24 fevereiro, 2009

Carnaval2009

Maria Eduarda e Aroldo - Foto by Cláudio Costa (Nova Era-MG, 2009)



Alegria


será todo ano
igual àquele que passou?

será que ninguém aprende
nas escolas de samba
que aquilo que se faz
na marquês de sapucaí
não é samba não?

o show de rock
a festa do axé
a praia entupida
o gole tomado
a ida e a volta
engarrafado na estrada
o que resta de tudo?

amanhã
cinzas
_________________________________________________________________
Pra não dizer que não houve festa, alegria espontânea, graça engraçada e boa lembrança, vejam o post do Soié, lá no Ontem&Hoje, meu pai de 85 anos comandando a Banda dos Farrapos:

14 fevereiro, 2009

Mensagem aos arrogantes


Sei que vocês, arrogantes,

violentamente deformados e quebrados

pelos golpes indeléveis da inveja,

ainda exibirão por algum tempo

o último perfil que representam:

olhares indiferentes a um pedido,

pernas firmes que simulam segurança,

músculos tensos em inútil esforço,

fartas cabeleiras que escondem a idade,

olhos abertos que não transmitem paz.


Pois sua ignóbil arrogância,

sua postura calculada,

sua desdenhosa segurança,

tudo isso acabará, um dia!


O tempo é persistente, tenaz.

A terra também espera por vocês:

Ao pó retornarão.


Cairão sob o próprio peso,

haverão de ser cinzas, ruínas, poeira,

quando sua pretensa imunidade nada mais será!

Tornar-se-ão pequenos, já que pequenos nunca deixaram de ser,

pessoas sem vida, puro escombro,

depois de ter vivido por um tempo

ostentando simulacros de vitórias

- glória vã de algo a dissolver-se

em eterno esquecimento!


************)(************


Livre adaptação de um poema de Angel Gonzales

11 fevereiro, 2009

Manchete bizarra

Parece-me que o Estado de Minas, que se auto-intitula o "grande jornal dos mineiros", contratou um bufão pra fazer suas manchetes da primeira capa. Olha essa aí, que 'bobeira'...

06 fevereiro, 2009

Become the hero

Em 15 de janeiro, mês passado, o piloto de um A320 conseguiu descer a aeronave no Rio Hudson, evitando centenas de mortos.
Pois não é que, algumas horas depois, o mineirim Leo Mendonça teve o clic: criou um jogo em que você pode se tornar um herói caso consiga realizar a mesma proeza do Comandante Sullenberger.
E aí, quer tentar?

Jogue aqui: Become the hero

30 janeiro, 2009

Existe tratamento para os "maus"?

O que tem de "gente ruim" por aí não tá no gibi, mas todo o dia os jornais ("escritos, falados e televisivos") nos inundam com notícias de assassinatos, roubos, sequestros, pais que jogam filhos pelas janelas, torturas, etc.
A violência nos horroriza e às vezes dizemos: 'só um desumano faria uma coisa dessas', 'esse cara é um animal', 'é o capeta!".
Mas é tudo coisa do bicho homem, de gente como a gente (ohhh!), pessoas que nasceram ali ao lado, são nossos vizinhos, nosso chefe, alguém com cara de santo e, de repente, o cordão de maldades aparece. Por isso cabe a pergunta:
A Psiquiatria acaba sendo convocada a opinar sobre esses sujeitos, principalmente quando aparece um serial killer, um psicopata.
Existe tratamento?
Acabo de ler uma entrevista do Dr. Michael H. Stone, Psiquiatra da Universidade de Columbia-NY, concedida ao jornal "Psiquiatria Hoje". Foi o Dr. Michael que elaborou um índice de maldade, uma escala aterrorizante, constando de 22 ítens. Michael adverte que a escala gradativa de maldade visa apenas entender as causas do assassinato e deve ser utilizada apenas para fins científicos, não sendo adotada pela Corte Forense:

Nível/Critério
01
Mata em defesa própria e não demonstra tendências psicopatas.
02
Amante ciumento, egocêntrico ou imaturo, que não demonstra tendências psicopatas.
03
Tendência à companhia de assassinos: personalidade aberrante -- provavelmente movido pelo impulso, com características anti-sociais.
04
Mata em defesa própria, após ter submetido a vítima a provocações extremas para que o atacasse.
05
Traumatizado, pessoa desesperada que mata parentes e outros (para dar suporte a hábitos vinculados ao uso de drogas) mas carente de traços marcantes. Genuinamente pré-disposto ao remorso.
06
Impetuosidade, assassino impetuoso, porém sem características psicopatas marcantes.
07
Altamente narcisista, não se distingue de uma pessoa psicopata com fundo psicótico que mata outras pessoas ao seu redor (tendo o ciúmes como motivo fundamental).
08
Pessoa não-psicopata com raiva latente e que mata quando tem essa raiva inflamada.
09
Amante ciumento com características psicopatas.
10
Assassino de pessoas que estavam "em seu caminho", ou que matou, por exemplo, testemunhas (egocêntrico, mas não distintamente psicopata).
11
Assassino psicopata de pessoas que estavam "em seu caminho".
12
Psicopata com sede de poder, que mata quando encontra-se encurralado.
13
Assassino com inadequação social, personalidade cheia de fúria que ataca quando se vê pressionada.
14
Impiedoso, rude e auto-centrado, planejador psicopata.
15
Psicopata de sangue-frio, assassino impulsivo ou assassino múltiplo.
16
Psicopata que comete múltiplos atos bárbaros.
17
Assassino em série sexualmente perverso, assassino-torturador (entre os homens, o estupro da vítima é o principal motivo que conduz ao assassinato, com intenção de ocultar as provas. A tortura sistemática não é principal motivação.)
18
Assassino-torturador cujo assassinato é a principal motivação.
19
Psicopata cujas principais motivações são o terrorismo, a subjugação, a intimidação, a violação e o estupro.
20
Assassino-torturador cuja tortura é a principal motivação, mas em personalidades psicóticas.
21
Psicopata preocupado com a tortura ao extremo, mas não conhecido por ter cometido assassinato.
22
Psicopata assassino-torturador, que possui a tortura como motivação principal.
Na entrevista, o Dr. Stone explica que há diversas abordagens daqueles que têm transtornos graves de personalidade e que poucos se adaptam a alguma terapia. Confessa que não há muito que fazer, e o sistema os mantém hospitalizados. "Damos a eles jogos e atividades, exercícios e comida apropriada, etc., e isso é tudo que temos".
Há pessoas que, mesmo intratáveis, não cometeram crimes e vivem na sociedade: alguns são arrogantes, desagadáveis, tornam infelizes as vidas de seus familiares e colegas de trabalho (eu conheço gente assim...).
Sobre os assassinos em série (serial killers), classifica-os em três grupos:
a) anjos da morte: enfermeiros e médicos que matam pacientes em hospitais com drogas letais;
b) pessoas misantrópicas: odeiam pessoas em geral e matam homens, mulheres e crianças sem nenhum motivo sexual;
c) homicidas sexuais: têm uma motivação sexual clara. Há alguns que chegam a experimentar orgasmo durante o crime; têm personalidade sádica (prazer obtido no sofrimento do outro).
O médico de NY advoga que todos os assassinos sexuais em série deveriam ficar presos pelo resto da vida.
Parece que o diabo existe e anda ao redor de nós:

29 janeiro, 2009

O ENTRUDO DAS PALAVRAS


As palavras agarram-se às coisas e ao tempo
Vêm de tão longe carregadas de vida e de sentido
Que só se deixam conhecer por música.
Escrever é pôr uma máscara que as esconde
E as deixa a dormir esperando quem as diga.

Há palavras com as asas do sentido cortadas
E quando as dizemos não somos capazes de voar
Nem nós as entendemos
Porque andamos com elas no bolso
Como cachico de vida que ficou agarrado ao retrato.

As palavras têm bilhete de identidade
E certidão de nascimento
Há que entrar em casa delas uma por uma
Descobrir o que têm dentro
E estendê-las à janela como mantas em manhã de S. João.

Poema de Fracisco Niebro Original escrito em língua mirandesa Tradução de João Ferreira
(Do livro Cebadeiros, da autoria de Fracisco Niebro.
Porto: Campo das Letras, 2002)

25 janeiro, 2009

Tiradentes: Mostra de Cinema

Começou neste final de semana a XII Mostra de Cinema de Tiradentes-MG, que acompanhamos desde sua primeira edição.
Neste 2009, infelizmente, não estamos lá. Mas as lembranças de mergulhos no mundo da tela grande, pré-estreias (será que aprendo a nova ortografia?), artistas e equipe técnica trançando prum lado e pro outro ainda alimentam meu espírito.
A cidade é fotogênica demais.
Impossível falar de Tiradentes sem recordar o piuíííí do trem:

22 janeiro, 2009

Queijo canastra

A tradição mineira de presentear com queijo ("um queijim") vem de longe...
A reportagem do "Terra de Minas" desta semana falou da Serra da Canastra, onde se produz o melhor queijo das Gerais. Num dos segmentos do programa, um pouco do nosso linguajar típico e 'segredos' de fabricação do famoso "queijo canastra". Clique e veja.

05 janeiro, 2009

Três filmes: 2 bons, 1 dispensável

Nunca antes na história deste país tivemos tão grande sequência de feriados e, graças à minha amnésia meteorológica, creio que jamais caiu tanta chuva em tão pouco tempo. Daí, que o programa mais frequente foi, mesmo, permanecer em casa, usufruindo as delícias domésticas (interprete como quiser; critique se puder).
Um dos programas foi assistir aos filmes da hora:
1- Sete vidas (Seven Pounds/ EUA, 2008)
Diretora:
Gabriele Muccino
Roteirista(s): Grant Nieporte
Elenco: Will Smith, Rosario Dawson
Sinopse: No filme, Smith interpreta Ben Thomas, um agente do Imposto de Renda com um segredo trágico que embarca numa extraordinária jornada de redenção que mudará para sempre a vida de sete estranhos. Um mistério intrigante e uma história de amor surpreendente, Sete Vidas (Seven Pounds) levanta questões perturbadoras acerca da vida e da morte, arrependimento e perdão, estranhos e amizades, amor e redenção - e explora as relações que unem os destinos das pessoas de modos surpreendentes.
O argumento é interessante, prende nossa atenção e suscita algumas De início, achei bastante lento e fragmentado. Mas a trama ganha densidade a partir do ponto em que se centra na relação entre o Will e Dawson. Não é moralista, apesar de tocar na universal questão da culpa. Em resumo: gostei muito e recomendo. Trailer.
2. Crepúsculo (Twilight/EUA 2008)
Direção: Catherine Hardwicke
Roteiro: Melissa Rosenberg
Elenco: Kristen Stewart, Robert Pattinson
Sinopse: Isabela Swan vai morar com seu pai em uma nova cidade, depois que sua mãe decide casar-se novamente. No colégio, ela fica fascinada por Edward Cullen, um garoto que esconde um segredo obscuro, conhecido apenas por sua família. Eles se apaixonam, mas Edward sabe que quanto mais avançam no relacionamento, mais ele está colocando Bella e aqueles à sua volta em perigo. Quando ela descobre que Edward é, na verdade, um vampiro, ela age contra todas as expectativas e não tem medo da sede de sangue de seu grande amor, mesmo sabendo que ele pode matá-la a qualquer momento.
Embora seja classificado como 'suspense', trata-se de um mix de ação, suspense e romance água-com-açucar. É o velho tema da atração pelo perigo, pelo estranho, pelo diferente. Pelo que li, está fazendo grande sucesso pelo mundo afora, com legiões de meninas (adolescentes) morrendo de amores pelo Robert Pattinson. Talvez seja pelo 'olhar feminino' que rege a direção: as meninas querem desvendar o mistério que possuem os homens e se mostram dispostas a tudo para isso. Um 'romeu e julieta' meio dark, com fotografia pálida, quase noir. Quase não consegui ultrapassar os primeiros 20 minutos, até que a trama envereda pela ação. Há uma certa mensagem acerca da aceitação das diferenças.
Fraco. Pior: parece que já está programado o Crepúsculo-2, a seqüência.
3. Na Natureza Selvagem (Into the wild/EUA, 2007)
Site Oficial: www.intothewild.com
Direção: Sean Penn
Roteiro: Sean Penn
Sinopse: Após concluir seu curso na Emory University, o brilhante aluno e atleta Christopher McCandless (Emile Hirsch) abre mão de tudo o que tem e de sua carreira promissora. O jovem doa todas as suas economias - cerca de US$ 24 mil - para caridade, coloca uma mochila nas costas e parte para o Alasca a fim de viver uma verdadeira aventura. Ao longo do caminho, Christopher depara-se com uma série de personagens que irão mudar sua vida para sempre.
Só por ter sido dirigito e roteirizado por Sean Penn, já é uma recomendação para Na Natureza Selvagem. Minha filha Ana Letícia foi quem me recomendou: - "Pai, você vai adorar este filme!"
A história é baseada em fato real e a família McCullen demorou a permitir sua filmagem. Quem é que nunca pensou em 'sumir no mato', 'morar numa praia primitiva' ou 'fugir da cidade grande'? Hoje, a Natureza é vista como o lugar de onde nunca deveríamos ter saído, o Éden perdido pelo pecado original.
O que não podemos esquecer é daquilo que nos falou Freud, em O mal estar na civilização: sair da natureza e entrar na cultura exige do homem enormes sacrifícios e repressões para regular a agressividade intrínseca que nos habita.

31 dezembro, 2008

Museu de Artes e Ofícios


Museu de Artes e Ofícios, upload feito originalmente por ClaudioCosta.

O domingo estava chuvoso e a preguiça submergia qualquer atividade. Mas mexer-se é preciso.
Eis que surge a idéia: visitar o Museu de Artes e Ofícios, tão elogiado por todos que o conheceram. Fica logo ali, bem no centro da cidade, na antiga estação da EFCB (Estrada de Ferro Central do Brasil). Com a decadência do transporte ferroviário de passageiros - uma aberração deste país - a estação estava quase totalmente ociosa, embora por ela transitasse, ainda, o Metrô de superfície de Belo Horizonte.


Pois agora lá está o MAO e fomos conhecê-lo.


Seriam necessárias várias visitas para usufruir de tanta informação, tantos objetos e fotos, uma viagem ao passado e um resgate dos ofícios e seus instrumentos.
Há história, há arte, há antropologia... tudo ali, bem disposto, com textos explicativos e estética impecável. É um dos mais completos e bem estruturados do Brasil (leia mais).
No próximo domingo chuvoso, quem sabe, driblemos a preguiça!

27 dezembro, 2008

Triz


Árvore de Natal na Pampulha, upload feito originalmente por ClaudioCosta.

Onde estão aqueles olhos cansados
que agora brilham, alertas?

Uma criança esquecida
dentro do corpo do adulto
sacode o corpo maduro
descrente de tudo que vê

Onde está o feitiço
que, olho no olho, prendia
o olhar de Pedro e Maria?

Eis que baila no espaço
ou sobre as águas - não sei -
um cone de luz que reluz.

É festa, é fogo, ilusão,
é busca, esperança, utopia talvez.

Foi quase por distração,
mas não dá pra mentir:
Por um triz,
fui feliz!

____________

Clique aqui pra ver os efeitos especiais.

23 dezembro, 2008

Jandira ou O Padre e a Moça

Aos 13 anos, Jandira saiu de Ponte Nova e veio morar com parentes em Belo Horizonte. Passou a residir na praça da igreja matriz de um bairro próximo ao centro, lugar ainda aprazível nos meados da década de 60.

Rapidamente envolveu-se nos chamados grupos de jovens da paróquia. Menina esperta e graciosa, entrosou-se com todos. Ao lado da igreja, os padres mantinham pequena gráfica onde imprimiam, além de folhetos litúrgicos, livros e revistas de sadia literatura, vidas de santos, calendários e impressos em geral.

Jandira, a pedido da tia, foi contratada pelo Padre Antero, conhecedor da disposição da menina. Ela estudava pela manhã, ali mesmo no bairro e, tão logo almoçava, já estava separando papéis, paginando e grampeando fascículos. Miudinha, esticava-se na ponta dos pés diante daquelas mesas que lhe pareciam altas, enquanto tagarelava com os outros funcionários.

Sábado à tarde acontecia o "grupo de jovens", no qual se combinavam passeios, atividades pastorais, barraquinhas, etc. Até viagem à praia fizeram! Uma aventura somente permitida porque o senhor padre acompanharia os rapazes e as moças. Foi quando Jandira conheceu o mar. Lembrança para nunca se perder.

A menina se transformou em moça, vigiada pela tia zelosa. Dentro do espírito de
aggiornamento do Concílio Vaticano II, o próprio vigário patrocinava, ocasionalmente, uma Hora Dançante no pátio interno da casa paroquial. O som era garantido pelas primeiras bandas-de-garagem surgidas em Belo Horizonte. Guitarras estridentes embalaram muitos namoros e flertes com as baladas dos Beatles e do romântico The Mamas and Papas...

A moça Jandira era comunicativa e adorava conversar com o padre Antero, a quem chamava de Tio. Eram conversas alegres, despretenciosas, sem maldade. Certa vez, organizou-lhe uma despedida, designado que fora para um curso especial de Teologia, em Roma. Nem bem o padre viajara e o carteiro passou a entregar, semanalmente, cartões postais vindos da Europa, exibidos orgulhosamente para toda a família e para os amigos. Um privilégio só dela, pois a mais ninguém o padre escrevia.

No dia de seus 20 anos, chega um pacote cheio de selos e carimbos, direto de Roma, par avion.
-Gente, exclamou, o tio lembrou-se de meu aniversário!
Rodeada de amigos e parentes, desembrulhou cuidadosamente a encomenda. Um cartão trazia as mais lindas palavras de Feliz Aniversário, lidas e relidas para todos, atentíssimos. Havia, ainda, duas pequenas caixas. Na primeira, um xale de seda, multicolorido - "a coisa mais linda que já vi". O que haveria no outro?
-Olha, gente, é uma camisola!
Ouviu-se um longo "Ohhhh!". Ali, em suas mãos alvas e trêmulas, cintilava minúscula lingerie vermelha, de seda pura, finíssima, de ótimo gosto, coisa nunca vista!
-Ohhhh!, o padre Antero lhe enviou isto?, exclamou a tia.
Jandira, inocente, não percebeu qualquer insinuação por parte dos outros, simplesmente se emocionava com o carinho que lhe devotava o Tio Antero. Nem lhe passou pela cabeça qualquer sentido além da pura amizade e dedicação de um pastor por uma humilde ovelha...

O sacerdote chegou algumas semanas depois e logo Jandira foi dar as boas vindas e agradecer tantos cartões e presentes. Padre Antero abraçou-a efusivamente. Ao ficarem a sós, disse-lhe:
-Jandira, vim para casar-me com você!
A moça deixou escapar um riso solto, quase uma gargalhada:
-Que isso, tio? O senhor é padre!. (Não conseguia parar de rir).
-Eu vou me casar com você, estou dizendo, nós vamos nos casar!

Foi aí que a moça se deu conta de que ele falava sério. Tomou o maior susto de sua vida, pois nunca imaginara que aquele homem 35 anos mais velho, ainda mais um padre, se interessasse por ela. Nem ela mesma jamais sentira qualquer atração pelo vigário.

Atordoada, atravessou a pracinha já decidida a voltar imediatamente para Ponte Nova. Largou tudo: escola, emprego, amigos. Pai e mãe, católicos tradicionais, a receberam com uma chuva de recriminações. Pouco a pouco
, como a calmaria sucede as tempestades, o assunto se extinguiu, instaurou-se a rotina e namorados se sucederam na vida daquela mocinha.

Um ano se passou.
Era o mês de maio. O céu do domingo estalava de azul, enquanto o sol aquecia o vale do Rio Piranga. Jandira estendia roupas no varal do terraço quando percebeu um movimento incomum de automóveis. Contou cinco carros dos quais desciam pessoas que nunca vira. No meio delas, reconheceu o padre Antero, sem batina! Coração aos pulos, desce correndo e já encontra a comitiva sendo recebida pelo seu pai. A mãe, lá dos fundos, vem enxugando as mãos no avental. Ninguém entendia nada de nada. Todos falavam alto. No meio daquele alvoroço, o irmão do padre diz:
-Viemos para o noivado!
Padre Antero se adianta e
, solenemente, declara ao pai da Jandira:
-Estou aqui para pedir a mão de sua filha em casamento. Consegui que o Papa me dispensasse dos sagrados votos do sacerdócio e meu Bispo já me liberou. Os papéis estão aqui.
Apresentou um documento da Cúria Romana, timbrado com a Mitra Papal, onde se liam palavras em Latim. Em seguida, abre uma caixa minúscula, forrada de veludo vermelho:
-Para demonstrar a seriedade de minha proposta, eis as alianças. Vieram meus irmãos, minhas irmãs e alguns paroquianos como testemunhas.
O pai gaguejou qualquer coisa, esticando os beiços para os lados de Jandira:
-Isso é ela quem resolve.
Diante de todos, o agora ex-padre se aproxima da moça:
-Não falei que iria casar-me com você?

Apesar das advertências dos parentes, pais e amigos que vaticinavam futuras desavenças, desentrosamento entre cônjuges com tamanha diferença de idade e discriminação social, celebra-se o casório vinte dias depois, numa capela de Belo Horizonte. O fato era tão extraordinário que uma emissora de rádio perseguiu o carro da noiva, na tentativa de cobrir a cerimônia, ao vivo.

Casaram-se e tiveram três filhos.

. . .

Outro dia, aos 89 anos, faleceu o ex-padre Antero.
-Ele sempre me amou muito. Aprendi a gostar dele depois do casamento, pois nem namorar a gente namorou, diz-me Dona Jandira. Agora estou só, como é triste a solidão... Nós nos amávamos tanto!
____________________
Essa história é verídica. Republiquei-a com os comentários anteriores, pois há novidades no ar. Depois eu conto.

22 dezembro, 2008

Blogs'n soup

O tempo úmido pedia encontros calorosos e alimentos quentes regados a cervas geladas. Foi exatamente o que providenciou o grande Idelber, acrescentando biscoito fino & massa a um encontro agradabilíssimo: intimou-nos a comparecer ao tradicional Skaldos [46 tipos de caldo de fabricação própria, desde o de carne com cebola, pimentão, cebolinha, salsa, azeitona, creme de leite, palmito e milho verde ao caldo de camarão com catupiry, cebolinha, salsa e tomate] na Praça Duque de Caxias, em Santa Tereza (pertinho da famosa esquina onde nasceu o mineiríssimo Clube da Esquina).

Nem precisa dizer que havia blogueiros e comentaristas de blog, categoria de leitores atentos que enriquecem os debates provocados por textos inteligentes da blogosfera.

Lá fomos nós, Amélia, Ana Letícia&Thiago e moi-même. Ao garçon coube a façanha de rearranjar as mesas, de tal forma que todos nos acomodássemos em torno de bate-papo agradabilíssimo, animado, multi-temático, levemente alcoólico [olha a lei seca aí, gente!], futebolístico, político, psicanalítico, jornalístico, jurídico e literário [lá estava Ana Maria Gonçalves, autora de um dos mais densos, interessantes e irresistíveis romances da língua portuguesa: Um defeito de cor].
Tudo de bom foi este encontro:
Altos papos

17 dezembro, 2008

Presépio mineiro

A tradição católica diz que o presépio surgiu no século 13, quando São Francisco de Assis quis celebrar um Natal o mais realista possível e, com a permissão do papa, montou um presépio de palha, com uma imagem do Menino Jesus, um boi e um jumento vivos perto dela. Nesse cenário foi celebradada em 1223 a missa de Natal. O sucesso dessa representação do presépio foi tanta que rapidamente se estendeu por toda a Itália. Logo se introduziu nas casas nobres européias e de lá foi descendo até as classes mais pobres. [daqui]

Desde a infância acompanhei a construção de presépios na minha casa. Início de dezembro era época de a meninada correr aos quintais em busca de pedras bonitas e musgos, que serviriam de caminhos e jardins no bucólico cenário de casinhas, pastagens e a gruta onde nasceria o Menino.

Aos adultos (lá em casa era minha mãe, mesmo) competia preparar as montanhas. Como? Cobriam-se com areia de minério azul escuro e faiscante os sacos de aniagem ou o grosso papel de cimento, previamente preparados com grude feito de polvilho e água.

Aos poucos, uma cidadezinha ia surgindo, fabricada com casinhas de madeira, cerâmica e papel maché, retiradas cuidadosamente das caixas que as guardavam do ano anterior.

Era um momento mágico: minha mãe e a criançada ao lado a desmbrulhar cuidadosamente os personagens e adereços guardados do ano anterior. Alegria maior era quando surgiam os bichos: ovelhas, burro, vaca, leões, girafa, patinhos, galinhas, um zoo inteiro! Não podia faltar um garboso galo carijó, que seria colocado em destaque. Ao galo caberia cantar bem alto, anunciando o nascimento de Jesus.

Seria apenas uma lembrança do passado, não fosse a determinação da Amélia de manter a tradição aqui. Nem que fosse simples improvisação, um aranjo com manjedeoura, o Menino, José e Maria.

Aos poucos, Amélia se sofisticou e, ultimamente, o presépio foi tomando importância e ganhando detalhes. Posso dizer que se amineirou, pois se caracteriza como uma vila do interior, construída com casinhas de cerâmica moldadas pela Jovita no Vale do Jequitinhonha e outras advindas de várias regiões do Brasil.

Se, ano passado, o presépio se restringiu a uma cidade plana com suas ruazinhas tortas ladeadas de casinhas, agora em 2008, novamente ajudada pelo filho Ângelo e pela norinha Renata, as montanhas de Minas compõem o cenário:

16 dezembro, 2008

Me engana que eu gosto

Reza a lenda que nós, mineiros, vendíamos bondes elétricos aos cariocas e paulistas interioranos. O gajo adquiria o trambolho que chocoalhava na novel capital das Alterosas, mas jamais o levava pra casa.
E os mineiros ricos e bobos que compraram dos cariocas o morro do Pão de Açucar? Não comeram nem mesmo os brioches da Confeitaria Colombo.
Há terráqueos que adquiriram terrenos na Lua, desde que um sujeito esperto a registrou como propriedade particular.
No aeroporto de Brasília vi, com estes olhos que um dia a terra há de comer, ampolas contendo "ar de Brasília" vendidas em lojas de lembranças. Na época, custavam R$ 5,00 a unidade. Pois havia turistas que compravam várias!
Alguns inconformados com a aproximação da morte desembolsaram milhares de dólares para que fossem congelados pelo tempo necessário à descoberta da cura de suas doenças: esperam acordar fresquinhos, lampeiros e saltitantes, após reaquecidos da hipotermia. Pelo menos não ficarão ardendo no fogo do inferno, já que repousam no freezer.
Ao me olhar no espelho, vejo um sujeito com cara de bobo que mantém o despertador 20 minutos adiantado pra não perdar a hora!!!

Eduardo Giannetti escreveu sobre este tal de auto-engano: auto-engano é muito bom e talvez indispensável para nos sustentar neste vale de lágrimas, expulsos que fomos do Éden, após sucumbirmos às vãs promessas de uma serpente esperta. Falácias nos arrebatam, promessas elegem candidatos e fantasmas nos assombram.
Viver de ilusões e praticar a máxima "me engana que eu gosto" é tão velho quanto o salto evolutivo de macaco a homo sapiens (sapiens?). Há dois posts anteriores, quase acreditei na matéria do Estado de Minas, eu lá estampado na capa, casal vinte posando de celebridade (hehehe).
Toda essa falação aí é para recomendar este post do Milton Ribeiro: um time gaúcho comprou o nome de uma estrela da Constelação de Orion!

14 dezembro, 2008

111

Cento e onze anos completou Belô, dia 12/dez.

Igreja S. Francisco - Pampulha - BH

É uma jovem cidade, com belezas e mazelas, tão nova e tão cheia de problemas: trânsito, falta de transporte público digno, diferenças sociais gritantes. Mas é época de festa e a cidade tem lá seu lado bom, bonito, arrumado, moderno e "mineiríssimo".


Edifício projetado por Oscar Niemeyer - Praça da Liberdade - Belo Horizonte-MG


Acolheu-me há décadas. Aqui me formei, casei, tive filhos. Aqui me sustento. Não diria que já sou belorizontino, pois Nova Era ainda está em mim: menino do interior, carrego lembranças e emoções, saudades do meu pai e minha mãe que lá estão, dos irmãos, parentes.
Mais fotos AQUI.

Video sobre processo de produção e suas mazelas

Recebi o link deste vídeo. Achei interessante, apesar dos 21min de duração.

18 novembro, 2008

14 novembro, 2008

Doce-de-laranja e queijos.

Santa Maria de Itabira fica logo ali, 140km a nordeste de Belo Horizonte, depois de Itabira, a terra do Drummond. Se nada tivesse de especial, já teria a maior importância na minha vida: foi a cidade em que Amélia nasceu; é onde vive meu sogro, até hoje.

Pois foi com produtos de Santa Maria de Itabira que minha cunhada e minha sobrinha (Rosa & Adélia) presentearam-me regiamente: queijos variados e um divino doce-de-laranja (este, feito pela própria Rosa).

Assim, em pleno dia-de-semana, o almoço aqui em casa virou festa, pelo menos na hora da sobremesa, genuinamente mineira e familiar. Tivemos queijo "minas" e dois tipos de requeijão, moreninho e com raspa. Impossível comer apenas um pedaço.
Quer provar?Requeijão de raspa e moreninho, queijo "minas" e doce-de-laranja "da Rosa". Foto by Clcosta.