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Basta pensar em sentir Para sentir em pensar. Meu coração faz sorrir Meu coração a chorar. Depois de parar de andar, Depois de ficar e ir, Hei de ser quem vai chegar Para ser quem quer partir. Viver é não conseguir. Fernando Pessoa, 14-6-1932
03 julho, 2016
Autismo e Asperger
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16 maio, 2008
Com adrenalina ou sem adrenalina?
O pai, por sua vez, jamais negou atenção ao filho e, para o bem ou para o mal, exercia certo controle à base de promessas, presentes e raríssimas privações: eu compro o garoto, mas não tem outro jeito! Ele só faz o que peço mediante troca.
No capítulo 8, resume a "invenção" de Balint, criada para dar conta de explicar duas expressões comportamentais:
- certo tipo de pessoas se comprazem em viver perigosamente, nem que seja em jogos e esportes radicais, enquanto outras fogem do perigo, temem o incerto, aferram-se à rotina e aos objetos.
O moço que causava tanta preocupação se diz atraído pela aventura, admira os marginais que não temem pela própria vida. Frequenta as bocas e as quebradas, justifica, pois é onde reina a alegria, a zoação, o não-estou-nem-aí, o vamos fundo, brother! Apressa-se em se distinguir deles, porém: não bebo, não fumo, não faço coisa errada; tenho família! Seu critério para diferenciar o 'certo' do 'errado' é bem elástico, convém dizer. Refere-se aos boyzinhos classe-média como rabos-de-peru.
Já outro pai queixou-se da filha, moça de 26 anos, que era insegura, não conseguia terminar nenhuma das três faculdades que iniciara, sempre se dizia incapaz de competir, não desgrudava da mãe, de quem dependia até mesmo para escolher o que vestir. Exemplifica com uma situação recente, quando a filha recusara um emprego porque teria de pegar ônibus e chegar tarde em casa. A jovem não se permitia uma aventura sequer, um passo além do bairro, uma conquista acadêmica. Aferrou-se à segurança do ventre materno?
Balint repara que muitos brinquedos em parques-de-diversões oferecem prazeres por meio de atirar ou bombardear, quebrar coisas, vertigens de balanços, carrosséis e rodas gigantes, jogos de azar, horóscopos, enfim, prazeres ligados a sensações de vertigens.
Se os sintomas do rapaz são o avesso dos apresentados pela moça, algo existe em comum: tanto o primeiro quanto a segunda têm uma base de apoio: o jovem, como um saltador de bump jumping, tem a garantia da corda que lhe cinge o corpo, o elástico que o trará de volta à rampa do salto. O paraquedista, o marinheiro, o piloto de avião, todos se lançam ao espaço, arriscam-se mas esperam retornar ao chão firme, sãos e salvos. Mas não recusam a adrenalina!
Balint aponta três características deste comportamento:
- Um certo grau de medo consciente ou pelo menos a consciência de um perigo externo real.
- O fato de se expor voluntária e deliberadamente a este perigo externo e ao medo que ele provoca.
- A esperança mais ou menos firme de ser capaz de suportar e dominar o medo, de ver desaparecer o perigo e de estar à altura de reconquistar são e salvo a segurança.
Trata-se, segundo Balint, de um comportamento que se caracteriza pelo agarrar-se a objetos que dão segurança quando a pessoa se sente ameaçada. Ou seja, evita sempre as situações filobáticas.
Inventou outra palavra, também derivada do grego: akneo, que significa “furtar-se, hesitar, agarrar-se”, e filia (busca, aproximação, amizade) e surgiu termo Ocnófilo.
Balint:
O ocnófilo é a pessoa que evita situações de risco, de aventura, e prefere permanecer em zonas seguras ou se agarrar a objetos. A grosso modo, o filobata gosta de gozar das dificuldades, da independência e dos espaços livres; o ocnófilo gosta de objetos e coleciona coisas.
Assim, aparece uma tentativa de classificar as pessoas pela filobacia e ocnofilia que apresentam na maior parte de seus comportamentos. Não sei se existem mais autores dedicados a isso, se se pode comprovar estatisticamente a existência destas personalidades, mas acho muito interessante. Qualquer definição que pretenda enquadrar as pessoas corre o risco de ser desmentida, tal a diversidade de fatores que determinam o agir.
Exemplifico com a demanda feita por um jovem marido, especialista em flertar com todas as mulheres, jogar conversas de duplo sentido e até cometer umas aventuras extra-conjugais. Imagine que o rapaz se queixou de sua insegurança e solicitava ajuda para ser mais corajoso! Como assim? perguntei. Ele: É que gostaria de separar-me da minha esposa e morar com uma colega de trabalho pela qual estou apaixonado... mas tenho medo de dar errado e minha mulher não me aceitar de volta. Provoco: Fale com sua mulher, quem sabe ela aceita? Ao que, de pronto, responde: De jeito nenhum! E se ela não gostar e me mandar embora? Aí eu posso ficar sem ninguém!
Seria o caso de um pseudo filobata? Um ocnófilo borderline?
Eu próprio já tive algumas experiências de risco: Saí de Belo Horizonte e fui hospedar-me na casa do Milton Ribeiro, em Porto Alegre. Apenas o conhecera via blog. E se ele fosse o Vampiro de Dusseldorf? Outra: Comi lasagna na casa do Dom Afonso, autodenomimado O Chato. Nunca o tinha visto, a não ser pela sua chatura no blog, e nem pensei que o gremista pudesse envenenar um torcedor do Clube Atlético Mineiro. Mas arrisquei: filobata, eu? Pior: aceitei carona em um Honda Civic, no Rio de Janeiro!!! Diagnóstico definitivo!
Mas sou mineiro, montanhês, desconfiado, apegado à família, agarrado com Amélia, caseiro, estável no mesmo emprego e na mesma profissão. Pois que seja, sou mesmo ocnófilo!
Definir alguém como filobata ou ocnófilo pode ser, realmente, reducionista demais. Balint e Pierre Weil sabem disso e afirmam que não existem os tipos extremos, mas todos oscilamos entre um polo e outro, dependendo das circunstâncias e das fases da vida.
03 setembro, 2007
Sintomas
01 agosto, 2007
Eu? quem sou eu?

Não é contingência única do mundo virtual que as pessoas se mostrem com identidades inventadas, falsas, maquiadas, fingidas ou 'anônimas'. Apresentar-se sob máscara é atitude comum. Afinal, nós mesmos podemos nos enganar (mesmo não intencionalmente) sobre quem somos. Talvez isso anime tanta gente a se esconder sob um nickname pomposo neste mundo virtual, tanto quanto no real.
- Anh? indagaria um interlocutor menos afeito às filosofices. Eu sou eu, pelo menos disso tenho certeza, eu sou Fulano, acrescentaria, crente que sabe quem realmente é.
- Fulano? que Fulano? (risos)
Aí começam as complicações, pois não basta ser Fulano:
- Sou Fulano de Tal, uai! (mais risos)
Então, logo descobrimos que o nome próprio, para ser próprio, necessita de predicados, já que um nome é apenas um nome e pode designar qualquer pessoa - ou todas as pessoas, não faz diferença. "João", por exemplo, pode designar qualquer um.
Mas predicados, por mais numerosos que existam, não nos podem definir. Sim, não adianta quantidade de predicados (sou isso e aquilo e mais aquela coisa - tipo assim: Sabe com quem está falando?). O que importa é a qualidade deles.
- E como se mede a qualidade de um predicado?, indaga o último da fila, lápis em riste, pronto a anotar em seu caderno encapado com o nome - olha aí, o nome! - escrito na etiqueta.
"Os predicados apenas designam, nada significam. (Saul Kripke citado em Identidades sem Necessidade).
Digo, sem pestanejar, que a qualidade do predicado que julgo ser meu - provisoriamente, bem provisoriamente - tem a ver com a minha verdade.
- Mas aí, ô meu, que verdade é sua verdade? E se o brother estiver enganado? Ou se enganando a si mesmo e a todos? A verdade não é relativa? Este repto vem direto da menina de óculos (viu este predicado? "de óculos" diz alguma coisa de quem é a tal menina? Apenas a identifica, mas não diz quem ela é.
De nada adianta dizer Eu sou aquele que sabe, portanto, não discuta, anote aí, aprenda! porque ninguém tem o atributo da infalibilidade. Portanto, não posso dizer quem sou, ou quem você é.
Afinal, até o próprio nome, aquele da certidão de nascimento ou de batismo, foi-nos dado por outrem, com intenções nem sempre conscientes.
Ninguém escolhe o nome, tudo bem. O pior - ou a verdade - é que até mesmo como nós nos vemos nos é dado pelo Outro (com O maiúsculo, porque se trata de um Outro significativo, claro!) e, submetidos ao desejo desse Outro, tomamos suas avaliações como verdadeiras, quer gostemos ou não:
Sou inteligente, sou bonzinho, sou sem-vergonha, sou bem-sucedido, sou caridoso, sou bonito, sou feio, sou isso e aquilo - eis a coleção de imagens ou predicados que nos foram dadas e que colecionamos ao longo da vida, tesouro carregado cuidadosamente pelo nosso Imaginário, até que tropeçamos e...
- Eu, que sou uma boa pessoa, descontrolei-me, tratei mal a quem mais amava, invejei o vizinho e não devolvi o troco-a-maior que a balconista me deu... entendi, disse tudo de uma respirada só aquele rapaz de moleton preto-bordado-de-letras-brancas-GAP.
Querem mais um exemplo? Vejam este post aqui do Milton.
É claro que há exemplos, digamos, edificantes, quando nos vemos praticando uma boa ação que surge assim, do nada. São os pequenos heroísmos do cotidiano, quando sorrimos para alguém ou descobrimos afinidades por quem menos suspeitávamos. Ou seja, nosso eu verdadeiro é o eu que escapa! Ou, como nos disse Freud (1933): "“onde estava o id ali estará o ego”.
Por isso, digo e repito: somos o que desejamos - e desejar não é querer, hein?
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A belíssima ilustração acima é de J.D. Hillberry.
21 julho, 2007
"Tsunami de FRUSTRAÇÕES ameaça nossa Esperança" [Manchete imaginária]
Sonho, logo vivo.
14 abril, 2007
Freud: a última entrevista

Deve ter sido publicada na imprensa americana da época. Acreditava-se que estivesse perdida, quando o Boletim da Sigmund Freud Haus publicou uma versão condensada, em 1976.
Na verdade, o texto integral havia sido publicado no volume Psychoanalysis and the Future, número especial do "Journal of Psychology", de Nova Iorque, em 1957.
O link para a entrevista completa, em tradução de Paulo César Souza, vai no final.
Reproduzo, aqui, alguns trechos.
S. Freud: Setenta anos ensinaram-me a aceitar a vida com serena humildade.
(Quem fala é o professor Sigmund Freud, o grande explorador da alma. O cenário da nossa conversa foi uma casa de verão no Semmering, uma montanha nos Alpes austríacos. Eu havia visto o pai da psicanálise pela última vez em sua casa modesta na capital austríaca. Os poucos anos entre minha última visita e a atual multiplicaram as rugas na sua fronte. Intensificaram a sua palidez de sábio. Sua face estava tensa, como se sentisse dor. Sua mente estava alerta, seu espírito firme, sua cortesia impecável como sempre, mas um ligeiro impedimento da fala me perturbou. Parece que um tumor maligno no maxilar superior necessitou ser operado. Desde então Freud usa uma prótese, para ele uma causa de constante irritação).
S. Freud: Detesto o meu maxilar mecânico, porque a luta com o aparelho me consome tanta energia preciosa. Mas prefiro ele a maxilar nenhum. Ainda prefiro a existência à extinção. Talvez os deuses sejam gentis conosco, tornando a vida mais desagradável à medida que envelhecemos. Por fim, a morte nos parece menos intolerável do que os fardos que carregamos.
...
George Sylvester Viereck: Gostaria de retornar em alguma forma, de ser resgatado do pó? O senhor não tem, em outras palavras, desejo de imortalidade?
S. Freud: Sinceramente não. Se a gente reconhece os motivos egoístas por trás de conduta humana, não tem o mínimo desejo de voltar à vida; movendo-se num círculo, seria ainda a mesma. Além disso, mesmo se o eterno retorno das coisas, para usar a expressão de Nietzsche, nos dotasse novamente do nosso invólucro carnal, para que serviria, sem memória? Não haveria elo entre passado e futuro. Pelo que me toca, estou perfeitamente satisfeito em saber que o eterno aborrecimento de viver finalmente passará. Nossa vida é necessariamente uma série de compromissos, uma luta interminável entre o ego e seu ambiente. O desejo de prolongar a vida excessivamente me parece absurdo.
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George Sylvester Viereck: O senhor já analisou a si mesmo?
S. Freud: Certamente. O psicanalista deve constantemente analisar a si mesmo. Analisando a nós mesmos, ficamos mais capacitados a analisar os outros. O psicanalista é como o bode expiatório dos hebreus. Os outros descarregam seus pecados sobre ele. Ele deve praticar sua arte à perfeição para desvencilhar-se do fardo jogado sobre ele.
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George Sylvester Viereck: Ás vezes imagino se não seríamos mais felizes se soubéssemos menos dos processos que dão forma a nossos pensamentos e emoções. A psicanálise rouba a vida do seu último encanto, ao relacionar cada sentimento ao seu original grupo de complexos. Não nos tornamos mais alegres descobrindo que nós todos abrigamos o criminoso e o animal.
S. Freud: Que objeção pode haver contra os animais? Eu prefiro a companhia dos animais à companhia humana.
George Sylvester Viereck: Por quê?
S. Freud: Porque são tão mais simples. Não sofrem de uma personalidade dividida, da desintegração do ego, que resulta da tentativa do homem de adaptar-se a padrões de civilização demasiado elevados para o seu mecanismo intelectual e psíquico. O selvagem, como o animal, é cruel, mas não tem a maldade do homem civilizado. A maldade é a vingança do homem contra a sociedade, pelas restrições que ela impõe. As mais desagradáveis características do homem são geradas por esse ajustamento precário a uma civilização complicada. É o resultado do conflito entre nossos instintos e nossa cultura. Muito mais agradáveis são as emoções simples e diretas de um cão, ao balançar a cauda, ou ao latir expressando seu desprazer. As emoções do cão (acrescentou Freud pensativamente) lembram-nos os heróis da Antigüidade. Talvez seja essa a razão por que inconscientemente damos aos nossos cães nomes de heróis antigos como Aquiles e Heitor.
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George Sylvester Viereck: A psicanálise torna a vida um quebra-cabeças complicado.
S. Freud: De maneira alguma. A psicanálise torna a vida mais simples. Adquirimos uma nova síntese depois da análise. A psicanálise reordena um emaranhado de impulsos dispersos, procura enrolá-los em torno do seu carretel. Ou, modificando a metáfora, ela fornece o fio que conduz a pessoa fora do labirinto do seu inconsciente.
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George Sylvester Viereck: O senhor ainda coloca a ênfase sobretudo no sexo?
S. Freud: Respondo com as palavras do seu próprio poeta, Walt Whitman: "Mas tudo faltaria, se faltasse o sexo" ("Yet all were lacking, if sex were lacking"). Entretanto, já lhe expliquei que agora coloco ênfase quase igual naquilo que está "além" do prazer - a morte, a negociação da vida. Este desejo explica por que alguns homens amam a dor - como um passo para o aniquilamento! Explica por que os poetas agradecem a
Whatever gods there be, That no life lives forever And even the weariest river Winds somewhere safe to sea. ("Quaisquer deuses que existam/ Que a vida nenhuma viva para sempre/ Que os mortos jamais se levantem**/ E também o rio mais cansado/ Deságüe tranqüilo no mar".)
...
S. Freud: Não me faça parecer um pessimista (disse ele após o aperto de mão). Eu não tenho desprezo pelo mundo. Expressar desdém pelo mundo é apenas outra forma de cortejá-lo, de ganhar audiência e aplauso. Não, eu não sou um pessimista, não, enquanto tiver meus filhos, minha mulher e minhas flores! Não sou infeliz - ao menos não mais infeliz que os outros.
(O apito de meu trem soou na noite. O automóvel me conduzia rapidamente para a estação. Aos poucos o vulto ligeiramente curvado e a cabeça grisalha de Sigmund Freud desapareceram na distância).
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A entrevista completa está no link da SPRJ.
12 abril, 2007
Caldeirão explosivo
Impressiona-me a 'atualidade' dos conceitos acerca do vulcão interior que nos habita, um misto de pulsão de vida e pulsão de morte.
A mídia nos sufoca, a cada manhã, com o relato dos assassinatos da véspera, um rosário de atrocidades contra crianças e adolescentes, bestiário de violência cometidas por seres humanos contra seres humanos.
A 'banalização da violência' já virou lugar-comum no discurso sobre a vida contemporânea e somos levados a acreditar que o mundo é ordenado maniqueísticamente entre bons e maus. Pior: “os maus são sempre os outros”.
Os subtítulos de “As emoções básicas do ser humano” já incomodam pela ferida narcísica que nos impõem: “Amor, Ódio e Reparação” e “Inveja e Gratidão”.
Joan Rivière assim introduz suas reflexões:
“Examinamos, neste livro, alguns aspectos da vida emocional do homem e da mulher que vivem em comunidades civilizadas, cujas manifestações cotidianas nos são familiares. Duas fontes fundamentais dessas manifestações afetivas conhecidas são os dois grandes instintos primários: fome e amor, ou seja, o instinto de autoconservação e a pulsão sexual. Nossas vidas estão essencialmente orientadas para duplo fim:
- conseguir os meios que nos garantam a existência
- extrair prazer do viver.
Esses objetivos nos provocam emoções profundas e levam a intensa felicidade ou enorme sofrimento.”
- Amor: força que harmoniza e unifica, dirigida para a vida e o prazer.
- Ódio: força desintegradora e destrutiva, que tende à privação e à morte.
Não se pode dissociar amor e ódio como duas forças que se excluem, ao contrário: Ambos alimentam a agressão:
- Muitas vezes ligada ao ódio, a agressão não é totalmente destrutiva ou dolorosa, seja em seus fins, seja em seu funcionamento.
- Por outro lado, mesmo que brotando das forças vitais, o amor pode ser agressivo e até destrutivo.
Já que os impulsos de amor e ódio estão em todos nós, cada pessoa, em sua singularidade, dependendo de fatores diversos como temperamento, educação e experiências de vida, tenta organizar as forças brutas que a habitam, mediante adaptações infinitas, sutis e variadas.
Muitos justificam seus atos agressivos como “defensivos” frente às ameaças reais ou imaginárias que enxerga no outro.
Entretanto, um olhar mais atento e honesto para dentro revelará em nós mesmos um misto de egoísmo, baixeza, voracidade, ciúmes e hostilidade. É provável que grande parte dos dissabores cotidianos provenha desses sentimentos, não?
Quem não experimenta prazer em “vencer ou outro”, ganhar um jogo ou derrotar o suposto inimigo? Por que será que encontramos enorme fascínio nas histórias horripilantes, em filmes ultra-violentos, em cenas de desgraças, acidentes, guerras, etc.? A programação de TV está recheada de cenas assim e os noticiários têm nos escândalos e crimes o mais eficaz apelo... “Dá ibope.”
Utilizamos a projeção com um mecanismo de defesa contra nossos próprios 'instintos agressivos' e os 'jogamos para o outro'. Eles, os outros, são a causa de todos os sentimentos penosos e desagradáveis pelos quais passamos. “-A culpa é do outro”, eis o mote eternamente repetido. Assim, vemos justificadas as nossas próprias atitudes agressivas, nossa irritação, nosso ódio. Isso é muito evidente quando somos repreendidos por alguém: “Ah! Mas você também erra, você também foi cruel comigo”.
A desvalorização e o desprezo ao outro são, igualmente, mecanismos de defesa muito utilizados quando nos sentimos rejeitados. Funcionamos como aquela raposa da fábula: Ao desistir das uvas que tanto buscou alcançar, a raposa justifica: “Estavam verdes”.
