23 dezembro, 2008

Jandira ou O Padre e a Moça

Aos 13 anos, Jandira saiu de Ponte Nova e veio morar com parentes em Belo Horizonte. Passou a residir na praça da igreja matriz de um bairro próximo ao centro, lugar ainda aprazível nos meados da década de 60.

Rapidamente envolveu-se nos chamados grupos de jovens da paróquia. Menina esperta e graciosa, entrosou-se com todos. Ao lado da igreja, os padres mantinham pequena gráfica onde imprimiam, além de folhetos litúrgicos, livros e revistas de sadia literatura, vidas de santos, calendários e impressos em geral.

Jandira, a pedido da tia, foi contratada pelo Padre Antero, conhecedor da disposição da menina. Ela estudava pela manhã, ali mesmo no bairro e, tão logo almoçava, já estava separando papéis, paginando e grampeando fascículos. Miudinha, esticava-se na ponta dos pés diante daquelas mesas que lhe pareciam altas, enquanto tagarelava com os outros funcionários.

Sábado à tarde acontecia o "grupo de jovens", no qual se combinavam passeios, atividades pastorais, barraquinhas, etc. Até viagem à praia fizeram! Uma aventura somente permitida porque o senhor padre acompanharia os rapazes e as moças. Foi quando Jandira conheceu o mar. Lembrança para nunca se perder.

A menina se transformou em moça, vigiada pela tia zelosa. Dentro do espírito de
aggiornamento do Concílio Vaticano II, o próprio vigário patrocinava, ocasionalmente, uma Hora Dançante no pátio interno da casa paroquial. O som era garantido pelas primeiras bandas-de-garagem surgidas em Belo Horizonte. Guitarras estridentes embalaram muitos namoros e flertes com as baladas dos Beatles e do romântico The Mamas and Papas...

A moça Jandira era comunicativa e adorava conversar com o padre Antero, a quem chamava de Tio. Eram conversas alegres, despretenciosas, sem maldade. Certa vez, organizou-lhe uma despedida, designado que fora para um curso especial de Teologia, em Roma. Nem bem o padre viajara e o carteiro passou a entregar, semanalmente, cartões postais vindos da Europa, exibidos orgulhosamente para toda a família e para os amigos. Um privilégio só dela, pois a mais ninguém o padre escrevia.

No dia de seus 20 anos, chega um pacote cheio de selos e carimbos, direto de Roma, par avion.
-Gente, exclamou, o tio lembrou-se de meu aniversário!
Rodeada de amigos e parentes, desembrulhou cuidadosamente a encomenda. Um cartão trazia as mais lindas palavras de Feliz Aniversário, lidas e relidas para todos, atentíssimos. Havia, ainda, duas pequenas caixas. Na primeira, um xale de seda, multicolorido - "a coisa mais linda que já vi". O que haveria no outro?
-Olha, gente, é uma camisola!
Ouviu-se um longo "Ohhhh!". Ali, em suas mãos alvas e trêmulas, cintilava minúscula lingerie vermelha, de seda pura, finíssima, de ótimo gosto, coisa nunca vista!
-Ohhhh!, o padre Antero lhe enviou isto?, exclamou a tia.
Jandira, inocente, não percebeu qualquer insinuação por parte dos outros, simplesmente se emocionava com o carinho que lhe devotava o Tio Antero. Nem lhe passou pela cabeça qualquer sentido além da pura amizade e dedicação de um pastor por uma humilde ovelha...

O sacerdote chegou algumas semanas depois e logo Jandira foi dar as boas vindas e agradecer tantos cartões e presentes. Padre Antero abraçou-a efusivamente. Ao ficarem a sós, disse-lhe:
-Jandira, vim para casar-me com você!
A moça deixou escapar um riso solto, quase uma gargalhada:
-Que isso, tio? O senhor é padre!. (Não conseguia parar de rir).
-Eu vou me casar com você, estou dizendo, nós vamos nos casar!

Foi aí que a moça se deu conta de que ele falava sério. Tomou o maior susto de sua vida, pois nunca imaginara que aquele homem 35 anos mais velho, ainda mais um padre, se interessasse por ela. Nem ela mesma jamais sentira qualquer atração pelo vigário.

Atordoada, atravessou a pracinha já decidida a voltar imediatamente para Ponte Nova. Largou tudo: escola, emprego, amigos. Pai e mãe, católicos tradicionais, a receberam com uma chuva de recriminações. Pouco a pouco
, como a calmaria sucede as tempestades, o assunto se extinguiu, instaurou-se a rotina e namorados se sucederam na vida daquela mocinha.

Um ano se passou.
Era o mês de maio. O céu do domingo estalava de azul, enquanto o sol aquecia o vale do Rio Piranga. Jandira estendia roupas no varal do terraço quando percebeu um movimento incomum de automóveis. Contou cinco carros dos quais desciam pessoas que nunca vira. No meio delas, reconheceu o padre Antero, sem batina! Coração aos pulos, desce correndo e já encontra a comitiva sendo recebida pelo seu pai. A mãe, lá dos fundos, vem enxugando as mãos no avental. Ninguém entendia nada de nada. Todos falavam alto. No meio daquele alvoroço, o irmão do padre diz:
-Viemos para o noivado!
Padre Antero se adianta e
, solenemente, declara ao pai da Jandira:
-Estou aqui para pedir a mão de sua filha em casamento. Consegui que o Papa me dispensasse dos sagrados votos do sacerdócio e meu Bispo já me liberou. Os papéis estão aqui.
Apresentou um documento da Cúria Romana, timbrado com a Mitra Papal, onde se liam palavras em Latim. Em seguida, abre uma caixa minúscula, forrada de veludo vermelho:
-Para demonstrar a seriedade de minha proposta, eis as alianças. Vieram meus irmãos, minhas irmãs e alguns paroquianos como testemunhas.
O pai gaguejou qualquer coisa, esticando os beiços para os lados de Jandira:
-Isso é ela quem resolve.
Diante de todos, o agora ex-padre se aproxima da moça:
-Não falei que iria casar-me com você?

Apesar das advertências dos parentes, pais e amigos que vaticinavam futuras desavenças, desentrosamento entre cônjuges com tamanha diferença de idade e discriminação social, celebra-se o casório vinte dias depois, numa capela de Belo Horizonte. O fato era tão extraordinário que uma emissora de rádio perseguiu o carro da noiva, na tentativa de cobrir a cerimônia, ao vivo.

Casaram-se e tiveram três filhos.

. . .

Outro dia, aos 89 anos, faleceu o ex-padre Antero.
-Ele sempre me amou muito. Aprendi a gostar dele depois do casamento, pois nem namorar a gente namorou, diz-me Dona Jandira. Agora estou só, como é triste a solidão... Nós nos amávamos tanto!
____________________
Essa história é verídica. Republiquei-a com os comentários anteriores, pois há novidades no ar. Depois eu conto.

Nenhum comentário: