17 janeiro, 2005

Apocalypse Now

Balada do Louco: "Este é um blog aberto e coletivo, em que as pessoas dividem suas experiências e lembranças de loucos. Resgatar essas histórias, imortalizar a loucura que não sai de nossas lembranças, é um tributo que devemos não apenas à loucura deles, mas à nossa normalidade. Se é que somos normais. Participe enviando a sua história para baladadolouco arroba gmail ponto com".
Não resisti à provocação. Envei um relato verídico, com algumas modificações exigidas pela Ética Médica, garantindo o sigilo profissional. Já saiu lá publicado. Os relatos são curiosos. Conquanto despretenciosos, são verdadeiros estudos psico-sócio-antropológicos oferecidos pela observação cotidiana. Mais que curiosos são instigantes. O ser humano é tão cheio de possibilidades e a singularidade de cada um é tão absoluta que, afinal, onde estará a fronteira entre o normal e o patológico? Já dizia o Caetano, com propriedade: De perto, ninguém é normal! Anime-se a colaborar.
Aqui está minha contribuição, que espero seja a primeira de uma série.

Apocalipse Now

João Antônio tinha trinta e três anos e uma certeza: era o Cristo que retornara para julgar os vivos e os mortos.
- É... o Cristo do Apocalipse, conhece, doutor?
E desfiou as razões que fundamentavam sua certeza, tal um matemático demonstra um teorema ou um filósofo deduz com silogismos perfeitos.
Primeiramente, a idade.
- Trinta e três anos tinha o Cristo quando foi crucificado e eu aqui estou continuando sua trajetória terrena.
- Além disso, o número do medidor da companhia de eletricidade em minha casa termina com uma sequência de seis, a da Besta do Apocalipse: 666. Descobri quando fui fazer uma reclamação na CEMIG e tive de anotá-lo. Foi uma mensagem, um sinal. Um Sinal, com S maiúsculo, sabe, doutor? A gente precisa ler os sinais, decifrar os códigos que estão à nossa volta, como fez Nostradamus.

- E mais: nasci no Brasil, cujo nome primeiro foi Terra da Santa Cruz. A cruz é a síntese: cruzamento do horizontal com o vertical, tempo e espaço. Pois o meu sobrenome, o senhor já anotou aí, é da Cruz. João Antônio da Cruz. Outro dia, uma kombi parou de repente num cruzamento. Bati na traseira e já saí gritando seu estúpido, por que parou sem avisar? O motorista saiu sorrindo, na maior calma. Vestia uma camiseta de crente, na qual estava escrito Jesus te ama. E a placa daquela kombi era: JAC-1972. Era a o ano de meu nascimento e minhas iniciais, doutor! Só não vê quem não quer.

- Agora, o senhor me diga, o senhor acredita que eu sou o Cristo? Não quero palavra de psiquiatra, porque a ciência é uma coisa, religião é outra. Fale como pessoa humana, doutor.

- Você é quem diz, João Antônio.

Outras provas foram descritas, fundamentadas em fatos vivenciados e interpretações que eu chamaria de delirantes.
João insitiu mais uma vez:
- Vou perguntar de novo, ou o senhor responde ou Deus mesmo enviará um sinal. O senhor acredita?
Neste exato momento, uma pomba, das muitas que infestam os arredores, pousa sobre o peitoril da janela.
- Tá vendo? Nem precisa responder. Eis o sinal. Quando chegar a hora, o senhor saberá.

15 janeiro, 2005

Um sábado como convém

1 - Levantei-me inspirado, hoje. Após as abluções matinais, o desjejum: Tomei uma banana nanica (caturra) regada com uma porção de mel, mais meia xícara de queijo canastra picado e levei ao micro-ondas por dois minutos. Após assar, acrescentei uma porção de granola com muita uva-passa e castanhas picadas. Pronto! Após este manjar, um cafezinho bem mineiro, quentinho, da hora. Pena que hoje a Amélia não tinha feito seu delicioso pão-de-queijo.

2 - Já pensando no almoço, Amélia retirou o salmão da geladeira: só filé, sem pele, para descansar um pouco.

3 - Bem alimentado, saí para uma atividade que detesto: procurar conserto para o radiador do carro, estourado há quase 15 dias: Na estrada, voltando da Serra do Caraça, o ponteiro de temperatura acusou a anormalidade. Pânico! Logo estacionei num posto, às margens da BR-262. Do capô exala um cheiro de ferro quente, quase derretendo! Meu filho Ângelo, que faz veterinária, exclama: "- É, pai, o bicho está fervendo!" Um lanche e uma ida ao banheiro, esperando o motor esfriar. O que coube de água não está no gibi. Era colocar em cima e escorrer belas beiradas. Ainda faltavam 70 quilômetros para Belo Horizonte. O jeito foi parar a cada 10 minutos, completando a água que se esvaía... Mais ou menos igual no rally Paris-Dakar.

4 - A avenida Pedro II liga o centro à região noroeste, repleta de oficinas mecânicas, lojas de peças automotivas (novas e usadas), ferros velhos, capotaria, lojas de radiadores, conserto de pára-choques, espelhos, retrovisores, rodas... Verificar preço e condições para reparo do radiador tomou tempo, mas aprendi muito! Na segunda-feira o destino certo: deixo o carro pela manhã e o recebo à tarde, por R$ 170,00. Um radiador novo cutaria muito mais.

5 - Hora de preparar o salmão: envolvo-o com um pouco de tempero para peixe adquirido no Mercado Central, à base de pó-de-limão, sal e ervas.
Descasco 3 batatas grandes, partindo-as em rodelas de 5mm que ponho a cozinhar al dente. Num refratário, repousa o filé sobre quatro das rodelas, ainda cruas.
Salpico pimenta-do-reino, manjericão, cebola picadinha e orégano, tudo regado com azeite extra-virgem, sem dó nem piedade. As batatas, após o brevíssimo cozimento, servirão de moldura ao peixe. Também sobre elas, um pouco de azeite, sal e orégano. No forno, bastam 15 minutos.

6 - Neste momento, o aroma delicioso invade a casa e as narinas do Léo, outro filho:
"- Tá pronto, pai?"
. Colabora preparando a mesa, com pratos grandes, talheres, uma garrafa de Merlot da Casa Rivas, chileno, safra de 2002, previamente esfriado.

7 - Amélia finaliza o arroz cozido na panela de pedra, à moda mineira: branquinho, soltinho, enfeitado com salsinha. A salada também é por conta dela, que chama:
"- Benhê, está na mesa!"

8 - É servido?

09 janeiro, 2005

Do Sahara ao Oiapoque ou De como um Tuareg foi parar no Camelódromo

Caminhar pelo centro de Belo Horizonte, há algum tempo, era um exercício de malabarismo contorcionista, a driblar o enxame de camelôs que zumbiam ao redor de um milhão de barracas improvisadas.
[Camelô: - comerciante de artigos diversos, geralmente miudezas e bugigangas, que se instala provisoriamente em ruas ou calçadas, muitas vezes sem permissão legal, e costuma anunciar em voz alta sua mercadoria.]
Sempre imaginei que a origem da palavra "camelô" tivesse a ver com mercadores árabes, montados em camelos, a circular de oásis em oásis naquele areal do Sahara! Fantasiava aventuras das arábias, sob tempestades de areia! Já entreguei alfaias de seda para odaliscas que me recebiam com dança-do-ventre e me ofereciam tâmaras e favos de mel (isso existe?). Comercializei pedras preciosas -falsas, é lógico- para califas vaidosos... Virei tuareg!
Acordei: fui lá no
Houaiss: camelô é uma palavra criada aqui mesmo, ao sul do Equador, publicada pela primeira vez na Revista Careta, que circulou no Rio de Janeiro a partir do remoto ano de 1908. Embora a diferença entre camelo e camelô seja apenas um chapeuzinho circunflexo, a associação mais razoável seria com a palavra "mascate". Este foi o apelido dado aos comerciantes portugueses de Recife-PE pelos brasileiros de Olinda-PE. Aí entram na história os "mercadores árabes": Mascate era o nome de uma cidade da Arábia, de onde vieram alguns para o nordeste brasileiro.
As palavras nos fazem viajar!
Pressionada pela população expulsa das calçadas e pelos lojistas estabelecidos que pagam impostos estratosféricos, a Prefeitura de Belo Horizonte resolveu criar alguns "
shopppings populares", verdadeiros camelódromos. [Mais uma inspiração para meus sonhos das mil-e-uma-noites: se hipódromo é pista de cavalos, camelódromo seria pista de camelos, lógico!]
Alguns acham que foi uma decisão salomônica: agradou aos comerciantes e permitiu que os ambulantes mantivessem seu comércio de bugigangas, quinquilharias, produtos falsificados e, por incrível que pareça, sabidamente contrabandeados.
"A situação econômica não tá prá peixe, o desemprego cresce, a informalidade sustenta milhares de famílias", dizem.
O primeiro camelódromo oficial de Belo Horizonte é o Shopping Oiapoque, apelidado carinhosamente de
Shopping Oi. [abreviatura de Oiapoque].
A classe média empobrecida aderiu. Os abonados, idem. Um pouco envergonhados, alguns compram bolsas
Luis Vuitton e Victor Hugo, absolutamente falsas, "mas iguaizinhas às originais". O preço? "Deste tamaninho..." Já ouvi dizer de pessoas que vêm de longe, até mesmo de Nova York, com encomendas dessas peças, tão charmosas quanto falsas: "- O fake é chic", justificam!
No lugar de árabes de turbante e camelos esbeltos, os coreanos já tomam conta do pedaço. Em muitas lojas, denominadas "box" (= caixa), os vendedores são de origem asiática e alguns ainda nem falam o português.
Os preços variam de acordo com a aparência do comprador. Assim, a gente se fantasia de mais humilde: os homens vão com barba por fazer, bermudas, chinelos.... As madames tentam disfarçar o poder aquisitivo com roupas simples (o básico:
t-shirts e jeans). Mas não dá prá enganar...
Há de tudo: aparelhos de som, DVDs, máquinas digitais, roupas, jaquetas, ferramentas e, principalmente, bugigangas (que o sabe-tudo do Houaiss define como:
objetos de pouco ou nenhum valor ou utilidade; quinquilharias).
Pesquisei preços de câmeras digitais (não são falsas!) na Loja do Feio e constatei: realmente podem sair mais em conta. Aceita-se cartão bancário ou de crédito, etc... Nota fiscal e garantia?
No fio do bigode, amigo. Quem é antigo no meio bancário, conhece essa expressão, “no fio do bigode”. Ela expressa segurança, compromisso e garantia. Advém dos negócios fechados sem nada por escrito, só na palavra! Ah! bom!.
Se a fome apertar, vale uma visitinha ao
Café com Prosa, onde se devoram pão-de-queijo e pão-com-linguiça, acompanhados de cerveja, pinga, refri, sucos e... café, of course.
perigos e armadilhas.Mas para quem se imaginava tuareg atravessando o Sahara ou lutando na "Guerra dos Mascates", isso não é nada!
(Ah! se você viajou mais ainda e experimentou a receita de pão-de-queijo, no link ali atrás, então já tem o passaporte para a mineiridade. Me conte ou me mande uma dúzia. Quentinhos!)

Felicidade sem culpa

Outro dia, motivado pelo post de Allan, do Carta da Itália, falava eu de culpa... Também já escrevera acerca de felicidade. Para algumas pessoas, é impossível ser feliz e, quando experimentam prazer, alegria, leveza, acabam se perguntando: eu mereço isso? Olha a culpa aí!
O curitibano Felipe, do site/blog Cada um na sua, enviou-me os versos da música de Luiz Tatit, Felicidade, que, segundo ele, tem muito a ver com aquele meu post Felicidade plena é doença?.

FELICIDADE
Não sei porque eu tô tão feliz:
Não há motivo algum pra ter tanta felicidade!
Não sei o que que foi que eu fiz,
Se fui perdendo o senso de realidade.
Um sentimento indefinido
Foi me tomando ao cair da tarde:
Infelizmente era felicidade!
Claro que é muito gostoso
Claro que eu não acredito
Felicidade assim sem mais nem menos é muito esquisito...

Não sei porque eu tô tão feliz
Preciso refletir um pouco e sair do barato
Não posso continuar assim feliz
Como se fosse um sentimento inato
Sem ter o menor motivo
Sem uma razão de fato.
Ser feliz assim é meio chato
E as coisas nem vão muito bem:
Perdi o dinheiro que eu tinha guardado
E pra completar, depois disso,
Eu fui despedido e estou desempregado
No amor que sempre foi meu forte
Não tenho tido muita sorte
Estou sozinho, sem saída, sem dinheiro e sem comida
E feliz da vida!!!

Não sei porque eu tô tão feliz
Vai ver que é pra esconder, no fundo, uma infelicidade
Pensei que fosse por aí,
fiz todas terapias que há na cidade
A conclusão veio depressa e sem nenhuma novidade:
O meu problema era felicidade
Não fiquei desesperado, não, fui até bem razoável
Felicidade quando é no começo ainda é controlável

Não sei o que foi que eu fiz
Pra merecer estar radiante de felicidade
Mais fácil ver o que não fiz
Fiz muito pouca aqui pra minha idade
Não me dediquei a nada
Tudo eu fiz pela metade,
porque então tanta felicidade?
E dizem que eu só penso em mim,
que sou muito centrado
Que eu sou egoísta
Tem gente que põe meus defeitos em ordem alfabética
E faz uma lista
Por isso não se justifica tanto privilégio de felicidade
Independente dos deslizes dentre todos os felizes
Sou o mais feliz

Não sei porque eu tô tão feliz
E já nem sei se é necessário ter um bom motivo
A busca de uma razão me deu dor de cabeça, acabou comigo
Enfim, eu já tentei de tudo,
enfim eu quis ser conseqüente
Mas desisti, vou ser feliz pra sempre
Peço a todos com licença,
vamos liberar o pedaço
Felicidade assim desse tamanho
Só com muito espaço!

05 janeiro, 2005

Culpa sua!

O Allan, que nos brinda com textos perfeitos no seu Carta da Itália, fez um post interessantíssimo sobre a "necessidade de se achar um culpado".
A "Culpa" é o flagelo do ser humano, pois se acompanha, sempre, de auto-depreciação e auto-agressão. O culpado se sente desprezível e, mesmo pedindo perdão, reclama um castigo: "eu mereço, eu mereço". A punição pode vir do outro ou de si mesmo, o que alimenta a auto-agressão: às vezes explícita, quase sempre sub-reptícia, inconsciente (esquecimentos, adoecimentos, provocações que desencadeiam problemas, etc.).
Freud chega a colocar a culpa como um dos alicerces das neuroses, construído implacavelmente pelo que chamou de SuperEgo ("aquilo que está acima do eu"). Os sintomas neuróticos (ansiedade, angústia, obsessões) seriam manifestações dos desejos recalcados, escondidos, proibidos, intoleráveis ao Ideal que construímos para nós mesmos e, por isso mesmo, inconscientes.
Para a Psiquiatria, quem não experimenta culpa, não se arrepende dos mal-feitos, é um "psicopata", um "sociopata", um portador de "Transtorno de Personalidade Anti-Social".
Ou seja, apesar de tudo, ainda é mais saudável ter capacidade de sentir culpa e experimentá-la, razoavelmente...
Para minimizar o próprio sofrimento, entretanto, tendemos a "jogar a culpa no outro", "achar um culpado". Se dermos crédito ao Gênesis, tudo começou lá no Jardim do Éden, quando o Criador pegou Adão no flagra: "- Não foi culpa minha, Senhor, foi a Eva que me deu a maçã". Eva: "- Eu não! Eu não! foi a serpente..."
Lembram-se da fábula? Ao invés de assumir sua própria natureza, e devorar logo o cordeirinho, o lobo o acusa de sujar a água. "- Como? bebo abaixo de você, seu lobo!" Mas a fera ainda insiste: "- Se não foi você, foi seu pai". Hhac! Papou o inocente, mas liberou-se da culpa.
O mau aluno não resiste. Diante do fracasso, culpa o mestre: "- O fdp daquele professor me marcou, não sabe dar aulas e, ainda por cima, fez questões sobre o que não ensinou!"
E o cidadão, esquecendo-se de que votou (mal): "- A culpa é do governo!"
Conclusão: aqui estamos, neste vale de lágrimas, cavando o sustento com o suor de nossos corpos e parindo na dor... Bom, mas a culpa, mesmo, é do capeta. Ô diabo, sô!
[Pois é, meu comentário acabou virando um post... culpa sua, Allan!!!]

01 janeiro, 2005

Feliz 2006! Isso mesmo: 2006!

Com a posse dos novos prefeitos e vereadores, o calendário político já está em 2006. Alianças -quase sempre exdrúxulas- se costuram e todos prometem o que não pretendem cumprir. Todos, de olho na disputa pela presidência da República, tão longínqua quanto acirrada. Nas capitais, o desempenho dos alcaides será analisado, sempre, sob esse prisma.
Aqui em Belo Horizonte, um espanto: Fernando Pimentel (PT), que assumira o mandato em substituição ao Célio de Castro - doente - foi reeleito com 70% dos votos. Promete mundos e fundos, visando alcançar projeção nacional. Quer voar alto, o homem.
Nos municípios do interior, os grotões (expressão criada pelo falecido Tancredo Neves - aquele que foi presidente, sem nunca ter sido!), questiúnculas locais passam a ter colorido nacional. A briga pelo poder e pelas coligações beira o realismo fantástico. Os profissionais da política tratam de garantir alianças, propondo candidaturas, distribuindo cargos e favores. Articulam-se na surdina e os opositores de ontem podem ser os aliados de hoje, visando resultados amanhã. Tudo é muito fluido, o terreno é pantanoso, as brumas pouco deixam entrever da real intenção de velhas raposas e dos oportunistas recém eleitos.
Uma das mais perfeitas descrições dessa "política" no interiorzão do Brasil pode ser saboreada na prosa de Mário Palmério, ele próprio político do Triângulo Mineiro, conhecedor das mais incríveis malandragens e sujeiras que se possam imaginar.
Vila dos Confins, que "nasceu relatório, cresceu crônica e acabou romance", segundo definição do autor, é saboroso, curioso, minucioso. É um relato interessantíssimo da politicagem que "astravanca o progresso do país". Vale a leitura, mesmo sendo considerado obra menor, quando comparado ao monumental e clássico Capadão do Bugre.
Em "Vila dos Confins" a manipulação dos eleitores é a tônica e o poder dos coronéis é mantido às custas de compra de votos, ameaças, promessas, fraudes. Necessitando de um aliado na Câmara Municipal, o secretário de campanha convence o caboclo João Francisco de Oliveira a se candidatar à vereança. João era analfabeto, como a maioria da população. Pois o secretário Pé-de-Meia trata de ajudá-lo a desenhar a assinatura, para o requerimento de praxe:

"- Me dá licença, seu João. E pega no mãozão cascudo, pesado tal um caminhão de tora. Vai choferando a bicha, para cima e para baixo, caminhando com ela sobre o papel. O rasto fica: primeiro, a foice espigada do jota, depois a laçada bamba do ó; em seguida, mais duas voltas grandes, repassandas e atreladas uma á outra. Mas ainda falta o remate: o urubuzinho do til que Pé-de-Meia fez João Francisco desenhar, bem saliente, por cima do primeiro trecho da tremida assinatura. - Já varamos um bom eito. Vamos descansar um pouco: falta ainda o Francisco, falta o de Oliveira..."

Não é fácil o voto consciente. Pagamos o preço pela escuridão da ignorância. Se dispensamos alguém que nos cunduza o mãozão na hora do voto, cuidemos para que os marketeiros contratados a peso de ouro não nos façam a cabeça, conduzindo nossas mentes e corações com falsos argumentos, propagandas enganosas, promessas inviáveis. Portanto, já é hora de dizer: Feliz 2006!

30 dezembro, 2004

Quem pode fazer você feliz?

O que mais se espera e mais se deseja aos amigos nas datas importantes - na passagem de ano, por exemplo - é a indefinível felicidade. Feliz Ano Novo é a expressão mais proferida, seja por convenção, seja por convicção.
Mas quem pode nos tornar felizes? Quem nos garantirá aquilo que tanto buscamos? Um amor, dinheiro, o emprego, a conquista de um bem, uma viagem, comida farta...
As receitas são várias. Quanto a mim, estou com a seguinte sugestão:
Felicidade
[Ken Keyes Jr.]

Há uma única pessoa
no mundo
que realmente pode
fazer você feliz.

Há uma única pessoa
no mundo
que realmente pode
fazer você infeliz.

Que tal
conhecer
essa pessoa
mais intimamente?

Para começar,
olhe-se
no espelho;
sorria
e diga:
"Olá!"

29 dezembro, 2004

Experimente pintar um pássaro

Como pintar um pássaro
Jacques Prévert
[Tradução-Homenagem: Carlos Drummond de Andrade]

Pinte primeiro uma gaiola com a porta aberta.
Em seguida pinte alguma coisa graciosa,
alguma coisa simples,
alguma coisa bonita,
alguma coisa útil... ao pássaro.
Depois, coloque a tela contra uma árvore no jardim,
no bosque
ou na floresta
e esconda-se atrás da árvore sem dizer nada,
sem se mexer.
Às vezes o pássaro chega logo,
mas pode levar muitos, muitos anos
até se resolver.
Não desanime,
espere.
Espere, se preciso, durante anos.
A velocidade ou a lentidão da chegada do pássaro,
não tem a menor relação com a qualidade da pintura.
Quando ele chegar (se chegar)
mantenha o mais profundo silêncio,
espere que ele entre na gaiola.
Depois que entrar,
feche lentamente a porta com o pincel.
Aí então
apague uma por uma todas as varetas.
(Cuidado para não esbarrar em nenhuma pena do pássaro).
Finalmente pinte a árvore,
reservando o mais belo de seus ramos ao pássaro.
Pinte também a verde folhagem e a doçura do vento,
a poeira do sol,
o rumorejo dos bichinhos da relva no calor da estação.
Depois aguarde que o pássaro se decida a cantar.
Se ele não cantar,
mau sinal:
sinal de que o quadro não presta.
Mas bom sinal, se ele canta:
sinal de que você pode assinar o quadro.
Então retire suavemente uma pena do pássaro
e escreva o seu nome a um canto do quadro.
[O texto original está bem aqui.]

27 dezembro, 2004

Viagem virtual pela Estrada Real

Janeiro vai chegando e o pensamento se ocupa das férias. Algumas idéias se organizam em torno da VIII Mostra de Cinema de Tiradentes, a se realizar na última semana (21 a 29/01/2005): reservar pousada e grana.
Como que adivinhando, o "genro-Noel" Daniel Caborges acaba de me presentear com o livro De Volta à Estrada Real, de Flávio Leão. Está sendo a preparação "espiritual" para mais um giro por Tiradentes-MG. Trata-se do diário da viagem de Flávio e seu amigo Rafael pela Estrada Real, do Rio de Janeiro até Ouro Preto, a pé, seguindo o rastro dos tropeiros do século XVIII. Comecei a ler e estou em plena viagem virtual.
Além de mergulhar na cultura cinematográfica e gastronômica, em Tiradentes vou ler o O Código Da Vinci, presente da Amélia, amiga-companheira-esposa.
Se "navegar é preciso, viver não é preciso" -lema dos argonautas, que Fernando Pessoa usou no prólogo de sua obra poética- viajar por terra também é preciso! Fascinam-me as estradas, com suas paisagens, surpresas, viajantes. Por isso mesmo Flávio Leão destaca, na orelha do livro, o poema da Rachel de Queiroz:
A Estrada
[Rachel de Queiroz]
Um palácio é bonito,
um arranha-céu é grande,
uma catedral é imponente,
mas uma estrada é viva.
Por isso, das construções do homem,
talvez seja a estrada
a que mais lhe fale ao coração,
lhe sugira com aproximação maior
o transitório, o inquieto,
o rápido da vida.
A estrada é o rio sem água -
quem desce nele são os viventes.
A estrada é o longe e o perto,
a presença da distância,
o convite à caminhada,
a aventura, a fuga.
A estrada leva e traz,
a estrada anda,
vive e participa também.

As metáforas da Rachel de Queiroz são preciosas: a sugestão do transitório, do inquieto, do rápido da vida, o rio sem água no qual descem os viventes... viajar é preciso, viver não é preciso!

24 dezembro, 2004

O Natal de Maria Cleonice

Maria Cleonice - é assim que gosta de ser chamada, pois "os nomes duplos inspiram nobreza"- acordou bem disposta. Bonita, suave, de olhos azuis, ajeitou o cabelo, caprichou na maquiagem, borrifou um pouco de Poison nas curvas de seu pescoço e no colo bem feito. Os 41 anos não lhe cobram quase nada.
Feliz? Pode-se dizer que sim, embora o ex-noivo, Antônio, ainda a faça suspirar um pouco, quando as boas recordações avivam a libido. De verdade, nunca se afastaram, pois, embora casado com Vanessa, o moço é seu colega de escritório. Além disso, mantêm explícita amizade e, para espanto de uns e admiração de outros, Maria Cleonice é íntima do casal - coisa dos tempos modernos.
Às nove, suavemente envolta pela fragância venenosa do perfume, ela está diante do ex-noivo que, mais uma vez, solicita-lhe visita a um cliente, na vizinha cidade de Santa Luzia:
- Não sei se é possível, Tonico, meu carro está na oficina.
- Pois lhe empresto o meu, vá no Corsa.
...
Lá pelas onze, Antônio explica isso à Vanessa. No trajeto para casa, tomada por um ciúme medrado insidiosamente nos últimos tempos, demonstra-lhe desagrado:
- Benzinho, essa mulherzinha já tá abusando, você não acha? Tá sempre arrumando desculpa para ficar perto de você e, agora, nosso carro está com ela! Estou me segurando, não é de hoje!
Antônio evitava qualquer discussão. Contemporizou:
- Ah! meu amor... tá bom, tá bom, não vou dar mais colher de chá, você sabe que te amo!
A tempestade quase fora adiada se não tocasse o celular. Era Maria Cleonice:
- Oi, meu Tonico, passo na sua casa, devolvo o carro e almoço com vocês.
Indeciso entre não desagradar à mulher e à ex-noiva, passa o telefone à Vanessa:
- Você decide.
- Olhaqui, sua noivinha frustrada, fique no seu lugar, vê se desconfia e dá um tempo!
...
Às 16,32, o porteiro do prédio de Antônio e Vanessa abre o portão para o Corsa do 504. Bonita, suave, de olhos azuis, Maria Cleonice ajeita o cabelo:
- O carro já está na vaga, Feliz Natal!
...
A fumaça toma conta do ambiente. Espessa e negra, provém da garagem. Os bombeiros são chamados.
Maria Cleonice comemorara o Natal incendiando o "corsinha do Tonico".
- O fogo se alastrou, não foi minha culpa. Não queria queimar os outros cinco carros, lamentou.
Bonita, suave, de olhos azuis...

21 dezembro, 2004

Big Brother na Big City

Há muitos anos li o interessantíssimo e fundamental "1984", obra de George Orwell, pseudônimo do autor inglês Eric Arthur Blair (1903-1950), nascido nas Índias britânicas, de mãe de ascendência francesa e pai inglês. O Mundo Cultural assim apresenta Orwell e resume seu romance "profético":
Começou a escrever sob o pseudônimo de George Orwell e sempre se pareceu mais com os heróis de seus romances que com os muitos rótulos com que tentaram catalogá-lo ao longo de sua vida. Ferrenho ativista a favor da liberdade e da justiça, lutou na Guerra Civil Espanhola, onde assistiu à derrota do POUM (Partido Operário de Unificação Marxista) e começou a desiludir-se com o stalinismo. Dedicou seus últimos anos de vida a denunciar o papel do Estado no aniquilamento das liberdades individuais e da cidadania. É considerado o mais influente escritor político do século XX, a ponto de hoje o termo “orwelliano” ter-se consagrado como adjetivo, caracterizando o que tem aspecto totalitário e falsificador na História.
A obra retrata o mundo dividido em três grandes superestados: Eurásia, Lestásia e Oceania. Em uma ou outra aliança, esses três superestados estão em guerra permanente. O objetivo da guerra, contudo, não é vencer o inimigo nem lutar por uma causa,
mas manter o poder do grupo dominante.
O enredo, sob a perspectiva de Oceania, mostra como teletelas permitem que o chefe supremo do Partido, o Grande Irmão – o Big Brother no original inglês –, vigie os indivíduos e mantenha um sistema político cuja coesão interna é obtida não só pela opressão, mas também pela construção de um idioma totalitário, a Novilíngua, que, quando estivesse completo, impediria a expressão de qualquer opinião contrária ao Partido.
Em todas as casas e edifícios, havia teletelas, através das quais o Grande Irmão vigiava todos os cidadãos.
Embora em circunstâncias diferentes daquelas prenunciadas por George Orwell, é impossível não associar sua "premonição" com o que está a acontecer nas grandes metrópoles e, recentemente, em nossa Belo Horizonte: acabam de ser instaladas mais de 90 câmeras de TV no hipercentro, vigiando os transeuntes por 24 h. A polícia, pelos monitores, tem a possibilidade de dirigir o foco para qualquer indivíduo "suspeito", com a aproximação impressionante proporcionada pelas câmeras com zoom de 200 vezes! Ou seja, dá prá conferir até a cor de seus olhos. O que me faz recordar os lembretes pendurados até nos banheiros de minha escola primária (lá se vão alguns anos): "Deus me vê". Não dava prá pecar nem em pensamento!
Dados oficiais apuram que os índices de criminalidade (furtos) se reduziram em 40% e uma dúzia meliantes foram presos em flagrante somente nas duas últimas semanas!
Belo Horizonte virou um imenso "big brother". Não aquele global, desempenhado por caçadores da grande chance, mas o big brother urbano, no qual todos participamos.
Nos elevadores do prédio onde trabalho já sou vigiado por câmeras e os porteiros sabem quando ajeito o cabelo ou coço o saco. Nas lojas, sorrio sempre, conforme mandam os avisos: "Sorria, você está sendo filmado!"
Agora, para um passeio pelas calçadas, tenho de caprichar no visual e na atitude, pois o risco de ser "suspeito" pode causar confusões: "Teje preso! O que o senhor está fazendo olhando insistentemente para a vitrine da joalheria?" Lá vou eu ter de explicar que não tenho más intenções...
Eis o preço da modernidade, da insegurança geral, da desigualdade, da decadência dos valores, da necessidade de controle!
Você aí, cuidado! Evite atitudes suspeitas! Caso queira cometer um delito, faça-o na periferia ou eleja-se deputado, vereador, prefeito!

17 dezembro, 2004

Felicidade plena é doença?

Há algum tempo, tomei conhecimento do suicídio de um jovem de 25 anos, filho de poderoso empresário nacional. O rapaz teria deixado um bilhete com a explicação:
"- Enjoei de viver, nada me falta, tenho tudo, perdi o tesão de viver..."
As pessoas comentavam a inacreditável razão para o tresloucado gesto (expressão consagrada da crônica policial) e me interrogaram sobre isso. A gente ouve dizer acerca de desesperados que se matam por perderem algo ou alguém, por falta de emprego, ciúmes, depressão grave... mas, por tudo ter?
Gostava de brincar com meus filhos ao entrar no BH-Shopping, exclamando, do alto do 3° andar, bem no átrio daquele templo de consumo: "- Graças a Deus, não preciso de nada disso aí!". E remendava, diante do espanto: "- ... mas quero muitas coisas!". O alívio era imediato.
Somos seres do desejo, além de animais necessitados. Para além da satisfação do que chamarei de necessidades instintivas (alimento, abrigo, oxigênio, sono, etc.) o ser humano se constitui como tal por ser desejante. Não nos basta conseguir sobreviver, queremos mais e mais. É o que Freud chamou de pulsão, o correlato psíquico dos instintos.
A pulsão busca a satisfação por qualquer meio, custe o que custar, "o que quero é gozar", diria o puro impulsivo. Assim agem as pessoas impulsivas que, diante de um obstáculo ou mobilizados pela força pulsional, avançam sobre a presumida fonte de sua satisfação e se mostram agressivas e sem controle diante de qualquer frustração.
O desejo, porém, é um refinamento e o ser desejante diria: "- O que quero é gozar... de uma certa maneira!". É mais ou menos a diferença entre a fome e o apetite. O apetite nos propicia a escolha por determinado alimento, o requinte, a espera, o adiamento da satisfação. A pulsão sexual, por exemplo, poderia ser satisfeita por qualquer objeto sexual. Já o ser-desejante escolhe a parceria por razões puramente individuais e, sempre, inconscientes. Isso, irônicamente, explica tantas escolhas errôneas - ou incompreensíveis ao senso comum - de parceiro(a)s! Aqui aparece o que chamamos amor (!?).
O que causa o desejo é, portanto, algo que não se vislumbra objetivamente, ou seja, um objeto perdido, faltoso, A FALTA!
Ah, bom! assim é possível entender as razões do jovem suicida: se nada lhe falta (é lógico que se trata de uma percepção totalmente enganosa), então o desejo morre e o sujeito sucumbe: "Sem tesão não há solução", diria o terapeuta-escritor Roberto Freire.
O deus-Mercado tem-se esmerado em oferecer objetos para a satisfação dos consumidores, lançando novidades, gadgets, quinquilharias; a Ciência promete juventude eterna; a Indústria do Entretenimento derrama sexo-drogas-rock'n roll sobre corações e mentes e os bichinhos humanos correm como ratinhos de laboratório atrás das migalhas... alguns correm a vida inteira; mais alguns impulsivos buscam compulsivamente adquirir tudo e cada vez mais; outros, enfim, se cansam de tanta oferta e caem no tédio - depressão, desinteresse por tudo, anorexia, auto-extermínio.
É necessário recuar diante de tanta oferta, buscando descobrir o próprio desejo - o que não é fácil, irmão.
Sobre este tema, um Seminário está sendo oferecido:
"Esse é um importante problema humano, para a psicanálise na orientação lacaniana. O difícil não é tanto tratar o que dói, mas, paradoxalmente, o difícil, para um analisando, é se responsabilizar por suas qualidades, pelo êxito, pelo que lhe acontece. O que isso quer dizer - perguntava Lacan - se não que "o que é temido é sempre o isto que não falta"? Os módulos de pesquisa, dirigidos por Jorge Forbes no primeiro semestre de 2005, estarão atentos ao que acontece quando a falta deixa de faltar - em um estudo dos seminários de Lacan: A Angústia e O Sintoma."

12 dezembro, 2004

107 anos

Daqui da varanda, sob uma fina garoa e céu escuro, aliviado com o suspiro de esperança do Clube Atlético Mineiro [este link é quente!] após a vitória (1x0) de ontem sobre o Grêmio , observo nossa cidade que comemora, hoje, 107 anos.
A criação de Belo Horizonte, ao final do século XIX, foi motivada, antes de tudo, pelos ideais modernizadores da República recém proclamada. A antiga Vila Rica (Ouro Preto), com suas igrejas barrocas e palacetes encarapitados em tortuosas vielas, representava o império e a colonização portuguesa. Os republicanos, influenciados pelos ideais positivistas - ordem e progresso - e impregnados de francesismos, propuseram a mudança da capital, enfrentando oposição de políticos tradicionais. Queriam uma cidade racional, riscada com método, arejada, funcional. Muitos duvidaram da empreitada: em três anos, contruir uma cidade "melhor do que Buenos Aires, mais moderna que o Rio de Janeiro e São Paulo", como prometia o engenheiro responsável, Aarão Reis. O traçado urbano , a régua e esquadro, é um tabuleiro com ruas que se cruzam perpendicularmente, interrompidas na diagonal por largas avenidas. Independente do terreno acidentado, assim foi feito: hoje, motoristas aprendem a "controlar o carro na embreagem e a arrancar nas subidas íngremes" para, finalmente, conseguir a carteira de habilitação (sufoco total!). Projetada para pouco mais de 400.000 habitantes, a "grande BH" se transformou numa metrópole de 3.000.000. A modernidade transformou a incipiente capital, empoeirada e deserta há alguns poucos anos, num semi-caos repleto de ônibus, carros, caminhões. O centro é um burburinho de gente a trançar como formiguinhas à sombra de arranha-céus. Somos a capital dos barzinhos, da gastronomia tradicional e internacional (por conta dos imigrantes italianos, alemães, espanhóis, orientais, árabes, etc). Música e teatro, dança e pintura, artesanato e tecnologia, tudo enriquece a vida cultural do antiga Curral d'El Rey, onde turismo e cultura se confundem.
Num dos jornais de hoje, uma notícia demonstra a presença da tradição entre nós:
Um giro pela cidade torna-se fundamental, para contemplar trechos, aplaudir a beleza e, só por hoje,
fechar os olhos para as mazelas. É o que faz o taxista Alvino Bernardo de Souza, de 91anos (!!!), que se mantém ativo no volante de seu carro, acelerando o bom humor e o sorriso
e deixando na poeira os obstáculos. Sempre com uma boa história para contar, Alvino, morador do bairro São Geraldo, é um ótimo papo, gentil e espirituoso como ele só.
Mas, no serviço, as coisas mudam. Teve JK como passageiro, quando a Pampulha estava em construção, mas não rendeu muito assunto, “devido ao trabalho”.
Para comemorar, muitas festas, discursos, espetáculos.
Entretanto, a cidade não pára, os problemas urbanos se acumulam, a violência nos cerca, os morros, tomados por favelas, contemplam a cidade. São desafios a serem vencidos, "se a tanto ajudar engenho e arte".

05 dezembro, 2004

Eu claudico, tu claudicas...

"Quando nasci, um anjo torto, desses que vivem na sombra, disse: vai, Carlos, ser gauche na vida". Taí o primeiro verso do poema autobiográfico do Carlos Drummond de Andrade. Drummond confessa, logo de cara, sua claudicação pela vida: ser gauche é ser meio manco, meio sem jeito, tímido talvez.
Pois, quando nasci, meus pais me deram um nome: Vai, menino, ser Cláudio na vida! Acho que foi logo aí que me identifiquei com o Poeta itabirano. Afinal, meu nome deriva do verbo "claudicar = arrastar de uma perna; não ter firmeza em um dos pés; coxear, mancar, capengar e, no sentido figurado, cair em erro ou falta; fraquejar intelectualmente". Ai, ai, ai, minha humildade não chega a tanto, nem Soié e Dona Aparecida me rogaram praga nenhuma! Segundo minha mãe, tratava-se de um nome bonito e menos comum e, além disso, nome de imperador romano! Um grande futuro me esperava - ou ainda espera, duvidar quem há-de?
Gosto de utilizar o verbo claudicar sempre que cometo uma gafe, ou "mancada =
atitude, resolução, comportamento errôneo, cujos resultados são insatisfatórios ou negativos; falha, lapso, erro, indiscrição espontânea, irrefletida; ação ou fala inoportuna; gafe."
Pois agora, confesso: de vez em quando dou umas mancadas, que deus-me-livre-e-guarde!
Aqui vai uma:
- encontro-me com o jornalista político Vidal, na rua da Bahia. Logo digo: "- Há quanto tempo". E ele: "- Viajei, estava em Milão." Todo afoito, exclamo: "- Ah! então deve estar ótimo no alemão!"... "- Que isso! Milão fica na Itália." Tento consertar: " - É mesmo, onde fica a FIAT." Não deu mais, desolado, me ampara: "- Não, a FIAT fica em Turim!!!". Deixei um cumprimento sem graça e me mandei! Já claudicara demais!
E você, já claudicou alguma vez?

02 dezembro, 2004

Água na boca!

Ouro Preto-MG fica a 90km de Belo Horizonte, nestas Minas Gerais. É Patrimônio da Humanidade, pois representa um dos maiores acervos de construção colonial de nosso país. Na História do Brasil, tem destaque por causa da Inconfidência Mineira (cujo líder, Francisco José da Silva Xavier, foi enforcado, esquartejado, virou Samba de Doido, tem estátua na Praça Tiradentes - esquina de Brasil com Afonso Pena, em BH e, principalmente, deu nome a um dos lugares mais típicos da mineiridade que conheço: Tiradentes-MG ). Já foi capital da Província das Minas Gerais quando se chamava Vila Rica. É o ponto culminante do maior projeto turístico dessas paragens, a Estrada Real...
Mas hoje, um convite:
Que tal aproveitar do Festival de Gastronomia, Ouro Preto Sabor?

O festival envolve 29 restaurantes de Ouro Preto, praticamente a totalidade das melhores casas da cidade. O evento conta com o apoio do Ministério do Turismo, que possibilitou que os 20 primeiros restaurantes de Ouro Preto que se inscreveram para participar do festival recebessem gratuitamente o PAS (Programa Alimentos Seguros) do Sebrae, por meio do qual são aplicadas consultorias e treinamentos visando a produção de alimentos com segurança e qualidade.Além disso, o período final do festival com o encontro do Mercosul, Ouro Preto + 10, que vai reunir na cidade 12 chefes de Estado, o que deve trazer uma visibilidade internacional ao evento.

Só para se ter uma idéia, eis alguns pratos que você poderá saborear:

  • Polenta a Moda do Beco - Polenta recheada com queijo gorgonzola, coberta com frango, nozes, curry e ora-pro-nóbis
  • Medalhão ao Molho de Ervas em Cama de Taioba - Entrada de salada de cenoura, pepino e maçãs seguida de medalhão de filé mignon com bacon ao molho de ervas sobre folha de taioba acompanhado de moranga e arroz com cogumelo.
  • Camarão do Carmo - Camarões VG ao molho de jabuticaba acompanhada de arroz com camarões, shitake. Sobremesa de maracujá num lago de creme com chocolate amargo.
  • Frango com Ora-pro-nóbis - Frango com ora-pro-nóbis acompanhado de arroz branco e angu de fubá de moinho d'agua.
  • Torta Negra - Torta com mousse de jabuticaba, chocolate amargo, calda de jabuticabas e pistache.
  • Salmão ao Molho de Alcaparras - Salmão grelhado com molho de alcaparras acompanhado de arroz com nozes e passas.
  • Entrada de bambá de couve com costelinha desfiada seguida de coxa e contra coxa recheada com abobrinha e mel acompanhada de arroz com alho, tutu de feijão e couve frita.
  • Massa branca de lasanha servida com carne de sol desfiada com molho ao sugo, molho branco e queijo canastra.
  • Fettuccine ao molho de jabuticaba com costelas de porco frescas.

Sentiu o drama? Estive com Amélia em Ouro Preto outro dia mesmo, passeando com os amigos brasilienses Paulo e Letícia - veja o post Vila Rica de Ouro Preto prá dar mais vontade ainda de trilhar os tortuosos caminhos abertos pelos bandeirantes...
O Festival termina em 19 de dezembro, ou seja, você tem ainda 2 semanas prá arrumar as mochilas, pegar a estrada e... a gente se encontra por lá! O friozinho deste verão(!) ajuda a subir e descer ladeiras, contemplando montanhas, adentrando igrejas, espiando pelas janelas coloniais. Aproveite para visitar o Museu do Oratório. Deixe uma oração para esse que vos fala: não preciso de nada, só de continuar tudo tão bom com o que Deus me tem servido. Até.


26 novembro, 2004

Fome zero: uma contribuição

Em relação ao post anterior, no qual se comunica a utilização do esperma de bacalhau para confeccionar cosméticos, muitos comentários demonstram a geral preocupação com o aproveitamento de substância tão valorizada.
Falou-se da utilização do produto humano in natura para melhorar a pele, das predileções pelo beijinho doce de antigamente, das fórmulas para extrair o precioso líquido (motel com sessão privé), da disposição de se criar bacalhau com o intuito capitalista de se enriquecer...
Resolvi aprofundar um pouco mais e descobri que todos (os homens, claro) podemos colaborar para a politicamente correta campanha "Fome Zero". Como? Ora, elementar, meu caro Watson! Veja os passos (de novo, peço colaboração ao engenheiro químico Caborges e à química Márcia Barsotelli):
1) comprovar se a composição do esperma é, realmente, apenas isso: espermatozóides, líquido espermático, fosfato, frutose e lactose;
2) determinar a quantidade exata de cada um dos nutrientes acima;
3) calcular o potencial energético de cada - com perdão da palavra - ejaculação;
4) recompensar monetariamente os doadores voluntários (isenção do Imposto de Renda de acordo com sua "produtividade" (isso estimularia o Amor e não a Guerra, diminuindo a violência que se abate sobre a sociedade);
5) centralizar a coleta na Agência Nacional de Nutrição Espermática-ANNE- (da qual posso ser presidente ou tesoureiro, desde que a verba seja atraente, que bobo não sou);
6) distribuir os nutrientes de acordo com as necessidades. Por exemplo:
- onde falta água: líquido espermático;
- onde falta memória: fosfato espermático;
- onde falta açucar, doces, álcool combustível e leite: frutose e lactose.
- onde falta gente: o espermatozóide em si (os filósofos que definam qual é a essência mesma do bichinho).
PS 1 - Pronto! Não venham me dizer que não me esforcei!
PS 2 - Aceitam-se sugestões.

24 novembro, 2004

Beijo molhado e... salgado!

Notícia publicada na Folha on line:
Uma empresa de biotecnologia norueguesa disse hoje que aposta no mercado de esperma de bacalhau para a indústria de cosméticos. A Maritex, que é uma das maiores produtoras mundiais de óleo de fígado de bacalhau, pretende produzir sete toneladas de esperma de bacalhau para o mercado internacional de cosméticos.
Isso significa que você vai beijar espermatozóide de bacalhau na próxima "ficada", né? O papo vai ficar bem ictiológico:
-Hummm, que beijo gostoso, gata!
-É de bacalhau norueguês, gostou?
-Ótimo!
...
-Minha filha, isso aí na sua boca, é sapinho?
-Não, mãe, é bacalhauzinho!
-?
-A médica falou que é efeito colateral do baton Maritex.
...
-Você escovou os dentes, hoje?
-É claro!
-E esse bafo?
-Bacalhau português, uai!
O engenheiro químico [Alô, alô, Caborges!] garante: "Não tem cheiro nem sabor de nada". Mas, garantir mesmo, quem há-de?
O preço do esperma, dependendo da pureza, chega a U$ 200 o kilo. Se, antigamente, o quente era a tal galinha-dos-ovos-de-ouro, agora o que vale, mesmo, é o bacalhau-dos-ovos-dourados, pois não?
[Este post foi inspirado pelo divertido blogueiro Marcelo Barros]

22 novembro, 2004

Olhar, ver, enxergar

Parece-me que a língua portuguesa é a única em que o substantivo olho deu origem ao verbo olhar e à ação deste verbo, o olhar.
No Inglês, temos eye para olho; sight para o olhar; to look e to view para o verbo. Há sutilezas no uso desses vocábulos, pois nem sempre quem olha consegue ver. É o "o pior cego"!
Há o olhar objetivo para as coisas do mundo. Difícil é olhar para dentro de si mesmo, se descobrir, se conhecer: -"Vê se te enxerga, rapaz!"
Os olhos podem ser a janela da alma, demonstrando ódio, amor, curiosidade, frieza, medo, etc. Somos revelados pelo olhar! (Por isso o psicanalista se posiciona fóra do campo de visão do cliente).
É no olhar da mãe que a criança se descobre (isso dá um post!).
Você já se sentiu comido(a) pelo olhar de alguém? E o que dizer dos pais que, com o olhar, conseguem impor aos filhos sua autoridade?
Machado de Assis conseguiu imortalizar os olhos da Capitu, em Dom Casmurro:
"Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo,o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros; mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. (...)"
Trocar olhares pode ser grave quanto um adultério, ou tão comprometedor quanto um contrabando. O voyeur que o diga.
Se, aqui nos trópicos, os olhos azuis ou verdes são valorizados como belos, profundos, misteriosos, sedutores e irresistíveis, já o alemão Goethe, no seu "Os sofrimentos do jovem Werther" (Die Leiden des jungen Werthers, 1774) inaugura o romantismo literário descrevendo a paixão do protagonista pelos olhos negros da Charlotte S...
Tantas associações possíveis acerca do olhar, do ver, do enxergar - tudo isso me veio à telha (expressão antiga, sô!) ao me deparar com uma exposição de fotografias feitas por um cego: Aconteceu em Itabira-MG (terra do poeta Drummond), onde estive, sexta-feira passada. Fiz uma conferência num evento acerca de "inclusão social" e lá estava o José Eustáquio, ex-funcionário da CVRD, que perdera a visão aos cinquenta e poucos, após trombose cerebral. Pois a inclusão social do JE se faz pelas exposição de fotos que anda batendo de paisagens que guarda em sua memória. Ruas, casas, vielas, montanhas, pessoas - tudo que tem um significado afetivo para ele está sendo, agora, capturado pelas lentes de sua câmera.
Quero lembrar-me do nome do filme chinês, acerca de um menino cego, rejeitado pelo pai: alguém sabe? Vale a pena assisitir! Há, também, um documentário brasileiro acerca de cegos e sua visão de mundo...
Ah!, tem um site que nos mostra o que é ver com o corpo todo: corram ao Bengala Legal para conhecerem a menina e a pedra!
Aprender a olhar e a ver, eis a questão.

18 novembro, 2004

Mensagem às estátuas

Você já pensou em se imortalizar na pedra, no mármore, no bronze ou no... no... blog???
Frequentemente ouvimos falar da inauguração de uma placa comemorativa ou do busto esculpido de uma personalidade a habitar uma praça ("logradouro público" - segundo a burocracia oficial).
Até os mortos têm, sobre suas tumbas, estátuas tragicamente belas, cinzeladas em mármore negro ou em alvas pedras: "Aqui jaz fulano de tal." Heróis da pátria, beneméritos, políticos orgulhosos de si, cada qual busca a imortalidade pétrea já tentada pelos faraós e suas mirabolantes pirâmides. "Vanitas vanitatum", "Mataiótes mataiotéton", "Vaidade das vaidades"...
Eis que me deparo com um poema de Angel Gonzales, cuja tradução livre deixo aqui:
Mensagem às estátuas
Sei que vocês, pedras,
violentamente deformadas e quebradas
pelo golpe preciso do cinzel,
ainda exibirão durante séculos
o último perfil que representam:
seios indiferentes a um suspiro,
pernas firmes que desconhecem a fadiga,
músculos tensos em inútil esforço,
cabeleiras pétreas que o vento não altera,
olhos abertos que não vêem a luz.
Pois sua imóvel arrogância,
sua fria beleza,
sua desdendosa imutabilidade,
tudo isso acabará, um dia!
O tempo é persistente, tenaz.
A terra também espera por vocês:
Ao pó retornarão. Caídas sob o próprio peso,
haverão de ser cinzas, ruínas, poeira,
quando sua pretensa eternidade nada mais será!
Tornar-se-ão pedras, já que pedras nunca deixaram de ser,
mineral sem vida, puro escombro,
depois de ter vivido por um tempo
ostentando memória de vitórias -
glória vã de algo também dissolvido no esquecimento!

09 novembro, 2004

Pongar e caronear

1 - Na minha infância, tão reprimido quanto excitante era "pegar uma ponga". Nova Era-MG, cidadezinha debruçada às margens do Rio Piracicaba, era rota de caminhões cuja dimensão minha pequenez classificava de gigantes. Transportavam carvão vegetal, dia e noite, extraído das matas que restavam no Vale do Rio Doce. Queimava-se madeira como se matas e florestas não servissem para nada e fossem inextinguíveis! Ao reduzirem a velocidade, serpenteando pelas ruelas estreitas, ladeadas pelo casario colonial, ofereciam o momento certo: garotos, corríamos e "pongávamos". Por alguns minutos (ou será que eram apenas um flash de segundos?) as mãos minúsculas agarradas na traseira, balançávamos as pernas e soltávamos. Nas subidas íngremes, dava para estender a emoção por um tempinho mais, até que a dor nos vencia, ou o medo. Um pó preto tingia-nos as mãos. Às vezes, algum transeunte nos "passava um pito" ou, mais tarde, contava aos pais. Aí, era repreensão, admoestações e até castigos. Menos perigoso e, portanto, menos excitante, era pegar uma ponga na garupa de bicicletas. Meu pai tinha uma tipo "camelo". Ele mesmo permitia que eu e meus irmãos fizéssemos aquilo: Saía pedalando devagar e lá íamos correndo até que, de um salto, um de nós pulava na garupa. Era uma festa! Recentemente, resolvi olhar no dicionário a palavra "ponga", resquício da infância, significante a pontuar lembranças de um menino do interior. Lá está, no Hoauiss: "Pongar = v. pegar (veículo) em movimento".
2 - Essa lembrança das pongas me assaltou quando li reportagem de página inteira no caderno de veículos do Estado de Minas. O articulista enumerou alguns conselhos para quem quiser "pegar carona" [De novo, o Houaiss: Na terceira acepção, "carona = transporte gratuito em qualquer veículo; bigu, boléia". Como os tempos bicudos exigem economia, nada melhor do que uma carona amiga. Mas, o bom caroneiro deve seguir os 10 mandamentos:
I- nunca se atrasar, jamais fazer o dono do veículo esperar;
II- elogiar o carango, sempre, mesmo que esteja caindo pelas tabelas;
III- oferecer (só oferecer!) para contribuir com o gasto de combustível;
IV- não discordar das opiniões do dono, nem em questão de futebol, religião ou política;
V- empurrar prontamente o carro, em caso de enguiço;
VI- rir das piadas do dono, mesmo que sejam péssimas;
VII- descer rapidinho, inventar uma desculpa, caso o motorista seja um kamikase;
VIII- não reclamar da música, mesmo que seja axé ou Chitãozinho e Xororó;
IX- nunca, jamais, em tempo algum, 'soltar gases' dentro do veículo;
X- não dormir durante o trajeto; babar no banco, nem pensar!
Com este manual de "auto"-ajuda, seremos bons caroneiros!

03 novembro, 2004

Para bem viver, filosofar é preciso

Sêneca foi um filósofo e escritor latino, nascido em Córdoba, na Espanha, aproximadamente quatro anos antes da era cristã. Além de outros escritos, deixou-nos "Doze Ensaios Morais, dentre os quais se destacam: "Sobre a Clemência", endereçado a Nero sobre os perigos da tirania; "Sobre a Brevidade da Vida", uma exortação à filosofia e "Sobre a Tranquilidade da Alma", que tem como tema o problema da participação na vida pública. Também escreveu Cartas Morais, das quais escolhi a número 1:

"1. Procede deste modo, caro Lucílio: reclama o direito de dispores de ti, concentra e aproveita todo o teu tempo que até agora te era roubado, te era subtraído, que te fugia das mãos. Convence-te de que as coisas são tal como as descrevo: uma parte do tempo é-nos tomada, outra parte vai-se sem darmos por isso, outra deixamo-la escapar. Mas o pior de tudo é o tempo desperdiçado por negligência. Se bem reparares, durante grande parte da vida agimos mal, durante a maior parte não agimos nada, durante toda a vida agimos inutilmente.
2. Podes indicar-me alguém que dê o justo valor ao tempo aproveite bem o seu dia e pense que diariamente morre um pouco? É um erro imaginar que a morte está à nossa frente: grande parte dela já pertence ao passado, toda a nossa vida pretérita é já do domínio da morte!. Procede, portanto, caro Lucílio, conforme dizes: preenche todas as tuas horas! Se tomares nas mãos o dia de hoje conseguirás depender menos do dia de amanhã. De adiamento em adiamento, a vida vai-se passando.
3. Nada nos pertence, Lucílio, só o tempo é mesmo nosso. A natureza concedeu-nos a posse desta coisa transitória e evanescente da qual quem quer que seja nos pode expulsar. É tão grande a insensatez dos homens que aceitam prestar contas de tudo quanto - mau grado o seu valor mínimo, ou nulo, e pelo menos certamente recuperável - lhes é emprestado, mas ninguém se julga na obrigação de justificar o tempo que recebeu, apesar de este ser o único bem que, por maior que seja a nossa gratidão, nunca podemos restituir.
4. Talvez te apeteça perguntar como procedo eu, que te dou todos esses preceitos. Dir-te-ei com franqueza: como alguém que vive bem, mas sem esbanjamento. Tenho as minhas contas em dia! Não te posso dizer que nunca perco tempo, mas sei dizer-te quanto, porquê e de que modo o perco. Posso prestar contas da minha pobreza. A mim, porém, sucede-me o mesmo que a muitos que, sem culpa própria, ficaram reduzidos à miséria: todos perdoam, mas ninguém ajuda.
5. Que mais há a dizer? Não considero pobre aquele a quem basta o pouco que tem. Prefiro, contudo, que tu preserves os teus bens e que o comeces a fazer quanto antes. Conforme diziam os nossos maiores, "já vem tarde a poupança quando o vinho está no fundo." É que o que fica no fundo, além de ser muito pouco, são apenas as borras!
Adeus!"

Não me chamo Lucílio, nem moro em Roma, mas li e reli essa Carta e ando pensando em colocar em prática algum conselho. Mas tá difícil, sô!

28 outubro, 2004

"Amar é..."

Tenho visitado inúmeros blogs, com os quais aprendo, divirto-me, irrito-me, espanto-me, rio, me identifico, surpreendo-me. Ou seja: esse mundo virtual é o espelho do mundo real, onde as vicissitudes do dia-a-dia se traduzem e se metaforizam de forma multifacetada, instantaneamente.
Alguns blogs chamam a atenção pelo conteúdo lamentoso em função das frustrações amorosas vivenciadas por quem os escreve: tal como um muro das lamentações, os diários virtuais, trazem à tona a carência maior do ser humano: o desejo de ser amado incondicionalmente! Oh! missão impossível!
Comecemos pelo princípio: ao nascer, o filhote do homem é totalmente dependente, frágil, incapaz de se manter. Graças aos cuidados maternos (ou de quem se assume como cuidador), sobrevive-se. Uma relação imediata se configura: necessitado + cuidador. Ou seja: no início da vida, somos "seres da necessidade". Até aí, funcionamos como todo ser vivo, animais: a mãe/cuidador se apresenta indispensável até que, pelo próprio desenvolvimento do bebê e pelas outras atribuições do adulto, ela (mãe) se afasta lentamente... já consegue se atrasar para acudir as necessidades do recém-nascido que, por seu lado, começa a antecipar os indícios de que será atendido: o ruído de passos, a voz, o barulhinho da colher mexendo o mingau, etc. Um hiato (uma fenda, um vazio) se interpõe na díade mãe-filho, propiciando ao bebê uma experiência fundamental: clamar pelo que precisa!
O chôro, o grito, a agitação de braços e pernas, tudo passa a se configurar como linguagem que é interpretada e verbalizada pela mãe: neném tá com frio, neném tá com dor-de-ouvido, neném tá com fome!
A evocação da figura ausente e dos objetos de satisfação instauram os princípios da linguagem simbólica (símbolo = representação da "coisa", sem a "coisa"). Nasce o "desejo"!
O que, pois, inaugura a linguagem é a "falta", a "perda do objeto" de necessidade e sua substituição pelo "objeto do desejo". Muito além das funções de sobrevivência (objetos de necessidade) clamamos por uma atenção colorida de afeto. Fornecer comida, apenas, não basta, é preciso que o ato de alimentar seja atencioso, cuidadoso, amoroso! "Com açucar e com afeto", na canção do Chico Buarque.
Se, antes, a mãe era identificada ao objeto necessário aos instintos básicos (sobrevivência, alimentação, proteção contra frio, etc), agora passa a ser a benfeitora que propicia a satisfação. É quem garante a vida e o prazer (éros/libido), constituindo-se como primeiro objeto erótico/libidinal da criança. Nasce o AMOR, expressão de reciprocidade gratificante entre mãe e criança (ainda sem romantismo, invenção tardia na história da humanidade).
A experiência fundadora do amor se expande vida afora, com a saudável substituição da mãe como objeto único de amor por outros objetos a serem conquistados - um ser a quem amamos e que nos ame (resolução do "complexo de Édipo").
Entretanto, uma ILUSÃO pode permanecer: a de que haverá alguém que nos garanta a satisfação plena, o afeto total, o amor incondicional! Inconscientemente, queremos repetir o idílio da primeira infância, quando nenhum esforço tínhamos que fazer: bastava desejar e... pronto! Satisfação garantida!
Muito mais tarde vamos aprender que "o amor é conquistado": temos de perguntar sempre ao outro: "o que queres de mim"? Só assim seremos amados. Enganam-se aqueles que se julgam dignos do amor, sem nada oferecerem.
O jogo é complexo e interminável: de um lado, projetamos no outro as qualidades que o tornam digno de nosso afeto. O outro, por sua vez, tudo faz para corresponder e, às vezes, se julga realmente portador de todas aquelas qualidades. E vice-versa!
Sobre isso, Jaques Lacan retoma uma frase platônica: "Amar é dar o que não se tem a quem não sabe o que quer"... Decifre-a quem puder.
O Amor, assim, é indefinível por natureza, incomensurável (nada matemático), inconsistente, sem garantia de retorno, absolutamente assimétrico - já que cada um tem seu inconsciente e seu imaginário forjados na mais tenra idade, com experiências tão singulares quanto incomunicáveis! Só mesmo os poetas para darem conta de falar do Amor: O amor é mesmo "fogo que arde sem se ver..." (Camões); é "...ânimo dos desmaiados, arrimo dos que vão a cair, braço dos caídos, báculo e consolação de todos os desditosos" (Cervantes); "Ninguém é pobre quando ama". (Camilo Castelo Branco). "Há amores sem felicidade, mas nunca felicidade sem amor" (Jacques Lelouch) e "ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor... nada disso me aproveitaria" (S.Paulo).
Quanto a mim, sigo feliz com minha Amada: Amélia e eu completamos, hoje, 26 anos de casamento, vivenciando a experiência cotidiana do Amor compartilhado, no qual me sinto, sempre, recebendo muito mais do que dando, a cada momento tento provas de que, embora indefinível, O AMOR EXISTE!

21 outubro, 2004

Fugaz



Menino
Queria ter muito tempo de vida
Descubro, no entanto,
Perplexo:
Quanto mais tempo de vida tenho
Menos tempo de vida...
...terei!
(ô chatura, sô!)

19 outubro, 2004

Cura Te Ipsum

Ontem, Dia dos Médicos
Fui ao consultório, fui
Por um tempo, ouvi histórias
O que? Como? Onde?
Descobri, entretanto
Que o lado da mesa
É um destino precário
Trajetória incerta dos meus passos
Aleatórios.


17 outubro, 2004

Bahia em três tempos

I - Tempo de deslumbramento: Além de minha mulher-de-verdade Amélia, viajamos juntos: o casal amigo José Maria & Cida, mais as jovens psiquiatras Fernanda Rebelo e Ana Paula Pardini. Alegria pouca é bobagem! Aterrisamos em Salvador no belíssimo aeroporto internacional, percorremos as avenidas descongestionadas, largas e arborizadas e adentramos o Hotel Pestana surpresos com a modernidade da mais antiga capital do Brasil. Coincidiu o check-in no hotel com a chegada de turistas europeus (velhos, branquelos, louros) sendo recepcionados com wellcome drink de cajá, abacaxi, manga e coco. E pra nós, brasileños, nada? Aproximei-me do garçom (negro): “-Give me a juice, please!”. Imediatamente serviu-me. Voltei ao meu grupinho: “-Como você conseguiu?”
“-Simplesmente falando a língua do Império.”

JoséMaria, Cida, Amélia, Cláudio, AnaPaula e Fernanda

A partir daí: piscina, ginástica, ofurô, que ninguém é de ferro!
II – Tempo da baianidade: Já no sábado, mal desfeitas as malas, corremos para o show da Ivete Sangalo, no Wet’n Wild, aquaparque.


Inúmeras bandas a tocar antes da estrela. Conclusão, eram duas da manhã, chovendo, uma multidão compacta, fome nos comendo por dentro e... voltamos pro hotel, sem ouvir Ivete! Na terça: contato de primeiro grau com o Olodum, a mil decibéis, precedido de show do Jam Jiri.

O coração batia ao som dos surdões, os pés pulando empolgados pelo ritmo afro-brasileiro, as mãos para o alto recebendo as energias irresistíveis do reggae baiano. Na quarta, Armandinho (de Dodô e Osmar) abre o Congresso Brasileiro de Psiquiatria com uma invenção do Hino Nacional: a guitarra estridente e rascante perfurando os tímpanos e empolgando uma platéia de quase três mil pessoas. O coquetel foi na base cerveja e sucos de frutas regionais, acompanhados do acarajé, caldo de sururu, pé-de-moleque, cocada, bolinhos de carne de siri, vatapá e barquete de siri catado. Tudo com muito azeite de dendê e pimenta ardida. Na quinta-feira, show de Daniela Mercury, no Othon, contratada para animar 800 convidados vips –e nós lá, é claro! Ainda no Othon, na sexta, apenas para 500 pessoas, o swing do Araketu, e a gente pulando que nem doido, sacudidos pela percussão violenta e arrastados pela musicalidade que penetrava artérias e veias, acendia o cérebro e anestesiava o cansaço! Ao longo da semana, almoços à base de moquecas de camarão, peixe, lula... Nos intervalos, uma passadinha no Centro de Convenções: não podíamos nos esquecer do Congresso.
Otávio Fróis, que foi colega da minha Ana Letícia na Faculdade de Direito da UFMG, gentilmente nos levou pela orla até a famosa Lagoa de Abaeté (“o Abaeté tem uma lagoa escura/arrodeada de areia branca/oi de areia branca...").
III – Tempo de refletir: pois é, foi tudo muito bom, foi tudo muito bem, mas... Ao visitar o Shopping Iguatemi, subimos pelo elevador do estacionamento até o 4° piso: lojas de primeira categoria, gente muito bonita, tudo muito caro... Na medida em que descíamos as escadas rolantes, eis que nos deparamos com a queda da qualidade das lojas, menos sofisticação das vitrines, até chegarmos ao primeiro andar: aí, só lojas populares, muita gente, quase todos afro-brasileiros de baixa renda... pela primeira vez estou num shopping que é o retrato descarado da estratificação social deste nosso paraíso tropical. Outros indicativos da segregação sócio-econômica estão presentes em qualquer cidade, é lógico, mas o Iguatemi era uma “aula de sociologia”! Se a miscigenação é cantada na Bahia em prosa e verso, aindá lá se trata de idealização, utopia, mistificação ou mascaramento. Salvador é a síntese deste imenso Brasil: muita arte, cultura, paisagens maravilhosas, negros (70%), mulatos (20%) e brancos (10%), -segundo nos informaram- e uma imensa desigualdade. Talento e criatividade, alegria e bom humor, malandragem, religiosidade, o umbigo e seu cordão “Brasil-áfrica” contrapondo-se ao país luso-brasileiro, afrancesado logo nos primórdios e cada vez mais dominado pela globalização galopante... O sul-maravilha e o sudeste têm muito que aprender e resgatar, sem ufanismos nem patriotadas. Se há um lugar onde pulsa o coração brasileiro, este lugar é a Bahia... é irresistível, fantástica, multifacetada e latino-afro-brasileiramericana. Axé!

14 outubro, 2004

Inveja mata!

Só prá provocar: isto não é um post, é uma provocação. Até que retorne a Belo Horizonte e tenha ânimo de postar de verdade, estou por aqui na Bahia, curtindo Oloduns, Axés e Orixás [além do Congresso de Psiquiatria que começou ontem, claro!]. Prá que não fiquem com inveja, vejam só como estamos "sofrendo" no maravilhoso hotel&resort PESTANA. Até!

07 outubro, 2004

Oropa França e Bahia

(...)Dou-te tudo que quiseres:
Dou-te xale de Tonquim!
Dou-te uma saia bordada!
Dou-te leques de marfim!
Queijos da Serra Estrela,
perfumes de benjoim...
Nada.
A mulata só queria
que seu Manuel lhe desse
uma nauzinha daquelas,
inda a mais pichititinha,
prá ela ir ver essas terras
"De Oropa, França e Bahia"...
(...)
Maria atirou-se n´água,
Seu Manuel seguiu atrás...
— Quero a mais pichititinha!
(...)
— As eternas naus do Sonho,
de "Oropa, França e Bahia"...
Lembrei-me deste "romance" de Ascenso Ferreira logo agora que Amélia e eu estamos de partida para Salvador!!! Oba! Uma semana totalmente soteropolitana! Além da participação no XXII Congresso Brasileiro de Psiquiatria, teremos 5 dias inteiros - e noites! - para curtir praias, batuques, axés, oloduns, tartarugas e descobrir o que a Bahia tem: não conhecemos nadica de nada daquela terra que enfeitiça a todos que lá aportam. Voaremos pelas asas da TAM e ficaremos no Hotel Pestana (ex-Meridien). Uma semaaaaaaana... parece um sonho. O clima de baianidade já nos assalta há dias -o tempo parece lento, as horas não passam, ficamos de olho na meteorologia: Vai dar sol?
Pois é, alguém sugere um programa "imperdível", que não seja prá enganar turista trouxa? Dizem que 'mineiro compra até o Pão de Açucar' mas acho que já estamos vacinados... Podemos comprar acarajé? Podemos ver Olodum? Prometemos publicar algumas fotos, contar alguns "causos", não deixar este blog morrer...
[Saiba mais do Ascenso Ferreira no Guia de Poesias do espetacular
Luiz Alberto Machado!]

30 setembro, 2004

Felicidade Total!

A notícia me pegou durante o almoço de hoje: Travesseiro é o "namorado perfeito"

"Designers japoneses inventaram o que está sendo considerado por muitos
como a solução perfeita para as mulheres solteiras: o travesseiro namorado.
O travesseiro é o parceiro ideal porque ele não ronca, não puxa as cobertas
- não vai dormir em lugares e com quem não deve.
Cada travesseiro vem com duas capas em rosa e azul,
que podem ser lavadas e passadas pela "namorada dedicada".
Além de tudo, o travesseiro-namorado funciona como um relógio despertador,
vibrando de cima a baixo para acordar a companheira.
Um porta-voz do fabricante afirma
que o travesseiro tem sido um sucesso absoluto de vendas,
tanto que a empresa está trabalhando com uma lista de espera.
"-Mulheres de todas as idades estão fazendo fila no quarteirão para levar um destes", disse.
O travesseiro pesa 20 quilos e está disponível apenas no Japão.
Mas já existem pedidos do exterior."
Lembrei-me, na hora, de um post anterior, Namorada Virtual e pensei:"-Pronto! agora o problema da solidão está resolvido: os homens com sua virtual girlfriend e as mulheres com seu pillow boyfriend!

Eis o paradigma da comtemporaneidade: o imperativo do prazer [drogas], o gozo garantido ["viagras"], o sexo perfeito [técnicas performáticas], a vida como espetáculo [reality show], a pílula dourada [aparência, semblant]. No final, será que a felicidade está ali onde se promete encontrá-la?

Imagine um kinder ovo sem a surpresinha dentro! O fato de se ter um travesseiro que te abraça ou um gadget no telefone celular para ser cuidado pode ser um produto qualquer. A questão é a promessa contida na embalagem, impossível de ser cumprida. O marketing quer nos atingir nas mais profundas necessidades: afeto, emoção, laço social, medo do abandono... Daí a utilização da palavra mágica, namorado(a).("Mágica" porque atinge o desejo humano mais inconsciente: desejo de SER AMADO!: A surpresinha - faltante - dentro da embalagem! O kinder ovo está, irremediavelmente, oco!

Adoramos ser enganados, ávidos de felicidade completa, fazendo semblant de que tudo vai bem, a correr atarantados em busca do elixir da felicidade. Somos inseridos (ou coagidos) a cair no maior conto-do-vigário de todos os tempos: -"Compre, nós temos a solução para todas as suas carências".
Já não importa o que somos, sob o império do Deus Mercado. Não é necessário esforço, não é necessário trabalhar suas dificuldades pessoais, seus conflitos, suas dúvidas. Não é necessário aperfeiçoar-se, crescer como ser humano. Não, não! Basta ter dinheiro, money, tutu, la plata. Seja um consumidor e seja feliz!

Ou, pelo menos, faça-de-conta, como diz Marc-Lavoine, em sua chanson:
Fais semblant, fais semblant
Fais semblant, Même si tu ne m'aimes pas, même pas
Maintenant
Pour sauver ce qui nous reste de vivant
Au moins prétends
Ne pas rester que pour l'argent, tu entends
Ou alors, ou alors disparais vraiment
Fais semblant, fais semblant
Fais semblant, fais semblant
Même si tu ne m'aimes pas, même pas
Fais semblant, fais semblant
Même si tu ne m'aimes pas, même pas
Fais semblant, fais semblant

28 setembro, 2004

Poema minúsculo

BH, 35°
O sol está quente, quente:
Com razão duvida o padeiro
se a vida se torna um inferno
ou um forno mal regulado.
[Cláudio Costa]

22 setembro, 2004

Na morada dos índios

"O que levaria uma mulher de 24 anos, estudante de letras, que gosta de dançar reggae, ir ao teatro e ler bons livros, a abandonar a cidade grande para viver com índios no Alto Xingu?"
Com essa pergunta, assim começa a reportagem publicada hoje no Estado de Minas, acerca de Andréia Duarte, mineira de 24 anos. A mocinha está morando, há 4 anos, com os índios tupis-guaranis, no coração do Brasil, numa aldeia próxima de Água Boa-MT.
Lembrei-me imediatamente de uma reportagem do Jornal do Brasil, na qual se afirmava que ela estaria apaixonada pelo cacique Kotoki, o que a teria arrastado para fora da "civilização". A fantasiosa história já a colocava como a quarta esposa do cacique!
Hoje, Andréia explica: "Não sou índia, não quero me tornar índia. Respeito aquele povo. Não vivemos (os brancos) como se soubéssemos que um dia vamos morrer. Estamos numa época em que as pessoas se prendem ao corpo, à estética, ao dinheiro. Você até ouve falar sobre as camadas pobres da população, mas ninguém faz nada por elas. Quero ter atitude, mesmo que seja ali, numa tribo de 300 pessoas. Esta é a minha fé. É uma luta por uma causa, não um romance. Eu, ele (Kotoki) e o pai dele conversamos sobre o assunto (boatos do casamento), achamos uma pena que, com tanta coisa importante para ser dita sobre os povos indígenas, as pessoas queiram falar sobre isso."
Escolheu a aldeia porque era a única que não possuía escola. Criou uma.
Isso serve prás cabeças, pensei: Não sei quem aprende mais, se os curumins [etim. tupi kunu'mi ou kuru'mi = 'menino, rapaz novo ou jovem'] ou ela mesma - e através dela, nós aqui, ditos civilizados.
Alguns exemplos citados pela Andréia:
  • Cultura: "costumo dizer que os kamayura são índios aristocratas. Eles não se assentam encurvados, não falam alto, não têm discussões entre si. Não são preguiçosos, chegam a ficar 6 meses construindo uma casa, pescam diariamente e plantam tudo que comem."
  • Sexo e casamento: "Os homens têm a função de construir a casa, plantar a roça. As mulheres colhem e buscam a água. Eles assam o peixe e elas fazem o polvilho. Tudo é muito organizado. Eles podem se casar com quantas mulheres quiserem e, muitas vezes, o casamento acontece para que haja divisão do trabalho. Transam por prazer, adoram sexo. Acho que o brasileiro parece ter herdado isso do índio."
  • Catarse coletiva: "Há um ritual em que as mulheres passam a noite xingando os homens. Já participei e adorei. Às vezes eles acham ruim, correm atrás das mulheres e jogam mingau na gente. Em outro ritual, eles dão o troco."
  • Ciúme: "Existe sim, mas não se separam por isso; as mulheres também pulam a cerca. São todos parentes e decidem quem pode se ralacionar com quem".

O Cacique Kotoki tem defendido a preservação da natureza, sendo que a principal preocupação dos índios do Xingu é com o desabastecimento de água. “As fazendas de soja desmatam e poluem as águas dos rios com os agrotóxicos”, denunciou Kotoki, o cacique da aldeia Kamayurá.
E ainda tem gente que, ao se referir a alguma coisa ruim, diz: -"Programa de índio!".Eu cá me pergunto: será?
A mineirinha Andréia disse que vai se tornar antropóloga. Só a entrevista já valeu por uma aula, não é?

19 setembro, 2004

Qual o seu preço?

Se me causara espanto, semana passada, a notícia acerca de um cachorro que teria puxado o gatilho de um revólver e atirado contra o homem que o agredia (!), imagine o que senti, ao ler o seguinte:
Um pastor português, 49 anos, comprou uma mulher por 2,5 mil euros + 15 cabras! Chama-se Diamantino Curtinhas, o tal pastor. O problema é que não recebeu a "mercadoria" conforme lhe prometeram os vendedores. Armou-se de uma carabina, pediu uma burra emprestada e foi à caça da moça de 22 anos, de nome Mariza Fernandes. Com o negócio feito no Carnaval, só há pouco tempo é que Diamantino Curtinhas encontrou a escolhida Marisa. O duo de negociantes lhe disseram que a "mercadoria" chamava-se Andreia e morava em Mesão Frio. O pastor, que já é casado e tem três filhos, foi reclamá-la de caçadeira em punho, barricando-se numa garagem em frente à habitação da jovem. Os vizinhos de Diamantino Curtinhas estão revoltados e indiganados com o engano de um "homem bom e pronto a ajudar" que apenas possui uma fraqueza: as mulheres.
Pois é, ao invés de querer justiça pelas próprias mãos (afinal ele "tinha direito", pois pagou e não levou), deveria ter ido ao PROCON - ou em Portugal não tem dessas coisas? Coitado do bom homem (assim pensam os vizinhos...).
Talvez este fato não seja lá tão espantoso, pois me recordo de uma amiga recém chegada do Marrocos. Contou-nos, quase orgulhosa, que seu marido recebera a proposta de trocá-la por duas garbosas camelas, mais alguns tapetes, de bônus...
Será que isso ocorre por aqui, também? Por quanto as pessoas estão se vendendo?
Nas eleições próximas, quantos eleitores se vendem (vendem sua ideologia, suas crenças, seu voto) a um candidato em troca de camiseta, um churrasco ou pela promessa de benefício qualquer, "caso eu seja eleito"?
E você, qual o seu preço?
Êta mundão, sô! Ah! você quer ler a notícia completa? Clique aqui.