22 novembro, 2005

Cultuar o corpo: desafio para a "mulher-de-meia-idade"

Quando se fala em culto ao corpo, pensa-se logo no massacre que as mulheres adultas sofrem diante dos modelos de beleza e saúde propostos pela mídia. Tudo gira em torno da beleza física, em detrimento de outros valores.

Há uma verdadeira enxurrada de publicações, out-doors, propagandas televisas e espetáculos do show business nos quais os corpos jovens, magros, belíssimos são presença constante em todos os veículos de comunicação.

O mundo das aparências e do espetáculo para o qual as mulheres são convidadas a participar, sob pena de não serem reconhecidas como "pessoas existentes" é cruel. Basta acompanhar a "troca" das beldades expostas nas capas das revistas "masculinas": a cada mês surgem novas divas da beleza, classificadas sempre como "a mulher mais sexy do mundo"... Algumas semanas depois e nem nos lembramos mais de quem foi a capa da Playboy anterior: vem aí nova edição, e mais outra. Tudo descartável.

Na Revista de Cirurgia Plástica Estética (Aesthetic Plastic Surgery) de outubro/2004 os cirurgiões plásticos mexicanos Ramon Cuenca-Guerra e Jorge Quezada descrevem 5 tipos de defeitos nas "bundas" femininas e se propõem a consertá-las para obter "volume e projeção proporcionais ao resto do corpo". Nome do artigo: O que torna um traseiro bonito? (What makes buttocks beautiful?)

Criou-se um mercado bilionário, quase um shopping a vender consertos por meio de tecnologia médica, quer seja por depilação a laser, injeções de botox, liftings químicos e cirúrgicos da face/pescoço, quer seja por correções do nariz, implantes de mama, cirurgia para correção da região glútea e lipoaspiração.

Aquilo que seria a evolução natural da natureza tem sido visto como defeito a ser consertado, a partir de um modelo de normalidade baseado na aparência das adolescentes em flor.

Deve-se reconhecer, é lógico, que alguns pressupostos do que chamamos culto ao corpo têm imenso valor na qualidade de vida de todos: alimentação saudável e exercícios físicos como fatores de melhor qualidade de vida. A manutenção e conquista de um corpo saudável é mesmo de uma necessidade contemporânea, em face do sedentarismo e sobrepeso de grande número de pessoas. Mas esse argumento sucumbe diante dos imperativos da beleza.

As mulheres adultas - "mulheres-de-meia-idade" (seja lá o que isso quer dizer) - estão vivendo preocupações excessivas com dietas e cirurgias plásticas.

Pode parecer preocupação descabida numa sociedadade tão desigual, em que grande parte dos cidadãos vive abaixo da linha de pobreza e não se podem dar ao luxo de escolher o que comer.

Entretanto...

Existe, já, um problema de saúde pública, epidemiologicamente importante, com os seguintes indicadores:

Aproximadamente 43 milhões de mulheres adultas, nos Estados Unidos, estão fazendo dieta para perder peso em algum dado momento; outros 26 milhões estão fazendo dieta para manter o peso. A insatisfação com a imagem corporal na meia-idade aumentou dramaticamente, mais do que duplicou, de 25%, em 1972, para 56%, em 1997.

• Quando perguntadas sobre o que as incomoda em seu corpo, um grupo de mulheres, com idades de 61 a 92 anos, identificou o peso como a maior preocupação;
• Mais de 20% das mulheres com 70 anos ou mais estavam fazendo dieta, embora o peso mais alto traga um risco mais baixo de morte naquela idade e a perda de peso possa realmente ser prejudicial;
• em 2003, um terço das internações em centro de tratamento especializado para transtornos alimentares era de mulheres com mais de 30 anos de idade;
• Sessenta por cento das mulheres adultas se envolvem em controle patológico do peso;
- 40% restringem sua alimentação;
- 40% comem em demasia;
- somente 20% são “comedoras” instintivas;
- 50% dizem que sua alimentação é desprovida de prazer e lhes causa sentimento de culpa;

Esses dados demonstram que "a pressão para buscar o corpo perfeito persiste funcinando para distrair as mulheres de questões mais significativas da vida".


As consequências danosas são detectadas no aumento de doenças relacionadas com a auto-estima, ao humor (depressão) e ao relacionamento interpessoal. Já se pode falar numa "crise da meia idade" análoga à "crise da adolescência". As mulheres enfrentam desafios novos:
- competição pelo mercado de trabalho;
- desempenho concomitante das tarefas tradicionalmente femininas;
- realização da pulsão sexual (como se manter sedutora? como despertar o desejo masculino?).

Reduz-se, cada vez mais, a questão da qualidade de vida (saúde plena, paz emocional) para a questão da aparência.

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