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20 julho, 2009

Do amor

"A M A R É . . ."

Tenho visitado inúmeros blogs, com os quais aprendo, divirto-me, irrito-me, espanto-me, rio, me identifico, surpreendo-me. Ou seja: esse mundo virtual é o espelho do mundo real, onde as vicissitudes do dia-a-dia se traduzem e se metaforizam de forma multifacetada, instantaneamente.

Alguns blogs chamam a atenção pelo conteúdo lamentoso em função das frustrações amorosas vivenciadas por quem os escreve: tal como um muro das lamentações, os diários virtuais, trazem à tona a carência maior do ser humano: o desejo de ser amado incondicionalmente! Oh! missão impossível!

Comecemos pelo princípio: ao nascer, o filhote do homem é totalmente dependente, frágil, incapaz de se manter. Graças aos cuidados maternos (ou de quem se assume como cuidador), sobrevive-se. Uma relação imediata se configura: necessitado + cuidador. Ou seja: no início da vida, somos "seres da necessidade". Até aí, funcionamos como todo ser vivo, animais: a mãe/cuidador se apresenta indispensável até que, pelo próprio desenvolvimento do bebê e pelas outras atribuições do adulto, ela (mãe) se afasta lentamente... já consegue se atrasar para acudir as necessidades do recém-nascido que, por seu lado, começa a antecipar os indícios de que será atendido: o ruído de passos, a voz, o barulhinho da colher mexendo o mingau, etc. Um hiato (uma fenda, um vazio) se interpõe na díade mãe-filho, propiciando ao bebê uma experiência fundamental: clamar pelo que precisa!

O chôro, o grito, a agitação de braços e pernas, tudo passa a se configurar como linguagem que é interpretada e verbalizada pela mãe: neném tá com frio, neném tá com dor-de-ouvido, neném tá com fome!

A evocação da figura ausente e dos objetos de satisfação instauram os princípios da linguagem simbólica (símbolo = representação da "coisa", sem a "coisa"). Nasce o "desejo"!

O que, pois, inaugura a linguagem é a "falta", a "perda do objeto" de necessidade e sua substituição pelo "objeto do desejo". Muito além das funções de sobrevivência (objetos de necessidade) clamamos por uma atenção colorida de afeto. Fornecer comida, apenas, não basta, é preciso que o ato de alimentar seja atencioso, cuidadoso, amoroso! "Com açucar e com afeto", na canção do Chico Buarque.

Se, antes, a mãe era identificada ao objeto necessário aos instintos básicos (sobrevivência, alimentação, proteção contra frio, etc), agora passa a ser a benfeitora que propicia a satisfação. É quem garante a vida e o prazer (éros/libido), constituindo-se como primeiro objeto erótico/libidinal da criança. Nasce o AMOR, expressão de reciprocidade gratificante entre mãe e criança (ainda sem romantismo, invenção tardia na história da humanidade).

A experiência fundadora do amor se expande vida afora, com a saudável substituição da mãe como objeto único de amor por outros objetos a serem conquistados - um ser a quem amamos e que nos ame (resolução do "complexo de Édipo").
Entretanto, uma ILUSÃO pode permanecer: a de que haverá alguém que nos garanta a satisfação plena, o afeto total, o amor incondicional! Inconscientemente, queremos repetir o idílio da primeira infância, quando nenhum esforço tínhamos que fazer: bastava desejar e... pronto! Satisfação garantida!

Muito mais tarde vamos aprender que "o amor é conquistado": temos de perguntar sempre ao outro: "o que queres de mim"? Só assim seremos amados. Enganam-se aqueles que se julgam dignos do amor, sem nada oferecerem.

O jogo é complexo e interminável: de um lado, projetamos no outro as qualidades que o tornam digno de nosso afeto. O outro, por sua vez, tudo faz para corresponder e, às vezes, se julga realmente portador de todas aquelas qualidades. E vice-versa!
Sobre isso, Jaques Lacan retoma uma frase platônica: "Amar é dar o que não se tem a quem não sabe o que quer"... Decifre-a quem puder.

O Amor, assim, é indefinível por natureza, incomensurável (nada matemático), inconsistente, sem garantia de retorno, absolutamente assimétrico - já que cada um tem seu inconsciente e seu imaginário forjados na mais tenra idade, com experiências tão singulares quanto incomunicáveis! Só mesmo os poetas para darem conta de falar do Amor: O amor é mesmo "fogo que arde sem se ver..." (Camões); é "...ânimo dos desmaiados, arrimo dos que vão a cair, braço dos caídos, báculo e consolação de todos os desditosos" (Cervantes); "Ninguém é pobre quando ama". (Camilo Castelo Branco). "Há amores sem felicidade, mas nunca felicidade sem amor" (Jacques Lelouch) e "ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor... nada disso me aproveitaria" (S.Paulo).
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Republicado.

21 abril, 2009

Amor e desamor nos tempos atuais

De 30abr a 03mai, estarei em Conservatória-RJ, cidade serrana, voltada para o turismo. Fui convidado para participar do Congresso Nacional do Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos [CPPC], no Hotel Fazenda Vilarejo.

Quem me fez o convite - apesar de eu não fazer parte do CPPC - foi a amiga Janes Herdy, que já me acolheu por duas vezes em Cuiabá-MT, quando me chamara para ministrar um curso de Psicodrama e outro de Psicodrama e Dinâmica de Grupo na UFMT. A amizade se firmou, embora estarmos tão distantes, primeiro quando ela morava no Mato Grosso e, agora, morando em Niterói-RJ. Mas a Janes é dessas pessoas "de coração imenso", sensível e delicadíssima.


O tema de minha palestra será: Cuidados maternos e negligência: desamor nos tempos atuais, assunto de tristes manchetes nos noticiários: o descuido por parte de quem deveria cuidar da infância.


Claro que não poderemos atribuir somente às 'mães', de forma tão reducionista, toda a responsabilidade pelos descuidos que vitimam crianças e adolescentes. Pretendo partir do senso comum cultural e demonstrar que o tratamento dispensado às crianças e adolescentes, nos tempos atuais, está longe de ser manifestação de carinho e amor, mas de exploração e descaso.

Eis o resumo enviado à organização do evento:
"A Psicologia Evolutiva, em suas origens, se ocupou em desvendar os mecanismos das aquisições das funções psíquicas, em especial as capacidades psicomotoras, intelectuais, cognitivas e afetivas da criança, desde o nascimento.


Aos poucos, as teorias psicanalíticas, que atribuem aos precoces conflitos psíquicos a causalidade dos transtornos mentais, suscitaram minuciosas pesquisas acerca das relações objetais, obviamente colocando em cena a relação entre mãe e filho, estendida à relação pais e filhos.


Diante das demandas emanadas dos controladores sociais, psiquiatras e psicólogos descobriram a importância da educação e dos cuidados familiares na prevenção de condutas antissociais e da marginalização a que se relegavam os pequenos malfeitores, rebeldes e aqueles "de comportamento difícil".


Eis o campo conceitual que sustenta, hoje, o entendimento e as orientações de caráter 'preventivo' - ainda que sem garantias - e as intervenções exigidas pelo assustador número de crianças afetadas emocionalmente, muitas delas com o previsível destino da contravenção, do conflito com a lei e da marginalidade.


Talvez se possam utilizar os conceitos de amor e desamor para fundamentar ações psicossociais abrangentes e intervenções dos agentes de saúde na clínica.


O Autor pretende, com suas reflexões, animar o debate e a troca de experiências entre os participantes."


Aos leitores deste post, solicito sua colaboração: o que pensam a respeito deste tema? Ainda dá tempo de enriquecer minha fala. Aguardo ansiosamente, de verdade.