12 janeiro, 2006

No escurinho do cinema

Assistir a um bom filme é experiência sensorial e emocional plena, principalmente se for "no escurinho do cinema", se a platéia souber se comportar, é claro.

Infelizmente, o "povo" hoje está muito mal educado e transformou as salas de exibição em lugar de convescote, ou pic-nic, como se diz: levam-se sacos e mais sacos de pipoca, copos e mais copos de refrigerante, desembrulham-se quilos e mais quilos de balas, chocolates, bombons e pirulitos, além das conversas em voz alta, piadas de mau gosto, etc. Quem nunca passou pela tortura de querer prestar atenção em um filme e ser desconcentrado pela bagunça reinante?

Mas quando se consegue o propício ambiente, não há como se deixar envolver por uma boa trama, uma história bem narrada, música e ruídos realçando sensações desencadeadas pelo desfile de luz e sombra que nos hipnotiza e nos transporta para outra dimensão.

Há, porém, outras utilidades para a tal da "sétima arte", dentre as quais salientarei uma que concerne ao meu campo de trabalho: o ensino da Psiquiatria e da Psicanálise.

Diz-se que "a arte imita a vida", o que muitas vezes é verdade. Afinal, o simbólico surge como fator inaugural da cultura: dizer o indizível, representar os conflitos, os medos, os sonhos... tudo isso compete à arte.

A Psicanálise (pacientes, psicanalistas, conflitos) tem sido tema de inúmeros de filmes. Um casamento nem sempre feliz, pois predominam a caricatura e o simplismo. Veja-se o que diz
Cláudio Duque, psiquiatra pernambucano recentemente falecido:

O cinema, ao se aproximar da psicanálise o faz de fora, com o olho do espectador, e a psicanálise não existe para terceiros. Por isso, um filme sobre o trabalho psicanalítico parece tão sem vida quanto uma sessão anotada por um aprendiz para mostrar ao seu supervisor. Tão expressiva quanto um calendário-brinde de bolso, com uma reprodução da Santa Ceia, em comparação com o original.

Se "a via régia" para se aproximar do inconsciente são os sonhos, conforme nos ensinou Freud, em A Interpretação dos Sonhos, a analogia destes com o cinema é óbvia. Na sala escura temos a oportunidade de vivenciar emoções mais diversas, intrigantes, assustadoras ou prazerosas, assim como nos sonhos. A "realidade" imaginária do sonhar, onde tudo é possível, em que a aparente lógica do dia-a-dia é totalmente subvertida, o passado e o presente se misturam, tudo isso ocorre nas telas e nos envolve plenamente.

Cito, novamente, Cláudio Duque:

Esse poder absoluto, disponível nos sonhos, de criar uma realidade alucinatória, desde há muito tem sido comparado com a atividade de construir um espetáculo cênico e se torna mais evidente se tomarmos o cinema como exemplo. Quem faz cinema se aproxima mais que ninguém desse poder criador. Muito antes das brincadeiras dos irmãos Lumiére, Joseph Addison, no The Spectator n. 487, Londres, publicou em 18 de setembro de 1712, um artigo intitulado "Sobre os sonhos", em que dizia:


"Não há ação mais penosa da mente do que a invenção. Não obstante, nos sonhos funciona com uma facilidade e uma diligência que não ocorrem quando estamos acordados". (...) "O que desejo destacar é o divino poder da alma de construir a sua própria companhia. Conversa com inumeráveis seres de sua própria criação e se transporta a dez mil cenários de sua própria imaginação. É o seu próprio teatro, seu ator, e seu espectador. Isso me faz recordar o que Plutarco atribui a Heráclito: todo homem acordado habita um mundo comum; porém cada um pensa que habita seu próprio mundo quando dorme (sonha)"(...).

Acho que é hora de ir ao cinema. Até.

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