22 maio, 2006

Pequeno exercício de memória literária

Sempre gostei de ler.

Desde criança, os livros são minha companhia. Em casa, tinha incentivo e exemplo dos meus pais, Soié e Aparecida. O meu tio Ismar me presenteava, volume a volume, com a coleção completa do
Monteiro Lobato, em cujas páginas descobri o Sítio do Pica-pau Amarelo, Dona Benta, Narizinho, Pedrinho, Emília e o impagável Visconde de Sabugosa! Cheguei a ter um porco batizado de Rabicó, cujas carnes deliciosamente temperadas por minha mãe eu saboreei quase chorando!

No Colégio do Caraça, onde fiz o "ginásio", o regulamento era rigoroso, as atividades cronometradas e os momentos de estudo se revezavam com os desejadíssimos "recreios". Havia horário para tudo, inclusive para "leitura livre". Este era o momento em que podíamos ir às estantes da biblioteca e retirar livros de aventura, policiais, literatura, poesia, enciclopédias.

Os mais velhos hão de lembrar do
Tesouro da Juventude, indicado para crianças e adolescentes, provavelmente cheio de referências educacionais da pequena burguesia americana do pós-guerra. Na época, esse tipo de crítica nem passava na minha cabeça. Nunca mais vi seus 18 volumes, encadernados e ilustrados, com capítulos que abordavam temas de ciências naturais, física, literatura infanto-juvenil, curiosidades. Eu adorava a seção "O livro dos porquês"! Por que o barulho do trovão aparece depois que vemos o raio? Por que a água ferve? Por que o iceberg flutua? Por que a lua parece maior perto do horizonte? Lá ia eu viajando em busca de conhecimento. Hoje, talvez, um jovem pesquisaria nas ondas da internet, mas creio que não tem o mesmo frisson dos meus 13 anos.

Li toda a coleção de
Agatha Christie, com crimes e mistérios resolvidos sempre de maneira surpreendente pelo detetive Hercule Poirot.
Devorei quase todos os volumes de Sherlock Holmes, o detetive criado por
Conan Doyle. "Elementar, meu caro Watson" virou expressão minha, também, quando era perguntado sobre algo que meus colegas não sabiam.

Julio Verne e seus livros premonitórios alimentaram meus desejos de me tornar cientista - hoje tanta coisa se realizou, a começar pela viagem à lua e pelas navegações dos submarinos... Sentia-me na pele do Capitão Nemo, viajava pelas profundezas do oceano, temia os tentáculos do imenso polvo que ameaçava o Nautilus.

A adolescência foi passando e me aproximei dos clássicos:
Dostoievski! Quanta emoção ao ler Crime e Castigo. Quanto suspense com Os Irmãos Karamazov!

Machado de Assis
e seus contos abriram as comportas da literatura brasileira. Sem falar no Bras Cubas, Bentinho e sua Capitu... Júlio Ribeiro e o escândalo de A carne me apresentaram a libido, o proibido... Aluísio de Azevedo e seu Ateneu...

Conheci os cronistas
Drummond, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos... Os poetas Drummond e Bandeira; Thiago de Melo e Raul Bopp - quem conhece? Clarice Lispector... ah! bons tempos de descobertas dos meandros da alma humana.

Passei pela fase dos best-sellers:
Morris West e as Sandálias do Pescador, O Advogado do Diabo; Sidney Sheldon... nada de grande literatura, mas o mundo desfilava ali naquelas páginas recheadas de aventuras em lugares exóticos, distantes, cidades que jamais imaginava poder visitar.

A literatura fantástica latino-americana foi uma revolução!
Gabriel Garcia Márquez e sua cidade impossível: Macondo, os Buendía e gerações que se misturavam em Cem Anos de Solidão. Livro de cabeceira, este. Inesquecível!

Daí, foi um pulo só para descobrir
Guimarães Rosa, esse sem-nome de tão impressionante, rico, revolucionário da língua. Rosa me fez mergulhar na minha terra, que pouco conhecia: o sertão, o rio Urucuia, jagunços, Diadorim, Riobaldo: Grande Sertão: Veredas!!! Primeiras Estórias, Tutaméia, os contos, a linguagem inventada, ali, na boca dos personagens: "Minas são muitas".

Já nas décadas de 70 e 80, enquanto cursava Filosofia na UFMG, conheci os clássicos gregos, os filósofos, Édipo Rei... quem sabe aí nasceu minha vocação para a Psiquiatria e a Psicanálise?
Sartre, Simone de Beauvoir, Albert Camus, esses existencialistas também "fizeram minha cabeça".

Freud veio depois: descobri "o outro lado", "os porões do inconsciente", os códigos dos sonhos...

Aprendi a evitar os best-sellers. Foi a custo que li as pseudo-revelações do
Código da Vinci: dever de ofício que me divertiu um pouco. Não tem literatura nenhuma ali, já disse isso em um post anterior.

Agora virou filme. Quando passar "a febre", vou lá conferir. Será que vale a pena?

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