Basta pensar em sentir Para sentir em pensar. Meu coração faz sorrir Meu coração a chorar. Depois de parar de andar, Depois de ficar e ir, Hei de ser quem vai chegar Para ser quem quer partir. Viver é não conseguir. Fernando Pessoa, 14-6-1932
17 dezembro, 2004
Felicidade plena é doença?
12 dezembro, 2004
107 anos
A criação de Belo Horizonte, ao final do século XIX, foi motivada, antes de tudo, pelos ideais modernizadores da República recém proclamada. A antiga Vila Rica (Ouro Preto), com suas igrejas barrocas e palacetes encarapitados em tortuosas vielas, representava o império e a colonização portuguesa. Os republicanos, influenciados pelos ideais positivistas - ordem e progresso - e impregnados de francesismos, propuseram a mudança da capital, enfrentando oposição de políticos tradicionais. Queriam uma cidade racional, riscada com método, arejada, funcional. Muitos duvidaram da empreitada: em três anos, contruir uma cidade "melhor do que Buenos Aires, mais moderna que o Rio de Janeiro e São Paulo", como prometia o engenheiro responsável, Aarão Reis. O traçado urbano , a régua e esquadro, é um tabuleiro com ruas que se cruzam perpendicularmente, interrompidas na diagonal por largas avenidas. Independente do terreno acidentado, assim foi feito: hoje, motoristas aprendem a "controlar o carro na embreagem e a arrancar nas subidas íngremes" para, finalmente, conseguir a carteira de habilitação (sufoco total!). Projetada para pouco mais de 400.000 habitantes, a "grande BH" se transformou numa metrópole de 3.000.000. A modernidade transformou a incipiente capital, empoeirada e deserta há alguns poucos anos, num semi-caos repleto de ônibus, carros, caminhões. O centro é um burburinho de gente a trançar como formiguinhas à sombra de arranha-céus. Somos a capital dos barzinhos, da gastronomia tradicional e internacional (por conta dos imigrantes italianos, alemães, espanhóis, orientais, árabes, etc). Música e teatro, dança e pintura, artesanato e tecnologia, tudo enriquece a vida cultural do antiga Curral d'El Rey, onde turismo e cultura se confundem.
Num dos jornais de hoje, uma notícia demonstra a presença da tradição entre nós:
Entretanto, a cidade não pára, os problemas urbanos se acumulam, a violência nos cerca, os morros, tomados por favelas, contemplam a cidade. São desafios a serem vencidos, "se a tanto ajudar engenho e arte".
05 dezembro, 2004
Eu claudico, tu claudicas...
Pois, quando nasci, meus pais me deram um nome: Vai, menino, ser Cláudio na vida! Acho que foi logo aí que me identifiquei com o Poeta itabirano. Afinal, meu nome deriva do verbo "claudicar = arrastar de uma perna; não ter firmeza em um dos pés; coxear, mancar, capengar e, no sentido figurado, cair em erro ou falta; fraquejar intelectualmente". Ai, ai, ai, minha humildade não chega a tanto, nem Soié e Dona Aparecida me rogaram praga nenhuma! Segundo minha mãe, tratava-se de um nome bonito e menos comum e, além disso, nome de imperador romano! Um grande futuro me esperava - ou ainda espera, duvidar quem há-de?
Gosto de utilizar o verbo claudicar sempre que cometo uma gafe, ou "mancada =
atitude, resolução, comportamento errôneo, cujos resultados são insatisfatórios ou negativos; falha, lapso, erro, indiscrição espontânea, irrefletida; ação ou fala inoportuna; gafe."
Pois agora, confesso: de vez em quando dou umas mancadas, que deus-me-livre-e-guarde!
Aqui vai uma:
- encontro-me com o jornalista político Vidal, na rua da Bahia. Logo digo: "- Há quanto tempo". E ele: "- Viajei, estava em Milão." Todo afoito, exclamo: "- Ah! então deve estar ótimo no alemão!"... "- Que isso! Milão fica na Itália." Tento consertar: " - É mesmo, onde fica a FIAT." Não deu mais, desolado, me ampara: "- Não, a FIAT fica em Turim!!!". Deixei um cumprimento sem graça e me mandei! Já claudicara demais!
E você, já claudicou alguma vez?
02 dezembro, 2004
Água na boca!
Mas hoje, um convite:
Que tal aproveitar do Festival de Gastronomia, Ouro Preto Sabor?
O festival envolve 29 restaurantes de Ouro Preto, praticamente a totalidade das melhores casas da cidade. O evento conta com o apoio do Ministério do Turismo, que possibilitou que os 20 primeiros restaurantes de Ouro Preto que se inscreveram para participar do festival recebessem gratuitamente o PAS (Programa Alimentos Seguros) do Sebrae, por meio do qual são aplicadas consultorias e treinamentos visando a produção de alimentos com segurança e qualidade.Além disso, o período final do festival com o encontro do Mercosul, Ouro Preto + 10, que vai reunir na cidade 12 chefes de Estado, o que deve trazer uma visibilidade internacional ao evento.
Só para se ter uma idéia, eis alguns pratos que você poderá saborear:
- Polenta a Moda do Beco - Polenta recheada com queijo gorgonzola, coberta com frango, nozes, curry e ora-pro-nóbis
- Medalhão ao Molho de Ervas em Cama de Taioba - Entrada de salada de cenoura, pepino e maçãs seguida de medalhão de filé mignon com bacon ao molho de ervas sobre folha de taioba acompanhado de moranga e arroz com cogumelo.
- Camarão do Carmo - Camarões VG ao molho de jabuticaba acompanhada de arroz com camarões, shitake. Sobremesa de maracujá num lago de creme com chocolate amargo.
- Frango com Ora-pro-nóbis - Frango com ora-pro-nóbis acompanhado de arroz branco e angu de fubá de moinho d'agua.
- Torta Negra - Torta com mousse de jabuticaba, chocolate amargo, calda de jabuticabas e pistache.
- Salmão ao Molho de Alcaparras - Salmão grelhado com molho de alcaparras acompanhado de arroz com nozes e passas.
- Entrada de bambá de couve com costelinha desfiada seguida de coxa e contra coxa recheada com abobrinha e mel acompanhada de arroz com alho, tutu de feijão e couve frita.
- Massa branca de lasanha servida com carne de sol desfiada com molho ao sugo, molho branco e queijo canastra.
- Fettuccine ao molho de jabuticaba com costelas de porco frescas.
Sentiu o drama? Estive com Amélia em Ouro Preto outro dia mesmo, passeando com os amigos brasilienses Paulo e Letícia - veja o post Vila Rica de Ouro Preto prá dar mais vontade ainda de trilhar os tortuosos caminhos abertos pelos bandeirantes...
O Festival termina em 19 de dezembro, ou seja, você tem ainda 2 semanas prá arrumar as mochilas, pegar a estrada e... a gente se encontra por lá! O friozinho deste verão(!) ajuda a subir e descer ladeiras, contemplando montanhas, adentrando igrejas, espiando pelas janelas coloniais. Aproveite para visitar o Museu do Oratório. Deixe uma oração para esse que vos fala: não preciso de nada, só de continuar tudo tão bom com o que Deus me tem servido. Até.
26 novembro, 2004
Fome zero: uma contribuição
Falou-se da utilização do produto humano in natura para melhorar a pele, das predileções pelo beijinho doce de antigamente, das fórmulas para extrair o precioso líquido (motel com sessão privé), da disposição de se criar bacalhau com o intuito capitalista de se enriquecer...
Resolvi aprofundar um pouco mais e descobri que todos (os homens, claro) podemos colaborar para a politicamente correta campanha "Fome Zero". Como? Ora, elementar, meu caro Watson! Veja os passos (de novo, peço colaboração ao engenheiro químico Caborges e à química Márcia Barsotelli):
1) comprovar se a composição do esperma é, realmente, apenas isso: espermatozóides, líquido espermático, fosfato, frutose e lactose;
2) determinar a quantidade exata de cada um dos nutrientes acima;
3) calcular o potencial energético de cada - com perdão da palavra - ejaculação;
4) recompensar monetariamente os doadores voluntários (isenção do Imposto de Renda de acordo com sua "produtividade" (isso estimularia o Amor e não a Guerra, diminuindo a violência que se abate sobre a sociedade);
5) centralizar a coleta na Agência Nacional de Nutrição Espermática-ANNE- (da qual posso ser presidente ou tesoureiro, desde que a verba seja atraente, que bobo não sou);
6) distribuir os nutrientes de acordo com as necessidades. Por exemplo:
- onde falta água: líquido espermático;
- onde falta memória: fosfato espermático;
- onde falta açucar, doces, álcool combustível e leite: frutose e lactose.
- onde falta gente: o espermatozóide em si (os filósofos que definam qual é a essência mesma do bichinho).
PS 1 - Pronto! Não venham me dizer que não me esforcei!
PS 2 - Aceitam-se sugestões.
24 novembro, 2004
Beijo molhado e... salgado!
22 novembro, 2004
Olhar, ver, enxergar
No Inglês, temos eye para olho; sight para o olhar; to look e to view para o verbo. Há sutilezas no uso desses vocábulos, pois nem sempre quem olha consegue ver. É o "o pior cego"!
Há o olhar objetivo para as coisas do mundo. Difícil é olhar para dentro de si mesmo, se descobrir, se conhecer: -"Vê se te enxerga, rapaz!"
Os olhos podem ser a janela da alma, demonstrando ódio, amor, curiosidade, frieza, medo, etc. Somos revelados pelo olhar! (Por isso o psicanalista se posiciona fóra do campo de visão do cliente).
É no olhar da mãe que a criança se descobre (isso dá um post!).
Você já se sentiu comido(a) pelo olhar de alguém? E o que dizer dos pais que, com o olhar, conseguem impor aos filhos sua autoridade?
Machado de Assis conseguiu imortalizar os olhos da Capitu, em Dom Casmurro:
Se, aqui nos trópicos, os olhos azuis ou verdes são valorizados como belos, profundos, misteriosos, sedutores e irresistíveis, já o alemão Goethe, no seu "Os sofrimentos do jovem Werther" (Die Leiden des jungen Werthers, 1774) inaugura o romantismo literário descrevendo a paixão do protagonista pelos olhos negros da Charlotte S...
Tantas associações possíveis acerca do olhar, do ver, do enxergar - tudo isso me veio à telha (expressão antiga, sô!) ao me deparar com uma exposição de fotografias feitas por um cego: Aconteceu em Itabira-MG (terra do poeta Drummond), onde estive, sexta-feira passada. Fiz uma conferência num evento acerca de "inclusão social" e lá estava o José Eustáquio, ex-funcionário da CVRD, que perdera a visão aos cinquenta e poucos, após trombose cerebral. Pois a inclusão social do JE se faz pelas exposição de fotos que anda batendo de paisagens que guarda em sua memória. Ruas, casas, vielas, montanhas, pessoas - tudo que tem um significado afetivo para ele está sendo, agora, capturado pelas lentes de sua câmera.
Quero lembrar-me do nome do filme chinês, acerca de um menino cego, rejeitado pelo pai: alguém sabe? Vale a pena assisitir! Há, também, um documentário brasileiro acerca de cegos e sua visão de mundo...
Ah!, tem um site que nos mostra o que é ver com o corpo todo: corram ao Bengala Legal para conhecerem a menina e a pedra!
18 novembro, 2004
Mensagem às estátuas
Frequentemente ouvimos falar da inauguração de uma placa comemorativa ou do busto esculpido de uma personalidade a habitar uma praça ("logradouro público" - segundo a burocracia oficial).
Até os mortos têm, sobre suas tumbas, estátuas tragicamente belas, cinzeladas em mármore negro ou em alvas pedras: "Aqui jaz fulano de tal." Heróis da pátria, beneméritos, políticos orgulhosos de si, cada qual busca a imortalidade pétrea já tentada pelos faraós e suas mirabolantes pirâmides. "Vanitas vanitatum", "Mataiótes mataiotéton", "Vaidade das vaidades"...
Eis que me deparo com um poema de Angel Gonzales, cuja tradução livre deixo aqui:
09 novembro, 2004
Pongar e caronear
2 - Essa lembrança das pongas me assaltou quando li reportagem de página inteira no caderno de veículos do Estado de Minas. O articulista enumerou alguns conselhos para quem quiser "pegar carona" [De novo, o Houaiss: Na terceira acepção, "carona = transporte gratuito em qualquer veículo; bigu, boléia". Como os tempos bicudos exigem economia, nada melhor do que uma carona amiga. Mas, o bom caroneiro deve seguir os 10 mandamentos:
I- nunca se atrasar, jamais fazer o dono do veículo esperar;
II- elogiar o carango, sempre, mesmo que esteja caindo pelas tabelas;
III- oferecer (só oferecer!) para contribuir com o gasto de combustível;
IV- não discordar das opiniões do dono, nem em questão de futebol, religião ou política;
V- empurrar prontamente o carro, em caso de enguiço;
VI- rir das piadas do dono, mesmo que sejam péssimas;
VII- descer rapidinho, inventar uma desculpa, caso o motorista seja um kamikase;
VIII- não reclamar da música, mesmo que seja axé ou Chitãozinho e Xororó;
IX- nunca, jamais, em tempo algum, 'soltar gases' dentro do veículo;
X- não dormir durante o trajeto; babar no banco, nem pensar!
Com este manual de "auto"-ajuda, seremos bons caroneiros!
03 novembro, 2004
Para bem viver, filosofar é preciso
"1. Procede deste modo, caro Lucílio: reclama o direito de dispores de ti, concentra e aproveita todo o teu tempo que até agora te era roubado, te era subtraído, que te fugia das mãos. Convence-te de que as coisas são tal como as descrevo: uma parte do tempo é-nos tomada, outra parte vai-se sem darmos por isso, outra deixamo-la escapar. Mas o pior de tudo é o tempo desperdiçado por negligência. Se bem reparares, durante grande parte da vida agimos mal, durante a maior parte não agimos nada, durante toda a vida agimos inutilmente.
2. Podes indicar-me alguém que dê o justo valor ao tempo aproveite bem o seu dia e pense que diariamente morre um pouco? É um erro imaginar que a morte está à nossa frente: grande parte dela já pertence ao passado, toda a nossa vida pretérita é já do domínio da morte!. Procede, portanto, caro Lucílio, conforme dizes: preenche todas as tuas horas! Se tomares nas mãos o dia de hoje conseguirás depender menos do dia de amanhã. De adiamento em adiamento, a vida vai-se passando.
3. Nada nos pertence, Lucílio, só o tempo é mesmo nosso. A natureza concedeu-nos a posse desta coisa transitória e evanescente da qual quem quer que seja nos pode expulsar. É tão grande a insensatez dos homens que aceitam prestar contas de tudo quanto - mau grado o seu valor mínimo, ou nulo, e pelo menos certamente recuperável - lhes é emprestado, mas ninguém se julga na obrigação de justificar o tempo que recebeu, apesar de este ser o único bem que, por maior que seja a nossa gratidão, nunca podemos restituir.
4. Talvez te apeteça perguntar como procedo eu, que te dou todos esses preceitos. Dir-te-ei com franqueza: como alguém que vive bem, mas sem esbanjamento. Tenho as minhas contas em dia! Não te posso dizer que nunca perco tempo, mas sei dizer-te quanto, porquê e de que modo o perco. Posso prestar contas da minha pobreza. A mim, porém, sucede-me o mesmo que a muitos que, sem culpa própria, ficaram reduzidos à miséria: todos perdoam, mas ninguém ajuda.
5. Que mais há a dizer? Não considero pobre aquele a quem basta o pouco que tem. Prefiro, contudo, que tu preserves os teus bens e que o comeces a fazer quanto antes. Conforme diziam os nossos maiores, "já vem tarde a poupança quando o vinho está no fundo." É que o que fica no fundo, além de ser muito pouco, são apenas as borras!
Adeus!"
Não me chamo Lucílio, nem moro em Roma, mas li e reli essa Carta e ando pensando em colocar em prática algum conselho. Mas tá difícil, sô!
28 outubro, 2004
"Amar é..."
Alguns blogs chamam a atenção pelo conteúdo lamentoso em função das frustrações amorosas vivenciadas por quem os escreve: tal como um muro das lamentações, os diários virtuais, trazem à tona a carência maior do ser humano: o desejo de ser amado incondicionalmente! Oh! missão impossível!
Comecemos pelo princípio: ao nascer, o filhote do homem é totalmente dependente, frágil, incapaz de se manter. Graças aos cuidados maternos (ou de quem se assume como cuidador), sobrevive-se. Uma relação imediata se configura: necessitado + cuidador. Ou seja: no início da vida, somos "seres da necessidade". Até aí, funcionamos como todo ser vivo, animais: a mãe/cuidador se apresenta indispensável até que, pelo próprio desenvolvimento do bebê e pelas outras atribuições do adulto, ela (mãe) se afasta lentamente... já consegue se atrasar para acudir as necessidades do recém-nascido que, por seu lado, começa a antecipar os indícios de que será atendido: o ruído de passos, a voz, o barulhinho da colher mexendo o mingau, etc. Um hiato (uma fenda, um vazio) se interpõe na díade mãe-filho, propiciando ao bebê uma experiência fundamental: clamar pelo que precisa!
O chôro, o grito, a agitação de braços e pernas, tudo passa a se configurar como linguagem que é interpretada e verbalizada pela mãe: neném tá com frio, neném tá com dor-de-ouvido, neném tá com fome!
A evocação da figura ausente e dos objetos de satisfação instauram os princípios da linguagem simbólica (símbolo = representação da "coisa", sem a "coisa"). Nasce o "desejo"!
O que, pois, inaugura a linguagem é a "falta", a "perda do objeto" de necessidade e sua substituição pelo "objeto do desejo". Muito além das funções de sobrevivência (objetos de necessidade) clamamos por uma atenção colorida de afeto. Fornecer comida, apenas, não basta, é preciso que o ato de alimentar seja atencioso, cuidadoso, amoroso! "Com açucar e com afeto", na canção do Chico Buarque.
Se, antes, a mãe era identificada ao objeto necessário aos instintos básicos (sobrevivência, alimentação, proteção contra frio, etc), agora passa a ser a benfeitora que propicia a satisfação. É quem garante a vida e o prazer (éros/libido), constituindo-se como primeiro objeto erótico/libidinal da criança. Nasce o AMOR, expressão de reciprocidade gratificante entre mãe e criança (ainda sem romantismo, invenção tardia na história da humanidade).
A experiência fundadora do amor se expande vida afora, com a saudável substituição da mãe como objeto único de amor por outros objetos a serem conquistados - um ser a quem amamos e que nos ame (resolução do "complexo de Édipo").
Entretanto, uma ILUSÃO pode permanecer: a de que haverá alguém que nos garanta a satisfação plena, o afeto total, o amor incondicional! Inconscientemente, queremos repetir o idílio da primeira infância, quando nenhum esforço tínhamos que fazer: bastava desejar e... pronto! Satisfação garantida!
Muito mais tarde vamos aprender que "o amor é conquistado": temos de perguntar sempre ao outro: "o que queres de mim"? Só assim seremos amados. Enganam-se aqueles que se julgam dignos do amor, sem nada oferecerem.
O jogo é complexo e interminável: de um lado, projetamos no outro as qualidades que o tornam digno de nosso afeto. O outro, por sua vez, tudo faz para corresponder e, às vezes, se julga realmente portador de todas aquelas qualidades. E vice-versa!
Sobre isso, Jaques Lacan retoma uma frase platônica: "Amar é dar o que não se tem a quem não sabe o que quer"... Decifre-a quem puder.
O Amor, assim, é indefinível por natureza, incomensurável (nada matemático), inconsistente, sem garantia de retorno, absolutamente assimétrico - já que cada um tem seu inconsciente e seu imaginário forjados na mais tenra idade, com experiências tão singulares quanto incomunicáveis! Só mesmo os poetas para darem conta de falar do Amor: O amor é mesmo "fogo que arde sem se ver..." (Camões); é "...ânimo dos desmaiados, arrimo dos que vão a cair, braço dos caídos, báculo e consolação de todos os desditosos" (Cervantes); "Ninguém é pobre quando ama". (Camilo Castelo Branco). "Há amores sem felicidade, mas nunca felicidade sem amor" (Jacques Lelouch) e "ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor... nada disso me aproveitaria" (S.Paulo).
Quanto a mim, sigo feliz com minha Amada: Amélia e eu completamos, hoje, 26 anos de casamento, vivenciando a experiência cotidiana do Amor compartilhado, no qual me sinto, sempre, recebendo muito mais do que dando, a cada momento tento provas de que, embora indefinível, O AMOR EXISTE!
21 outubro, 2004
Fugaz
19 outubro, 2004
Cura Te Ipsum
17 outubro, 2004
Bahia em três tempos
“-Simplesmente falando a língua do Império.”

JoséMaria, Cida, Amélia, Cláudio, AnaPaula e Fernanda
A partir daí: piscina, ginástica, ofurô, que ninguém é de ferro!
II – Tempo da baianidade: Já no sábado, mal desfeitas as malas, corremos para o show da Ivete Sangalo, no Wet’n Wild, aquaparque.
Inúmeras bandas a tocar antes da estrela. Conclusão, eram duas da manhã, chovendo, uma multidão compacta, fome nos comendo por dentro e... voltamos pro hotel, sem ouvir Ivete! Na terça: contato de primeiro grau com o Olodum, a mil decibéis, precedido de show do Jam Jiri.
O coração batia ao som dos surdões, os pés pulando empolgados pelo ritmo afro-brasileiro, as mãos para o alto recebendo as energias irresistíveis do reggae baiano. Na quarta, Armandinho (de Dodô e Osmar) abre o Congresso Brasileiro de Psiquiatria com uma invenção do Hino Nacional: a guitarra estridente e rascante perfurando os tímpanos e empolgando uma platéia de quase três mil pessoas. O coquetel foi na base cerveja e sucos de frutas regionais, acompanhados do acarajé, caldo de sururu, pé-de-moleque, cocada, bolinhos de carne de siri, vatapá e barquete de siri catado. Tudo com muito azeite de dendê e pimenta ardida. Na quinta-feira, show de Daniela Mercury, no Othon, contratada para animar 800 convidados vips –e nós lá, é claro! Ainda no Othon, na sexta, apenas para 500 pessoas, o swing do Araketu, e a gente pulando que nem doido, sacudidos pela percussão violenta e arrastados pela musicalidade que penetrava artérias e veias, acendia o cérebro e anestesiava o cansaço! Ao longo da semana, almoços à base de moquecas de camarão, peixe, lula... Nos intervalos, uma passadinha no Centro de Convenções: não podíamos nos esquecer do Congresso.
Otávio Fróis, que foi colega da minha Ana Letícia na Faculdade de Direito da UFMG, gentilmente nos levou pela orla até a famosa Lagoa de Abaeté (“o Abaeté tem uma lagoa escura/arrodeada de areia branca/oi de areia branca...").
III – Tempo de refletir: pois é, foi tudo muito bom, foi tudo muito bem, mas... Ao visitar o Shopping Iguatemi, subimos pelo elevador do estacionamento até o 4° piso: lojas de primeira categoria, gente muito bonita, tudo muito caro... Na medida em que descíamos as escadas rolantes, eis que nos deparamos com a queda da qualidade das lojas, menos sofisticação das vitrines, até chegarmos ao primeiro andar: aí, só lojas populares, muita gente, quase todos afro-brasileiros de baixa renda... pela primeira vez estou num shopping que é o retrato descarado da estratificação social deste nosso paraíso tropical. Outros indicativos da segregação sócio-econômica estão presentes em qualquer cidade, é lógico, mas o Iguatemi era uma “aula de sociologia”! Se a miscigenação é cantada na Bahia em prosa e verso, aindá lá se trata de idealização, utopia, mistificação ou mascaramento. Salvador é a síntese deste imenso Brasil: muita arte, cultura, paisagens maravilhosas, negros (70%), mulatos (20%) e brancos (10%), -segundo nos informaram- e uma imensa desigualdade. Talento e criatividade, alegria e bom humor, malandragem, religiosidade, o umbigo e seu cordão “Brasil-áfrica” contrapondo-se ao país luso-brasileiro, afrancesado logo nos primórdios e cada vez mais dominado pela globalização galopante... O sul-maravilha e o sudeste têm muito que aprender e resgatar, sem ufanismos nem patriotadas. Se há um lugar onde pulsa o coração brasileiro, este lugar é a Bahia... é irresistível, fantástica, multifacetada e latino-afro-brasileiramericana. Axé!
14 outubro, 2004
Inveja mata!
07 outubro, 2004
Oropa França e Bahia
Dou-te xale de Tonquim!
Dou-te uma saia bordada!
Dou-te leques de marfim!
Queijos da Serra Estrela,
perfumes de benjoim...
Nada.
A mulata só queria
que seu Manuel lhe desse
uma nauzinha daquelas,
inda a mais pichititinha,
prá ela ir ver essas terras
"De Oropa, França e Bahia"...
(...)
Maria atirou-se n´água,
Seu Manuel seguiu atrás...
— Quero a mais pichititinha!
(...)
— As eternas naus do Sonho,
de "Oropa, França e Bahia"...
Pois é, alguém sugere um programa "imperdível", que não seja prá enganar turista trouxa? Dizem que 'mineiro compra até o Pão de Açucar' mas acho que já estamos vacinados... Podemos comprar acarajé? Podemos ver Olodum? Prometemos publicar algumas fotos, contar alguns "causos", não deixar este blog morrer...
[Saiba mais do Ascenso Ferreira no Guia de Poesias do espetacular Luiz Alberto Machado!]
30 setembro, 2004
Felicidade Total!
"Designers japoneses inventaram o que está sendo considerado por muitos
O travesseiro é o parceiro ideal porque ele não ronca, não puxa as cobertas
Cada travesseiro vem com duas capas em rosa e azul,
Além de tudo, o travesseiro-namorado funciona como um relógio despertador,
Um porta-voz do fabricante afirma que o travesseiro tem sido um sucesso absoluto de vendas,
"-Mulheres de todas as idades estão fazendo fila no quarteirão para levar um destes", disse.
O travesseiro pesa 20 quilos e está disponível apenas no Japão.
Eis o paradigma da comtemporaneidade: o imperativo do prazer [drogas], o gozo garantido ["viagras"], o sexo perfeito [técnicas performáticas], a vida como espetáculo [reality show], a pílula dourada [aparência, semblant]. No final, será que a felicidade está ali onde se promete encontrá-la?
Imagine um kinder ovo sem a surpresinha dentro! O fato de se ter um travesseiro que te abraça ou um gadget no telefone celular para ser cuidado pode ser um produto qualquer. A questão é a promessa contida na embalagem, impossível de ser cumprida. O marketing quer nos atingir nas mais profundas necessidades: afeto, emoção, laço social, medo do abandono... Daí a utilização da palavra mágica, namorado(a).("Mágica" porque atinge o desejo humano mais inconsciente: desejo de SER AMADO!: A surpresinha - faltante - dentro da embalagem! O kinder ovo está, irremediavelmente, oco!
Adoramos ser enganados, ávidos de felicidade completa, fazendo semblant de que tudo vai bem, a correr atarantados em busca do elixir da felicidade. Somos inseridos (ou coagidos) a cair no maior conto-do-vigário de todos os tempos: -"Compre, nós temos a solução para todas as suas carências".
Já não importa o que somos, sob o império do Deus Mercado. Não é necessário esforço, não é necessário trabalhar suas dificuldades pessoais, seus conflitos, suas dúvidas. Não é necessário aperfeiçoar-se, crescer como ser humano. Não, não! Basta ter dinheiro, money, tutu, la plata. Seja um consumidor e seja feliz!
28 setembro, 2004
Poema minúsculo
O sol está quente, quente:
Com razão duvida o padeiro
se a vida se torna um inferno
ou um forno mal regulado.
22 setembro, 2004
Na morada dos índios
Com essa pergunta, assim começa a reportagem publicada hoje no Estado de Minas, acerca de Andréia Duarte, mineira de 24 anos. A mocinha está morando, há 4 anos, com os índios tupis-guaranis, no coração do Brasil, numa aldeia próxima de Água Boa-MT.
Lembrei-me imediatamente de uma reportagem do Jornal do Brasil, na qual se afirmava que ela estaria apaixonada pelo cacique Kotoki, o que a teria arrastado para fora da "civilização". A fantasiosa história já a colocava como a quarta esposa do cacique!
Hoje, Andréia explica: "Não sou índia, não quero me tornar índia. Respeito aquele povo. Não vivemos (os brancos) como se soubéssemos que um dia vamos morrer. Estamos numa época em que as pessoas se prendem ao corpo, à estética, ao dinheiro. Você até ouve falar sobre as camadas pobres da população, mas ninguém faz nada por elas. Quero ter atitude, mesmo que seja ali, numa tribo de 300 pessoas. Esta é a minha fé. É uma luta por uma causa, não um romance. Eu, ele (Kotoki) e o pai dele conversamos sobre o assunto (boatos do casamento), achamos uma pena que, com tanta coisa importante para ser dita sobre os povos indígenas, as pessoas queiram falar sobre isso."
Escolheu a aldeia porque era a única que não possuía escola. Criou uma.
Isso serve prás cabeças, pensei: Não sei quem aprende mais, se os curumins [etim. tupi kunu'mi ou kuru'mi = 'menino, rapaz novo ou jovem'] ou ela mesma - e através dela, nós aqui, ditos civilizados.
Alguns exemplos citados pela Andréia:
- Cultura: "costumo dizer que os kamayura são índios aristocratas. Eles não se assentam encurvados, não falam alto, não têm discussões entre si. Não são preguiçosos, chegam a ficar 6 meses construindo uma casa, pescam diariamente e plantam tudo que comem."
- Sexo e casamento: "Os homens têm a função de construir a casa, plantar a roça. As mulheres colhem e buscam a água. Eles assam o peixe e elas fazem o polvilho. Tudo é muito organizado. Eles podem se casar com quantas mulheres quiserem e, muitas vezes, o casamento acontece para que haja divisão do trabalho. Transam por prazer, adoram sexo. Acho que o brasileiro parece ter herdado isso do índio."
- Catarse coletiva: "Há um ritual em que as mulheres passam a noite xingando os homens. Já participei e adorei. Às vezes eles acham ruim, correm atrás das mulheres e jogam mingau na gente. Em outro ritual, eles dão o troco."
- Ciúme: "Existe sim, mas não se separam por isso; as mulheres também pulam a cerca. São todos parentes e decidem quem pode se ralacionar com quem".
O Cacique Kotoki tem defendido a preservação da natureza, sendo que a principal preocupação dos índios do Xingu é com o desabastecimento de água. “As fazendas de soja desmatam e poluem as águas dos rios com os agrotóxicos”, denunciou Kotoki, o cacique da aldeia Kamayurá.
E ainda tem gente que, ao se referir a alguma coisa ruim, diz: -"Programa de índio!".Eu cá me pergunto: será?
A mineirinha Andréia disse que vai se tornar antropóloga. Só a entrevista já valeu por uma aula, não é?
19 setembro, 2004
Qual o seu preço?
Um pastor português, 49 anos, comprou uma mulher por 2,5 mil euros + 15 cabras! Chama-se Diamantino Curtinhas, o tal pastor. O problema é que não recebeu a "mercadoria" conforme lhe prometeram os vendedores. Armou-se de uma carabina, pediu uma burra emprestada e foi à caça da moça de 22 anos, de nome Mariza Fernandes. Com o negócio feito no Carnaval, só há pouco tempo é que Diamantino Curtinhas encontrou a escolhida Marisa. O duo de negociantes lhe disseram que a "mercadoria" chamava-se Andreia e morava em Mesão Frio. O pastor, que já é casado e tem três filhos, foi reclamá-la de caçadeira em punho, barricando-se numa garagem em frente à habitação da jovem. Os vizinhos de Diamantino Curtinhas estão revoltados e indiganados com o engano de um "homem bom e pronto a ajudar" que apenas possui uma fraqueza: as mulheres.
Pois é, ao invés de querer justiça pelas próprias mãos (afinal ele "tinha direito", pois pagou e não levou), deveria ter ido ao PROCON - ou em Portugal não tem dessas coisas? Coitado do bom homem (assim pensam os vizinhos...).
Talvez este fato não seja lá tão espantoso, pois me recordo de uma amiga recém chegada do Marrocos. Contou-nos, quase orgulhosa, que seu marido recebera a proposta de trocá-la por duas garbosas camelas, mais alguns tapetes, de bônus...
Será que isso ocorre por aqui, também? Por quanto as pessoas estão se vendendo?
Nas eleições próximas, quantos eleitores se vendem (vendem sua ideologia, suas crenças, seu voto) a um candidato em troca de camiseta, um churrasco ou pela promessa de benefício qualquer, "caso eu seja eleito"?
E você, qual o seu preço?
Êta mundão, sô! Ah! você quer ler a notícia completa? Clique aqui.


