30 janeiro, 2006

Alcione Araújo: O ponto a que chegamos


Alcione Araújo é quem conta este caso, em sua crônica de hoje no jornal Estado de Minas (link disponível só para assinantes):

Dia desses, no cinema – o verão no balneário Rio de Janeiro é um carnaval de etnias, cores, gêneros e idiomas sob canícula senegalesa que, para muitos, só o cinema refresca –, o filme ia a meio, quando soou algum celular. À frente, a voz feminina, com sotaque, digamos, não carioca, para não estigmatizar, foi ouvida por toda a sala: “Oi. Ainda tá na praia? Esperei, amor, juro! Ninguém pintou. Três horas vim pro cinema refrescar. Sei lá, um filme besta, tô sacando nada.”
O volume da voz e a espontaneidade das falas davam a impressão de que, embora longe da torrão natal, ela sentia-se em casa, quem sabe no banheiro, no quintal ou no curral: lixava-se para as centenas de espectadores – eu entre eles – interessados no que o filme fala do homem e do mundo, alheios ao desencontro dela com o seu amor. Logo, ouviram-se vários shhhhhs na platéia. Aos arrufos, ela seguiu a conversa. A tolerância da platéia se esgotou e surgiram gritos: “Desliga essa p...! Cala a boca! Quero ver o filme!” Inacreditável, mas ela seguiu na conversação.


De repente, uma senhora levantou-se indignada da fila atrás de mim e marchou até a poltrona da falastrona, arrancou-lhe da mão o celular e voltou na penumbra do corredor: “Essa tecnologia é pra quem tem educação. Vou entregar seu brinquedo na bilheteria. Pegue na saída.” A platéia aplaudiu. A moça ergueu-se aos gritos: “Me dá esse telefone! Devolve meu celular! Você não tem o direito! Isso é meu, sua ladra! Polícia, Polícia!” Parte da platéia vaiou-lhe, outra parte aplaudiu a senhora. No escuro, todos os gritos são pardos: “Telefona da rua! Expulsa! Chama a polícia! Cala a boca! Eu paguei pra ver filme, pô!” Uma voz de bêbado rosnava ao fundo: “Exsfola! Exscalpela! Exstupra!” Ela, então, perdeu o controle e soltou a desastrada carteirada: “Vocês não sabem com quem estão falando. Meu pai é autoridade! Sou filha do deputado fulano de tal.” E em passos ágeis e gesto preciso, sacou o celular da mão da senhora: “Isso é meu, sua perua!” festejou triunfante, de volta ao seu lugar.

Em súbita e coletiva reação, o cinema, tomado de cólera, vaia e grita: “Fora! Piranha! Rua! Filha de ladrão ganha mensalão! Vagabunda!” Alguns sobem nas cadeiras. O rapaz salta feito gato em telhado e, num gesto mais ágil, retoma o telefone: “É teu? Teu pai é deputado? Então vá pegar seu celular!” – com violência, atira o aparelho contra a parede. A projeção é interrompida, luzes se acendem. Espectadores furiosos a cercam aos gritos: “Mensalão, mensalão, filha de ladrão, recebe mensalão!” A moça recua em pânico, quando a providencial turma do deixa disso acalma a turba e retira-a da sala, aos prantos. O projecionista teve o bom senso de reiniciar logo o filme.

Eis o ponto a que chegamos. Nem sei o que dizer. Talvez seja o caso de os políticos e seus familiares evitarem ostentações e confrontações, serem mais discretos, quem sabe até usar disfarces – cautelas que os ladrões sempre observam.

Alcione Araújo escreve publica suas crônicas no Estado de Minas, sempre às segundas.
Algumas obras publicadas:
NEM MESMO TODO O OCEANO (1998, Record)
SIMULAÇÕES DO NAUFRÁGIO – VOL I (1999, Civilização Brasileira)
VISÕES DO ABISMO – VOL II (1999, Civilização Brasileira)
METAMORFOSES DO PÁSSARO – VOL. III (1999, Civilização Brasileira)
URGENTE É A VIDA (2004, Record)
A PALAVRA AMEAÇADA (no prelo, Record)

[A ilustração deste post foi feita por Alexandre, do EM, e acompanha a crônica de hoje].

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