18 setembro, 2006

Filosofia pura

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Sim, sou fílósofo!

Formei-me pela Faculdade de Filosofia, a Fafich-UFMG, quando ainda funcionava na Rua Carangola. Foi lá que descobri minha vocação médica/psiquiátrica/psicanalítica.
- Como assim? perguntará o incrédulo leitor.
- Explico. Dentre as disciplinas, a gente estudava: Ética, Estética, Lógica, História da Filosofia e... Psicologia!

Na verdade, não se tratava da Psicologia dos cursos específicos, pois não discutíamos clínica nem teorias psicológicas. O que nos interessava - do ponto de vista filosófico - era a discussão acerca das funções psíquicas, teoria do conhecimento (epistemologia), dos atributos da alma (psiché) e coisas que tais.

Tinha um colega que era psicanalista. As discussões eram interessantíssimas. Comecei a ler Freud, Karen Horney e outros freudianos. Aí, deu-se o curto-circuito: que filósofo que nada, quero ser psiquiatra e psicanalista.

Formado, busquei passar em outro vestibular. Entrei na Medicina-UFMG, fiz estágios em clínicas psiquiátricas, submeti-me à análise, especializei-me em psiquiatria... enfim, uma trajetória da qual não me arrependo.

Aprendi muito. Principalmente, duas coisas:

1)
Conheça-te a ti mesmo. Aforisma inscrito na entrada do Templo de Apolo e tomada por Sócrates como norteador da vida.
2)
Mantenha o bom humor. Melanie Klein dizia: quando o paciente ri de si mesmo já está no caminho da cura.

Pois, então, vamos filosofar com humor, pois brincadeiras também nos fazem pensar.
Por isso publico um spam recebido de meu amigo João Bosco, outro filósofo.
Autor? Não sei. Fica registrado o copy&paste.

Por que o sapo não lava o pé?

Olavo de Carvalho: O sapo não lava o pé. Não lava porque não quer. Ele
mora lá na lagoa, não lava o pé porque não quer e ainda culpa o
sistema, quando a culpa é da PREGUIÇA. Este tipo de atitude é que
infesta o Brasil e o Mundo, um tipo de atitude oriundo de uma complexa
conspiração moscovita contra a livre-iniciativa e os valores humanos
da educação e da higiene!

Marx: A lavagem do pé, enquanto atividade vital do anfíbio,
encontra-se profundamente alterada no panorama capitalista. O
sapo,
obviamente um proletário, tendo que vender sua força de trabalho para
um sistema de produção baseado na detenção da propriedade privada
pelas classes dominantes, gasta em atividade produtiva alienada o
tempo que deveria ter para si próprio. Em conseqüência, a miséria
domina os campos, e o
sapo não tem acesso à própria lagoa, que em
tempos imemoriais fazia parte do sistema comum de produção.

Engels: isso mesmo.

Foucault: Em primeiro lugar, creio que deveríamos começar a análise do
poder a partir de suas extremidades menos visíveis, a partir dos
discursos médicos de saúde, por exemplo. Por que deveria o
sapo lavar
o pé? Se analisarmos os hábitos higiênicos e sanitários da Europa no
século XII, veremos que os sapos possuíam uma menor preocupação em
relação à higiene do pé - bem como de outras áreas do corpo. Somente
com a preocupação burguesa em relação às disciplinas - domesticação do
corpo do indivíduo, sem a qual o sistema capitalista jamais seria
possível - é que surge a preocupação com a lavagem do pé. Portanto,
temos o discurso da lavagem do pé como sinal sintomático da sociedade
disciplinar.

Weber: A conduta do sapo só poderá ser compreendida em termos de ação
social racional orientada por valores. A crescente racionalização e o
desencantamento do mundo provocaram, no pensamento ocidental, uma
preocupação excessiva na orientação racional com relação a fins. Eis
que, portanto, parece absurdo à maior parte das pessoas o
sapo não
lavar o pé. Entretanto, é fundamental que seja compreendido que, se o
sapo não lava o pé, é porque tal atitude encontra-se perfeitamente
coerente com seu sistema valorativo - a vida na lagoa.

Nietzsche: Um espírito astucioso e camuflado, um gosto anfíbio pela
dissimulação - herança de povos mediterrâneos, certamente - uma
incisividade de espírito ainda não encontrada nas mais ermas
redondezas de quaisquer lagoas do mundo dito civilizado. Um animal
que, livrando-se de qualquer metafísica, e que, aprimorando seu
instinto de realidade, com a dolcezza audaciosa já perdida pelo
europeu moderno, nega o ato supremo, o ato cuja negação configura a
mais nítida - e difícil - fronteira entre o
Sapo e aquele que está por
vir, o Além- do-
Sapo: a lavagem do pé.

Filmer: Podemos ver que, desde a época de Adão, os sapos têm lavado os
pés. Aliás, os seres, em geral, têm lavado os pés à beira da lagoa.
Sendo o
sapo um descendente do sapo ancestral, é legítimo, obrigatório
e salutar que ele lave seus pés todos os dias à beira do lago ou
lagoa. Caso contrário, estará incorrendo duplamente em pecado e
infração.

Locke: Em primeiro lugar, faz-se mister refutar a tese de Filmer sobre
a lavagem bíblica dos pés. Se fosse assim, eu próprio seria obrigado a
lavar meus pés na lagoa, o que, sustento, não é o caso. Cada súdito
contrata com o Soberano para proteger sua propriedade, e entendo
contido nesse ideal o conceito de liberdade. Se o
sapo não quer lavar
o pé, o Soberano não pode obrigá-lo, tampouco recriminá-lo pelo chulé.
E ainda afirmo: caso o Soberano queira, incorrendo em erro, obrigá-lo,
o
sapo possuirá legítimo direito de resistência contra esta
reconhecida injustiça e opressão.

Kant: O sapo age moralmente, pois, ao deixar de lavar seu pé, nada faz
além de agir segundo sua lei moral universal apriorística, que
prescreve atitudes consoantes com o que o sujeito cognoscente possa
querer que se torne uma ação universal.
Nota de Freud: Kant jamais lavou seus pés.

Freud: Um superego exacerbado pode ser a causa da falta de higiene do
sapo. Quando analisava o caso de Dora, há vinte anos, pude perceber
alguns dos traços deste problema. De fato, em meus numerosos estudos
posteriores, pude constatar que a aversão pela limpeza, do mesmo modo
que a obsessão por ela, podem constituir-se num desejo de autopunição.
A causa disso encontra-se, sem dúvida, na construção do superego a
partir das figuras perdidas dos pais, que antes representavam a fonte
de todo conteúdo moral do girino.

Jung: O mito do sapo do deserto, presente no imaginário semita, vem a
calhar para a compreensão do fenômeno. O inconsciente coletivo do
sapo, em outras épocas desenvolvido, guardou em sua composição mais
íntima a idéia da seca, da privação, da necessidade. Por isso, mesmo
quando colocado frente a uma lagoa, em época de abundância, o
sapo não
lava o pé.

Kierkegaard: O sapo lavando o pé ou não, o que importa é a existência.

Hegel: podemos observar na lavagem do pé a manifestação da Dialética.
Observando a História, constatamos uma evolução gradativa da
ignorância absoluta do
sapo - em relação à higiene - para uma
preocupação maior em relação a esta. Ao longo da evolução do Espírito
da História, vemos os sapos se aproximando cada vez mais das lagoas,
cada vez mais comprando esponjas e sabões. O que falta agora é, tão
somente, lavar o pé, coisa que, quando concluída, representará o fim
da História e o ápice do progresso.

Comte: O sapo deve lavar o pé, posto que a higiene é imprescindível. A
lavagem do pé deve ser submetida a procedimentos científicos universal
e atemporalmente válidos. Só assim poder-se-á obter um conhecimento
verdadeiro a respeito.

Schopenhauer: O sapo cujo pé vejo lavar é nada mais que uma
representação, um fenômeno, oriundo da ilusão fundamental que é o meu
princípio de razão, parte componente do principio individuationis, a
que a sabedoria vedanta chamou "véu de Maya". A Vontade, que o velho e
grande filósofo de Königsberg chamou de Coisa-em si, e que Platão
localizava no mundo das idéias, essa força cega que está por trás de
qualquer fenômeno, jamais poderá ser capturada por nós, seres
individuados, através do princípio da razão, conforme já demonstrado
por mim em uma série de trabalhos, entre os quais o que considero o
maior livro de filosofia já escrito no passado, no presente e no
futuro: "O mundo como vontade e representação".

Aristóteles: O [sapo] lava de acordo com sua natureza! Se imitasse,
estaria fazendo arte . Como [a arte] é digna somente do homem, é
forçoso reconhecer que o
sapo lava segundo sua natureza de sapo,
passando da potência ao ato. O
sapo que não lava o pé é o ser que não
consegue realizar [essa] transição da potência ao ato.

Platão:
Górgias: Por Zeus, Sócrates, os sapos não lavam os seus pés porque não
gostam da água!
Sócrates: Pensemos um pouco, ó Górgias. Tu assumiste, quando há pouco
dialogava com Filebo, que o
sapo é um ser vivo, correto?
Górgias: Sou forçado a admitir que sim.
Sócrates: Pois bem, e se o
sapo é um ser vivo, deve forçosamente fazer
parte de uma categoria determinada de seres vivos, posto que estes
dividem-se em categorias segundo seu modo de vida e sua forma
corporal; os cavalos são diferentes das hidras e estas dos falcões, e
assim por diante, correto?
Górgias: Sim, tu estás novamente correto.
Sócrates: A característica dos sapos é a de ser habitante da água e da
terra, pois é isso que os antigos queriam dizer quando afirmaram que
este animal era anfíbio, como, aliás, Homero e Hesíodo já nos atestam.
Tu pensas que seria possível um
sapo viver somente no deserto, tendo
ele necessidade de duas vidas por natureza,ó Górgias?
Górgias: Jamais ouvi qualquer notícia a respeito.
Sócrates: Pois isto se dá porque os sapos vivem nas lagoas, nos lagos
e nas poças, vistos que são animais, pertencem e uma categoria, e esta
categoria é dada segundo a característica dos sapos serem anfíbios.
Górgias: É verdade.
Sócrates: precisando da lagoa, ó Górgias meu caro, tu achas que seria
o
sapo insano o suficiente para não gostar de água?
Górgias: não, não, não, mil vezes não, Ó Sócrates!
Sócrates: Então somos forçados a concluir que o
sapo não lava o pé por
outro motivo, que não a repulsa à água
Górgias: de acordo

Diógenes, o Cínico: Dane-se o sapo, eu só quero tomar meu sol.

Parmênides de Eléia: Como poderia o sapo lavar os pés, ó deuses, se o
movimento não existe?

Heráclito de Éfeso: Quando o sapo lava o pé, nem ele nem o pé são mais
os mesmos, pois ambos se modificam na lavagem, devido à impermanência
das coisas.

Epicuro: O sapo deve alcançar o prazer, que é o Bem supremo, mas sem
excessos. Que lave ou não o pé, decida-se de acordo com a
circunstância. O vital é que mantenha a serenidade de espírito e fuja
da dor.

Estóicos: O sapo deve lavar seu pé de acordo com as estações do ano.
No inverno, mantenha-o sujo, que é de acordo com a natureza. No verão,
lave-o delicadamente à beira das fontes, mas sem exageros. E que pare
de comer tantas moscas, a comida só serve para o sustento do corpo.

Descartes: nada distingo na lavagem do pé senão figura, movimento e
extensão. O
sapo é nada mais que um autômato, um mecanismo. Deve lavar
seus pés para promover a autoconservação, como um relógio precisa de
corda. Diria, até: lavo o pé, logo sou.

Maquiavel: A lavagem do pé deve ser exigida sem rigor excessivo, o que
poderia causar ódio ao Príncipe, mas com força tal que traga a este o
respeito e o temor dos súditos. Luís da França, ao imperar na Itália,
atraído pela ambição dos venezianos, mal agiu ao exigir que os sapos
da Lombardia tivessem os pés cortados e os lagos tomados caso não
aquiescessem à sua vontade. Como se vê, pagou integralmente o preço de
tal crueldade, pois os sapos esquecem mais facilmente um pai
assassinado que um pé cortado e uma lagoa confiscada.

Rousseau: Os sapos nascem livres, mas em toda parte coaxam
agrilhoados; são presos, é certo, pela própria ganância dos seus
semelhantes, que impedem uns aos outros de lavarem os pés à beira da
lagoa. Somente com a alienação de cada qual de seu ramo ou touceira de
capim, e mesmo de sua própria pessoa, poder-se-á firmar um contrato
justo, no qual a liberdade do estado de natureza é substituída pela
liberdade civil.

Horkheimer e Adorno: A cultura popular diferencia-se da cultura de
massas, filha bastarda da indústria cultural. Para a primeira, a
lavagem do pé é algo ritual e sazonal, inerente ao grupamento
societário; para a segunda, a ação impetuosa da razão instrumental, em
sua irracionalidade galopante, transforma em mercadoria e modismo a
lavagem do pé, exterminando antigas tradições e obrigando os sapos a
um procedimento diário de higienização.

Gramsci: O sapo, e além dele, todos os sapos, só poderão lavar seus
pés a partir do momento em que, devido à ação dos intelectuais
orgânicos, uma consciência coletiva principiar a se desenvolver
gradativamente na classe batráquia. Consciência de sua importância e
função social no modo de produção da vida. Com a guerra de posições -
representada pela progressiva formação, através do aparato ideológico
da sociedade civil, de consensos favoráveis- serão criadas
possibilidades para uma nova hegemonia, dessa vez sob a direção das
classes anteriormente subordinadas.

Bobbio: existem três tipos de teoria sobre o sapo não lavar o pé. O
primeiro tipo aceita a não-lavagem do pé como natural, nada existindo
a reprovar nesse ato. O segundo tipo acredita que ela seja moral ou
axiologicamente errada. A terceira espécie limita-se a descrever o
fenômeno, procurando uma certa neutralidade.

Cláudio Costa: o sapo não lava os pés. Ele não tem pés, tem patas.

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