22 fevereiro, 2006

Ver com os ouvidos

Quando lidamos com pessoas portadoras de completa surdez inata (desde o nascimento), aprendemos que há muitas outras maneiras de "ouvir" o mundo.

São comuns os relatos de hipoacúsicos que descrevem "sensações auditivas" percebidas com outros órgãos do corpo, principalmente pelas sensações vibracionais. Este entrecruzamento de interpretações derivadas dos diversos sentidos do corpo é o que se chama sinestesia. [cf. Houaiss: sinestesia = relação que se verifica espontaneamente (e que varia de acordo com os indivíduos) entre sensações de caráter diverso mas intimamente ligadas na aparência (p.ex., determinado ruído ou som pode evocar uma imagem particular, um cheiro pode evocar uma certa cor etc.); cruzamento de sensações; associação de palavras ou expressões em que ocorre combinação de sensações diferentes numa só impressão].

A cenestesia já é outra propriedade do cérebro em organizar e interpretar as sensações internas do organismo, como por exemplo o sentimento de bem estar ou sensação de relaxamento ou tensão, etc.

Outro tipo de percepção, desta vez relacionada ao próprio peso, movimento, resistência e posição do corpo compõe a cinestesia.

Agora imagine o grau de sensibilidade cenestésica, cinestésica e sinestésica de alguém privado do sentido da audição ou da vista! Para se localizar no mundo, interpretar as alterações sutis do próprio corpo e do meio exterior, os sentidos internos desenvolvem-se espetacularmente.

Por isso os cegos dizem que vêem com outros sentidos: olfato, sensações corporais difusas, alterações mínimas de movimento, etc. Alguns chegam a descrever "cores e volumes": enxergam com os olhos da alma.

Em nós, também, percepções podem desencadear vivências emocionais singulares, originadas em acontecimentos remotos, dos quais não restam lembranças claras, às vezes inconscientes.

O linguajar popular incorporou expressões que utilizamos sem nos dar conta das metáforas (analogias) e metonímias (deslizamento do significado) operadas pela linguagem: voz de taquara rachada; agudo como um estilhaço de cristal, botar a boca no trombone, som aveludado, etc.

Compartilho aqui pequeno trecho da autobiografia de Vladimir Nabokov, autor do célebre e "escandaloso" romance Lolita. Em Speak, Memory!, publicado pela Companhia das Letras sob o título A pessoa em questão (1994), Nabokov nos brinda com uma deliciosa descrição do que é ver com os ouvidos, uma verdadeira audição colorida:

"O longo 'aaa' do alfabeto inglês tem para mim o matiz de madeira desgastada pelo tempo, mas o 'a' francês evoca o ébano polido. Esse grupo preto [de som] inclui o 'g' duro (borracha vulcanizada); e o 'r' (um trapo sujo de fuligem sendo rasgado).
O 'n' de mingau de aveia, o 'l' flácido como macarrão e o espelho de mão com o verso de marfim do 'o' cuidam dos brancos.
Fico desconcertado com o meu 'on' francês, que vejo como as bordas de tensão superficial do álcool em um pequeno vidro.
Passando para o grupo azul, existe o 'x' da nuvem carregada e o 'k' de buckleberry.
Já que existe uma sutil interação entre som e forma, vejo o 'q' mais marrom que o 'k', enquanto o 's' não é o azul-claro do 'c', mas uma curiosa mistura de azul-celeste e madrepérola."

Após ler o parágrafo acima, fiquei tentado a fazer algumas associações entre som e imagem, mas não consegui mais do que o óbvio. Experimentei, entretanto, algo que me pareceu interessante: fechar os olhos enquanto escuto alguém falar ao telefone e construir uma imagem a partir daí. Cada 'coisa' veio na minha cabeça!

Um interlocutor que sibilava muito nos "sss" , sugeriu-me uma serpente. Outra voz me pareceu um céu enluarado. Cheguei a 'visualizar' tartarugas e pedras rolando no fundo de um rio (e não eram os Rolling Stones, garanto!).

Não foi bem a experiência do Nabokov, tão poética e bizarra.
Infelizmente...

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