Basta pensar em sentir Para sentir em pensar. Meu coração faz sorrir Meu coração a chorar. Depois de parar de andar, Depois de ficar e ir, Hei de ser quem vai chegar Para ser quem quer partir. Viver é não conseguir. Fernando Pessoa, 14-6-1932
22 dezembro, 2008
Blogs'n soup
17 dezembro, 2008
Presépio mineiro
A tradição católica diz que o presépio surgiu no século 13, quando São Francisco de Assis quis celebrar um Natal o mais realista possível e, com a permissão do papa, montou um presépio de palha, com uma imagem do Menino Jesus, um boi e um jumento vivos perto dela. Nesse cenário foi celebradada em 1223 a missa de Natal. O sucesso dessa representação do presépio foi tanta que rapidamente se estendeu por toda a Itália. Logo se introduziu nas casas nobres européias e de lá foi descendo até as classes mais pobres. [daqui]
Desde a infância acompanhei a construção de presépios na minha casa. Início de dezembro era época de a meninada correr aos quintais em busca de pedras bonitas e musgos, que serviriam de caminhos e jardins no bucólico cenário de casinhas, pastagens e a gruta onde nasceria o Menino.
Aos adultos (lá em casa era minha mãe, mesmo) competia preparar as montanhas. Como? Cobriam-se com areia de minério azul escuro e faiscante os sacos de aniagem ou o grosso papel de cimento, previamente preparados com grude feito de polvilho e água.
Aos poucos, uma cidadezinha ia surgindo, fabricada com casinhas de madeira, cerâmica e papel maché, retiradas cuidadosamente das caixas que as guardavam do ano anterior.
Era um momento mágico: minha mãe e a criançada ao lado a desmbrulhar cuidadosamente os personagens e adereços guardados do ano anterior. Alegria maior era quando surgiam os bichos: ovelhas, burro, vaca, leões, girafa, patinhos, galinhas, um zoo inteiro! Não podia faltar um garboso galo carijó, que seria colocado em destaque. Ao galo caberia cantar bem alto, anunciando o nascimento de Jesus.
Seria apenas uma lembrança do passado, não fosse a determinação da Amélia de manter a tradição aqui. Nem que fosse simples improvisação, um aranjo com manjedeoura, o Menino, José e Maria.
Aos poucos, Amélia se sofisticou e, ultimamente, o presépio foi tomando importância e ganhando detalhes. Posso dizer que se amineirou, pois se caracteriza como uma vila do interior, construída com casinhas de cerâmica moldadas pela Jovita no Vale do Jequitinhonha e outras advindas de várias regiões do Brasil.
Se, ano passado, o presépio se restringiu a uma cidade plana com suas ruazinhas tortas ladeadas de casinhas, agora em 2008, novamente ajudada pelo filho Ângelo e pela norinha Renata, as montanhas de Minas compõem o cenário:
16 dezembro, 2008
Me engana que eu gosto
Eduardo Giannetti escreveu sobre este tal de auto-engano: auto-engano é muito bom e talvez indispensável para nos sustentar neste vale de lágrimas, expulsos que fomos do Éden, após sucumbirmos às vãs promessas de uma serpente esperta. Falácias nos arrebatam, promessas elegem candidatos e fantasmas nos assombram.14 dezembro, 2008
111
Igreja S. Francisco - Pampulha - BH
É uma jovem cidade, com belezas e mazelas, tão nova e tão cheia de problemas: trânsito, falta de transporte público digno, diferenças sociais gritantes. Mas é época de festa e a cidade tem lá seu lado bom, bonito, arrumado, moderno e "mineiríssimo".
Edifício projetado por Oscar Niemeyer - Praça da Liberdade - Belo Horizonte-MG
Video sobre processo de produção e suas mazelas
18 novembro, 2008
14 novembro, 2008
Doce-de-laranja e queijos.
Pois foi com produtos de Santa Maria de Itabira que minha cunhada e minha sobrinha (Rosa & Adélia) presentearam-me regiamente: queijos variados e um divino doce-de-laranja (este, feito pela própria Rosa).
Assim, em pleno dia-de-semana, o almoço aqui em casa virou festa, pelo menos na hora da sobremesa, genuinamente mineira e familiar. Tivemos queijo "minas" e dois tipos de requeijão, moreninho e com raspa. Impossível comer apenas um pedaço.
13 novembro, 2008
Memória x repressão x poesia
Não aquela poesia "escolar" aprendida no Grupo Escolar Desembargador Drummond, lá de Nova Era, terrinha mineira e simpática às margens do Rio Piracicaba....
Falo de quando minha cabeça foi se abrindo para o mundo mundo vasto mundo, nas aulas de Literatura Brasileira, no antigo Colégio do Caraça.
Tio Ismar tinha um modo especial de me presentear: foi-me dando, aos poucos, os livros de Monteiro Lobato, desde O Sítio do Picapau Amarelo até História do Mundo para as Crianças. Como eu viajava naquelas narrativas...
Tenho outras histórias com o Tio Ismar: deu-me o primeiro método para aprender piano, o Schmmol; levava-me a passear na Capital e, com ele conheci o asfalto (que ele brincava de chamar "chão preto"); levou-me a almoçar num restaurante "giratório", onde fiquei entre a comida deliciosa e o assombro diante das mesas que, literalmente, davam uma volta completa sobre o salão!!!
Pois bem, o tio atendeu meu pedido e enviou-me um exemplar da Antologia Poética, de Drummond. A correspondência passava na "censura prévia" do padre disciplinário (como casam os padres, este já se casou, também). Chamou-me ao seu gabinete, senho franzido, aspecto grave, tom de preocupação:
"-Meu filho, olhaqui, chegou um livro prá você, de um poeta muito esquisito!".
Impetuosamente lancei mão do livro recém desembrulhado, sobre a mesa.
"-Calma! quero comentar com você algumas coisas: veja essa poesia aqui... nem sei se é poesia".
Leu no meio do caminho tinha uma pedra..., "isso parece coisa de ateu, meu filho, sem esperança!".
Selecionou outro poema, A Mão Suja. Escandindo bem as palavras, voz de mistério, reticente:
"- Minha mão está suja.
Preciso cortá-la.
Não adianta lavar.
A água está podre.
Nem ensaboar.
O sabão é ruim.
A mão está suja,
suja há muitos anos."
"-Tá vendo, meu filho? isso não é coisa para um jovem puro e inocente como você. O autor está incentivando a masturbação! Isso vai desviar você do bom caminho!".
Dito isso, guardou o livro sob chave, numa gaveta da escrivaninha.
Desde então, nunca mais vi a Antologia Poética do Drummond!
Minha mãe, sabedora do meu gosto pela literatura e pelo poeta itabirano, passou a me enviar, semanalmente, recortes do jornal Estado de Minas, com as crônicas e poemas do poeta C.D.A.! Mãe é mãe.
Até que, saindo do Colégio, com um dos meus primeiros dinheirinhos, logo comprei aquele livro e muitos outros.... Só então, após anos, pude, enfim, usufruir do "presente" do Tio Ismar!
12 novembro, 2008
Vade retro
Foi um desses atrasos de Brasília para BH que me fez chegar ao Aeroporto de Confins (oficialmente "Tancredo Neves) às 23,50h de uma sexta-feira, 13.
10 novembro, 2008
Pro Allan
Esta foto vai pro Allan, do Carta da Itália. Ele mora na cidade de Piacenza.
Quem diria que no Mercado Central de Belo Horizonte existe um licor com o nome de Piacenza? Pois é...
A gente vai andando, olha uma coisa ali, outra lá e, de repente, topa com o nome Piacenza. Aí, vem à lembrança: Conheço quem mora lá, o Allan. A seguir, num ímpeto, saco da algibeira (quer dizer, do bolso mesmo) a máquina fotográfica: Vou mandar esta foto pra ele. Bom, pra ser sincero, acho que pensei em comprar o licor Piacenza e levar até lá, bem ali pertinho, só atravessar o Atlântico.
[O Piacenza é fabricado em Brumadinho, a 60km de BH. Parece que algum imigrante italiano resolveu homenagear suas origens. Há um número de telefone; chamei e ninguém atendeu. Se descobrir, conto. A propósito, a cidade abriga o Centro de Arte Contemporânea de Inhotim.]
O rótulo presentificou uma pessoa que nunca vi (a não ser por foto e pelos deliciosos textos).
No seu post de hoje, Allan comenta as implicações da diferença de fuso horário, que varia de 3 a 5 horas entre Piacenza e Brasil. Por uma coincidência cósmica (não acredito nisso, mas existe!), só agora, ao postar, observo o mostrador do relógio da foto acima. Alguém percebeu algo curioso?
Pra você, Allan, um brinde.
05 novembro, 2008
Soié na Folha de São Paulo
Veja lá no blog dele, o Ontem-Hoje.
28 outubro, 2008
Aniversário de casamento
18 outubro, 2008
Congresso e amenidades
Congressos são para trabalho, estudo, encontros com um milhão de colegas e centenas de ex-alunos, muitos deles espalhados por esse país: Florianópolis, Recife, São Paulo, Juiz de Fora, Ceará, interior de Minas, etc.
Mas vir a Brasília teve outro especial sabor, o sabor dos abraços aos amigos Paulo & Letícia e Valdir & Autinha.
No mais, é correr de uma sala a outra, caminhar meia maratona dentro do Centro de Convenções Ulisses Guimarães, enorme. Além disso, há os stands da indústria farmacêutica, tal como uma feira de parque de diversões, cada laboratório brigando para atrair a atenção dos congressistas para seus produtos. Distribuem material científico, claro, mas repartem brindes, lanches, sorvetes, bugigangas. Também há utilidades, como livros técnicos, vídeos educativos (na área psiquiátrica) e ilhas de conforto onde nos assentamos com os colegas, descansamos as pernas e combinamos o que fazer, à noite, que ninguém é de ferro.
Tudo isso aconteceu de quarta até hoje. À tarde, encerra-se o evento e amanhã estaremos de volta a Beagá.
O intervalo na rotina diária é, igualmente, outra grande motivação para sair por aí, todo ano, cada vez em uma cidade. Ano que vem o Congresso da Associação Brasileira de Psiquiatria será em Sampa. Depois, em Fortaleza.
A ciranda continua, a engrenagem gira e a lusitana roda.
11 outubro, 2008
O psicopata: camaleão social
São impressionantes os relatos, teorias, estatísticas e conclusões com as quais me deparei ao ler o "O Psicopata - um camaleão na sociedade atual", do espanhol Vicente Garrido.Psicopatia é tratado pela Psiquiatria como um transtorno de personalidade, muito grave, cujos critérios diagnósticos o DSM-IV (manual diagnóstico da Associação Psiquiátrica Americana) enumera:
Ocorrência de um padrão de desrespeito e violação dos direitos dos outros, ocorrendo desde a idade de 15 anos, como indicado por três ( ou mais ) dos seguintes comportamentos:
1) falhas em adaptar-se às normas sociais que regem os comportamentos legais, indicadas pela repetição de atos que são motivos para prisão.
2) propensão para enganar, indicada por mentiras repetitivas, uso de
codinomes e manipulação dos outros para benefício ou prazer pessoal.
3) impulsividade ou falha em planejar o futuro.
4) irritabilidade e agressividade, indicado por brigas e agressões repetitivas.
5) desrespeito negligente pela própria segurança ou dos outros.
6) irresponsabilidade, indicada por falhas repetitivas em sustentar um trabalho consistente ou honrar obrigações ( financeiras ou morais ).
7) falta de remorso, indicado pela indiferença ou racionalização ao ter maltratado alguém ou roubado alguma coisa.
Muitas outras pessoas são psicopatas e não se dedicam ao crime. Podem viver em nosso prédio, ser nosso marido, esposa ou amante, nosso filho, nosso colega de trabalho, um político... É vital compreender isso, enxergar a magnitude do problema.
Tenho quase certeza de que o leitor deste post conhece um ou mais camaleões psicopatas, basta atentar para alguns de seus traços: têm eloquência e encanto superficial: falam muito, expressam-se com encanto, têm respostas espertas; não têm remorsos, são egocêntricos, mentem e manipulam o outro; são impulsivos, quase sempre irresponsáveis.
Meu primeiro psicopataMeu primeiro contato com um psicopata se deu quando eu era estudante de medicina, fazia estágio em uma clínica psiquiátrica. Lembro-me com detalhes do caso e do paciente que fora internado enquanto se discutia sua inimputabilidade num crime hediondo.
Tratava-se de um jovem de vinte e poucos anos, bancário. Ao rapaz competia levar grande soma de dinheiro vivo para ser depositado no cofre do Banco do Brasil. Era acompanhado por um colega. Apenas algumas quadras separavam as agências, de forma iam os dois, quase todos os dias, carregando uma bolsa recheadíssima.
Pois nosso personagem convenceu o colega a sumirem com tudo. Deixaram um fusquinha nas imediações e fugiram com a grana pela BR-40, em direção ao Rio. Num local ermo, entra numa estradinha de terra, mata o amigo e põe fogo no corpo e no carro. Some. Alguns dias depois reaparece e acusa o colega de sequestrá-lo e tentar assassiná-lo. Lutaram e o carro se desgovernou, capotando e se incendiando, explicou. O crime se esclareceu e os advogados alegaram "doença psiquiátrica".
Pois bem, acreditem se quiserem, mas o jovem tinha bom papo, era cordial com todos. Entretanto não se mostrava arrependido, dizendo que foi tudo loucura. Jogou papo pra cima de uma jovem psiquiatra que por ele se apaixonou! Conseguiu relaxamento da vigilância e fugiu da clínica. A médica quase morreu de paixão.
O livro do Garrido discorre sobre teorias da psicopatia, causas, etc. Fala do psicopata no mundo dos negócios e das profissões. Está disponível, no Brasil, pelas Edições Paulinas.Temos assunto para mais um post: o psicopata nas organizações/instituições.
03 outubro, 2008
27 setembro, 2008
À mesa, como convém
Você já deve ter constatado que assunto puxa assunto, o que Freud chamaria de 'livre associação' e o mineiro simplesmente diz um causo puxa outro causo. Quer exemplo? Se alguém conta um acidente terrível, o amigo aparece com outro pior. Se você relata uma decepção, o desencanto alheio acabou de acontecer. E por aí vai.
Em restaurante é assim: enquanto o pedido não chega, belisca-se um tira-gosto (ou couvert, se o local for mais chique) e fala-se de... comida!
Pois foi a legítima livre associação que me transportou no tempo.
Fomos - Amélia & eu - comemorar aniversário de casamento no Mandrágora, outrora um dos melhores restaurantes portugueses daqui de Beagá. Cito-lhe o nome sem receio algum de ser desmentido, pois não existe mais, sumiu do mapa (não por minha culpa, juro!) e talvez ninguém se lembre dele.
O Mandrágora ficava pros lados da Savassi, próximo do local onde estávamos hoje. A região e a espera pelo prato que demorava desataram as amarras mnêmicas.
No Mandrágora, pedimos o prato mais conceituado: bacalhau gratinado ao molho branco sei-lá-de-quê e vinho, comme il faut. Seria um jantar à luz de velas, apetrecho que dá upgrade no romantismo, você sabe. Amélia estava linda, como sempre - continua linda até hoje, ao contrário do marido dela.
Demorava o garçom, quase tanto quanto contou outro dia a Elza, mas não nos incomodava. Estávamos em plena comemoração, tínhamos tempo e não nos perderíamos em contrariedades.
O garçom, enfim, anunciou um tanto afetado: "Posso servir o jantar?". Assenti com leve mesura, como pedia a ocasião.
Delicadamente pousou sobre a mesa um belíssimo gratinado, estalando de quente. Serviu primeiro a dama que me acompanhava.
Olhos nos olhos, tilintamos as taças e principiamos a comer:
- E aí, está gostando?
- É, parece que está bom, disse Amélia.
- E o bacalhau?
- Ainda não senti gosto algum.
- Eu também não.
Mais uma ou duas porções e... nada de bacalhau.
- Vamos chamar o garçon?
- É mesmo, ele já vem aí.
- Seu garçon, por favor, pode servir o bacalhau?
- Ele já está servido, senhor.
- Onde?
- No seu prato, senhor, com o molho.
- Interessante, não sentimos o gosto...
- É o melhor prato, senhor, nunca tivemos reclamação.
- Vou pedir-lhe uma coisa, talvez imprópria, mas não vejo alternativa. Prove e confira.
Meio a contragosto, recolhe a travessa e a leva de volta à copa. Minutos depois, retorna:
- Desculpe, senhor, houve um engano.
- Qual?
- A cozinheira se esqueceu de colocar bacalhau, senhor.
Amélia e eu nos entreolhamos e, como nos é típico, caímos na gargalhada:
- Bacalhau sem bacalhau, hahaha!
O garçom, sério:
- Os senhores nos desculpem. O gerente autorizou-me a serví-los corretamente. Já está sendo providenciado novo prato. Como prova de nossa consideração e sinceridade, não lhes cobraremos o jantar, exceto o vinho. Está bem assim?
- Claro! Afinal é nosso aniversário de casamento e o Mandrágora nos presenteará, não é mesmo?
- Será um prazer, senhor.
Jantamos um delicioso bacalhau ao molho de não-sei-o-quê, bebemos ótimo vinho e a noite apenas começava.
__________________
O título deste post é homenagem aos velhos e bons tempos do Jornal do Brasil(RJ), quando eu lia a coluna de gastronomia do Apicius e não podia pagar sequer uma sardinha, quanto mais um bacalhau.
14 setembro, 2008
Broken heart
No saguão do aeroporto, eu esperava o Milton Ribeiro que prometera vir de Porto Alegre. Minha atenção foi atraída por um moço a gritar:
Aproximei-me e distingui o que me pareceu uma peça anatômica. Identifiquei-me como psiquiatra e pedi às pessoas se afastarem um pouco para que pudesse socorrer o moço em crise de histeria.
Foi logo dizendo:
Havia um envelope junto ao recipiente e não hesitei em surrupiá-lo, despistadamente. Pensei: "deve ser a explicação".
Quanto a mim, saí de fininho. Longe de todos, li:
"Se você achou este vidro contendo um coração, não o jogue fora. É o meu. Durante meses amei uma pessoa linda, maravilhosa, alegre e radiante. Ela não me conhecia, mas eu descobri onde morava. Toda manhã estava no mesmo ponto em que ela tomava o ônibus para o centro. Talvez nem me enxergasse, nunca respondeu a um Bom dia! sequer. Pensava nela durante o trabalho, o dia inteiro. Ensaiei muitas vezes chegar perto, identificar-me e declarar meu amor, mas não consegui. Imaginava: Olha, moça, não te conheço, mas quero te dizer que meu coração te pertence. Eu te amo!
De repente, ela sumiu.
Resolvi desaparecer, viajar para longe, sem volta. Antes de embarcar, arranquei do peito meu coração pulsante e o deixei bem à vista. Já vou embarcar. Adeus!
Peço a quem encontrar que entregue o vidro e o bilhete na Rua Eng° José Schultz Leonel, s/n. Bairro da Saudade."
Nas gravações das câmeras de segurança do aeroporto, a polícia constatou a presença de um jovem que claudicava em direção à fila para vôo 3341, das 8,30h.
Semblante tranquilo, não chamava a atenção, exceto por ter um imenso buraco no peito.
13 setembro, 2008
08 setembro, 2008
Número 13
A Revista de Psiquiatria & Psicanálise com Crianças & Adolescentes, do Centro Psíquico da Adolescência e Infância (Cepai), da Rede Fhemig, chega a sua décima terceira edição. 07 setembro, 2008
Amar é...
Mais recentemente, cientistas alardeiam ter encontrado uma área cerebral responsável pelo amor: sítios neurológicos que "captam" mais dopamina e desencadeiam sensações de prazer quando alguém se depara com o objeto amado (a palavra objeto, aqui, não tem nenhum significado pejorativo, coisificante).
Os poetas hão de desdenhar a apropriação biologicista de sentimento tão universal quanto inexplicável. Dirão - com razão - que "amor não é pulsão sexual".
Os filósofos se definem como "amantes" da sabedoria, pois se entem inspirados pelo "amor ao conhecimento"!
O Dicionário Larousse de Psicanálise (Dictionnaire de la Psychanalyse - reférences Larousse) assim definiu o Amor: "sentimento de afeição de um ser por outro, às vezes profundo, violento mesmo, mas sobre o qual a análise mostra que pode estar marcado pela ambivalência e, sobretudo, que não exclui o narcisismo". Ufa! Nada simples: sentimentos quase antagônicos se misturam no que seria o amor: afeição, violência, ambivalência, narcisismo - poderíamos acrescentar: ilusão, imaginário, projeção, sentimento de posse, ciúmes, ódio, medo, sexualidade e um longuíssimo etcoetera!
"Amor e ódio são as duas faces de uma mesma moeda", já ouvi em algum lugar. Por isso se diz que "o contrário do amor não é o ódio - como parece - mas a indiferença".
Quantas vezes escutei, na clínica, os lamentos de gente recém-saída de um relacionamento amoroso:
-"O pior, doutor, é que nem se passaram duas semanas e ele já arrumou alguém! Eu, aqui, sofrendo. Como posso acreditar que em nossa relação teve amor? Se ele gostasse mesmo de mim, não arrumaria outra pessoa tão rapidamente! Isso mostra que eu não significava nada!" A dor está aí: nada significar para o outro, ser-lhe indiferente.
Ou então:
-"Após a separação eu estava ótimo, já me acostumando com a vida de solteiro, dando minhas saídas. Mas outro dia, num restaurante, eu a vi acompanhada e meu mundo desabou!" Constata-se que é substituível. Oh dor!
Por mais dicionários que se utilizem, pouco saberemos do Amor. Usa-se o A maiúsculo para indicar que essa experiência quase inefável seja um "deus". Nas religiões, principalmente no Novo Testamento, há uma definição de Deus: "Deus é amor". Lembro-me de meus tempos de Colégio do Caraça, onde as Semanas Santas eram comemoradas ainda de acordo com a liturgia romana em latim: Ubi amor est, Deus ibi est: onde existe amor, Deus aí está. Cantávamos em gregoriano...
Só mesmo poetas descobrem palavras para falar do amor. Para quem não experimentou este sentimento, tudo parece ridículo. Dizem: "amantes são ridículos".
O amor não se explica, vive-se. Quem está de fora jamais poderá compreender como se formou este ou aquele casal.
Outro dia, escutei:
-"Não sei o que fulano viu naquela garota tão sem graça."
Ainda:
-"Como pode uma menina tão feiinha arrumar um cara tão gato?"
Geralmente, após uma ruptura ou durante um relacionamento tumultuado por brigas e até maus tratos, a "vítima" se lamenta:
-"Não sei porque, mas não consigo me livrar daquele cafajeste!"
-"Por mais que eu tente, não me esqueço daquela vagabunda!"
Nosso inconsciente não têm explicação racional, visível. Algo foge de nosso controle e somos apanhados por um objeto que desperta nosso desejo. Quantas fantasias embalam o sentimento amoroso e edulcoram o objeto amado! Fantasias necessárias, saudáveis, deliciosas. Explicações não são mesmo necessárias. Quanto as encontramos, descobrimos logo que são insuficientes. Melhor mesmo é amar e pronto!
Não há como negar a propriedade do psicanalista francês, Jaques Lacan, quando assim define o amor:
-"Amar é dar o que não se tem a quem não sabe o que quer."
E você, discorda?
_________
Republicado com os comentários anteriores.
31 agosto, 2008
Périplo ou odisséia?
Périplo - s.m. (a1858 cf. MS6) 1 viagem de circunavegação em torno de um país, de um continente 2 fig. viagem turística de longa duração 3 (a1858) p.ext. relato dessas viagens ¤ etim gr. períploos ou períplous,ou 'circunavegação', perí- 'em torno de' e plóos,ou 'navegação', pelo lat. perìplus,i 'id.' [Houaiss].
Odisséia - s.f. (1873 cf. DV) 1 longa perambulação ou viagem marcada por aventuras, eventos imprevistos e singulares 2 narração de viagem cheia de aventuras singulares e inesperadas 3 travessia ou investigação de caráter intelectual ou espiritual
[Houaiss]
De repente, surgiu o convite do mano Boni para festa de 15 anos de casamento com a Cida que, por sua vez, comemoraria aniversário. Além disso, ir a Nova Era tem sabor de encontro de família, rever os meus pais e outro irmão que moram por lá.
Juntamos mala e cuia e saímos daqui de BH às 16,50h de sábado, com tempo de sobra. Éramos: Amélia, eu, nosso filho Ângelo & a namorada Renatinha.
Foi o início comum de uma longa viagem.
Sair de Belo Horizonte em direção ao Vale do Aço (nome da região por causa das grandes metalúrgicas Arcelor/Belgo-Mineira, Acesita e Usiminas) requer paciência e cuidado para enfrentar uma estrada saturada, com traçado absolutamente maluco, abarrotada de caminhões, ônibus e automóveis. Trata-se da 'rodovia da morte'. Sei que quase todas são "de morte", mas a BR262/381 ganha com muitos corpos de vantagem (argh! que coisa horrível este trocadilho!).
Tudo corria bem, exceto o trânsito que se arrastava, como sempre. Entardeceu e começou uma ventania fortíssima. Há três meses sem chuva, pequenos galhos e miríades de folhas (sempre quis usar essa palavra) rodopiavam à luz dos faróis. Antes que acabasse de falar Vai chover, a tempestade desabou. Mal e mal vislumbrava o farolete do veículo à frente, o olho-de-gato que divide as pistas, mais nada. Assim dirigi por 1 hora inteira, palmo a palmo vencendo chuva, enxurrada, (in)visibilidade, tensão. Éramos quatro pares de olhos, cada par tentando adivinhar o que havia 30 cm à frente: Devagar! Olha, o carro ali freou! Aquele ali saiu da pista! Ó o caminhão! Vamos parar?
Dentro do carro era muita tensão, medo, sensação de extremo perigo. Às margens da rodovia, carros parados, alguns com as rodas dentro das valetas, impossibilitados de continuar viagem... Amélia e Renatinha contavam casos engraçados, riam, mas era nervosismo puro. Chegaram a rezar. Entretanto, não havia como sair daquela situação: trânsito à frente e atrás, uma fila indiana da qual só se viam as lanternas da frente e o farol no retrovisor.
Paramos. Ou melhor: tudo parou, a fila de luzinhas vermelhas, pisca-pisca piscando. Stop! a vida parou ou foi o automóvel?, poetou, um dia, Carlos Drummond de Andrade. [Cota Zero, Alguma Poesia, 1930]. Parou tudo, mesmo. Estávamos no contorno de João Monlevade, próximos a um posto da PRF; dei meia volta e fui lá saber do guarda o que estava acontecendo. Explicou: uma árvore caiu lá na frente, fechou a estrada. Não há previsão de liberar, pois estamos sem energia elétrica e não dá pra chamar ajuda. Pergunto: E por dentro de Monlevade, dá prá passar? Ele: Lá está tranquilo. Nós: Então vamos!
Ledo engano! [Fala aí, professor, o que é ledo? "Ledo" vem do latim 'letus', que significa alegre. Daí 'Letícia", que significa alegria. Ah, bom, continuemos.] A alegria durou pouco, pois a entrada para a cidade estava inundada. Mas um chevettinho passou, porque não passaríamos? Pisei fundo e seguimos em frente. Dentro da cidade a avenida principal estava quase intransitável.
Próximo à usina fomos envolvidos pela neblina, um fog intenso, apesar de Londres estar do outro lado do oceano. Os alagamentos eram numerosos. Avaliávamos o risco, engatávamos uma segunda marcha, acelerávamos com determinação e ganhávamos mais uns metros à frente.
Em Bela Vista de Minas, o caos: uma chuva de granizo cobriu o asfalto. Deslizamos numa ladeira mas, graças ao empurrãozinho do Ângelo e à perícia do condutor (este humilde servo que vos fala) vencemos os obstáculos, com denodo e arte.
[Que isso, professor? Uai, procura no Houaiss e você vai achar: denodo: /ô/ s.m. (sXIV cf. IVPM) 1 ousadia, bravura diante do perigo; intrepidez, coragem 2 p.ext. atitude arrojada e irrefletida; precipitação, afoiteza 3 p.ext. agilidade na ação; desembaraço, soltura, desenvoltura 4 fig. procedimento nobre e valoroso; brio, distinção. Nossa! Que exagero!]
Hoje, 10,30h, pé na estrada. Vamos voltar cedo, que o trânsito deve estar bom, almoçamos em Belorizonte, meio dia a gente tá chegando em casa. Ângelo e Renatinha teriam um compromisso às 14h. Mais tarde, uma festa de aniversário. A gente queria descansar. Então, vamos!
Na descida da Serra de São Gonçalo, um caminhão baú tombara fora da estrada, à beira do abismo. Passamos devagar, porém aliviados por não haver retenção do tráfego. Se continuar assim, chegaremos antes das 13h, exclamei.
Fazemos uma mini-assembléia: Esperar? Voltar até um restaurante, almoçar e ver o que vai dar pra ver como é que fica? Dar uma volta de 150km em torno da Serra do Caraça, passar por Barão de Cocais, Santa Bárbara, Sta. Rita Durão, Mariana, Ouro Preto, Itabirito e chegar a BH pela Br 040?
Venceu a última alternativa, a mais complicada, com o forte argumento de podermos almoçar no velho Colégio do Caraça [a comida lá é boa demais, é só uma subidinha à serra, foda-se, vamos passear, turismo é assim, de tardinha a gente chega, tudo é festa quando a alma não é pequena, não existe pecado ao sul do Equador... Chega!].
Resultado: almoço na serra, paradinha em Catas Altas, cruzamento com carreata política em Mariana [Roque já ganhou!], empadinha com guaraná em Cachoeira do Campo, virar à direita na Br040 alí perto de Alphaville, depois o Miguelão, Belvedere, Raja Gabaglia e... casa! Mais tempo de estrada que de festa.
Foi um périplo! Ou seria uma odisséia?

29 agosto, 2008
Pra não dizer que não falei das flores... para onde foi a política?
19 agosto, 2008
15 agosto, 2008
Em breve: mais um empreendimento...
Belo Horizonte sintetiza, assim, a própria geografia do Estado e suas avenidas percorrem vales onde, antes, corriam riachos e ribeirões. As ruas do plano inicial da cidade foram traçadas a régua e esquadro, ignorando totalmente os acidentes geográficos: algumas são intransitáveis! Entretanto, há certa beleza nessa paisagem acidentada e diversa, que alguns comparam com San Francisco-CA, por exemplo.
O certo é que a especulação imobiliária nunca tem fim e prédios são construídos em locais improváveis, já que os recursos de engenharia atendem ao desejo de se habitar bairros mais centrais.
Pois o nosso bairro, o Gutierrez, é assim: começou no fundo de um vale, atendendo à classe média no final da década de 50. Pouco a pouco evoluiu morro acima, onde terrenos valiosos e novos prédios foram erguidos, alguns até luxuosos.
O movimento no terreno ali ao lado, finalmente, fez sentido: eram agrimensores com seus teodolitos e planilhas. Imaginei: vem mais um prédio, aí.
Finalmente, uma incorporadora, qual conquistadores de outrora, fincou suas bandeiras amarelas no perímetro extenso do quarteirão. Teremos vizinhos:

09 agosto, 2008
Mineirão e Diamantina
[Up date: não deu zebra! Pior: o esquadrão gaúcho saboreou churrasco de galináceo: 4x0.]
Mineirão! Foto by Hugo (meu vizinho, do helicóptero da PMMG)
2. Há uma semana chegamos de Diamantina. Valeu o passeio, um mergulho na região central das Minas Gerais, paisagem áspera palmilhada e descrita por Guimarães Rosa, telhados coloniais, igrejas para todos os santos, Chica da Silva, cristais, tradição das serestas, Vesperata, etc.

Diamantina-MG. Mercado. Foto by Cláudio.
3. Amanhã, comme il faut, almoço com o pai Soié, em Nova Era, cidadezinha que se debruça às margens do Rio Piracicaba, onde até a ponte mandada construir por Getúlio Vargas é atração:

01 agosto, 2008
Serro e Diamantina
São cidades do ciclo do ouro e do diamante, históricas por motivos vários: seja pela riqueza que gerou e foi transferida para Portugal e Inglaterra, seja pelos desmandos dos capitães de escravos e contratadores de garimpeiros, seja pela origem de JK, seja pelo queijo "do Serro", enfim, pela paisagem interessantissima: campos altos da Serra do Espinhaço, que começa com a Serra do Caraça (próximo a Ouro Preto), continua como Serra do Cipó, perto de Jaboticatubas e passa por aqui (hoje vi a nascente do Rio Jequitinhonha) e se estende até à Bahia.
Muita aridez, pedra pra chuchu, cachoeiras, etc.
Ah, tem a casa de Chica da Silva, logo ali. E, em frente, o mercado que foi cenário do filme sobre a Chica. Mais adiante, a casa onde nasceu J.K., o presidente "bossa nova", hehehe
A gente anda pra baixo e pra cima, muita ladeira calçada com pedras escorregadias, lisas pelo tempo.
Igrejas não faltam: ô povo rezador, aquele daquela época.
Muito universitário pelas ruas, ou melhor, pelos botecos: como bebem! Também, a dose de pinga é 0,50 , a garrafa custa R$ 3,50 e o frio é de lascar, pelo menos nessa época.
Amanhã à noite, "Vesperata": músicos ficam a tocar das janelas dos casarões e a gente na rua, escutando, bebendo, namorando.
Terra de Minas, essa. Cada povo com seu uso, cada roca com seu fuso...
E o porta-malas repleto de "queijo do Serro", que ninguém é de ferro.
31 julho, 2008
Relax
Então: Amélia & eu estamos indo, agorinha mesmo, pra Diamantina-MG. Antes, uma noite na cidade do Serro, onde comeremos o genuíno "queijo do Serro", of course.
Até segunda, com bateria recarregada e algumas idéias na cabeça pra voltar a postar. Xô, preguiça!
17 julho, 2008
Vou dobrar-me à regra nova de viver?
- Como assim, cara pálida? perguntei.
No decorrer do texto, havia outros termos do campo psi, não necessariamente com embasamento científico, pois que se tratava de um texto leve, numa revista levíssima.
O autor quis agregar alguma reflexão psicológica à palavra adultescente.
Eu próprio já a ouvira antes, mas não custava nada socorrer-me na fonte inesgotável de saber (!), o buraco sem fundo chamado Google.
O primeiro link, texto de Sérgio Rodrigues, socorreu-me:
Adultescente é um neologismo jocoso de sentido óbvio, cruzamento de adulto com adolescente. No entanto, ainda não abriu caminho até os dicionários brasileiros e, mais do que isso, não parece ter vingado de verdade em nosso dia-a-dia. Tudo indica que vingará. Nascido no inglês americano como adultescent, registrado pela primeira vez em 1996 e eleito pelo dicionário Webster’s a “palavra do ano” de 2004, o termo já tomou assento firme pelo menos em espanhol, na forma adultescente, de grafia igual à nossa.
(...) adultescente tem consistência maior do que ajudar profissionais de marketing a bolar produtos destinados a esse nicho de mercado detectado no fim do século 20, o dos adultos “infantilizados”, consumidores de videogames e livros sobre magos mirins, que prolongam a dependência do lar paterno muitos anos além da média histórica, mesmo que – e isso é o mais intrigante – ganhem dinheiro suficiente para ter sua própria casa.
Um outro link remeteu-me para considerações de Maria Teresa Soares Eutrópio, mais próximas da interpretação psicológica:
Adultescente, pessoa imbuída de cultura jovem, mas com idade suficiente para não o ser. Geralmente entre os 35 e 45 anos, os adultescentes não conseguem aceitar o fato de estarem deixando de ser jovens.
A cronologia do fenômeno deu um salto de 20 anos! Vê-se bem que este critério não é lá muito confiável, inda mais que o psiquismo escapa do calendário.
Perseguindo o raciocínio do autor - não lhe lembro o nome e recuso-me a declinar o nome da revista. Confesso que estou sendo injusto, pois o que vi, a seguir, me agradou mais do que a primeira acepção (mercadológica), sendo mais profunda que a segunda (o que fundamenta a recusa em aceitar o fato de ser jovem?).
O conceito de adulto jovem seria aplicado, segundo o cara da revista, a alguns mecanismos psíquicos comuns ao que chamaríamos de pensamento mágico(Piaget), próprio da criança entre 7 e 11 anos, progressivamente abandonado até sua substituição por outra forma de estar-no-mundo, mais condizente com a realidade. Piaget diz que o egocentrismo é a base do pensamento mágico e a saída deste estágio de desenvolvimento intelectual se dará pela socialização e teste de realidade. É o que escreve Gobin:
Tratam-se de fenômenos psíquicos, complexos, com aspectos intelectivos, cognitivos, emocionais e sociológicos - inclusive dependentes da classe social a que pertence o tal jovem adulto.
- Vamos ao que interessa!
Três crenças alimentam o jovem adulto descrito na revista, as quais podem ser mais exacerbadas, caracterizando uma pessoa mais próxima da adolescência propriamente dita. Se mais tênues e diminuindo de intensidade, estaremos diante de um jovem entrando na fase adulta
- 1a. crença: Posso ser tudo!
- 2a. crença: Posso ter tudo!
- 3a. crença: O Tempo não passa!
O mundo do Marketing quer nos manter atrelados aí, prometendo-nos e aos jovens mais ainda, um mundo onde tudo é possível, o importante é viver o aqui e o agora, seja o que quiser: basta comprar tal ou qual gadget, o celular de última geração, o automóvel que suporta bombas, demolições e terremotos, já que transporta La Bündchen e Mr. Stallone! Seja você, também, um deles é o imperativo do marketing.
Assim, não dá mais para sair da casa dos pais, enfrentar o mundo (real), pois é preciso ter TUDO, ser TUDO e o futuro não existe!Mas não é preciso nenhuma 'psicologia' para revelar os conflitos que atravessam os adolescentes e os jovens adultos. Os poetas sabem dizê-lo, muito antes de inventarem palavras como adultescente e forjarem expressões tipo adulto jovem. Lembrei-me deste poema do Carlos Drummond de Andrade, que aprendi há anos e não me abandona:
“Vou dobrar-me à regra nova de viver.
Ser outro que não eu,
até agora musicalmente agasalhado
na voz de minha mãe, que cura doenças,
escorado no bronze de meu pai, que afasta os raios.
Ou vou ser menos, talvez isso,
apenas eu unicamente eu,
a revelar-me na sozinha aventura em terra estranha?
Agora me retalha o canivete desta descoberta:
eu não quero ser eu,
prefiro continuar objeto de família”.
[Drummond: "Fim da casa paterna"]
16 julho, 2008
Me engana que eu gosto

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[Recebi e repasso.]



