01 agosto, 2007

Eu? quem sou eu?





Não é contingência única do mundo virtual que as pessoas se mostrem com identidades inventadas, falsas, maquiadas, fingidas ou 'anônimas'. Apresentar-se sob máscara é atitude comum. Afinal, nós mesmos podemos nos enganar (mesmo não intencionalmente) sobre quem somos. Talvez isso anime tanta gente a se esconder sob um nickname pomposo neste mundo virtual, tanto quanto no real.

- Anh? indagaria um interlocutor menos afeito às filosofices. Eu sou eu, pelo menos disso tenho certeza, eu sou Fulano, acrescentaria, crente que sabe quem realmente é.

- Fulano? que Fulano? (risos)

Aí começam as complicações, pois não basta ser Fulano:

- Sou Fulano de Tal, uai! (mais risos)

Então, logo descobrimos que o nome próprio, para ser próprio, necessita de predicados, já que um nome é apenas um nome e pode designar qualquer pessoa - ou todas as pessoas, não faz diferença. "João", por exemplo, pode designar qualquer um.

Mas predicados, por mais numerosos que existam, não nos podem definir. Sim, não adianta quantidade de predicados (sou isso e aquilo e mais aquela coisa - tipo assim: Sabe com quem está falando?). O que importa é a qualidade deles.

- E como se mede a qualidade de um predicado?, indaga o último da fila, lápis em riste, pronto a anotar em seu caderno encapado com o nome - olha aí, o nome! - escrito na etiqueta.

"Os predicados apenas designam, nada significam. (Saul Kripke citado em Identidades sem Necessidade).

Digo, sem pestanejar, que a qualidade do predicado que julgo ser meu - provisoriamente, bem provisoriamente - tem a ver com a minha verdade.

- Mas aí, ô meu, que verdade é sua verdade? E se o brother estiver enganado? Ou se enganando a si mesmo e a todos? A verdade não é relativa? Este repto vem direto da menina de óculos (viu este predicado? "de óculos" diz alguma coisa de quem é a tal menina? Apenas a identifica, mas não diz quem ela é.

De nada adianta dizer Eu sou aquele que sabe, portanto, não discuta, anote aí, aprenda! porque ninguém tem o atributo da infalibilidade. Portanto, não posso dizer quem sou, ou quem você é.

Afinal, até o próprio nome, aquele da certidão de nascimento ou de batismo, foi-nos dado por outrem, com intenções nem sempre conscientes.

Ninguém escolhe o nome, tudo bem. O pior - ou a verdade - é que até mesmo como nós nos vemos nos é dado pelo Outro (com O maiúsculo, porque se trata de um Outro significativo, claro!) e, submetidos ao desejo desse Outro, tomamos suas avaliações como verdadeiras, quer gostemos ou não:

Sou inteligente, sou bonzinho, sou sem-vergonha, sou bem-sucedido, sou caridoso, sou bonito, sou feio, sou isso e aquilo - eis a coleção de imagens ou predicados que nos foram dadas e que colecionamos ao longo da vida, tesouro carregado cuidadosamente pelo nosso Imaginário, até que tropeçamos e...

- Eu, que sou uma boa pessoa, descontrolei-me, tratei mal a quem mais amava, invejei o vizinho e não devolvi o troco-a-maior que a balconista me deu... entendi, disse tudo de uma respirada só aquele rapaz de moleton preto-bordado-de-letras-brancas-GAP.

Querem mais um exemplo? Vejam este post aqui do Milton.

É claro que há exemplos, digamos, edificantes, quando nos vemos praticando uma boa ação que surge assim, do nada. São os pequenos heroísmos do cotidiano, quando sorrimos para alguém ou descobrimos afinidades por quem menos suspeitávamos. Ou seja, nosso eu verdadeiro é o eu que escapa! Ou, como nos disse Freud (1933): "“onde estava o id ali estará o ego”.

Por isso, digo e repito: somos o que desejamos - e desejar não é querer, hein?

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A belíssima ilustração acima é de J.D. Hillberry.

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