14 outubro, 2007

Travessia

Entre a partida e a chegada há o que Guimarães Rosa considera a 'travessia':


- Eu atravesso as coisas – e no meio da travessia não vejo! – só estava era entretido na idéia dos lugares de saída e de chegada.


É o que acontece nas viagens, antevividas desde o sonho e a preparação, a compra das passagens, o roteiro, a esperança ou o desejo dos encontros. A vida é, igualmente, uma viagem e uma travessia, cheia de mistérios e acontecimentos, alegrias e tristezas. Buscam-se para o viver: explicação, sentido, controle, conhecimento, leveza, memória que preserve os bons momentos por meio de imagens e recordações, fotos e lembranças.

Por isso narramos e descrevemos o acontecido, as peripécias, aventuras e vicissitudes, percepções e impressões. E, no narrar, revivemos...

A viagem que encerramos na madrugada de hoje teve muitos objetivos: participar do Congresso de Psiquiatria, passear pela serra gaúcha, comemorar nosso aniversário de casamento e rever amigos.

Para cada ítem caberá diferente linguajar, mesmo que o narrador seja o mesmo. Fatos serão ressaltados de acordo com a pretensa objetividade (jamais plena, bem o sabemos).

Mas a fidelidade que persigo, agora, é falar com alma e coração do Encontro que venceu o éter cibernético e o écran luminescente dos computadores e se concretizou em convivência de amizade. Na Travessia entre partida, chegada e retorno, tivemos histórias, famílias, amizade.

Falar com alma e coração do que experimentei nesses dias em Porto Alegre é tarefa para poetas, daqueles que ultrapassam o simples manuseio das palavras e transformam o vivido em 'universal', retratando o indizível das travessias que são as experiências cotidianas, encontros e desencontros.

Assim, meus caros Afonso e Milton, guardaremos, Amélia e eu, cada momento de convivência, cada chiste e cada abraço, cada delicadeza e a infinidade de sabores.


Ao Milton e sua Cláudia, nosso muito obrigado: compartilharam a própria casa de tal forma que nos sentimos à vontade, velhos conhecidos, amigos íntimos, simples assim.

A foto abaixo ilustra o clima de amizade, fruto de identificações e liberdade: nossas mãos em seus ombros obedeceram a script ditado pelo afeto:

Tainha na Telha (Mercado Central de Porto Alegre-RS)

Mais fotos e palavras belíssimas sobre nossos encontros foram postados pelo Afonso, aqui.

11 outubro, 2007

Micro-notas

Na azáfama que atormenta um congressista - não tipo daqueles de Brasília - mas tipo deste aqui que vos fala, diretamente do Congresso Brasileiro de Psiquiatria, em Porto Alegre - consigo um minutinho para deixar micro-notícias:

1. Consegui dormir a noite toda, de ontem pra hoje, na cama adrede preparada pelo casal Ribeiro-Antonini, num certo quarto amarelo. O segredo de uma boa noite de sono? Leia aqui.

2. O jantar que Madame Antonini preparou é qualquer coisa que somente grand-chefs conseguem produzir: legítimo risoto de camarão e uma surpreendente salada temperada com quelque chose éxotique... segredos, segredos. Se alguém souber como se deliciar e não engordar, conte-me. Ouvi dizer que o importante é 'comer sem culpa'. Tá bão...

3. O D. Afonso já contou nosso reencontro às margens plácidas do Guaíba, que não se sabe se é rio, lago, baía, enseada ou assemelhados. Tem até photographias.

4. Neste momento, Amélia faz um city-tour, enquanto o maridão assiste palestras (ou tecla estas micro-notas). Ninguém é de ferro.

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Azáfama e adrede são palavras buscadas no baú da memória para fazer jus ao linguajar pampeiro... quem for bagual que o diga.

08 outubro, 2007

Novo endereço (provisório)

Tenho o prazer em comunicar que, de ontem até quarta-feira, estaremos atendendo na Rua da Bavária, em Gramado-RS. Ressaltamos que nossa ocupação será apenas lazer: passeios, fundues, caminhadas, relax... Estaremos juntos, Amélia e eu, comemorando aniversário de casamento, namoro, etc. e tal...


De quarta a sábado, desceremos a serra e aportaremos na mui leal e tri-legal cidade de Porto Alegre. O local de nosso esconderijo só o sabe o mui leal amigo Milton Ribeiro que, juntamente com sua consorte Cláudia, nos acolherá num certo quarto amarelo... honra e distinção, meus caros!


Ontem, antes de aportarmos a Gramado, ainda tivemos o prazer de conviver com três nobres representantes da realeza gaúcha: D. Afonso, Kaya e a Condessa Clarissa.


Sorry, periferia!

03 outubro, 2007

Viagem no tempo

Minha alma de criança demonstra sua imortalidade toda vez que me deparo com alguns brinquedos. Lembram-me fantasias de outrora, quando um pedaço de madeira virara revólver ou uma latinha vazia de sardinha era a carroceria de um caminhão.
O quintal era um reino encantado, cheio de possibilidades, onde tudo poderia ser qualquer coisa, bastava imaginar, sonhar, viajar nas fantasias.
Alguns brinquedos remetiam à realidade que me atraía. Por exemplo: o ferrorama era o trem-de-ferro que apitava de madrugada, ao atravessar as brumas sob as quais a cidade dormia. Lá vai o trem para Vitória... lá vem o trem de Belo Horizonte. Meu pai trabalhava nos Correios e despachava malas, conferia fardos, às vezes até viajava (e eu com ele, algumas vezes) acompanhando o carro-correio.
Em Curitiba, ano passado, fiquei babando diante do ferrorama do Shopping Estação. Voltei no tempo e mais horas passaria ali caso o relógio fosse mais camarada. Lembrei-me da Sony N1 a tiracolo e trouxe comigo o 'trem de Curitiba'. Voltei a ser criança.




Lembrei-me deste post que escrevi em 2004:
O trem-de-ferro compõe o cenário mágico das viagens (reais e imaginárias) de grande parte da minha infância, pois era a melhor maneira de visitar tios e primos. Alguns viviam ferrovia abaixo (CVRD), em Coronel Fabriciano. Outros, ferrovia acima (EFCB), em João Monlevade. De N.Era a Belo Horizonte eram 07 horas de viagem!
Duas lembranças fortes:
Primeira: a chegada do trem na estação: "Olha o trem!", berravam todos, diante daquele monstro de ferro, apitando e silvando os freios. Correria para pegar o melhor assento: "Eu na janela, eu na janela!" O apito do chefe-da-estação anunciava a partida e lá íamos, alvoroçados, deixando para trás a plataforma apinhada, os acenos de despedida e um frio enorme na barriga: uma aventura!
Segunda: o vendedor de comidas, cambaleando com o sacolejar incessante do trem, a oferecer sanduíches de "salame" com guaraná e maçãs enroladinhas naquele papel de seda azul claro. Como cheiravam! Raramente tínhamos maçãs em casa, portanto era uma festa só.
Ah! e os biscoitos de polvilho? E o chacoalhar dos vagões? E os apitos que anunciavam ponte ou túnel?
Minha primeira grande saída de casa foi quando fui estudar no Colégio do Caraça: meu pai e eu, no trem, no tempo remoto de meus 11 anos... A cidade ficava lentamente para trás, o casario rareava e os campos se sucediam. O comboio sempre margeando o Rio Piracicaba ou outro qualquer. Os postes de telégrafo surgiam a tempo certo, com os fios fazendo uma enorme barriga, até novo poste, e outro, e mais outro, infinitamente.
Mais tarde, uma emoção estética: assisti à estréia do ballet "O último trem", com o grupo Corpo. Música de Milton Nascimento! Revivi tudo: O tac-tatac das rodas de ferro marcava as emendas dos trilhos e servia de improvisado metrônomo para canções murmuradas a sós.
Meu pai trabalhava nos Correios e, ocasionalmente, conduzia as malas num compartimento especial, chamado Carro-Correio, no qual me levava, vez por outra - eu não teria de pagar passagem! Era mister certo cuidado, entretanto: "O chefe-de-trem não pode vê-lo!". Uma aventura: eu e meu pai, meu pai e eu, contando as estações, descobrindo árvores, horizontes, rios e - sublime momento - cachoeiras! "Olha uma ali!", gritava quem via primeiro.
A volta para casa era plena de casos e, sempre, com uma preciosidade: maçãs para os meninos!

30 setembro, 2007

Churrasco de surubim ou Surubim na brasa

Aos gauchos Afonso e Milton que abraçaremos (Amélia e eu) na próxima semana, vai parecer estranho e herético o nosso almoço de hoje: churrasco de peixe! Acontece que mineiro é de inventar coisas e lousas, mania de quem vive entre montanhas. Se há iguarias tradicionais (feijão tropeiro, pão-de-queijo, canjiquinha com costelinha, frango ensopado com quiabo e angu, etc.), há sabores novos e releituras gastronômicas inusitadas. Não temos mar - eis nosso trauma! - e sonhamos com praias, bem o sei. Entretanto, os rios correm no fundo de nossos quintais, há cachoeiras logo ali, lagoas plácidas acolá: as águas que aqui marulham, não marulham como lá! Nossos bosques têm mais flores, nossos rios têm mais peixe; a comida, mais sabores!

Encerro aqui este exórdio para deixar com vocês imagens que ilustram passo-a-passo o almoço preparado pelo filho Ângelo, na tarde amena deste início de primavera:

1 - O filé de surubim, após limpo, será fatiado em pedaços de mais ou menos 4cm de espessura. O tempero é tradicional: caldo de limão, alho-e-sal (pouco sal) e pimenta-do-reino. Ficará a marinar por 1 hora, enquanto se partirão ao meio algumas batatas e cebolas, não muito grandes. Estas, regadas generosamente com azeite e salpicadas de tempero em pó, irão ao forno ou à grelha até corar. Serão o acompanhamento.


2. Após alguns minutos expostos ao calor das brasas, cobrem-se os pedaços de surubim com um molho feito de extrato-de-tomate, azeite e leite de coco. O churrasqueiro sabe que deverá virar a grelha algumas vezes, para que o peixe fique bem assado em ambos os lados. A mesa deverá estar posta, pois em 10 minutos a iguaria estará pronta e deverá ser servida quente.




4. Os filés estão assados, crocantes por fora e suculentos por dentro. O tom avermelhado é convite ao paladar. Uma despretensiosa salada de alface foi preparada pela Amélia e as batatas exalam um aroma mediterrâneo. Vamos à mesa!

5. Caberia um vinho tinto encorpado, já que o sabor é marcante. Hoje fomos de cerveja, bem gelada, como convém.




Se ficou bom? É só aparecer por aqui que a gente oferece e vocês próprios conferem.



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Mais fotos, aqui.

27 setembro, 2007

Frei Betto: - "Engana que eu gosto"



Texto de hoje do mineiro Frei Betto, publicado no Caderno Cultura do Estado de Minas, disponível apenas para quem tem assinatura. Sem pejo (e sem tempo pra elaborar um post próprio) compartilho aqui:

Engana que eu gosto

"Assim, de engano em engano, para o bem de todos e a felicidade geral da nação, transcorre a nossa história"


Ora, é evidente que contra o senador não há “provas conclusivas”, tudo não passou de gentileza do lobista de uma grande empreiteira. A contabilidade pecuária está em ordem, embora haja certa desordem na documentação pertinente.

Desde muito cedo, o cidadão brasileiro é educado na síndrome do engano, enfermidade de etiologia política cuja cura só pode ser alcançada mediante doses maciças de auto-estima e senso cívico.

Os descobrimentos da América e do Brasil foram magníficos encontros de culturas transoceânicas. O saldo de milhões de indígenas mortos é mero acaso de organismos vulneráveis em suas defesas imunológicas às gripes e resfriados que os ibéricos contraíam em contato com as frias correntes marítimas.

A casa-grande, generosa com os escravos, tratava-os como filhos, e uns tantos senhores, livres de todo preconceito, chegaram a mesclar seu sangue de branco ao prenhar negras e gerar o mestiço e este símbolo nacional chamado mulata.

Graças à benevolência da casa-grande é que a senzala, farta de carnes variadas, brindou-nos com o prato de preferência nacional: a feijoada. E que não se olvide o bom-gosto do caipira, inventor deste coquetel que, hoje, conquista o sabor mundial: a caipirinha.

A rebelião de Vila Rica não passou de uma transposição extemporânea, ao solo pátrio, das idéias iluministas em voga na Europa. O bando de intelectuais, surpreendidos em sublevação contra a Coroa, fez de um alferes boi de piranha. Tanto que outro qualificativo eles não mereceram senão o de inconfidentes, incapazes de guardar confidência, segredo. À exceção do que teve o pescoço enforcado, deduraram uns aos outros. Hoje, o evento passaria à história como Deduragem Mineira.

E a Guerra do Paraguai? Foi lá o nosso Exército pacificar aquele povo iludido pela mente insana de um caudilho raivoso disposto a defender valores anacrônicos: a soberania nacional e os direitos sociais. Tamanha a paz que os nossos militares impuseram à nação vizinha, que apenas em cemitérios se pode encontrar tanta quietude.

Em Canudos, um bando de fanáticos, liderados por um fundamentalista desmiolado, ousou contrapor-se à proclamação da República! Não tivesse aquela gente resistido à ação pacificadora do Exército, teriam todos sobrevivido e, ordeiramente, retornado ao sadio trabalho nas lavouras canavieiras.

Tantas proeminentes figuras em nossa bela história: Vargas, pai dos pobres; JK, 50 anos em 5; Jânio, o homem da vassoura; Collor, o caçador de marajás! Merece destaque a Revolução de 1964, que salvou o Brasil da ameaça comunista e imprimiu índices astronômicos ao nosso desenvolvimento. Vide a Transamazônica, a Ferrovia do Aço, o Mobral e o fim do analfabetismo! Se um bando de subversivos preferiu trocar canetas por armas, insatisfeitos com a hierarquia trasladada dos quartéis às ruas, não fizeram as Forças Armadas outra coisa senão reagir em defesa da lei e da ordem.

Assim, de engano em engano, para o bem de todos e a felicidade geral da nação, transcorre a nossa história. Ela que avança em ciclos de prosperidade, do pau-brasil ao ouro, do café à cana-de-açúcar, do minério à madeira amazônica, da soja à carne e, agora, retorna aos canaviais, de onde jorra o etanol, a bola da vez a oferecer ao mercado externo.

Sabemos todos que a verdade é inconveniente, incômoda,
constrangedora. É melhor esse jeitinho elitista, capaz de acomodar as situações mais conflitivas e adotar, em nossas escolas, a versão cordial sobre o povo brasileiro. Povo pacífico, ordeiro, leal, com exceção de uns poucos que enxergam mensalão onde houve apenas “operações não contabilizadas”. E ainda querem avacalheirar o presidente do Senado!
Engana que eu gosto!, diz a nação. Porque não há reação, não há manifestações nem mobilizações. Cadê as lideranças populares, as centrais sindicais, as pastorais proféticas? Fora um ou outro protesto ou gesto de indignação, tudo permanece como dantes no quartel de Abrantes.
Razão tinha Proust que, em Sodoma e Gomorra, escreveu: “No mundo da política as vítimas são tão covardes que não se consegue considerar os algozes maus por muito tempo.”
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[Frei Betto é escritor, autor de A mosca azul –
reflexão sobre o poder (Rocco), entre outros livros.]

18 setembro, 2007

Delícia!


Estivemos em Nova Era-MG neste final de semana.

Afinal, não poderíamos perder isso aqui.


Amélia que o diga! (foto by Cláudio Costa)

15 setembro, 2007

Pequena Homenagem a Bashô

Foto by Cláudio Costa, 2007.

Pequena Homenagem a Bashô

(Fernando Guimarães, do Porto)

Bashô - Prefiro olhar esta árvore a olhar o templo que fica no vale. Prefiro olhar esta folha a olhar a árvore. E, depois, esta gota de água à folha onde está pousada. Agora pergunto-te: serás capaz de escrever um poema acerca desta gota?

Jovem Poeta - Julgo que sim. Por isso terei que falar da folha, da árvore e do templo.

Bashô - Será preciso? Então, por que não falar também do vale onde se encontra o templo? Nesse vale corre um rio.

Jovem Poeta - E referir-me-ei a esse rio...

Bashô - Talvez seja melhor falares nos seus peixes. São prateados porque é deste modo que neles aparece a sombra. E a sombra desce porque está a anoitecer.

Jovem Poeta - A noite é semelhante às escamas do peixe. Há nelas também um pouco de luz. Os teus ensinamentos ajudam-me tanto... Julgo progredir pouco a pouco, mas seguramente.

Bashô - As escamas... Estás a pensar agora numa folha?

Jovem Poeta - Sim. As gotas de água aparecem nessa folha como se escamas fossem.

Bashô - Mas ainda não disseste o que é preciso dizer acerca da luz e da noite. E de outras coisas. O vulto de alguém que, antes de principiar a madrugada, se encaminha para pescar nesse rio e leva consigo uma lanterna para atrair os peixes. A mulher que, em casa, lhe prepara a primeira refeição. O ruído um pouco abafado das chaleiras. O modo como um e outro se despediram...

Jovem Poeta - Queres com isso dizer que no poema muitas coisas devem ficar devidamente expressas, que ele deve referir-se a tudo?

Bashô - Não é bem isso. O que quero dizer é o contrário. Nele, tudo pode ser dito, desde que se fale apenas de uma gota d'água.

ooo000)))(((000ooo

(Fernando Guimarães, in "Limites para uma Árvore" - Poesia Afrontamento 2000)

08 setembro, 2007

Maria Aparecida


Nasceu minha mãe no dia 09/09 de um ano terminado em 9. Após 9 meses, cheguei a este mundo, em outro ano com final 9, quando minha mãe tinha 19 anos. Ela teve 9 filhos.

Mais uma vez, o número 09/09 se repete no calendário. Seria uma data qualquer, um domingo qualquer.

Domingo, entretanto, é o aniversário de minha mãe Aparecida, a moça bonita aí da foto.

O bíblico Salomão, há séculos, perguntou: "A mulher forte, quem a encontrará?"

Pois respondo: minha mãe é uma mulher forte, amorosíssima e cuidadosa com os filhos. Brinca, trabalha, dança (mesmo!), verifica, afaga, previne, remedia, aconselha, manda, pede, ajuda, reprime, resmunga, chora, sorri, tudo olha, faz-que-não-vê, intui, deduz, adivinha ("o mindinho me contou"), controla, apoia, socorre, reza, reza muito, tem fé e nos ensinou o bom caminho.

Faz aniversário há anos e continua jovem ao lado do namorado Soié.

O presente? Ah! quem ganha é a gente mesmo: ter você por perto, Mamãe, eis a dádiva que Deus nos deu.

Sua bênção para o filho, Cláudio.

03 setembro, 2007

Sintomas

A experiência de trabalhar com crianças 'em sofrimento mental' é algo angustiante e exige de nós mais do que estudo e conhecimento. Há que verificar bem o sentido dos sintomas, para que servem e qual sua função na estruturação do sujeito.
Se, por um lado, a família pressiona pela 'cura' rápida - o que é compreensível -, nem sempre devemos ser tão afobados na supressão dos comportamentos ditos sintomáticos.
O termo 'sintoma' vem do grego, justaposição do prefixo 'sin' (= sentido de união) com o substantivo 'tómos' (= pedaço). Sintoma, pois, é uma tentativa de 'juntar os pedaços', 'juntar os cacos', montar um quebra-cabeças no qual podem estar faltando peças ou que necessita de mais tempo para se organizar.
Uma interrogação importante: por que o 'estilhaçamento'? Por que 'as peças não se encaixam'?
É tentador pensar apenas em alterações neurofisiológicas, em neurotransmissores descontrolados, em 'problema dos nervos'... as coisas, porém, não se resumem a isso, embora não se deva descartar hipótese alguma.
Atendi, outro dia, uma criança que chega com diagnóstico de 'hiperatividade' (TDAH), transtorno que afeta a média de 4% da população infantil, no Brasil e no mundo. Há critérios bem estabelecidos, etc., mas 'cada criança é uma criança'. No caso ao qual me refiro, há alguns meses houve piora sensível dos sintomas-tipo, com aumento de agressividade e inquietação. Outros comportamentos inadequados se agregaram, como regressão (fala como bebê, quer dormir na cama dos pais, não consegue tomar banho sem ajuda do adulto, alterna bruscamente o humor).
A história desse pequeno cliente de 9 anos evolui junto à derrocada do relacionamento dos pais. As brigas sempre foram constantes, mas 'o caldo entornou' com a descoberta de que a mãe tinha alguns casos extra-conjugais (no plural, mesmo). A criança participou do inferno-em-domicílio, tomava partido de um e de outra e acabou ficando com a mãe nos primeiros meses pós-separação. Há dois meses, coincidindo com a piora dos sintomas, foi morar com o pai, que entrou na Justiça pedindo sua guarda.
Algo que estava trincado acaba por se partir dentro do psiquismo do meu pequeno cliente: muitos cacos. Num esforço de recomposição, sin-tomas aparecem e não será suficiente um remédio a colar os pedaços.
Há que 'escutar' o pedido de socorro e oferecer possibilidades de elaboração do luto, do medo da perda, do ódio e do desespero, da descrença no amor e da infinita necessidade de amparo, de carinho e de amor.
Em troca, tem-se que aprender a falar com ela com as palavras certas, cuidando para que nada se mascare, não haja mentiras. A palavra verdadeira é tudo de que a criança precisa.
É mister, ainda, escutar os pais, cada qual com suas razões e desrazões, aplacar a hostilidade na medida do possível, fazê-los compreender que não deixam de ser pais, apenas não são mais marido e mulher.
Ah, quanto trabalho!
Por isso, às vezes, este blog fica tanto tempo parado, porém visitado pelos fiéis leitores que deixam mensagens tão carinhosas e palavras de estímulo.
O silêncio pode ser um sintoma.

26 agosto, 2007

ÁGAPE

Quando amigos se reúnem em torno de uma mesa para saborear iguarias comuns ou sofisticadas, a isso chamamos de ágape. A palavra deriva diretamente do grego e significa "amizade, amor, afeição". No princípio do cristianismo, ricos e pobres se confraternizavam em torno da eucaristia, dividiam o pão e bebiam do vinho transmutados em corpo de Cristo. O beijo que simbolizava a união de todos foi proibido, provavelmente por suscitar pensamentos libidinosos (mas isto é outra história).

Pois foi um verdadeiro ágape a festa promovida pelos 'Famosos', ou Famouxxos, como se denomina a turma que se formou desde os tempos do ensino médio e se mantém unida até hoje, no limiar do término do curso universitário. Leonardo, nosso filho, é um dos 'famouxxos', privilegiado pela convivência alegre, sadia e fiel.

Pois essa turminha promoveu, ontem, o II Encontro para os Pais, vejam só! Fomos convocados para compartilhar a alegria e a amizade, numa demonstração que juventude e maturidade podem muito bem se combinar. Namoradas, irmãs e irmãos também fizeram parte da festa.

Além do churrasco, bebidas, almoço e muita música, os 'meninos' promoveram o concurso "Especialidade da Família", com regulamento e tudo, porém brincadeira pura. Os pais poderiam levar uma iguaria (doce ou salgada) para ser degustada. Numa votação secreta se escolheram os vencedores da duas categorias. Com muito orgulho, anuncio que Amélia ganhou o 1º lugar dentre as sobremesas:



Ao final do dia, outro ágape: o Idelber nos convidara para sua despedida, pois que amanhã retorna a New Orleans, onde é professor da Tulane University. O local foi bem escolhido: Armazém Mineiro, ou Emporium, casa mineira no alto da Avenida Afonso Pena. Não fiquei até o sol raiar, mas o abraço amigo fez o sábado terminar como começou: ágape gastronômico!


19 agosto, 2007

Sábado bucólico

A caminho de Sta. Maria de Itabira
  • Quisera ser poeta para escrever éclogas a cada visita ao Pau D'Alho, fazenda onde viveram os avós da Amélia, em Sta. Maria de Itabira...
O tempo passa e vai corroendo lentamente o esplendor que outrora marcara o lugar, sob as mãos firmes do avô Tôta e os cuidados da Sá Rosinha.

Agora, antes que vire apenas "um retrato na parede" (diria o poeta CDA), ainda tem o cheiro e mugido do gado no curral e ralos pastos. Ouve-se o cantar de pássaros e o cacarejar de pouquíssimas galinhas. As árvores frutíferas já não as há. Nem o burburinho do córrego que rodeava a casa grande...

Fazenda do Pau D'Alho

18 agosto, 2007

Samba no Observatório

Os "meninos" continuam no maior sucesso. Agora, a banda Chapéu Panamá é atração no bar Observatório, que fica lá no alto da torre Alta Vila, próximo à Faculdade Miltom Campos.
Pra quem quiser assistir "de graça" é só concorrer ao sorteio de ingressos no caderno Divirta-se, do Estado de Minas.
Samba de raiz é a onda!
Nem precisa dizer que nossos filhotes, Ângelo e Leo são componentes da 'nova guarda do samba' e que os papais corujas só podem exaltar!
[clique no banner e concorra! Se não ganhar, vá assim mesmo!!! ]

15 agosto, 2007

BH by night


BH by night
Upload feito originalmente por ClaudioCosta
Um jantar na Churrascaria Porcão já é um acontecimento. Dizer que minha atenção se dividiu entre as iguarias e a paisagem noturna não é um exagero. Bem embaixo, o bairro São Bento. À esquerda, Sion. A via iluminada que vai da esquerda para a direita é antiga BR-3, que liga BH ao RJ.
E a vida continua...

08 agosto, 2007

Eu claudico. Tu claudicas?

Eu mesmo. Caminhando na Rua Gov. Valadares, em Nova Era. Há muito tempo...
Eu claudico, tu claudicas...

"Quando nasci, um anjo torto, desses que vivem na sombra, disse: vai, Carlos, ser gauche na vida".

Taí o primeiro verso do poema autobiográfico do Carlos Drummond de Andrade. Drummond confessa, logo de cara, sua claudicação pela vida: ser gauche é ser meio manco, meio sem jeito, tímido talvez.

Pois, quando nasci, meus pais me deram um nome:

- Vai, menino, ser Cláudio na vida!

Acho que foi logo aí que me identifiquei com o Poeta itabirano. Afinal, meu nome deriva do verbo "claudicar = arrastar de uma perna; não ter firmeza em um dos pés; coxear, mancar, capengar e, no sentido figurado, cair em erro ou falta; fraquejar intelectualmente".

Ai, ai, ai, minha humildade não chega a tanto, nem Soié e Dona Aparecida me rogaram praga nenhuma! Segundo minha mãe, tratava-se de um nome bonito e menos comum e, além disso, nome de imperador romano!

Um grande futuro me esperava - ou ainda espera, duvidar quem há-de? Gosto de utilizar o verbo claudicar sempre que cometo uma gafe, ou "mancada = atitude, resolução, comportamento errôneo, cujos resultados são insatisfatórios ou negativos; falha, lapso, erro, indiscrição espontânea, irrefletida; ação ou fala inoportuna; gafe."

Pois agora, confesso: de vez em quando dou umas mancadas, que deus-me-livre-e-guarde!

Aqui vai uma: - encontro-me com o jornalista político Vidal, na rua da Bahia.

Logo digo:

"- Há quanto tempo".

E ele: "- Viajei, estava em Milão."

Todo afoito, exclamo: "- Ah! então deve estar ótimo no alemão!"...

"- Que isso! Milão fica na Itália."

Tento consertar: " - É mesmo, onde fica a FIAT."

Não deu mais, desolado, me ampara:

"- Não, a FIAT fica em Turim!!!".

Deixei um cumprimento sem graça e me mandei! Já claudicara demais!

E você, já claudicou alguma vez?

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Publiquei este post em dez.2004. Republico-o, sem pejo: é tempo de reminiscências...

06 agosto, 2007

Tentando arrumar a casa

Afresco de Portinari na Igreja de S. Francisco (Pampulha)
Belo Horizonte -Foto by Claudio Costa.


Fernando Marques-Pinheiro é um leitor assíduo do PrasCabeças, de pouquíssimo tempo. Faz comentários nos posts e, para minha surpresa, também através de e-mails. Assina 'fermarpin'. Diversamente da quase totalidade dos que me visitam, Fernando não é um blogueiro, mas um blogófilo!
Deixa pérolas em forma de comentários. É pianista, formado pelo Conservatório de Lisboa. Nasceu em 1922, outro dia mesmo!
A propósito do meu post sobre Esperança, produziu as seguintes reflexões, para nosso degustar:
Tentando arrumar a casa

Ele (o Desejo) é o primogênito, ela (a Esperança) veio a seguir – e logo, logo depois dela (não tinham passado ainda nove meses) nasceu o Sonho.
Olhem para a bela trindade:

Desejo, Esperança, Sonho - estes dois muito chegadinhos um ao outro.

O Desejo nasceu por que razão?
Sei lá! Resultou de concepção e gestação espontâneas? Surgiu por obra e graça do Espírito Santo? Recuso-me a ir por esses caminhos.
Penso que notámos a presença dum espaço e apeteceu-nos preencher esse espaço.
Exemplos: um buraco na estrada, espaço na nossa vida para um filho, um Mi entre um Dó e um Sol (para termos o acorde perfeito...), etc.

A modificação apetece-nos, e logo a desejamos.
E aqui uma janela abriu-se sem eu mexer nela:
Não havendo apetite não há desejo.

Na cama, com 40 graus de febre, não há apetite; e sem apetite não há comida que possamos desejar.
Não temos apetite, não desejamos.
Cuidado! Olhem que sem se comer... Morre-se!
Cá está ela! A malvada. Com maiúscula, a Morte! - a muralha intransponível junto da qual tudo se queda...

Olho em frente e vejo, da esquerda para a direita:

Apetite, Desejo, Esperança, Sonho, Morte.

C'est la vie?
É a vida das batatas e das couves.

Não há uma coisa chamada Ação (Trabalho)?
O trabalho de tapar o buraco da estrada, o do coito (é agradável, mas dá trabalho, não dá?), o de desenhar um Mi entre o Sol e o Dó, etc.
O Trabalho faz parte da vida.

Onde o porei?
Entre o Sonho e a Morte:

Apetite, Desejo, Esperança, Sonho, Trabalho, Morte.

Ça, oui, c'est la vie.

Não me convidem para espreitar à direita da Morte, para lá do por sol, do lado do Ocidente.
Nem me convidem para olhar à esquerda do Apetite, para lá do nascer do sol, do lado do Oriente (o Cabo das Tormentas estafou-me, perdi a obsessão do Oriente, não voltarei a partir para ir buscar pimenta e mostrar o crucifixo...).
Deixem-me acordar com Apetite, de manhã, e depois durante o dia deixem-me Desejar, Esperar, Sonhar e Trabalhar, até adormecer com a Morte, à noite.
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PS – Dr. Cláudio Costa: Sem o seu post eu não teria tido o prazer deste passeio no seu jardim de plantas e flores que não estou habituado a ver.
FMP

01 agosto, 2007

Eu? quem sou eu?





Não é contingência única do mundo virtual que as pessoas se mostrem com identidades inventadas, falsas, maquiadas, fingidas ou 'anônimas'. Apresentar-se sob máscara é atitude comum. Afinal, nós mesmos podemos nos enganar (mesmo não intencionalmente) sobre quem somos. Talvez isso anime tanta gente a se esconder sob um nickname pomposo neste mundo virtual, tanto quanto no real.

- Anh? indagaria um interlocutor menos afeito às filosofices. Eu sou eu, pelo menos disso tenho certeza, eu sou Fulano, acrescentaria, crente que sabe quem realmente é.

- Fulano? que Fulano? (risos)

Aí começam as complicações, pois não basta ser Fulano:

- Sou Fulano de Tal, uai! (mais risos)

Então, logo descobrimos que o nome próprio, para ser próprio, necessita de predicados, já que um nome é apenas um nome e pode designar qualquer pessoa - ou todas as pessoas, não faz diferença. "João", por exemplo, pode designar qualquer um.

Mas predicados, por mais numerosos que existam, não nos podem definir. Sim, não adianta quantidade de predicados (sou isso e aquilo e mais aquela coisa - tipo assim: Sabe com quem está falando?). O que importa é a qualidade deles.

- E como se mede a qualidade de um predicado?, indaga o último da fila, lápis em riste, pronto a anotar em seu caderno encapado com o nome - olha aí, o nome! - escrito na etiqueta.

"Os predicados apenas designam, nada significam. (Saul Kripke citado em Identidades sem Necessidade).

Digo, sem pestanejar, que a qualidade do predicado que julgo ser meu - provisoriamente, bem provisoriamente - tem a ver com a minha verdade.

- Mas aí, ô meu, que verdade é sua verdade? E se o brother estiver enganado? Ou se enganando a si mesmo e a todos? A verdade não é relativa? Este repto vem direto da menina de óculos (viu este predicado? "de óculos" diz alguma coisa de quem é a tal menina? Apenas a identifica, mas não diz quem ela é.

De nada adianta dizer Eu sou aquele que sabe, portanto, não discuta, anote aí, aprenda! porque ninguém tem o atributo da infalibilidade. Portanto, não posso dizer quem sou, ou quem você é.

Afinal, até o próprio nome, aquele da certidão de nascimento ou de batismo, foi-nos dado por outrem, com intenções nem sempre conscientes.

Ninguém escolhe o nome, tudo bem. O pior - ou a verdade - é que até mesmo como nós nos vemos nos é dado pelo Outro (com O maiúsculo, porque se trata de um Outro significativo, claro!) e, submetidos ao desejo desse Outro, tomamos suas avaliações como verdadeiras, quer gostemos ou não:

Sou inteligente, sou bonzinho, sou sem-vergonha, sou bem-sucedido, sou caridoso, sou bonito, sou feio, sou isso e aquilo - eis a coleção de imagens ou predicados que nos foram dadas e que colecionamos ao longo da vida, tesouro carregado cuidadosamente pelo nosso Imaginário, até que tropeçamos e...

- Eu, que sou uma boa pessoa, descontrolei-me, tratei mal a quem mais amava, invejei o vizinho e não devolvi o troco-a-maior que a balconista me deu... entendi, disse tudo de uma respirada só aquele rapaz de moleton preto-bordado-de-letras-brancas-GAP.

Querem mais um exemplo? Vejam este post aqui do Milton.

É claro que há exemplos, digamos, edificantes, quando nos vemos praticando uma boa ação que surge assim, do nada. São os pequenos heroísmos do cotidiano, quando sorrimos para alguém ou descobrimos afinidades por quem menos suspeitávamos. Ou seja, nosso eu verdadeiro é o eu que escapa! Ou, como nos disse Freud (1933): "“onde estava o id ali estará o ego”.

Por isso, digo e repito: somos o que desejamos - e desejar não é querer, hein?

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A belíssima ilustração acima é de J.D. Hillberry.

31 julho, 2007

Amanhecer sobre Pampulha



O sol explodiu prateado sobre as águas calmas da Lagoa da Pampulha,
nesta manhã de terça-feira.

Nada relembra o agito da metrópole.

As flores acordam rubras e detêm meu olhar.

Impossível ficar indiferente diante de tanta beleza.

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Mais fotos aqui.

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E aproveitando o inverno, que tal seguir esta receita de Bette Keefer, publicada pelo Itiro?

Ontem à noite, na festa de confraternização da Olimpíada dos Veteranos, no Centro de Convenções que fica no Holiday Inn, em Sheridan, uma das atletas homenageadas foi Bette Keefer, uma simpática senhora de Windsor, Colorado, de 93 anos, a participante mais idosa dos jogos. Ela participou nos 100 m rasos e no boliche. Ela caminhou até a mesa de prêmios, toda sorridente e elegante, de saltos (!) e quando perguntada sobre o segredo de sua longevidade, respondeu toda faceira e com um sorriso malicioso: Chocolate (de preferência Dark Chocolate) e sexo!

Se você pretende seguir a receita, não se esqueça que antes do chocolate e do sexo você tem nadar 100m rasos e jogar boliche...

29 julho, 2007

Passeio por Belo Horizonte



A manhã fria (18 °C), porém ensolarada, convidou-nos (Amélia e eu) a um passeio por Belo Horizonte. Caminhamos contra o vento, sem lenço nem documento. Acompanhe-nos, por aqui.

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