06 junho, 2006

Cadê a Bahia?

Fiz dois posts sobre minha estadia na Costa do Sauípe, neste final de semana. Referi-me às delícias daquele paraíso, construído para proporcionar lazer 24h por dia: piscinas, fitness center, gastronomia abundante e requintada, etc.

Mas agora é tempo de refletir:


O empreendimento é espetacular: são 5 hotéis de alta categoria e 5 pousadas também de alto nível, tudo num espaço geográfico abençoado por Deus e bonito por natureza: mangues, dunas, mata atlântica, fauna e flora exuberantes, riachos e rios límpidos, praias quase infinitas... Mas... cadê a Bahia?

- Uai, mas você não estava exatamente na Bahia?

Pois é, acontece que a Costa do Sauípe tem um padrão globalizado, que nos priva do contato mais próximo com a genuína cultura local. Poderia estar situado nas Bahamas, na Flórida, no Ceará, na Indonésia que seria a mesma coisa!


- Anh? mas lá não tem comida baiana, lojas de artigos baianos na Vila da Praia, shows de axé-music e camisetas bordadas com berimbau, peixes, tartarugas, deuses do Candomblé, figuras de capoeira e artesanato indígena?

Tem tudo isso. Até algumas serviçais, no restaurante - aquelas que servem à mesa, por exemplo - estão vestidas de roupas típicas. Porém é tudo pasteurizado, globalizado, talvez até mesmo banalizado.

Por outro lado, não sei até que ponto as áreas de preservação foram respeitadas. Quero acreditar que os estudos de impacto ambiental foram feitos e suas conclusões obedecidas.

- Então, você não gostou?

Gostei e muito! Vale a pena passar uns dias lá, não restam dúvidas. Acho que, do ponto de vista econômico, aquele conjunto hoteleiro acrescenta muito ganho aos centenas - talvez milhares - de empregos gerados: numerosíssimos empregados atendem aos hóspedes diuturnamente, seja como arrumadeiras, cozinheiros, professores de ginástica, comerciários, prestadores de serviços, todos ganham seu salário e aprendem muita coisa. O treinamento parece ser de primeira qualidade e tudo flui muito bem. Além disso, há os fornecedores para restaurantes, bares, lojas de roupas e artesanato, etc., etc. As divisas geradas pelo turismo são enormes: passagens aéreas, translados, investimentos em infra-estrutura, etc. Não nego isso e sei que é uma "indústria sem poluição", como dizem. Viva o turismo!

- Talvez o "produto interno bruto" da Costa do Sauípe seja maior do que da maioria dos municípios brasileiros.


Entretanto, um turista que se limite a gozar suas férias ali dentro não terá a menor noção do que seja a Bahia e, muito menos, do que é o brasileiro.
Isso me causou certo desconforto, digamos, espiritual e cívico.

Comparei com outras viagens que já fizemos, nas quais o contato com a população em seu habitat nos proporciona uma experiência quase antropológica. Um turista mais atento às peculiaridades
humanas dos habitantes poderá vivenciar a espontaneidade da população, ao invés de se deparar com sorrisos bem treinados ou a atenção estudada apenas com intuito de nos vender algo, como se tudo no mundo fosse pura mercadoria.


Pois a sensação de sermos meramente um consumidor privilegiado nos é passada num lugar tão bonito, tão deliciosamente desenhado para o máximo prazer. É quase impossível escapar do apelo do marketing.

Sei que há turistas que só pensam em gastar e comprar, voltam pra casa com as malas cheias de souvenires e outras bugigangas, sequer prestando atenção à realidade local. São capazes de ir a Nova York, a Paris, a Roma ou a Petrópolis apenas pensando em descobrir lojas e shoppings onde possam exercitar seu poder de compra. Estes, a meu ver, foram, isso sim, comprados pelo sistema: são consumidores consumidos pela apelo do consumo! Vão à Costa do Sauípe e não à Bahia.

A estes, gostaria de perguntar:

- Cadê a Bahia?

______ooo))))*(000ooo______


Prá não dize que não falei das flores, eis algumas fotos:

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