17 julho, 2008

Vou dobrar-me à regra nova de viver?

Numa dessas leituras descompromissadas que a gente começa sem muito interesse, encontrei a expressão adulto jovem, seguida de um asterisco. No rodapé, o autor - cujo nome me escapa - explica que adulto jovem engloba as pessoas entre 15 e 23 anos.


- Como assim, cara pálida? perguntei.


No decorrer do texto, havia outros termos do campo psi, não necessariamente com embasamento científico, pois que se tratava de um texto leve, numa revista levíssima.


O autor quis agregar alguma reflexão psicológica à palavra adultescente.
Eu próprio já a ouvira antes, mas não custava nada socorrer-me na fonte inesgotável de saber (!), o buraco sem fundo chamado Google.


O
primeiro link, texto de Sérgio Rodrigues, socorreu-me:
Adultescente é um neologismo jocoso de sentido óbvio, cruzamento de adulto com adolescente. No entanto, ainda não abriu caminho até os dicionários brasileiros e, mais do que isso, não parece ter vingado de verdade em nosso dia-a-dia. Tudo indica que vingará. Nascido no inglês americano como adultescent, registrado pela primeira vez em 1996 e eleito pelo dicionário Webster’s a “palavra do ano” de 2004, o termo já tomou assento firme pelo menos em espanhol, na forma adultescente, de grafia igual à nossa.
(...) adultescente tem consistência maior do que ajudar profissionais de marketing a bolar produtos destinados a esse nicho de mercado detectado no fim do século 20, o dos adultos “infantilizados”, consumidores de videogames e livros sobre magos mirins, que prolongam a dependência do lar paterno muitos anos além da média histórica, mesmo que – e isso é o mais intrigante – ganhem dinheiro suficiente para ter sua própria casa.

O artigo do Sérgio é de 2004 e alude à dimensão mercadológica do termo, um nicho que seria (e é) explorado pelo Mercado.
Um
outro link remeteu-me para considerações de Maria Teresa Soares Eutrópio, mais próximas da interpretação psicológica:


Adultescente, pessoa imbuída de cultura jovem, mas com idade suficiente para não o ser. Geralmente entre os 35 e 45 anos, os adultescentes não conseguem aceitar o fato de estarem deixando de ser jovens.


A cronologia do fenômeno deu um salto de 20 anos! Vê-se bem que este critério não é lá muito confiável, inda mais que o psiquismo escapa do calendário.

Voltemos à leitura de que falava.
Perseguindo o raciocínio do autor - não lhe lembro o nome e recuso-me a declinar o nome da revista. Confesso que estou sendo injusto, pois o que vi, a seguir, me agradou mais do que a primeira acepção (mercadológica), sendo mais profunda que a segunda (o que fundamenta a recusa em aceitar o fato de ser jovem?).


O conceito de adulto jovem seria aplicado, segundo o cara da revista, a alguns mecanismos psíquicos comuns ao que chamaríamos de pensamento mágico
(Piaget), próprio da criança entre 7 e 11 anos, progressivamente abandonado até sua substituição por outra forma de estar-no-mundo, mais condizente com a realidade. Piaget diz que o egocentrismo é a base do pensamento mágico e a saída deste estágio de desenvolvimento intelectual se dará pela socialização e teste de realidade. É o que escreve Gobin:

...a construção do mundo objetivo e a elaboração do raciocínio lógico consistem na redução gradual do egocentrismo, em favor de uma socialização progressiva do pensamento; somente com essa descentração das noções, a criança pode chegar ao estágio da lógica operacional.


Tratam-se de fenômenos psíquicos, complexos, com aspectos intelectivos, cognitivos, emocionais e sociológicos - inclusive dependentes da classe social a que pertence o tal jovem adulto.


- Vamos ao que interessa!
Três crenças alimentam o jovem adulto descrito na revista, as quais podem ser mais exacerbadas, caracterizando uma pessoa mais próxima da adolescência propriamente dita. Se mais tênues e diminuindo de intensidade, estaremos diante de um jovem entrando na fase adulta
  • 1a. crença: Posso ser tudo!

  • 2a. crença: Posso ter tudo!

  • 3a. crença: O Tempo não passa!
Com as devidas ressalvas (classe social, etc.), vemos muitas pessoas que agem baseados naquelas crenças, em maior ou menor grau. Além disso, o egocentrismo é predominante: apesar de viverem (a maioria) sob o teto e beneplácitos da casa materna, de quase nada participam. Querem a roupa lavada, comida quentinha, tudo a tempo e hora. São capazes de deixar copos e pratos por lavar um fim-de-semana inteiro, caso os pais estejam viajando.

O mundo do Marketing quer nos manter atrelados aí, prometendo-nos e aos jovens mais ainda, um mundo onde tudo é possível, o importante é viver o aqui e o agora, seja o que quiser: basta comprar tal ou qual gadget, o celular de última geração, o automóvel que suporta bombas, demolições e terremotos, já que transporta La Bündchen e Mr. Stallone! Seja você, também, um deles é o imperativo do marketing.

Assim, não dá mais para sair da casa dos pais, enfrentar o mundo (real), pois é preciso ter TUDO, ser TUDO e o futuro não existe!

Mas não é preciso nenhuma 'psicologia' para revelar os conflitos que atravessam os adolescentes e os jovens adultos. Os poetas sabem dizê-lo, muito antes de inventarem palavras como adultescente e forjarem expressões tipo adulto jovem. Lembrei-me deste poema do Carlos Drummond de Andrade, que aprendi há anos e não me abandona:

“Vou dobrar-me à regra nova de viver.
Ser outro que não eu,
até agora musicalmente agasalhado
na voz de minha mãe, que cura doenças,
escorado no bronze de meu pai, que afasta os raios.

Ou vou ser menos, talvez isso,
apenas eu unicamente eu,
a revelar-me na sozinha aventura em terra estranha?

Agora me retalha o canivete desta descoberta:
eu não quero ser eu,

prefiro continuar objeto de família”.

[Drummond: "Fim da casa paterna"]

16 julho, 2008

Me engana que eu gosto



O que é que é?

Tem gosto de cigarro, solta fumaça
como cigarro, mas não é cigarro?

Cada kit vem com 20 cigarros e custa US$ 49,95 nesta
loja virtual.

[Recebi e repasso.]

13 julho, 2008

À mesa, num domingo

- Teríamos um bom domingo?

Estava frio, pela manhã. A gente ficou naquela preguiça típica do inverno, tentando manter o calor dos cobertores até o sol garantir sua presença.
O café-da-manhã foi degustado sob forma de iogurte com frutas, pão com queijo canastra passado na frigideira, café pelando a língua e otras cositas más.

A natureza foi lembrar-nos do almoço no meio da tarde, quando ainda bezerrávamos placidamente pela casa, meias grossas nos pés, jornais espalhados, tv, computador, música...

Ângelo deu a dica, pegamos a Renatinha e buscamos o Bistrô, que fica pros lados da Pampulha, pertinho do Mineirão e da lagoa.
Sol plácido, ar puro e paisagem tão aprazível formavam o cenário quando estacionamos em frente à Floricultura Verde Essencial. Explico: o local abriga restaurante, flora e atelier:

Acomodamo-nos na varanda.
A seleção de cogumelos frescos grelhados com ervas, azeite e redução de aceto balsâmico foi a entrada sugerida pela chef Heloísa Barreto:A pièce de resistence seria escolha individual.
Quanto a mim, oscilava entre camarões e salmão grelhado. Este último me pareceu mais consistente, já que prometia a leveza do pescado associada à crosta de gergelin e ervas, guarnição de purê de mandioquinha com creme de espinafre, além da sutileza do shimeji:

A tarde ainda nos brindava com sua cálida energia, o que justificou o sorvete de frutas do cerrado, como sobremesa.
O sol, afinal, deslizou preguiçosmente para o outro lado do mundo, talvez fugindo do frio que descia da Serra do Curral.

- E o domingo foi ótimo!

26 junho, 2008

Uma noite das Arábias


Recebemos a visita do Thiago, de Canis Familiaris, aqui em casa. Vocês sabem, blogueiro conhece blogueiro e o Thiago logo se lembrou de uma história que contei há uns 3 anos, verídica em todos os detalhes. Em sua homenagem, já que ele é de Teresópolis, republico o post:

Iniciamos a viagem de volta a Belo Horizonte e nos despedimos do litoral norte do Estado do Rio. Foram 6 dias entre Rio das Ostras, Barra de São João, Búzios e Cabo Frio.
Amélia e eu resolvemos passar a quinta e a sexta em Teresópolis. Deixamos para trás a baixada fluminense, após derivarmos à direita, na Via Lagos, via Itaboraí, depois Guapimirim, já no entroncamento com a BR-116, no sopé da Serra dos Órgãos.

Daí, serpenteamos serra acima, por entre penhascos, à sombra da Mata Atlântica, em sua exuberância preservada (pena que dela reste tão pouco!). A cidade recebeu o nome Teresópolis - cidade da Teresa - em homenagem à D. Teresa Cristina, esposa de D. Pedro II. Este já havia criado a vizinha Petrópolis - a qual nomeou com seu próprio nome. Coisas do Imperador...
À chegada, um mirante nos proporciona o espetacular panorama do famoso "Dedo de Deus" e de outros picos. Dali, descortina-se, lá embaixo, parte da cidade do Rio de Janeiro e da baía da Guanabara (à noite, as luzes brilham como num céu estrelado, só que aos nossos pés!).

Ao anoitecer, buscamos a pousada que a mocinha do bureau de turismo nos recomendara. Por sorte, ficava bem próxima do mirante.

As trevas já encobriam florestas e montes quando, orientados por uma placa, adentramos uma alameda de paralelepípedos em curva ascendente, rumo a uma casa enorme, totalmente às escuras. Nenhum carro no estacionamento, nenhuma alma viva.
Silêncio absoluto.
Hesitamos um pouco até que estacionamos.
- Parece casa abandonada, foi o comentário da Amélia.
- É, acho que não tem ninguém aí, vou verificar, murmurei.

Um balcão, com aqueles aparelhos de cartão de crédito, era o único mobiliário do que deveria ser a recepção... Entramos devagarinho, ressabiados. Descobri um interruptor e a luz se fez, revelando um vulto a descer silenciosamente uma escada de madeira: era franzino, de tez amorenada, olhos vivos.

O diálogo iniciou-se quase que por monossílabos, enquanto nos sondávamos mutuamente.
Amélia, eu e o sujeito:
- Boa noite, vamos entrar?
- Isto aqui é a pousada?
- Sim, subam para conhecer.
- No escuro?
- Vou acender.
- Onde está o proprietário?
- Sou eu.
- E os hóspedes?
- Chegam amanhã, já tive 14 telefonemas...
- E os empregados?
- Moro aqui. Sozinho.
- ?
- É minha. Moro aqui.

A sala de cima era enorme, com lareira, sofás. Tudo muito amplo. Nossas vozes ecoavam e os passos escandiam as poucas palavras. O sotaque do moço era nitidamente estrangeiro.
- De onde é você?
- Líbano.
- Um sheik árabe? Um magnata do petróleo? tentei brincar, para quebrar o clima ainda tenso.
A resposta foi contida e séria:
- Não, não, nada disso. Minha família está no Líbano. Moro aqui há algum tempo e resolvi abrir minha casa como pousada. Abri em janeiro, mas não apareceu ninguém para se hospedar. Somente agora, em junho, com a temporada de inverno, descobriram aqui. Primeiro, um casal. Depois, outro. Amanhã, como já disse, estaremos lotados.

Os quartos eram amplos, decorados sobriamente. Os cobertores sobre as camas, porém, destoavam de tão coloridos, com estampas florais.
Enquanto o libanês se afastou para buscar a chave de um dos cômodos, Amélia sussurou:
- Benzinho, isso aqui parece a pousada do filme "Psicose", do Hitchcock. O homem parece o Anthony Perkins...

A impressão dela quase se concretizou diante da cortina de plástico no box do banheiro, tal e qual. Agora só faltava o facão!!! [Com efeito, na minha cabeça, revi as cenas do mais famoso filme de Alfred Hitchcock, no qual uma jovem foge com o dinheiro da imobiliária onde trabalha e planeja encontrar o namorado, que mora em outra cidade, mas interrompe a viagem para dormir num velho motel administrado por um estranho rapaz (o psicótico Norman Bates) e sua mãe.]

Seria aquele homem uma réplica de Anthony Perkins? Um clone do perturbado Norman Bates? Esta "velha casa escura", transformada em pousada, não seria exatamente o local apropriado para se passar uma noite tranqüila... A "cena do chuveiro" iria se repetir?
- Quer procurar outra pousada?, perguntei.
- Agora a gente já está aqui... resignou-se minha Janet Leigh.

Fechada a porta do apartamento 05, Amélia cai no riso, incontrolavelmente alto, exclamando:
- Hitchcock, Hitchcock...
- Psiu! ria mais baixo! O homem deve estar escutando tudo!

Era um misto de espanto, perplexidade, tensão, comédia... Mas não havia retorno. Lá estávamos, numa mansão isolada, sozinhos. Éramos hóspedes de um excêntrico? Haveria um cômodo com a "mãe do rapaz?"

Tomei banho primeiro e deixei Amélia sozinha. Enquanto ela se banhava e se aprontava para o jantar, fui "conhecer" melhor o dono da pousada. Respirei aliviado ao descobrir que seu nome não era Norman Bates, mas 'Haldun.
- 'Haldun? , tentei reproduzir o sotaque.
- Mais ou menos, vocês brasileiros não conseguem falar o som aspirado, próprio de nossa língua, disse.
- 'Haldun, 'Haldun...
- Mais ou menos, mais ou menos.
Levou-me à varanda, mostrando-me as luzes da baixada fluminense, à direita, lá no horizonte. Embaixo, a rua que conduz ao centro de Teresópolis. Mais à esquerda, a famosa Granja Comari, onde treina a seleção brasileira.

No quarto, porém, Amélia vivia momentos de quase terror: a TV mudava de canal sem que tocasse no controle remoto. Ao abrir uma bolsa, surgia o programa do Ratinho. Uma tosse, e aparecia a MTV. Caiu uma escova e mudava para a Globo. Ligou o secador de cabelos e novamente Ratinho com suas baboseiras surgia na tela.
- Este quarto é mal assombrado! Onde está o Cláudio, que não volta?
Tratou de se arrumar o mais rápido possível e quando me encontrou, o mistério foi desvendado: enquanto 'Haldun atendia o telefone, eu zapeava em busca de noticiários na TV, ao lado da lareira... Deduzi:
- Será que este controle aqui muda os canais lá do quarto?, perguntei ao libanês. - Sim, sim... aqui é a tv principal!
- Ah! bom, por enquanto estamos sem fantasmas, pensei.

Após o jantar, num restaurante da cidade, retornamos à pousada, onde nos esperava o proprietário, dublê de recepcionista e camareira.

Suas funções se multiplicaram no dia seguinte, quando nos preparou um soberbo café-da-manhã:
O dia estava radiante, o sol banhava a floresta e os pássaros faziam algazarra. Um bando de maritacas passou gritando rente à varanda. Já de malas prontas, despedimo-nos do nosso anfitrião, transmutado em afável interlocutor.
À Amélia, que passava um creme no rosto, antes de entrar no carro, 'Haldun pergunta:
- O que é isso?
- Protetor solar. Sempre passo, pela manhã e à tarde.
- Pois você deveria passar à noite, também.
- Como assim?
- À noite, disse com um sorriso malicioso, o tempo esquenta, ao lado deste aí. Apontou para mim, sorrindo.

Descemos a alameda, em gargalhadas. Foi Amélia que entendeu tudo:
- Ele deve ter ouvido meus risos estridentes durante a madrugada. Com certeza imaginou uma princesa árabe nos braços de um califa...
- Pois acertou, minha Sherazade!

22 junho, 2008

11 junho, 2008

Sexagésimo ano: Bodas de Diamante

Sexagésimo aniversário de casamento é raro.
Sexagésimo aniversário de casamento com saúde, lucidez e bom humor é para pouquíssimos casais.
Sexagésimo aniversário de união feliz seria impossível se não fossem os protagonistas deste feito: meus pais, Ismael (Soié) e Aparecida.

Quem melhor para contar essa história, senão ele próprio, meu pai?

AQUI

08 junho, 2008

NONADA

Vou falar de vezvez: saímos hoje, Amélia, Ana Letícia e eu sonhejando comer pães-de-queijo e broinhas de fubá no Mercado Central de Belô. Colominhando entre a aravia dos corredores, chegamos logo às barracas de queijo, ainda de mãvazias. Ah! vislivi um canastra meia-cura, provei um pedacim e desmedi satisfação:

- Será pura sonhice ou é existível sabor tão penetrante?

Fechabri os olhos, para melhor sentir, disquirindo sabores e aromas. Pois foi. Amélia suputou quantidades e mandamos pesar um dos:

- É pra preparar uns pãozim-de-queijo...

Desfechei o bolso, pois que carecia pagar. Ela ainda refalou:

- Polvilho bom é Marinez.

Aos pouquinhos, a matlotagem se completou.

Beiradeando os corredores dos botecos, passamos por entre gaiolas onde tintipiava a passarinhada em turbulindo. No Café Dois Irmãos, tradicional ponto de paragem, nãostante ainda com lembranças do almoço, uma pedida:

- Um cafezim com broinha!
- Perfeitamém, ossenhor, perfeitamém.

Pois a mocinha deu e redeu, pois impossível desquerer mais e mais.
- Essezim, sim, que é cafezim, cujo Minas Rio era o nome.

Hora dirembora. Lá fora, o lusfús, a tocar Ave Maria.

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Tudo isso aí é brincadeira pura: arremedo, sim. Embaralhei palavras de João Guimarães Rosa com a ajuda de Marco Aurélio Baggio.
É que a Editora Santa Clara, do amigo ZéMaria, acabou de publicar-lhe "Um abreviado do Grande Sertão:Veredas".

Baratim, baratim: é só pedir pelo telefone 31.3391-0644 ou pelo e-mail: lithera@lithera.com.br

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Se lhe apetece
Guimarães Rosa, visite o blog do João Rosa Neto:
Riobaldo & Diadorim.


25 maio, 2008

Madeleine

Confesso que de Marcel Proust e seus sete volumes semi-autobiográficos compilados em À la Recherche du Temps Perdu só li, mesmo, o manjadíssimo episódio das madeleines [No Caminho de Swann]. Proust dá uma primeira mordida no tradicional bolinho francês, tão comum, e é invadido por lembranças inconscientes:
“Mas no mesmo instante em que aquele gole de bebida envolta com as migalhas do bolo, tocou o meu paladar, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim”.




Enquanto isso, Amélia começa a separar os ingredientes para o lanche da tarde de domingo. Nenhuma sofisticação, a não ser as 200g de amêndoas torradas e moídas, os ingredientes estão logo ali: 250g de farinha de trigo, a mesma quantidade de açúcar e outro tanto de manteiga ou margarina.




Marcel Proust é minucioso quando tenta explicar o que lhe acontecia, enquanto sorve mais uma xícara de chá: “Invadiu-me um prazer delicioso, isolado, sem noção de sua causa (...) Cessava de me sentir medíocre, contingente, mortal”.




Da sala, onde leio desimportâncias, escuto o ruído do batedor de bolos e imagino a cena: Amélia já mistura o açúcar à meia dúzia de ovos, acrescenta as amêndoas moídas e a farinha.




No livro, o francês filosofa: “Está em face de qualquer coisa que ainda não existe e a que só ele pode dar realidade e fazer entrar na sua luz”.




Na cozinha, é hora de colocar o fermento em pó, apenas meia colher de sopa, explica minha mulher. Vem à estante da sala e busca a garrafa de rum, usado aqui para enriquecer as receitas, dar gosto às passas e aos bolos. Bastam 2 colheres de sopa da bebida caribenha e mais meia colher de essência de baunilha.




O escritor, lá em Tempos Perdidos, esforça-se ainda por saber a origem dos sentimentos que lhe invadiram a consciência: “Peço a meu espírito um esforço mais, que me traga de volta a sensação fugitiva”. Conseguirá?




Mais ruído vem distrair meu espírito e constato que já é hora de despejar a massa espessa em forminhas previamente untadas. O forno já estava ligado, forno bando, que é para não tostar as delicadas madeleines.




Parece que Proust até se esqueceu de continuar seu lanche, pois só fala mesmo do que se passa: “... sinto estremecer em mim qualquer coisa que se desloca, que desejaria elevar-se, qualquer coisa que teriam desancorado, a uma grande profundeza; não sei o que seja, mas aquilo sobe lentamente; sinto a resistência e ouço o rumor das distâncias atravessadas”.




Também sou desancorado da mesa da copa, pois é hora de preprará-la para o lanche. O ambiente rescende a olores diversos, combinando rum, baunilha e amêndoas torradas. As xícaras são dispostas, os pratinhos aguardam as iguarias, os meninos são convocados: Gente, o lanche está pronto!




O fato causador das lembranças será procurado (à la recherche) por páginas e mais páginas, até que Proust constata: "a verdade, o ser que em mim então gozava dessa impressão e lhe desfrutava o conteúdo extratemporal, repartido entre o dia antigo e o atual, era um ser que só surgia quando, por uma dessas identificações entre o passado e o presente, se conseguia situar no único meio onde poderia viver, gozar a essência das coisas, isto é, fora do tempo."




Então é isso: nem sempre conseguimos determinar a localização exata de um sentimento, enlaçá-lo com os fios da memória e guardá-lo como se faz com velhos retratos ou cartas amareladas. O tempo, este, nos consome e nos escapa, tempus fugit, e o melhor lugar é mesmo fora do tempo.




Aqui, Amélia inventa, como sói aos artistas, e surpreende com um creme ganache: Deve ficar uma delícia, justifica. Nem é preciso duvidar, estão mesmo deliciosas as madeleines da Amélia:
Madeleine com creme ganache by Amélia. (Foto by Cláudio Costa)

16 maio, 2008

Com adrenalina ou sem adrenalina?

As vivências de um psicoterapeuta frente à diversidade de clientes, cada qual com suas demandas, defesas, auto-enganos, esperanças e sofrimento, aos poucos nos fazem construir uma espécie de amostra das infinitas possibilidades de estar-no-mundo.

Outro dia, ao escutar a aflição de alguém cujo filho transita entre a família e amigos marginais (com os riscos inerentes e os vacilos previsíveis), lembrei-me da contribuição de M.Balint às teorias de personalidade.

Ora o rapaz aprontava na rua, se envolvia com maus elementos, desafiava as autoridades e praticava transgressões pequenas e médias (uma quantificação absolutamente subjetiva); ora retornava tranquilamente à casa paterna, obedecia aos horários estipulados, dizia amar pai e mãe e valorizava a família. Tinha um porto seguro, o qual não abandonou nem mesmo quando os impasses com a lei-do-pai pareciam intransponíveis.
O pai, por sua vez, jamais negou atenção ao filho e, para o bem ou para o mal, exercia certo controle à base de promessas, presentes e raríssimas privações: eu compro o garoto, mas não tem outro jeito! Ele só faz o que peço mediante troca.

Minha aproximação ao tema deste post se deu há tempos (bota tempo aí) quando comecei a estudar Psicodrama com Pierre Weil e Lea Porto. Pierre acabara de lançar a tradução de seu "Psicodrama Triádico", co-autoria de Anne-Ancelin Schutzenberger. (Texto completo, aqui, em p.d.f.).

No capítulo 8, resume a "invenção" de Balint, criada para dar conta de explicar duas expressões comportamentais:
  • certo tipo de pessoas se comprazem em viver perigosamente, nem que seja em jogos e esportes radicais, enquanto outras fogem do perigo, temem o incerto, aferram-se à rotina e aos objetos.

O moço que causava tanta preocupação se diz atraído pela aventura, admira os marginais que não temem pela própria vida. Frequenta as bocas e as quebradas, justifica, pois é onde reina a alegria, a zoação, o não-estou-nem-aí, o vamos fundo, brother! Apressa-se em se distinguir deles, porém: não bebo, não fumo, não faço coisa errada; tenho família! Seu critério para diferenciar o 'certo' do 'errado' é bem elástico, convém dizer. Refere-se aos boyzinhos classe-média como rabos-de-peru.

Já outro pai queixou-se da filha, moça de 26 anos, que era insegura, não conseguia terminar nenhuma das três faculdades que iniciara, sempre se dizia incapaz de competir, não desgrudava da mãe, de quem dependia até mesmo para escolher o que vestir. Exemplifica com uma situação recente, quando a filha recusara um emprego porque teria de pegar ônibus e chegar tarde em casa. A jovem não se permitia uma aventura sequer, um passo além do bairro, uma conquista acadêmica. Aferrou-se à segurança do ventre materno?

Balint repara que muitos brinquedos em parques-de-diversões oferecem prazeres por meio de atirar ou bombardear, quebrar coisas, vertigens de balanços, carrosséis e rodas gigantes, jogos de azar, horóscopos, enfim, prazeres ligados a sensações de vertigens.

Se os sintomas do rapaz são o avesso dos apresentados pela moça, algo existe em comum: tanto o primeiro quanto a segunda têm uma base de apoio: o jovem, como um saltador de bump jumping, tem a garantia da corda que lhe cinge o corpo, o elástico que o trará de volta à rampa do salto. O paraquedista, o marinheiro, o piloto de avião, todos se lançam ao espaço, arriscam-se mas esperam retornar ao chão firme, sãos e salvos. Mas não recusam a adrenalina!

Balint aponta três características deste comportamento:
  • Um certo grau de medo consciente ou pelo menos a consciência de um perigo externo real.
  • O fato de se expor voluntária e deliberadamente a este perigo externo e ao medo que ele provoca.
  • A esperança mais ou menos firme de ser capaz de suportar e dominar o medo, de ver desaparecer o perigo e de estar à altura de reconquistar são e salvo a segurança.
A este tipo de pessoas ele deu o nome de Filobata; formou esta palavra a partir do termo acrobata, que significa o que anda sobre as extremidades, isto é, o que anda fora da terra. O filobata é o que gosta do arrepio provocado pelo fato de deixar a terra firme, ou o que a simboliza.

Já a moça que não decola para a vida, o que faz? Não abandona a base, não se desgruda do trampolim, tem medo de viver, permanece na barra da saia da mãe.

Trata-se, segundo Balint, de um comportamento que se caracteriza pelo agarrar-se a objetos que dão segurança quando a pessoa se sente ameaçada. Ou seja, evita sempre as situações filobáticas.
Inventou outra palavra, também derivada do grego: akneo, que significa “furtar-se, hesitar, agarrar-se”, e filia (busca, aproximação, amizade) e surgiu termo Ocnófilo.

Balint:
O ocnófilo é a pessoa que evita situações de risco, de aventura, e prefere permanecer em zonas seguras ou se agarrar a objetos. A grosso modo, o filobata gosta de gozar das dificuldades, da independência e dos espaços livres; o ocnófilo gosta de objetos e coleciona coisas.

Assim, aparece uma tentativa de classificar as pessoas pela filobacia e ocnofilia que apresentam na maior parte de seus comportamentos. Não sei se existem mais autores dedicados a isso, se se pode comprovar estatisticamente a existência destas personalidades, mas acho muito interessante. Qualquer definição que pretenda enquadrar as pessoas corre o risco de ser desmentida, tal a diversidade de fatores que determinam o agir.

Exemplifico com a demanda feita por um jovem marido, especialista em flertar com todas as mulheres, jogar conversas de duplo sentido e até cometer umas aventuras extra-conjugais. Imagine que o rapaz se queixou de sua insegurança e solicitava ajuda para ser mais corajoso! Como assim? perguntei. Ele: É que gostaria de separar-me da minha esposa e morar com uma colega de trabalho pela qual estou apaixonado... mas tenho medo de dar errado e minha mulher não me aceitar de volta. Provoco: Fale com sua mulher, quem sabe ela aceita? Ao que, de pronto, responde: De jeito nenhum! E se ela não gostar e me mandar embora? Aí eu posso ficar sem ninguém!
Seria o caso de um pseudo filobata? Um ocnófilo borderline?

Eu próprio já tive algumas experiências de risco: Saí de Belo Horizonte e fui hospedar-me na casa do Milton Ribeiro, em Porto Alegre. Apenas o conhecera via blog. E se ele fosse o Vampiro de Dusseldorf? Outra: Comi lasagna na casa do Dom Afonso, autodenomimado O Chato. Nunca o tinha visto, a não ser pela sua chatura no blog, e nem pensei que o gremista pudesse envenenar um torcedor do Clube Atlético Mineiro. Mas arrisquei: filobata, eu? Pior: aceitei carona em um Honda Civic, no Rio de Janeiro!!! Diagnóstico definitivo!

Mas sou mineiro, montanhês, desconfiado, apegado à família, agarrado com Amélia, caseiro, estável no mesmo emprego e na mesma profissão. Pois que seja, sou mesmo ocnófilo!


Definir alguém como filobata ou ocnófilo pode ser, realmente, reducionista demais. Balint e Pierre Weil sabem disso e afirmam que não existem os tipos extremos, mas todos oscilamos entre um polo e outro, dependendo das circunstâncias e das fases da vida.

11 maio, 2008

Cartão virtual


Se, hoje, o comércio está eufórico com os números e os lucros das vendas do Dia das Mães, isso pouco me importa;
Se as floriculturas ficam abarrotadas de gente, vendem flores e arranjos, constato sem emoção;
Se os shoppings - templos contemporâneos, atração turística, lazer para todos os gostos e poucos bolsos - engolem consumidores que adentram em seus corredores iluminados e refrigerados, é sinal dos tempos;
Se aquele menino ali que desenhou uma flor e uma caricatura desgrenhada e escreveu Mamãe, eu te amo! me perguntar se eu já fiz o mesmo, respondo:
- É claro, garoto! Só que a gente cresce, aprende a fazer blog e não tem mais coragem de fazer caricaturas.
Então, D. Aparecida, receba este post como o meu desajeitado eu te amo!

04 maio, 2008

Viagem afetiva

Bem sei que o ciclone previsto deixou sem luz o meu amigo Milton Ribeiro e muita gente mais lá pelas bandas do sul... mas, contrariamente às premonições do Serviço de Meteorologia, o fim-de-semana em Brasília-DF foi de tempo bom, em todos os sentidos: fizemos uma 'viagem afetiva', Amélia, Ana Letícia e eu.

Temos amigos valiosos na capital federal e queríamos estar perto deles e abraçá-los, para além do virtual internético ou dos telefonemas.

Assim, embornal a tiracolo, fomos num pé e voltamos no outro, mas a alegria dos encontros inundou nossos corações.
Primeiro, conhecemos a netinha meio-brasileira e meio-americana de Maria Auta e Valdir, numa festa de
segundo aniversário cheia de brilho, balões, brincadeiras e boa conversa. O papai Guga, que vimos ainda de calças curtas, agora é um jovem empreendedor lá nos States. O tempo passa...
No dia seguinte, hora de abraçarmos mermão Paulo e sua Letícia, de quem falei algumas vezes, em especial neste post de 2004.

Não era aniversário, mas também rolou a festa, juntou-se a família, filhos e namorado da filha, pois os laços afetivos são antigos e cultivados com encontros ocasionais, férias em conjunto, etc.
Não faltou champagne para o brinde de boas vindas.


'Quem encontra um amigo encontra um tesouro'. Pois então nos consideramos ricos, riquíssimos.

30 abril, 2008

Uma carta

Milton Ribeiro escreveu uma carta dizendo tudo sobre o caso Isabella.
Clique AQUI para ler.

26 abril, 2008

Daylight

Conexões - Foto by Cláudio Costa.

Fico a imaginar, da janela, se meus emails passam pelas antenas, bem ali.
Quase posso tocá-las.
Se, ontem, a torre se banhava de luar, hoje mergulha no anil.
As coisas são sempre as mesmas ou mudam conforme o olhar?
Existem realmente ou apenas reverberam ondas de luz, mais intensas ou tênues, de dia e à noite?
Que mensagens são captadas por ouvidos tão atentos e numerosos, que florescem no tronco metálico?
Antenas são ouvidos e olhos?
Será que espiam meus passos, escutam-me ao piano, censuram meus pensamentos?
A torre é feia e bonita.
A torre.
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Mais fotos: AQUI.

23 abril, 2008

Moonlight

Luar entre nuvens-Foto by Cláudio Costa


Da janela, a paisagem é dominada pela torre da Embratel, imponente em seu gradeado laranja. Mas a lua, mesmo entre nuvens, dominou meu olhar, com seu brilho intenso. E a torre ganha beleza ao submeter-se à dona do espetáculo: a Lua.

20 abril, 2008

Ecosofia

Não tenho certeza absoluta, mas quase posso jurar que a palavra 'ecologia' ressoou em meus ouvidos quando cursava Medicina, na UFMG, há 3 décadas! Se não me engano, explicava-se o aumento urbano de algumas doenças transmissíveis (febre amarela, doença de Chagas, etc ) se devia ao desequilíbrio ecológico provocado pela destruição das matas e expansão da fronteira agrícola e uso de agrotóxicos. Desde então, aumentou infinitamente a freqüência com a qual o termo passou a aparecer na mídia.


Fecho os olhos e rememoro minha aproximação ao conceito:


A princípio, entendia 'ecologia' apenas como ciência que estuda as relações dos seres vivos entre si ou com o meio orgânico ou inorgânico no qual vivem [na 1a. acepção do Houaiss]. Aprendi que a palavra se origina da justaposição de dois termos grego: óicos [casa] + lógos [estudo, palavra].


Aos poucos, o conhecimento de que a sobrevivência da humanidade está em risco no Planeta Terra (nossa casa) está cada vez mais bem determinado. Ecologia se torna uma questão de vida ou morte e estudos demonstram que o aumento desmesurado da insdustrialização, o uso de combustíveis fósseis, a superpopulação, as alterações climáticas devidas ao acúmulo de gases na atmosfera e muitas outras atividades esgotarão as reservas de oxigênio, de água e de terras aproveitáveis. Morreremos de fome, de sede, de calor, de asfixia, de inanição... O Planeta sobreviverá, claro, mas ninguém estará aqui para ver a Natureza se recuperar por si, alguns milhões de anos depois do último Homem.
A Natureza sobreviverá ao Homem e àquilo que o distingue das coisas e dos animais, ou seja, à Cultura? E o título auto-aplicado de "rei da natureza" que acreditávamos ser verdadeiro e absoluto? Um paradoxo se constitui: de um lado, a Ciência que cria modos de domínio e manipulação dos recursos e forças naturais; por outro, a constatação de que será mortífera a utilização descontrolada, desmedida e intensa daqueles mesmos recursos. Há que mudar.


Mas será que conseguiremos mudar nossa relação com o meio ambiente sem mudar a nós mesmos?


"Existe uma ecologia das idéias danosas, assim como existe uma ecologia das ervas daninhas." [BATESON, Gregory. 2000 [1972]. Steps to an Ecology of Mind. Chicago: The University of Chicago Press.]


Com esta citação, Félix Guattari inicia importantes reflexões em seu livro As Três Ecologias (Campinas-SP, Papirus Editora) - Resumo.
Apesar de estarem começando a tomar uma consciência parcial dos perigos mais evidentes que ameaçam o meio-ambiente natural de nossas sociedades, elas [as formações políticas e instâncias executivas] geralmente se contentam em abordar o campo dos danos industriais e, ainda assim, unicamente numa perspectiva tecnocrática, ao passo que só uma articulação ético-política – a que chamo ecosofia – entre os três registros ecológicos (o do meio-ambiente, o das relações sociais, e o da subjetividade humana) é que poderia esclarecer convenientemente tais questões.


O conceito de Ecologia se estende à Ecosofia, que se orienta para três registros:


a) o registro do meio ambiente: a ecologia mais conhecida e difundida pela mídia, visando a preservação do ecossistema, das fontes de energia, das reservas de água potável, sobrevivência das espécies, etc.


b) o registro das relações sociais: "não haverá resposta à crise ecológica a não ser em escala planetária e com a condição de que se opere uma autêntica revolução política, social e cultural, reorientando os ojetivos da produção de bens materiais e imateriais." (p.09) Uma ecosofia social tratará de modificar e reinventar maneiras de ser no seio do casal, da família, do constexto urbano, do trabalho, etc. Não é fácil...


c) e a ecosofia da mente? Pois é, essa vai fundo, pois questiona a própria noção de subjetividade. É claro que as teorias psicanalíticas e estruturalistas serviram de fonte para o questionamento da subjetividade cartesiana ("penso, logo existo"). Na verdade, há outras maneiras de existir fora da consciência. Por isso Guattari prefere falar em componentes de subjetivação. Questiona, pois, o individualismo, o consumismo, a alienação e a passividade nossa de cada dia.


Salvar-nos, neste mundo, é tão ou mais difícil que salvar o Planeta!

12 abril, 2008

Mirante

...sempre pensei por que alguém, a prefeitura, a bhtur ou qualquer um não faz um mega-mirante na serra do curral?

Serra do curral é a fortaleza de beagá [ouvi dizer há muito tempo: se acaso houvesse uma guerra nuclear nossa cidade seria protegida exatamente pela serra que deu o nome ao antigo arraial del rey, mais tarde belo horizonte capital das gerais].

Igualmente diziam que era tombada pelo patrimônio histórico ou pelo ibama ou por alguma outra entidade protecionista e que haveria o risco de a montanha acabar - o que não impediu às mineradoras tipo a famigerada mbr-mineradoras brasileiras reunidas que de brasileira mesmo só tinha a montanha já que o minério ia embora daqui a preço menor do que o de banana que por sinal está pela hora da morte [pelo menos é assim que diziam antigamente]... pois é não impediu às tais mineradoras que comessem quase tudo das entranhas do lado escondido daquele morro / a cidade do lado de cá foi subindo com favelas e com mansões tal como demonstra o aglomerado da serra e o taquaril e o alto vera cruz tudo favela sem falar do luxo do mangabeiras e do belvedere e da avenida seis pistas onde fica o biocor e mil outros empreendimentos imobiliários. Ufa!

...sempre foi uma alegria poder ver a serra lá do alto vindo de avião do rio de janeiro ele voando mais baixo preparando-se para descer na pampulha e eu de olho agarrado ali na janelinha a gente só vendo as serras da moeda e do rola moça à esquerda a br40 embaixo beirando a lagoa dos ingleses e lá longe à esquerda horrorizar-me com as crateras da mineração [solo lunar ou marciano tanto faz] muito feio e doído no coração da gente.

...de repente quase que num susto surge a cidade inteirinha por detrás do paredão da serra: um montão de prédio e casa e rua e a cidade toda espraiada sobre colinas com os carrinhos e ônibus de brinquedo correndo pelas ruazinhas tudo miniatura mas poluída mesmo assim bonita por natureza que beleza.

...e eu ali na janelinha do avião que se prepara para pousar em instantes no aeroporto da pampulha favor apertar os cintos e colocar o encosto das poltronas na vertical eu juntando jornais e revistas de bordo fecho a bandeja do lanche recém recolhido e guardo nas retinas nem tão fatigadas as imagens da cidade - pedacinhos que via e rotulava aqui é a praça do papa olha a avenida afonso pena ali e o mineirão já tão perto, nossa! a lagoa! a lagoa com a igrejinha de são francisco de niemeyer e o pic e o iate e o museu e a barragem.
Chegou!

Num tranco o trem de pouso bate na pista o bichão taxiando e meus olhos perscrutando (!) a varanda do aeroporto será quem veio me buscar? Amélia e os meninos ali.
Cheguei!

Foto by Celso Santa Rosa/Jornal Estado de Minas
"Um dos mais bonitos e famosos cartões-postais de Belo Horizonte, a Serra do Curral começa a ser transformada em parque municipal. Depois de quase uma década de expectativa, desde a publicação do Decreto 13.190/99, determinando a criação do Parque Paredão da Serra, a prefeitura da capital deu início, esta semana, às obras. Ao todo, será investido R$ 1,3 milhão (recursos do Ministério do Turismo, com contrapartida do município) para a construção de jardins, trilhas, praças, portarias, mirantes, guaritas de vigilância e sistema de segurança ambiental, numa área de 397,8 mil metros quadrados, projetada para ser o novo ponto turístico da cidade." [Glória Tupinambás, Estado de Minas - 11.abr.2008]

06 abril, 2008

LOUCURA: Festival e Museu

"Quando eu era criança pequena lá em Barbacena..." tornou-se bordão em antigo programa humorístico. Muitos já começavam a rir à sua simples enunciação, provavelmente pelo forte sotaque capira, pela vestimenta inadequada e, principalmente, pela expressão abobalhada e louca do ator.

Associar Barbacena à loucura não é sem propósito, uma vez que lá se criou o primeiro hospício para loucos em Minas Gerais. Segundo Moacyr Scliar
"no começo do século passado, a cidade pleiteava se tornar a capital de Minas Gerais. Perdeu para Belo Horizonte, mas, como costuma ocorrer em nosso país, os políticos trataram de providenciar algum tipo de compensação para os barbacenenses ... Era a fase do alienismo: a psiquiatria não tinha muito a fazer pelos pacientes e, por causa disso, os internava em instituições gigantescas. Barbacena ganhou, então, o seu hospício" (Jornal Zero Hora, 19;mar/2007, p. 2).

Hospício de Barbacena, 1912. Foto-reprodução by Cláudio Costa (5.abril.2008)

Muita água passou por debaixo da ponte, desde então. Muita gente, também, passou pelos portões do grande manicômio, crescido desmesuradamente, até tornar-se um verdadeiro campo de concentração, com milhares de internados, numa rotina dantesca de dessubjetivação, humilhação, doença e morte. O Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena(CHPB) se tornou o macabro fornecedor de corpos para os estudos de anatomia, afora os quase 60.000 enterrados em seu Cemitério do Cascalho.

A coisa se institucionalizou de tal forma que até a Estrada de Ferro Central do Brasil estendeu um ramal às suas imediações e autorizou a parada dos comboios, bem ali. Havia um desvio na estação, onde o guarda-freios desconectava o último vagão, repleto de loucos embarcados desde o longínquo norte mineiro: era o trem de doido, expressão elogiosa que define, hoje, algo muito bom.
1979: As possibilidades de transformação e extinção daquele inferno principiam em 1979, a partir do Movimento Nacional de Trabalhadores de Saúde Mental. Em julho, acontece em Belo Horizonte o Seminário de Psiquiatria Social, com a presença de Franco Basaglia, psiquiatra italiano, que visitou os hospitais psiquiátricos mantidos pelo Estado (Instituto Raul Soares e Hospital Galba Velloso, na capital; CHPB, em Barbacena). O jornalista Hiram Firmino escreve uma série de reportagens, intitulada "Os porões da loucura" . O cineasta Helvécio Ratton produz o documentário "Em nome da razão", retratando o interior dos porões, as precariedade da assistência, o descaso para com seres humanos desprovidos de qualquer dignidade. A sociedade se mobiliza. Os portões começam a ser abertos. Psiquiatras e outros profissionais se reúnem no II Congresso Mineiro de Psiquiatria. Bem devagar, mas inexoravelmente, as coisas começam a mudar.

2006: Em março de 2006, realiza-se o Primeiro Festival da Loucura de Barbacena, evento organizado pela Prefeitura. A princípio, só festa, como que para exorcizar os fantasmas e o estigma que traumatizava a própria menção do nome da cidade. Tom Zé, Hermeto Pascoal e Lobão fazem os shows. Há encenação de peças teatrais, exposição de artes e filmes.
Agora, em 2008, estive lá para o Festival da Loucura número 3: o evento cresceu e teve uma parte científica, com três mesas redondas: Nunca houve um homem como Heleno (aquele jogador do Botafogo, que faleceu no hospício); O Alienista (pelo centenário de Machado de Assis); Debate sobre o documentário Omissão de Socorro (de Olívio Tavares de Araújo), Van Gogh, o artista e o sujeito (sobre o homem que habitava o artista).
Neste final de semana pude ver a exposição de fotos, uma peça de teatro e visitei o Museu da Loucura.

Pois é, há 10 anos se criou, no "torreão" do antigo hospício, um museu com fotos, objetos e depoimentos sobre os porões da loucura. Métodos primitivos e desumanos para tratar os alienados não podem ser esquecidos para que nos lembremos de quão frágil era o pretenso cientificismo do início do século passado. Um alerta para nós, psiquiatras de hoje, que devemos avaliar cuidadosamente as promessas das neurociências: será que as certezas de hoje serão, um dia, objeto de museu?
Torreão do Museu da Loucura. Foto by Cláudio Costa (5.abril.2008)

30 março, 2008

Biscoitos de polvilho

Tenho uma lembrança gostosa de tempos idos: comer biscoitos de polvilho feitos pela minha avó Nhanhá, que também preparava quitandas (alguém aí conhece brevidade?).
Tudo era assado num forno daqueles de barro, um iglu no meio do quintal, com a boca escancarada esperando um punhado de lenha. Aceso o fogo, era hora de pegar os tabuleiros, untá-los e depositar neles a massa mole do biscoito.

No fogão-a-lenha, a chaleira borbulhava de água fervente, logo derramada no coador de pano com boa porção de pó de café. Uma azáfama!

Finalmente, ali estávamos, vovó, vovô Ilidinho, as tias e os meninos aguardando os biscoitos que saíam quentes, corados ou mais branquinhos, crocantes e deliciosos. Não sei o que era mais gostoso, o sabor ou o barulho de mordê-los. Impossível parar de comer.
Podiam ser em forma de palitos, um dedo de espessura, ou mais encorpados. Às vezes, em anéis; outras, sinuosos, cobrinhas ou minhoquinhas de biscoito, como os chamava.

Pois, outro dia, deu-se o revirar do tempo: Amélia recebe uma receita da Dona Hilda, 94 anos, cujos biscoitos saboreamos algumas vezes. Anima-se e vamos em busca dos ingredientes:
- 5 copos (+ ou - 800g) de polvilho azedo
- 1 copo de óleo (aqui em casa, canola)
- 1 copo ( + ou - 250ml) de água
- 1 colher de sopa de sal
- 4 ovos

Como fazer?
Tudo medido, chega a hora de escaldar a massa.
Amélia ferveu o óleo, a água e o sal e derrama tudo sobre o polvilho, que esperava dentro de uma grande tigela. Com uma colher-de-pau vai fazendo um grude. Esperou amornar e sobre este grude quebrou os quatro ovos (gema e clara, claro!). Misturou bem e acrescentou água morna para dar o ponto de massa mole.
Por que? Porque essa massa será colocada em um saco plástico, com um furinho. Assim, vai espremer a massa, formando os biscoitinhos. As formas (tabuleiros) deverão estar untadas com manteiga ou margarina, senão agarra tudo. Levou ao forno, já bem quente.
A gente ficou arrodeando, doido pra comer. Menos de 30 minutos e o visor já nos deixa ver que estão levemente crescidos e corados.

O café exala aquele aroma irresistível e a mesa é posta. Você não vai acreditar, mas essa mistura rendeu pouco mais de quatrocentos biscoitinhos, eu disse quatrocentos! Então, sem economizar na comilança, ainda sobrou pra guardar nos potes. Eis a prova:

O dia terminou assim, em plena metrópole, na pós-modernidade: os aromas e os sabores do lanche reanimaram lembranças antigas, acomodadas em algum lugar de nossas mentes. Não havia o burburinho dos primos e das tias, nem os casos do vovô Ilidinho, muito menos os passinhos miúdos da vovó Nhanhá. Mas a família ao redor da mesa, a conversa animada e aconchego de casa aconteceram. O tempo parou.

Quisera ser um Proust, que ao comer
madeleines, foi assaltado por lembranças tais que escreveu: Em busca do tempo perdido...

23 março, 2008

Páscoa Feliz

A Páscoa seja mais uma ocasião para nos confraternizar.

Arranjo simples e delicado feito pela Amélia. Natural e saudável, com maçãs, ameixas e cerejas.
Chocolate não poderia faltar e, mais uma vez, Amélia nos surpreende com suas iguarias divinas: pannetone e colomba pascal recheados com ganache de chocolate e licor de cacau.

Fotos by Cláudio Costa.

18 março, 2008

Oscar Niemeyer: o espetáculo arquitetural e... eu!

Quando visitamos Curitiba-PR, em outubro de 2006, Amélia e eu nos encantamos com a cidade.

O 'olhar-de-turista' seleciona paisagens e monumentos e vislumbra belezas onde o cidadão comum vê apenas o caminho de leva-e-traz ao trabalho, à escola, ao lazer. O Parque da Cidade, a Ópera de Arame, o Shopping Estação, o Babilônia, o Castelo de Batel, o Restaurante Pata Negra e a Estrada da Graciosa deixaram-nos indeléveis lembranças visuais e afetivas . O mais impressionante, porém, foi o Museu Oscar Niemeyer, no qual passamos uma tarde inteira, extasiados tanto com as obras em exposição quanto com o próprio edifício, projetado pelo grande arquiteto (á esquerda, foto by Cláudio Costa).

Todos sabem da importância de Belo Horizonte na história de Oscar Niemeyer, pois foi aqui, nos idos de 1940, que "pela primeira vez se desliga da rigidez da arquitetura moderna européia". A Igreja de S. Francisco, carinhosamente chamada de igrejinha da Pampulha tornou-se um ícone da ousadia e evoca as montanhas de Minas pelas suas linhas curvas, absolutamente originais. Há, ainda, o Cassino (Museu de Arte da Pampulha), a Casa do Baile e o Iate Clube.

Ainda solteiro, acabei morando no Edifício JK, ou seja, dentro de uma obra do Niemeyer:
Quando universitário, morei por quatro anos num apartamento criado pelo Oscar Niemeyer! Uma caixa de vidro e cimento, com janelões voltados para o norte, inundada de sol durante o inverno e de luminosidade ofuscante o ano inteiro. Os corredores imensos, totalmente dependentes de iluminação artificial, são desafio para os claustrofóbicos. Trata-se do enorme Conjunto JK, uma "cidade" com 5.000 habitantes! Habitei o nono andar do bloco mais baixo (24 andares). O espigão tem 36. [Oscar Niemeyer e eu]

Mais tarde, Amélia e eu escolhemos a igrejinha para nosso casamento, abençoados pelo São Francisco criado por Portinari, abrigados pela abóboda de cimento protendido, quase impossível à época da construção.

Agora, sinto o maior orgulho em compartilhar fotos minhas com quem quiser folhear e aprender no belíssimo Oscar Niemeyer: o espetáculo arquitetural. Trata-se de uma publicação do Núcleo de Ação Educativa do Museu Oscar Niemeyer de Curitiba. Uma "cartilha" em dois volumes, quase duzentas páginas, cheia de fotos e textos muito bem elaborados.

Pois não é que os produtores do livro me solicitaram autorização para reproduzir 5 fotos da Igreja da Pampulha de autoria do papai aqui? Muito chique, ou chique demaisss, como dizem os mineiros. É claro que autorizei e, hoje, recebi os volumes como pagamento simbólico.
Agora, fico a pensar: continuo psiquiatra ou assumo de vez que Oscar Niemeyer e eu fazemos uma boa dupla? Ele projetou, eu fotografo...
Foi 'aqui' que descobriram minhas fotos...

15 março, 2008

A Arte da Convivência

Para que você entenda o comportamento dele e não o transforme em um neurótico é importante que, antes de puni-lo, conheça algumas atitudes que fazem parte do seu instinto.

Uma delas é a forma como ele se comunica com os outros, o que acontece através do cheiro e das mudanças das expressões facial e corporal.

Num primeiro contato, é comum que ele cheire o bumbum do outro. É esse cheirinho que os identifica e determina se o relacionamento será amigável. Geralmente, isso ocorre entre aqueles que ainda não chegaram na puberdade.

Se por alguma razão o cheiro não agradar, um tenta ameaçar o outro. E se um dos dois se sentir dominado, abaixa a cabeça ou vira de costas e expõe a genitália.

Isso demonstra que não se quer brigar. Quando um concorda com a rendição do outro, o relacionamento pode ser amigável.

Fique ligado nessas reações. A sua interferência, nesse momento, não é aconselhável e pode precipitar uma briga.
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Por que será que os humanos não aprendem com os cães?
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13 março, 2008

Divertissement

[Não sei quem fez. Recebi por email e repasso. Se o dono tiver copyright, deleto.]

01 março, 2008

Estômago


Outro dia mesmo estávamos em Tiradentes, onde curtimos uma semana de férias. Além dos habituais passeios e abusos gastronômicos, mergulhamos na 11a. Mostra de Cinema . As projeções começavam às quatro da tarde, tudo gratuito. A cidade se mobiliza em função do festival, proporcionando a convivência entre os nativos, turistas, artistas e técnicos, que se cruzam nas ruas, pousadas, restaurantes e nos cinemas. Há projeções especiais para crianças, debates e oficinas para aficcionados, festas, etc.

Tiradentes entrou no circuito turístico-cultural não só pela impressionante conservação de seu casario, igrejas e ruelas coloniais mas, principalmente, pelos dois eventos anuais de maior repercussão: em janeiro, a Mostra; em agosto, o Festival Internacional de Cultura e Gastronomia.

Por falar em gastronomia...

A Mostra de Cinema encerrou-se com a projeção de Estômago, dirigido pelo curitibano Marcos Jorge. Comida, sexo e poder são os temas de fundo deste ótimo filme. O ator baiano João Miguel achou o tom certo para representar o protagonista da história, um migrante piauiense que busca uma cidade grande do sul do país para se arranjar na vida:

Grande parte dos créditos pelo sucesso do filme deve ir para o baiano João Miguel, um dos
maiores atores brasileiros do momento. Ele cria um personagem que, entre o ingênuo e o
esperto, ganha uma caracterização cativante, sem nunca cair nos clichês de representação do
nordestino simpático. Com o ator, o filme ganha uma leveza que contrasta com a dureza do
cenário e que faz o filme render
.
[Chico Fireman, www.G1.com.br]

O filme é muito bom e surpreende o espectador. A culinária perpassa toda a trama e é utilizada para subverter os outros dois polos: sexo e poder.
Ao final do filme, Amélia e Ana Letícia fizeram questão de serem abraçadas pelos atores João Miguel e Babu Santana:

11a. Mostra de Cinema de Tiradentes-MG. Babu, Amélia, João Miguel, Ana Letícia e Cláudio.