16 maio, 2006

Da violência

A violência é inerente ao ser humano (se não se educa uma inocente criancinha, ela já será insuportável!). Educar talvez seja um ato de violência...

- Anh?
- Lembra-se do "Mal estar na civilização", de Freud?
- Ah! vou ler.
- Tá nas Obras Completas dele, vai lá.

A história da violência (violência = uso da força) se confunde, pois, com a história do ser humano. Já no primeiro livro bíblico, aprendemos que os filhos de Adão e Eva se envolveram numa briga, por ciúmes: Caim, não suportando o que ele interpretou como preferência divina por Abel (já que a fumaça de seus sacrifícios -ao cremar as oferendas- subia em linha reta para o céu) deu cabo de seu único irmão.

Tá bom, isso pode ser apenas uma lenda judaica, mas serve de paradigma: se mesmo os irmãos de sangue brigam e se matam, quem não será capaz matar? Assassinatos ocorrem em nome do amor... Guerreiros executam inimigos em nome da pátria... A polícia mata defendendo a legalidade... A Igreja, o Islã, o Protestante, todos mataram e ainda o fazem em nome da Fé... (Diz-se que as motivações religiosas já foram responsáveis por matanças mais numerosas do que todas as guerras por território!) E matam em nome-de-Deus!

Existem casos de homicídio, parricídio, filicídio, etc. A maioria dos casos de abuso sexual e violência física contra crianças acontece dentro de casa, por uma parente!!!

Quando ficamos com raiva de alguém, dizemos: "Fulano morreu prá mim!", ou seja: Eu o matei

A raiva mobiliza os impulsos agressivos (normais, naturais e necessários à sobrevivência) e há uma identificação com o agressor: prega-se a violência contra o bandido, já que ele é ou foi violento contra a sociedade. Daí a Lei do Talião: "olho por olho, dente por dente".

Para controlar a violência inerente ao ser humano a própria humanidade tem se esforçado desde tempos imemoriais. Na antiga Mesopotâmia, criou-se o primeiro código legislativo de que se tem notícia: o famoso Código de Hamurabi (meu irmão Bonifácio e minha filha Ana Letícia podem dar aulas sobre isso).

Muitos confundem "violência" com "agressividade".
Violência é o uso da força (geralmente o termo é empregado quando se trata de abuso do mais forte sobre o mais fraco - mesmo que seja mais forte psiquicamente (violência psicológica), mais forte porque se tem mais dinheiro, mais forte porque se tem mais poder, mais forte por se sabe mais, mais forte porque se é mais esperto, etc.). A violência é um ato de poder.

Já "agressividade" significa "caminhar com esforço em direção a".
- Como?
- É, vem do Latim: ad+gredere.
- Anh...

Assim, alguém que busca com determinação conquistar determinado objetivo está sendo "agressivo" - no bom sentido.

Pessoas que não exercem sua capacidade de agredir geralmente são frouxas, bananas, não buscam o que querem.
- No bom sentido, né?
- É.

A violência pode ser exercida através de atos agressivos - no mau sentido, agora - mas também pode ser sutil, disfarçada, travestida de bondade. Os psicopatas sabem como fazer isso muito bem.

A civilização humana se erigiu sempre pela violência: guerras de conquistas, espoliação dos vencidos, invasões de territórios, negação dos direitos humanos. Assistimos a "construção" da civilização diariamente nos noticiários. Aprendemos isso, pois este é nosso caldo de cultura.

- Alguém conhece um jeito diferente?
- Difícil.
- Eu também acho.
- Sonhar não custa...
- Tá bom, ciao!

Nenhum comentário: