28 março, 2006

Lembrete ao Guido Mantega

Toma posse, hoje, o novo Ministro da Fazenda, Guido Mantega. Entre outras providências, Sr. Ministro, que tal desonerar também os medicamentos?

Se não por humanidade, por isonomia: acontece que seu predecessor "desonerou" os investidores estrangeiros, poupando-os de pagar CPMF e impostos quando "investirem" na Bolsa, aqui no Brasil. Eles podem ganhar dinheiro sem produzir, né? Se algum outro país oferecer condições melhores, não hesitarão de retirar as verdinhas. Migram como gafanhotos: onde tem pastagem, lá estão eles, até esgostarem a última folha verde, o último grão.

E então? Continuaremos a pagar os 35% de imposto sobre medicamentos?

De qualquer forma, quem sabe o Ministério da fazenda poderia divulgar este meu recado de utilidade pública, dando dicas de como economizar? É só preferir outros "bens" ao invés de ficarmos comprando remédio...

"Economize, irmão, economize!"

Olhaí a nota publicada no Estado de Minas de sábado passado:

O consumidor paga R$ 35 de imposto em cada R$ 100 desembolsados com remédios nas drogarias brasileiras. A conclusão é de estudo feito pelo Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT)."

Continua a notícia:

O levantamento mostrou que a tributação sobre os medicamentos no Brasil é a mais alta do mundo. Em outros países, como os Estados Unidos, a taxação é de 5%; no Canadá de 7%; no México, 15% e na Alemanha e Espanha, 16%. Se for comparar a carga tributária incidente no preço final dos medicamentos com outros produtos essenciais à população, principalmente itens da cesta básica e insumos agrícolas, a tributação nos remédios surpreende, segundo Gilberto Luiz do Amaral, presidente do IBPT.

“A carga tributária é tão desigual que há a ironia no mercado que diz que a pessoa que entra mugindo em uma farmácia gasta menos do que tossindo. É uma incoerência de política pública”, afirma Amaral. Segundo o estudo, os medicamentos veterinários pagam 14,3% menos tributo do que os humanos."


Pois então: a dica de economia é a seguinte:


  1. não vá ao médico: vá ao veterinário;
  2. não vá à farmácia: vá a uma drogaria veterinária;
  3. não compre remédio: compre um iate, arroz & feijão, ração pra cachorro. Compre até mesmo um avião!
  4. não diga ao balconista da sua drogaria que o remédio é para você. Jure, de pé junto, que aquele remedinho pro estômago é pro seu gatinho ou pro seu papagaio;
  5. mas o melhor mesmo é: não adoeça nunca!

Ao final de um ano você verá a economia conseguida.

É ou não é uma boa dica de economia?

Ah! não se esqueça de me enviar 20% da economia que você fizer: afinal, eu não sou veterinário, mas também não sou bobo!

25 março, 2006

S.A.B. Síndrome de Abstinência Blogueira

1 - O Smart fechou seu Smart Shade of Blue. Mais do que imperdível, seu blog é necessário!

Agora está meio que sofrendo de umas coceirinhas nos dedos. Sua mente, que parecia lúcida, só pensa naquilo. Ou seja: anda pela casa tendo mil idéias e murmurando: "isso dá um belo post". Vê notícias na TV e a obsessão aferroa-lhe a alma: "vou fazer um post sobre essa manchete". Ao passear pelas margens do Lago Sul ou descobrir mais uma fofoca na côrte federal, suas entranhas exigem: "faça um post! faça um post!"

2 - O Idelber fechou seu Biscoito Fino e a Massa. Mais do que imperdível, seu blog é necessário!

Deve ter passado pelos mesmos sintomas do Smart: calafrios, tremores, uma ou outra alucinose blogológica. Provavelmente, em suas aulas de Literatura em Tulane (New Orleans), fala pros alunos, recomenda livros, faz palestras mas sua cabeça devia martelar: "Biscoito! Biscoito! Quero Biscoito!". Viria uma aluna com donuts ou cookies: "Eat this, please!" Escutaria a resposta: "Não, não é esse aí que eu quero. Quero é um biscoito fino."
Pois Idelber não resistiu à sua síndrome de abstinência. Para nosso gáudio (epa!), anunciou: "Vou voltar... sei que ainda vou voltar". Marcou a data pra 31 de março. Tá chegando, tá chegando...


3 - O Milton Ribeiro não fechou seu Milton Ribeiro. Mais do que imperdível, seu blog é necessário!

Milton já fez um post inteiro provocando o Smart. Nomeou-o o melhor blogueiro do Brasil. Anunciou que o Idelber já está voltando. Só faltou gritar - e eu faria coro: "Volta Smart! Volta!"

4 - Lúcia Malla não fechou seu Uma malla pelo Mundo. Mais do que imperdível, seu blog é necessário!

Lúcia viu o tratamento que propus pro Smart curar sua síndrome de abstinência e me disse: "Adorei essas dicas. Por que não publica no seu blog para "eterniza-las" blogosfericamente?".

5 - Elenara também não fechou seu Imaginação ao Poder. Mais do que imperdível, seu blog é necessário!

Elenara foi outra que gostou da receita, apoiou a Lúcia, aplaudiu Idelber e lamentou o bloguicídio do Smart.

Foi uma dica e tanto. Aqui vai:

Tratamento para Síndrome de Abstinência Blogueira

a) Retirar-se da droga - do blog! -progressivamente: faça um post a cada 5 dias; aumentar o intervalo até conseguir um post a cada 150 anos.

b) Substituir a droga - ou melhor, o blog - e começar a escrever no Bombordo - [Esta o SSoB já tá fazendo. E muito bem. Confira.]

c) Dar suas idéias de posts maravilhosos aos colegas blogueiros que a gente aproveita, escreve e dá um "créditozinho". Você vai ficar feliz e espalhar pelo mundo: "Idéia minha! Idéia minha!"

d) Visitar os blogs alheios e comentar tudo, até receita de pudim de leite condensado.

e) Essa é infalível: internar-se num resort à beira mar, com muitas caipirinhas, piscina, sol, mar, areia, água de coco, passeio de jet-ski, ultra leve e outras mordomias mais.
Mas, atenção: é preciso me levar como acompanhante terapêutico (no caso, não cobro honorários, só a hospedagem no mesmo resort).
Se não curar o paciente, pelo menos eu descanso um pouco!

O Smart já respondeu dizendo que tem outras idéias a respeito de quem levaria para um resort. Bom, para evitar mal-entendidos eu gostaria de esclarecer que minha co-terapeuta é a Amélia... e não abro mão!


E você, já escolheu o resort aonde nós vamos?

20 março, 2006

PEGA NA MENTIRA

Mentirosos compulsivos: acautelai-vos!
Tem gente que gosta de pregar uma mentira... mesmo não sendo pescador - sinônimo de exagerados, mentirosos, bons contadores de histórias mirabolantes nas quais os peixes pesam quase toneladas e os métodos podem ser os mais inusitados: com pauladas, com assobios, sem anzol, sem iscas, etc.
A Psiquiatria tem lidado com estes problemas - não os pescadores, que não mentem, apenas "exageram um pouquinho" - mas com os mentirosos contumazes.
Há diferentes modalidades de mentira, dentre as quais destaco:
  • A mentira da criança: falta de senso de realidade e medo de ser punido;
  • A mentira do mitômano: "A mitomania pode ser considerada patológica quando leva a um encerramento na necessidade de repetição", explica o professor Philippe Jeammet (Institut Mutualiste Montsouris, em Paris). "De um lado, o mitômano sempre sabe no fundo que o que ele diz não é totalmente verdadeiro. Mas ele também sabe que isso deve ser verdadeiro para que lhe garanta um equilíbrio interior suficiente. Em determinado momento, o sujeito prefere acreditar mais em sua realidade do que na realidade objetiva exterior. Ele tem necessidade de contar essa história para se sentir tranqüilizado e de acordo consigo mesmo."
  • A mentira do psicótico/delirante: na verdade, não se trata bem de mentira, mas de um delírio (transtorno de juízo sobre a realidade), como no exemplo do post anterior: "Revelação", no qual relato o caso de uma pessoa que está realmente delirante, não domina sua mente nem quer mentir.
  • A mentira do portador de "personalidade antisocial": este mente com propósito de causar danos à sociedade, para ocultar um crime, etc. Tratam-se de mentiras bem diferentes daquela do mitômano (v. acima). A mentira do mentiroso ou do fraudador tem finalidades práticas e desonestas. Para estes, o objetivo não é a mentira, sendo esta apenas um meio para fins excusos. Jamais se arrependem do que tenham feito (apenas lamentam "ter dado errado", quando presos, por exemplo). Os indivíduos com Transtorno da Personalidade Anti-Social não se conformam às normas pertinentes a um comportamento dentro de parâmetros legais. Eles podem realizar repetidos atos que constituem motivo de detenção (quer sejam presos ou não), tais como destruir propriedade alheia, importunar os outros, roubar ou dedicar-se à contravenção. As pessoas com este transtorno desrespeitam os desejos, direitos ou sentimentos alheios. Freqüentemente enganam ou manipulam os outros, a fim de obter vantagens pessoais ou prazer (por ex., para obter dinheiro, sexo ou poder). Podem mentir repetidamente, usar nomes falsos, ludibriar ou fingir.

Estes últimos parecem-se com certos políticos, não? Melhor dizer logo: muitos políticos são mesmo psicopatas... argh!

A "novidade científica" é que já se pode detectar, no cérebro dos mentirosos, uma certa alteração anatômica.
Vários estudos funcionais com ressonância magnética em indivíduos normais que mentem ou dissimulam falhas de memória mostraram aumento da ativação bilateral no córtex pré-frontral durante a mentira:

Com o intuito de avaliar se dados sobre as imagens estruturais cerebrais se correlacionam com mentir e enganar, os autores avaliaram o volume da substância branca e cinza pré-frontrais em indivíduos que mentem, enganam ou trapaceiam com o objetivo de testar a hipótese de que tais indivíduos apresentam uma anormalidade no córtex pré-frontal. Os volumes das substâncias branca e cinzenta pré-frontais foram avaliados pela ressonância magnética estrutural em 12 indivíduos que mentiam patologicamente, trapaceavam e enganavam (grupo mentirosos), 16 controles anti-sociais e 21 controles normais. Os mentirosos apresentaram de 22% a 26% de aumento na substância branca pré-frontal e uma redução de 36% a 42% na relação da substância pré-frontal cinzenta/branca quando comparados com os grupos controle anti-sociais e normais. Estes achados nos fornecem a primeira evidência de um déficit estrutural no cérebro dos mentirosos.
[Cf. artigo recente do British Journal of Psychiatry]

Daqui a pouco, teremos mais uma novidade: um teste para pegar os blogueiros mentirosos.
Verdade pura, eu juro de pés juntos e dedos cruzados.

Alguém aí se habilita a ser cobaia?

17 março, 2006

R e v e l a ç ã o

Seu paletó era pelo menos 2 números abaixo, as calças puídas e os pés descalços, mas nada disso apagava a altivez do porte, o rosto sereno e o olhar quase translúcido, talvez manso, com certeza fixado no infinito.

A cabeleira e o rosto hirsuto evocavam a figura de um dos profetas esculpidos por Aleijadinho, perenes em sua pétrea consistência no adro da Basílica Senhor Bom Jesus de Matozinhos, em Congonhas.

Puxei conversa, falei do tempo, quis saber o que o trouxera ali. Olhou-me como teria olhado Cristo para seus algozes, lá do alto da cruz ("Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem") e, apenas, sorriu.

Eu já sabia todas as respostas àquelas perguntas de praxe, pois lera seu prontuário antes de entrevistá-lo. Com certeza ele sabia disso e o demonstrara com um sorriso que destilava zombaria misturada a compaixão e uma pitada de sentimento de superioridade.

Não o enfrentei. Demonstrei sincero interesse em conhecer-lhe a história. Afinal, a relação médico-paciente pode ser ocasião de aprendizagem mútua. Com humor e, às vezes, com total razão, diz-se que a diferença entre um e outro pode ser denotada por quem possui a chave da porta de saída.

Ele percebeu minha "boa disposição":
- Se o senhor quer mesmo saber, tenho uma revelação a fazer.
- Como, assim, uma revelação?
- Minhas últimas descobertas que, ainda, mantenho em segredo.
- Que descobertas?
- Pesquisas científicas iluminadas pela Divina Providência.
- Além de tudo, o senhor é cientista?
- Isso e muito mais. Tenho a Luz!
- Anh...

Enquanto dialogávamos, apalpou o surrado paletó e, de um dos bolsos internos, retirou um papel cuidadosamente dobrado. Olhou para um lado e para outro, a certificar-se de que ninguém o observava e o entregou a mim:

- O senhor é médico, mas sua ciência é apenas humana. Eu não estudei na faculdade mas meu mestre é Aquele lá de cima. Tenho contato direto com Ele. Fui escolhido para transmitir à humanidade toda a onisciência do universo.

Principiei a desdobrar a folha manuscrita. Interropeu-me:
- Não, doutor. Aqui não. O senhor vá para casa, leia com atenção e, caso não entenda alguma coisa, amanhã posso explicar.

Levantou-se com a segurança de que era ele quem comandava a entrevista.
Tranquei o consultório e comecei a ler:

Revelação

Inicialmente, tomemos o universo para definir o Ser Humano. A palavra "universo", que remonta aos primódios do Homem, significa os milhões de compostos (cometas, satélites, planetas, planetóides) que temos dentro de nós. Somando ao todo, desde a célula até o átomo, são 82 espécies de pequenas partículas desde a célula, que é a flor, por assim dizer, desses elementos.

O Ser Humano, quando sai no esperma, já é portador desses 82 elementos. Entretanto, deve-se observar que, além do átomo, há ainda 14 mil classificações de sub-matéria.

Mas isso pode estar em desequilíbrio se o filho, que está dentro do organismo da mãe, mover-se em sentido contrário no seu corpo, descentrando as forças e desorganizando o universo interior. Poderá acontecer uma lesão que, fatalmente, se estenderá a outra parte das células, provocando o câncer. Explico: enquanto o corpo do feto, obedecendo a ordens foto-elétricas do cérebro faz tin-don, o universo canceroso está a fazer tin-tin.

O câncer nada mais é do que um universo estranho entranhado no todo universal, ou kaeeme, que é o corpo humano em sua plenitude.

Há um tipo de câncer, por exemplo, que adquirimos ao mantermos relações com uma prostituta. Cito um artigo do Reader's Digest no qual um professor universitário disse para um atleta de 105 kg que, se seus átomos fossem comprimidos, o seu corpo - ou núcleo - pesaria e teria o volume de um grão de pó, mesmo assim contendo todo o universo. Conclui-se, então, que uma gota de blenorragia adquirida de uma prostituta pode conter vários universos.

Todas essas explanações foram conjuradas ao meu Luminoso, após ter sido eu encarregado de isolar o Ser Humano de doenças ancestrais. A doença atinge a humanidade há 2 bilhões de anos retró.

Mas não vou estender mais considerações, apenas indicar o principal, ou seja, a solução:

(XH x 4) . (Y x H/2) = 4% de decímetros de potássio sólido + 4% de decímetros de carboneto sólido + 9% de carbono líquido + 10 centilitros de sangue de morcego.

Por que sangue de morcego?
Porque o sangue de morcego não move suas moléculas como o do Ser Humano. Ele é classificado pela Ciência da Nave como "o lídimo", o "legítimo". Por isso se aproveita de outros animais, sugando-lhes o sangue para que sobreviva e seja sustentado em seu componente hétero-esotérico, no interior de seu carma.

Se a humanidade quiser saber mais, que leia meu livro: "Os deuses não tocaram"
Assinado: J.B.O.

16 março, 2006


Amigos: domingo, dia 19, a partir das 18h, estaremos lá!!!
Chapéu Panamá, a nova guarda do samba!
Blogueiros daqui e de alhures, vamos? Alô Márcio Candiani, sei que você gosta...
O Jequitibar fica logo ali, depois do Viaduto Sta. Tereza, no início da subida da Av. Assis Chateaubriand, à direita. Não tem erro.
Quem não gosta de samba
bom sujeito não é:
Tá ruim da cabeça
ou doente do pé!

15 março, 2006

Zarpou!


Hoje, 15 de março de 2006, zarpou a nau que não é dos loucos, nem insensata: Bombordo é blog de leitura diária! Visite hoje e sempre!
A cada dia, um artigo diferente sobre temas atuais. É um coletivo, fruto do desejo de alguns, da utopia de outros, da disposição de provocar e dialogar de todos. Sem unanimidades. Mas no mesmo barco... clique na figura ou aqui.

13 março, 2006

Panis et circenses

Aécio Neves anuncia show de Pavarotti e Roberto Carlos
O governador Aécio Neves anunciou, nesta quarta-feira (23/02), que o tenor Luciano Pavarotti dividirá o palco com o rei Roberto Carlos em um show gratuito para todos os mineiros, no próximo dia 18 de março. As negociações para a realização do espetáculo em Minas Gerais já estão fechadas e fazem parte da estratégia do governo mineiro de atrair grandes eventos para o Estado, como forma de dar maior visibilidade e incrementar a economia, gerando mais emprego e renda para a população.
Segundo Aécio Neves, a definição do local será tomada nos próximos dias, mas ele antecipou que o show deverá ser realizado em um espaço de eventos em Santa Luzia , na Região Metropolitana de Belo Horizonte.

"É com muita alegria que hoje eu possa confirmar oficialmente que Minas Gerais receberá aquele que talvez seja o maior evento artístico aqui já acontecido. O tenor (Luciano) Pavarotti estará fazendo uma turnê de encerramento de sua carreira com nove shows pelo mundo e o único show que ocorrerá no Brasil será o show na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Provavelmente – estamos definindo isso de hoje até o início da semana que vem – no espaço feito para shows em Santa Luzia , que nos pareceu mais seguro, já que será um evento aberto para a população. Todos os mineiros estão convidados", afirmou.



A mídia berra a todo instante "O Maior Show de Todos os Tempos", anunciando o espetáculo promovido pelo Governo de Minas "para todos os mineiros"!

Demagogia confessada:

"Responsável pela produção dos shows do U2, em São Paulo, Alexandre Accioly confessa que só aceitou trazer o encontro de Roberto Carlos e Pavarotti para Minas por insistência do governador Aécio Neves. Os organizadores não estão autorizados a detalhar valores, mas garantem que 100% dos investimentos vieram da iniciativa privada (Fiat, Bradesco, Oi FM, Cia Vale do Rio Doce e Fiemg)."

Pois é!

15.MAR.06 - UP DATE: CANCELADO O SHOW!

11 março, 2006

As Alterosas


Uma das marcas registradas de Minas Gerais são as montanhas. Belo Horizonte já foi apelidada de "Capital das Alterosas" e hoje possui uma estação de TV de nome TV Alterosa. Pois "alteroso (ô)" significa de altura elevada; alto . Por extensão: cheio de altivez; sobranceiro, majestoso.

Penso que nós, mineiros, diante da obviedade dos horizontes definidos pelas serras, cultivamos uma postura altiva, sobranceira e majestosa: orgulhamo-nos dos maciços ferrosos e os introjetamos como nos dizia Drummond:

Alguns anos vivi em Itabira
Principalmente, nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

No final desta sua "Confidência do Itabirano", é bem verdade, o Poeta confessa outro lado da personalidade dos mineiros, tidos como calados, desconfiados, humildes, "aqueles que trabalham em silêncio":

De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa...
Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!

Há um ressentimento diante da ação predatória sobre nosso tesouro: As montanhas de Minas estão sendo carregadas pelas mineradoras. O minério de ferro é colocado nos vagões e exportado, restando-nos, pouco a pouco, imensas crateras:

Cada um de nós tem seu pedaço no pico do Cauê
Na cidade toda de ferro
as ferraduras batem como sinos.
Os meninos seguem para a escola.
Os homens olham para o chão.
Os ingleses compram a mina.

Só, na porta da venda,Tutu Caramujo cisma na derrota incomparável.

Se falarmos da “nostalgia do mar”, então, aí já é covardia! Durantes as férias e fins-de-semana prolongados, os conterrâneos entopem as estradas em busca do litoral, das praias, das areias monazíticas de Guarapari, do sol generoso do sul da Bahia, da sofisticada cidadezinha de Búzios ou da cinematográfica “Cidade Maravilhosa”. Mineiro não perde o trem, nem a praia!

Talvez seja como um bálsamo inconscientemente aplicado ao orgulho dos moradores das Alterosas que os belorizontinos recebem a Torre Alta Villa, bem no alto da Serra do Curral, divisa com o município de Nova Lima.

Tornou-se lugar obrigatório para levar os turistas (sempre poucos, por aqui). Há um shopping temático, restaurante (Hard Rock Café), salão para festas, até mesmo um colégio. Paga-se R$ 5,00 para ascender nos elevadores até à cúpula, de onde se avistam a cidade e as montanhas, vales, condomínios, céu, nuvens e um horizonte quase infinito.

Já existe uma câmera permanentemente online, no alto dos 101 metros do Alta Villa. Para sentir, um pouco, o “espírito das alterosas”, clique aqui.

A câmera é móvel, faz closes e mostra panorâmicas. No momento em que escrevo, por exemplo, a torre está envolta em neblina, pois o tempo está chuvoso. Vamos lá?

04 março, 2006

Bye, Idelber!



O "embaixador" das Minas Gerais em New Orleans, Idelber Avelar, gentilmente nos convidou para suas despedidas de Belô: está decolando de volta aos States, onde retoma suas atividades de professor de Literatura na Universidade de Tulane.

Idelber é daqueles que com sorriso e simpatia arrebata as pessoas e nos coloca à vontade desde a primeira hora.
Conheci o "professor" pela blogosfera, em seu famosíssimo blog O biscoito fino e a massa, caldeirão de cultura, futebol, arte, literatura, política e... O Biscoito está de recesso, mas vale uma passadinha por lá: os arquivos contêm pérolas!

Pois o Idelber nos recebeu juntamente com a Ana, escritora, cujo dom da palavra pode ser desfrutado em suas 100 MEIAS CONFISSÕES DE ANINHA, imperdível!

Sua delicadeza nos presenteou com seu livro "Ao lado e à margem do que sentes por mim". A dedicatória confirma a perspicácia da Aninha em desvendar a alma: "Para Cláudio e Amélia, que já se encontraram na busca sobre a qual fala esse livro..."

A casa estava repleta de ex-colegas de faculdade, conhecidos há mais de 15 anos, numa demonstração de que o afeto, quando verdadeiro, resiste "ao tempo, que sobre tudo lança o pó do esquecimento".
Conhecemos a Valéria, a Tida e o Luís, o Thales que preparou a melhor caipirinha da noite e, pasmem, assou deliciosos pãesinhos-de-queijo.

Essa turminha, mais o escriba aqui e minha Amélia, estamos enfeitando as fotos do mural acima.

Apesar de ser uma despedida, era só alegria: pelo reencontro e pela promessa de que, em maio, tem mais festa!

01 março, 2006



Carnaval em Nova Era tem que ter:
Banda dos Farrapos
e o Soié homenageado.
A festa é do povo
Sem Rede Bobo
Sem globalização
Sem socialites
Muita Cerveja
Diversão e Alegria
E agora...
só no ano que vem!

26 fevereiro, 2006

Carnaval em família

Viemos para Nova Era-MG, Amélia, eu e nosso filho Leo para comemoramos, juntos aos familiares, o meu aniversário.

Como sempre, meu pai Soié operou como fotógrafo oficial e folião número 01 de Nova Era (afinal, é homenageado especial da Banda dos Farrapos
).

O almoço foi preparado pela mãezona, Aparecida. Festa & carnaval... com direito a churrasco caprichado pelos manos Bonifácio & Clóvis.


Na cidade, o Carnaval já não é mais como nos velhos tempos - as coisas, afinal, devem permanecer imutáveis?


As lembranças da infância me transportam a tempos idos, quando a serpentina, os confetes e as marchinhas davam o tom de alegria inocente. Pelo menos para aquele garoto de 7-8 anos, a pular pelo salão do pequeno clube, na matinée das crianças. Os frascos de lança-perfume eram vendidos livremente e espalhavam um odor típico, que eu achava delicioso. Ao receber uma borrifada, sentia na pele a mistura de éter geladinho que rápidamente se evaporava. Nunca me passou pela cabeça a possibilidade do uso abusivo que, mais tarde, acarretou a proibição do "perfume de Carnaval".


Nas ruas, foliões quase avulsos se fantasiavam de piratas, palhaços, monstros. Alguns homens se vestiam de mulheres. Um batuque improvisado ou uma bandinha formada de trompete, saxofone, trombone, tarol e tambor completava o "bloco sujo" - como era chamado aquele agrupamento exótico.


Nos anos 70, talvez por influência das transmissões televisionadas dos desfiles do Rio de Janeiro, organizaram-se as "escolas de samba", que chegavam a disputar prêmios e classificações, desfilando nas ruas estreitas provocando aplausos do povão. Formou-se tradição que já está em declínio: ontem à noite passaram algumas alas, sem empolgar. No máximo, acorremos às portas ou janelas dos sobrados.


Mas a "Banda dos Farrapos" e o bloco "Boca de Gole" tentam, ainda, manter a tradição, embora sem o vigor de outrora.

A Banda dos Farrapos se compõe de pseudo-músicos em pseudo-uniformes compostos por velhos e puídos paletós. Desfilam numa bagunça extremamente organizada (!) e com irreverência inocente provocam comerciantes a fornecerem cerveja de graça. O Soié Bar, do meu pai, era parada obrigatória durante anos. Hoje, meu pai Soié é homenageado pelos componentes e recebe, a cada ano, a "camisa" oficial da "corporação".

À noite, domina o "carnaval moderno": Agora, um palco é armado numa rua mais larga e... tome Axé! O som eletrônico derrama aquele baticum imutável sobre a platéia convocada a "assistir" um grupo de rapazes bombados e duas garotas rebolativas em coregografias ensaiadas, provavelmente copiadas de alguns sucessos "baianos" (desculpem os baianos, por quem tenho apreço). Durante a meia-hora que assisti ao "show, junto à Amélia, menininhas de 8 a 10 anos foram convocadas ao palco e disputaram os aplausos do público enquanto "dançavam" miméticamente. Tratava-se de um anacrônico Programa do Chacrinha, animado pelo condutor da "banda" Suingueiros". Os rapazes provocaram "delírios" ao tirarem as camisas...


Melhor foi voltar para a casa dos meus pais, partir a torta de nozes e cantar o "Parabéns pra você".

Enquanto isso, a cidade estatelava-se em frente à TV, "vendo o Carnaval passar".


22 fevereiro, 2006

Ver com os ouvidos

Quando lidamos com pessoas portadoras de completa surdez inata (desde o nascimento), aprendemos que há muitas outras maneiras de "ouvir" o mundo.

São comuns os relatos de hipoacúsicos que descrevem "sensações auditivas" percebidas com outros órgãos do corpo, principalmente pelas sensações vibracionais. Este entrecruzamento de interpretações derivadas dos diversos sentidos do corpo é o que se chama sinestesia. [cf. Houaiss: sinestesia = relação que se verifica espontaneamente (e que varia de acordo com os indivíduos) entre sensações de caráter diverso mas intimamente ligadas na aparência (p.ex., determinado ruído ou som pode evocar uma imagem particular, um cheiro pode evocar uma certa cor etc.); cruzamento de sensações; associação de palavras ou expressões em que ocorre combinação de sensações diferentes numa só impressão].

A cenestesia já é outra propriedade do cérebro em organizar e interpretar as sensações internas do organismo, como por exemplo o sentimento de bem estar ou sensação de relaxamento ou tensão, etc.

Outro tipo de percepção, desta vez relacionada ao próprio peso, movimento, resistência e posição do corpo compõe a cinestesia.

Agora imagine o grau de sensibilidade cenestésica, cinestésica e sinestésica de alguém privado do sentido da audição ou da vista! Para se localizar no mundo, interpretar as alterações sutis do próprio corpo e do meio exterior, os sentidos internos desenvolvem-se espetacularmente.

Por isso os cegos dizem que vêem com outros sentidos: olfato, sensações corporais difusas, alterações mínimas de movimento, etc. Alguns chegam a descrever "cores e volumes": enxergam com os olhos da alma.

Em nós, também, percepções podem desencadear vivências emocionais singulares, originadas em acontecimentos remotos, dos quais não restam lembranças claras, às vezes inconscientes.

O linguajar popular incorporou expressões que utilizamos sem nos dar conta das metáforas (analogias) e metonímias (deslizamento do significado) operadas pela linguagem: voz de taquara rachada; agudo como um estilhaço de cristal, botar a boca no trombone, som aveludado, etc.

Compartilho aqui pequeno trecho da autobiografia de Vladimir Nabokov, autor do célebre e "escandaloso" romance Lolita. Em Speak, Memory!, publicado pela Companhia das Letras sob o título A pessoa em questão (1994), Nabokov nos brinda com uma deliciosa descrição do que é ver com os ouvidos, uma verdadeira audição colorida:

"O longo 'aaa' do alfabeto inglês tem para mim o matiz de madeira desgastada pelo tempo, mas o 'a' francês evoca o ébano polido. Esse grupo preto [de som] inclui o 'g' duro (borracha vulcanizada); e o 'r' (um trapo sujo de fuligem sendo rasgado).
O 'n' de mingau de aveia, o 'l' flácido como macarrão e o espelho de mão com o verso de marfim do 'o' cuidam dos brancos.
Fico desconcertado com o meu 'on' francês, que vejo como as bordas de tensão superficial do álcool em um pequeno vidro.
Passando para o grupo azul, existe o 'x' da nuvem carregada e o 'k' de buckleberry.
Já que existe uma sutil interação entre som e forma, vejo o 'q' mais marrom que o 'k', enquanto o 's' não é o azul-claro do 'c', mas uma curiosa mistura de azul-celeste e madrepérola."

Após ler o parágrafo acima, fiquei tentado a fazer algumas associações entre som e imagem, mas não consegui mais do que o óbvio. Experimentei, entretanto, algo que me pareceu interessante: fechar os olhos enquanto escuto alguém falar ao telefone e construir uma imagem a partir daí. Cada 'coisa' veio na minha cabeça!

Um interlocutor que sibilava muito nos "sss" , sugeriu-me uma serpente. Outra voz me pareceu um céu enluarado. Cheguei a 'visualizar' tartarugas e pedras rolando no fundo de um rio (e não eram os Rolling Stones, garanto!).

Não foi bem a experiência do Nabokov, tão poética e bizarra.
Infelizmente...

21 fevereiro, 2006

OVO DE COLOMBO URUGUAIO

Um engenheiro uruguaio, Armando Regusci, acredita ter encontrado a maneira de fazer seu país economizar US$ 2 milhões diários com a importação de petróleo, além de melhorar o ar das cidades. Ele inventou uma motocicleta que não usa gasolina, nem álcool e nem hidrogênio no motor, mas ar comprimido.
Será o "ovo de Colombo" do transporte sobre rodas?
A engenhoca é simples como colocar um ovo em pé: comprime-se o ar em dois cilindros, regula-se a saída. Com sua força, o ar nosso de cada dia move engrenagens que produzem movimento das rodas.
Pronto: anda-se para um lado e outro, sem queimar óleo, sem poluição: devolve-se ao ar o que é ar...
“Com um motor elétrico ligado à rede pública se comprime ar a alta pressão, por exemplo, 200kg por centímetro quadrado. Com o ar comprimido, nesses depósitos, é possível andar 100 quilômetros a 50km/h", garante o novo Colombo, ou melhor, o velho Regusci.

Preço de uma motoquinha movida a vento encanado: U$ 600, o que dá, pelo Real supervalorizado, a bagatela de 1200 e poucas pílulas.

Problema à vista: ruas e estradas entupidas, cada um montado em seu aerocar, ou motoar, ou bicicletar.

Já pensaram num avião movido a ar, voando no ar? É o supra-sumo da homeostase. Ou seria um pleonasmo?

E mais: se o ar que respiramos virar combustível, vão nos cobrar imposto respiratório, não?

Vem aí a Arbrás: o ar é nosso e ninguém tasca!

[(Fonte: Caderno de Ciência do EM (link para assinantes)].

20 fevereiro, 2006

(DES)HONESTIDADE NOSSA QUE NOS AFLIGE

Brasil:
  • Valor do PIB-2005 + ou - da ordem de 1,6 Trilhão de Reais
  • Economia Informal (não paga impostos) = 700 Milhões de Reais
  • Autuações por sonegação de tributos federais em 2005 = 80 Bilhões de Reais
  • Contrabandos descobertos pela Polícia Federal em 2005 = 601 Milhões de Reais
  • Gastos anuais com a Dívida Pública = 150 Bilhões de Reais
  • Pacote anunciado por Lula para Setor Habitacional = 18 Bilhões de Reais
  • Dados levantados pela CPI dos Correios = Sonegação de 200 Bilhões
  • Prejuízos causados pela pirataria = 30% do PIB
  • Solegação da Previdência Social = 100 Bilhões de Reais
  • Sonegação de Impostos + pirataria + corrupção da previdência + economia informal + juros da dívida pública = 1,8 Trilhão de Reais

Pergunto:
  • Você conhece e já denunciou algum sonegador?
  • Você compra ou já comprou produtos pirateados e ou falsificados?
  • Você já votou em algum candidato que foi denunciado por corrupção?
  • Você já subornou funcionário público para obter alguma vantagem (não ser multado pela Polícia Rodoviária Federal, por exemplo?)
  • Você acredita, realmente, que falta dinheiro ao Governo para consertar estradas, melhorar o acesso à saúde, financiar pesquisas, cuidar do meio ambiente?
  • Você descobriu, pela salada de números acima, que o Brasil, ou seja, nós mesmos, deixamos escapar pelo ralo, a cada ano, um PIB inteirinho?

[PIB = Produto Interno Bruto = Soma de todas as riquezas produzidas no país]

18 fevereiro, 2006

(DES)CULTURA NOSSA QUE NOS AFLIGE

Brasil:
  • 186 milhões de habitantes
  • 20 x a população de Portugal
  • 5,5 x a população da Argentina
  • 3 x a população da França e da Alemanha
  • 55 milhões de estudantes do fundamental à pós-graduação
  • tiragem média de um romance no Brasil: 3 mil exemplares
  • ocupação média dos teatros: 18%
  • público médio dos filmes brasileiros: 600 mil
Pergunto:
  • Quantas vezes você foi ao teatro no ano passado?
  • Quantos filmes (fora os de puro entretenimento) você assistiu?
  • Quais programas "culturais" você acompanha na TV?
  • Quantos romances você leu no ano passado?
  • Quantos livros "não técnicos de sua área" você leu?
  • Quando em viagem de férias, visita museus? Igrejas? Teatros? Bibliotecas?
  • Quantas exposições de arte (pintura, escultura, fotografia) você visitou no ano passado?

17 fevereiro, 2006

Pra falar a verdade...

Um monarca nunca permitia que lhe fizessem o retrato. Finalmente, cedeu aos pedidos do filho para que, antes de falecer, deixasse sua imagem à posteridade. Impôs, entretanto, uma condição: caso não aprovasse a obra, executaria o artista! Três píntores se dispuseram a arriscar o próprio pescoço.



O primeiro retratou o monarca tal e qual, com o narigão enorme e tudo. O rei, diante do quadro, embora admirando o gênio artístico, enfureceu-se com a figura horrenda e mandou enforcar o infeliz artista.


O segundo, apesar de temeroso, pintou o rei fielmente, com exceção do aberrante apêndice nasal, em cujo lugar colocou irrepreensível narizinho. O soberano, sentindo-se ridicularizado, condenou o pintor à pena capital, sem comiseração.


Chegou, a vez do terceiro. Habilidoso, conhecendo a paixão real pela caça, retratou o soberando portando um arco, a atirar numa raposa. O antebraço na arma tapava-lhe justamente o nariz. Diante do trabalho, o monarca sorriu satisfeito e recompensou o artista generosamente.

Alguém comentou:

- Há várias formas de se falar a verdade:

A primeira é a franqueza rude, contundente, que não hesita em expor toda a realidade dos fatos, doa a quem doer. Os partidários dessa atitude podem revelar o mérito da coragem e do desinteresse, mas tiram nota zero em relações humanas.

A segunda é a hipocrisia interesseira. Os deste grupo podem revelar inteligência e engenhosidade para distorcer os fatos, a fim de agradar aqueles a quem desejam conquistar.

A terceira é a dos partidários da verdade construtiva, evidenciando o que é útil, edificante, e elegante, omitindo sutilmente os aspectos menos agradáveis da vida do próximo.

Aqui vai um poema do Carlos Drummond de Andrade: Verdade.

13 fevereiro, 2006

Epígrafe

... a arte poética é a linguagem que expressa o inexprimível, o inenarrável, a "coisa" que está dentro da alma! Por isso, os poetas dizem que escrevem por necessidade, não por diletantismo. Os verdadeiros, claro.
Há momentos em que somos invadidos por emoções tão fortes, desconhecidas, ou tão estranhas, que palavras corriqueiras se tornam pálidas e vazias. Não foi em vão que muitos adolescentes (talvez nós mesmos, um dia) tomamos papel e lápis para, timidamente, rabiscarmos um poema apaixonado.
Titubeantes e gaguejantes, emendamos "amor" e "coração", rimamos "querida" com "amor de minha vida". Sim, por que não? Não é o estado da arte mas é a emergência de uma necessidade de dar sentido ao frêmito que descompassa o coração.
Cedo descobrimos: rimas pobres, palavras soltas ou garimpadas nos dicionários não nos tornam Poetas.
Então, recolhemos da estante um livro de Literatura para dele extrair alguma bela poesia que fale por nós. Muitas vezes, selecionamos uma música, pela melodia e pelos seus versos, seja um Renato Russo, Bob Dylan, Caetano...
Ah! como gostaríamos de ser poetas, "para eles é tão fácil", ingenuamente pensamos. Há, também, os poetas das telas, dos teclados, do mármore, da máquinas fotográficas, dos graffiti, etc.
Onde houver uma emoção indizível e um espírito criativo, aí pode germinar um poeta.
Tomar de empréstimo a Fernando Pessoa uma centelha de sua arte foi a alternativa que me restou para a epígrafe deste meu bloguinho.

08 fevereiro, 2006

Quarta maluca

Um dos supermercados do bairro promove, hoje, a "Quarta Maluca": às quartas-feiras oferece descontos significativos no setor de hortifrutigranjeiros.
É competição frontal com os "sacolões". Estes possuem bancas de legumes, frutas, raízes vendidos a 79 centavos o kilo, preço muitíssimo mais em conta que os praticados pelos supermercados. Nas quartas, a briga é até boa, supostamente em benefício do consumidor.

Trata-se, evidentemente, de estratégia de marketing para atrair mais gente à loja. A gente vai comprar uma "verdurinha" pro almoço e acaba comprando outros ítens. Há que ter objetividade e cuidado para não cair nas armadilhas dos marketeiros (que nos "vendem" até políticos corruptos!).

O título da promoção, "quarta maluca", pretende nos convencer de que os gerentes daquele estabelecimento "endoidaram", "amalucaram" e baixaram os preços: "Oba! estão doidos, estão vendendo bananas a preço de... banana!".

Maluco, porém, fiquei eu próprio, hoje, uma quarta-feira que já começou "da pá virada":

Os sintomas de loucura total começaram pela manhã, com a cozinha alagada. Feita uma anamnese cuidadosa, descobri que na véspera, antes de ir dormir, o Léo havia deixado o lava-louças cumprindo sua tarefa: xícaras, copos, pratos e talheres estavam limpos, mas a cozinha se transformara em lagoa!

O diagnóstico se firmou, um pouco mais tarde, quando o funcionário de uma empresa de manutenção veio tratar de outra loucura desencadeada na segunda-feira.
Dessa feita, os sintomas acometeram a máquina de lavar roupas, que não sabia mais se centrifugava, se torcia, se enxaguava.

Confusão de idéias e distúrbios de movimentos mereceram outra anamnese que, por sua vez, esclareceu o excesso de peso das roupas introduzidas naquele cilindro que chacoalha a roupa e deve ter chacoalhado a cabeça - o motor! - da dita cuja.

Dois disturbios matinais num dia de calor e um milhão de coisas para serem resolvidas só podem ser coisas de uma quarta-feira maluca:

O lava-louças sofrera ruptura vascular, ou seja, a mangueira tinha um furo. Não me perguntem a etiologia daquele buraco, pois nem mesmo o doutor-técnico soube explicar.
O exame anátomo-patológico da peça afetada revelou o que demonstra a ilustração abaixo:


Mais tarde, quando a Ana Letícia e eu fizemos, em cartório, a transferência do noso velho carro, vendido a preço de "quarta maluca", descobrimos que, ao preencher aquele documento próprio, ela o havia datado como se hoje fosse 08 de janeiro!

Conclusão: como estamos em 08 de fevereiro, o Detran-MG, que não brinca em serviço, já foi logo aplicando uma multa de R$ 127,00, já que a transferência do veículo estava fora do prazo (tem que ser feito em 30 dias corridos, e o documento indicava que 31 dias já se passaram!). De nada adiantou chorar e espernear, "dura lex sed lex", vale o que está escrito. Como diziam: "escreveu não leu, o pau comeu"!

O sol estava de rachar e a gente ali, enlouquecidos pela canícula de mais de 30 °C e pela loucura matinal dos eletrodomésticos.

Ou sempre fomos, nós mesmos, malucos?

04 fevereiro, 2006

"Nem só do pão vive o homem"

Conheci o Dr. Rodrigo da Cunha Pereira há alguns anos. Primeiro, pelos seus artigos e entrevistas na TV. Ele é Advogado, especialista em Direito da Família. Inaugurou, entre nós, uma abordagem sui generis das querelas familiares: uma compreensão para além do Direito, buscando entender as motivações inconscientes que tornam um inferno a convivência que prometia ser serena e amorosa entre os casais.

Rodrigo buscou conhecimento nos ensinamentos da Psicologia, em especial da Psicanálise, defendendo que a subjetividade de cada um deve ser levada em conta. A interpretação literal do texto jurídico é empobrecedora e pode levar a injustiças irreparáveis se desconhece a singularidade da cada caso e as motivações subjetivas que ensejam a conduta humana.

Certa vez, convidei-o para proferir uma palestra no lançamento de uma edição da Revista de Psiquiatria & Psicanálise com Crianças & Adolescentes, da qual sou editor.
O tema foi muito próprio: falou sobre a Paternidade.
Ultrapassou os ditames legais e enveredou pela especial relação entre pais e filhos. Defendeu uma tese original, apoiado em ensinamentos lacanianos a respeito do "pai simbólico": a verdadeira paternidade é adotiva!

Rodrigo enfatiza que o adjetivo se refere a um "movimento interior", "uma disposição do espírito", "uma decisão afetiva" que deve fundamentar a paternidade biológica tanto quanto a adotiva. É necessário que o pai (biológico ou não) "adote" realmente seu filho.

As crianças se sentirão abandonadas, órfãs mesmo, caso não recebam do pai o amor necessário ao seu desenvolvimento psico-social.
Esse tema foi brilhantemente retomado no artigo produzido pelo Dr. Rodrigo da Cunha Pereira publicado hoje no Caderno Pensar, do Estado de Minas.

Expõe suas idéias sob o título: "Nem só do pão vive o homem", explicando que "a compreensão social e jurídica da família contemporânea deve pressupor que a subjetividade interfere nessa organização, o que também afeta as decisões jurídicas".

O declínio da autoridade paterna, conseqüência do fim da ideologia patriarcal, apresenta hoje sintomas sociais sérios e alarmantes. Se os pais fossem mais presentes na vida de seus filhos, certamente não haveria tantas crianças e adolescentes com evidentes sinais de desestruturação familiar. Seria ingenuidade pensar que esses sintomas sociais que o cotidiano nos escancara são conseqüência apenas do descaso do Estado e de uma economia perversa. O que empurra um sujeito da favela para a marginalidade e o faz pôr fogo em um ônibus, é o mesmo “desejo desencaminhado” que faz adolescentes de classe média, ou rica, atearem fogo em um índio dormindo em um ponto de ônibus.

Rodrigo comenta uma decisão muito particular do STF (Supremo Tribunal Federal), ao dar ganho de causa a um filho que reclamou do pai uma indenização por danos morais sofridos. O filho em questão provou que fora abandonado afetivamente pelo seu pai, embora este tenha cumprido as exigências legais de pagamento de pensão alimentícia.

Escreve o Dr. Rodrigo:

O pai sempre pagou pensão alimentícia ao menor. Faltou alimento para a alma, afinal de contas, nem só de pão vive o homem. O pai, por seu lado, apresentou suas razões, dizendo que sua ausência se justificava por ter-se casado novamente e que moravam em cidades diferentes etc. Será que há alguma razão/justificativa para um pai deixar de dar assistência moral e afetiva a um filho? A ausência de prestação de assistência material seria até compreensível, se se tratasse de um pai totalmente desprovido de recursos. Mas deixar de dar amor e afeto a um filho... não há razão nenhuma capaz de explicar tal falta.

A defesa do pai alegara que "não se pode obrigar um pai a amar seu filho". Dr. Rodrigo argumenta:

Se um pai ou uma mãe não quiserem dar atenção, carinho e afeto àqueles que trouxeram ao mundo, ninguém pode obrigá-los, mas à sociedade cumpre o papel solidário de lhes dizer, de alguma forma, que isso não está certo e que tal atitude pode comprometer a formação e o caráter dessas pessoas abandonadas afetivamente. Afinal, eles são os responsáveis pelos filhos e isso constitui um dever dos pais e um direito dos filhos. O descumprimento dessas obrigações significa violação ao direito do filho.

É lógico que o dinheiro indenizatório não pagará, nunca, o prejuízo afetivo: o amor não tem preço, todos sabemos. Trata-se de uma intervenção ao nível do simbólico que ensina à sociedade que o abandono afetivo é violação de um dos direiros fundamentais dos filhos.

Muitos homens, ao se separarem, "encostam" os filhos nas mães, deixando a elas todo o cuidado afetivo, a educação, o apoio moral, a função de sustentar a Lei, etc. Contentam-se, esses pais abandônicos, a pagar a pensão alimentícia acordada judicialmente e deixam os filhos órfãos.

Um grande avanço esse entendimento "psicológico" da lei, não?

02 fevereiro, 2006

Se beber, não voe. Se voar, não beba.

Já li em algum lugar que os pilotos das companhias aéreas são muito propensos a usarem drogas (pesadas, inclusive), entre elas o álcool. As explicações são muitas: tédio durante as intermináveis travessias oceânicas; piloto automático que os dispensa de tarefas; salários bons que lhes proporcionam disponibilidade financeira; vida solitária (mesm para os casados), devido às constantes viagens e pernoites em cidades diferentes; hotéis confortáveis com bares convidativos; depressão; lazer que inclui idas a boates e restaurantes, onde é de praxe que se tome um drink, etc.

Aquele charme imaginado por nós, pobres mortais, é pura fantasia: no ar, a rotina é constante e os procedimentos de vôo são controlados por computadores e lista pormenorizadas de tarefas, altamente estressantes. Não é a toa que os sindicatos dos aeronautas recusa a colocação de câmeras de vídeo nas cabines - isso é o que já ouvi falar, alguém sabe melhor? Mesmo assim, viajo de avião sem problema nenhum, pois uso do mais manjado mecanismo de defesa que existe: negação!

Mas que passarinho fique bêbado, essa é novidade pra mim. Aqui em Minas (talvez alhures, também), se denomina a danada da cachaça de "água que passarim não bebe". Então, como é que as inocentes aves foram entrar nessa?

Eis a notícia:

Especialistas que examinaram 40 passarinhos encontrados mortos em Viena disseram que eles não foram vitimados pela gripe aviária, como se temia inicialmente, mas que se chocaram contra janelas, depois de se embebedarem ao comer frutas fermentadas. Os pássaros - cujos restos foram cuidadosamente examinados - tinham fígados tão ruins que "pareciam alcoólatras crônicos", disse Sonja Wehsely, porta-voz da autoridade de saúde animal de Viena. T

Todos morreram com o pescoço quebrado, depois de se chocarem contra vidraças, aparentemente depois de se esbaldarem em frutinhas que tinham começado a apodrecer. O processo de fermentação que acompanha a decomposição transforma o açúcar do suco da fruta em álcool.

Segundo a porta-voz, o processo de fermentação provavelmente continuava dentro do estômago dos pássaros, o que os deixava ainda mais desorientados durante o vôo.

Eu, hein?



Os "filhotes" Ângelo e Leo
e sua banda
Chapéu Panamá
HOJE
no
Consulado do Chopp
21h
Av. Francisco Sá (Prado)


"Quem não for é mulher do padre!"

30 janeiro, 2006

Alcione Araújo: O ponto a que chegamos


Alcione Araújo é quem conta este caso, em sua crônica de hoje no jornal Estado de Minas (link disponível só para assinantes):

Dia desses, no cinema – o verão no balneário Rio de Janeiro é um carnaval de etnias, cores, gêneros e idiomas sob canícula senegalesa que, para muitos, só o cinema refresca –, o filme ia a meio, quando soou algum celular. À frente, a voz feminina, com sotaque, digamos, não carioca, para não estigmatizar, foi ouvida por toda a sala: “Oi. Ainda tá na praia? Esperei, amor, juro! Ninguém pintou. Três horas vim pro cinema refrescar. Sei lá, um filme besta, tô sacando nada.”
O volume da voz e a espontaneidade das falas davam a impressão de que, embora longe da torrão natal, ela sentia-se em casa, quem sabe no banheiro, no quintal ou no curral: lixava-se para as centenas de espectadores – eu entre eles – interessados no que o filme fala do homem e do mundo, alheios ao desencontro dela com o seu amor. Logo, ouviram-se vários shhhhhs na platéia. Aos arrufos, ela seguiu a conversa. A tolerância da platéia se esgotou e surgiram gritos: “Desliga essa p...! Cala a boca! Quero ver o filme!” Inacreditável, mas ela seguiu na conversação.


De repente, uma senhora levantou-se indignada da fila atrás de mim e marchou até a poltrona da falastrona, arrancou-lhe da mão o celular e voltou na penumbra do corredor: “Essa tecnologia é pra quem tem educação. Vou entregar seu brinquedo na bilheteria. Pegue na saída.” A platéia aplaudiu. A moça ergueu-se aos gritos: “Me dá esse telefone! Devolve meu celular! Você não tem o direito! Isso é meu, sua ladra! Polícia, Polícia!” Parte da platéia vaiou-lhe, outra parte aplaudiu a senhora. No escuro, todos os gritos são pardos: “Telefona da rua! Expulsa! Chama a polícia! Cala a boca! Eu paguei pra ver filme, pô!” Uma voz de bêbado rosnava ao fundo: “Exsfola! Exscalpela! Exstupra!” Ela, então, perdeu o controle e soltou a desastrada carteirada: “Vocês não sabem com quem estão falando. Meu pai é autoridade! Sou filha do deputado fulano de tal.” E em passos ágeis e gesto preciso, sacou o celular da mão da senhora: “Isso é meu, sua perua!” festejou triunfante, de volta ao seu lugar.

Em súbita e coletiva reação, o cinema, tomado de cólera, vaia e grita: “Fora! Piranha! Rua! Filha de ladrão ganha mensalão! Vagabunda!” Alguns sobem nas cadeiras. O rapaz salta feito gato em telhado e, num gesto mais ágil, retoma o telefone: “É teu? Teu pai é deputado? Então vá pegar seu celular!” – com violência, atira o aparelho contra a parede. A projeção é interrompida, luzes se acendem. Espectadores furiosos a cercam aos gritos: “Mensalão, mensalão, filha de ladrão, recebe mensalão!” A moça recua em pânico, quando a providencial turma do deixa disso acalma a turba e retira-a da sala, aos prantos. O projecionista teve o bom senso de reiniciar logo o filme.

Eis o ponto a que chegamos. Nem sei o que dizer. Talvez seja o caso de os políticos e seus familiares evitarem ostentações e confrontações, serem mais discretos, quem sabe até usar disfarces – cautelas que os ladrões sempre observam.

Alcione Araújo escreve publica suas crônicas no Estado de Minas, sempre às segundas.
Algumas obras publicadas:
NEM MESMO TODO O OCEANO (1998, Record)
SIMULAÇÕES DO NAUFRÁGIO – VOL I (1999, Civilização Brasileira)
VISÕES DO ABISMO – VOL II (1999, Civilização Brasileira)
METAMORFOSES DO PÁSSARO – VOL. III (1999, Civilização Brasileira)
URGENTE É A VIDA (2004, Record)
A PALAVRA AMEAÇADA (no prelo, Record)

[A ilustração deste post foi feita por Alexandre, do EM, e acompanha a crônica de hoje].

29 janeiro, 2006

T i r a d e n t e s - M G




Imagens de luz e de sombras
Ladeiras, sacadas, portais
Descanso e gastronomia
Becos e trilhas

Ouro nos altares
Ferros, cerâmica, madeira
Pedras no chão
E a Serra de São José
Tiradentes são muitas
Minas Gerais

27 janeiro, 2006


Tinha um rocambole no meio do caminho
No meio do caminho tinha um rocambole
Recheado com doce-de-leite e chocolate
Tinha um rocambole no meio do caminho

(Sempre acontece o rocambole
Em Lagoa Dourada-MG
Entre BH e Tiradentes)

Nunca me esquecerei deste acontecimento
Na vida de minhas papilas tão curiosas
Que tinha um rocambole no meio do caminho
No meio do caminho tinha um rocambole
(Que me perdoe o Drummond).

22 janeiro, 2006

FARMÁCIA OU DRUGSTORE?

O filósofo grego, Platão, em seu diálogo chamado Fedro, descreve a analogia socrática entre a ciência médica e a retórica: ambas se ocupam da natureza: a do corpo e a da alma.
Sócrates afirmava que, enquanto a ciência médica administraria ao corpo medicamentos e alimentos - promovendo desta forma a saúde e a força - a dialética, visando a alma, proporcionaria idéias e ocupações justas que conduzem à convicção e à virtude.


O conhecimento médico entre os gregos da época era pautado pela noção hipocrática de phísis: aquilo que é o que é por natureza, independente da decisão ou vontade racionais dos seres humanos.

Eis o fragmento do texto de Platão:

Sócrates - A ciência médica tem, de certo modo, o mesmo caráter da retórica.
Fedro - Como assim?
Sócrates - Em ambas é preciso analisar uma natureza: a do corpo em uma, a da alma na outra, se se quer recorrer não somente a uma rotina e a uma prática, mas a uma técnica, para ministrar ao corpo remédios e alimentos e produzir assim, nele, a saúde e a força; e para a alma, idéias e ocupações justas para lhe transmitir a convicção e a virtude que são desejáveis.

De acordo com a concepção de Hipócrates, retomada por Platão, a saúde estaria no equilíbrio entre as virtudes éticas da alma e as "virtudes" do corpo: uma, espelho da outra. A simetria das partes e das forças naturais configuraria a saúde. Daí o aforismo: mens sana in corpore sano (mente sã em corpo saudável).



Se o uso de medicamentos – embora primitivos, empíricos – já era prática, é preciso distinguir as várias concepções do phármacon, de acordo com Jorge Saurí (Temor de la Terapéutica, Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, V. I, no. 1, São Paulo, 1998):
  1. Droga - pode ser remédio e/ou veneno, dependendo da singularidade de cada pessoa, da indicação, da quantidade e da época da doença.
  2. Tintura - pode fazer algo parecer outra coisa. São as drogas que tratam apenas o sintoma, sem atingir as causas. Por exemplo: antitérmico que pode baixar a febre, mas que não combate a infecção que está desencadeando essa febre.
  3. Escritura - favorece a recordação e incita o esquecimento: pela confiança no que já está escrito. O apego à tradição promove a inflexibilidade na aplicação dos medicamentos e a utilização de ritos mágicos ou supersticiosos. As proibições de combinar certos alimentos (manga com leite, por exemplo) se enquadram neste tópico.
  4. Objeto Numinoso - remete ao mágico, numa função expiatória. A Medicina hipocrática situa, aqui, a expectativa mágica de cura que fica investida, pelo doente, na figura do doutor que dele cuida. Há uma “sacralização” da figura do profissional, conforme descreve Hipócrates: As coisas que são sagradas devem ser reveladas aos homens sagrados; aos profanos, elas não são permitidas enquanto eles não sejam iniciados nos mistérios da ciência.
Todas essas atribuições dos fármacos e da função médica devem ser levadas em conta e orientam uma boa prática.

Infelizmente, com as promessas da indústria farmacêutica, os pacientes já chegam ao médico demandando um tipo específico de medicação, uma solução mágica para seus problemas.

Isso é muito mais evidente em meu consultório, ao qual algumas pessoas acorrem na expectativa única de que posso fornecer a
felicidade plena ministrando um comprimido de Prozac ou de Lexotan! Não querem falar de si, não querem voltar-se para a própria história, têm medo de perscrutar seu inconsciente. Muitos recusam uma psicoterapia, dizendo:
- E se eu descobrir que não faço nada do que quero e vivo sem paixão?
Ao que respondo:
- E alguém lhe diz o contrário?

Preferem a tintura: algo que mascare seu sofrimento, sem que se busquem as causas, assentadas que estão em sua história e em seus conflitos.

À utopia de se ter felicidade plena, corpo perfeito, integração social sem conflitos atendem os médicos que se julgam deuses (operam apenas como objeto numinoso) e as atuais farmácias, já explicitamente chamadas de drugstores, onde tudo se vende: remédios, doces, alimentos dietéticos, presentes, picolés, sorvetes, refrigerantes, shampoos, comida pra cachorro, telefone celular, carvão para churrasco, jornais, etc.
É o que se chama loja de conveniência.
Conveniência do mercado dos ideais hedonistas da cultura, cujo marketing se baseia em promessas vãs (exatamente aquelas em que todos querem acreditar!).


Já o doente...

_______
Atualização:Resposta ao comentário da Erika:

O tratamento dos transtornos psiquiátricos evoluiu muito e podemos creditar ao uso de psicofármacos grande parte deste avanço.
Nos idos de 1950, descobriram-se as fenotiazinas (amplictil, neozine, melleril, etc) e as butirofenas (haldol, triperidol, etc); também os ansiolíticos (diazepan e assemelhados). Isso possibilitou incomensurável alívio aos portadores de doenças mentais e que evitou o absurdo número de internações psiquiátricas (quem nunca ouviu falar dos terríveis "hospícios", destino inexorável dos "loucos de toda espécie"?) iniciando-se o processo de desospitalização.

Com o advento dos antidepressivos (anafranil, tryptanol, tofranil - os tricíclicos) na década de 60 e dos mais modernos (fluoxetina, citalopram, sertralina, etc), muitos dos que padeciam de depressões se viram livres do sofrimento sem fim.
Por isso, não se pode descartar o arsenal terapêutico disponível, cada vez com menos efeitos colaterais.

Por outro lado, é necessário que se tenha uma visão abrangente do ser humano. Se temos um cérebro com sua complexíssima estrutura e quase misterioso funcionamento, é claro que a neurofisiopatologia se tornou uma ciência respeitável.
Há e haverá, ainda, muitos avanços. Assim como abusos, infelizmente. Mas não somos, apenas, neurônios.


Afinal, somos seres-de-linguagem, essencialmente angustiados pelo conhecimento da morte e em constante conflito interpessoal, moral, etc.
Há que ser artista todo aquele que se dedica à Psiquiatria. Eis o meu desafio cotidiano...

_____________________
[ Republicado a propósito do "Dia do Farmacêutico", transcorrido dia 20 de janeiro, dia de São Sebastião, padroeiro da gloriosa cidade fundada às margens da Baía da Guanabara.
Motivou-me a notícia de que as grandes redes de drogarias/farmácias estão abrindo verdadeiros "shoppings" para venda de remédios, produtos de beleza e "secos e molhados" em geral!
Em BH, já existem "megastores" de medicamentos... ]

19 janeiro, 2006

Sou feito de linguagem, logo blogo!


Outro dia - Há alguns meses, Idelber relatou seu encontro com Blogueiros em Vila Madalena-SP. O pessoal, além de uma libação etílica, falou de tudo, de filosofices a bobices (tudo no bom sentido, pelamordedeus!).
Pra mim, o melhor de tudo, foi a camiseta usada pelo Idelber, onde se lê:
  • I AM... THEREFORE I BLOG
  • EU EXISTO... LOGO EU BLOGO
Trata-se de uma paráfrase do dito cartesiano:
  • Cogito, ergo sum.
  • Eu penso, logo existo.
A associação me veio de imediato:
somos seres-de-linguagem, por isso falamos, escrevemos, discutimos, contamos histórias, temos memória, construímos sonhos, mentimos, buscamos a verdade, poetamos, romanceamos, deixamos marcas... somos hommelettre (homemletra), caminhando num oceano de significantes.
Só existo enquanto significo algo para alguém. Significar = ser um signo, um sinal, uma letra.
Por isso, blogo.
E, quando blogo, me divirto.
E la nave va.

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Atualização em 20jan06:

Começa, hoje, a 9a. Mostra de Cinema de Tiradentes.
Estaremos lá, Amélia & eu, além dos "artistas" todos, na Pousada Mãe Dágua, até 28, sábado.
Nosso cardápio será: Turismo, Cultura, Gastronomia, Diversão, Arte e... nós dois juntinhos!