26 junho, 2008

Uma noite das Arábias


Recebemos a visita do Thiago, de Canis Familiaris, aqui em casa. Vocês sabem, blogueiro conhece blogueiro e o Thiago logo se lembrou de uma história que contei há uns 3 anos, verídica em todos os detalhes. Em sua homenagem, já que ele é de Teresópolis, republico o post:

Iniciamos a viagem de volta a Belo Horizonte e nos despedimos do litoral norte do Estado do Rio. Foram 6 dias entre Rio das Ostras, Barra de São João, Búzios e Cabo Frio.
Amélia e eu resolvemos passar a quinta e a sexta em Teresópolis. Deixamos para trás a baixada fluminense, após derivarmos à direita, na Via Lagos, via Itaboraí, depois Guapimirim, já no entroncamento com a BR-116, no sopé da Serra dos Órgãos.

Daí, serpenteamos serra acima, por entre penhascos, à sombra da Mata Atlântica, em sua exuberância preservada (pena que dela reste tão pouco!). A cidade recebeu o nome Teresópolis - cidade da Teresa - em homenagem à D. Teresa Cristina, esposa de D. Pedro II. Este já havia criado a vizinha Petrópolis - a qual nomeou com seu próprio nome. Coisas do Imperador...
À chegada, um mirante nos proporciona o espetacular panorama do famoso "Dedo de Deus" e de outros picos. Dali, descortina-se, lá embaixo, parte da cidade do Rio de Janeiro e da baía da Guanabara (à noite, as luzes brilham como num céu estrelado, só que aos nossos pés!).

Ao anoitecer, buscamos a pousada que a mocinha do bureau de turismo nos recomendara. Por sorte, ficava bem próxima do mirante.

As trevas já encobriam florestas e montes quando, orientados por uma placa, adentramos uma alameda de paralelepípedos em curva ascendente, rumo a uma casa enorme, totalmente às escuras. Nenhum carro no estacionamento, nenhuma alma viva.
Silêncio absoluto.
Hesitamos um pouco até que estacionamos.
- Parece casa abandonada, foi o comentário da Amélia.
- É, acho que não tem ninguém aí, vou verificar, murmurei.

Um balcão, com aqueles aparelhos de cartão de crédito, era o único mobiliário do que deveria ser a recepção... Entramos devagarinho, ressabiados. Descobri um interruptor e a luz se fez, revelando um vulto a descer silenciosamente uma escada de madeira: era franzino, de tez amorenada, olhos vivos.

O diálogo iniciou-se quase que por monossílabos, enquanto nos sondávamos mutuamente.
Amélia, eu e o sujeito:
- Boa noite, vamos entrar?
- Isto aqui é a pousada?
- Sim, subam para conhecer.
- No escuro?
- Vou acender.
- Onde está o proprietário?
- Sou eu.
- E os hóspedes?
- Chegam amanhã, já tive 14 telefonemas...
- E os empregados?
- Moro aqui. Sozinho.
- ?
- É minha. Moro aqui.

A sala de cima era enorme, com lareira, sofás. Tudo muito amplo. Nossas vozes ecoavam e os passos escandiam as poucas palavras. O sotaque do moço era nitidamente estrangeiro.
- De onde é você?
- Líbano.
- Um sheik árabe? Um magnata do petróleo? tentei brincar, para quebrar o clima ainda tenso.
A resposta foi contida e séria:
- Não, não, nada disso. Minha família está no Líbano. Moro aqui há algum tempo e resolvi abrir minha casa como pousada. Abri em janeiro, mas não apareceu ninguém para se hospedar. Somente agora, em junho, com a temporada de inverno, descobriram aqui. Primeiro, um casal. Depois, outro. Amanhã, como já disse, estaremos lotados.

Os quartos eram amplos, decorados sobriamente. Os cobertores sobre as camas, porém, destoavam de tão coloridos, com estampas florais.
Enquanto o libanês se afastou para buscar a chave de um dos cômodos, Amélia sussurou:
- Benzinho, isso aqui parece a pousada do filme "Psicose", do Hitchcock. O homem parece o Anthony Perkins...

A impressão dela quase se concretizou diante da cortina de plástico no box do banheiro, tal e qual. Agora só faltava o facão!!! [Com efeito, na minha cabeça, revi as cenas do mais famoso filme de Alfred Hitchcock, no qual uma jovem foge com o dinheiro da imobiliária onde trabalha e planeja encontrar o namorado, que mora em outra cidade, mas interrompe a viagem para dormir num velho motel administrado por um estranho rapaz (o psicótico Norman Bates) e sua mãe.]

Seria aquele homem uma réplica de Anthony Perkins? Um clone do perturbado Norman Bates? Esta "velha casa escura", transformada em pousada, não seria exatamente o local apropriado para se passar uma noite tranqüila... A "cena do chuveiro" iria se repetir?
- Quer procurar outra pousada?, perguntei.
- Agora a gente já está aqui... resignou-se minha Janet Leigh.

Fechada a porta do apartamento 05, Amélia cai no riso, incontrolavelmente alto, exclamando:
- Hitchcock, Hitchcock...
- Psiu! ria mais baixo! O homem deve estar escutando tudo!

Era um misto de espanto, perplexidade, tensão, comédia... Mas não havia retorno. Lá estávamos, numa mansão isolada, sozinhos. Éramos hóspedes de um excêntrico? Haveria um cômodo com a "mãe do rapaz?"

Tomei banho primeiro e deixei Amélia sozinha. Enquanto ela se banhava e se aprontava para o jantar, fui "conhecer" melhor o dono da pousada. Respirei aliviado ao descobrir que seu nome não era Norman Bates, mas 'Haldun.
- 'Haldun? , tentei reproduzir o sotaque.
- Mais ou menos, vocês brasileiros não conseguem falar o som aspirado, próprio de nossa língua, disse.
- 'Haldun, 'Haldun...
- Mais ou menos, mais ou menos.
Levou-me à varanda, mostrando-me as luzes da baixada fluminense, à direita, lá no horizonte. Embaixo, a rua que conduz ao centro de Teresópolis. Mais à esquerda, a famosa Granja Comari, onde treina a seleção brasileira.

No quarto, porém, Amélia vivia momentos de quase terror: a TV mudava de canal sem que tocasse no controle remoto. Ao abrir uma bolsa, surgia o programa do Ratinho. Uma tosse, e aparecia a MTV. Caiu uma escova e mudava para a Globo. Ligou o secador de cabelos e novamente Ratinho com suas baboseiras surgia na tela.
- Este quarto é mal assombrado! Onde está o Cláudio, que não volta?
Tratou de se arrumar o mais rápido possível e quando me encontrou, o mistério foi desvendado: enquanto 'Haldun atendia o telefone, eu zapeava em busca de noticiários na TV, ao lado da lareira... Deduzi:
- Será que este controle aqui muda os canais lá do quarto?, perguntei ao libanês. - Sim, sim... aqui é a tv principal!
- Ah! bom, por enquanto estamos sem fantasmas, pensei.

Após o jantar, num restaurante da cidade, retornamos à pousada, onde nos esperava o proprietário, dublê de recepcionista e camareira.

Suas funções se multiplicaram no dia seguinte, quando nos preparou um soberbo café-da-manhã:
O dia estava radiante, o sol banhava a floresta e os pássaros faziam algazarra. Um bando de maritacas passou gritando rente à varanda. Já de malas prontas, despedimo-nos do nosso anfitrião, transmutado em afável interlocutor.
À Amélia, que passava um creme no rosto, antes de entrar no carro, 'Haldun pergunta:
- O que é isso?
- Protetor solar. Sempre passo, pela manhã e à tarde.
- Pois você deveria passar à noite, também.
- Como assim?
- À noite, disse com um sorriso malicioso, o tempo esquenta, ao lado deste aí. Apontou para mim, sorrindo.

Descemos a alameda, em gargalhadas. Foi Amélia que entendeu tudo:
- Ele deve ter ouvido meus risos estridentes durante a madrugada. Com certeza imaginou uma princesa árabe nos braços de um califa...
- Pois acertou, minha Sherazade!

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