02 julho, 2016

Três perguntas para Dr. Cláudio Costa

Deixo aqui o texto de minha entrevista publicada domingo, 26jun2016, no Jornal Estado de Minas, caderno Bem Viver, página 4. Entrevista feita pela jornalista Lílian Monteiro.


1) O que cada ser humano pode apresentar do contato com o outro? O que sobra de um contato, seja ele qual for?


Evoco a experiência humana em sua primeira relação com um outro, quando o recém nascido "precisa" dos cuidados maternos para a própria sobrevivência. É o registro da necessidade.
Nos primórdios, somos absolutamente dependentes da mãe/cuidador, que nos oferece os objetos de satisfação das necessidades básicas: experimentamos  sentimento de onipotência, pois tudo aquilo de que precisamos estará ali, a tempo e hora. 
À medida que evoluímos, a relação mãe-filho adquire outro significado, para além da pura nutrição, pois outras demandas exigirão um distanciamento cada vez mais perceptível, e o bebê será confrontado com a dura realidade: para ter as coisas, os "objetos", será necessário pedir, clamar, esperar, conquistar (o amor). 
O sofrimento implícito marca a impotência, nossa incompletude. Os psicanalistas dirão: o objeto está perdido para sempre. Inaugura-se, então, outro registro, o registro do desejo: "A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte." (Titãs). O boi no pasto jamais cantaria essa música, pois tudo o que precisa está ali.
Quem permanecer "iludido" será candidato a relacionamentos marcados pela dependência e superexigência para com o outro, não suportando perdas. Como bebê insaciável, será incapaz de lidar com os riscos do amor, que nem sempre corresponderá à fantasia. Encontrar um parceiro "completo" se tornará missão impossível, já que o outro, também, é marcado pela falta e não suportará o peso de ser a "garantia". O que sustenta o amor é a busca, o reconhecimento da falta, a incompletude. Como somos todos incompletos, diremos com Jaques Lacan: "Amar é dar o que não se tem a quem não sabe o que quer." 


2) Na vida pessoal, amorosa e profissional como ressignificar as perdas e dar novo sentido a elas e se beneficiar dos ganhos nas relações humanas?


As relações humanas podem ser vistas como a atualização de experiências precoces como as do início da vida, onde a segurança é tão vital como o alimento. Para quem se fixa nos primeiros momentos de "ilusão de onipotência", as perdas serão tormento insuportável. Um rapazinho, em análise, assim explica seu isolamento: -"Prefiro não namorar   para não sofrer quando tudo terminar." Triste racionalização, negação do desejo e dos riscos inerentes a toda busca.
As frustrações fazem parte da vida, tornam-nos mais fortes e mais destemidos, "sustentam" o desejo quando o objeto escapa. 
A contemporaneidade (ou outro nome que se dê ao cotidiano de todos nós) aí está com avanços impensáveis nos dispositivos comunicacionais, dando-nos a ilusão de que os relacionamentos podem ser substituídos pelas redes sociais. Quem se vangloria de ter mais de mil amigos no Facebook mergulha nesta ilusão, acrescentando uns e deletando outros, tão logo se canse ou seja frustrado. "Modernidade líquida", nomeia Zygmunt Bauman, salientando a precariedade dos pseudolaços sociais, num tempo  em que “nossos acordos são temporários, passageiros, válidos apenas até novo aviso”  (http://brasil.elpais.com/brasil/2015/12/30/cultura/1451504427_675885.html).
Se Freud estivesse ainda entre nós, talvez acrescentasse um capítulo ao seu "Mal-estar na Civilização", no qual descreveria as neuroses atuais desencadeadas pelo vazio de perdas incessantes e dos amores líquidos.
Como sempre, há perdas e ganhos. Pode-se aprender com as perdas, criar novos mecanismos de defesa e encontrar estratégias de sobrevivência. 
Na clínica, os casos se sucedem, com queixas de depressão, ansiedade, sintomas corporais ("somatoformes" ou "histéricos"). Se as medicações estão aí, não serão suficientes para minimizar tanto sofrimento, pois cada um terá de criar as saídas, encontrar o próprio desejo, responder por ele e prosseguir.


3) Quais marcas, boas e más, nós deixamos em nossos contatos? E como transformá-los para o bem? 


"Contatos, amigos, seguidores, likes e curtidas" compõem o vocabulário instaurado pelas redes sociais. Cada qual quer mostrar seu lado alegre, vistoso, fashion, ligado, photoshopado, brilhante num mundo de celebridades instantâneas. Há lugar para rancorosos, românticos, indignados, politizados e alienados, cada um buscando "marcar" sua presença, conquistar um "like", uma curtida, o compartilhamento, a multiplicação do número de acessos. Na "vida real", o encontro com o outro vai sendo substituído pela troca instantânea de mensagens, esquecidas tão logo outras e outras se acumulam na time-line.
Até que... até que o mal-estar se instala. Será o momento da "descoberta do outro", em que o tempo será dilatado para troca de olhares, acenos, carinhos ou, até mesmo, desencontros. 
O poeta Vinicius de Moraes já nos ensinou: "A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida"

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