08 agosto, 2007

Eu claudico. Tu claudicas?

Eu mesmo. Caminhando na Rua Gov. Valadares, em Nova Era. Há muito tempo...
Eu claudico, tu claudicas...

"Quando nasci, um anjo torto, desses que vivem na sombra, disse: vai, Carlos, ser gauche na vida".

Taí o primeiro verso do poema autobiográfico do Carlos Drummond de Andrade. Drummond confessa, logo de cara, sua claudicação pela vida: ser gauche é ser meio manco, meio sem jeito, tímido talvez.

Pois, quando nasci, meus pais me deram um nome:

- Vai, menino, ser Cláudio na vida!

Acho que foi logo aí que me identifiquei com o Poeta itabirano. Afinal, meu nome deriva do verbo "claudicar = arrastar de uma perna; não ter firmeza em um dos pés; coxear, mancar, capengar e, no sentido figurado, cair em erro ou falta; fraquejar intelectualmente".

Ai, ai, ai, minha humildade não chega a tanto, nem Soié e Dona Aparecida me rogaram praga nenhuma! Segundo minha mãe, tratava-se de um nome bonito e menos comum e, além disso, nome de imperador romano!

Um grande futuro me esperava - ou ainda espera, duvidar quem há-de? Gosto de utilizar o verbo claudicar sempre que cometo uma gafe, ou "mancada = atitude, resolução, comportamento errôneo, cujos resultados são insatisfatórios ou negativos; falha, lapso, erro, indiscrição espontânea, irrefletida; ação ou fala inoportuna; gafe."

Pois agora, confesso: de vez em quando dou umas mancadas, que deus-me-livre-e-guarde!

Aqui vai uma: - encontro-me com o jornalista político Vidal, na rua da Bahia.

Logo digo:

"- Há quanto tempo".

E ele: "- Viajei, estava em Milão."

Todo afoito, exclamo: "- Ah! então deve estar ótimo no alemão!"...

"- Que isso! Milão fica na Itália."

Tento consertar: " - É mesmo, onde fica a FIAT."

Não deu mais, desolado, me ampara:

"- Não, a FIAT fica em Turim!!!".

Deixei um cumprimento sem graça e me mandei! Já claudicara demais!

E você, já claudicou alguma vez?

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Publiquei este post em dez.2004. Republico-o, sem pejo: é tempo de reminiscências...

06 agosto, 2007

Tentando arrumar a casa

Afresco de Portinari na Igreja de S. Francisco (Pampulha)
Belo Horizonte -Foto by Claudio Costa.


Fernando Marques-Pinheiro é um leitor assíduo do PrasCabeças, de pouquíssimo tempo. Faz comentários nos posts e, para minha surpresa, também através de e-mails. Assina 'fermarpin'. Diversamente da quase totalidade dos que me visitam, Fernando não é um blogueiro, mas um blogófilo!
Deixa pérolas em forma de comentários. É pianista, formado pelo Conservatório de Lisboa. Nasceu em 1922, outro dia mesmo!
A propósito do meu post sobre Esperança, produziu as seguintes reflexões, para nosso degustar:
Tentando arrumar a casa

Ele (o Desejo) é o primogênito, ela (a Esperança) veio a seguir – e logo, logo depois dela (não tinham passado ainda nove meses) nasceu o Sonho.
Olhem para a bela trindade:

Desejo, Esperança, Sonho - estes dois muito chegadinhos um ao outro.

O Desejo nasceu por que razão?
Sei lá! Resultou de concepção e gestação espontâneas? Surgiu por obra e graça do Espírito Santo? Recuso-me a ir por esses caminhos.
Penso que notámos a presença dum espaço e apeteceu-nos preencher esse espaço.
Exemplos: um buraco na estrada, espaço na nossa vida para um filho, um Mi entre um Dó e um Sol (para termos o acorde perfeito...), etc.

A modificação apetece-nos, e logo a desejamos.
E aqui uma janela abriu-se sem eu mexer nela:
Não havendo apetite não há desejo.

Na cama, com 40 graus de febre, não há apetite; e sem apetite não há comida que possamos desejar.
Não temos apetite, não desejamos.
Cuidado! Olhem que sem se comer... Morre-se!
Cá está ela! A malvada. Com maiúscula, a Morte! - a muralha intransponível junto da qual tudo se queda...

Olho em frente e vejo, da esquerda para a direita:

Apetite, Desejo, Esperança, Sonho, Morte.

C'est la vie?
É a vida das batatas e das couves.

Não há uma coisa chamada Ação (Trabalho)?
O trabalho de tapar o buraco da estrada, o do coito (é agradável, mas dá trabalho, não dá?), o de desenhar um Mi entre o Sol e o Dó, etc.
O Trabalho faz parte da vida.

Onde o porei?
Entre o Sonho e a Morte:

Apetite, Desejo, Esperança, Sonho, Trabalho, Morte.

Ça, oui, c'est la vie.

Não me convidem para espreitar à direita da Morte, para lá do por sol, do lado do Ocidente.
Nem me convidem para olhar à esquerda do Apetite, para lá do nascer do sol, do lado do Oriente (o Cabo das Tormentas estafou-me, perdi a obsessão do Oriente, não voltarei a partir para ir buscar pimenta e mostrar o crucifixo...).
Deixem-me acordar com Apetite, de manhã, e depois durante o dia deixem-me Desejar, Esperar, Sonhar e Trabalhar, até adormecer com a Morte, à noite.
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PS – Dr. Cláudio Costa: Sem o seu post eu não teria tido o prazer deste passeio no seu jardim de plantas e flores que não estou habituado a ver.
FMP

01 agosto, 2007

Eu? quem sou eu?





Não é contingência única do mundo virtual que as pessoas se mostrem com identidades inventadas, falsas, maquiadas, fingidas ou 'anônimas'. Apresentar-se sob máscara é atitude comum. Afinal, nós mesmos podemos nos enganar (mesmo não intencionalmente) sobre quem somos. Talvez isso anime tanta gente a se esconder sob um nickname pomposo neste mundo virtual, tanto quanto no real.

- Anh? indagaria um interlocutor menos afeito às filosofices. Eu sou eu, pelo menos disso tenho certeza, eu sou Fulano, acrescentaria, crente que sabe quem realmente é.

- Fulano? que Fulano? (risos)

Aí começam as complicações, pois não basta ser Fulano:

- Sou Fulano de Tal, uai! (mais risos)

Então, logo descobrimos que o nome próprio, para ser próprio, necessita de predicados, já que um nome é apenas um nome e pode designar qualquer pessoa - ou todas as pessoas, não faz diferença. "João", por exemplo, pode designar qualquer um.

Mas predicados, por mais numerosos que existam, não nos podem definir. Sim, não adianta quantidade de predicados (sou isso e aquilo e mais aquela coisa - tipo assim: Sabe com quem está falando?). O que importa é a qualidade deles.

- E como se mede a qualidade de um predicado?, indaga o último da fila, lápis em riste, pronto a anotar em seu caderno encapado com o nome - olha aí, o nome! - escrito na etiqueta.

"Os predicados apenas designam, nada significam. (Saul Kripke citado em Identidades sem Necessidade).

Digo, sem pestanejar, que a qualidade do predicado que julgo ser meu - provisoriamente, bem provisoriamente - tem a ver com a minha verdade.

- Mas aí, ô meu, que verdade é sua verdade? E se o brother estiver enganado? Ou se enganando a si mesmo e a todos? A verdade não é relativa? Este repto vem direto da menina de óculos (viu este predicado? "de óculos" diz alguma coisa de quem é a tal menina? Apenas a identifica, mas não diz quem ela é.

De nada adianta dizer Eu sou aquele que sabe, portanto, não discuta, anote aí, aprenda! porque ninguém tem o atributo da infalibilidade. Portanto, não posso dizer quem sou, ou quem você é.

Afinal, até o próprio nome, aquele da certidão de nascimento ou de batismo, foi-nos dado por outrem, com intenções nem sempre conscientes.

Ninguém escolhe o nome, tudo bem. O pior - ou a verdade - é que até mesmo como nós nos vemos nos é dado pelo Outro (com O maiúsculo, porque se trata de um Outro significativo, claro!) e, submetidos ao desejo desse Outro, tomamos suas avaliações como verdadeiras, quer gostemos ou não:

Sou inteligente, sou bonzinho, sou sem-vergonha, sou bem-sucedido, sou caridoso, sou bonito, sou feio, sou isso e aquilo - eis a coleção de imagens ou predicados que nos foram dadas e que colecionamos ao longo da vida, tesouro carregado cuidadosamente pelo nosso Imaginário, até que tropeçamos e...

- Eu, que sou uma boa pessoa, descontrolei-me, tratei mal a quem mais amava, invejei o vizinho e não devolvi o troco-a-maior que a balconista me deu... entendi, disse tudo de uma respirada só aquele rapaz de moleton preto-bordado-de-letras-brancas-GAP.

Querem mais um exemplo? Vejam este post aqui do Milton.

É claro que há exemplos, digamos, edificantes, quando nos vemos praticando uma boa ação que surge assim, do nada. São os pequenos heroísmos do cotidiano, quando sorrimos para alguém ou descobrimos afinidades por quem menos suspeitávamos. Ou seja, nosso eu verdadeiro é o eu que escapa! Ou, como nos disse Freud (1933): "“onde estava o id ali estará o ego”.

Por isso, digo e repito: somos o que desejamos - e desejar não é querer, hein?

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A belíssima ilustração acima é de J.D. Hillberry.

31 julho, 2007

Amanhecer sobre Pampulha



O sol explodiu prateado sobre as águas calmas da Lagoa da Pampulha,
nesta manhã de terça-feira.

Nada relembra o agito da metrópole.

As flores acordam rubras e detêm meu olhar.

Impossível ficar indiferente diante de tanta beleza.

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Mais fotos aqui.

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E aproveitando o inverno, que tal seguir esta receita de Bette Keefer, publicada pelo Itiro?

Ontem à noite, na festa de confraternização da Olimpíada dos Veteranos, no Centro de Convenções que fica no Holiday Inn, em Sheridan, uma das atletas homenageadas foi Bette Keefer, uma simpática senhora de Windsor, Colorado, de 93 anos, a participante mais idosa dos jogos. Ela participou nos 100 m rasos e no boliche. Ela caminhou até a mesa de prêmios, toda sorridente e elegante, de saltos (!) e quando perguntada sobre o segredo de sua longevidade, respondeu toda faceira e com um sorriso malicioso: Chocolate (de preferência Dark Chocolate) e sexo!

Se você pretende seguir a receita, não se esqueça que antes do chocolate e do sexo você tem nadar 100m rasos e jogar boliche...

29 julho, 2007

Passeio por Belo Horizonte



A manhã fria (18 °C), porém ensolarada, convidou-nos (Amélia e eu) a um passeio por Belo Horizonte. Caminhamos contra o vento, sem lenço nem documento. Acompanhe-nos, por aqui.

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Updates:

Domingo à noite --------------------------------- Hoje, segunda, pela manhã:

27 julho, 2007

E se for verdade? A day in the life of Oscar, the cat

Superstições existem em todos os cantos e culturas. Têm certo parentesco com os mitos (aqui, utilizo a palavra no seu sentido mais prosaico: explicação mágica para tudo aquilo que não compreendemos).



Outrora, aprendi que passar debaixo de escada poderia fazer-me mudar de sexo. As pessoas gritavam: - Cuidado, vai virar mulher! Por via das dúvidas, dava a volta e seguia, feliz da vida com o sexo que Deus me deu.




Há superstições em torno de alimentos. Por exemplo: tomar leite e comer manga? - Mata na hora! Por outro lado, comer semente de romã em passagem de ano atrairá muito dinheiro, garantem. Confesso que fiz isso algumas vezes e, até hoje, a grana não caiu do céu.




Levantar com o pé esquerdo, andar de fasto, ou seja, de costas, poderia causar a morte de algum parente próximo, bem como não se benzer diante das cruzes pelo caminho. Tanta verdade existe nessas crenças que até Santos Dumont tomou suas providências: eu mesmo galguei aquela escada original, lá em sua casa de Petrópolis, na qual só se entra com o pé direito.




É viver e aprender quantos perigos nos rondam e, a cada pensamento agourento, é mister dar três toques na madeira [- Tem de ser madeira mesmo!, alertam] senão tudo dará errado.




Já fui advertido que tomasse cuidado com coruja no telhado, em noite escura: - Alguém da casa vai morrer!, sussurram os sábios. Pior, mesmo, é um gato preto cruzar na sua frente. Se for na estrada, pare e dê meia volta. Não desdenhe do aviso: - Quem avisa amigo é!




Eu já desacreditei de tudo isso e jamais desviei-me do caminho, ignorando gatos pardos, brancos e pretos. Mas agora...




Agora existe um tal de Oscar, um gato que vai chegando de mansinho e se aconchega no seu leito. Se isso acontecer, meu caro, encomende a missa de sétimo dia, pois o danado do Oscar já despachou 25 pessoas. E não sou eu que estou delirando, é a própria BBC quem garante isso:




O gato Oscar tem o hábito de se aninhar perto de pacientes em Providence, no Estado de Rhode Island (nordeste do país), em suas últimas horas de vida.
Segundo o autor do estudo sobre ele, publicado na revista de medicina New England Journal of Medicine, o gato de dois anos teria acertado suas previsões de morte em mais de 25 casos até o momento.




Vejam que o felino nem é o tal gato preto da tradicional superstição, mas eu prefiro que ele demore a chegar por perto. Por via das dúvidas, acabo de dar os três toques aqui na mesa e fiz o sinal-da-cruz três vezes, pra reforçar. Cruz credo!




Pra quem é mesmo incrédulo, cabeça dura, materialista e fatalista, tá aqui a prova na revista médica mais séria (hehehe) do mundo:

25 julho, 2007

Pedrinhas e pedreira


Muitos dizem que 'viajar de avião é coisa de rico' e que 'o país precisa é de comida, educação, saúde, distribuição de renda, estradas, portos, defesa da Amazônia, universidade para todos, etc'.


Às vezes as discussões se tornam bizantinas, onde o detalhe conta mais que o conjunto. Muitos problemas talvez sejam mesmo singulares e a pedrinha só machuca o pé de quem a tem no calçado. De tanta pedrinha, estamos sob uma pedreira sem fim.


Se formos enumerar os problemas de nosso país, este post seria a pedreira-mor, matando de tédio quem se dispusesse a lê-lo (olha que falei de Esperança no post anterior!).


Lembro-me de uma reportagem:

Ocorrera um grande terremoto num país distante, não restando pedra sobre pedra. Todas as casas desmoronaram, muitos morreram e a reconstrução era quase impossível, mas necessária.


O repórter observa um homem a chorar e se lamentar enquanto separava os escombros de sua casa, para aproveitar alguma coisa.
- Por que o senhor chora tanto?
- De desespero e raiva! Veja quanto trabalho tenho pela frente, o tanto que falta, isso aqui não vai acabar nunca! É a desgraça total!

Mais à frente, cenário semelhante. Outro homem, porém, cantava alegremente e carregava pedras com muita disposição.
- Por que está tão feliz assim?
- É que sobrevivi e cada objeto recuperado é uma possibilidade a mais. Cada pedra carregada é uma pedra a menos.


Ambos 'faziam sua parte', mas a disposição era influenciada pelo sentimento e pela perspectiva. Se olharmos apenas a pedreira, não valorizaremos as pedrinhas, fáceis de remover. Se considerarmos apenas essas últimas, perderemos noção de conjunto e brigaremos por migalhas.




  • Afonso vem falando de pedreiras em seus últimos posts.


  • Marília convida para movermos pedrinhas.


Mãos à obra.

21 julho, 2007

"Tsunami de FRUSTRAÇÕES ameaça nossa Esperança" [Manchete imaginária]


Este post está sendo escrito sob a inspiração deste aqui, do Marco Aurélio Brasil.


Quem é que não se frustra com tanta revelação de atos de corrupção ativa e passiva que corroem as esperanças de dias melhores?

Quem é que não tem vontade de se alienar, desligar-se do noticiário e enveredar pelo gozo apaziguante (e falso) do consumismo diante das aberrações administrativas, do lucro infinito dos donos do capital, do tsunami de acidentes em rodovias mal conservadas e outros descalabros? O vocabulário já não dá conta de expressar o superlativo de horror, medo, raiva, ódio, indignação...

Aí, lembrei-me de ter refletido sobre a Esperança, essa virtude tão bombardeada.

Eis a reedição do post de 2005:

“A esperança é irmã do desejo.”

Essa frase me ocorreu de repente, num estalo. Não me lembro de tê-la ouvido ou lido em qualquer lugar. Por ora, se quiserem citá-la em algum discurso ou obra literária, por favor, dêem-me o crédito: “A esperança é irmã do desejo”, segundo Cláudio Costa! Espero (= desejo ) que o façam.

O estalo ocorreu exatamente quando recebi um convite para fazer uma palestra em uma instituição que promove encontros e atividades para a 3a. idade.

“A esperança é irmã do desejo”. A idéia talvez comporte algumas variáveis: “A esperança existe em função do desejo”. Ou: “Sem desejo não há esperança.” Ou, então, bem radical: “Esperança é desejo!”

Outras idéias começaram a pipocar (“esperem todo o milho estalar, senão vai dar muito piruá”, dizia minha mãe, quando ficávamos em torno do fogão, crianças ainda, loucos para comer pipocas) e aí, o melhor é ter calma, senão...

Bom, se desejo e esperança se articulam tão intimamente, o que seria este tal de “desejo”?

Sei que NÃO é necessidade. NÃO é compulsão. NÃO é impulso.

Se a Psicanálise atribui a gênese do desejo à proibição do objeto sexual (tabu do incesto), na vida comum, longe de teorias complicadas, concorda-se que o desejo é algo distinto do querer.

Aceitamos mesmo que o desejo possa ser inconsciente a ponto de sermos por ele traídos - assim o demonstram os atos falhos.

Somos seres-de-desejo, isso nos diferencia dos animais. E só desejamos quando experimentamos a falta: a castração! Complicado!

Quando alcançamos o objeto desejado, o desejo morre. Ainda bem que este tal de objeto desejado NUNCA É O OBJETO TOTAL, completo, absoluto e isso nos garante continuar desejando... Ufa! Ainda bem.

Corri pra o Houaiss e lá estava a correlação que pipocara em minha cachola:
Desejo = ato ou efeito de desejar; aspiração humana diante de algo que corresponda ao esperado; aspiração humana de preencher um sentimento de falta ou incompletude.

Eureka! A conexão estava lá. Só há desejo quando há falta. E a maior de todas as faltas é a danada da Morte. A certeza de sua chegada ( sempre inoportuna ) é a grande castração (falta) sob a qual vive o ser humano. Se tivéssemos a garantia da imortalidade, nada faríamos, pois nada desejaríamos. Tudo aí, na nossas fuças!

E quem deseja, quem espera (tem esperança), sonha. Ou seria o contrário: só quem sonha tem desejos e esperanças? Acho que é isso: é preciso aprender a sonhar, ou cultivar os sonhos, ou acreditar neles. Talvez seja uma boa maneira de viver, driblar a Morte: sonhar.

Não se tratam, aqui, dos sonhos dos lunáticos e delirantes, mas do sonho que engendra a ação, a construção, a busca ativa. Quase inventaria: a sonha-ação!

Descobri e repito esta frase atribuída a alguém que não conheço, John Barrymore: Um homem não está velho até que comece a lastimar em vez de sonhar.

Sonho, logo vivo.

19 julho, 2007

Balaio de Gatos e Gatas

Que Belo Horizonte é a capital mundial dos botecos, todo mundo sabe. Aqui acontece, há anos, o festival gastronômico Comida di Buteco, que movimenta a saudável boemia dos sem-praia: programa garantido é ir a um barzinho.

A palavra barzinho concentra todo e qualquer estabelecimento com mesas internas ou espalhadas na calçada e uma infinita variedade de tira-gostos, para todos os gostos e bolsos. A cerveja tem de estar geladíssima, o atendimento tem de ser de primeira e a comida é atração especial de cada um.

Natural, pois, que o Idelber e Ana Maria Gonçalves nos convocassem para o encontro dos blogueiros no Balaio de Gato. Éramos blogueiros e blogueiras, daí já me considerei um gato e saltei dentro do balaio.

O encontro foi ontem, plena quarta-feira. Dia útil, e daí? Todo dia é dia de boteco na capital das alterosas!

O local é super simpático, misto de barzinho e bazar de artesanato, badulaques, enfeites, lembranças, antiguidades, quadros, roupas, luminárias. Você acha de um tudo.





Quando chegamos, Amélia e eu, a mesa já estava composta dos gatos e gatas, blogueiros mineiros: Idelber e Ana Maria Gonçalves, Letícia e Fernando Lara, Juliana Mothern Sampaio, Fernanda Fefê e Maurício. Pouco depois chegou Ana do MineirasUai!
Então, estávamos lá:
  • Juliana Sampaio, uma das duas Mothern, sucesso de blog e TV (GNT).
  • Ana Letícia, filhota nossa, representando todas as Mineiras, Uai!

  • Letícia Marteleto, nossa professora demógrafa na Universidade de Michigan (USA), descreve suas aventuras no Letícia na Web, além de ser mãe da Helena e esperar mais um filhote do:

  • Fernando Lara, também nosso professor na Universidade de Michigan (USA), que ensina arquitetura, fala de espaços e de tudo o mais em Parede de Meia.

  • É claro que este que vos fala estava muitíssimo bem acompanhado pela primeira dama do Pras Cabeças, meu bem-querer Amélia.
Foi um encontro delicioso: a empatia e camaradagem nos irmanaram imediatamente. Em minutos, já estávamos íntimos, quase que descobrindo parentescos. Descobrimos amigos e referências comuns, confirmando, mais uma vez, que este mundo é muito pequeno. Mas nossa alma, ah!, nossa alma é enorme!

Eis os gatos e as gatas da noite:

Você pode ver todas as fotos do Balaio bem aqui.

17 julho, 2007

Fabrício Carpinejar em BH

Há pouco mais de 1 mês fiz um pequenino post no qual citei o poeta Fabrício Carpinejar, gaúcho.

Hoje, fico sabendo que o próprio estará aqui em BH, para lançamento do seu livro "Meu filho, minha filha", dentro do projeto Sempre um Papo [Sala Juvenal Dias - Palácio das Artes - hoje às 19,30h - entrada franca].

Clique na figura abaixo para ler a matéria completa:



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Update [22:50h] - Eis que me apresso em deixar aqui um agradecimento ao Carpinejar, que tão gentilmente acedeu em dar-me seu autógrafo. Disse-me que, como eu, vários presentes se apresentaram como "leitores de seu blog". Deixou-me a dedicatória: "BH, 17/7/07. Para Cláudio amigo, essa nossa letra tremendo: como uma boca pedindo um copo d'água. Bj, Carpinejar."

Na primeira página de O Amor Esquece de Começar, leio:


Quando estamos sozinhos, somos pela metade.

Quando somos dois, somos um.

Quando deixamos de ser um dos dois,

não somos nem a metade que começamos a história.


Dei o livro de presente para Amélia...

15 julho, 2007

Una derrota que duele en el alma (La Nación)

Confesso que preparei meu espírito para não ficar muito triste com a provável derrota da seleção de futebol na final da morna Copa América. Até concordo com muitos que torciam francamente contra a "seleção de Dunga", aquele que disse "desprezar jogo bonito". Mas...
¿Hay algo peor qu perder una final de la Copa América con Brasil? Sí. Perder una final de un Mundial con Brasil.
Pero siempre perder con Brasil y más en un partido definitorio, clave por donde se lo mire, obliga a una de las especialidades de la prensa deportiva argentina: narrar lamentos.
Pero acá no hubo robos, ni quejas para soltar por el aire, ni reclamos para hacer. Brasil fue mejor de principio a fin, en el partido más importante de todos. [Marcelo Gantman]
O primeiro gol brasileiro, logo aos 4 minutos mexeu com a tradição impregnada dentro de mim. O gol-contra, logo depois, liberou o torcedor que é movido por emoção e não pela razão: daí pra frente acompanhei cada jogada, sofrendo nos ataques "deles", desejando o terceiro e sonhando com goleada.
"Venceu o melhor" é lugar-comum que se aplica ao jogo de hoje e aplaca o ranço mobilizado pela convocação de ilustres desconhecidos (com pouquíssimas exceções).
Tenho saudades de saber de cor o nome dos jogadores da Seleção Brasileira, reconhecer cada um, como acontecia durante aquelas transmissões televisivas com imagens ruins, vestir a camisa verde-amarela e escutar os fogos a espoucar nos céus da cidade.
Hoje, após o jogo, Belo Horizonte já estava coberta pelo manto noturno e, no céu, apenas o brilho forte do planeta Vênus (stella vespertina) chamou-me a atenção. Não havia fogos, nem buzinaços. Algumas janelas dos prédios vizinhos tremeluziam azuladas, denunciando o império da TV nas tardes de domingo.
Vem aí a segunda-feira...

10 julho, 2007

Memória gustativa de comidas mineiras: o simples que é o máximo!

  • Conversa vai, conversa vem, o assunto aportou as praias da culinária, mais precisamente das comidas simples e gostosas. Aí, surgem as memórias olfativas e gustativas, lembranças de comidinhas do tempo de criança, da adolescência e até mesmo do que se comeu ontem. Parece mesmo que somos feitos de memória e de...Sonhos!

  • "Somos feitos da matéria dos sonhos". ["We are such stuff as dreams are made on." ( Shakespeare, in The tempest, 4.156)].
  • Já os nutrólogos ensinam: "diga-me o que come e direi o que você é".
  • Os sexólogos: "diz-me quem comes e dir-te-ei quem és".
  • Pois os filósofos, estes elucubrarão: "Quem como? Como como? Quando e porque como? Como?".
  • Caetano Veloso simplifica tudo: "eu como, eu como, eu como, eu como..."

Mas isto são prolegômenos, com certeza fátuos.

Retomemos do princípio: Conversa vai, conversa vem, lembrei-me de comidas simples, prosaicas, aqueles petiscos ou pouco mais que isso dos quais ainda sinto o gosto e o cheiro, mesmo que saboreados há décadas. Então, vamos lá:

1. purê de batata recheado com sardinha ao molho de tomate: minha mãe fazia uma espécie de pastel gordo com o purê, recheava, passava no ovo batido e na farinha (ou seja, à milanesa) e fritava. Muito bom!

2. arroz-feijão-couve refogada-angu e ovo frito, que minha avó preparava quando ia visitá-la, de surpresa. O feijão ficava na trempe do fogão "a serragem" (alguém conhece?), cozinhando por horas, lentamente. Simples e divino.

3. arroz-de-forno, que era comida de domingo. Hoje nem sei se existe, se alguém faz...

4. sanduíche de pão francês com mortadela, acompanhado de guaraná Champagne Antárctica. Querem combinação mais banal? Era uma exceção, geralmente em viagens, quase sempre longe de casa. Dizem que paulista gosta disso até hoje. Há anos que não provo e fico pensando nas calorias, no sódio excessivo, na mistura cabulosa das carnes (até de cavalo, dizem)... então fico na lembrança.

5. lombo fatiado, acebolado, com fatias finíssimas de jiló, tudo passado na chapa, na hora do pedido, na frente do freguês. Onde: no Mercado Central de Belo Horizonte, quase todo domingo. Acompanhado de cerveja geladíssima. A gente come em pé, no balcão: é um ritual imperdível para quem sabe o que é bom. Virou marca registrada do local.

6. pão-de-queijo quentim com cafezim. Este aí, meus caros, é hors concours, nem vou falar. [várias receitas aqui]. Para variar o lanche, Amélia faz uma broa de fubá que parece coisa do céu! [Aproveite a receita secreta da Amélia aqui].

7. canjiquinha de milho com costelinha de porco. Amélia, aqui em casa, é mestre nesta iguaria, saborosíssima quando quente, com pimentinha, cebolinha, pedaços de queijo derretendo. Meu pai, Soié, adora. No Mercado Central é prato premiado, chamado Mineirinho Valente [receita aqui].

8. feijão tropeiro no Bar 10 ou outro, no Mineirão, em dia de jogo: é servido em prato descartável de alumínio. Acompanhado de um ovo frito e um bife de pernil, preparados ali na nossa frente! Uma celebração à gastronomia que tem a unanimidade das torcidas. [Receita aqui].

9. Macarronada fria, sobra do almoço, devorada no final do domingo. Alguém discorda?

10. a décima iguaria fica por sua conta, caríssimo leitor: compartilhe comigo.

- Agora, com licença: vou "forrar o estômago".

09 julho, 2007

De duas, uma...

Ou você vê este vídeo, ou não.
Se não vir, tudo mal.
Se vir, de duas uma:
ou você não gosta ou você gosta.
Se você não gostar, aí tudo mal;
Mas, se gostar, de duas uma:
ou você não comenta ou você comenta.
Se você não comentar, e tudo mal;
e se você comentar, de duas uma:
Posso ler ou não.
Se eu não ler, tudo mal.
Mas se eu ler, com certeza só uma coisa pode acontecer:
Vou ficar feliz em saber que você me visitou.

Inspirado (mal e porcamente) neste vídeo aqui
:

08 julho, 2007

BH by night

BH by night por ClaudioCosta

Vista noturna de Belo Horizonte, a partir da casa de uma colega, no Alto Santa Lúcia.

No centro da foto vê-se a avenida Raja Gabaglia, que parte do Bairro Santo Agostinho até o Belvedere: são 7km de avenida, sempre subindo, até chegar ao BHShopping, na saída para o Rio de Janeiro.

Agorinha mesmo, Amélia e eu acabamos de descer por esta avenida, vindos do Salão Chevals, feira de artesanato e decoração no Vale do Sol.

Pra quem está a fim de um bom programa neste julho, um convite: BH tem programação demais, muita cultura, jazz, artesanato, comida boa, frio suportável e o jeito mineiro de ser.

É bom demais ou não?


03 julho, 2007

Ocultação de cadáver

Quem conta um conto aumenta um ponto, reza o ditado ao qual recorro para me eximir de quaisquer responsabilidades pelo que vem a seguir.
Dr. Maciel é legista da Delegacia Regional de Segurança Pública numa grande cidade do interior de Minas, onde cumpre sua missão de emitir laudos cadavéricos, explicar causa-mortis, avaliar as lesões corporais, sua gravidade e suas sequelas, definir a consumação de estupros, descobrir tóxicos nos fluidos corporais, etc. Ao legista chega de tudo.
Num dos últimos jornais da Associação Médica de Minas Gerais, Dr. Maciel conta um episódio digno de ser aqui compartilhado.

Aconteceu o seguinte: chegou ao Instituto Médico Legal um tal sr. Winter, tomado de ansiedade, tão apressado que quase tropeçou nos degraus da portaria. Carregava um saco plástico, desses de supermercado. Seu rosto exprimia nojo e sua mão direita, guiada por um braço mais cabeludo do que o do Toni Ramos, mantinha o fardo o mais longe possível de si. Foi direto à recepção:

- Onde eu entrego este material?

- Que material, senhor?

- Isto aqui que encontrei no cemitério do distrito de Vila São Roque, aqui perto. Foi a polícia que mandou.

- Mas o que é isso?

- Como vou saber? Deve pesar uns 2 quilos, é meio mole e já está fedendo. Levei ao posto da Polícia Militar mas eles nem quiseram abrir e me mandaram trazer pra cá. Disseram-me que corpos em decomposição têm de ser examinados no IML. Inclusive, enviaram um envelope com este documento.


Tratava-se de papel timbrado da Secretaria Estadual de Segurança Pública, intitulado: Requisição de Exame. O texto era bem formal:


"Encaminho ao Sr. Dr. Médico Legista do IML desta Comarca o material recolhido no cemitério local. Solicitamos o competente exame, objetivando constatar se se trata de carne humana ou feto, estando o material da mesma forma como foi encontrado. Nesta data, aguardo parecer."


O Dr. Maciel pediu que se esvaziasse o saco sobre uma mesa de granito claro, chamada de 'mesa de exame'. Cuidando para não receber respingo algum, quase dois passos distante da mesa, o sr. Winter desfez o nó do pacote e despejou tudo de uma vez.


Fim do suspense: ali jaziam vários exemplares de peixes podres, provavelmente comprados no supermercado há uns dois dias. Talvez fossem traíras ou cascudos, muito comuns por aquelas bandas. O médico e seu ajudante dispararam em gargalhadas. O sr. Winter não se conteve e pôs-se a xingar a corporação policial do seu distrito, chamando-os de incompetentes e outros adjetivos impublicáveis.


Mas dever é dever, e carecia responder à Requisição: a documento oficial dá-se resposta oficial, justificou o médico, procedendo minuciosamente à autópsia das piabas (seria esta a espécia aquática?) e elaborou o seguinte laudo:


"Na forma da lei, faço emitir o seguinte Laudo Necroscópico:

1. material enviado para exame em saco plástico onde se lê Supermercado Fome Zero;

2. odor fétido típico de material em decomposição;

5. composto de 15 exemplares adultos de Hyphessobrycon reticulatus ellis, vulgo lambari, peixes teleósteos caraciformes, da família dos caracídeos, medindo entre 5 e 12cm;

6. aparência compatível com óbito datado de 48h;

7. todos os exemplares exibem secção céfalo-caudal longitudinal mediana ventral, acompanhada de evisceração compatível com preparo para fritura;

8. guelras com acentuada hiperemia de esforço;

9. nadadeiras amputadas;

10. ferida perfurante na região periobicular, compatível com lesão por anzol.


Conclusão: Face às circunstâncias e aos achados, pode-se concluir, a priori, haver elementos suficientes para caracterização de lambaricídio doloso em série, com premeditação (fritura), por meio insidioso (retirada do meio líquido) e por meio cruel (morte por asfixia). Agravante: ocultação de cadáver.

Solicita-se da autoridade policial as medidas cabíveis.

Com elevada estima e consideração, Dr. Maciel."


Dura lex, sed lex.

29 junho, 2007

MP1D ou MDA?

Este post vai pra dois portoalegrenses: 1 - Milton Ribeiro, que hoje está fazendo mudança. 2 - Afonso Chato, que enfrentou um cano estourado, nos dias em que estive lá. Cláudia e Kaya que se cuidem: seus respectivos podem querer arranjar um maridaço!

Antes que me chamem de mentiroso, confiram a reportagem do Estado de Minas, depois me digam se o meu xará não vai criar escola.

ATENÇÃO: não sou eu o tal Cláudio Nolasco da reportagem - já sou marido por 24h de minha Amélia e, mesmo não sendo tão polivalente quanto o MP1D (marido por 1 dia) do anúncio, ainda não fui despedido.



O certo é que o anúncio distribuído em bairro nobre da capital mineira mexeu com a imaginação das 'solteiras por um dia ou não', ou seja, daquelas mulheres que se vêem às voltas com pequeninos problemas do cotidiano, tipo trocar lâmpadas, carregar piano, cortar a grama do jardim, segurar o pitbull pelo pescoço, trocar os 4 pneus da Cherokee, lavar o carro que atolou na volta do sítio... coisinhas assim, que um super-homem não resolva. Quanto a mim, ainda estou no primeiro grau da escala: já aprendi a trocar lâmpadas, desde que alguém carregue a escada, segure-a para não balançar e implore antes, implore muuuuito, né, Amélia?


Falando sério: se há uma coisa que me irrita é chegar em casa e me deparar com uma lâmpada queimada, um eletrodoméstico estragado, uma válvula de banheiro que disparou, a máquina de lavar com vazamento, a torneira da pia pingando, a cadeira manca, etc. Tudo isso já aconteceu e até que me saí bem. Quando termino o serviço, fico na maior empolgação, a Amélia diz que sou o tal - e acredito! - e penso: - Da próxima vez resolvo logo, não vou reclamar nem deixar para depois. Mas o próximo evento me desmente.


Pois o moço do anúncio é mesmo prendado: Foi assim que Cláudio Nolasco, de 44 anos, ganhou a simpatia de mulheres de BH, exaustas com o acúmulo de funções em casa. Conhecido como MacGyver pelos amigos de infância, justamente em função de suas habilidades em montar e desmontar brinquedos, ele fez um curso técnico de eletricidade, em 1981, mas, dois anos depois, embarcou para os Estados Unidos em busca do sonho americano. Com a cara e a coragem e um dicionário de inglês/português debaixo do braço, fez de tudo na terra do Tio Sam. [texto da reportagem de Déa Januzzi, no Caderno Bem Viver, de 24jun07].


Não lhe faltará serviço, com certeza. Conseguir mão-de-obra idônea e competente para os chamados serviços gerais é um dos problemas das grandes cidades. Ninguém se conhece, há uma infinidade de picaretas (não tanto quanto no Congresso, claro!) e o risco de piorar o que já se estragou é enorme, fora os orçamentos estapafúrdios: cobra-se pela cara do freguês.


Conversa vai, conversa vem, fico sabendo que a idéia não é tão original, pois em São Paulo já existe um tal de marido de aluguel [MDA].
Googlei e achei:

Agora, convenhamos, apresentar-se como "marido por um dia" ou "marido de aluguel", pode ser uma boa estratégia de marketing, mas não deixa de ser esquisito. Ou ambíguo. Talvez, por isso mesmo, façam tanto sucesso.

28 junho, 2007

A profecia

Em 5 de junho, agora, meus pais comemoraram 59 anos de casados!
Vamos abraçá-los neste final de semana, almoçaremos juntos e nos recordaremos de muitas histórias vividas.
Uma delas, com certeza, será o 'caso da profecia da cigana'.

26 junho, 2007

À procura da mulher bem resolvida

WILSON BENTOS, daqui de Belo Horizonte, escreveu o seguinte texto. Já está circulando pela www - às vezes sem o nome do Autor. Pois estive com ele e autorizou-me a publicar tudo. Mas vou colocar só o início e você poderá ler o resto no link original.


A mulher bem resolvida não anda por aí, dando sopa. É verdade.
Porque mulher resolvida mesmo já resolveu tudo, inclusive com quem compartilhar o travesseiro. É independente, inteligente, bem sucedida e não é carente, já que para ser bem resolvida tem que começar... [continua]


Depois que você ler tudim, me diga:
- Existe a mulher bem resolvida?

21 junho, 2007

Paranóia

Pintura de Radaelli (Porto Alegre-RS) - Photo by Cláudio Costa

Os padres que dirigiam o antigo Colégio do Caraça e lá ministravam aulas eram "vicentinos", religosos da congregação fundada por São Vicente de Paulo, cuja sede fica em Paris, à rua Saint Lazare. Por isso, são denominados 'lazaristas'.

Assim, o sistema de ensino e toda a disciplina foram adaptados dos costumes europeus e, ainda por cima, obedeciam aos rigores das 'regras' monásticas: acordávamos às 5,25h da manhã, mesmo no mais rigoroso inverno, no alto da Serra do Caraça. Aos sábados, domingos e feriados, eram condescendentes e dormíamos até mais tarde: 5,55h! Isso mesmo, ansiosamente esperávamos o bendito 'descanso': nunca trinta minutos fizeram tanta diferença. Após a missa cotidiana, seguia-se o café-da-manhã, composto de pão, café-com-leite e mingau-de-fubá. Aos domingos, um luxo: tínhamos manteiga. Aprendíamos a frugalidade monástica, por bem ou por mal. Quem não se adaptasse, que descesse a serra e voltasse 'para o mundo, lá fóra'.

O currículo era muito apertado, com aulas de Português, Literatura, Latim, Francês, Inglês, Grego, Ciências, Matemática e Religião. Esporte era obrigatório, assim como o banho frio.

Até hoje louvo a organização: cada aula durava 45 minutos, precedida de igual período para prepará-la. Todos os alunos tinham de ficar em suas carteiras, num enorme salão, a estudar a matéria específica da aula que viria. Silêncio absoluto. O padre disciplinário, ocasionalmente, percorria os corredores entre uma carteira e outra, conferindo se realmente o aluno se dedicava ao estudo determinado. Às vezes, é claro, pegava alguém a ler uma revista, um livro de contos, uma carta recebida da famíia. Era repreendido à vista de todos, um vexame.

Por um tempo, eu ocupava a última fileira do salão, logo à entrada da porta, nos fundos. Assim, quando o padre disciplinário aparecia, ninguém percebia. Chegava de mansinho e observava os oitenta jovens debruçados sobre os livros. Calmamente conferia um a um e retornava a seu gabinete.

Certo dia, no primeiro horário da manhã, pus-me a ler O Cão de Baskerviles de Sir Arthur Conan Doyle, aventura de Sherlock Holmes e seu amigo Dr. Watson. O suspense era enorme e me desligara completamente do mundo, concentrado no fog londrino e na trama policial.

Súbito, com o canto dos olhos, percebo algo a balançar suavemente um pouco atrás de mim e logo me convenci de que era a borda da batina do disciplinário. Fora descoberto! O desfecho era previsível. Em voz alta, o padre exclamaria: - Muito bem, "senhor" Cláudio, os problemas de geometria, hoje, serão resolvidos pelo detetive Sherlock? Todos os colegas se voltariam para mim e aguardariam o castigo: - Hoje você ficará sem a sobremesa e não poderá brincar durante o recreio após o almoço. Era a senha para uma gargalhada geral.

O que fazer? Se eu escondesse o livro, seria tachado de hipócrita dissimulador. Terrível. Se não o fizesse, então seria descarado, desafiador, impertinente e sem-vergonha. Terrível, também. Minha imaginação trabalhou a todo vapor e inventei uma esperança: quem sabe o padre não percebera meu deslize, estaria olhando lá para frente e nem se dera conta de minha falta? Alívio!

Fingi que nada me perturbava e debrucei-me mais um pouco para tentar encobrir a prova de meu crime. É claro que não conseguia ler e um suor frio escorregou fronte abaixo, coração disparado e respiração suspensa. Com o canto dos olhos, contudo, ainda percebia o vulto a balançar logo ali atrás, um pouco à minha esquerda. O danado do padre não saíria dali nunca mais?

Resolvi enfrentar o inevitável. Arranquei do medo e da vergonha um resto de coragem: confessaria meu crime e acataria o castigo. Não seria a primeira vez. Voltei-me resoluto e já enunciava um "desculpe-me, sr. padre" quando descobri, aliviadíssimo, a origem daquela sombra balançante: era a ponta de meu cachecol, pendurado no encosto da cadeira, que oscilava ao sabor da brisa matinal. Não havia padre nenhum e, portanto, nada de castigo. O mundo continuava a girar, o silêncio imperava e eu só escutava o bater assustado de meu coração. Joguei Conan Doyle para a gaveta da estante e ri, ri muito de mim mesmo.

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Ao lado, o que restou após o incêncio que destruiu parte do Colégio, em 1968. O salão de estudos ficava no segundo andar, acima dos arcos. Atualmente, funciona, aí, o museu do Caraça.

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Caraça-MG - Photo by Ana Letícia (Art director: Cláudio Costa)