27 fevereiro, 2008

Coisas de Beagá

O fusquinha estacionou em frente ao meu local de trabalho, ontem pela manhã. O dia amanhecera chuvoso, mas o carro estava limpinho, denotando os cuidados dispensados pelo dono. Nunca o vira anteriormente e chamou-me a atenção pela pintura e pelo ano de fabricação. Os passantes dedicavam um minuto de sua pressa para admirar o modelito muito simpático. Lembrou-me a instalação artística com os fuscas do Centro de Arte Contemporânea de Inhotim.


Já a foto abaixo vai rodar meio mundo, não pela ameaça em si, mas pelo inusitado da mídia escolhida: uma faixa defronte à loja do tal Ricardo. Ou seria do Ricardão? O EM de hoje a publicou na coluna de notas sobre a jeunesse dorée belorizontina. Já circula como spam em e-mails. Autoria da foto: MTCorreia/EM. Pág. 3, caderno Cultura, Jornal Estado de Minas. 27.2.08


A pergunta é: o que você faria se fosse o noivo?

12 fevereiro, 2008

Peculiaridades: meia dúzia

Meu filho Ângelo acaba de se formar em Medicina Veterinária pela UFMG. Talvez isso seja minha maior aproximação com qualquer espécie de rebanho, seja vacum, seja caprino, seja taurino ou ovino. Também nada tenho a ver com vara de porcos e a manada de veados.
Portanto, não possuo pecus (do latim = gado), não sou pecuarista, nem aqui nem em Santa Rosa do Alto, município desconhecido lá pras ribas de Rio Abaixo.
Pecus (gado) vale muita pecunia (dinheiro). Se é o que me falta, deduz-se que minhas posses pecuniárias são parcas, quase porcas.
É habito de políticos e administradores públicos amealhar pecunia de forma irregular, ilegal, sub-reptícia e até descaradamente desonesta. Conjugam bem o verbo peculiari, principalmente na primeira pessoa do singular (peculior) e são adeptos ao peculato (ato de roubar dinheiro público) e formam, assim, seu peculio (bens particulares, posses, haveres, dinheiro para a velhice e para velhacarias, pois sim!). O dinheiro (pecunia) público, surrupiado (sub-reptum = tirado às escondidas), torna-se peculiar (usado como próprio).
Chegamos, então ao vocábulo em questão: peculiar, que significa inerente, próprio, respectivo. Por extensão, veio a significar o que é predicado de algo ou de alguém, sua peculiaridade.
Dido isso, e esclarecidas quaisquer dúvidas, descubro que não tenho, mesmo, nenhuma peculiaridade. Nada, nadeca, nadinha de peculato, muito menos de pecunia.
De qualquer forma, a Elza pediu, repassando-me um meme, no qual devo descrever meia dúzia de peculiariadades, algo que me seja próprio e me diferencie dos demais. - Ora, direis, tu és Cláudio, nada mais.
Sendo assim, revelo-me:
1a. Não gosto de memes.
2a. Gosto de aprender.
3a. Duvido muito, mas faço.
4a. Quase sempre conto até 10.
5a. Música & fotografia.
6a. Goiabada cascão com queijo canastra.

02 fevereiro, 2008

Olha o trem!

Filmei, em Tiradentes-MG, a chegada da Maria-Fumaça à estação, vindo de S. João del Rei.
É acontecimento que mobiliza turistas e mesmo alguns moradores, principalmente crianças.
A locomotiva apita lá longe, não a vemos mas o coração já dispara.
Depois apita longamente quando se aproxima da curva da estação.
Aí, é um alvoroço só: Ele já vem, olha o trem!
Então, aquela 'coisa' aparece gritando e bufando, soltando fumaça e vapor pelas ventas, um estrupício barulhento, resfolegando com suas mil engrenagens de ferro, tac-tatac-tatac-tac.
Das janelas dos vagões vêem-se mãozinhas acenando: Ciao, gente!
Olhares ansiosos procuram alguém conhecido ou vasculham a paisagem em busca da tão afamada Tiradentes.
Minha memória afetiva impulsiona minhas pernas a correr atrás do comboio, que lentamente pára na estação.
Um último suspiro e a Maria-Fumaça descança.


Este filminho vai pro Ismael Hipólito, meu sobrinho de Marataízes-ES, que adora tudo que tem a ver com ferrovias.

28 janeiro, 2008

Trem bão

Eu ia fazer um post sobre nosso (Amélia, Ana, o carioca Alex e eu) passeio de Maria-Fumaça: Tiradentes-São João d'el Rei-Tiradentes.
Mas a descrição poético-onírica da Ana já disse tudo.
Corram lá.

25 janeiro, 2008

Visitar Tiradentes-MG, nas férias de janeiro, virou um hábito.
No final deste mês acontece a 11a. Mostra de Cinema, durante a qual são exibidos mais de 120 filmes, entre longas e curtas, além de vídeos e oficinas de arte.
A cidade barroca se torna destino de centenas ou milhares de pessoas, que acorrem do Brasil inteiro. Não chega a ser uma invasão de bárbaros (esta acontece no Carnaval e na Semana Santa), o que torna a estadia uma oportunidade de viver cultura, enquanto nossos olhos passeiam pelos telhados e paisagens coloniais, palmilhamos vielas tortuosas, num ambiente que nos transporta ao século XVIII.

É impossível deixar de imaginar os habitantes daquela época, senhores e escravos, senhoras e senhorinhas, garimpeiros, tropeiros, religiosos, beatas, fiscais da Coroa Portuguesa, conspiradores. Cada rua, agora iluminada pela energia elétrica, outrora escondia desvãos obscuros, becos surpreendentes, janelas indiscretas e dissimuladas pelas cortinas e venezianas.Telhados coloniais e a Serra de São José, vistos da varanda de nosso apartamento.
Foto by Cláudio Costa

Amélia e eu já estamos aqui desde quarta-feira, impregnados de história, assistindo a tudo quanto é filme (a programação é totalmente gratuita).

Os filmes são exibidos na Tenda, um imenso auditório de lona, com ar condicionado, 700 lugares assentados, tela e som de primeiríssima qualidade ou na Praça (Largo das Forras), também com cadeiras confortáveis e todo aparato tecnológico. A iluminação do entorno é desligada e ao povo da cidade se juntam os turistas e os participantes da mostra (diretores, técnicos, atores, estudantes de cinema e cinéfilos em geral). O local se torna um verdadeiro cinema à la belle étoile, como dizem os franceses. O silêncio durante as exibições é sagrado. Ao final, cada um vota de acordo com o próprio gosto. Os votos serão computados para a premiação na Final da Mostra, que será amanhã, às 22h. Ou seja, o juri é totalmente popular.
Rua Direita, famosa pela vida noturna, restaurantes sofisticados e bem decorados.
Foto by Cláudio Costa.

Daqui a pouco, nossa filhota Ana Letícia vai chegar. Teremos sua companhia para curtir os últimos momentos de mais um passeio pelas Minas Gerais.
Se a alguns pode parecer puro bairrismo, saibam todos que as belezas e encantos da cidade conquistam a todos. É impressionante a quantidade de paulistas, cariocas, gente do nordeste e do sul, sem falar nos gringos, que se admiram a preservação histórica e o riquíssimo artesanato local.


Ano que vem nos encontraremos aqui.

22 janeiro, 2008

Cor - Sabor - Textura: Iguaria

Um bolo de cenouras é trivial, simples, fácil de se fazer, gostoso, nutritivo e pode ser encontrado em confeitarias e padarias. A cobertura de chocolate dá-lhe aspecto especial e um sabor que combina muito bem.



Mas...



Mas Amélia não é deste mundo e conseguiu transformá-lo em iguaria quase divina.



À massa de cenoura ralada, ovos, óleo de canola, açucar, farinha de trigo, fermento-em-pó e uma pitada de sal, Amélia acrescentou nozes, castanhas, damascos, ameixas pretas, uvas-passas brancas e pretas, além de frutas cristalizadas.

A cobertura foi feita com chocolate amargo (cacau em pó) e leite desnatado com uma pitada de açucar. Depois, enfeitou, num exercício quase barroco. Cores, sabores, texturas, aromas: um amálgama que encantou nossos olhos, despertou as papilas gustativas, ativou memórias afetivas e nos transportou ao êxtase:


[Se você não teme ser tachado de maluco, aspire o aroma que exala da tela de seu monitor e dê uma mordida. Pode servir-se de mais um pedaço, não se acanhe. Afinal, internet não é 'vida virtual'? Não há aqueles que se contentam até mesmo com namoros e sexo on line?]


Desminta-me, se for capaz.


Mais fotos, AQUI.


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Lembrete: Chapéu Panamá, a nova guarda do samba, banda em que tocam nossos filhotes Ângelo e Leo, vai aparecer na TV. Domingo 27-01, 15,30h, TV MINAS/CULTURA, programa Feira Moderna (Show completo!):

Clique na imagem para conhecer a banda.

20 janeiro, 2008

Uma tarde em Ouro Preto



Casario colonial em Ouro Preto-MG. (foto by clcosta)

Visitar Ouro Preto-MG é experiência singular e provoca emoções estéticas que motivam poetas, escritores, pintores, compositores e artistas de todo gênero. Embora não me enquadre em nenhuma dessas categorias, experimento igualmente emoções várias, à medida que subo e desço ladeiras, em meio ao casario colonial.
Desta feita, Amélia e eu, mais o filhote Ângelo, passamos uma tarde na antiga Vila Rica. Foi num impulso a decisão. Eram 11h da manhã de quarta-feira e pensávamos o que fazer para o almoço. Amélia sugeriu: Vamos almoçar em Ouro Preto? Não pensei duas vezes:
Vamos!

O Ângelo, que acabara de acordar, aceitou o convite e, num minuto, subíamos a Av. Raja Gabaglia em direção à BR-40, BH-Rio. Pouco mais e já estávamos no trevo de Alphaville. Daí a Ouro Preto a rodovia serpenteia por encaracoladas serras, como diria um antigo professor de literatura.

O caminho é parte da Estrada Real e bordeja lugares históricos que moldaram o espírito dos habitantes da Província das Minas Geraes: Itabirito, Cachoeira do Campo, Santo Antônio do Leite, Glaura... é uma viagem pela Inconfidência Mineira, pelas trilhas dos bandeirantes, pelas minas de ouro e minério de ferro que fizeram e ainda fazem a riqueza de poucos.

Decidimos almoçar mais tarde e fizemos um lanche revigorante: empadas de peito de frango com queijo catupiry e com palmito, além do tradicional pão-de-queijo.

Logo surge a entrada para Santo Antônio do Leite, lugarejo simpático, bem ali, pertinho. Dobramos à direita, não custava nada. Visitamos o Capricho Asturiano, famosa pousada do espanhol Manuel Noriega, com quem conversamos rapidamente. Somos atraídos por uma igrejinha recém-pintada, cartão-postal típico do interior, a capela de São José, em Gouveia:

Capela de São José, em Gouveia, próximo a Ouro Preto-MG (foto: clcosta)

Já em Ouro Preto, estacionamos próximo à igreja do Carmo. Visitamos, então, o Museu do Oratório, no qual se explicita a religiosidade doméstica e peregrina dos séculos XVII e XVIII. O acervo foi coletado e doado pela família Gutierrez, proprietária da famosa construtora Andrade-Gutierrez e idealizado pela filha do patriarca, Ângela Gutierrez.

A igreja do Carmo, imponente sobre a pequena elevação que tem o Museu da Inconfidência voltado para a Praça Tiradentes, é impressionante pela arquitetura barroca, com elementos estrangeiros pouco comuns: pedras italianas, azulejos portugueses e afrescos franceses. Não há aquela típica profusão de dourados, mais comuns ao estilo rococó, o que propicia ambiente místico e contemplativo:

Igreja de Nossa Senhora do Carmo, em Ouro Preto-MG (foto: clcosta)

A natureza se impôs e buscamos o Relicário 1800, restaurante tradicional, que funciona há 38 anos sob a batuta da família de D. Firmina, dublê de marchand e chef. Ocupa, literalmente, as instalações de antiga senzala, cujas paredes de pedra-à-vista são recobertas de obras de arte, pinturas, esculturas e artesanato:

Escada de acesso ao Restaurante Relicário 1800, em Ouro Preto-MG. (Foto by clcosta)

O cardápio é variado mas qual mineiro recusa um frango-com-quiabo-e-angu? A entrada, mineiríssima: mandioca frita e linguiça de lombo.

No restaurante, deparei-me com uma belíssima obra do José Assunção, que morou e trabalhou em minha terra, Nova Era-MG. Conheci-o pessoalmente: era barbeiro (cabelereiro), até que sofreu um acidente e mudou-se para Itabira-MG. Faleceu há mais ou menos 5 anos e ficou famoso como uma das expressões da pintura primitiva, ou naïve (naïf):

Pintura de José Assunção, meu conhecido de Nova Era-MG (foto by clcosta)

O sol ainda derramava seu calor e sua luminosidade sobre a terra, convidando-nos a permanecer na Vila Rica colonial. Descemos a Rua Direita, dobramos a primeira esquina e caminhamos até a Igreja de Nossa Senhora do Rosário: Igreja de Nossa Senhora do Rosário, em Ouro Preto-MG (foto by Ângelo)

Ao crepúsculo, em foto do Ângelo, Amélia e eu nos despedimos desta viagem ao passado histórico das Minas Geraes. Algumas horas, apenas, em Ouro Preto e voltamos revigorados à metrópole.

____________Clique nas fotos e entre no álbum.

06 janeiro, 2008

Churrasqueiro de primeira viagem

Dia desses, em companhia da Amélia e da AnaLetícia, caminhava pela orla da Lagoa da Pampulha quando fomos atraídos pela exposição de uma dezena de minichurrasqueiras. Estavam enfileiradas na calçada mesmo. Ao lado, um sujeito com cara de bon vivant descansava numa cadeira de praia (ou de "beira de lagoa", já que Minas não tem mar). Outros caminhantes seguiam em frente, acompanhados pelo homem com um olhar de soslaio, bem despistado. Era o vendedor que, depois, se nos apresentou como o próprio fabricante.

Amélia e Ana se cutucaram (coisa de mineiro), adivinhando meu interesse denunciado pela diminuição do ritmo da caminhada. A troca de olhares entre elas era mais eloquente que o diálogo que imaginei:
- Olha o pai querendo comprar a churrasqueira!
- Ele sempre quis, mas nem sabe fazer churrasco!
- Nem gosta tanto, né?
- Aposto que ele vai lá ver de perto.

Num instante, atravessei a Av. Otacílio Negrão de Lima -aprazíveis 18km que circundam a lagoa- e já perguntava ao tal homem como era aquilo, como funcionava, quanto gastava de carvão, se podia colocar na varanda do apartamento, o material com que era fabricado, etc.
O sujeito se empolgou, explicou tudim, tim-tim por tim-tim, não perdeu a paciência e garantiu a qualidade do produto com um argumento sólido:

- Sou eu mesmo que fabrico. É chapa de aço de 1mm, não dá fumaça, não enferruja, o calor dura até 12h sem precisar trocar o carvão, a pintura é resistente ao calor, pode levar que o senhor vai ficar satisfeito. Só aqui na região da Pampulha já vendi mais de duzentas. Leva lá pra sua mulher ver.
Carreguei a menorzinha.
Repeti o discurso do vendedor-fabricante, enquanto as duas faziam mil perguntas. Ana se empolgou primeiro. Amélia foi cedendo e terminou me incentivando a comprar:
- A gente pode por na varanda. Pra pouca gente vai ser a conta e não precisaremos ir para a churrasqueira grande do prédio.

Após regatear, tornei-me o mais novo proprietário de uma minichurrasqueira, sonhando com uma costelinha no abafo e coisas que tais.
A estréia foi imediata. Tão logo chegamos em casa, entronizamos o aparelho numa posição estratégica e começou a odisséia: afinal, como é mesmo que se acende o carvão da churrasqueira?

Os experts em churrascologia em geral e os gaúchos em particular podem rir e debochar, mas só Deus sabe como apanhei até obter o ponto certo de assar a carne e ter certeza de que, finalmente, comeríamos churrasco.


Daí pra frente, só alegria: o churrasco teve acompanhamento de umas geladíssimas Terezópolis e nacos de ciabata. Foi nosso almoço de domingo.



Amélia se lembrou de que tínhamos algumas bananas "caboclas", dadas pela tia Nhanhá, lá de Santa Maria de Itabira. Foram assadas ali mesmo, na churrasqueirinha e num minuto tínhamos a mais maravilhosa das sobremesas: banana assada com açucar, canela e sorvete!
Virou festa:
Agora que aprendi, posso convidar:
- Aceita?
__________

28 dezembro, 2007

Maria Cleonice

Maria Cleonice - é assim que gosta de ser chamada, pois "os nomes duplos inspiram nobreza"- acordou bem disposta.
Bonita, suave, de olhos azuis, ajeitou o cabelo, caprichou na maquiagem, borrifou um pouco de Poison nas curvas de seu pescoço e no colo bem feito. Os 41 anos não lhe cobram quase nada.
Feliz? Pode-se dizer que sim, embora o ex-noivo, Antônio, ainda a faça suspirar, com recordações que lhe avivam a libido. De verdade, nunca se afastaram; embora casado com Vanessa, o moço é seu colega de escritório. Além disso, mantêm explícita amizade e, para espanto de uns e admiração de outros, Maria Cleonice é íntima do casal - coisa dos tempos modernos.
Às nove da manhã, suavemente envolta pela fragância venenosa do perfume, ela está diante do ex-noivo que, mais uma vez, solicita-lhe visita a um cliente, na vizinha cidade de Santa Luzia:
- Não sei se é possível, Tonico, meu carro está na oficina.
- Pois lhe empresto o meu, vá no Corsa.
...
Lá pelas onze, Antônio explica isso à Vanessa que, no trajeto para casa, tomada por um ciúme medrado insidiosamente nos últimos tempos, demonstra-lhe desagrado:
- Benzinho, essa mulherzinha já tá abusando, você não acha? Tá sempre arrumando desculpa para ficar perto de você e, agora, nosso carro está com ela! Estou me segurando, não é de hoje!
Antônio evitava qualquer discussão. Contemporizou:
- Ah! meu amor... tá bom, tá bom, não vou dar mais colher de chá, você sabe que te amo!
A tempestade quase fora adiada se não tocasse o celular. Era Maria Cleonice:
- Oi, meu Tonico, passo na sua casa, devolvo o carro e almoço com vocês.
Indeciso entre não desagradar à mulher e à ex-noiva, passa o telefone à Vanessa:
- Você decide.
- Olhaqui, sua noivinha frustrada, fique no seu lugar, vê se desconfia e dá um tempo!
...
Às 16,32, o porteiro do prédio de Antônio e Vanessa abre o portão para o Corsa do 504.
Bonita, suave, de olhos azuis, Maria Cleonice ajeita o cabelo:
- O carro já está na vaga, Feliz Natal!
...
A fumaça toma conta do ambiente. Espessa e negra, provém da garagem. Os bombeiros são chamados.
Maria Cleonice comemorara o Natal incendiando o "corsinha do Tonico".
Na delegacia, explica:
- O fogo se alastrou, não foi minha culpa. Não queria queimar os outros cinco carros, lamentou.
Bonita, suave, de olhos azuis...
________
Publicado pela vez primeira em dez.2004.

24 dezembro, 2007

Natal são muitos

Cada pessoa experimenta um sentimento particular por ocasião do Natal: se dermos ouvidos ao que nos ensina a psicologia do desenvolvimento, as vivências da primeira infância, os vínculos primários e mais um caldo de imagens armazenadas no inconsciente configuram a matriz que sustentará o sujeito pelo resto da vida. Há controvérsias, bem sei, mas não se pode ignorar o conteúdo imagético e afetivo que se evoca em certas ocasiões, como no Natal, por exemplo.

Há os que se sentem plenamente imbuídos da idéia do sagrado e valorizam os rituais religiosos com a celebração alegre do nascimento do 'menino-deus': preparam-se no tempo do advento e comemoram a epifania como o acontecimento mais importante para o gênero humano. Trata-se de uma experiência mítica e místico-religiosa, que os afeta em sua singularidade e os faze se sentir partícipes de um projeto de salvação universal. Ser religioso importa num conjunto de crenças e, para alguns, uma fé convicta sustenta sua posição perante o mundo. Se, de um lado, a fé e o pertencimento ao grupo garantem a segurança do "um" pela identificação ao "outro", contudo não é suficiente: de que vale a fé sem as obras? O esgarçamento dessa dimensão ao longo dos séculos e sua incorporação pela cultura judaico-cristã-ocidental mitigaram as exigências éticas e reduziram a rituais o comprometimento exigido nos primórdios.

Inda mais, o avanço do capitalismo e seu mais perverso corolário, "não existem pessoas, o que existe é O Consumidor", descambaram na transformação das festividades natalinas em orgia consumista, cujos templos são os palácios dos shoppings ou as tendas abarrotadas de ofertas. A cada ano, o onipresente departamento de marketing inventa o 'produto dos sonhos' e nosso desejo é capturado pela promessa de felicidade infinita, aqui e agora. Basta comprar o celular G4, a tv de plasma, o laptop de mil recursos, o automóvel definitivo.

Não se pode negar que existam ainda muitas e muitas pessoas dotadas daquele 'sentimento oceânico' do qual se ocupou Freud: trata-se do anseio por um pertencimento ao mundo, desejo esse em que o medo da perda de amor se situa na dianteira do sentimento de autopreservação e segurança a partir da identificação com o universo em que o indíviduo vive. Para Romain Rolland, o pensador francês que criou este termo, o sentimento oceânico seria o fundamento do sentimento religioso. Creio que o perído natalino desperta uma certo olhar compassivo para o semelhante, servindo de alívio para a culpa que alguns carregam pela indiferença à fome, à miséria, à exclusão. Distribuem-se presentes, fazem-se campanhas de solidariedade, distribuem-se migalhas aqui e ali. O mundo parece mais cor-de-rosa, ainda há esperança quanto ao futuro da humanidade, o ser humano pode até ser bom. Mas a vida continua, cada qual mergulha na azáfama cotidiana em busca de acumular bens, riquezas e segurança, enquanto os excluídos aguardam o próximo Natal, que será usufruído apenas pelos sobreviventes. E la nave va.

Deparamo-nos com muitos que dizem detestar o Natal. Se uns criticam o consumismo, outros reclamam do trânsito, muitos se sentem angustiados com os gastos para presentear por pura obrigação. Mas há os que se sentem tristes, verdadeiramente deprimidos: o Natal é a pior época do ano, confessam. Às vezes dizem: 'não sei o porquê disso'. Bastam alguns minutos de atenção e nossos ouvidos se enchem de lembranças amargas, ressentimentos nunca resolvidos, culpa, raiva, solidão. Podem acusar a sociedade de ser hipócrita e não há como tirar-lhes a razão. Mas não se trata de ter razão, pelo menos na clínica.

É tempo de reencontros, reaproximações, visitas à família distante, encontro com vizinhos, abraços na repartição, festinhas de amigo-oculto (sempre chatas e burocráticas!)...

Como enfrentar tantas contradições? Mergulhar de cabeça nas compras? Comer, comer e comer? Isolar-se de tudo e de todos? Rezar e orar? Cada um encontrará seu jeito próprio, pois as receitas em oferta pela mídia nem sempre são fáceis de seguir.

Quanto a nós, vivenciamos um pouco de tudo isso. Reencontramos os amigos, desejamo-lhes sinceramente um Feliz Natal (cada qual sabe como é ser feliz - não?), decoramos a casa, repartimos uns poucos presentes. Evitamos o consumismo e o desperdício. E o aniversariante do dia, aquele que deu origem a tudo isso, este tem um lugar simbólico na simplicidade de um presépio artesanal. Amélia, Ângelo e Renatinha representaram na estante uma pequena vila do interior. Os caminhos são tortuosos, como a vida. Mas as cores são vivas e, um pouco afastado, lá está ele, o Menino:

Presépio feito por Amélia, Ângelo e Renatinha,

com casinhas-de-barro (artesã: Jovita, do vale do Jequitinhonha-MG) Foto by Cláudio Costa.

22 dezembro, 2007

E F E M É R I D E S

Bolo de chocolate e cerejas, com creme ganache: Arte da Amélia. Foto by Cláudio

1. Ontem foi o aniversário da Ana, filhota. A proximidade com o Natal torna o mês de dezembro mais cheio de festividades. Ana não deixou por menos: festa no trabalho, festa-show na Utópica Marcenaria, com direito a show da Banda Copo Lagoinha e presença de amigos e amigas e, last but least, um almoço aqui em casa, preparado pela Amélia, claro! Vieram: tio Clóvis & Consola, tia Zilah, tia-madrinha Rosa, prima Adélia, amigas Gil, Renata e Manuela, o mano Ângelo & sua Renatinha. Ou seja, o apê se encheu de gente e de alegria. Filhota, parabéns!

2. Outro dia foi a inauguração da "árvore-de-natal-da-Lagoa-da-Pampulha". Parece que já está virando tradição. Começou no Rio -Lagoa Rodrigo de Freitas-; São Paulo construiu a sua no Ibirapuera e, agora, Beagá entra no esquema. Há patrocínio comercial, claro, mas não deixa de ser mais um motivo para a gente circular pelos lados da Igrejinha da Pampulha. Pelas
fotos que vi, parece que a "deles" está mais bonita, mesmo! A vantagem é que essas imensas estruturas são flutuantes e temporárias. A Ana aproveitou uma foto minha e colocou como banner no Mineiras, Uai!. Ficou bonito.

Árvore de Natal na Lagoa da Pampulha-BH. Fotos & composição by Cláudio Costa. Ver mais.

16 dezembro, 2007

O Rio de Janeiro continua lindo, amigão!


1. Mais um pulinho ali: estive, ontem no Rio. Tempo bom - sol sem muito calor, mas nada de folgar: fui de manhã e voltei à noite, já que tudo se resumiu em trabalho.

O que vi do Rio?

1. Aeroporto horroroso, o tal do Tom Jobim. Saindo de lá, em direção à zona sul, você pega a 'linha amarela' (cercada da favelas) ou a 'linha vermelha' e cai na Av. Brasil, cujo trânsito é qualquer coisa de louco. Pro centro - minha reunião foi na Presidente Wilson - o caminho passa pelos armazens decadentes e sujíssimos do porto, numa avenida, a Rodrigues Alves, que avança debaixo de uma via suspensa. Tudo muito feio e, por suposto, perigoso.


2. Aos poucos, o cenário do 'Rio Antigo" se mostra: Mosteiro de São Bento, Rua Santa Luzia, Academia Brasileira de Letras, Teatro Municipal, Candelária e o Bar Amarelinho, já na Cinelândia. Andei por esses caminhos há muito tempo e nunca me sairam da memória as ruas estreitas, igrejas coloniais e gente, muita gente.


3. E o Rio de Janeiro continua lindo. Literalmente abri uma cortina e vislumbrei o Aterro do Flamengo, Museu de Arte Moderna, Monumento aos Pracinhas, Marina da Glória, Outeiro de N. S. da Glória e, lá longe, o Pão de Açucar. Estava dentro de um cartão postal:



4. À tardinha, hora de voltar pro Galeão. Deram-me uma dica: vá ali pro Santos Dumont e tome o frescão, é só R$ 6,50. Como o tempo sobrava, aceitei a alternativa. Mas...



Mas em frente ao Santos Dumont (a parte nova) não vi ponto de ônibus. Perguntei ao segurança que me apontou o lugar correto, uns 200m além. Virei as costas quando escuto:


- Ô amigão!


Era o segurança, correndo em minha direção e já dizendo:


- Olha aqui, tem um amigão meu ali, mexe com frota de carro executivo, ele te leva.


- Mas não estou com pressa, amigão (nessa hora, é bom ter "amigões", não?).


Estacionado, vi o tal-que-mexe-com-frota-de-carro ao lado de um Honda prata, todo sorridente, um corpanzil que dava três de mim. Pensei: -Mais parece um leão-de-chácara, vigilante de boate.


Hesitei por meio segundo e perguntei o preço da corrida.


- O preço é 50 paus, mas faço por 25, amigão.


- Só tenho 15, não vai dar.


- Dá sim, amigão, vamo lá!


Com tanta prova de amizade, não resisti. O segurança me olhava todo sorridente e o amigão/motorista já abria a porta do banco traseiro. Delicadezas cariocas, presumo.


O motorista contou vantagens do seu novo Honda, dizendo que, agora, estava casado com aquele carro. Empolgadíssimo, explicou:


- Foi ontem, foi ontem mesmo que o emplaquei.


Elogiei ao máximo sua nova esposa, enquanto voltávamos pelo mesmo trajeto da manhã: "Pelo menos estamos indo em direção ao Tom Jobim", pensei.


5. Voei de volta pela Gol, tratado como marajá: 1 horinha só de atraso, poltrona apertadíssima e lanche requintado: um pacote de amendoim torrado e 1 copo dágua!


6. A aproximação do Aeroporto de Confins foi sob os últimos raios de sol:



7. Em casa, Amélia me pergunta:


- E aí, meu bem, como foi lá no Rio?


- Ótimo, arranjei um amigão!

09 dezembro, 2007

Oscar Niemeyer e eu

As comemorações do centenário de Oscar Niemeyer se fizeram ao longo deste ano. Mesmo quem não tem interesse especial em arquitetura se depara, cotidianamente, com referências às obras do aclamadíssimo arquiteto.

Foi Juscelino Kubitschek, prefeito da capital mineira na década de 40, quem abriu espaço para Niemeyer, entre nós: convocou-o para transformar a Lagoa da Pampulha em atração turística. Oscar projetou, então, o Iate Clube, o Cassino, a Casa do Baile e a Capela de São Francisco de Assis. Dez anos depois, já governador, JK faz outro mutirão de obras e, novamente, convoca o já consagrado arquiteto. Novas obras são construídas: o Colégio Estadual de Minas Gerais (1954), a Biblioteca Pública (só terminada mais tarde), o Edifício Niemeyer (1955), o Banco Mineiro da Produção, hoje Banco do Estado de Minas Gerais (Bemge), a Escola Técnica da Gameleira e o Conjunto JK. (Veja o vídeo desta reportagem (8min) da GloboMinas). Para ver fotos, plantas e descrição das obras em BH, clique aqui.

Niemeyer, entretanto, não é unanimidade. Alguns criticam a repetição de fórmulas ou mesmo o que chamam de hostilidade do ambiente de moradia e trabalho e, até mesmo, o uso que dele fazem alguns políticos: ao invés de promoverem concursos fazem a contratação direta do arquiteto e se blindam contra críticas.

Quando universitário, morei por quatro anos num apartamento criado pelo Oscar Niemeyer! Uma caixa de vidro e cimento, com janelões voltados para o norte, inundada de sol durante o inverno e de luminosidade ofuscante o ano inteiro. Os corredores imensos, totalmente dependentes de iluminação artificial, são desafio para os claustrofóbicos. Trata-se do enorme Conjunto JK, uma "cidade" com 5.000 habitantes! Habitei o nono andar do bloco mais baixo (24 andares). O espigão tem 36. A foto abaixo fala por si:



Apesar disso, gosto muito das 'invenções' de Niemeyer e me surpreendo cada vez que me deparo com suas obras. Em Curitiba, visitei o Museu Oscar Niemeyer de onde recebi, outro dia, um pedido inusitado: querem reproduzir algumas fotos minhas da Igrejinha da Pampulha. Viram-nas no meu álbum do Flickr, disseram que estão ótimas e ilustrarão uma revista especial sobre Niemeyer! Claro que autorizei e aguardo, ansioso, receber um exemplar.

Àqueles que visitarem nossa cidade, fica o convite: além do pão-de-queijo, do quiabo-com-angu e de muita prosa, conheçam também a BH de Niemeyer.

21 novembro, 2007

Pulinho ali

Estarei ausente de 5a. a sábado, agora, pois vou dar um pulinho ali em Maceió.
Nada de praia... trabalho, mesmo.
Darei um curso sobre transtornos psiquiáricos mais comuns na infância e adolescência e uma palestra: Da Pediatria à Saúde Mental. Sábado, à tarde, pulo de volta às Gerais.

17 novembro, 2007

Guias para uma viagem (ao) interior (*)



À entrada de uma caverna, deparo-me com três guias turísticos que me fazem propostas distintas:

O primeiro, com uniforme próprio e aparência de experiente e seguro, interroga-me sobre o motivo que me levou ali. Digo-lhe de meu desejo de conhecer a famosa gruta. Confesso-lhe meus receios, medo de entrar e ansiedade pelo que poderia encontrar lá dentro. Termino assim:
- Sr. Guia, o que tenho? Como fazer para resolver isso?
Após anotar tudo numa ficha, meu nome e dados pessoais, pergunta-me sobre minha família e, diz:
- O sr. tem uma espeleofilia associada a uma espeleofobia de origem idiopática. Siga minhas instruções e tudo será resolvido.

O segundo guia, cuja indumentária não o distinguia das demais pessoas, escuta minha demanda com solícita atenção e fala:
- Compreendo seu conflito. Entraremos juntos. Na medida em que você sentir alguma coisa, algum incômodo, alguma curiosidade, explicar-lhe-ei tudo. Fale à vontade, expresse quaisquer sentimentos e caminhe no seu ritmo: estarei sempre por perto. Aos poucos, se esclarecerá o medo e vai conseguir dominá-lo.


O terceiro guia escutou-me com atenção e solicitou-me que falasse um pouco mais. Explicasse melhor o que eu queria. Era minucioso! Quase nunca concluía ou opinava. Seu silêncio estimulava-me a continuar.
Finalmente, convidou-me a entrar na caverna escura e desconhecida para mim e fez uma proposta estranha e instigante:
- Nessa viagem (ao) interior, você deverá falar tudo que lhe vier à cabeça. Não esconda nada, por mais absurdos ou inconvenientes que pareçam seus pensamentos, idéias, os sentimentos e seus sonhos. Pode ser que surjam lembranças, experiências, personagens remotos de sua vida... Teremos, provavelmente, um passeio longo. É possível que você descubra coisas impensáveis, esquecidas e, mesmo, valiosas. Quem sabe o que, de verdade, você teme? Se isso acontecer - para isso estou aqui - então você poderá assumir todo seu desejo. Conhecendo-o, saberá para onde ir e o que buscar. Não será fácil. Vamos?

Certamente caricatural, essa analogia me ocorre, com freqüência, quando tento explicar o modus operandi do psiquiatra, do psicólogo e do psicanalista.
Diante do mesmo paciente, suas propostas de trabalho serão, com certeza, diferentes, pois seus métodos e técnicas se sustentam em teorias diversas. Ninguém poderá garantir os resultados, embora alguns profissionais se considerem deuses infalíveis, oniscientes e poderosos.

SE não encontrar o “guia” que lhe convém, o viajante deverá reformular sua demanda.

Um guia não poderá avaliar o outro a partir dos próprios princípios, uma vez que a coerência interna de uma teoria, aliada à prática, jamais alcançará isenção suficiente, ou a neutralidade epistemológica ideal.
Psiquiatria, Psicoterapia e Psicanálise são campos distintos. Às vezes se opõem e se contradizem, outras vezes se aproximam, chegam à interseção e podem interagir.

O que vai definir a escolha de um ou outro profissional e sua “arte” de trabalhar pode ser a demanda, a sorte, o azar, um anjo ou um diabo. Entretanto, é necessário que não nos enganemos, já que, na maioria das vezes, o cliente é aquele que diz:

- Dr., ajude-me a mudar sem que nada mude.

Psiquiatra, Psicólogos ou Psicanalista?

Psiquiatra é aquele profissional que cursou a Faculdade de Medicina e se especializou no tratamento de doenças mentais. Antes de tudo, um médico que deve fazer diagnósticos e pode prescrever medicamentos, remédios, fármacos.
O Psicólogo, por sua vez, cursa uma faculdade de Psicologia e, na clínica, especializa-se em alguma técnica psicoterápica. Trabalha com técnicas diversas, individualmente ou em grupo, mais ou menos diretivos. Alguns se encaminham para as organizações, empresas, dão consultoria, fazem seleção profissional, etc.

Tanto um quanto outro podem fazer formação psicanalítica, passando pelo processo de sua própria análise e, aí, tornando Psicanalistas.
Estes, embora tenham por fundamento a teoria freudiana do inconsciente (Sigmund Freud), podem desempenhar seu ofício de acordo com linhas teóricas consequentes aos seguidores do fundador: kleinianos (Melanie Klein), winnicottianos (Donald Winnicott), junguianos (Carl Gustav Jung), lacanianos (Jaques Lacan) - para citar os mais comuns. Explicam o adoecimento a partir de conflitos internos entre forças contraditórias dentro do próprio indivíduo, principalmente na repressão aos impulsos sexuais, etc.

Dentre os próprios Psiquiatras - todos médicos -, podemos encontrar:
a) os psiquiatras mais organicistas ou biológicos, que defendem a idéia de que o adoecimento psíquico é devido a alterações bioquímicas, problemas com os chamados neurotransmissores - substâncias que fazem a transmissão dos impulsos nervosos dentro do cérebro, tipo: dopamina, serotonina, noradrenalina, norepinefrina, ácido gamaaminobutírico. Consequentemente são mais adeptos da medicação e sempre tratam com remédios.
b) Outros, em geral, passaram por uma experiência analítica ou psicoterápica, e consideram o uso da palavra (talk therapy) como o recurso terapêutico fundamental, sem dispensar o uso dos fármacos, cada dia mais e mais eficazes. Dispõem-se, entretanto, a "escutar" o que o paciente tem a dizer (ou teme dizer).

Alguns pacientes referem-se a estes dois grupos com expressões do tipo:
a)psiquiatra médico – o que só receita remédio –
b)psiquiatra psicólogo – aquele que conversa!

É evidente que tal polaridade esconde duas armadilhas a serem evitadas:
“A primeira é o medicalismo, que responde ao pedido de ‘remédio’ com a solução química, tida como mais rápida e eficaz, como se não houvesse outro ‘remédio’ para o sofrimento.
A segunda é o psicologismo, que responde ao pedido de soluções para o ‘trauma’ , entendido como ameaça ou castigo psicológico por uma conduta errada, com a tarefa moral de corrigir o erro através de uma pedagogia supostamente esclarecida”. (Ana Cristina Figueiredo)
Qualquer simplificação pode ser prejudicial ao suposto paciente: negar-lhe a escuta em nome da causalidade puramente neurofisiológica ou negar-lhe a ajuda química, sob pretexto de que todo o adoecimento é 'psíquico' ou 'social' ou 'falta de vontade', etc.

Não cair nessas armadilhas foi o que, surpreendentemente, conseguiu um clínico, aluno meu em um dos cursos que ministrei para profissionais da rede pública em Belo Horizonte:
Relatou o acontecido num Posto de Saúde, quando, diante da falta do cardiologista, uma senhora muito nervosa, esbravejante, ameaçava chamar a TV para testemunhar a “desorganização” do serviço.

Nosso clínico se prontificou a atendê-la.
Pediu a receita anterior do cardiologista, para fazer a prescrição. A senhora imediatamente saca da bolsa um papel dobrado, entrega-o ao médico, que constata, surpreso, tratar-se de uma Certidão de Casamento! A mulher, logo, percebe o engano (ato falho?) e quer retomar o papel:
– Doutor, eu me enganei.
O médico, de pronto, retruca:
- Estou vendo que seu problema é, realmente, de coisas do coração.

Foi o que bastou para a paciente, surpresa, assentir com a cabeça. De imediato principia a narrar suas atribulações conjugais. Ao final, ela própria pede para ser encaminhada ao serviço de Psicologia. E, é claro, prescreveu-lhe o antihipertensivo, pois a hipertensão era real.

Moral da história: cada turista tem o guia que merece.

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(*)Republicado.

04 novembro, 2007

Convicção

O fato é verdadeiro, assegura-me a fonte. Conto o milagre, mas não dou o nome do santo:
Na quarta à noite (31.out), um avião da TAM decolou de Curitiba, lá pelas 23 horas, com destino a Porto Alegre. Logo que saiu do chão, começaram os problemas: o piloto não conseguiu recolher o trem de pouso e decidiu voltar para consertar as tais rodinhas.
- Vamos pousar novamente, avisou o comandante. Antes, porém, voaremos em círculos para gastar todo o combustível, por precaução. Mantenham-se calmos. Espero que não haja problemas.
Os passageiros não contiveram sua apreensão, que logo se transformou em ansiedade e chegou à beira do pânico. Uns reagiram com choro; outros, com terror e um grupo, que parecia ser de uma mesma Empresa, resolveu fazer uma reza coletiva.
Oravam em voz alta. O tempo passava, nada de o avião descer. Lá fora, tudo escuro, nem mesmo as luzes da cidade eram avistadas.
O burburinho aumentava e alguém gritou:
- Calma aí, gente! Vamos fazer uma reza coletiva. Todo o mundo de mãos dadas, que é pra fazer uma corrente de energia positiva! Se a fé remove montanhas, porque não pode segurar um avião no céu?
Tudo ia bem, até que um passageiro recusou-se a dar a mão. Pressionaram o homem:
- Dá a mão, ô ateu, senão quebra a corrente! Você está querendo que aconteça um acidente? Olha lá que Deus castiga!
E o cara firme:
- Não dou, não dou e não dou!
Esqueceram a reza e ficou todo mundo revoltado com o sujeito-que-não-dava-a-mão. Insistiram, insistiram tanto que ele falou:
- Não é porque vamos morrer que vou começar com veadagem.
Gargalhadas explodiram. Esqueceram a reza e as mãos.
Mais alguns minutos, a "aeronave" aterrisou, foi substituida e a viagem recomeçou.
Graças a Deus!

02 novembro, 2007

Samba, suor e cerveja (não nesta ordem)

Item 1. Suor: nem eu tô acreditando, mas entrei pr'uma academia. Não vou dar o endereço, pois não faço propaganda de graça. Se o mulheril descobrir, vai lotar. Ou melhor: vai bombar. Quanto a mim, só quero suar e gastar as calorias ingeridas na véspera. Coisa bem prática, não? Mas o calor desta Primavera, requer cuidados: não à desidratação. A solução está no ítem 2.


Item 2. Cerveja: a loura gelada que desce redondo não é mais vilã, garante o Daily Mail, traduzido pelo site da BBCBrasil e copiado por todos os jornais e blogs (originalidade pouca é bobagem!).


Resumo da ópera:
Na pesquisa liderada pelo professor Manuel Garzon, 25 estudantes correram em uma esteira, sob temperatura de 40º C, até ficar exaustos.
Em seguida, os pesquisadores mediam seus níveis de hidratação, habilidade de concentração e coordenação motora.
Metade deles recebia dois copos de cerveja, enquanto o resto recebia água. Depois disso, todos podiam beber quanta água quisessem.
Segundo o Daily Mail, os estudantes que beberam cerveja demonstraram níveis de hidratação "um pouco melhores" do que os que beberam apenas água.
Garzon acredita que o dióxido de carbono na cerveja ajuda a matar a sede mais rápido, enquanto os carboidratos da bebida substituem as calorias perdidas durante o exercício físico.


Pois eu já me previno: vou tomar cerveja todo domingo, terça e quinta, pois nas segundas, quartas e sextas tenho academia. É claro que nos dias de malhação igualmente vou repor os eletrólitos. Sábado e domingo, por via das dúvidas, mais um pouquinho, pois o calor tá demais. A barriga pode não diminuir, mas de desidratação não morro tão cedo.


Item 3: Samba: Amanhã, dia 3/11, o grupo Chapéu Panamá, a banda dos filhotes Ângelo & Leo, vai gravar um CD ao vivo! A família já tá se aprontando pro show, que será gravado pela Rede Minas: programa Palco Brasil/Feira Moderna.
Hoje, o jornal Primeira Página, entrevistou 4 dos 10 integrantes do Chapéu Panamá. Tente ver o vídeo aqui ou aqui.

31 outubro, 2007

A Town Where All the World Is a Bar

Os belorizontinos têm orgulho de descrever sua cidade como a "capital brasileira do bar" - the bar capital of Brazil, no dizer da reportagem do caderno Travel, do New York Times:

O artigo de SETH KUGEL provocou reações ambivalentes em muitos de nós, pois fala com todas as letras que Beagá é quase completamente desconhecida fora do Brasil, apesar de ser uma metrópole. Assim explica a desimportância da capital de Minas:

Its international anonymity was born of no coastline and thus no beaches, no famous Carnival and thus no February madness, and no big attractions save a few buildings designed by Oscar Niemeyer that pale next to his famous works in Brasília.

A gente não tem praia, não tem Carnaval e nem grandes atrações, a não ser uns poucos edifícios projetados por Niemeyer! Caramba! como é ruim escutar/ler isso no NYT. A gente quer só elogios, a gente às vezes se acha... Quequiéisso? Yes, nós temos barzinhos, botecos, Mineirão, Pampulha, serras, cachoeiras, museus... Mas o dedinho na ferida tá doendo: - Vocês não têm praia! - O carnaval em BH não existe! (tudo verdade, sniff, sniff).

E agora? penso eu: como vou convencer os gaúchos Milton e Afonso a retribuir minha visita aos pampas? Como vou alardear meu bairrismo pros quatro cantos do mundo? E tantos outros blogueiros que sonham em vir provar de nossas delícias, da "comida di buteco", do queijo canastra, da pinguinha da roça?

Ah! mas o SETH KUGEL, ressalta a menina-dos-olhos do belorizontino, o Mercado Central. É, realmente, imperdível. Cita o nome de alguns barzinhos e faz recomendação especial à região de Macacos.

Finalmente, aos que se abalarem do hemisfério norte para conhecer a "capital dos bares", há um minidicionário básico, pra gringo nenhum ficar sem sua geladinha:

Cerveja (sare-VAY-zha): beer;

Garrafa (ga-HAHF-ah): bottle;

Chopp (SHO-pee): draft beer;

Mais uma!: I’ll have another!;

Desce mais uma rodada: One more round;

Saideira (sah-ee-DARE-a): One last round.

Sugiro que esta conversa continue regada a uma cervejinha com tira-gosto mineiro em um dos 12 mil bares da cidade. Ou já são 15 mil?

27 outubro, 2007

Mais uma vez: Soié


Dia 28 de outubro é data de dupla comemoração em nossa família:

a. aniversário do Soié, meu pai. Sobre ele escrevi: Soié, o Espirituoso. Confiram.


b. aniversário de nosso (Amélia e eu) casamento. Veja como tudo começou.


Amanhã estaremos todos em Nova Era para abraçar o Soié - como é conhecido - e, mais uma vez, elevar um brinde de agradecimento pela vida saudável, risonha e franca.


Será mais uma festa em preparação aos 60 anos de casamento do meu pai e minha mãe, a se realizar ano que vem.


Tudo são festas.