09 abril, 2007

Quem ainda escreve cartas?

D. Afonso,que se diz Chato sem sê-lo, fez um post sobre cartas. Despertou-me o desejo de comentar em forma de epístola. Fi-lo. D. Afonso respondeu publicamente, tá lá no post de ontem, e a Luma me provoca a republicar um post antigo, de 2005.

Ei-lo, com os antigos comentários:


Quem ainda escreve cartas?


Sou do tempo em que se escreviam cartas!

Aprendi a escrevê-las no "curso primário" (hoje, 1a. a 4a. série do Ensino Fundamental). As regras eram mais ou menos essas:

  • sempre fazer um rascunho, verificando a correta ortografia, depois passar a limpo;
  • fazer o cabeçalho:
    • com o nome da cidade, seguido de vírgula;
    • a data em numeral, o mês iniciando com maiúsculas, o ano em numeral. Assim: Belo Horizonte, 11 de Setembro de 2005;
    • saltar um espaço equivalente a uma ou duas linhas e escrever o destinatário, com delicadeza e cortesia: Minha querida mãe, Aparecida;
    • fazer uma breve saudação, preferencialmente religiosa: Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!
  • saltar mais um espaço e iniciar o texto, perguntando pela saúde do destinatário e dos familiares. Se a caligrafia não for muito boa, desculpar-se: Em primeiro lugar, peço-lhe desculpas pela letra. Como vai a senhora? E o papai, tudo bem? Espero que todos daí estejam gozando de boa saúde.
  • dar breves notícias sobre si mesmo: Por aqui, graças a Deus, tudo corre muito bem, apesar de eu ter estado ligeiramente gripado, na semana passada. No trabalho, como sempre, muito apertado. Os meninos e a Ana Letícia vão bem, com muita saúde, mas com muitas saudades da senhora e de todos. Perguntam quando nos veremos e eu explico que viajaremos nas férias de final de ano, se as finanças ajudarem.
  • finalmente, o objetivo específico da carta: Escrevo-lhe esta missiva (nome chique para carta) para lhe desejar os parabéns pelo seu aniversário, transcorrido no dia 9 pp (próximo passado). Lembrei-me da senhora com carinho e muita emoção. Infelizmente não pude abraçá-la pessoalmente, mas tenho certeza de que nossos corações estão muito perto, pois lembro-me da senhora todos os dias. Juntos, minha esposa Amélia, os meninos e eu recordamos os dias em que a senhora e o papai estiveram aqui em casa, enquanto ele se recuperava da cirurgia a que foi submetido. A gente riu muito das "pegadinhas do vovô Ismael". Foram dias maravilhosos, não foram? Venham mais à nossa casa, pois é sempre muito bom recebê-los. Meus irmãos e minha irmã foram visitá-la? Abrace-os, por mim.
  • se não houver mais nada a comunicar, então deve-se fazer as despedidas: Bem, vou ficando por aqui. Deixo meu abraço e o abraço de todos daqui de casa. Não se esqueça de transmitir nosso afeto ao papai e a todos daí. A sua bênção para o filho que a ama, Cláudio.
  • deve-se dobrar a folha com cuidado e colocá-la no envelope. O endereço seja escrito com clareza, de acordo com as instruções da DCT (Departamento de Correios e Telégrafos). É muito importante colocar o remetente, no verso do envelope, com endereço certinho. Na agência, comprar os selos e selar bem, sem lambuzar de cola.
Eu adorava escrever cartas e, principalmente, de recebê-las. Às vezes, esperava mesmo o carteiro ou corria na agência local perguntando: "-Chegou carta pra mim, hoje?" No tempo em que estudei no Colégio do Caraça, o padre disciplinário entregava a correspondência logo após o almoço, diariamente. Era um ritual: um bando de alunos, aglomerados em torno do padre, gritando: "-Tem pra mim? Tem pra mim?" Quando se era brindado com um envelope, as mãozinhas buscavam céleres o conteúdo e os olhos vivazes devoravam cada palavra. Lia e relia várias vezes, buscando descobrir, em cada expressão, algo mais além do seu significado imediato. Nem nos importávamos com a censura prévia: com efeito, toda correspondência era lida pelos superiores, antes de chegarem às nossas mãos. Explicavam assim: "-Pode ter alguma coisa inconveniente, ou notícia ruim." Eu sempre me perguntava: "-O que é coisa inconveniente?".

As cartas deveriam ser escritas a mão, com caneta tinteiro. Somente o rascunho era feito a lápis, para não gastar tinta.


Eu tinha uma caneta Parker 51, dada pelo meu pai. Era o sonho de consumo: desenho "aerodinâmico", como se dizia. A propaganda circulava nas Seleções do Reader's Digest - meu avô Ilidinho assinava - e em outras revistas e jornais. Por onde anda minha Parker 51?

Escrever cartas era um processo meditado e, portanto, demorado. Tinha-se que refletir sobre o tema da carta, pensar bastante e escolher as palavras com cuidado para não provocar mal-entendidos. Preferia-se a linguagem mais formal, com uma brincadeirinha ou outra. Qualquer gíria deveria ser colocada entre aspas, "sacou"?
Muitas vezes as cartas adormeciam dentro de um livro ou no fundo de uma gaveta, à espera de que as idéias amadurecessem e não se corresse o risco de, na precipitação, cometer alguma impropriedade. Um ritual, com certeza.

De vez em quando sou atraído pelo lançamento de livros que contêm as cartas trocadas entre pessoas famosas, escritores, filósofos e, até, amantes. Quanta história, quanta sensibilidade, quantas idéias construídas gradualmente no vai-e-vem de envelopes, às vezes atravessando oceanos, demorando meses para chegar ao destinatário...

Já li a Correspondência entre Freud e Jung, entre Freud e seu amigo Fliess, entre Fernando Sabino e Clarice Lispector. Talvez tenha lido outras, mas não me lembro...


Quem ainda escreve cartas?

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Post scriptum: Há uma belíssima carta do D. Afonso no seu blog. Leiam-na.

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