser. Geralmente entre os 35 e 45 anos, os adultescentes não conseguem aceitar o fato de estarem deixando de ser jovens.


A cronologia do fenômeno deu um salto de 20 anos! Vê-se bem que este critério não é lá muito confiável, inda mais que o psiquismo escapa do calendário.

Voltemos à leitura de que falava.
Perseguindo o raciocínio do autor - não lhe lembro o nome e recuso-me a declinar o nome da revista. Confesso que estou sendo injusto, pois o que vi, a seguir, me agradou mais do que a primeira acepção (mercadológica), sendo mais profunda que a segunda (o que fundamenta a recusa em aceitar o fato de ser jovem?).


O conceito de adulto jovem seria aplicado, segundo o cara da revista, a alguns mecanismos psíquicos comuns ao que chamaríamos de pensamento mágico
(Piaget), próprio da criança entre 7 e 11 anos, progressivamente abandonado até sua substituição por outra forma de estar-no-mundo, mais condizente com a realidade. Piaget diz que o egocentrismo é a base do pensamento mágico e a saída deste estágio de desenvolvimento intelectual se dará pela socialização e teste de realidade. É o que escreve Gobin:

...a construção do mundo objetivo e a elaboração do raciocínio lógico consistem na redução gradual do egocentrismo, em favor de uma socialização progressiva do pensamento; somente com essa descentração das noções, a criança pode chegar ao estágio da lógica operacional.


Tratam-se de fenômenos psíquicos, complexos, com aspectos intelectivos, cognitivos, emocionais e sociológicos - inclusive dependentes da classe social a que pertence o tal jovem adulto.


- Vamos ao que interessa!
Três crenças alimentam o jovem adulto descrito na revista, as quais podem ser mais exacerbadas, caracterizando uma pessoa mais próxima da adolescência propriamente dita. Se mais tênues e diminuindo de intensidade, estaremos diante de um jovem entrando na fase adulta
  • 1a. crença: Posso ser tudo!

  • 2a. crença: Posso ter tudo!

  • 3a. crença: O Tempo não passa!
Com as devidas ressalvas (classe social, etc.), vemos muitas pessoas que agem baseados naquelas crenças, em maior ou menor grau. Além disso, o egocentrismo é predominante: apesar de viverem (a maioria) sob o teto e beneplácitos da casa materna, de quase nada participam. Querem a roupa lavada, comida quentinha, tudo a tempo e hora. São capazes de deixar copos e pratos por lavar um fim-de-semana inteiro, caso os pais estejam viajando.

O mundo do Marketing quer nos manter atrelados aí, prometendo-nos e aos jovens mais ainda, um mundo onde tudo é possível, o importante é viver o aqui e o agora, seja o que quiser: basta comprar tal ou qual gadget, o celular de última geração, o automóvel que suporta bombas, demolições e terremotos, já que transporta La Bündchen e Mr. Stallone! Seja você, também, um deles é o imperativo do marketing.

Assim, não dá mais para sair da casa dos pais, enfrentar o mundo (real), pois é preciso ter TUDO, ser TUDO e o futuro não existe!

Mas não é preciso nenhuma 'psicologia' para revelar os conflitos que atravessam os adolescentes e os jovens adultos. Os poetas sabem dizê-lo, muito antes de inventarem palavras como adultescente e forjarem expressões tipo adulto jovem. Lembrei-me deste poema do Carlos Drummond de Andrade, que aprendi há anos e não me abandona:

“Vou dobrar-me à regra nova de viver.
Ser outro que não eu,
até agora musicalmente agasalhado
na voz de minha mãe, que cura doenças,
escorado no bronze de meu pai, que afasta os raios.

Ou vou ser menos, talvez isso,
apenas eu unicamente eu,
a revelar-me na sozinha aventura em terra estranha?

Agora me retalha o canivete desta descoberta:
eu não quero ser eu,

prefiro continuar objeto de família”.

[Drummond: "Fim da casa paterna"]

16 julho, 2008

Me engana que eu gosto



O que é que é?

Tem gosto de cigarro, solta fumaça
como cigarro, mas não é cigarro?

Cada kit vem com 20 cigarros e custa US$ 49,95 nesta
loja virtual.

[Recebi e repasso.]

13 julho, 2008

À mesa, num domingo

- Teríamos um bom domingo?

Estava frio, pela manhã. A gente ficou naquela preguiça típica do inverno, tentando manter o calor dos cobertores até o sol garantir sua presença.
O café-da-manhã foi degustado sob forma de iogurte com frutas, pão com queijo canastra passado na frigideira, café pelando a língua e otras cositas más.

A natureza foi lembrar-nos do almoço no meio da tarde, quando ainda bezerrávamos placidamente pela casa, meias grossas nos pés, jornais espalhados, tv, computador, música...

Ângelo deu a dica, pegamos a Renatinha e buscamos o Bistrô, que fica pros lados da Pampulha, pertinho do Mineirão e da lagoa.
Sol plácido, ar puro e paisagem tão aprazível formavam o cenário quando estacionamos em frente à Floricultura Verde Essencial. Explico: o local abriga restaurante, flora e atelier:

Acomodamo-nos na varanda.
A seleção de cogumelos frescos grelhados com ervas, azeite e redução de aceto balsâmico foi a entrada sugerida pela chef Heloísa Barreto:A pièce de resistence seria escolha individual.
Quanto a mim, oscilava entre camarões e salmão grelhado. Este último me pareceu mais consistente, já que prometia a leveza do pescado associada à crosta de gergelin e ervas, guarnição de purê de mandioquinha com creme de espinafre, além da sutileza do shimeji:

A tarde ainda nos brindava com sua cálida energia, o que justificou o sorvete de frutas do cerrado, como sobremesa.
O sol, afinal, deslizou preguiçosmente para o outro lado do mundo, talvez fugindo do frio que descia da Serra do Curral.

- E o domingo foi ótimo!

26 junho, 2008

Uma noite das Arábias


Recebemos a visita do Thiago, de Canis Familiaris, aqui em casa. Vocês sabem, blogueiro conhece blogueiro e o Thiago logo se lembrou de uma história que contei há uns 3 anos, verídica em todos os detalhes. Em sua homenagem, já que ele é de Teresópolis, republico o post:

Iniciamos a viagem de volta a Belo Horizonte e nos despedimos do litoral norte do Estado do Rio. Foram 6 dias entre Rio das Ostras, Barra de São João, Búzios e Cabo Frio.
Amélia e eu resolvemos passar a quinta e a sexta em Teresópolis. Deixamos para trás a baixada fluminense, após derivarmos à direita, na Via Lagos, via Itaboraí, depois Guapimirim, já no entroncamento com a BR-116, no sopé da Serra dos Órgãos.

Daí, serpenteamos serra acima, por entre penhascos, à sombra da Mata Atlântica, em sua exuberância preservada (pena que dela reste tão pouco!). A cidade recebeu o nome Teresópolis - cidade da Teresa - em homenagem à D. Teresa Cristina, esposa de D. Pedro II. Este já havia criado a vizinha Petrópolis - a qual nomeou com seu próprio nome. Coisas do Imperador...
À chegada, um mirante nos proporciona o espetacular panorama do famoso "Dedo de Deus" e de outros picos. Dali, descortina-se, lá embaixo, parte da cidade do Rio de Janeiro e da baía da Guanabara (à noite, as luzes brilham como num céu estrelado, só que aos nossos pés!).

Ao anoitecer, buscamos a pousada que a mocinha do bureau de turismo nos recomendara. Por sorte, ficava bem próxima do mirante.

As trevas já encobriam florestas e montes quando, orientados por uma placa, adentramos uma alameda de paralelepípedos em curva ascendente, rumo a uma casa enorme, totalmente às escuras. Nenhum carro no estacionamento, nenhuma alma viva.
Silêncio absoluto.
Hesitamos um pouco até que estacionamos.
- Parece casa abandonada, foi o comentário da Amélia.
- É, acho que não tem ninguém aí, vou verificar, murmurei.

Um balcão, com aqueles aparelhos de cartão de crédito, era o único mobiliário do que deveria ser a recepção... Entramos devagarinho, ressabiados. Descobri um interruptor e a luz se fez, revelando um vulto a descer silenciosamente uma escada de madeira: era franzino, de tez amorenada, olhos vivos.

O diálogo iniciou-se quase que por monossílabos, enquanto nos sondávamos mutuamente.
Amélia, eu e o sujeito:
- Boa noite, vamos entrar?
- Isto aqui é a pousada?
- Sim, subam para conhecer.
- No escuro?
- Vou acender.
- Onde está o proprietário?
- Sou eu.
- E os hóspedes?
- Chegam amanhã, já tive 14 telefonemas...
- E os empregados?
- Moro aqui. Sozinho.
- ?
- É minha. Moro aqui.

A sala de cima era enorme, com lareira, sofás. Tudo muito amplo. Nossas vozes ecoavam e os passos escandiam as poucas palavras. O sotaque do moço era nitidamente estrangeiro.
- De onde é você?
- Líbano.
- Um sheik árabe? Um magnata do petróleo? tentei brincar, para quebrar o clima ainda tenso.
A resposta foi contida e séria:
- Não, não, nada disso. Minha família está no Líbano. Moro aqui há algum tempo e resolvi abrir minha casa como pousada. Abri em janeiro, mas não apareceu ninguém para se hospedar. Somente agora, em junho, com a temporada de inverno, descobriram aqui. Primeiro, um casal. Depois, outro. Amanhã, como já disse, estaremos lotados.

Os quartos eram amplos, decorados sobriamente. Os cobertores sobre as camas, porém, destoavam de tão coloridos, com estampas florais.
Enquanto o libanês se afastou para buscar a chave de um dos cômodos, Amélia sussurou:
- Benzinho, isso aqui parece a pousada do filme "Psicose", do Hitchcock. O homem parece o Anthony Perkins...

A impressão dela quase se concretizou diante da cortina de plástico no box do banheiro, tal e qual. Agora só faltava o facão!!! [Com efeito, na minha cabeça, revi as cenas do mais famoso filme de Alfred Hitchcock, no qual uma jovem foge com o dinheiro da imobiliária onde trabalha e planeja encontrar o namorado, que mora em outra cidade, mas interrompe a viagem para dormir num velho motel administrado por um estranho rapaz (o psicótico Norman Bates) e sua mãe.]

Seria aquele homem uma réplica de Anthony Perkins? Um clone do perturbado Norman Bates? Esta "velha casa escura", transformada em pousada, não seria exatamente o local apropriado para se passar uma noite tranqüila... A "cena do chuveiro" iria se repetir?
- Quer procurar outra pousada?, perguntei.
- Agora a gente já está aqui... resignou-se minha Janet Leigh.

Fechada a porta do apartamento 05, Amélia cai no riso, incontrolavelmente alto, exclamando:
- Hitchcock, Hitchcock...
- Psiu! ria mais baixo! O homem deve estar escutando tudo!

Era um misto de espanto, perplexidade, tensão, comédia... Mas não havia retorno. Lá estávamos, numa mansão isolada, sozinhos. Éramos hóspedes de um excêntrico? Haveria um cômodo com a "mãe do rapaz?"

Tomei banho primeiro e deixei Amélia sozinha. Enquanto ela se banhava e se aprontava para o jantar, fui "conhecer" melhor o dono da pousada. Respirei aliviado ao descobrir que seu nome não era Norman Bates, mas 'Haldun.
- 'Haldun? , tentei reproduzir o sotaque.
- Mais ou menos, vocês brasileiros não conseguem falar o som aspirado, próprio de nossa língua, disse.
- 'Haldun, 'Haldun...
- Mais ou menos, mais ou menos.
Levou-me à varanda, mostrando-me as luzes da baixada fluminense, à direita, lá no horizonte. Embaixo, a rua que conduz ao centro de Teresópolis. Mais à esquerda, a famosa Granja Comari, onde treina a seleção brasileira.

No quarto, porém, Amélia vivia momentos de quase terror: a TV mudava de canal sem que tocasse no controle remoto. Ao abrir uma bolsa, surgia o programa do Ratinho. Uma tosse, e aparecia a MTV. Caiu uma escova e mudava para a Globo. Ligou o secador de cabelos e novamente Ratinho com suas baboseiras surgia na tela.
- Este quarto é mal assombrado! Onde está o Cláudio, que não volta?
Tratou de se arrumar o mais rápido possível e quando me encontrou, o mistério foi desvendado: enquanto 'Haldun atendia o telefone, eu zapeava em busca de noticiários na TV, ao lado da lareira... Deduzi:
- Será que este controle aqui muda os canais lá do quarto?, perguntei ao libanês. - Sim, sim... aqui é a tv principal!
- Ah! bom, por enquanto estamos sem fantasmas, pensei.

Após o jantar, num restaurante da cidade, retornamos à pousada, onde nos esperava o proprietário, dublê de recepcionista e camareira.

Suas funções se multiplicaram no dia seguinte, quando nos preparou um soberbo café-da-manhã:
O dia estava radiante, o sol banhava a floresta e os pássaros faziam algazarra. Um bando de maritacas passou gritando rente à varanda. Já de malas prontas, despedimo-nos do nosso anfitrião, transmutado em afável interlocutor.
À Amélia, que passava um creme no rosto, antes de entrar no carro, 'Haldun pergunta:
- O que é isso?
- Protetor solar. Sempre passo, pela manhã e à tarde.
- Pois você deveria passar à noite, também.
- Como assim?
- À noite, disse com um sorriso malicioso, o tempo esquenta, ao lado deste aí. Apontou para mim, sorrindo.

Descemos a alameda, em gargalhadas. Foi Amélia que entendeu tudo:
- Ele deve ter ouvido meus risos estridentes durante a madrugada. Com certeza imaginou uma princesa árabe nos braços de um califa...
- Pois acertou, minha Sherazade!

22 junho, 2008

11 junho, 2008

Sexagésimo ano: Bodas de Diamante

Sexagésimo aniversário de casamento é raro.
Sexagésimo aniversário de casamento com saúde, lucidez e bom humor é para pouquíssimos casais.
Sexagésimo aniversário de união feliz seria impossível se não fossem os protagonistas deste feito: meus pais, Ismael (Soié) e Aparecida.

Quem melhor para contar essa história, senão ele próprio, meu pai?

AQUI

08 junho, 2008

NONADA

Vou falar de vezvez: saímos hoje, Amélia, Ana Letícia e eu sonhejando comer pães-de-queijo e broinhas de fubá no Mercado Central de Belô. Colominhando entre a aravia dos corredores, chegamos logo às barracas de queijo, ainda de mãvazias. Ah! vislivi um canastra meia-cura, provei um pedacim e desmedi satisfação:

- Será pura sonhice ou é existível sabor tão penetrante?

Fechabri os olhos, para melhor sentir, disquirindo sabores e aromas. Pois foi. Amélia suputou quantidades e mandamos pesar um dos:

- É pra preparar uns pãozim-de-queijo...

Desfechei o bolso, pois que carecia pagar. Ela ainda refalou:

- Polvilho bom é Marinez.

Aos pouquinhos, a matlotagem se completou.

Beiradeando os corredores dos botecos, passamos por entre gaiolas onde tintipiava a passarinhada em turbulindo. No Café Dois Irmãos, tradicional ponto de paragem, nãostante ainda com lembranças do almoço, uma pedida:

- Um cafezim com broinha!
- Perfeitamém, ossenhor, perfeitamém.

Pois a mocinha deu e redeu, pois impossível desquerer mais e mais.
- Essezim, sim, que é cafezim, cujo Minas Rio era o nome.

Hora dirembora. Lá fora, o lusfús, a tocar Ave Maria.

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Tudo isso aí é brincadeira pura: arremedo, sim. Embaralhei palavras de João Guimarães Rosa com a ajuda de Marco Aurélio Baggio.
É que a Editora Santa Clara, do amigo ZéMaria, acabou de publicar-lhe "Um abreviado do Grande Sertão:Veredas".

Baratim, baratim: é só pedir pelo telefone 31.3391-0644 ou pelo e-mail: lithera@lithera.com.br

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Se lhe apetece
Guimarães Rosa, visite o blog do João Rosa Neto:
Riobaldo & Diadorim.