01 março, 2009

In principio non erat pecunia

Pecus (gado) vale muita pecunia (dinheiro). Se é o que me falta, deduz-se que minhas posses pecuniárias são parcas, quase porcas.
É habito de políticos e administradores públicos amealhar pecunia de forma irregular, ilegal, sub-reptícia e até descaradamente desonesta. Conjugam bem o verbo peculiari, principalmente na primeira pessoa do singular (peculior) e são adeptos ao peculato (ato de roubar dinheiro público) e formam, assim, seu peculio (bens particulares, posses, haveres, dinheiro para a velhice e para velhacarias, pois sim!). O dinheiro (pecunia) público, surrupiado (sub-reptum = tirado às escondidas), torna-se peculiar (usado como próprio). [Escrevi isso aqui].

In principio non erat pecunia. No princípio, não havia dinheiro, todo sabemos. Não havia 'ciências econômicas', Ministro da Fazenda muito menos Banco Central. A coisa era tão confusa, que até o prof. Thiago Quintella confundia Fazenda e Tesouraria.

Foi preciso, então, inventar o escambo [s.m. 1 troca de mercadorias ou serviços sem fazer uso de moeda 2 p.ext. qualquer permuta].

Assim, quem pescasse mais peixe do que o necessário para si e seu grupo trocava este excesso com o de outra pessoa que, por exemplo, tivesse plantado e colhido mais milho do que fosse precisar. Esta elementar forma de comércio foi dominante no início da civilização, podendo ser encontrada, ainda hoje, entre povos de economia primitiva, em regiões onde, pelo difícil acesso, há escassez de meio circulante, e até em situações especiais, em que as pessoas envolvidas efetuam permuta de objetos sem a preocupação de sua equivalência de valor. Este é o caso, por exemplo, da criança que troca com o colega um brinquedo caro por outro de menor valor, que deseja muito.[Site do BCB]

Trata-se de um tema pelo qual jamais tive interesse especial, embora sejamos, eu e todos nós, completamente dependentes da organização econômica, luta pela sobrevivência, dependentes do dinheiro ganho autonomamente ou do salário [ etim salarìum,í 'quantia dada aos soldados para comprarem o sal; donde, soldo, salário, ordenado, emolumentos' ].


Eis que recebo um belíssimo presente, um livro ricamente encadernado, esteticamente impecável, que começo a ler e me fascina. Foi-me dado pelo próprio autor, o Prof. Carlos Perktold, de quem já falei aqui no PrasCabeças. Teve a gentileza de escrever uma dedicatória muito afetuosa, que me encheu de alegria e orgulho.

Carlos é historiador, psicanalista, colecionador de obras de arte, escritor e utilizou-se dos múltiplos saberes para produzir A Cultura da Confiança - do Escambo à Informática - A Hi$tória do Crédito no Bra$il.

Somos atravessados pela 'economia' neste mundo globalizado, no qual o dinheiro troca de mãos com a rapidez da internet, vai e volta, acumula-se e evapora-se e a crise do crédito nos assombra em manchetes apocalípticas. Há uma palavrinha, entretanto, que escapa às definições econômicas: a confiança. É na análise da 'cultura da confiança' que se pode entender melhor os fundamentos do sistema de trocas, compra e venda, acumulação e expropriação de riquezas, exploração da menos valia, os males e os bens da pecúnia.

In fine, pecuniam non habeo.
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