31 janeiro, 2005

Para corações e mentes

O amigo Ildefonso José Vieira, , enviou-me alguns poemas e um link de poesia que é simplesmente sublime. Eis um exemplo:

Receita pra lavar palavra suja


Mergulhar a palavra suja em água sanitária.

Depois de dois dias de molho, quarar ao sol do meio dia.

Algumas palavras quando alvejadas ao sol

adquirem consistência de certeza. Por exemplo a palavra vida.

Existem outras, e a palavra amor é uma delas,

que são muito encardidas pelo uso, o que recomenda esfregar

e bater insistentemente na pedra, depois enxaguar em água corrente.

São poucas as que resistem a esses cuidados, mas existem aquelas.

Dizem que limão e sal tira sujeira difícil, mas nada.

Toda tentativa de lavar a piedade foi sempre em vão.

Agora nunca vi palavra tão suja como perda.

Perda e morte na medida em que são alvejadas

soltam um líquido corrosivo, que atende pelo nome de amargura,

que é capaz de esvaziar o vigor da língua.

O aconselhado nesse caso é mantê-las sempre de molho

em um amaciante de boa qualidade. Agora, se o que você quer

é somente aliviar as palavras do uso diário, pode usar simplesmente

sabão em pó e máquina de lavar.

O perigo neste caso é misturar palavras que mancham

no contato umas com as outras. Culpa, por exemplo,

a culpa mancha tudo que encontra e deve ser sempre alvejada sozinha.

Outra mistura pouco aconselhada é amizade e desejo, já que desejo,

sendo uma palavra intensa, quase agressiva, pode,

o que não é inevitável, esgarçar a força delicada da palavra amizade.

Já a palavra força cai bem em qualquer mistura.

Outro cuidado importante é não lavar demais as palavras

sob o risco de perderem o sentido.

A sujeirinha cotidiana, quando não é excessiva,

produz uma oleosidade que dá vigor aos sons.

Muito importante na arte de lavar palavras

é saber reconhecer uma palavra limpa.

Conviva com a palavra durante alguns dias.

Deixe que se misture em seus gestos, que passeie

pela expressão dos seus sentidos. À noite, permita que se deite,

não a seu lado mas sobre seu corpo.

Enquanto você dorme, a palavra, plantada em sua carne,

prolifera em toda sua possibilidade.

Se puder suportar essa convivência até não mais

perceber a presença dela,

então você tem uma palavra limpa.

Uma palavra limpa é uma palavra possível.


30 janeiro, 2005

Você viu?

Impressionante! Clique aqui. Aguarde carregar, ligue o som e julgue você mesmo.

26 janeiro, 2005

Tá olhando o quê?

A Santa Ceia
No interior da igreja gótica do antigo Colégio do Caraça existe um quadro de Ataíde, representando a Santa Ceia . Impressionou-me sempre pela expressão viva dos personagens: serventes, apóstolos e Cristo. Trata-se de um quadro do período barroco, século XVIII, que tem o pintor Manuel da Costa Ataíde e o escultor e arquiteto Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, como principais representantes.
Há muitos anos, o quadro (na verdade, um grande painel) ornamentava uma das paredes do refeitório do Colégio - hoje hospedaria, reserva natural protegida, centro de cultura -.
Durante as refeições, fixava-me, principalmente, no semblante de Judas Iscariotes, o apóstolo que indicou aos soldados romanos quem seria o subversivo pregador denominado Jesus.
Judas aparece em primeiro plano, um pouco à direita, a segurar firmemente um saco de tecido, dentro do qual repousavam os "trinta dinheiros" recebidos pela traição.
A ceia à qual compareceram os 12 apóstolos é chamada de Última Ceia e teria ocorrido na quinta-feira. Ainda não havia se consumado o gesto traidor: a prisão ocorreria no dia seguinte, dando início à Paixão.
Judas é o único personagem daquela cena que não tem os olhos voltados para o Messias. Estava muito preocupado, temeroso de que fosse desmascarado. Sua face vigia o espectador! Encara-nos de frente. Sua paranóia é captada pelo virtuosismo do Mestre Ataíde através de um efeito extraordinário: em qualquer posição que fiquemos - mais ao lado, à direita ou à esquerda do quadro, não importa - acompanha-nos com o olhar vigilante. Ainda criança, eu andava de um lado para o outro, agachava-me, olhava de soslaio ou de repente: o traidor me seguia, era impossível surpreendê-lo!
Uma vez, pensei: Hoje eu tiro a prova! Chamei um colega e nos dividimos: ele à esquerda, eu bem à direita. E aí, o Judas está olhando prá você? perguntei-lhe. Pois não é que estava? Simultaneamente me vigiava, também. Nós nos aproximamos vagarosamente do centro do quadro e ambos éramos acompanhados pelo traidor.
Esta foi uma das primeiras e significativas experiências estéticas de minha vida.
O mistério daquela obra de arte se repetiu em algumas igrejas de Ouro Preto, admirando outros quadros com o mesmo efeito. Será uma especialidade dos pintores barrocos?
A tela foi restaurada pelo Instituto do Patrimônio Histórico de Minas Gerais e se encontra na lateral esquerda da nave principal da Igreja de Nossa Senhora Mãe dos Homens. O Judas não perdoa: a todos vigia. Paranóico ele. Ou nós?

23 janeiro, 2005

Vade Retro!

Dentre as muitas vicissitudes por que passam os viajantes aéreos, os atrasos nos vôos talvez sejam os menos trágicos.
Foi num desses atrasos, ao retornar de Brasília para Belo Horizonte, que aterrisei no distante aeroporto de Confins - nomeado "Tancredo Neves" - às 23,50h de uma sexta-feira, 13.
Tomei um taxi.
Percebi logo um odor de incenso, muito forte. O motorista fez o sinal-da-cruz, beijou um crucifixo e, dando partida, murmurou: - Vade Retro, Satanas.
- O que disse?
Não queria que o tivesse escutado, pois respondeu, defensivamente: - Nada não, senhor!
Insisti, até que começou a contar:
- Peguei essa mania há muito tempo, desde quando nem existia este aeroporto. É uma formula que utilizo para espantar os fantasmas noturnos.
- Por acaso tenho cara de fantasma?
- Não, é claro que não, embora a gente nunca possa ter certeza. O senhor me desculpe, mas comigo aconteceram algumas coisas muito estranhas e não posso deixar de me prevenir. Vou explicar: da primeira vez, eu trabalhava com um Opala Chevrolet. Meu pai ficava com o carro durante o dia e eu, por ser mais novo, pegava à noite. Numa sexta-feira, noite fria de junho, descia a Avenida Afonso Pena bem devagar, procurando passageiros. Naquela época, havia muitas árvores, a iluminação era fraca e os ônibus demoravam a passar. Pois foi exatamente num ponto, pertinho da Praça Tiradentes, que uma mulher acenou. Era alta, loura, usava sapatos altos e estava vestida como se fosse para uma festa. Achei estranho, pois as mulheres daquele tipo não andavam sozinhas, só as putas, o senhor entende. Mas não tinha cara de puta, de jeito nenhum.
Abri-lhe a porta. Ela entrou e, com ela, um perfume que nunca havia sentido:
- Leve-me à Rua Mariana, no Carlos Prates.
"Deve ser uma delas", pensei, pois naquela região havia umas casas de mulheres suspeitas, ou da vida, como diziam. Não puxei assunto, nem ela falou nada. Apenas aquele perfume do qual nunca mais esqueci. As tais casas ficavam no início da Rua Mariana, mas ela pediu para tocar em frente. Fui subindo devagar, esperando que me mandasse parar. Até que chegamos, sabe onde? Em frente ao Cemitério do Bonfim.
"Pare aqui", disse, com voz ríspida.
Olhei o taxímetro e dei o preço. Ainda era em cruzeiros, o senhor se lembra?
Pois a dona me deu uma nota de cinco mil, para pagar uma corrida de dois e quatrocentos. Abri minha carteira para pegar o troco e, quando me virei, o banco de trás estava vazio! "Cadê a mulher?", perguntei a mim mesmo. Estremeci, pois o perfume foi substituído por um cheiro forte de enxofre. Olhei para fora e vi o portão do Bonfim fechando-se lentamente, mas não vi ninguém, nenhuma alma. Deu-me uma tremedeira danada... Gritei: "Valha-me São Cristóvão!" É o padroeiro dos motoristas, sabia? Acelerei o carro, nem olhei prá trás.
Desde aquele dia, sempre faço minhas orações. Depois que aprendi a fórmula do exorcismo com um padre, então fiquei mais seguro. Por isso, o senhor me desculpe, não tem nada a ver com o senhor, por isso, toda vez que entra qualquer passageiro no meu taxi, já me previno: "Vade retro, Satanas". O senhor vai prá onde, mesmo?
Respondi, com um sorriso diabólico:
- Rua Mariana, por favor...

[A lenda da Loura do Bonfim alimenta o imaginário belorizontino desde a década de 50. Já virou filme. Eu aumento, mas não invento.]

22 janeiro, 2005

Os putos


Os putos
Uma bola de pano, num charco

Um sorriso traquina, um chuto
Na ladeira a correr, um arco
O céu no olhar, dum puto.

Uma fisga que atira a esperança
Um pardal de calções, astuto
E a força de ser criança
Contra a força dum chui, que é bruto.

Parecem bandos de pardais à solta
Os putos, os putos
São como índios, capitães da malta
Os putos, os putos
Mas quando a tarde cai
Vai-se a revolta
Sentam-se ao colo do pai
É a ternura que volta
E ouvem-no a falar do homem novo
São os putos deste povo
A aprenderem a ser homens.

As cáricas brilhando na mão
A vontade que salta ao eixo
Um puto que diz que não
Se a porrada vier não deixo

Um berlinde abafado na escola
Um pião na algibeira sem cor
Um puto que pede esmola
Porque a fome lhe abafa a dor.

[José Carlos Ary dos Santos]

Sempre o Houaiss:
1. Puto = s.m. menino, filho, criança

2. Fisga = s.f. instrumento pontiagudo, semelhante ao arpão
3. Chuto = s.m. chute
4. Chui = s.m. guarda civil; polícia ¤ uso ger. pejorativo ¤ etim orig.obsc. ¤ sin/var ver sinonímia de policial
5. Cárica = s.f. bagas freq. comestíveis, como o mamão; das plantas do gên. Carica
6. Berlinde = 1: bolinha de vidro ou pedrinha redonda e lisa us. num jogo infantil; bola de gude. 2: p.met. jogo praticado com essas bolinhas; gude ¤ etim orig.obsc. ¤ sin/var belindre; ver sinonímia de gude

20 janeiro, 2005

Os Sonhos Não Envelhecem

Idelber Avelar, entende de tudo! Em seu Biscoito Fino e a Massa fala de música, literatura, política, dia-a-dia, sempre com humor, ironia, criatividade e, por que não dizer, um toque de sedução literária de fino gosto.
Seus últimos posts, principalmente o comentário sobre o mais recente CD de Toninho Horta, motivaram-me a recomendar o delicioso livro: "Os sonhos não envelhecem: histórias do Clube da Esquina", de Márcio Borges, um dos parceiros de Milton Nascimento. Márcio pertence à "família Borges, que abrigou Milton Nascimento logo após sua chegada a Belo Horizonte. Essa turma criou o famoso Clube que abrigou talentosos artistas das alturas das Minas Geraes.
É uma viagem no tempo, na música, na mineiridade. Os personagens caminham por uma Belo Horizonte quase inocente, naqueles anos sessenta e setenta. Havia a Ditadura e havia a resistência. Um tempo de perplexidades e descoberta do mundo. Bituca - Milton - fora acolhido pelos Borges, que moravam bem no centro da capital mineira, num apartamento em que a música era o pão-nosso-de-cada-dia.

Márcio Borges vai desfiando história como quem conta causos, descrevendo o surgimento de canções inesquecíveis e emblemáticas como Travessia, lançada no Maracanãzinho: "Solto a voz nas estradas / já não posso parar / meu caminho é de pedra..."
De repente, me vi incluído no livro! Não, não participei do Clube da Esquina, mas minha cidade natal, Nova Era, aparece como um dos lugares onde foi criada uma das músicas maravilhosas daquele pessoal. É o Márcio quem conta:
Iamos passar o fim de semana numa cidadezinha chamada Nova Era, distante umas duas horas de Belo Horizonte. (...)
Fazia um céu límpido de um azul suave e luminoso. Comecei a cantarolar a melodia baixinho, aconchegado ao colo de minha namorada. Embalado pelo balanço do ônibus, entrei num devaneio desses em que os elementos da natureza se nos afiguram extraviados de sua essência, fazendo, de repente, uma nuvem tornar-se o perfil de um gigante ou, quando faltam nuvens, transformando o próprio céu num oceano profundo e siolencioso, e se acaso uma ave corta nosso campo de visão, ela é adornada pela imaginação com os atributos de um peixe voador ou os de um iate de velas içadas ao vento, e se o devaneio vai além, podemos sentir o balanço do mar e até mesmo enjoar, ou ter vertigens. Nesse peculiar estado de vigília, recebi uns versos que fui fazendo encaixar na melodia que trauteava quase sem ruído: Vento solar e estrela do mar / a terra azul da cor de seu vestido... E repetia uma variante: Vento solar e estrela do mar / um girassol da cor de seu cabelo.
Foi um final de semana inesquecível. Passeei com Duca pelos campos, namoramos numa casa semi-abandonada da Fazenda Japuré, pertencente ao tio. Quando voltamos para Belo Horizonte, domingo de tarde, "Um Girassol da Cor de Seus Cabelos" estava prontinha. Outra vez, dentro do ônibus, cantei para ela a música inteira: Vento solar e estrela do mar / a terra azul da cor do seu vestido...
Além uma iconografia preciosa traz, encartado, um CD, com músicas de se ouvir em êxtase. Se há mineiridade pura, há também uma universalidade que só a arte pode proporcionar.
Ler "Os sonhos" e um presente que você poderá se dar. Depois, me conte.

17 janeiro, 2005

Apocalypse Now

Balada do Louco: "Este é um blog aberto e coletivo, em que as pessoas dividem suas experiências e lembranças de loucos. Resgatar essas histórias, imortalizar a loucura que não sai de nossas lembranças, é um tributo que devemos não apenas à loucura deles, mas à nossa normalidade. Se é que somos normais. Participe enviando a sua história para baladadolouco arroba gmail ponto com".
Não resisti à provocação. Envei um relato verídico, com algumas modificações exigidas pela Ética Médica, garantindo o sigilo profissional. Já saiu lá publicado. Os relatos são curiosos. Conquanto despretenciosos, são verdadeiros estudos psico-sócio-antropológicos oferecidos pela observação cotidiana. Mais que curiosos são instigantes. O ser humano é tão cheio de possibilidades e a singularidade de cada um é tão absoluta que, afinal, onde estará a fronteira entre o normal e o patológico? Já dizia o Caetano, com propriedade: De perto, ninguém é normal! Anime-se a colaborar.
Aqui está minha contribuição, que espero seja a primeira de uma série.

Apocalipse Now

João Antônio tinha trinta e três anos e uma certeza: era o Cristo que retornara para julgar os vivos e os mortos.
- É... o Cristo do Apocalipse, conhece, doutor?
E desfiou as razões que fundamentavam sua certeza, tal um matemático demonstra um teorema ou um filósofo deduz com silogismos perfeitos.
Primeiramente, a idade.
- Trinta e três anos tinha o Cristo quando foi crucificado e eu aqui estou continuando sua trajetória terrena.
- Além disso, o número do medidor da companhia de eletricidade em minha casa termina com uma sequência de seis, a da Besta do Apocalipse: 666. Descobri quando fui fazer uma reclamação na CEMIG e tive de anotá-lo. Foi uma mensagem, um sinal. Um Sinal, com S maiúsculo, sabe, doutor? A gente precisa ler os sinais, decifrar os códigos que estão à nossa volta, como fez Nostradamus.

- E mais: nasci no Brasil, cujo nome primeiro foi Terra da Santa Cruz. A cruz é a síntese: cruzamento do horizontal com o vertical, tempo e espaço. Pois o meu sobrenome, o senhor já anotou aí, é da Cruz. João Antônio da Cruz. Outro dia, uma kombi parou de repente num cruzamento. Bati na traseira e já saí gritando seu estúpido, por que parou sem avisar? O motorista saiu sorrindo, na maior calma. Vestia uma camiseta de crente, na qual estava escrito Jesus te ama. E a placa daquela kombi era: JAC-1972. Era a o ano de meu nascimento e minhas iniciais, doutor! Só não vê quem não quer.

- Agora, o senhor me diga, o senhor acredita que eu sou o Cristo? Não quero palavra de psiquiatra, porque a ciência é uma coisa, religião é outra. Fale como pessoa humana, doutor.

- Você é quem diz, João Antônio.

Outras provas foram descritas, fundamentadas em fatos vivenciados e interpretações que eu chamaria de delirantes.
João insitiu mais uma vez:
- Vou perguntar de novo, ou o senhor responde ou Deus mesmo enviará um sinal. O senhor acredita?
Neste exato momento, uma pomba, das muitas que infestam os arredores, pousa sobre o peitoril da janela.
- Tá vendo? Nem precisa responder. Eis o sinal. Quando chegar a hora, o senhor saberá.

15 janeiro, 2005

Um sábado como convém

1 - Levantei-me inspirado, hoje. Após as abluções matinais, o desjejum: Tomei uma banana nanica (caturra) regada com uma porção de mel, mais meia xícara de queijo canastra picado e levei ao micro-ondas por dois minutos. Após assar, acrescentei uma porção de granola com muita uva-passa e castanhas picadas. Pronto! Após este manjar, um cafezinho bem mineiro, quentinho, da hora. Pena que hoje a Amélia não tinha feito seu delicioso pão-de-queijo.

2 - Já pensando no almoço, Amélia retirou o salmão da geladeira: só filé, sem pele, para descansar um pouco.

3 - Bem alimentado, saí para uma atividade que detesto: procurar conserto para o radiador do carro, estourado há quase 15 dias: Na estrada, voltando da Serra do Caraça, o ponteiro de temperatura acusou a anormalidade. Pânico! Logo estacionei num posto, às margens da BR-262. Do capô exala um cheiro de ferro quente, quase derretendo! Meu filho Ângelo, que faz veterinária, exclama: "- É, pai, o bicho está fervendo!" Um lanche e uma ida ao banheiro, esperando o motor esfriar. O que coube de água não está no gibi. Era colocar em cima e escorrer belas beiradas. Ainda faltavam 70 quilômetros para Belo Horizonte. O jeito foi parar a cada 10 minutos, completando a água que se esvaía... Mais ou menos igual no rally Paris-Dakar.

4 - A avenida Pedro II liga o centro à região noroeste, repleta de oficinas mecânicas, lojas de peças automotivas (novas e usadas), ferros velhos, capotaria, lojas de radiadores, conserto de pára-choques, espelhos, retrovisores, rodas... Verificar preço e condições para reparo do radiador tomou tempo, mas aprendi muito! Na segunda-feira o destino certo: deixo o carro pela manhã e o recebo à tarde, por R$ 170,00. Um radiador novo cutaria muito mais.

5 - Hora de preparar o salmão: envolvo-o com um pouco de tempero para peixe adquirido no Mercado Central, à base de pó-de-limão, sal e ervas.
Descasco 3 batatas grandes, partindo-as em rodelas de 5mm que ponho a cozinhar al dente. Num refratário, repousa o filé sobre quatro das rodelas, ainda cruas.
Salpico pimenta-do-reino, manjericão, cebola picadinha e orégano, tudo regado com azeite extra-virgem, sem dó nem piedade. As batatas, após o brevíssimo cozimento, servirão de moldura ao peixe. Também sobre elas, um pouco de azeite, sal e orégano. No forno, bastam 15 minutos.

6 - Neste momento, o aroma delicioso invade a casa e as narinas do Léo, outro filho:
"- Tá pronto, pai?"
. Colabora preparando a mesa, com pratos grandes, talheres, uma garrafa de Merlot da Casa Rivas, chileno, safra de 2002, previamente esfriado.

7 - Amélia finaliza o arroz cozido na panela de pedra, à moda mineira: branquinho, soltinho, enfeitado com salsinha. A salada também é por conta dela, que chama:
"- Benhê, está na mesa!"

8 - É servido?

09 janeiro, 2005

Do Sahara ao Oiapoque ou De como um Tuareg foi parar no Camelódromo

Caminhar pelo centro de Belo Horizonte, há algum tempo, era um exercício de malabarismo contorcionista, a driblar o enxame de camelôs que zumbiam ao redor de um milhão de barracas improvisadas.
[Camelô: - comerciante de artigos diversos, geralmente miudezas e bugigangas, que se instala provisoriamente em ruas ou calçadas, muitas vezes sem permissão legal, e costuma anunciar em voz alta sua mercadoria.]
Sempre imaginei que a origem da palavra "camelô" tivesse a ver com mercadores árabes, montados em camelos, a circular de oásis em oásis naquele areal do Sahara! Fantasiava aventuras das arábias, sob tempestades de areia! Já entreguei alfaias de seda para odaliscas que me recebiam com dança-do-ventre e me ofereciam tâmaras e favos de mel (isso existe?). Comercializei pedras preciosas -falsas, é lógico- para califas vaidosos... Virei tuareg!
Acordei: fui lá no
Houaiss: camelô é uma palavra criada aqui mesmo, ao sul do Equador, publicada pela primeira vez na Revista Careta, que circulou no Rio de Janeiro a partir do remoto ano de 1908. Embora a diferença entre camelo e camelô seja apenas um chapeuzinho circunflexo, a associação mais razoável seria com a palavra "mascate". Este foi o apelido dado aos comerciantes portugueses de Recife-PE pelos brasileiros de Olinda-PE. Aí entram na história os "mercadores árabes": Mascate era o nome de uma cidade da Arábia, de onde vieram alguns para o nordeste brasileiro.
As palavras nos fazem viajar!
Pressionada pela população expulsa das calçadas e pelos lojistas estabelecidos que pagam impostos estratosféricos, a Prefeitura de Belo Horizonte resolveu criar alguns "
shopppings populares", verdadeiros camelódromos. [Mais uma inspiração para meus sonhos das mil-e-uma-noites: se hipódromo é pista de cavalos, camelódromo seria pista de camelos, lógico!]
Alguns acham que foi uma decisão salomônica: agradou aos comerciantes e permitiu que os ambulantes mantivessem seu comércio de bugigangas, quinquilharias, produtos falsificados e, por incrível que pareça, sabidamente contrabandeados.
"A situação econômica não tá prá peixe, o desemprego cresce, a informalidade sustenta milhares de famílias", dizem.
O primeiro camelódromo oficial de Belo Horizonte é o Shopping Oiapoque, apelidado carinhosamente de
Shopping Oi. [abreviatura de Oiapoque].
A classe média empobrecida aderiu. Os abonados, idem. Um pouco envergonhados, alguns compram bolsas
Luis Vuitton e Victor Hugo, absolutamente falsas, "mas iguaizinhas às originais". O preço? "Deste tamaninho..." Já ouvi dizer de pessoas que vêm de longe, até mesmo de Nova York, com encomendas dessas peças, tão charmosas quanto falsas: "- O fake é chic", justificam!
No lugar de árabes de turbante e camelos esbeltos, os coreanos já tomam conta do pedaço. Em muitas lojas, denominadas "box" (= caixa), os vendedores são de origem asiática e alguns ainda nem falam o português.
Os preços variam de acordo com a aparência do comprador. Assim, a gente se fantasia de mais humilde: os homens vão com barba por fazer, bermudas, chinelos.... As madames tentam disfarçar o poder aquisitivo com roupas simples (o básico:
t-shirts e jeans). Mas não dá prá enganar...
Há de tudo: aparelhos de som, DVDs, máquinas digitais, roupas, jaquetas, ferramentas e, principalmente, bugigangas (que o sabe-tudo do Houaiss define como:
objetos de pouco ou nenhum valor ou utilidade; quinquilharias).
Pesquisei preços de câmeras digitais (não são falsas!) na Loja do Feio e constatei: realmente podem sair mais em conta. Aceita-se cartão bancário ou de crédito, etc... Nota fiscal e garantia?
No fio do bigode, amigo. Quem é antigo no meio bancário, conhece essa expressão, “no fio do bigode”. Ela expressa segurança, compromisso e garantia. Advém dos negócios fechados sem nada por escrito, só na palavra! Ah! bom!.
Se a fome apertar, vale uma visitinha ao
Café com Prosa, onde se devoram pão-de-queijo e pão-com-linguiça, acompanhados de cerveja, pinga, refri, sucos e... café, of course.
perigos e armadilhas.Mas para quem se imaginava tuareg atravessando o Sahara ou lutando na "Guerra dos Mascates", isso não é nada!
(Ah! se você viajou mais ainda e experimentou a receita de pão-de-queijo, no link ali atrás, então já tem o passaporte para a mineiridade. Me conte ou me mande uma dúzia. Quentinhos!)

Felicidade sem culpa

Outro dia, motivado pelo post de Allan, do Carta da Itália, falava eu de culpa... Também já escrevera acerca de felicidade. Para algumas pessoas, é impossível ser feliz e, quando experimentam prazer, alegria, leveza, acabam se perguntando: eu mereço isso? Olha a culpa aí!
O curitibano Felipe, do site/blog Cada um na sua, enviou-me os versos da música de Luiz Tatit, Felicidade, que, segundo ele, tem muito a ver com aquele meu post Felicidade plena é doença?.

FELICIDADE
Não sei porque eu tô tão feliz:
Não há motivo algum pra ter tanta felicidade!
Não sei o que que foi que eu fiz,
Se fui perdendo o senso de realidade.
Um sentimento indefinido
Foi me tomando ao cair da tarde:
Infelizmente era felicidade!
Claro que é muito gostoso
Claro que eu não acredito
Felicidade assim sem mais nem menos é muito esquisito...

Não sei porque eu tô tão feliz
Preciso refletir um pouco e sair do barato
Não posso continuar assim feliz
Como se fosse um sentimento inato
Sem ter o menor motivo
Sem uma razão de fato.
Ser feliz assim é meio chato
E as coisas nem vão muito bem:
Perdi o dinheiro que eu tinha guardado
E pra completar, depois disso,
Eu fui despedido e estou desempregado
No amor que sempre foi meu forte
Não tenho tido muita sorte
Estou sozinho, sem saída, sem dinheiro e sem comida
E feliz da vida!!!

Não sei porque eu tô tão feliz
Vai ver que é pra esconder, no fundo, uma infelicidade
Pensei que fosse por aí,
fiz todas terapias que há na cidade
A conclusão veio depressa e sem nenhuma novidade:
O meu problema era felicidade
Não fiquei desesperado, não, fui até bem razoável
Felicidade quando é no começo ainda é controlável

Não sei o que foi que eu fiz
Pra merecer estar radiante de felicidade
Mais fácil ver o que não fiz
Fiz muito pouca aqui pra minha idade
Não me dediquei a nada
Tudo eu fiz pela metade,
porque então tanta felicidade?
E dizem que eu só penso em mim,
que sou muito centrado
Que eu sou egoísta
Tem gente que põe meus defeitos em ordem alfabética
E faz uma lista
Por isso não se justifica tanto privilégio de felicidade
Independente dos deslizes dentre todos os felizes
Sou o mais feliz

Não sei porque eu tô tão feliz
E já nem sei se é necessário ter um bom motivo
A busca de uma razão me deu dor de cabeça, acabou comigo
Enfim, eu já tentei de tudo,
enfim eu quis ser conseqüente
Mas desisti, vou ser feliz pra sempre
Peço a todos com licença,
vamos liberar o pedaço
Felicidade assim desse tamanho
Só com muito espaço!

05 janeiro, 2005

Culpa sua!

O Allan, que nos brinda com textos perfeitos no seu Carta da Itália, fez um post interessantíssimo sobre a "necessidade de se achar um culpado".
A "Culpa" é o flagelo do ser humano, pois se acompanha, sempre, de auto-depreciação e auto-agressão. O culpado se sente desprezível e, mesmo pedindo perdão, reclama um castigo: "eu mereço, eu mereço". A punição pode vir do outro ou de si mesmo, o que alimenta a auto-agressão: às vezes explícita, quase sempre sub-reptícia, inconsciente (esquecimentos, adoecimentos, provocações que desencadeiam problemas, etc.).
Freud chega a colocar a culpa como um dos alicerces das neuroses, construído implacavelmente pelo que chamou de SuperEgo ("aquilo que está acima do eu"). Os sintomas neuróticos (ansiedade, angústia, obsessões) seriam manifestações dos desejos recalcados, escondidos, proibidos, intoleráveis ao Ideal que construímos para nós mesmos e, por isso mesmo, inconscientes.
Para a Psiquiatria, quem não experimenta culpa, não se arrepende dos mal-feitos, é um "psicopata", um "sociopata", um portador de "Transtorno de Personalidade Anti-Social".
Ou seja, apesar de tudo, ainda é mais saudável ter capacidade de sentir culpa e experimentá-la, razoavelmente...
Para minimizar o próprio sofrimento, entretanto, tendemos a "jogar a culpa no outro", "achar um culpado". Se dermos crédito ao Gênesis, tudo começou lá no Jardim do Éden, quando o Criador pegou Adão no flagra: "- Não foi culpa minha, Senhor, foi a Eva que me deu a maçã". Eva: "- Eu não! Eu não! foi a serpente..."
Lembram-se da fábula? Ao invés de assumir sua própria natureza, e devorar logo o cordeirinho, o lobo o acusa de sujar a água. "- Como? bebo abaixo de você, seu lobo!" Mas a fera ainda insiste: "- Se não foi você, foi seu pai". Hhac! Papou o inocente, mas liberou-se da culpa.
O mau aluno não resiste. Diante do fracasso, culpa o mestre: "- O fdp daquele professor me marcou, não sabe dar aulas e, ainda por cima, fez questões sobre o que não ensinou!"
E o cidadão, esquecendo-se de que votou (mal): "- A culpa é do governo!"
Conclusão: aqui estamos, neste vale de lágrimas, cavando o sustento com o suor de nossos corpos e parindo na dor... Bom, mas a culpa, mesmo, é do capeta. Ô diabo, sô!
[Pois é, meu comentário acabou virando um post... culpa sua, Allan!!!]

01 janeiro, 2005

Feliz 2006! Isso mesmo: 2006!

Com a posse dos novos prefeitos e vereadores, o calendário político já está em 2006. Alianças -quase sempre exdrúxulas- se costuram e todos prometem o que não pretendem cumprir. Todos, de olho na disputa pela presidência da República, tão longínqua quanto acirrada. Nas capitais, o desempenho dos alcaides será analisado, sempre, sob esse prisma.
Aqui em Belo Horizonte, um espanto: Fernando Pimentel (PT), que assumira o mandato em substituição ao Célio de Castro - doente - foi reeleito com 70% dos votos. Promete mundos e fundos, visando alcançar projeção nacional. Quer voar alto, o homem.
Nos municípios do interior, os grotões (expressão criada pelo falecido Tancredo Neves - aquele que foi presidente, sem nunca ter sido!), questiúnculas locais passam a ter colorido nacional. A briga pelo poder e pelas coligações beira o realismo fantástico. Os profissionais da política tratam de garantir alianças, propondo candidaturas, distribuindo cargos e favores. Articulam-se na surdina e os opositores de ontem podem ser os aliados de hoje, visando resultados amanhã. Tudo é muito fluido, o terreno é pantanoso, as brumas pouco deixam entrever da real intenção de velhas raposas e dos oportunistas recém eleitos.
Uma das mais perfeitas descrições dessa "política" no interiorzão do Brasil pode ser saboreada na prosa de Mário Palmério, ele próprio político do Triângulo Mineiro, conhecedor das mais incríveis malandragens e sujeiras que se possam imaginar.
Vila dos Confins, que "nasceu relatório, cresceu crônica e acabou romance", segundo definição do autor, é saboroso, curioso, minucioso. É um relato interessantíssimo da politicagem que "astravanca o progresso do país". Vale a leitura, mesmo sendo considerado obra menor, quando comparado ao monumental e clássico Capadão do Bugre.
Em "Vila dos Confins" a manipulação dos eleitores é a tônica e o poder dos coronéis é mantido às custas de compra de votos, ameaças, promessas, fraudes. Necessitando de um aliado na Câmara Municipal, o secretário de campanha convence o caboclo João Francisco de Oliveira a se candidatar à vereança. João era analfabeto, como a maioria da população. Pois o secretário Pé-de-Meia trata de ajudá-lo a desenhar a assinatura, para o requerimento de praxe:

"- Me dá licença, seu João. E pega no mãozão cascudo, pesado tal um caminhão de tora. Vai choferando a bicha, para cima e para baixo, caminhando com ela sobre o papel. O rasto fica: primeiro, a foice espigada do jota, depois a laçada bamba do ó; em seguida, mais duas voltas grandes, repassandas e atreladas uma á outra. Mas ainda falta o remate: o urubuzinho do til que Pé-de-Meia fez João Francisco desenhar, bem saliente, por cima do primeiro trecho da tremida assinatura. - Já varamos um bom eito. Vamos descansar um pouco: falta ainda o Francisco, falta o de Oliveira..."

Não é fácil o voto consciente. Pagamos o preço pela escuridão da ignorância. Se dispensamos alguém que nos cunduza o mãozão na hora do voto, cuidemos para que os marketeiros contratados a peso de ouro não nos façam a cabeça, conduzindo nossas mentes e corações com falsos argumentos, propagandas enganosas, promessas inviáveis. Portanto, já é hora de dizer: Feliz 2006!