21 fevereiro, 2006

OVO DE COLOMBO URUGUAIO

Um engenheiro uruguaio, Armando Regusci, acredita ter encontrado a maneira de fazer seu país economizar US$ 2 milhões diários com a importação de petróleo, além de melhorar o ar das cidades. Ele inventou uma motocicleta que não usa gasolina, nem álcool e nem hidrogênio no motor, mas ar comprimido.
Será o "ovo de Colombo" do transporte sobre rodas?
A engenhoca é simples como colocar um ovo em pé: comprime-se o ar em dois cilindros, regula-se a saída. Com sua força, o ar nosso de cada dia move engrenagens que produzem movimento das rodas.
Pronto: anda-se para um lado e outro, sem queimar óleo, sem poluição: devolve-se ao ar o que é ar...
“Com um motor elétrico ligado à rede pública se comprime ar a alta pressão, por exemplo, 200kg por centímetro quadrado. Com o ar comprimido, nesses depósitos, é possível andar 100 quilômetros a 50km/h", garante o novo Colombo, ou melhor, o velho Regusci.

Preço de uma motoquinha movida a vento encanado: U$ 600, o que dá, pelo Real supervalorizado, a bagatela de 1200 e poucas pílulas.

Problema à vista: ruas e estradas entupidas, cada um montado em seu aerocar, ou motoar, ou bicicletar.

Já pensaram num avião movido a ar, voando no ar? É o supra-sumo da homeostase. Ou seria um pleonasmo?

E mais: se o ar que respiramos virar combustível, vão nos cobrar imposto respiratório, não?

Vem aí a Arbrás: o ar é nosso e ninguém tasca!

[(Fonte: Caderno de Ciência do EM (link para assinantes)].

20 fevereiro, 2006

(DES)HONESTIDADE NOSSA QUE NOS AFLIGE

Brasil:
  • Valor do PIB-2005 + ou - da ordem de 1,6 Trilhão de Reais
  • Economia Informal (não paga impostos) = 700 Milhões de Reais
  • Autuações por sonegação de tributos federais em 2005 = 80 Bilhões de Reais
  • Contrabandos descobertos pela Polícia Federal em 2005 = 601 Milhões de Reais
  • Gastos anuais com a Dívida Pública = 150 Bilhões de Reais
  • Pacote anunciado por Lula para Setor Habitacional = 18 Bilhões de Reais
  • Dados levantados pela CPI dos Correios = Sonegação de 200 Bilhões
  • Prejuízos causados pela pirataria = 30% do PIB
  • Solegação da Previdência Social = 100 Bilhões de Reais
  • Sonegação de Impostos + pirataria + corrupção da previdência + economia informal + juros da dívida pública = 1,8 Trilhão de Reais

Pergunto:
  • Você conhece e já denunciou algum sonegador?
  • Você compra ou já comprou produtos pirateados e ou falsificados?
  • Você já votou em algum candidato que foi denunciado por corrupção?
  • Você já subornou funcionário público para obter alguma vantagem (não ser multado pela Polícia Rodoviária Federal, por exemplo?)
  • Você acredita, realmente, que falta dinheiro ao Governo para consertar estradas, melhorar o acesso à saúde, financiar pesquisas, cuidar do meio ambiente?
  • Você descobriu, pela salada de números acima, que o Brasil, ou seja, nós mesmos, deixamos escapar pelo ralo, a cada ano, um PIB inteirinho?

[PIB = Produto Interno Bruto = Soma de todas as riquezas produzidas no país]

18 fevereiro, 2006

(DES)CULTURA NOSSA QUE NOS AFLIGE

Brasil:
  • 186 milhões de habitantes
  • 20 x a população de Portugal
  • 5,5 x a população da Argentina
  • 3 x a população da França e da Alemanha
  • 55 milhões de estudantes do fundamental à pós-graduação
  • tiragem média de um romance no Brasil: 3 mil exemplares
  • ocupação média dos teatros: 18%
  • público médio dos filmes brasileiros: 600 mil
Pergunto:
  • Quantas vezes você foi ao teatro no ano passado?
  • Quantos filmes (fora os de puro entretenimento) você assistiu?
  • Quais programas "culturais" você acompanha na TV?
  • Quantos romances você leu no ano passado?
  • Quantos livros "não técnicos de sua área" você leu?
  • Quando em viagem de férias, visita museus? Igrejas? Teatros? Bibliotecas?
  • Quantas exposições de arte (pintura, escultura, fotografia) você visitou no ano passado?

17 fevereiro, 2006

Pra falar a verdade...

Um monarca nunca permitia que lhe fizessem o retrato. Finalmente, cedeu aos pedidos do filho para que, antes de falecer, deixasse sua imagem à posteridade. Impôs, entretanto, uma condição: caso não aprovasse a obra, executaria o artista! Três píntores se dispuseram a arriscar o próprio pescoço.



O primeiro retratou o monarca tal e qual, com o narigão enorme e tudo. O rei, diante do quadro, embora admirando o gênio artístico, enfureceu-se com a figura horrenda e mandou enforcar o infeliz artista.


O segundo, apesar de temeroso, pintou o rei fielmente, com exceção do aberrante apêndice nasal, em cujo lugar colocou irrepreensível narizinho. O soberano, sentindo-se ridicularizado, condenou o pintor à pena capital, sem comiseração.


Chegou, a vez do terceiro. Habilidoso, conhecendo a paixão real pela caça, retratou o soberando portando um arco, a atirar numa raposa. O antebraço na arma tapava-lhe justamente o nariz. Diante do trabalho, o monarca sorriu satisfeito e recompensou o artista generosamente.

Alguém comentou:

- Há várias formas de se falar a verdade:

A primeira é a franqueza rude, contundente, que não hesita em expor toda a realidade dos fatos, doa a quem doer. Os partidários dessa atitude podem revelar o mérito da coragem e do desinteresse, mas tiram nota zero em relações humanas.

A segunda é a hipocrisia interesseira. Os deste grupo podem revelar inteligência e engenhosidade para distorcer os fatos, a fim de agradar aqueles a quem desejam conquistar.

A terceira é a dos partidários da verdade construtiva, evidenciando o que é útil, edificante, e elegante, omitindo sutilmente os aspectos menos agradáveis da vida do próximo.

Aqui vai um poema do Carlos Drummond de Andrade: Verdade.

13 fevereiro, 2006

Epígrafe

... a arte poética é a linguagem que expressa o inexprimível, o inenarrável, a "coisa" que está dentro da alma! Por isso, os poetas dizem que escrevem por necessidade, não por diletantismo. Os verdadeiros, claro.
Há momentos em que somos invadidos por emoções tão fortes, desconhecidas, ou tão estranhas, que palavras corriqueiras se tornam pálidas e vazias. Não foi em vão que muitos adolescentes (talvez nós mesmos, um dia) tomamos papel e lápis para, timidamente, rabiscarmos um poema apaixonado.
Titubeantes e gaguejantes, emendamos "amor" e "coração", rimamos "querida" com "amor de minha vida". Sim, por que não? Não é o estado da arte mas é a emergência de uma necessidade de dar sentido ao frêmito que descompassa o coração.
Cedo descobrimos: rimas pobres, palavras soltas ou garimpadas nos dicionários não nos tornam Poetas.
Então, recolhemos da estante um livro de Literatura para dele extrair alguma bela poesia que fale por nós. Muitas vezes, selecionamos uma música, pela melodia e pelos seus versos, seja um Renato Russo, Bob Dylan, Caetano...
Ah! como gostaríamos de ser poetas, "para eles é tão fácil", ingenuamente pensamos. Há, também, os poetas das telas, dos teclados, do mármore, da máquinas fotográficas, dos graffiti, etc.
Onde houver uma emoção indizível e um espírito criativo, aí pode germinar um poeta.
Tomar de empréstimo a Fernando Pessoa uma centelha de sua arte foi a alternativa que me restou para a epígrafe deste meu bloguinho.

08 fevereiro, 2006

Quarta maluca

Um dos supermercados do bairro promove, hoje, a "Quarta Maluca": às quartas-feiras oferece descontos significativos no setor de hortifrutigranjeiros.
É competição frontal com os "sacolões". Estes possuem bancas de legumes, frutas, raízes vendidos a 79 centavos o kilo, preço muitíssimo mais em conta que os praticados pelos supermercados. Nas quartas, a briga é até boa, supostamente em benefício do consumidor.

Trata-se, evidentemente, de estratégia de marketing para atrair mais gente à loja. A gente vai comprar uma "verdurinha" pro almoço e acaba comprando outros ítens. Há que ter objetividade e cuidado para não cair nas armadilhas dos marketeiros (que nos "vendem" até políticos corruptos!).

O título da promoção, "quarta maluca", pretende nos convencer de que os gerentes daquele estabelecimento "endoidaram", "amalucaram" e baixaram os preços: "Oba! estão doidos, estão vendendo bananas a preço de... banana!".

Maluco, porém, fiquei eu próprio, hoje, uma quarta-feira que já começou "da pá virada":

Os sintomas de loucura total começaram pela manhã, com a cozinha alagada. Feita uma anamnese cuidadosa, descobri que na véspera, antes de ir dormir, o Léo havia deixado o lava-louças cumprindo sua tarefa: xícaras, copos, pratos e talheres estavam limpos, mas a cozinha se transformara em lagoa!

O diagnóstico se firmou, um pouco mais tarde, quando o funcionário de uma empresa de manutenção veio tratar de outra loucura desencadeada na segunda-feira.
Dessa feita, os sintomas acometeram a máquina de lavar roupas, que não sabia mais se centrifugava, se torcia, se enxaguava.

Confusão de idéias e distúrbios de movimentos mereceram outra anamnese que, por sua vez, esclareceu o excesso de peso das roupas introduzidas naquele cilindro que chacoalha a roupa e deve ter chacoalhado a cabeça - o motor! - da dita cuja.

Dois disturbios matinais num dia de calor e um milhão de coisas para serem resolvidas só podem ser coisas de uma quarta-feira maluca:

O lava-louças sofrera ruptura vascular, ou seja, a mangueira tinha um furo. Não me perguntem a etiologia daquele buraco, pois nem mesmo o doutor-técnico soube explicar.
O exame anátomo-patológico da peça afetada revelou o que demonstra a ilustração abaixo:


Mais tarde, quando a Ana Letícia e eu fizemos, em cartório, a transferência do noso velho carro, vendido a preço de "quarta maluca", descobrimos que, ao preencher aquele documento próprio, ela o havia datado como se hoje fosse 08 de janeiro!

Conclusão: como estamos em 08 de fevereiro, o Detran-MG, que não brinca em serviço, já foi logo aplicando uma multa de R$ 127,00, já que a transferência do veículo estava fora do prazo (tem que ser feito em 30 dias corridos, e o documento indicava que 31 dias já se passaram!). De nada adiantou chorar e espernear, "dura lex sed lex", vale o que está escrito. Como diziam: "escreveu não leu, o pau comeu"!

O sol estava de rachar e a gente ali, enlouquecidos pela canícula de mais de 30 °C e pela loucura matinal dos eletrodomésticos.

Ou sempre fomos, nós mesmos, malucos?

04 fevereiro, 2006

"Nem só do pão vive o homem"

Conheci o Dr. Rodrigo da Cunha Pereira há alguns anos. Primeiro, pelos seus artigos e entrevistas na TV. Ele é Advogado, especialista em Direito da Família. Inaugurou, entre nós, uma abordagem sui generis das querelas familiares: uma compreensão para além do Direito, buscando entender as motivações inconscientes que tornam um inferno a convivência que prometia ser serena e amorosa entre os casais.

Rodrigo buscou conhecimento nos ensinamentos da Psicologia, em especial da Psicanálise, defendendo que a subjetividade de cada um deve ser levada em conta. A interpretação literal do texto jurídico é empobrecedora e pode levar a injustiças irreparáveis se desconhece a singularidade da cada caso e as motivações subjetivas que ensejam a conduta humana.

Certa vez, convidei-o para proferir uma palestra no lançamento de uma edição da Revista de Psiquiatria & Psicanálise com Crianças & Adolescentes, da qual sou editor.
O tema foi muito próprio: falou sobre a Paternidade.
Ultrapassou os ditames legais e enveredou pela especial relação entre pais e filhos. Defendeu uma tese original, apoiado em ensinamentos lacanianos a respeito do "pai simbólico": a verdadeira paternidade é adotiva!

Rodrigo enfatiza que o adjetivo se refere a um "movimento interior", "uma disposição do espírito", "uma decisão afetiva" que deve fundamentar a paternidade biológica tanto quanto a adotiva. É necessário que o pai (biológico ou não) "adote" realmente seu filho.

As crianças se sentirão abandonadas, órfãs mesmo, caso não recebam do pai o amor necessário ao seu desenvolvimento psico-social.
Esse tema foi brilhantemente retomado no artigo produzido pelo Dr. Rodrigo da Cunha Pereira publicado hoje no Caderno Pensar, do Estado de Minas.

Expõe suas idéias sob o título: "Nem só do pão vive o homem", explicando que "a compreensão social e jurídica da família contemporânea deve pressupor que a subjetividade interfere nessa organização, o que também afeta as decisões jurídicas".

O declínio da autoridade paterna, conseqüência do fim da ideologia patriarcal, apresenta hoje sintomas sociais sérios e alarmantes. Se os pais fossem mais presentes na vida de seus filhos, certamente não haveria tantas crianças e adolescentes com evidentes sinais de desestruturação familiar. Seria ingenuidade pensar que esses sintomas sociais que o cotidiano nos escancara são conseqüência apenas do descaso do Estado e de uma economia perversa. O que empurra um sujeito da favela para a marginalidade e o faz pôr fogo em um ônibus, é o mesmo “desejo desencaminhado” que faz adolescentes de classe média, ou rica, atearem fogo em um índio dormindo em um ponto de ônibus.

Rodrigo comenta uma decisão muito particular do STF (Supremo Tribunal Federal), ao dar ganho de causa a um filho que reclamou do pai uma indenização por danos morais sofridos. O filho em questão provou que fora abandonado afetivamente pelo seu pai, embora este tenha cumprido as exigências legais de pagamento de pensão alimentícia.

Escreve o Dr. Rodrigo:

O pai sempre pagou pensão alimentícia ao menor. Faltou alimento para a alma, afinal de contas, nem só de pão vive o homem. O pai, por seu lado, apresentou suas razões, dizendo que sua ausência se justificava por ter-se casado novamente e que moravam em cidades diferentes etc. Será que há alguma razão/justificativa para um pai deixar de dar assistência moral e afetiva a um filho? A ausência de prestação de assistência material seria até compreensível, se se tratasse de um pai totalmente desprovido de recursos. Mas deixar de dar amor e afeto a um filho... não há razão nenhuma capaz de explicar tal falta.

A defesa do pai alegara que "não se pode obrigar um pai a amar seu filho". Dr. Rodrigo argumenta:

Se um pai ou uma mãe não quiserem dar atenção, carinho e afeto àqueles que trouxeram ao mundo, ninguém pode obrigá-los, mas à sociedade cumpre o papel solidário de lhes dizer, de alguma forma, que isso não está certo e que tal atitude pode comprometer a formação e o caráter dessas pessoas abandonadas afetivamente. Afinal, eles são os responsáveis pelos filhos e isso constitui um dever dos pais e um direito dos filhos. O descumprimento dessas obrigações significa violação ao direito do filho.

É lógico que o dinheiro indenizatório não pagará, nunca, o prejuízo afetivo: o amor não tem preço, todos sabemos. Trata-se de uma intervenção ao nível do simbólico que ensina à sociedade que o abandono afetivo é violação de um dos direiros fundamentais dos filhos.

Muitos homens, ao se separarem, "encostam" os filhos nas mães, deixando a elas todo o cuidado afetivo, a educação, o apoio moral, a função de sustentar a Lei, etc. Contentam-se, esses pais abandônicos, a pagar a pensão alimentícia acordada judicialmente e deixam os filhos órfãos.

Um grande avanço esse entendimento "psicológico" da lei, não?

02 fevereiro, 2006

Se beber, não voe. Se voar, não beba.

Já li em algum lugar que os pilotos das companhias aéreas são muito propensos a usarem drogas (pesadas, inclusive), entre elas o álcool. As explicações são muitas: tédio durante as intermináveis travessias oceânicas; piloto automático que os dispensa de tarefas; salários bons que lhes proporcionam disponibilidade financeira; vida solitária (mesm para os casados), devido às constantes viagens e pernoites em cidades diferentes; hotéis confortáveis com bares convidativos; depressão; lazer que inclui idas a boates e restaurantes, onde é de praxe que se tome um drink, etc.

Aquele charme imaginado por nós, pobres mortais, é pura fantasia: no ar, a rotina é constante e os procedimentos de vôo são controlados por computadores e lista pormenorizadas de tarefas, altamente estressantes. Não é a toa que os sindicatos dos aeronautas recusa a colocação de câmeras de vídeo nas cabines - isso é o que já ouvi falar, alguém sabe melhor? Mesmo assim, viajo de avião sem problema nenhum, pois uso do mais manjado mecanismo de defesa que existe: negação!

Mas que passarinho fique bêbado, essa é novidade pra mim. Aqui em Minas (talvez alhures, também), se denomina a danada da cachaça de "água que passarim não bebe". Então, como é que as inocentes aves foram entrar nessa?

Eis a notícia:

Especialistas que examinaram 40 passarinhos encontrados mortos em Viena disseram que eles não foram vitimados pela gripe aviária, como se temia inicialmente, mas que se chocaram contra janelas, depois de se embebedarem ao comer frutas fermentadas. Os pássaros - cujos restos foram cuidadosamente examinados - tinham fígados tão ruins que "pareciam alcoólatras crônicos", disse Sonja Wehsely, porta-voz da autoridade de saúde animal de Viena. T

Todos morreram com o pescoço quebrado, depois de se chocarem contra vidraças, aparentemente depois de se esbaldarem em frutinhas que tinham começado a apodrecer. O processo de fermentação que acompanha a decomposição transforma o açúcar do suco da fruta em álcool.

Segundo a porta-voz, o processo de fermentação provavelmente continuava dentro do estômago dos pássaros, o que os deixava ainda mais desorientados durante o vôo.

Eu, hein?



Os "filhotes" Ângelo e Leo
e sua banda
Chapéu Panamá
HOJE
no
Consulado do Chopp
21h
Av. Francisco Sá (Prado)


"Quem não for é mulher do padre!"

30 janeiro, 2006

Alcione Araújo: O ponto a que chegamos


Alcione Araújo é quem conta este caso, em sua crônica de hoje no jornal Estado de Minas (link disponível só para assinantes):

Dia desses, no cinema – o verão no balneário Rio de Janeiro é um carnaval de etnias, cores, gêneros e idiomas sob canícula senegalesa que, para muitos, só o cinema refresca –, o filme ia a meio, quando soou algum celular. À frente, a voz feminina, com sotaque, digamos, não carioca, para não estigmatizar, foi ouvida por toda a sala: “Oi. Ainda tá na praia? Esperei, amor, juro! Ninguém pintou. Três horas vim pro cinema refrescar. Sei lá, um filme besta, tô sacando nada.”
O volume da voz e a espontaneidade das falas davam a impressão de que, embora longe da torrão natal, ela sentia-se em casa, quem sabe no banheiro, no quintal ou no curral: lixava-se para as centenas de espectadores – eu entre eles – interessados no que o filme fala do homem e do mundo, alheios ao desencontro dela com o seu amor. Logo, ouviram-se vários shhhhhs na platéia. Aos arrufos, ela seguiu a conversa. A tolerância da platéia se esgotou e surgiram gritos: “Desliga essa p...! Cala a boca! Quero ver o filme!” Inacreditável, mas ela seguiu na conversação.


De repente, uma senhora levantou-se indignada da fila atrás de mim e marchou até a poltrona da falastrona, arrancou-lhe da mão o celular e voltou na penumbra do corredor: “Essa tecnologia é pra quem tem educação. Vou entregar seu brinquedo na bilheteria. Pegue na saída.” A platéia aplaudiu. A moça ergueu-se aos gritos: “Me dá esse telefone! Devolve meu celular! Você não tem o direito! Isso é meu, sua ladra! Polícia, Polícia!” Parte da platéia vaiou-lhe, outra parte aplaudiu a senhora. No escuro, todos os gritos são pardos: “Telefona da rua! Expulsa! Chama a polícia! Cala a boca! Eu paguei pra ver filme, pô!” Uma voz de bêbado rosnava ao fundo: “Exsfola! Exscalpela! Exstupra!” Ela, então, perdeu o controle e soltou a desastrada carteirada: “Vocês não sabem com quem estão falando. Meu pai é autoridade! Sou filha do deputado fulano de tal.” E em passos ágeis e gesto preciso, sacou o celular da mão da senhora: “Isso é meu, sua perua!” festejou triunfante, de volta ao seu lugar.

Em súbita e coletiva reação, o cinema, tomado de cólera, vaia e grita: “Fora! Piranha! Rua! Filha de ladrão ganha mensalão! Vagabunda!” Alguns sobem nas cadeiras. O rapaz salta feito gato em telhado e, num gesto mais ágil, retoma o telefone: “É teu? Teu pai é deputado? Então vá pegar seu celular!” – com violência, atira o aparelho contra a parede. A projeção é interrompida, luzes se acendem. Espectadores furiosos a cercam aos gritos: “Mensalão, mensalão, filha de ladrão, recebe mensalão!” A moça recua em pânico, quando a providencial turma do deixa disso acalma a turba e retira-a da sala, aos prantos. O projecionista teve o bom senso de reiniciar logo o filme.

Eis o ponto a que chegamos. Nem sei o que dizer. Talvez seja o caso de os políticos e seus familiares evitarem ostentações e confrontações, serem mais discretos, quem sabe até usar disfarces – cautelas que os ladrões sempre observam.

Alcione Araújo escreve publica suas crônicas no Estado de Minas, sempre às segundas.
Algumas obras publicadas:
NEM MESMO TODO O OCEANO (1998, Record)
SIMULAÇÕES DO NAUFRÁGIO – VOL I (1999, Civilização Brasileira)
VISÕES DO ABISMO – VOL II (1999, Civilização Brasileira)
METAMORFOSES DO PÁSSARO – VOL. III (1999, Civilização Brasileira)
URGENTE É A VIDA (2004, Record)
A PALAVRA AMEAÇADA (no prelo, Record)

[A ilustração deste post foi feita por Alexandre, do EM, e acompanha a crônica de hoje].

29 janeiro, 2006

T i r a d e n t e s - M G




Imagens de luz e de sombras
Ladeiras, sacadas, portais
Descanso e gastronomia
Becos e trilhas

Ouro nos altares
Ferros, cerâmica, madeira
Pedras no chão
E a Serra de São José
Tiradentes são muitas
Minas Gerais

27 janeiro, 2006


Tinha um rocambole no meio do caminho
No meio do caminho tinha um rocambole
Recheado com doce-de-leite e chocolate
Tinha um rocambole no meio do caminho

(Sempre acontece o rocambole
Em Lagoa Dourada-MG
Entre BH e Tiradentes)

Nunca me esquecerei deste acontecimento
Na vida de minhas papilas tão curiosas
Que tinha um rocambole no meio do caminho
No meio do caminho tinha um rocambole
(Que me perdoe o Drummond).

22 janeiro, 2006

FARMÁCIA OU DRUGSTORE?

O filósofo grego, Platão, em seu diálogo chamado Fedro, descreve a analogia socrática entre a ciência médica e a retórica: ambas se ocupam da natureza: a do corpo e a da alma.
Sócrates afirmava que, enquanto a ciência médica administraria ao corpo medicamentos e alimentos - promovendo desta forma a saúde e a força - a dialética, visando a alma, proporcionaria idéias e ocupações justas que conduzem à convicção e à virtude.


O conhecimento médico entre os gregos da época era pautado pela noção hipocrática de phísis: aquilo que é o que é por natureza, independente da decisão ou vontade racionais dos seres humanos.

Eis o fragmento do texto de Platão:

Sócrates - A ciência médica tem, de certo modo, o mesmo caráter da retórica.
Fedro - Como assim?
Sócrates - Em ambas é preciso analisar uma natureza: a do corpo em uma, a da alma na outra, se se quer recorrer não somente a uma rotina e a uma prática, mas a uma técnica, para ministrar ao corpo remédios e alimentos e produzir assim, nele, a saúde e a força; e para a alma, idéias e ocupações justas para lhe transmitir a convicção e a virtude que são desejáveis.

De acordo com a concepção de Hipócrates, retomada por Platão, a saúde estaria no equilíbrio entre as virtudes éticas da alma e as "virtudes" do corpo: uma, espelho da outra. A simetria das partes e das forças naturais configuraria a saúde. Daí o aforismo: mens sana in corpore sano (mente sã em corpo saudável).



Se o uso de medicamentos – embora primitivos, empíricos – já era prática, é preciso distinguir as várias concepções do phármacon, de acordo com Jorge Saurí (Temor de la Terapéutica, Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, V. I, no. 1, São Paulo, 1998):
  1. Droga - pode ser remédio e/ou veneno, dependendo da singularidade de cada pessoa, da indicação, da quantidade e da época da doença.
  2. Tintura - pode fazer algo parecer outra coisa. São as drogas que tratam apenas o sintoma, sem atingir as causas. Por exemplo: antitérmico que pode baixar a febre, mas que não combate a infecção que está desencadeando essa febre.
  3. Escritura - favorece a recordação e incita o esquecimento: pela confiança no que já está escrito. O apego à tradição promove a inflexibilidade na aplicação dos medicamentos e a utilização de ritos mágicos ou supersticiosos. As proibições de combinar certos alimentos (manga com leite, por exemplo) se enquadram neste tópico.
  4. Objeto Numinoso - remete ao mágico, numa função expiatória. A Medicina hipocrática situa, aqui, a expectativa mágica de cura que fica investida, pelo doente, na figura do doutor que dele cuida. Há uma “sacralização” da figura do profissional, conforme descreve Hipócrates: As coisas que são sagradas devem ser reveladas aos homens sagrados; aos profanos, elas não são permitidas enquanto eles não sejam iniciados nos mistérios da ciência.
Todas essas atribuições dos fármacos e da função médica devem ser levadas em conta e orientam uma boa prática.

Infelizmente, com as promessas da indústria farmacêutica, os pacientes já chegam ao médico demandando um tipo específico de medicação, uma solução mágica para seus problemas.

Isso é muito mais evidente em meu consultório, ao qual algumas pessoas acorrem na expectativa única de que posso fornecer a
felicidade plena ministrando um comprimido de Prozac ou de Lexotan! Não querem falar de si, não querem voltar-se para a própria história, têm medo de perscrutar seu inconsciente. Muitos recusam uma psicoterapia, dizendo:
- E se eu descobrir que não faço nada do que quero e vivo sem paixão?
Ao que respondo:
- E alguém lhe diz o contrário?

Preferem a tintura: algo que mascare seu sofrimento, sem que se busquem as causas, assentadas que estão em sua história e em seus conflitos.

À utopia de se ter felicidade plena, corpo perfeito, integração social sem conflitos atendem os médicos que se julgam deuses (operam apenas como objeto numinoso) e as atuais farmácias, já explicitamente chamadas de drugstores, onde tudo se vende: remédios, doces, alimentos dietéticos, presentes, picolés, sorvetes, refrigerantes, shampoos, comida pra cachorro, telefone celular, carvão para churrasco, jornais, etc.
É o que se chama loja de conveniência.
Conveniência do mercado dos ideais hedonistas da cultura, cujo marketing se baseia em promessas vãs (exatamente aquelas em que todos querem acreditar!).


Já o doente...

_______
Atualização:Resposta ao comentário da Erika:

O tratamento dos transtornos psiquiátricos evoluiu muito e podemos creditar ao uso de psicofármacos grande parte deste avanço.
Nos idos de 1950, descobriram-se as fenotiazinas (amplictil, neozine, melleril, etc) e as butirofenas (haldol, triperidol, etc); também os ansiolíticos (diazepan e assemelhados). Isso possibilitou incomensurável alívio aos portadores de doenças mentais e que evitou o absurdo número de internações psiquiátricas (quem nunca ouviu falar dos terríveis "hospícios", destino inexorável dos "loucos de toda espécie"?) iniciando-se o processo de desospitalização.

Com o advento dos antidepressivos (anafranil, tryptanol, tofranil - os tricíclicos) na década de 60 e dos mais modernos (fluoxetina, citalopram, sertralina, etc), muitos dos que padeciam de depressões se viram livres do sofrimento sem fim.
Por isso, não se pode descartar o arsenal terapêutico disponível, cada vez com menos efeitos colaterais.

Por outro lado, é necessário que se tenha uma visão abrangente do ser humano. Se temos um cérebro com sua complexíssima estrutura e quase misterioso funcionamento, é claro que a neurofisiopatologia se tornou uma ciência respeitável.
Há e haverá, ainda, muitos avanços. Assim como abusos, infelizmente. Mas não somos, apenas, neurônios.


Afinal, somos seres-de-linguagem, essencialmente angustiados pelo conhecimento da morte e em constante conflito interpessoal, moral, etc.
Há que ser artista todo aquele que se dedica à Psiquiatria. Eis o meu desafio cotidiano...

_____________________
[ Republicado a propósito do "Dia do Farmacêutico", transcorrido dia 20 de janeiro, dia de São Sebastião, padroeiro da gloriosa cidade fundada às margens da Baía da Guanabara.
Motivou-me a notícia de que as grandes redes de drogarias/farmácias estão abrindo verdadeiros "shoppings" para venda de remédios, produtos de beleza e "secos e molhados" em geral!
Em BH, já existem "megastores" de medicamentos... ]

19 janeiro, 2006

Sou feito de linguagem, logo blogo!


Outro dia - Há alguns meses, Idelber relatou seu encontro com Blogueiros em Vila Madalena-SP. O pessoal, além de uma libação etílica, falou de tudo, de filosofices a bobices (tudo no bom sentido, pelamordedeus!).
Pra mim, o melhor de tudo, foi a camiseta usada pelo Idelber, onde se lê:
  • I AM... THEREFORE I BLOG
  • EU EXISTO... LOGO EU BLOGO
Trata-se de uma paráfrase do dito cartesiano:
  • Cogito, ergo sum.
  • Eu penso, logo existo.
A associação me veio de imediato:
somos seres-de-linguagem, por isso falamos, escrevemos, discutimos, contamos histórias, temos memória, construímos sonhos, mentimos, buscamos a verdade, poetamos, romanceamos, deixamos marcas... somos hommelettre (homemletra), caminhando num oceano de significantes.
Só existo enquanto significo algo para alguém. Significar = ser um signo, um sinal, uma letra.
Por isso, blogo.
E, quando blogo, me divirto.
E la nave va.

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Atualização em 20jan06:

Começa, hoje, a 9a. Mostra de Cinema de Tiradentes.
Estaremos lá, Amélia & eu, além dos "artistas" todos, na Pousada Mãe Dágua, até 28, sábado.
Nosso cardápio será: Turismo, Cultura, Gastronomia, Diversão, Arte e... nós dois juntinhos!

16 janeiro, 2006

- Sawu bona! - Sikhona!

Entre as tribos do norte de Natal, na África do Sul, a saudação mais comum, equivalente ao nosso popular "olá!", é a expressão:
- Sawu bona. Literalmente, significa: -Te vejo.

Um membro da tribo poderia responder:
-Sikhona! (Eu estou aqui!).

O importante é o simbolismo desta troca de cumprimento:
- Até você me ver, eu não existo.
Ou seja: ao me ver, você me faz existir.

Este significado faz parte da cultura ubuntu e, talvez, só faça sentido para aquelas tribos.

Várias são as teorias psicológicas que afirmam a importância do Outro na formação de nossa identidade, de nossa subjetividade.

Nascemos como 'tabula rasa' em termos de linguagem, noção de identidade pessoal e consciência do Eu. Sem o Outro da cultura, sem alguém que nos veja como um semelhante, nada seríamos.

A Psicanálise - principalmente a partir de Jaques Lacan - demonstra que até mesmo o Eu de cada um é uma criação imaginária vinda do Outro, ou seja: é a partir do olhar da mãe (Outro) e dos cuidados de outros seres humanos que nos tornamos igualmente humanos.

Essas reflexões me surgem toda vez que recebo comentários aqui no Pras Cabeças. Há um certo júbilo que interpreto: "ah!, se alguém lê meu post, isso me faz existir no mundo-blog."
Esquisito, não?

Creio que o sistema de comentários, tão próprio dos blogs, é um dos "ganchos" que sustentam essa atividade apaixonante: quem diz algo deseja ser escutado; quem escreve, deseja ser lido. Há um interlocutor imaginário ao qual o post é dedicado.

Mas o puro imaginário, creio, não sustentaria a existência de um blog, você concorda?

Quantos romancistas, cronistas e poetas chegam a explicitar essa necessidade do Outro em seus escritos! Utilizam-se de recursos estilísticos vários. Por exemplo: "o leitor que me acompanha até aqui...".

João Guimarães Rosa já começa seu Grande Sertão: Veredas com um travessão, indicando que, ali, começa a narrativa do Riobaldo. Trata-se de um diálogo entre o narrador e... o leitor! E quem é o interlocutor? Nós, seus leitores, que mergulhamos na leitura e "escutamos" aquela estonteante catarse, principiada com um misteroso vocábulo:
- Nonada.

Há uma cumplicidade fundantamental entre o Autor que publica (publicar = tornar público; dar ao povo) e o suposto leitor. Este "suposto" leitor é uma "realidade" que sustenta o escritor, o poeta, o pintor, o Artista. Realidade imaginária, você sabe, mas com força de Real. Sustenta o blogueiro também, por que não?

Seu comentário, caro leitor, é a prova de que meu imaginário (embora quase sempre inconsciente) tem lá sua realidade: "ah! alguém comentou!"; "oh! quantos comentários!", etc.

Há outros artifícios que sustentam os milhões de blogueiros: verificar o número de page-views, as estatísticas, os termos de procura no Google, etc.

Assim, nos livramos da loucura: só mesmo o psicótico prescindiria de um Outro. Mas, mesmo nesses casos, há a criação de uma realidade delirante, um "outro" que é puro reflexo de si mesmo, tal qual Narciso apaixonado pela própria imagem refletida no lago. Uma cisão (squízein) de si mesmo: esquizofrenia.

Por isso, cada comentário deixado no Pras Cabeças é uma saudação:
- Sawu bona!

E eu sempre respondo:
- Sikhona!

14 janeiro, 2006

Mineirinho Valente

Mineirinho Valente




Ingredientes:
600 gramas de canjiquinha (deixar de molho na água por 1 hora aproximadamente)
2 cebolas picadas
1 pimentão vermelho picado
2 talos de aipo picado em cubos
Tempero alho e sal
2 litros caldo de costela
4 dentes de alho picado
3 colheres de sobremesa de manteiga
4 colheres de azeite
Uma pitada de curry
Pimenta Biquinho
Espinafre picado
Cheiro verde
300 grs de queijo minas meia cura ralado grosso
pimenta do reino a gosto
500 grs de lombo defumado picado em cubos
400 grs lingüiça caseira
500 grs Costelinha de porco desossada picada em cubos e temperada com vinho branco

Preparo:
Fritar o alho no azeite, em seguida colocar a cebola, pimentão, aipo e curry, deixe fritar por alguns minutos. Escorrer a água da canjiquinha e colocar na panela. Adicionar o caldo de costela, pimenta do reino e temperar a gosto. Deixe cozinhar aproximadamente por 15 minutos mexendo de vez em quando para não agarrar, vai colocando caldo de carne a medida que for secando, misturar 2 colheres de manteiga e reservar. Fritar levemente a lingüiça com um pouco de manteiga e reservar. Fritar a costelinha desossada e reservar. Misturar o lombo defumado, lingüiça e a costela na panela da canjiquinha por 10 minutos em fogo baixo, em seguida colocar as folhas de espinafre e fazer a montagem com queijo.

Levar o caldeirãozinho ao fogo, forrando-o até ao meio com a canjiquinha preparada, Colocar o queijo ralado, formando uma camada. Completar com a canjiquinha, mais uma camada de queijo, cheiro verde e pimenta Biquinho. E..., bom apetite!

Autor: Ilmar
Esta foi a melhor "comida di buteco' de 2005, em Belo Horizonte! O festival popular de gastronomia, que agita os bares e botequins de BH e, desde ano passado, de outras cidades de Minas, já esquenta os tamborins para 2006.

Uma notícia de hoje, no EM, encheu de orgulho os belorizontinos, já bairristas por natureza:

Um dos bares mais tradicionais de Belo Horizonte vai receber um prêmio no 31º Festival Internacional de Hotelaria, Gastronomia e Turismo de Madri, na Espanha. O Casa Cheia, que fica no Mercado Central, na região Centro-Sul da capital, foi reconhecido como um dos mais importantes estabelecimentos do setor e será condecorado com a insígnia de ouro “Global Quality Management”.

O prêmio será entregue dia 25, na abertura do festival, que se prolonga até o dia 29, na capital espanhola. O dono do Casa Cheia, Ilmar Antônio de Jesus, viaja com a família segunda-feira para receber a condecoração. O bar é o primeiro de Minas Gerais a receber o prêmio.

De acordo com Ilmar, a indicação ocorreu depois do término do último Festival Comida di Buteco, em junho, quando o Casa Cheia foi escolhido como o bar com o melhor tira-gosto de Belo Horizonte. O prato escolhido foi o “mineirinho valente”, que combina canjiquinha, lombo e lingüiça defumados, costelinha temperada ao vinho, creme de espinafre, queijo e pimenta-biquinho,

TURISTAS Ilmar conta que logo depois do festival, recebeu a visita de um grupo de turistas espanhóis e serviu a eles, durante uma semana, diferentes pratos da casa, como o “porconóbis e sabugosa”, o “costela de Adão” e o “feijão mexicano”, já premiados em edições anteriores do Comida di Buteco. Depois de trocar receitas com o grupo, Ilmar ficou surpreso ao descobrir que entre eles estavam integrantes do comitê de seleção do prêmio internacional.

“Estou muito feliz com o reconhecimento e o prêmio vai servir para divulgar o turismo de BH”, comemora Ilmar, que foi informado sobre a premiação em novembro. O Casa Cheia é um dos mais antigos bares do Mercado Central e, a exemplo do complexo comercial, atende um público bastante diversificado. O sucesso do bar é tanto que, nos fins de semana, os clientes fazem fila para conseguir uma mesa.

"Estou muito feliz com o reconhecimento e o prêmio vai servir para divulgar o turismo de BH" - Ilmar Antônio de Jesus, dono do Casa Cheia.

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Outro que deveria ser condecorado é o Soié.
Veja aqui, por quê.

13 janeiro, 2006

ASSIM FALOU SOFOCLETO:

  1. A liberdade consiste em não usar relógio.
  2. As melhores coisas sobre a liberdade têm sido escritas no cárcere.
  3. É preciso ser louco para se pôr nas mãos de um psiquiatra.
  4. Muitos escritores esgotam-se antes dos seus livros.
  5. O açúcar é o sal da vida.
  6. O homem criou o espelho à sua imagem e semelhança.
  7. O mundo está dividido entre os de mais e os de menos.
  8. Os aniversários são o aluguel que pagamos pela vida.
  9. Os imbecis deixam suas impressões digitais no que dizem.
  10. Para compreender os pais, é preciso ter filhos.
  11. A mediocridade é a arte de não ter inimigos.
  12. Quando a gente se apaixona pensa em tudo menos no que está pensando.
  13. Não há nada tão difícil como ler o pensamento de um analfabeto.
  14. Ousar é tropeçar momentaneamente, não ousar é se perder.
  15. Os biógrafos e os abutres alimentam-se de cadáveres


    [Luis Felipe Angell, pseudônimo: Sofocleto (Peruano, 1926- 2004).
    Autor de “La tierra prometida”.
    Escreveu artigos de caráter humorístico e satírico nos jornais de Lima, compilados em suas obras: "Sinlogismos"(1955), “Sofonetos” e “Al pie de la letra”(1960) e “Diccionario chino"(1969).]
Essas frases lembraram-me Millor Fernandes, que é mais do que humorista, quase filósofo "marginal".
Saber manejar palavras e sintetizar uma idéia complexa em uma única sentença, para mim, é uma arte.
Arte pras cabeças.
A gente pode rir, mas pensa.
Às vezes começamos com um sorriso e terminamos com um travo meio amargo.

Diante do trágico da vida, rir é preciso, chorar não é preciso.

12 janeiro, 2006

No escurinho do cinema

Assistir a um bom filme é experiência sensorial e emocional plena, principalmente se for "no escurinho do cinema", se a platéia souber se comportar, é claro.

Infelizmente, o "povo" hoje está muito mal educado e transformou as salas de exibição em lugar de convescote, ou pic-nic, como se diz: levam-se sacos e mais sacos de pipoca, copos e mais copos de refrigerante, desembrulham-se quilos e mais quilos de balas, chocolates, bombons e pirulitos, além das conversas em voz alta, piadas de mau gosto, etc. Quem nunca passou pela tortura de querer prestar atenção em um filme e ser desconcentrado pela bagunça reinante?

Mas quando se consegue o propício ambiente, não há como se deixar envolver por uma boa trama, uma história bem narrada, música e ruídos realçando sensações desencadeadas pelo desfile de luz e sombra que nos hipnotiza e nos transporta para outra dimensão.

Há, porém, outras utilidades para a tal da "sétima arte", dentre as quais salientarei uma que concerne ao meu campo de trabalho: o ensino da Psiquiatria e da Psicanálise.

Diz-se que "a arte imita a vida", o que muitas vezes é verdade. Afinal, o simbólico surge como fator inaugural da cultura: dizer o indizível, representar os conflitos, os medos, os sonhos... tudo isso compete à arte.

A Psicanálise (pacientes, psicanalistas, conflitos) tem sido tema de inúmeros de filmes. Um casamento nem sempre feliz, pois predominam a caricatura e o simplismo. Veja-se o que diz
Cláudio Duque, psiquiatra pernambucano recentemente falecido:

O cinema, ao se aproximar da psicanálise o faz de fora, com o olho do espectador, e a psicanálise não existe para terceiros. Por isso, um filme sobre o trabalho psicanalítico parece tão sem vida quanto uma sessão anotada por um aprendiz para mostrar ao seu supervisor. Tão expressiva quanto um calendário-brinde de bolso, com uma reprodução da Santa Ceia, em comparação com o original.

Se "a via régia" para se aproximar do inconsciente são os sonhos, conforme nos ensinou Freud, em A Interpretação dos Sonhos, a analogia destes com o cinema é óbvia. Na sala escura temos a oportunidade de vivenciar emoções mais diversas, intrigantes, assustadoras ou prazerosas, assim como nos sonhos. A "realidade" imaginária do sonhar, onde tudo é possível, em que a aparente lógica do dia-a-dia é totalmente subvertida, o passado e o presente se misturam, tudo isso ocorre nas telas e nos envolve plenamente.

Cito, novamente, Cláudio Duque:

Esse poder absoluto, disponível nos sonhos, de criar uma realidade alucinatória, desde há muito tem sido comparado com a atividade de construir um espetáculo cênico e se torna mais evidente se tomarmos o cinema como exemplo. Quem faz cinema se aproxima mais que ninguém desse poder criador. Muito antes das brincadeiras dos irmãos Lumiére, Joseph Addison, no The Spectator n. 487, Londres, publicou em 18 de setembro de 1712, um artigo intitulado "Sobre os sonhos", em que dizia:


"Não há ação mais penosa da mente do que a invenção. Não obstante, nos sonhos funciona com uma facilidade e uma diligência que não ocorrem quando estamos acordados". (...) "O que desejo destacar é o divino poder da alma de construir a sua própria companhia. Conversa com inumeráveis seres de sua própria criação e se transporta a dez mil cenários de sua própria imaginação. É o seu próprio teatro, seu ator, e seu espectador. Isso me faz recordar o que Plutarco atribui a Heráclito: todo homem acordado habita um mundo comum; porém cada um pensa que habita seu próprio mundo quando dorme (sonha)"(...).

Acho que é hora de ir ao cinema. Até.