21 junho, 2007

Paranóia

Pintura de Radaelli (Porto Alegre-RS) - Photo by Cláudio Costa

Os padres que dirigiam o antigo Colégio do Caraça e lá ministravam aulas eram "vicentinos", religosos da congregação fundada por São Vicente de Paulo, cuja sede fica em Paris, à rua Saint Lazare. Por isso, são denominados 'lazaristas'.

Assim, o sistema de ensino e toda a disciplina foram adaptados dos costumes europeus e, ainda por cima, obedeciam aos rigores das 'regras' monásticas: acordávamos às 5,25h da manhã, mesmo no mais rigoroso inverno, no alto da Serra do Caraça. Aos sábados, domingos e feriados, eram condescendentes e dormíamos até mais tarde: 5,55h! Isso mesmo, ansiosamente esperávamos o bendito 'descanso': nunca trinta minutos fizeram tanta diferença. Após a missa cotidiana, seguia-se o café-da-manhã, composto de pão, café-com-leite e mingau-de-fubá. Aos domingos, um luxo: tínhamos manteiga. Aprendíamos a frugalidade monástica, por bem ou por mal. Quem não se adaptasse, que descesse a serra e voltasse 'para o mundo, lá fóra'.

O currículo era muito apertado, com aulas de Português, Literatura, Latim, Francês, Inglês, Grego, Ciências, Matemática e Religião. Esporte era obrigatório, assim como o banho frio.

Até hoje louvo a organização: cada aula durava 45 minutos, precedida de igual período para prepará-la. Todos os alunos tinham de ficar em suas carteiras, num enorme salão, a estudar a matéria específica da aula que viria. Silêncio absoluto. O padre disciplinário, ocasionalmente, percorria os corredores entre uma carteira e outra, conferindo se realmente o aluno se dedicava ao estudo determinado. Às vezes, é claro, pegava alguém a ler uma revista, um livro de contos, uma carta recebida da famíia. Era repreendido à vista de todos, um vexame.

Por um tempo, eu ocupava a última fileira do salão, logo à entrada da porta, nos fundos. Assim, quando o padre disciplinário aparecia, ninguém percebia. Chegava de mansinho e observava os oitenta jovens debruçados sobre os livros. Calmamente conferia um a um e retornava a seu gabinete.

Certo dia, no primeiro horário da manhã, pus-me a ler O Cão de Baskerviles de Sir Arthur Conan Doyle, aventura de Sherlock Holmes e seu amigo Dr. Watson. O suspense era enorme e me desligara completamente do mundo, concentrado no fog londrino e na trama policial.

Súbito, com o canto dos olhos, percebo algo a balançar suavemente um pouco atrás de mim e logo me convenci de que era a borda da batina do disciplinário. Fora descoberto! O desfecho era previsível. Em voz alta, o padre exclamaria: - Muito bem, "senhor" Cláudio, os problemas de geometria, hoje, serão resolvidos pelo detetive Sherlock? Todos os colegas se voltariam para mim e aguardariam o castigo: - Hoje você ficará sem a sobremesa e não poderá brincar durante o recreio após o almoço. Era a senha para uma gargalhada geral.

O que fazer? Se eu escondesse o livro, seria tachado de hipócrita dissimulador. Terrível. Se não o fizesse, então seria descarado, desafiador, impertinente e sem-vergonha. Terrível, também. Minha imaginação trabalhou a todo vapor e inventei uma esperança: quem sabe o padre não percebera meu deslize, estaria olhando lá para frente e nem se dera conta de minha falta? Alívio!

Fingi que nada me perturbava e debrucei-me mais um pouco para tentar encobrir a prova de meu crime. É claro que não conseguia ler e um suor frio escorregou fronte abaixo, coração disparado e respiração suspensa. Com o canto dos olhos, contudo, ainda percebia o vulto a balançar logo ali atrás, um pouco à minha esquerda. O danado do padre não saíria dali nunca mais?

Resolvi enfrentar o inevitável. Arranquei do medo e da vergonha um resto de coragem: confessaria meu crime e acataria o castigo. Não seria a primeira vez. Voltei-me resoluto e já enunciava um "desculpe-me, sr. padre" quando descobri, aliviadíssimo, a origem daquela sombra balançante: era a ponta de meu cachecol, pendurado no encosto da cadeira, que oscilava ao sabor da brisa matinal. Não havia padre nenhum e, portanto, nada de castigo. O mundo continuava a girar, o silêncio imperava e eu só escutava o bater assustado de meu coração. Joguei Conan Doyle para a gaveta da estante e ri, ri muito de mim mesmo.

...ooo)000(ooo...

Ao lado, o que restou após o incêncio que destruiu parte do Colégio, em 1968. O salão de estudos ficava no segundo andar, acima dos arcos. Atualmente, funciona, aí, o museu do Caraça.

[Clique aqui para ver mais fotos]

Caraça-MG - Photo by Ana Letícia (Art director: Cláudio Costa)

20 junho, 2007

Um defeito de cor & Mothern

Junho, aqui em Belo Horizonte, é repleto de feiras, atrações culturais, programas gratuitos ou pagos, tudo isso, acho eu, para 'esquentar o inverno'. Este chega oficialmente amanhã, mas já deu sinais de vigor há duas semanas, fazendo-me ressuscitar roupas de lã, adormecidas no aconchego dos armários desde o ano passado.

Um dos acontecimentos culturais mais empolgantes é o Salão do Livro, na 8a. edição. É ótima oportunidade para crianças e adultos conhecerem, de perto, autores e seus livros, folhear as últimas novidades ou os clássicos, livros técnicos, de arte, de literatura, infantis, importados, usados, etc e tal.

O 'Encontro Marcado' é um evento especial durante o salão, no qual o escritor responde a perguntas de um 'apresentador' e, a seguir, dialoga com o público: A proposta é promover conversas descontraídas, no formato de entrevista, que apresentam a trajetória do convidado, seu processo de criação, experiências, identificação no universo literário e suas obras.
Compareci, a convite do Idelber e da própria, ao Encontro Marcado com Ana Maria Gonçalves, que escreveu "Um defeito de cor". Muita gente já escreveu e falou sobre a maravilhosa epopéia produzida por Ana Maria Gonçalves.
Idelber assim a apresentou:
- É a primeira grande saga histórica em voz feminina no romance brasileiro, e é muito mais que isso. São umas 1.000 páginas, uns 400 e tantos personagens, 80 anos de história do Brasil-África-Atlântico-negro e uma voz alinhavando tudo: Kehinde, possivelmente Luiza Mahin, talvez a mãe do poeta negro Luiz Gama (continua aqui ).

Millor Fernandes simplesmente cai de joelhos diante do livro:
- Em suas 952 páginas, Um Defeito de Cor não tem hausto, parada pra respirar. Desmintam-me, por favor. É um dos livros mais importantes, coloco entre os melhores que li em nossa bela língua eslava. Entre os 100 melhores, Millôr? Que exagero é esse, rapaz?, entre os 10. TE CUIDA, SARAMAGO! (leia o Texto completo do Millôr)

Muita gente pergunta:
- Por que um livro tão extenso?
Ana responde:
- Foram dois anos de pesquisa e nove meses escrevendo, de domingo a domingo. Durante todo esse tempo, não fiz outra coisa, foi dedicação integral mesmo. Eu sou publicitária, e quando decidi parar tudo para escrever vendi minha agência em São Paulo e fui para a Bahia disposta a só pesquisar e escrever (Continua aqui).

Eu afirmo:
- Se você é daqueles que desanimam diante de 952 páginas, faça o seguinte: comece a ler! Duvido que não fique 'possuído' pela escrita, pelo personagem, pelo clima, pela história, pela emoção e pela abrangência de "Um defeito de cor". É começar e não parar. Depois me conte. Antes de completar um ano de lançamento, "Um defeito de cor" já ganhou o Prêmio de Literatura da Casa de las Americas!
E tem mais:


Ao final da entrevista, enquanto a Autora autografava seu romance, encontro o Idelber já bem acomodado numa mesa do "Café da Feira", em companhia das
Mothern, Juliana e Laura. Acheguei-me, é claro. Lá estava eu entre as globais do GNT: afinal, Mothern é um blog que virou sitcom de canal pago. Se você ainda não lê Mothern, não sabe o que anda perdendo.

Juliana, Idelber, Cláudio e Laura

Foi uma noite e tanto, mermão!

18 junho, 2007

Passeio de domingo


O domingo foi dia de passear: a filhota Ana Letícia e eu resolvemos, num repente, fugir de Belo Horizonte e respirar oxigênio puro a 1400m de altitude. Em 90 minutos estávamos no alto da Serra do Caraça, usufruindo da paisagem preservada, do silêncio quase monástico e da comida caseira "que só padre come"!
Se você quiser mais fotos, clique bem aqui.
Posted by Picasa

15 junho, 2007

Novos Amigos

Completa uma semana que me assentei à mesa no Atelier das Massas, do chef Radaelli, em Porto Alegre.

À porta, fila de espera, enfrentada sem muito sofrimento, pois compartilhada com alguns colegas que participavam do Congresso de Psiquiatria da Infância e Adolescência [foto à esquerda]. O Atelier fora sugerido pelo mineiro Fabiano, em curso de especialização na capital dos pampas.

Entretanto, pouco antes das 20h, o colorado Milton Ribeiro, em resposta a telefonema que lhe fizera, liga-me convidando para jantar. Por instantes, instalou-se o conflito:
"-E agora? saio com a turma ou com o Milton, que desejo tanto conhecer pessoalmente?"

Durou um átimo e devolvi-lhe a ligação:
"-Já estou de saída e espero você e a Cláudia dentro de uma hora, para a sobremesa." Ele topou!

O grande Milton, porém, de coração grande e alma generosa, prega-me supresa e tanto ao aparecer sorridente, ainda a tempo de entrarmos juntos: decidiram-se a compartilhar conosco o programa de sexta-feira, ele e Cláudia.
Reconhecemo-nos imediatamente e o virtual cedeu ao real. Tal como acontecera, na véspera, quando abracei Dom Afonso e sua família, no aeroporto.
O jantar foi maravilhoso: o bom humor e a espontaneidade do Milton e da Cláudia logo nos contagiaram e posso dizer, sem exagero, que nossa mesa era a mais loquaz, animada e estrepitosamente gargalhante do lugar.



Mais um amigo para ser guardado do lado esquerdo do peito, como diz a canção.

O cardápio? Massas, of course. Precederam-nas os frios, outra marca registrada do lugar. Fui premiado com o Spaghetti Brody, exuberantemente guarnecido de camarões, champignons, ervas, brócolis...

Tudo muito bem regado ao Boscato Gran Reserva Extra, produto da terra. Tal como na casa de Dom Afonso, brindamos com vinho da terra. Nota 10!
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Mais fotos: aqui.
Ah! assista à entrevista hilária que o Flávio Prada acaba de postar, com o próprio Milton.

07 junho, 2007

A Condessa e o Plebeu

Era uma vez um reino muito distante, daqueles que só existem na imaginação. Ouvia-se falar que o clima era frio no inverno e quente no calor. Às vezes o sopro do vento vinha do nordeste, por isso chamavam-no 'nordestão'. Outro vento, pior ainda, descia dos Andes, enregelando a alma e o seu envoltório, e nomearam-no 'minuano'.

Falava-se, igualmente, de lutas e guerras farroupilhas, do 'homem do laço', do porto, das guaíbas, dos banhados e até mesmo da serra e do néctar que jorra de suas videiras. Seriam paraguaios, uruguaios, platinos ou gaúchos?

Pois que tem alma de aventureiro não se intimida.

Arriei e montei no cavalo ao qual eu chamarei de Fokker 100, da raça TAM. Sacode um pouco, tem selas meio apertadas, veio na base do pinga-pinga (Campinas e Curitiba) e apeei no tal reino, ao sul do equador, mais ao sul do trópico. Setentrional, o reino? Não sou afeito a geografias mas voei pelos céus, sobre montanhas e rios, planícies e outros "acidentes geográficos".

Ao desembarcar, eis que sou recebido por uma condessa, a Condessa Clarissa, acolitada pelo papai e pela mamãe, nobres, todos eles muito nobres.


Nobreza e fidalguia não rimam, mas fazem bem ao coração: quase me matam de tanta emoção (agora, rimou!).







P
alavras não há - socorram-me, poetas e trovadores!
Inspirem-me, musas e ninfas!
Forneçam-me significantes para um significado maior do que eu mesmo, plebeu das grimpas das Gerais, sendo recebido por tão ditoso séquito.

Morram de inveja, se invejosos forem os meus leitores.

Então, o céu estava límpido, o sol brilhava tépido, o vento não era nem minuano nem nordestão, era brisa que vivifica a alma e nos confirma que "amigo é coisa pra se guardar, no lado esquerdo do peito".
A Condessa

No mais, aqui estou. Acabei de chegar, nem esquentei lugar e já estou "em casa", neste reino do Rio Grande.

06 junho, 2007

De poetas, congresso e gentileza

Muita gente pensa que as ciências ditas "psi" - Psicologia, Psicanálise, Psiquiatria, Psicopatologia - desvendam todos os mistérios, profundos mistérios, de nossa alma. Um dos maiores enganos do leigo e, principalmente, do profissional psi é acreditar nisso, apesar de reconhecermos que o radical grego 'psiché' possa ser traduzido como 'alma' - não no sentido teológico, claro.

Na verdade, quem mais sabe - muitas vezes sem o saber - do que nos vai no fundo da alma são os poetas e os escritores. Não qualquer poeta. Não qualquer escritor.


Querem um exemplo?




Poesia e prosa, arte pura, psicologia sem psicologismo, psicanálise sem psicanalice. Este aí sabe desvendar mistérios e narrar o inenarrável.

Ah! o Fabrício tem um blog. Imperdível!
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Aterriso em Porto Alegre, na manhã desta quinta-feira, dia 7. Participarei do Congresso da Associação Brasileira de Neurologia e Psiquiatria Infanti e Profissões Afins (ABENEPI).
Serei recepcionado, no aeroporto, pelo blogueiro D. Afonso Chato que não tem nada de chato, pelo contrário, disponibilizou-se com a maior presteza e demonstrou que as trocas virtuais de comentários e idéias podem gerar amizades reais.
Vou conhecê-lo ao vivo e a cores. Espero, ainda, ter o privilégio de trocar figurinhas com o Milton Ribeiro e a blogoseira toda. Depois eu conto.


04 junho, 2007

O futuro é a morte

Alguém ainda se lembra do documentário "Falcão-Meninos do Tráfico" de MV Bill? Escrevi o texto abaixo em 09.abr.2006 e o publiquei no Bombordo (que está parado sei lá por quê):

Falcão – Meninos do Tráfico (
MV Bill – “Mensageiro da Verdade) reavivou as discussões acerca de uma realidade praticamente negada. A “negação” não significa desconhecimento, mas um “mecanismo de defesa” – quase sempre necessário – para que suportemos a vida.
Os temas violência, criança abandonada, ausência do Estado, falta de Educação, miséria se entrelaçam e provocam intelectuais, sociólogos e políticos a buscarem causalidades e apontarem soluções. Por outro lado, o senso comum – entidade abstrata e intangível, porém prevalente – aponta o dispositivo policial como melhor remédio: “são os traficantes; é preciso acabar com o tráfico; isso é coisa de bandido”.
Transgressões, com efeito, clamam por medidas corretivas e punitivas. Entretanto, mais do que o respeito (medo?) ao ordenamento jurídico da sociedade, a submissão à Lei é um dos componentes da subjetividade (“realidade psíquica, emocional e cognitiva do ser humano, passível de manifestar-se simultaneamente nos âmbitos individual e coletivo” – apud Houaiss).
O documentário de MV Bill é protagonizado por 17 crianças, das quais apenas uma sobreviveu. A crueza das cenas e das falas chocou a muitos, principalmente pelos pequenos “falcões” – os meninos usados pelos traficantes.
O desprezo à própria vida e a falta de senso do que é socialmente classificado como bom ou ruim, certo ou errado e a falta de identificação a modelos “éticos” de comportamento provocam-nos a interrogar:
- Qual o sentido da vida para esses meninos? De onde vêm tanta insensibilidade e ausência de temor à punição? Será que não sentem culpa? Não têm medo de morrer? Colocam-se no lugar do outro? São vítimas ou delinqüentes juvenis? De quem ou do que é a culpa?
As respostas não são simples, muito menos unânimes.
Ao apropriar-se da tragédia grega do Édipo, Freud toma o personagem criado por Sófocles como paradigma das vicissitudes de todo ser humano no caminho de entrada na cultura. Assim como “Falcão”, Édipo não tem nome, é simplesmente “aquele que tem os pés inchados” – conseqüência do furo em seus calcanhares, feito pelo pastor que o salvou da morte.
O “medo à castração” determina sua fuga para Corinto. O castigo seria aplicado pelo pai caso o filho realizasse os desejos incestuosos em relação à mãe. Isso remete à passagem da natureza à cultura, condicionada à relação com a Lei. O temor à Lei é condição para que o sujeito estabeleça uma “sociedade” com a cultura humana: é mister que se obedeçam as regras da linguagem, por exemplo, sob pena de não ser compreendido ou ser tachado de louco.
“Uma lei que não é temida – que não tenha potência de interdição e de punição – é uma lei fajuta, de fancaria, impotente. No entanto, o temor à lei, sendo necessário, é absolutamente insuficiente para fundar a relação do ser humano com a Lei. Uma lei que se imponha apenas pelo temor é uma lei perversa, espúria – lei do cão.” (Hélio Pellegrino).
A “civilização”, é verdade, provoca sempre um “mal-estar”. Embora garanta um certo ordenamento, exige uma dose de renúncia pulsional, controle dos instintos (erótico e agressivo). Mas também proporciona alguns ganhos, é claro.
Freud não chegou a fazer uma crítica à sociedade capitalista e não menciona que a violência da repressão em nossa sociedade existe também pela forte carga de injustiça social. Mas o mito é um paradigma.
A “solução” estaria num pacto: renúncia à onipotência (tudo é permitido) em nome de ganhos para o indivíduo e para a sociedade. Compensam-se as perdas com a conquista de certos direitos: ao nome, à filiação, à estrutura de parentesco, à sobrevivência digna. O pertencimento à cultura que acolhe o indivíduo supõe acordo a respeito de seus valores e ideais – até mesmo direito para criticá-los e denunciar as injustiças.
A compreensão do tal “complexo de Édipo” para além da construção da subjetividade pode iluminar um pouco as discussões acerca da tragédia que se abate sobre incontáveis “Falcões”. Estes nascem e morrem nas sombras. "Existem" apenas nas estatísticas que acusam índices assustadores: o enorme número de jovens entre 12 e 18 anos que são assassinados, vítimas da violência, caso não sejam atingidos, antes, pela mortalidade infantil por fome e doenças causadas por falta de saneamento básico, etc.).
A Lei imposta na micro-esfera do romance familiar (pai-mãe-criança) deve ser compensada pelo atendimento às necessidades da criança (afeto, sustento, educação, acesso aos bens materiais e culturais), do mesmo modo que as renúncias exigidas pela sociedade deveriam garantir a todos os cidadãos os direitos inalienáveis a cada um: trabalho, remuneração digna, expectativas de ascensão social, preservação da integridade física e psíquica, etc.
Sempre que fracassa a figura do Pai (não necessariamente o pai da realidade, mas o pai “simbólico”, representante da Lei e garantidor das compensações), a criança romperá o pacto estabelecido e as exigências da cultura serão insuportáveis: reaparecem os impulsos agressivos, incestuosos, predatórios.
Da mesma forma, quando falha o Estado – garantidor do que chamaríamos de “pacto social” – o que esperar senão a emergência dos impulsos delinqüênciais e homicidas? Com que autoridade pode a sociedade exigir o fim da verdadeira guerra civil travada em forma de assaltos, tráfico de drogas, desrespeito às normas, quando predominam as leis implacáveis do capitalismo selvagem, que mantém um número crescente de cidadãos sem nome, sem casa, sem trabalho, sem remuneração digna, sem esperança de inclusão social? As promessas e ofertas do Mercado não incluem os excluídos.
Os “Falcões”, de alguma forma, expressam o fracasso de políticas sociais excludentes. Em “nome-de-qual-Lei” adotarão os valores defendidos por uma sociedade – que somos nós mesmos – que lhes nega nome, identidade e futuro?
- O futuro é a morte.

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Referência: Pellegrino, Hélio. Pacto Edípico e Pacto Social in: Grupo Sobre Grupo - Luiz Alberto Py et alii - Editora Rocco, RJ, 1987.

02 junho, 2007

Blogar é Falar

Gerbera - By Cláudio Costa

Pois é, quando se puxa o "fio" da memória, nunca se sabe o que vem lá do fundo de nossas lembranças.

O passado é como um tesouro escondido.

Bobo quem pensa que "o que passou já morreu".

O inconsciente não conhece o tempo, tudo está lá, gravado e tão vívido

quanto o que foi vivido: emoções se reanimam

e todos os nossos sentidos são atiçados.

Perfumes de outras épocas, sons distantes, imagens esmaecidas, tudo se revigora quando as associações se desencadeiam.

Eis o segredo das "Mil e Uma Noites", o segredo de Sherazade, que para não ser morta pelo califa, vai desfiando contos intermináveis.

Ou seja: falar, narrar, contar, rememorar, ter alguém que queira nos escutar e... faz-se o milagre do viver.

O homem inventou a linguagem - ou fomos por ela inventados?

In principio erat Verbum... No princípío, o Verbo.

Por isso se bloga tanto: falar, falar, falar.

Assim nos mantemos vivos, na suposição de que haja quem se interessa em ouvir.

Quando alguém comenta, dá um pitaco, palpiteia, discorda, provoca, faz um ruído qualquer, raspa a garganta, gargalha ou ironiza, eis que tomamos vida.

Afinal, somos constituídos pelo Outro, pois para ele existimos.

30 maio, 2007

Evocações

A propósito do post Matadouro Municipal, muitos se manifestaram, tanto na caixa de comentários quanto nos emails.
Parece que mexi num baú de lembranças, uma coisa puxando outra. Conversa de mineiro é assim mesmo: devagar, como quem não quer dizer nada, um e outro acrescentam um pormenor à narrativa. Há os que viveram cenas semelhantes; os que conhecem data, hora e local; os testemunhas oculares dos bastidores; os exagerados e os que emendam com outra história. De repente, dá-se o "causo".
# Ismaelzinho, mano que está morando em Marataízes, no Espírito Santo, relembra:

- O melhor era colocar um barbante (cordinha) amarrado a um pedaço de carniça. Urubu comia e voava para bem alto. Aí eu dava linha, como quem solta uma pipa, pendurava-me no barbante e o grande pássaro preto me carregava pelos céus da cidade. Às vezes, ao "sobrevoar" o rio Piracicaba, eu caia em suas águas e tinha que nadar rápido, para fugir do jacaré. Um dia, um urubu bem grande me levou até a caixa dágua, no alto do morro atrás do Hospital São José. E como conseguia fugir de todos os jacarés e sempre cair em lugar macio, estou aqui a contar como acontecia.

# Meu pai, Soié, lembrou-se de quando eu saía de mãos dadas com o vovo Ilidinho. Ao passar próximo ao matadouro municipal, diante dos animais abrigados no pequeno curral anexo, apontava para um ou outro e perguntava:

- Vovô, aquele boi ali é boi ou vaca?

# Tia Irani, irmã de meu pai (Soié), relembrou um fato acontecido também na minha infância. Eu já aprontava das minhas, é claro. Tia Irani comentou assim:

- GOSTEI e lembrei-me da vaca que entrou na venda (armazém) que meu pai (Ilidinho) tinha aqui junto à nossa casa... Foi o seguinte:
Era costume que os fazendeiros conduzissem sua boiada pelas ruas da cidade. Às vezes, uma ou outra rês se desgarrava e investia sobre os passantes. Numa dessas ocasiões, gritaram:

- "Vaca braaaaava"!

Todos correram para apreciar o espetáculo e o pobre do Claudinho, que estava assentado na porta do Foto Irineu, defronte à venda, saiu em disparada atravessando a rua e gritou:

- Vovôôôôô me acode!!!.

Acontece que a vaca, que estava bem próxima, deve ter pensado que o menino fosse seu bezerrinho (!) e igualmente atravessou a rua e adentrou as instalações do meu pai que, num relance, puxou o menino que tremia e berrava alojado num canto. A vaca tentou passar para detrás do dentro balcão, ficando "engasgalhada" na porta, bufando e batendo c/as patas no assoalho.
Os vaqueiros logo chegaram com um laço e arrastaram a coitada para a rua, onde o povo aglomerado aplaudia. Cláudio, nos braços do avô, chorava e reclamava:
-"Vovô, a vaca queria me pegar".
Nesta hora, foi chegando minha mãe com um copo d’água e biscoitos para acalmar o bezerrinho... ou melhor, o netinho!!!. Boas lembranças, muitas saudades!!!

# Ah, lembro-me dessa minha tia Irani, mocinha nova, a fazer bordados juntos às outras tias. Eu, menino de calça-curta, zanzava pela sala de costuras, pois era casa do meus avós Nhanhá e Ilidinho. E não é que as danadas das tias, quando queriam que não entendesse o que diziam, principiavam a falar na língua do pê? Espertinho, logo logo decifrei o código. Pois então, inventaram mais uma:

Umpumapa daspas coipoisaspas quepe mepe ipirripitapavampam eperapa epessapa linpinguapa dopo pêpê quepe minpinhaspas tipiaspas upusapavampam enpenquanpantopo cospostupurapavampam, napa capasapa dopo vopovôpô Ipilipidinpinhopo.
Depemoporeipei apa depecopodipifipicarpar.
Quanpandopo despescopobripri quepe eperapa apa linpinguapa dopo pêpê, epelaspas copomepeçaparampam apa upusarpar apa linpinguapa dopo epefeperrepe:
Voforrocêfêrrê confonronheferreceferre afarra linfinringuafarra doforro eferreeferre?

24 maio, 2007

Cotidiano

Outro dia chegou-me ao consultório um rapaz com queixas de "ter perdido a alegria de viver". Salientou esses termos e evitou declarar-se propriamente deprimido:
- Continuo na escola, vou a algumas a festas, faço academia, tenho amigos; mas algo não vai bem comigo. Tenho um relacionamento afetivo há alguns anos, "mais sério que um namoro, menos sério que um noivado", mas... O pior é que os defeitos dela começaram a me incomodar, embora eu sempre compreendesse, pois houve um tempo em que estive mesmo apaixonado.
- Explique melhor o que você quer dizer com perder a alegria de viver, como é isso no dia-a-dia.
- No início, eram só cansaço, impaciência, algum distúrbio tipo dor-de-cabeça, desânimo, por aí. Algumas pessoas me perguntavam sobre o que estava acontecendo. Inventava desculpas, tipo "foi algo que comi" ou "esta noite não dormi bem". Mas o certo, doutor, é que me tornei mais introspectivo, conversando menos, achando menos graça nas coisas, entende? Ah, tem também minha obsessão pela internet: comecei a ficar horas no MSN, Orkut, esses sites, o senhor conhece?
- E aí?
- Bem, aí comecei a dar corda para algumas conversas, principalmente com meninas que se propunham a conhecer alguém. Dei o telefone para uma pá de gente. Chegava da escola e corria pro computador, nem lanchava, nem conversava com meus familiares: minha mãe, coitada, ia chegando com um toddy e eu dizia: "espera aí, mãe, que 'tou ocupado'. Ela até reclamou, mas não mudei.
- E?
- Agora estou sentindo uma angústia danada, pois vou terminar com minha namorada-quase-noiva e não sei como falar. Sinto duas coisas: angústia e culpa.
- Como assim?
- Estou com medo de dar um passo errado: e se eu me arrepender, depois? E se eu quiser voltar e ela não? Tenho medo de ficar sozinho, pois só tenho relacionamentos virtuais, quer dizer, só converso pela internet. Fico desanimado de sair pras baladas, puxar assunto. Acho que nem sei mais como se faz para chegar nas meninas.
- E culpa, culpa por que?
- Porque já estou fazendo minha namorada-quase-noiva sofrer: ela percebe minhas esquivas em conversar. Digo-lhe que estou fazendo pesquisa no computador, mas ela sabe que é mentira, estou sempre on line no MSN. Engraçado que é mais fácil conversar com ela pela internet do que ir à casa dela ou sair prum barzinho, fazer algum programa juntos.
- E o que você pretende?
- Queria que me receitasse um remédio, um antidepressivo, sei lá, um remédio que me fizesse esquecer essas coisas, ficar bem...
- ...
- É, eu sei que não existe pílula da felicidade.
- Não existe mesmo.
- Mas ajuda, né?
- Parece-me que talvez seja mais lógico você tentar mudar seu esquema de vida, rapaz. É preciso definir o que você quer, se gosta ou não da menina, entender por que você se enfurnou na internet.
- Eu sei disso, mas não adianta. Hoje em dia tá todo mundo assim: à noite, de madrugada, o MSN fica bombando de gente; parece que ninguém dorme, ninguém sai.
- Muito menos você, né?

23 maio, 2007

Comentário em forma de Recado

Filhota mia!
Será que paguei um mico tão grande? Deus ama os inocentes, por isso estou salvo: entrei realmente pelo lado D, já que, defronte à entrada da catedral, havia um montão de gente, mercedes prateada, etc. e tal. Ao ver que a porta ainda não houvera sido aberta, empertiguei-me e me propus a atravessar a nave central.
Eis que a pequena orquestra ataca de Marcha Nupcial, enquanto meu corpo já desencadeara os movimentos necessários às passadas largas e rápidas programadas pelo córtex frontal. Não houve tempo de interromper o deslocamento dos 74kg acomodados em parcos 1,65m. Fazer o quê?
Como artista hollywoodiano, acostumado aos tapetes vermelhos da Academia ou de Cannes, desfilei! Senti falta, porém, de algo: os aplausos da platéia e o pipocar dos flashes. De qualquer forma, seu post eternizou aquele momento, doravante inesquecível graças à sua capacidade literária e seu humor perspicaz.
Pra mim, é a glória!
Seu pai.
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Por que? Por que? Entenda, clicando aqui.

19 maio, 2007

Matadouro municipal

Tom Jobim era um admirador dos urubus. É o que João Paulo afirma em sua crônica de hoje, no Caderno Pensar, do EM.

Muito antes da disseminação do pensamento ecológico entre nós, Tom Jobim soube ver beleza e sabedoria naquela ave de rapina, causadora de repulsa e de "cruz-credo" pela lembrança da morte. Os urubus aproveitam as correntes térmicas e fazem vôos elegantes, sobranceiro entre as nuvens, sobrepujando montanhas, matas e casas.

O tema lembrou-me a infância, povoada de urubus.

Explico:

Minha terra natal (Nova Era-MG), até hoje preguiçosamente debruçada sobre as curvas do rio Piracicaba, tinha um matadouro municipal bem na região central. Fora construído, é provável, no final do século XIX, bem próximo à ponte que seria inaugurada por Getúlio Vargas, anos depois.

O local se tornou passagem obrigatória para quem quisesse atravessar o rio, buscando o bairro mais novo, chamado, inicialmente, de bairro da "Rua Nova".

Ali, bem à entrada da ponte, os magarefes matavam e esfolavam as reses, à vista de todos, num espetáculo tão macabro quanto banalizado pela frequência diária com que se oferecia aos olhos e ouvidos dos passantes: olhos que se arregalavam diante da decidida paulada perpetrada na fronte do animal e da subsequente e certeira punhalada que lhe seccionava a medula, bem no meio da nuca; ouvidos que captavam os estrebuchares e mugidos medonhos, pavor e lamento de que não me esqueço.

Pequeno e curioso, eventualmente pedia ao meu avô Ilidinho que me levasse a passear na beira do rio. Às vezes, coincidiam passeio e espetáculo mórbido. De olhos estatelados e ouvidos sensíveis fui-me acostumando àquela cena. Acompanhava cada momento, desde a chegada do boi, os laços que o puxavam para o tronco central onde, amarrado, recebia a sentença. Não me lembro de maiores escrúpulos ou lembranças aterrorizantes. Afinal, era natural que se matasse para comer. Pelo menos foi assim que aprendi.

Uma imagem, porém, impressionava-me: aos montes, fazendo de poleiro as cercas, os arbustos e os arcos da ponte, os urubus esperavam. Pacientemente, desde horas antes, lá estavam os bichos negros, de asas abertas para "quentar sol" nas manhãs de inverno, aguardavam o banquete recém preparado.
De repente, como que tangidos por uma orquestra bem compassada, voavam direto à carniça e ao sangue que escorria em direção ao rio.
Pinicavam os ossos até não restar fiapo de músculo. Saciavam a fome e limpavam o mundo. Não restava podridão e a cidade continuava a respirar em paz. Mais tarde, com as termas que subiam do fundo do vale, faziam geometrias harmônicas contra o azul do céu.

O ciclo da natureza se completava e o menino, curioso, aprendia que a vida é mesmo assim.

09 maio, 2007

Bento XVI no Brasil

O Papa chegou ao Brasil e uma Mercedes com motorista iria trazê-lo do aeroporto de Viracopos, em Campinas, para São Paulo.
Na Bandeirantes, o motorista vinha dirigindo muito lentamente quando o papa pediu-lhe que corresse mais. Mas, recebeu como resposta uma negativa, porque não poderia andar rápido, por haver muitos guardas na estrada.
Então, o Papa mandou que ele parasse o carro e disse que dali em diante ele mesmo dirigiria, mandando o negão pro banco de trás. Quando estava a 180km/h, não deu outra, foi parado por um policial.
O guarda pediu-lhe os documentos.
Ao ler os documentos dados pelo papa, ele foi até o seu superior que estava na viatura e disse:
- Chefe, o homem é muito importante, é dos graúdos.
O chefe falou:
- Se é o governador? Pode multar!
- Não. É mais do que isso. Respondeu o guarda.
- Então, é o presidente? Pode multar também, que não tem perdão!
- Não! Disse o guarda. Acho que é bem mais do que isto, chefe.
- Porra, quem é? Pra ser mais importante que o presidente?!?!?!
- Para falar a verdade, chefe, eu acho que é São Benedito , pois só para o senhor ter uma idéia, o motorista dele é o Papa!

05 maio, 2007

Cada tribo com sua SPAM

Todo mundo sabe que SPAM é uma mensagem por email enviada em massa, sem levar em conta o desejo do destinatário, muitas vezes com conteúdo comercial.
No meio médico, recebemos SPAM que dizem respeito às nossas especialidades, a medicamentos, etc.
Eis uma SPAM que recebi de um colega. Não sei quem foi autor do texto nem se é verdadeiro o que descreve... afinal, onde anda a Verdade?

Outro dia eu estive conversando com o chefe da oncologia pediátrica do hospital das clínicas, e ele me fez umas revelações que mudaram minha maneira de ver o mundo!

Como vocês sabem, bactérias possuem reprodução assexuada. Quando estão grandes demais, elas simplesmente se dividem em duas bacteriazinhas que são idênticas à bactéria original.

Mas, se elas não fazem sexo, então como se divertem?
Pode parecer incrível, mas a diversão das bactérias é o canibalismo! As bactérias comem umas às outras, numa lambança microscópica de dar inveja a qualquer baile de carnaval!

E, mais incrível ainda, o canibalismo é melhor que o sexo! Geneticamente falando, se dois seres fazem sexo, o filho resultante é muito parecido com os pais, já que há apenas recombinações de alelos, exceto é claro no caso de mutações.

Com as bactérias isso não acontece. Quando uma come a outra, o material genético da primeira mistura-se com o da segunda, o que permite uma variação genética muito maior, e conseqüentemente uma maior velocidade de adaptação ao ambiente. Não é por acaso que grande parte das bactérias hoje em dia são imunes à penicilina: bastou nascer uma que fosse imune, e o canibalismo fez com que o gene da imunidade se espalhasse rapidamente.

Outro processo que pode acontecer, ainda mais curioso, ocorre quando uma bactéria grande come uma bactéria pequena. Pode acontecer da grande não conseguir romper a membrana da pequena, e nesse caso a menor continua vivendo, dentro da maior, como se nada tivesse acontecido. Para todos os efeitos, a menor torna-se uma organela da maior.

Esse processo de canibalismo não é recente; na verdade vem acontecendo muito antes dos seres humanos surgirem. Em especial, ele foi o responsável pelo surgimento de vida aeróbica: algum dia surgiu uma bactéria que era capaz de respirar, processando oxigênio, e uma bactéria maior, anaeróbica, comeu a primeira. Nesse processo, a pequena tornou-se uma organela da grande, e a grande adquiriu a capacidade de processar oxigênio, ainda que indiretamente.

A tal da bactéria pequenina existe até hoje: é a nossa conhecida mitocôndria! Essa teoria pode ser facilmente comprovada, se você notar que a mitocôndria possui um DNA próprio, diferente da célula em que está inserida.
Tal fato bizarro leva a várias considerações curiosas:

Primeiro, eu sempre achei que, quando o projeto genoma acabasse, nossa espécie poderia finalmente ser extinta em paz. Já estaríamos documentados, se alguma raça inteligente pousasse no planeta, poderia clonar um humano a partir da descrição do genoma. Porém, apenas com o genoma humano isso não é possível, já que é necessária também a descrição do genoma da mitocôndria.

Segundo, é um fato conhecido que os espermatozóides humanos perdem suas mitôcondrias quando penetram no óvulo. Como o DNA do espermatozóide não possui informação para sintetizar mitocôndrias, conclui-se que todas as mitocôndrias do nosso corpo são descendentes das mitôcondrias que estavam no óvulo da nossa mãe. Portanto, se é verdade que todo homem tem um lado feminino, tal lado feminino deve estar guardado no DNA da mitocôndria, que é reproduzido exclusivamente pelas mulheres.

Por fim, se o DNA da mitocôndria é diferente do DNA do núcleo de nossas células, significa que ela pode ser considerada uma forma de vida distinta.

Ou seja, nós não somos seres autônomos, na verdade somos simbiontes com nossas mitocôndrias."

________
A propósito: há um monte de informações sobre SPAM na Wikipedia. Veja aqui.

26 abril, 2007

Televisionismo paroxístico agudo

Não tenho muito tempo pra ver TV.
Confesso que meu esporte é zapear, pois "O controle remoto é o maior amigo do homem".
Se alguém ainda não disse isso, acabo de criar um aforisma [s.m. máxima ou sentença que, em poucas palavras, explicita regra ou princípio de alcance moral; apotegma, ditado] pelo qual devo cobrar royaties ou, pelo menos, reconhecimento público. Digo e repito:
"O controle remoto é o maior amigo do homem".

Mas voltemos ao zapear e algumas constatações:

1. a dita "tv aberta" é uma merda: desconsidera a inteligência do espectador ou se nivela por baixo, oferecendo muita baixaria. Vez por outra escapa um bom programa.
Podem dizer:
- O que é bom para você pode não ser bom para o outro, e vice-versa, e tal-e-coisa.
- Tá bom, de gustibus non disputantur.

2. as propagandas estão ruins demais!
  • De maneira geral, tem-se que diminuir o volume nos intervalos, pois o pessoal da criação (criação?) acha que todo televidente é surdo.
  • As lojas populares GRITAM as ofertas, tudo a qualquer valor que termine em 0,99: Máquina de lavar: 799,99! Sapato: 49,99! Carne: 11,99! Computador: 24 x 109,99!
  • Os automóveis são máquinas maravilhosas, fazem 300km/h nas moderníssimas highways tupiniquins! Outro dia vi o anúncio da VW de seu carro popular, o Gol: o danado do carrinho é bombardeado, enfrenta terremotos e maremotos, desmoronamentos e o escambau [o Houaiss explica: s.m. série de outras coisas não mencionadas] e continua lindo, inamassável, limpinho da silva! [Eu, que não sou nada bobo, corri e comprei um, hehehehe].
  • O Brasil é o país das louras, lindas e maravilhosas, todas muito bem vestidas ou despidas, todo mundo muito feliz. As casas têm mobiliário clean, ultra-contemporâneo com um toque de conforto, iluminação high-tech e todos os apetrechos que a tecnologia pode proporcionar.
  • Dinheiro? Não é problema, afinal, A Caixa é Nossa, O Banco do Brasil é Nosso, Você tem 120 razões para ser cliente do Bradesco e os juros estão deste tamaninho aqui, ó! O que é que um cartão de crédito não pode pagar?
  • Os telefones celulares (que os nossos irmãos portugueses chamam de telemóvel) existem para todos os gostos e têm modelos novos lançados todos os dias, várias vezes ao dia, igual remédio: tome um comprimido pela manhã, à tarde e à noite. Pois as máquinas da Nokia, LG, Samsung e outras (será que alguém aí vai me pagar pelo merchandising?) só faltam falar, mas têm câmeras digitais, computadores, baixam e-mails e enviam torpedos. Já há modelos com salva-vidas, panela de pressão e air-bag, dizem.
  • O que existe de programa esportivo não tá no gibi, mas tá na tv: o brasileiro é o povo mais instruído do mundo, se for avaliado pela quantidade de mesas-redondas nos finais de domingo, de quarta-feira, de quinta-feira... Também na hora do almoço: antes, durante e depois os comentaristas, locutores, jogadores, juízes, torcedores, tá tudo ali, esmiuçando cada jogada!
  • os comentaristas econômicos são os verdadeiros cavaleiros do apocalipse. Adoram dar notícia ruim: "O desemprego subiu 0,001% nas primeiras horas da manhã!" Quando a notícia é boa, advertem que não é para ficarmos eufóricos, pois tudo pode mudar, a inflação voltar, o Banco Central diminuir a queda da taxa básica dos juros e, o mais incompreensível de tudo: "O Brasil teve um crescimento negativo". Como? -Igual buraco, rapaz: Quanto mais cresce, mais vai para o fundo! - Anh...
- Quae cum ita sint, diriam os romanos, quer dizer que você anda vendo tv demais, né?
- Pois sou obrigado a falar a verdade: tudo isso vislumbrei em algumas zapeadas básicas, rapidíssimas, entre uma garfada e outra, entre um cochilo e outro, entre uma e outra, que ninguém é de ferro!

21 abril, 2007

Daqui para uma melhor: uma viagem sem escalas

Sou do tempo em que crianças frequentavam aulas de Catecismo (at. catechismus,i 'instrução religiosa', do gr. katékhismós, do v. gr. katékhéó,ô 'fazer reter nos ouvidos, donde instruir de viva voz') Não, não era o do Carlos Zéfiro, era mesmo o Catecismo Romano, conjunto de normas e artigos de fé cristã/católica-romana, síntese das conclusões do Concílio de Trento (século XVI).

As aulas eram ministradas por uma velha senhora, muito rígida, que ensinava religião como quem lidava com hereges, pecadores contumazes e irremediavelmente condenados ao fogo eterno! Teríamos chance de escapar da condenação se praticássemos escrupulosamente os dez mandamentos, as quatro virtudes cardeais (prudência, justiça, fotaleza e temperança). Era mister obedecer aos cinco mandamentos da igreja (ouvir missa inteira aos domingos, confessar-se uma vez ao ano, comungar pelo menos uma vez anualmente, jejuar e fazer penitência, pagar os dízimos). Ah, e que não caíssemos nas tentações dos sete pecados capitais (ira, gula, inveja, orgulho, avareza, preguiça e luxúria)!

Ainda menino, vislumbrei um caminho difícil para ir direto ao céu. Tinha de ser uma viagem sem escalas, porque, mesmo evitando os pecados capitais, poderia morrer em pecado venial (etim lat.tar. veniális,e 'de perdão, leve, perdoável, desculpável'), o que me levaria ao purgatório (etim lat. purgatorìus,a,um 'que purga, purgativo, que purifica', já em Macróbio (fim do sIV d.C.) 'que purifica (a alma)'; como subst. ligado ao cristianismo (em gr. kathartêrion ou purgatóiron [tomado ao lat.]), o lat. purgatorìum se usa como 'lugar ou estado especial de pena e expiação de almas depois da morte'), menos terrível - posto que provisório!

Uma doutrina, porém, deixava-me intrigado: a existência do limbo (s.m. (1562-1575 cf. PaivSerm) 1 na religião cristã, morada das almas que, não tendo cometido pecado mortal, estão afastadas da presença de Deus, por não haverem sido remidas do pecado original pelo batismo (como, p.ex., as almas ditas justas que viveram antes do advento do cristianismo).

Se alguém morresse sem o batismo, mesmo que fosse virtuoso, não poderia ir para o céu, mas ficaria no "limbo" até o final dos tempos, quando se abririam as porteiras do céu. Seria necessário esperar muito, muito mesmo. Eu me regozijava por saber-me portador do passaporte, pois nascera em família católica. Entretanto, preocupavam-me os milhões de não-cristãos nascidos antes da instituição do batismo e em países onde não havia sido introduzida a fé cristã. Por que Deus faria uma coisa dessas?

Finalmente, vejo o noticiário:
Os teólogos do Vaticano estão convencidos, após vários meses de reflexão, que o limbo não existe e que as criancinhas mortas sem o sacramento do batismo vão diretamente para o paraíso.

Um documento da comissão teológica pontifical teve alguns extratos publicados no site da agência Catholic News Service (CNS) mas ainda não foi divulgado pelo Vaticano, apesar de pronto há várias semanas - precisou à AFP um integrante da comissão, o arcebispo de Dijon (França) Roland Minnerath.

Finalmente! Acabaram-se meus receios pelos bebês ficarem sofrendo no limbo até o fim dos tempos!
Agora, só me falta praticar os 10 mandamentos, as 4 virtudes cardeais e... ficar apenas nos pecadinhos veniais!

Quando vier o final dos tempos, quero ver cada um de vocês que me lêem. E nada de caírem de gozação em cima de mim - "-tão virtuoso, o Cláudio, coitado! - dizendo que pecaram, pecaram e se arrependeram na última hora e chegaram, igualmente, no bem-bom do paraíso!

Não! Não tenho pressa nenhuma de atravessar os portais da existência, muito menos desejo-lhes que partam em breve.
Por isso mesmo, conclamo a todos para se engajarem na campanha FAÇA SUA PARTE, assim como Lúcia Malla, Flávio Prada e muitos outros...

16 abril, 2007

Oficina sonora

Nosso filho Angelo & sua Renatinha convidaram-nos, a mim e à Amélia, para assistirmos ao show de lançamento do DVD do grupo Uakti [este link é espetacular: você pode escutar amostras do som do Uakti, conhecer sua história e descrição de cada instrumento].

Em 1981, antes mesmo que o Ângelo tivesse nascido, comprei o primeiro disco
"Oficina Instrumental" (olhaí a foto da capa): um long-play de vinil, que guardo até hoje. Impressionou-me o som "doido demais", extraído de tubos de pvc, alguns com água em vários níveis, instrumentos inventados e fabricados pelo fundador/inspirador Marco Antônio Guimarães.

Pois sexta-feira estivemos lá no Palácio das Artes e, mais uma vez, aquele mesmo som que nos surpreende sem agredir, que nos encanta pelo inusitado, que nos enleva pela arte.

No comentário publicado hoje no EM, Eduardo Girão diz:
Quem assistir ao DVD encontrará repertório igual ao apresentado, composto por músicas de discos como Trilobyte, Clássicos, 21, Oiapok Xui e Mapa. Algumas pequenas variações serão percebidas – uma nota aqui, outra ali –, mas nada que desmereça a atuação ao vivo. No palco, decorado com o mesmo cenário, o Uakti encontrou brechas para improvisos em meio à lógica minimalista que tanto se faz presente no trabalho instrumental do grupo. Certos desvios são sempre bem-vindos.

Vai aqui minha recomendação: o DVD é nota mil. Vale o cinquentinha que estão pedindo por ele.

14 abril, 2007

Freud: a última entrevista


Eis uma das preciosidades encontradas na biblioteca da Sociedade Sigmund Freud: a entrevista concedida ao jornalista americano George Sylvester Viereck, em 1926.
Deve ter sido publicada na imprensa americana da época. Acreditava-se que estivesse perdida, quando o Boletim da Sigmund Freud Haus publicou uma versão condensada, em 1976.
Na verdade, o texto integral havia sido publicado no volume Psychoanalysis and the Future, número especial do "Journal of Psychology", de Nova Iorque, em 1957.
O link para a entrevista completa, em tradução de Paulo César Souza, vai no final.

Reproduzo, aqui, alguns trechos.

S. Freud: Setenta anos ensinaram-me a aceitar a vida com serena humildade.

(Quem fala é o professor Sigmund Freud, o grande explorador da alma. O cenário da nossa conversa foi uma casa de verão no Semmering, uma montanha nos Alpes austríacos. Eu havia visto o pai da psicanálise pela última vez em sua casa modesta na capital austríaca. Os poucos anos entre minha última visita e a atual multiplicaram as rugas na sua fronte. Intensificaram a sua palidez de sábio. Sua face estava tensa, como se sentisse dor. Sua mente estava alerta, seu espírito firme, sua cortesia impecável como sempre, mas um ligeiro impedimento da fala me perturbou. Parece que um tumor maligno no maxilar superior necessitou ser operado. Desde então Freud usa uma prótese, para ele uma causa de constante irritação).

S. Freud: Detesto o meu maxilar mecânico, porque a luta com o aparelho me consome tanta energia preciosa. Mas prefiro ele a maxilar nenhum. Ainda prefiro a existência à extinção. Talvez os deuses sejam gentis conosco, tornando a vida mais desagradável à medida que envelhecemos. Por fim, a morte nos parece menos intolerável do que os fardos que carregamos.

...

George Sylvester Viereck: Gostaria de retornar em alguma forma, de ser resgatado do pó? O senhor não tem, em outras palavras, desejo de imortalidade?

S. Freud: Sinceramente não. Se a gente reconhece os motivos egoístas por trás de conduta humana, não tem o mínimo desejo de voltar à vida; movendo-se num círculo, seria ainda a mesma. Além disso, mesmo se o eterno retorno das coisas, para usar a expressão de Nietzsche, nos dotasse novamente do nosso invólucro carnal, para que serviria, sem memória? Não haveria elo entre passado e futuro. Pelo que me toca, estou perfeitamente satisfeito em saber que o eterno aborrecimento de viver finalmente passará. Nossa vida é necessariamente uma série de compromissos, uma luta interminável entre o ego e seu ambiente. O desejo de prolongar a vida excessivamente me parece absurdo.

...

George Sylvester Viereck: O senhor já analisou a si mesmo?

S. Freud: Certamente. O psicanalista deve constantemente analisar a si mesmo. Analisando a nós mesmos, ficamos mais capacitados a analisar os outros. O psicanalista é como o bode expiatório dos hebreus. Os outros descarregam seus pecados sobre ele. Ele deve praticar sua arte à perfeição para desvencilhar-se do fardo jogado sobre ele.

...

George Sylvester Viereck: Ás vezes imagino se não seríamos mais felizes se soubéssemos menos dos processos que dão forma a nossos pensamentos e emoções. A psicanálise rouba a vida do seu último encanto, ao relacionar cada sentimento ao seu original grupo de complexos. Não nos tornamos mais alegres descobrindo que nós todos abrigamos o criminoso e o animal.


S. Freud: Que objeção pode haver contra os animais? Eu prefiro a companhia dos animais à companhia humana.

George Sylvester Viereck: Por quê?

S. Freud: Porque são tão mais simples. Não sofrem de uma personalidade dividida, da desintegração do ego, que resulta da tentativa do homem de adaptar-se a padrões de civilização demasiado elevados para o seu mecanismo intelectual e psíquico. O selvagem, como o animal, é cruel, mas não tem a maldade do homem civilizado. A maldade é a vingança do homem contra a sociedade, pelas restrições que ela impõe. As mais desagradáveis características do homem são geradas por esse ajustamento precário a uma civilização complicada. É o resultado do conflito entre nossos instintos e nossa cultura. Muito mais agradáveis são as emoções simples e diretas de um cão, ao balançar a cauda, ou ao latir expressando seu desprazer. As emoções do cão (acrescentou Freud pensativamente) lembram-nos os heróis da Antigüidade. Talvez seja essa a razão por que inconscientemente damos aos nossos cães nomes de heróis antigos como Aquiles e Heitor.

...

George Sylvester Viereck: A psicanálise torna a vida um quebra-cabeças complicado.

S. Freud: De maneira alguma. A psicanálise torna a vida mais simples. Adquirimos uma nova síntese depois da análise. A psicanálise reordena um emaranhado de impulsos dispersos, procura enrolá-los em torno do seu carretel. Ou, modificando a metáfora, ela fornece o fio que conduz a pessoa fora do labirinto do seu inconsciente.

...

George Sylvester Viereck: O senhor ainda coloca a ênfase sobretudo no sexo?

S. Freud: Respondo com as palavras do seu próprio poeta, Walt Whitman: "Mas tudo faltaria, se faltasse o sexo" ("Yet all were lacking, if sex were lacking"). Entretanto, já lhe expliquei que agora coloco ênfase quase igual naquilo que está "além" do prazer - a morte, a negociação da vida. Este desejo explica por que alguns homens amam a dor - como um passo para o aniquilamento! Explica por que os poetas agradecem a

Whatever gods there be, That no life lives forever And even the weariest river Winds somewhere safe to sea. ("Quaisquer deuses que existam/ Que a vida nenhuma viva para sempre/ Que os mortos jamais se levantem**/ E também o rio mais cansado/ Deságüe tranqüilo no mar".)

...

(Acompanhado da esposa e da filha, Freud desceu os degraus que levavam do seu refúgio na montanha à rua, para me ver partir. Ele me pareceu cansado e triste, ao dar o seu adeus).

S. Freud: Não me faça parecer um pessimista (disse ele após o aperto de mão). Eu não tenho desprezo pelo mundo. Expressar desdém pelo mundo é apenas outra forma de cortejá-lo, de ganhar audiência e aplauso. Não, eu não sou um pessimista, não, enquanto tiver meus filhos, minha mulher e minhas flores! Não sou infeliz - ao menos não mais infeliz que os outros.

(O apito de meu trem soou na noite. O automóvel me conduzia rapidamente para a estação. Aos poucos o vulto ligeiramente curvado e a cabeça grisalha de Sigmund Freud desapareceram na distância).

___________

A entrevista completa está no link da SPRJ.

12 abril, 2007

Caldeirão explosivo

Las emociones Basicas del Hombre é uma coletânea de artigos autoria de Joan Rivière e Melanie Klein, psicanalistas inglesas. À parte a trajetória vital interessantíssima dessas duas intelectuais, debruço-me sobre o rol de “emoções básicas do ser humano”, alinhavado em obra que começou a ser escrita em 1937!

Impressiona-me a 'atualidade' dos conceitos acerca do vulcão interior que nos habita, um misto de pulsão de vida e pulsão de morte.

A mídia nos sufoca, a cada manhã, com o relato dos assassinatos da véspera, um rosário de atrocidades contra crianças e adolescentes, bestiário de violência cometidas por seres humanos contra seres humanos.

A 'banalização da violência' já virou lugar-comum no discurso sobre a vida contemporânea e somos levados a acreditar que o mundo é ordenado maniqueísticamente entre bons e maus. Pior: “os maus são sempre os outros”.

Os subtítulos de “As emoções básicas do ser humano” já incomodam pela ferida narcísica que nos impõem: “Amor, Ódio e Reparação” e “Inveja e Gratidão”.

Joan Rivière assim introduz suas reflexões:

“Examinamos, neste livro, alguns aspectos da vida emocional do homem e da mulher que vivem em comunidades civilizadas, cujas manifestações cotidianas nos são familiares. Duas fontes fundamentais dessas manifestações afetivas conhecidas são os dois grandes instintos primários: fome e amor, ou seja, o instinto de autoconservação e a pulsão sexual. Nossas vidas estão essencialmente orientadas para duplo fim:

  • conseguir os meios que nos garantam a existência
  • extrair prazer do viver.

Esses objetivos nos provocam emoções profundas e levam a intensa felicidade ou enorme sofrimento.”

Tudo emana de duas emoções básicas:

  • Amor: força que harmoniza e unifica, dirigida para a vida e o prazer.
  • Ódio: força desintegradora e destrutiva, que tende à privação e à morte.

Não se pode dissociar amor e ódio como duas forças que se excluem, ao contrário: Ambos alimentam a agressão:

  • Muitas vezes ligada ao ódio, a agressão não é totalmente destrutiva ou dolorosa, seja em seus fins, seja em seu funcionamento.
  • Por outro lado, mesmo que brotando das forças vitais, o amor pode ser agressivo e até destrutivo.

Já que os impulsos de amor e ódio estão em todos nós, cada pessoa, em sua singularidade, dependendo de fatores diversos como temperamento, educação e experiências de vida, tenta organizar as forças brutas que a habitam, mediante adaptações infinitas, sutis e variadas.

Muitos justificam seus atos agressivos como “defensivos” frente às ameaças reais ou imaginárias que enxerga no outro.

Entretanto, um olhar mais atento e honesto para dentro revelará em nós mesmos um misto de egoísmo, baixeza, voracidade, ciúmes e hostilidade. É provável que grande parte dos dissabores cotidianos provenha desses sentimentos, não?

Quem não experimenta prazer em “vencer ou outro”, ganhar um jogo ou derrotar o suposto inimigo? Por que será que encontramos enorme fascínio nas histórias horripilantes, em filmes ultra-violentos, em cenas de desgraças, acidentes, guerras, etc.? A programação de TV está recheada de cenas assim e os noticiários têm nos escândalos e crimes o mais eficaz apelo... “Dá ibope.”

Utilizamos a projeção com um mecanismo de defesa contra nossos próprios 'instintos agressivos' e os 'jogamos para o outro'. Eles, os outros, são a causa de todos os sentimentos penosos e desagradáveis pelos quais passamos. “-A culpa é do outro”, eis o mote eternamente repetido. Assim, vemos justificadas as nossas próprias atitudes agressivas, nossa irritação, nosso ódio. Isso é muito evidente quando somos repreendidos por alguém: “Ah! Mas você também erra, você também foi cruel comigo”.

A desvalorização e o desprezo ao outro são, igualmente, mecanismos de defesa muito utilizados quando nos sentimos rejeitados. Funcionamos como aquela raposa da fábula: Ao desistir das uvas que tanto buscou alcançar, a raposa justifica: “Estavam verdes”.

Somos, mesmo, um caldeirão explosivo...

10 abril, 2007

É isso aí, bicho!

Ora somos ratos, ora gatos; muitas vezes lobo, outras camundongos,
às vezes cachorros. Alguns sonham em ser gatos ou gatas.
Há os que vampirizam os amigos: os espertos como raposas e sutis como serpentes.
E os vivazes como os coelhos ou lerdos como as tartarugas
e os que têm olhos de lince?
Quantos posam de altivos leões, quando, na verdade, desfilam desajeitados paquidermes?
Às vezes somos surpreendentes como lêmures, ora pois.

Somos todos bicho-fera?
Tem gente que cultiva grilos na consciência e
riem como hienas ou choram lágrimas de crocodilo, os fingidos.
Traídos, maridos se tornam touros e chamam as esposas de "sua vaca"!
Já as crianças fazem macaquices e brincam de cabras, cabras-cegas - como é bom!
...há os que borboleteiam no carnaval ou se pavoneiam orgulhosos fantasiados de drag-queens.
Alguns falam feito papagaio, fuxicam tal maritaca e envenenam como jararaca ou cascavel.
O craque é cobra no futebol; o perna-de-pau é uma anta, pois não?
Se uns cantam de galo, outros fogem feito galinha, pois sim!
Garanhões procuram potrancas enquanto porcos chafurdam na lama,
os argutos, porém, alçam vôos de águia e roçam as asas nas nuvens.
Não me esqueço dos que, agourentos, espiam como corujas, farejam como cães-de-caça e dão o bote nos patos. Cuide-se pra não comer mosca e virar sapo, não há mais princesas disponíveis.
Até o Kafka virou barata, logo ele que não era nada burro!


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Livres associações a partir deste post da Yvonne.