22 dezembro, 2008

Blogs'n soup

O tempo úmido pedia encontros calorosos e alimentos quentes regados a cervas geladas. Foi exatamente o que providenciou o grande Idelber, acrescentando biscoito fino & massa a um encontro agradabilíssimo: intimou-nos a comparecer ao tradicional Skaldos [46 tipos de caldo de fabricação própria, desde o de carne com cebola, pimentão, cebolinha, salsa, azeitona, creme de leite, palmito e milho verde ao caldo de camarão com catupiry, cebolinha, salsa e tomate] na Praça Duque de Caxias, em Santa Tereza (pertinho da famosa esquina onde nasceu o mineiríssimo Clube da Esquina).

Nem precisa dizer que havia blogueiros e comentaristas de blog, categoria de leitores atentos que enriquecem os debates provocados por textos inteligentes da blogosfera.

Lá fomos nós, Amélia, Ana Letícia&Thiago e moi-même. Ao garçon coube a façanha de rearranjar as mesas, de tal forma que todos nos acomodássemos em torno de bate-papo agradabilíssimo, animado, multi-temático, levemente alcoólico [olha a lei seca aí, gente!], futebolístico, político, psicanalítico, jornalístico, jurídico e literário [lá estava Ana Maria Gonçalves, autora de um dos mais densos, interessantes e irresistíveis romances da língua portuguesa: Um defeito de cor].
Tudo de bom foi este encontro:
Altos papos

17 dezembro, 2008

Presépio mineiro

A tradição católica diz que o presépio surgiu no século 13, quando São Francisco de Assis quis celebrar um Natal o mais realista possível e, com a permissão do papa, montou um presépio de palha, com uma imagem do Menino Jesus, um boi e um jumento vivos perto dela. Nesse cenário foi celebradada em 1223 a missa de Natal. O sucesso dessa representação do presépio foi tanta que rapidamente se estendeu por toda a Itália. Logo se introduziu nas casas nobres européias e de lá foi descendo até as classes mais pobres. [daqui]

Desde a infância acompanhei a construção de presépios na minha casa. Início de dezembro era época de a meninada correr aos quintais em busca de pedras bonitas e musgos, que serviriam de caminhos e jardins no bucólico cenário de casinhas, pastagens e a gruta onde nasceria o Menino.

Aos adultos (lá em casa era minha mãe, mesmo) competia preparar as montanhas. Como? Cobriam-se com areia de minério azul escuro e faiscante os sacos de aniagem ou o grosso papel de cimento, previamente preparados com grude feito de polvilho e água.

Aos poucos, uma cidadezinha ia surgindo, fabricada com casinhas de madeira, cerâmica e papel maché, retiradas cuidadosamente das caixas que as guardavam do ano anterior.

Era um momento mágico: minha mãe e a criançada ao lado a desmbrulhar cuidadosamente os personagens e adereços guardados do ano anterior. Alegria maior era quando surgiam os bichos: ovelhas, burro, vaca, leões, girafa, patinhos, galinhas, um zoo inteiro! Não podia faltar um garboso galo carijó, que seria colocado em destaque. Ao galo caberia cantar bem alto, anunciando o nascimento de Jesus.

Seria apenas uma lembrança do passado, não fosse a determinação da Amélia de manter a tradição aqui. Nem que fosse simples improvisação, um aranjo com manjedeoura, o Menino, José e Maria.

Aos poucos, Amélia se sofisticou e, ultimamente, o presépio foi tomando importância e ganhando detalhes. Posso dizer que se amineirou, pois se caracteriza como uma vila do interior, construída com casinhas de cerâmica moldadas pela Jovita no Vale do Jequitinhonha e outras advindas de várias regiões do Brasil.

Se, ano passado, o presépio se restringiu a uma cidade plana com suas ruazinhas tortas ladeadas de casinhas, agora em 2008, novamente ajudada pelo filho Ângelo e pela norinha Renata, as montanhas de Minas compõem o cenário:

16 dezembro, 2008

Me engana que eu gosto

Reza a lenda que nós, mineiros, vendíamos bondes elétricos aos cariocas e paulistas interioranos. O gajo adquiria o trambolho que chocoalhava na novel capital das Alterosas, mas jamais o levava pra casa.
E os mineiros ricos e bobos que compraram dos cariocas o morro do Pão de Açucar? Não comeram nem mesmo os brioches da Confeitaria Colombo.
Há terráqueos que adquiriram terrenos na Lua, desde que um sujeito esperto a registrou como propriedade particular.
No aeroporto de Brasília vi, com estes olhos que um dia a terra há de comer, ampolas contendo "ar de Brasília" vendidas em lojas de lembranças. Na época, custavam R$ 5,00 a unidade. Pois havia turistas que compravam várias!
Alguns inconformados com a aproximação da morte desembolsaram milhares de dólares para que fossem congelados pelo tempo necessário à descoberta da cura de suas doenças: esperam acordar fresquinhos, lampeiros e saltitantes, após reaquecidos da hipotermia. Pelo menos não ficarão ardendo no fogo do inferno, já que repousam no freezer.
Ao me olhar no espelho, vejo um sujeito com cara de bobo que mantém o despertador 20 minutos adiantado pra não perdar a hora!!!

Eduardo Giannetti escreveu sobre este tal de auto-engano: auto-engano é muito bom e talvez indispensável para nos sustentar neste vale de lágrimas, expulsos que fomos do Éden, após sucumbirmos às vãs promessas de uma serpente esperta. Falácias nos arrebatam, promessas elegem candidatos e fantasmas nos assombram.
Viver de ilusões e praticar a máxima "me engana que eu gosto" é tão velho quanto o salto evolutivo de macaco a homo sapiens (sapiens?). Há dois posts anteriores, quase acreditei na matéria do Estado de Minas, eu lá estampado na capa, casal vinte posando de celebridade (hehehe).
Toda essa falação aí é para recomendar este post do Milton Ribeiro: um time gaúcho comprou o nome de uma estrela da Constelação de Orion!

14 dezembro, 2008

111

Cento e onze anos completou Belô, dia 12/dez.

Igreja S. Francisco - Pampulha - BH

É uma jovem cidade, com belezas e mazelas, tão nova e tão cheia de problemas: trânsito, falta de transporte público digno, diferenças sociais gritantes. Mas é época de festa e a cidade tem lá seu lado bom, bonito, arrumado, moderno e "mineiríssimo".


Edifício projetado por Oscar Niemeyer - Praça da Liberdade - Belo Horizonte-MG


Acolheu-me há décadas. Aqui me formei, casei, tive filhos. Aqui me sustento. Não diria que já sou belorizontino, pois Nova Era ainda está em mim: menino do interior, carrego lembranças e emoções, saudades do meu pai e minha mãe que lá estão, dos irmãos, parentes.
Mais fotos AQUI.

Video sobre processo de produção e suas mazelas

Recebi o link deste vídeo. Achei interessante, apesar dos 21min de duração.

18 novembro, 2008

14 novembro, 2008

Doce-de-laranja e queijos.

Santa Maria de Itabira fica logo ali, 140km a nordeste de Belo Horizonte, depois de Itabira, a terra do Drummond. Se nada tivesse de especial, já teria a maior importância na minha vida: foi a cidade em que Amélia nasceu; é onde vive meu sogro, até hoje.

Pois foi com produtos de Santa Maria de Itabira que minha cunhada e minha sobrinha (Rosa & Adélia) presentearam-me regiamente: queijos variados e um divino doce-de-laranja (este, feito pela própria Rosa).

Assim, em pleno dia-de-semana, o almoço aqui em casa virou festa, pelo menos na hora da sobremesa, genuinamente mineira e familiar. Tivemos queijo "minas" e dois tipos de requeijão, moreninho e com raspa. Impossível comer apenas um pedaço.
Quer provar?Requeijão de raspa e moreninho, queijo "minas" e doce-de-laranja "da Rosa". Foto by Clcosta.

13 novembro, 2008

Memória x repressão x poesia

Lembrei-me agora de como fui me despertando para o mundo simbólico da poesia.

Não aquela poesia "escolar" aprendida no Grupo Escolar Desembargador Drummond, lá de Nova Era, terrinha mineira e simpática às margens do Rio Piracicaba....

Falo de quando minha cabeça foi se abrindo para o
mundo mundo vasto mundo, nas aulas de Literatura Brasileira, no antigo Colégio do Caraça. Maurílio Camello e João Batista Ferreira, outrora padres e professores, fizeram-me a cabeça. Por conta disso, tive a ousadia de escrever uma cartinha ao tio-padrinho Ismar, pedindo um livro do poeta Carlos Drummond de Andrade.

Tio Ismar tinha um modo especial de me presentear: foi-me dando, aos poucos, os livros de Monteiro Lobato, desde O Sítio do Picapau Amarelo até História do Mundo para as Crianças. Como eu viajava naquelas narrativas...

Tenho outras histórias com o Tio Ismar: deu-me o primeiro método para aprender piano, o Schmmol; levava-me a passear na Capital e, com ele conheci o asfalto (que ele brincava de chamar "chão preto"); levou-me a almoçar num restaurante "giratório", onde fiquei entre a comida deliciosa e o assombro diante das mesas que, literalmente, davam uma volta completa sobre o salão!!!


Pois bem, o tio atendeu meu pedido e enviou-me um exemplar da Antologia Poética, de Drummond. A correspondência passava na "censura prévia" do padre disciplinário (como casam os padres, este já se casou, também). Chamou-me ao seu gabinete, senho franzido, aspecto grave, tom de preocupação:

"-Meu filho, olhaqui, chegou um livro prá você, de um poeta muito esquisito!".


Impetuosamente lancei mão do livro recém desembrulhado, sobre a mesa.


"-Calma! quero comentar com você algumas coisas: veja essa poesia aqui... nem sei se é poesia".

Leu no meio do caminho tinha uma pedra..., "isso parece coisa de ateu, meu filho, sem esperança!".

Selecionou outro poema,
A Mão Suja. Escandindo bem as palavras, voz de mistério, reticente:


"- Minha mão está suja.
Preciso cortá-la.
Não adianta lavar.
A água está podre.
Nem ensaboar.
O sabão é ruim.
A mão está suja,
suja há muitos anos."


"-Tá vendo, meu filho? isso não é coisa para um jovem puro e inocente como você. O autor está incentivando a masturbação! Isso vai desviar você do bom caminho!".


Dito isso, guardou o livro sob chave, numa gaveta da escrivaninha.

Desde então, nunca mais vi a Antologia Poética do Drummond!


Minha mãe, sabedora do meu gosto pela literatura e pelo poeta itabirano, passou a me enviar, semanalmente, recortes do jornal Estado de Minas, com as crônicas e poemas do poeta C.D.A.! Mãe é mãe.


Até que, saindo do Colégio, com um dos meus primeiros dinheirinhos, logo comprei aquele livro e muitos outros.... Só então, após anos, pude, enfim, usufruir do "presente" do Tio Ismar!

12 novembro, 2008

Vade retro

Dentre as muitas vicissitudes por que passam os viajantes aéreos, os atrasos nos vôos talvez sejam os menos trágicos.

Foi um desses atrasos de Brasília para BH que me fez chegar ao Aeroporto de Confins (oficialmente "Tancredo Neves) às 23,50h de uma sexta-feira, 13.
Para vencer os 40km até o centro da cidade, tomei um taxi. Ao me acomodar no banco de trás, senti logo um odor muito forte de incenso, ao mesmo tempo que vi o motorista fazer o sinal-da-cruz. Beijou o crucifixo pendurado no retrovisor e, dando partida, murmurou:
- Vade Retro, Satanas.
- O que disse?
Imagino que não queria que o tivesse escutado, pois respondeu, defensivamente:
- Nada não, senhor!
Insisti, até que começou a contar:
- Peguei essa mania há muito tempo, desde quando nem existia o aeroporto tão distante. É uma formula que utilizo para espantar os fantasmas noturnos.
- Por acaso tenho cara de fantasma?
- Não, é claro que não, embora a gente nunca possa ter certeza. O senhor me desculpe, mas comigo aconteceram algumas coisas muito estranhas e não posso deixar de me prevenir. Vou explicar: da primeira vez, eu trabalhava com um Opala Chevrolet. Meu pai ficava com o carro durante o dia e eu, por ser mais novo, pegava à noite. Numa sexta-feira, noite fria de junho, descia a Avenida Afonso Pena bem devagar, procurando passageiros. Naquela época, havia muitas árvores, a iluminação era fraca e os ônibus demoravam a passar. Pois foi exatamente num ponto, pertinho da Praça Tiradentes, que uma mulher acenou. Era alta, loura, usava sapatos altos e estava vestida como se fosse para uma festa. Achei estranho, pois as mulheres daquele tipo não andavam sozinhas, só as putas, o senhor entende. Mas não tinha cara de puta, de jeito nenhum. Abri-lhe a porta. Ela entrou e, com ela, um perfume que nunca havia sentido: - Leve-me à Rua Mariana, no Carlos Prates. "Deve ser uma delas", pensei, pois naquela região havia umas casas de mulheres suspeitas, ou da vida, como diziam. Não puxei assunto, nem ela falou nada. Apenas aquele perfume do qual nunca mais esqueci. As tais casas ficavam no início da Rua Mariana, mas ela pediu para tocar em frente. Fui subindo devagar, esperando que me mandasse parar. Até que chegamos, sabe onde? Em frente ao Cemitério do Bonfim. "Pare aqui", disse, com voz ríspida. Olhei o taxímetro e dei o preço. Ainda era em cruzeiros, o senhor se lembra? Pois a dona me deu uma nota de cinco mil, para pagar uma corrida de dois e quatrocentos. Abri minha carteira para pegar o troco e, quando me virei, o banco de trás estava vazio! "Cadê a mulher?", perguntei a mim mesmo. Estremeci, pois o perfume foi substituído por um cheiro forte de enxofre. Olhei para fora e vi o portão do Bonfim fechando-se lentamente, mas não vi ninguém, nenhuma alma. Deu-me uma tremedeira danada... Gritei: "Valha-me São Cristóvão!" É o padroeiro dos motoristas, sabia? Acelerei o carro, nem olhei prá trás. Desde aquele dia, sempre faço minhas orações. Depois que aprendi a fórmula do exorcismo com um padre, então fiquei mais seguro. Por isso, o senhor me desculpe, não tem nada a ver com o senhor, por isso, toda vez que entra qualquer passageiro no meu taxi, já me previno: "Vade retro, Satanas".
O senhor vai prá onde, mesmo?
Com um sorriso diabólico, respondo:
- Rua Mariana, por favor...
[A lenda da Loura do Bonfim alimenta o imaginário belorizontino desde a década de 50. Já virou filme. Eu aumento, mas não invento.]

10 novembro, 2008

Pro Allan


Licor Piacenza 1, upload feito originalmente por ClaudioCosta.

Esta foto vai pro Allan, do Carta da Itália. Ele mora na cidade de Piacenza.

Quem diria que no Mercado Central de Belo Horizonte existe um licor com o nome de Piacenza? Pois é...

A gente vai andando, olha uma coisa ali, outra lá e, de repente, topa com o nome Piacenza. Aí, vem à lembrança: Conheço quem mora lá, o Allan. A seguir, num ímpeto, saco da algibeira (quer dizer, do bolso mesmo) a máquina fotográfica: Vou mandar esta foto pra ele. Bom, pra ser sincero, acho que pensei em comprar o licor Piacenza e levar até lá, bem ali pertinho, só atravessar o Atlântico.

[O Piacenza é fabricado em Brumadinho, a 60km de BH. Parece que algum imigrante italiano resolveu homenagear suas origens. Há um número de telefone; chamei e ninguém atendeu. Se descobrir, conto. A propósito, a cidade abriga o Centro de Arte Contemporânea de Inhotim.]

O rótulo presentificou uma pessoa que nunca vi (a não ser por foto e pelos deliciosos textos).

No seu post de hoje, Allan comenta as implicações da diferença de fuso horário, que varia de 3 a 5 horas entre Piacenza e Brasil. Por uma coincidência cósmica (não acredito nisso, mas existe!), só agora, ao postar, observo o mostrador do relógio da foto acima. Alguém percebeu algo curioso?

Pra você, Allan, um brinde.

05 novembro, 2008

Soié na Folha de São Paulo

Mais um feito grandioso do Soié, meu pai: uma entrevista com ele, na Folha de São Paulo, no caderno de Informática de hoje.
Veja lá no blog dele, o Ontem-Hoje.

28 outubro, 2008

Aniversário de casamento

Informo a todos que ganhei na loto,
na loteria esportiva e no bingo.
Ganhei na mega-sena, sim, senhor!
Achei um trevo de quatro folhas e
caminhei até o fim do arco-iris:
o pote de ouro é meu.
Olhei pro céu e vi
a estrela cadente:
fiz o pedido,
concedido!
Furei a pedra: petróleo!
Cavei o chão: diamantes!
Olhei pra ela e ela sorriu.
Brinquei. Riu.
Amei.
Amo.
Amélia.

18 outubro, 2008

Congresso e amenidades

O Planalto Central está quente e seco. Mas há razoes para um passeio no Pontão, à beira do lago Paranoá: alguns restaurantes, os reflexos das luzes da Capital e a lua cheia soberana que me convida a passear tranquilamente com Amélia. Não diria que enlouqueci e, como Ismália, enxerguei ''uma lua no céu, outra lua no mar''. Não. Mas o poeta Alphonsus, certamente, repetiria a metáfora se aqui estivesse e fosse estimulado pelo chopp geladíssimo do Bierfass.

Congressos são para trabalho, estudo, encontros com um milhão de colegas e centenas de ex-alunos, muitos deles espalhados por esse país: Florianópolis, Recife, São Paulo, Juiz de Fora, Ceará, interior de Minas, etc.

Mas vir a Brasília teve outro especial sabor, o sabor dos abraços aos amigos Paulo & Letícia e Valdir & Autinha.

No mais, é correr de uma sala a outra, caminhar meia maratona dentro do Centro de Convenções Ulisses Guimarães, enorme. Além disso, há os stands da indústria farmacêutica, tal como uma feira de parque de diversões, cada laboratório brigando para atrair a atenção dos congressistas para seus produtos. Distribuem material científico, claro, mas repartem brindes, lanches, sorvetes, bugigangas. Também há utilidades, como livros técnicos, vídeos educativos (na área psiquiátrica) e ilhas de conforto onde nos assentamos com os colegas, descansamos as pernas e combinamos o que fazer, à noite, que ninguém é de ferro.

Tudo isso aconteceu de quarta até hoje. À tarde, encerra-se o evento e amanhã estaremos de volta a Beagá.

O intervalo na rotina diária é, igualmente, outra grande motivação para sair por aí, todo ano, cada vez em uma cidade. Ano que vem o Congresso da Associação Brasileira de Psiquiatria será em Sampa. Depois, em Fortaleza.

A ciranda continua, a engrenagem gira e a lusitana roda.

11 outubro, 2008

O psicopata: camaleão social

São impressionantes os relatos, teorias, estatísticas e conclusões com as quais me deparei ao ler o "O Psicopata - um camaleão na sociedade atual", do espanhol Vicente Garrido.
Psicopatia é tratado pela Psiquiatria como um transtorno de personalidade, muito grave, cujos critérios diagnósticos o DSM-IV (manual diagnóstico da Associação Psiquiátrica Americana) enumera:

Ocorrência de um padrão de desrespeito e violação dos direitos dos outros, ocorrendo desde a idade de 15 anos, como indicado por três ( ou mais ) dos seguintes comportamentos:

1) falhas em adaptar-se às normas sociais que regem os comportamentos legais, indicadas pela repetição de atos que são motivos para prisão.

2) propensão para enganar, indicada por mentiras repetitivas, uso de
codinomes e manipulação dos outros para benefício ou prazer pessoal.

3) impulsividade ou falha em planejar o futuro.

4) irritabilidade e agressividade, indicado por brigas e agressões repetitivas.

5) desrespeito negligente pela própria segurança ou dos outros.

6) irresponsabilidade, indicada por falhas repetitivas em sustentar um trabalho consistente ou honrar obrigações ( financeiras ou morais ).

7) falta de remorso, indicado pela indiferença ou racionalização ao ter maltratado alguém ou roubado alguma coisa.

Estas características do transtorno antissocial são facilmente reconhecidas e nos fazem acreditar que somente criminosos cruéis e serial killers seriam psicopatas. Vicente Garrido salienta que há os dissimulados, os camaleões:

Muitas outras pessoas são psicopatas e não se dedicam ao crime. Podem viver em nosso prédio, ser nosso marido, esposa ou amante, nosso filho, nosso colega de trabalho, um político... É vital compreender isso, enxergar a magnitude do problema.

Tenho quase certeza de que o leitor deste post conhece um ou mais camaleões psicopatas, basta atentar para alguns de seus traços: têm eloquência e encanto superficial: falam muito, expressam-se com encanto, têm respostas espertas; não têm remorsos, são egocêntricos, mentem e manipulam o outro; são impulsivos, quase sempre irresponsáveis.
Meu primeiro psicopata
Meu primeiro contato com um psicopata se deu quando eu era estudante de medicina, fazia estágio em uma clínica psiquiátrica. Lembro-me com detalhes do caso e do paciente que fora internado enquanto se discutia sua inimputabilidade num crime hediondo.
Tratava-se de um jovem de vinte e poucos anos, bancário. Ao rapaz competia levar grande soma de dinheiro vivo para ser depositado no cofre do Banco do Brasil. Era acompanhado por um colega. Apenas algumas quadras separavam as agências, de forma iam os dois, quase todos os dias, carregando uma bolsa recheadíssima.
Pois nosso personagem convenceu o colega a sumirem com tudo. Deixaram um fusquinha nas imediações e fugiram com a grana pela BR-40, em direção ao Rio. Num local ermo, entra numa estradinha de terra, mata o amigo e põe fogo no corpo e no carro. Some. Alguns dias depois reaparece e acusa o colega de sequestrá-lo e tentar assassiná-lo. Lutaram e o carro se desgovernou, capotando e se incendiando, explicou. O crime se esclareceu e os advogados alegaram "doença psiquiátrica".
Pois bem, acreditem se quiserem, mas o jovem tinha bom papo, era cordial com todos. Entretanto não se mostrava arrependido, dizendo que foi tudo loucura. Jogou papo pra cima de uma jovem psiquiatra que por ele se apaixonou! Conseguiu relaxamento da vigilância e fugiu da clínica. A médica quase morreu de paixão.


O livro do Garrido discorre sobre teorias da psicopatia, causas, etc. Fala do psicopata no mundo dos negócios e das profissões. Está disponível, no Brasil, pelas Edições Paulinas.

Temos assunto para mais um post: o psicopata nas organizações/instituições.

27 setembro, 2008

À mesa, como convém

Não foi hoje nem no ano passado, talvez tenha acontecido há 15 anos. A lembrança me assaltou agorinha mesmo, ao almoçar com Amélia e o filhote Leo, mais a Julinha dele.

Você já deve ter constatado que assunto puxa assunto, o que Freud chamaria de 'livre associação' e o mineiro simplesmente diz um causo puxa outro causo. Quer exemplo? Se alguém conta um acidente terrível, o amigo aparece com outro pior. Se você relata uma decepção, o desencanto alheio acabou de acontecer. E por aí vai.

Em restaurante é assim: enquanto o pedido não chega, belisca-se um tira-gosto (ou couvert, se o local for mais chique) e fala-se de... comida!

Pois foi a legítima livre associação que me transportou no tempo.
Fomos - Amélia & eu - comemorar aniversário de casamento no Mandrágora, outrora um dos melhores restaurantes portugueses daqui de Beagá. Cito-lhe o nome sem receio algum de ser desmentido, pois não existe mais, sumiu do mapa (não por minha culpa, juro!) e talvez ninguém se lembre dele.

O Mandrágora ficava pros lados da Savassi, próximo do local onde estávamos hoje. A região e a espera pelo prato que demorava desataram as amarras mnêmicas.

No Mandrágora, pedimos o prato mais conceituado: bacalhau gratinado ao molho branco sei-lá-de-quê e vinho, comme il faut. Seria um jantar à luz de velas, apetrecho que dá upgrade no romantismo, você sabe. Amélia estava linda, como sempre - continua linda até hoje, ao contrário do marido dela.

Demorava o garçom, quase tanto quanto contou outro dia a Elza, mas não nos incomodava. Estávamos em plena comemoração, tínhamos tempo e não nos perderíamos em contrariedades.

O garçom, enfim, anunciou um tanto afetado: "Posso servir o jantar?". Assenti com leve mesura, como pedia a ocasião.

Delicadamente pousou sobre a mesa um belíssimo gratinado, estalando de quente. Serviu primeiro a dama que me acompanhava.

Olhos nos olhos, tilintamos as taças e principiamos a comer:

- E aí, está gostando?
- É, parece que está bom, disse Amélia.
- E o bacalhau?
- Ainda não senti gosto algum.
- Eu também não.

Mais uma ou duas porções e... nada de bacalhau.
- Vamos chamar o garçon?
- É mesmo, ele já vem aí.
- Seu garçon, por favor, pode servir o bacalhau?
- Ele já está servido, senhor.
- Onde?
- No seu prato, senhor, com o molho.
- Interessante, não sentimos o gosto...
- É o melhor prato, senhor, nunca tivemos reclamação.
- Vou pedir-lhe uma coisa, talvez imprópria, mas não vejo alternativa. Prove e confira.

Meio a contragosto, recolhe a travessa e a leva de volta à copa. Minutos depois, retorna:
- Desculpe, senhor, houve um engano.
- Qual?
- A cozinheira se esqueceu de colocar bacalhau, senhor.

Amélia e eu nos entreolhamos e, como nos é típico, caímos na gargalhada:
- Bacalhau sem bacalhau, hahaha!

O garçom, sério:
- Os senhores nos desculpem. O gerente autorizou-me a serví-los corretamente. Já está sendo providenciado novo prato. Como prova de nossa consideração e sinceridade, não lhes cobraremos o jantar, exceto o vinho. Está bem assim?
- Claro! Afinal é nosso aniversário de casamento e o Mandrágora nos presenteará, não é mesmo?
- Será um prazer, senhor.

Jantamos um delicioso bacalhau ao molho de não-sei-o-quê, bebemos ótimo vinho e a noite apenas começava.
__________________
O título deste post é homenagem aos velhos e bons tempos do Jornal do Brasil(RJ), quando eu lia a coluna de gastronomia do Apicius e não podia pagar sequer uma sardinha, quanto mais um bacalhau.

14 setembro, 2008

Broken heart

A notícia:
Um órgão parecido com um coração foi encontrado, no ínicio da tarde desta terça-feira, dentro de um vidro na lixeira de um dos banheiros do terminal de passageiros do Aeroporto de Confins. De acordo com a assessoria de imprensa do aeroporto, o órgão foi encontrado por um passageiro.


O que o jornal não contou é que havia uma carta!

No saguão do aeroporto, eu esperava o Milton Ribeiro que prometera vir de Porto Alegre. Minha atenção foi atraída por um moço a gritar:
- Polícia!
Carregava um saco plástico transparente. Dentro havia um vidro daqueles de boca larga, de guardar biscoito de polvilho. Lá em casa tem vários desses, pensei.

Aproximei-me e distingui o que me pareceu uma peça anatômica. Identifiquei-me como psiquiatra e pedi às pessoas se afastarem um pouco para que pudesse socorrer o moço em crise de histeria.
Foi logo dizendo:
- Dr., toma isso aqui, não aguento nem ver sangue, quanto mais um coração ainda fresco!
- Acalme-se, deve ser doação para transplante. Sou médico e vou levá-lo para o Hospital das Clínicas.

Havia um envelope junto ao recipiente e não hesitei em surrupiá-lo, despistadamente. Pensei: "deve ser a explicação".
Aos seguranças apontei o moço:
- O pacote é dele. Eu vi quando saiu do sanitário masculino.
Levaram-no para a Administração, acho.

Quanto a mim, saí de fininho. Longe de todos, li:

"Se você achou este vidro contendo um coração, não o jogue fora. É o meu. Durante meses amei uma pessoa linda, maravilhosa, alegre e radiante. Ela não me conhecia, mas eu descobri onde morava. Toda manhã estava no mesmo ponto em que ela tomava o ônibus para o centro. Talvez nem me enxergasse, nunca respondeu a um Bom dia! sequer. Pensava nela durante o trabalho, o dia inteiro. Ensaiei muitas vezes chegar perto, identificar-me e declarar meu amor, mas não consegui. Imaginava: Olha, moça, não te conheço, mas quero te dizer que meu coração te pertence. Eu te amo!

De repente, ela sumiu.
Hoje cedo, vi a aliança em sua mão esquerda. Concluí que se casara, deve ter viajado para lua-de-mel e, agora, voltou. Fui traído covardemente!

Resolvi desaparecer, viajar para longe, sem volta. Antes de embarcar, arranquei do peito meu coração pulsante e o deixei bem à vista. Já vou embarcar. Adeus!

Peço a quem encontrar que
entregue o vidro e o bilhete na Rua Eng° José Schultz Leonel, s/n. Bairro da Saudade."


-------

Nas gravações das câmeras de segurança do aeroporto, a polícia constatou a presença de um jovem que claudicava em direção à fila para vôo 3341, das 8,30h.
Semblante tranquilo, não chamava a atenção, exceto por ter um imenso buraco no peito.

13 setembro, 2008

Flower at night


Flower at night, upload feito originalmente por ClaudioCosta. Foto: by Cláudio Costa.

No repente: 

um olhar

 uma idéia

uma foto

Sob o negrume do céu
Em cálida noite
a Flor

08 setembro, 2008

Número 13

O site da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais(FHEMIG) noticia o lançamento, amanhã, do número 13 da Revista de Psiquiatria & Psicanálise com Crianças & Adolescentes (ISSN 0104 8414):

A Revista de Psiquiatria & Psicanálise com Crianças & Adolescentes, do Centro Psíquico da Adolescência e Infância (Cepai), da Rede Fhemig, chega a sua décima terceira edição.


A publicação divulga artigos de interesse da saúde mental ligados à criança e o adolescente e é distribuída gratuitamente.

Os interessados podem entrar em contato pelo e-mail do Cepai [ cepai.nep@fhemig.mg.gov.br ] e solicitar um exemplar.
No Estado de Minas Gerais, quatros instituições formam médicos psiquiatras.
Ao todo, 15 equipamentos, entre públicos e privados, no Brasil oferecem essa modalidade de especialização médica. A residência médica é regulamentada pelo Ministério da Educação e foi instituída em 1977 como pós-graduação.
O Cepai oferece cinco vagas para Residência Médica em Psiquiatria da Infância e Adolescência. Participam do lançamento, nesta terça-feira, dia 9, às 9h30, no auditório do Cepai, o presidente da Fhemig, Luís Márcio Araújo Ramos, e diretores de Ensino e Desenvolvimento de Pessoas, Christiano Canêdo, do Complexo de Saúde Mental da Fhemig, Daniel Freitas, e do Cepai, Augusto Nunes Filho. Além de funcionários da casa e instituições parceiras.

Como editor da Revista e Coordenador da Residência Médica de Psiquiatria da Infância e Adolescência, terei prazer em recebê-los, amanhã (09.set), às 9,30h, para um café receptivo (é assim que se diz?), no Cepai.

[O lançamento do número 12, em fins de 2006, mereceu um histórico caprichado no jornal da instituição, que publiquei aqui.]

07 setembro, 2008

Amar é...

Se há um tema recorrente em toda a literatura, este é o Amor. Com A maiúsculo ou a minúsculo, com sentido sublime ou carnal, o Amor é cantado em prosa e verso. Além de inspirar poetas, dramaturgos, artistas de toda espécie, o sentimento amoroso desafia um entendimento racional e é impossível de ser tabulado, medido, previsto, quantificado, etc.

Mais recentemente, cientistas alardeiam ter encontrado uma área cerebral responsável pelo amor: sítios neurológicos que "captam" mais dopamina e desencadeiam sensações de prazer quando alguém se depara com o objeto amado (a palavra objeto, aqui, não tem nenhum significado pejorativo, coisificante).

Os poetas hão de desdenhar a apropriação biologicista de sentimento tão universal quanto inexplicável. Dirão - com razão - que "amor não é pulsão sexual".

Os filósofos se definem como "amantes" da sabedoria, pois se entem inspirados pelo "amor ao conhecimento"!

O Dicionário Larousse de Psicanálise (Dictionnaire de la Psychanalyse - reférences Larousse) assim definiu o Amor: "sentimento de afeição de um ser por outro, às vezes profundo, violento mesmo, mas sobre o qual a análise mostra que pode estar marcado pela ambivalência e, sobretudo, que não exclui o narcisismo". Ufa! Nada simples: sentimentos quase antagônicos se misturam no que seria o amor: afeição, violência, ambivalência, narcisismo - poderíamos acrescentar: ilusão, imaginário, projeção, sentimento de posse, ciúmes, ódio, medo, sexualidade e um longuíssimo etcoetera!

"Amor e ódio são as duas faces de uma mesma moeda", já ouvi em algum lugar. Por isso se diz que "o contrário do amor não é o ódio - como parece - mas a indiferença".
Quantas vezes escutei, na clínica, os lamentos de gente recém-saída de um relacionamento amoroso:
-"O pior, doutor, é que nem se passaram duas semanas e ele já arrumou alguém! Eu, aqui, sofrendo. Como posso acreditar que em nossa relação teve amor? Se ele gostasse mesmo de mim, não arrumaria outra pessoa tão rapidamente! Isso mostra que eu não significava nada!" A dor está aí: nada significar para o outro, ser-lhe indiferente.

Ou então:
-"Após a separação eu estava ótimo, já me acostumando com a vida de solteiro, dando minhas saídas. Mas outro dia, num restaurante, eu a vi acompanhada e meu mundo desabou!" Constata-se que é substituível. Oh dor!

Por mais dicionários que se utilizem, pouco saberemos do Amor. Usa-se o A maiúsculo para indicar que essa experiência quase inefável seja um "deus". Nas religiões, principalmente no Novo Testamento, há uma definição de Deus: "Deus é amor". Lembro-me de meus tempos de Colégio do Caraça, onde as Semanas Santas eram comemoradas ainda de acordo com a liturgia romana em latim: Ubi amor est, Deus ibi est: onde existe amor, Deus aí está. Cantávamos em gregoriano...

Só mesmo poetas descobrem palavras para falar do amor. Para quem não experimentou este sentimento, tudo parece ridículo. Dizem: "amantes são ridículos".

O amor não se explica, vive-se. Quem está de fora jamais poderá compreender como se formou este ou aquele casal.
Outro dia, escutei:
-"Não sei o que fulano viu naquela garota tão sem graça."
Ainda:
-"Como pode uma menina tão feiinha arrumar um cara tão gato?"

Geralmente, após uma ruptura ou durante um relacionamento tumultuado por brigas e até maus tratos, a "vítima" se lamenta:
-"Não sei porque, mas não consigo me livrar daquele cafajeste!"
-"Por mais que eu tente, não me esqueço daquela vagabunda!"

Nosso inconsciente não têm explicação racional, visível. Algo foge de nosso controle e somos apanhados por um objeto que desperta nosso desejo. Quantas fantasias embalam o sentimento amoroso e edulcoram o objeto amado! Fantasias necessárias, saudáveis, deliciosas. Explicações não são mesmo necessárias. Quanto as encontramos, descobrimos logo que são insuficientes. Melhor mesmo é amar e pronto!

Não há como negar a propriedade do psicanalista francês, Jaques Lacan, quando assim define o amor:

-"Amar é dar o que não se tem a quem não sabe o que quer."

E você, discorda?

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