Sonho, logo vivo.
Basta pensar em sentir Para sentir em pensar. Meu coração faz sorrir Meu coração a chorar. Depois de parar de andar, Depois de ficar e ir, Hei de ser quem vai chegar Para ser quem quer partir. Viver é não conseguir. Fernando Pessoa, 14-6-1932
21 julho, 2007
"Tsunami de FRUSTRAÇÕES ameaça nossa Esperança" [Manchete imaginária]
19 julho, 2007
Balaio de Gatos e Gatas
O encontro foi ontem, plena quarta-feira. Dia útil, e daí? Todo dia é dia de boteco na capital das alterosas!
O local é super simpático, misto de barzinho e bazar de artesanato, badulaques, enfeites, lembranças, antiguidades, quadros, roupas, luminárias. Você acha de um tudo.- Idelber Avelar, nosso professor na Universidade de Tulane (USA), a nos servir o imprescindível O Biscoito Fino e a Massa.
- Ana Maria Gonçalves, nossa grande escritora de Um defeito de cor e das 100 Meias Confissões da Aninha.
- Fernanda (Fefê), que se define como "mãe, mulher e menina" no seu Cria-Minha. Com ela, o jornalista Maurício Lara.
- Juliana Sampaio, uma das duas Mothern, sucesso de blog e TV (GNT).
- Ana Letícia, filhota nossa, representando todas as Mineiras, Uai!
- Letícia Marteleto, nossa professora demógrafa na Universidade de Michigan (USA), descreve suas aventuras no Letícia na Web, além de ser mãe da Helena e esperar mais um filhote do:
- Fernando Lara, também nosso professor na Universidade de Michigan (USA), que ensina arquitetura, fala de espaços e de tudo o mais em Parede de Meia.
- É claro que este que vos fala estava muitíssimo bem acompanhado pela primeira dama do Pras Cabeças, meu bem-querer Amélia.
Eis os gatos e as gatas da noite:

Você pode ver todas as fotos do Balaio bem aqui.
17 julho, 2007
Fabrício Carpinejar em BH
Hoje, fico sabendo que o próprio estará aqui em BH, para lançamento do seu livro "Meu filho, minha filha", dentro do projeto Sempre um Papo [Sala Juvenal Dias - Palácio das Artes - hoje às 19,30h - entrada franca].15 julho, 2007
Una derrota que duele en el alma (La Nación)
10 julho, 2007
Memória gustativa de comidas mineiras: o simples que é o máximo!
- Conversa vai, conversa vem, o assunto aportou as praias da culinária, mais precisamente das comidas simples e gostosas. Aí, surgem as memórias olfativas e gustativas, lembranças de comidinhas do tempo de criança, da adolescência e até mesmo do que se comeu ontem. Parece mesmo que somos feitos de memória e de...Sonhos!
- "Somos feitos da matéria dos sonhos". ["We are such stuff as dreams are made on." ( Shakespeare, in The tempest, 4.156)].
- Já os nutrólogos ensinam: "diga-me o que come e direi o que você é".
- Os sexólogos: "diz-me quem comes e dir-te-ei quem és".
- Pois os filósofos, estes elucubrarão: "Quem como? Como como? Quando e porque como? Como?".
- Caetano Veloso simplifica tudo: "eu como, eu como, eu como, eu como..."
Mas isto são prolegômenos, com certeza fátuos.
Retomemos do princípio: Conversa vai, conversa vem, lembrei-me de comidas simples, prosaicas, aqueles petiscos ou pouco mais que isso dos quais ainda sinto o gosto e o cheiro, mesmo que saboreados há décadas. Então, vamos lá:
1. purê de batata recheado com sardinha ao molho de tomate: minha mãe fazia uma espécie de pastel gordo com o purê, recheava, passava no ovo batido e na farinha (ou seja, à milanesa) e fritava. Muito bom!
2. arroz-feijão-couve refogada-angu e ovo frito, que minha avó preparava quando ia visitá-la, de surpresa. O feijão ficava na trempe do fogão "a serragem" (alguém conhece?), cozinhando por horas, lentamente. Simples e divino.
3. arroz-de-forno, que era comida de domingo. Hoje nem sei se existe, se alguém faz...
4. sanduíche de pão francês com mortadela, acompanhado de guaraná Champagne Antárctica. Querem combinação mais banal? Era uma exceção, geralmente em viagens, quase sempre longe de casa. Dizem que paulista gosta disso até hoje. Há anos que não provo e fico pensando nas calorias, no sódio excessivo, na mistura cabulosa das carnes (até de cavalo, dizem)... então fico na lembrança.
5. lombo fatiado, acebolado, com fatias finíssimas de jiló, tudo passado na chapa, na hora do pedido, na frente do freguês. Onde: no Mercado Central de Belo Horizonte, quase todo domingo. Acompanhado de cerveja geladíssima. A gente come em pé, no balcão: é um ritual imperdível para quem sabe o que é bom. Virou marca registrada do local.
6. pão-de-queijo quentim com cafezim. Este aí, meus caros, é hors concours, nem vou falar. [várias receitas aqui]. Para variar o lanche, Amélia faz uma broa de fubá que parece coisa do céu! [Aproveite a receita secreta da Amélia aqui].
7. canjiquinha de milho com costelinha de porco. Amélia, aqui em casa, é mestre nesta iguaria, saborosíssima quando quente, com pimentinha, cebolinha, pedaços de queijo derretendo. Meu pai, Soié, adora. No Mercado Central é prato premiado, chamado Mineirinho Valente [receita aqui].
8. feijão tropeiro no Bar 10 ou outro, no Mineirão, em dia de jogo: é servido em prato descartável de alumínio. Acompanhado de um ovo frito e um bife de pernil, preparados ali na nossa frente! Uma celebração à gastronomia que tem a unanimidade das torcidas. [Receita aqui].
9. Macarronada fria, sobra do almoço, devorada no final do domingo. Alguém discorda?
10. a décima iguaria fica por sua conta, caríssimo leitor: compartilhe comigo.
- Agora, com licença: vou "forrar o estômago".
09 julho, 2007
De duas, uma...
Se não vir, tudo mal.
Se vir, de duas uma:
ou você não gosta ou você gosta.
Mas, se gostar, de duas uma:
ou você não comenta ou você comenta.
e se você comentar, de duas uma:
Posso ler ou não.
Mas se eu ler, com certeza só uma coisa pode acontecer:
Vou ficar feliz em saber que você me visitou.
Inspirado (mal e porcamente) neste vídeo aqui:
08 julho, 2007
BH by night
BH by night por ClaudioCostaNo centro da foto vê-se a avenida Raja Gabaglia, que parte do Bairro Santo Agostinho até o Belvedere: são 7km de avenida, sempre subindo, até chegar ao BHShopping, na saída para o Rio de Janeiro.
Agorinha mesmo, Amélia e eu acabamos de descer por esta avenida, vindos do Salão Chevals, feira de artesanato e decoração no Vale do Sol.
Pra quem está a fim de um bom programa neste julho, um convite: BH tem programação demais, muita cultura, jazz, artesanato, comida boa, frio suportável e o jeito mineiro de ser.
É bom demais ou não?
03 julho, 2007
Ocultação de cadáver
29 junho, 2007
MP1D ou MDA?

ATENÇÃO: não sou eu o tal Cláudio Nolasco da reportagem - já sou marido por 24h de minha Amélia e, mesmo não sendo tão polivalente quanto o MP1D (marido por 1 dia) do anúncio, ainda não fui despedido.
Agora, convenhamos, apresentar-se como "marido por um dia" ou "marido de aluguel", pode ser uma boa estratégia de marketing, mas não deixa de ser esquisito. Ou ambíguo. Talvez, por isso mesmo, façam tanto sucesso.
28 junho, 2007
A profecia
26 junho, 2007
À procura da mulher bem resolvida
21 junho, 2007
Paranóia
Pintura de Radaelli (Porto Alegre-RS) - Photo by Cláudio CostaOs padres que dirigiam o antigo Colégio do Caraça e lá ministravam aulas eram "vicentinos", religosos da congregação fundada por São Vicente de Paulo, cuja sede fica em Paris, à rua Saint Lazare. Por isso, são denominados 'lazaristas'.
Assim, o sistema de ensino e toda a disciplina foram adaptados dos costumes europeus e, ainda por cima, obedeciam aos rigores das 'regras' monásticas: acordávamos às 5,25h da manhã, mesmo no mais rigoroso inverno, no alto da Serra do Caraça. Aos sábados, domingos e feriados, eram condescendentes e dormíamos até mais tarde: 5,55h! Isso mesmo, ansiosamente esperávamos o bendito 'descanso': nunca trinta minutos fizeram tanta diferença. Após a missa cotidiana, seguia-se o café-da-manhã, composto de pão, café-com-leite e mingau-de-fubá. Aos domingos, um luxo: tínhamos manteiga. Aprendíamos a frugalidade monástica, por bem ou por mal. Quem não se adaptasse, que descesse a serra e voltasse 'para o mundo, lá fóra'.
O currículo era muito apertado, com aulas de Português, Literatura, Latim, Francês, Inglês, Grego, Ciências, Matemática e Religião. Esporte era obrigatório, assim como o banho frio.
Até hoje louvo a organização: cada aula durava 45 minutos, precedida de igual período para prepará-la. Todos os alunos tinham de ficar em suas carteiras, num enorme salão, a estudar a matéria específica da aula que viria. Silêncio absoluto. O padre disciplinário, ocasionalmente, percorria os corredores entre uma carteira e outra, conferindo se realmente o aluno se dedicava ao estudo determinado. Às vezes, é claro, pegava alguém a ler uma revista, um livro de contos, uma carta recebida da famíia. Era repreendido à vista de todos, um vexame.
Por um tempo, eu ocupava a última fileira do salão, logo à entrada da porta, nos fundos. Assim, quando o padre disciplinário aparecia, ninguém percebia. Chegava de mansinho e observava os oitenta jovens debruçados sobre os livros. Calmamente conferia um a um e retornava a seu gabinete.
Certo dia, no primeiro horário da manhã, pus-me a ler O Cão de Baskerviles de Sir Arthur Conan Doyle, aventura de Sherlock Holmes e seu amigo Dr. Watson. O suspense era enorme e me desligara completamente do mundo, concentrado no fog londrino e na trama policial.
Súbito, com o canto dos olhos, percebo algo a balançar suavemente um pouco atrás de mim e logo me convenci de que era a borda da batina do disciplinário. Fora descoberto! O desfecho era previsível. Em voz alta, o padre exclamaria: - Muito bem, "senhor" Cláudio, os problemas de geometria, hoje, serão resolvidos pelo detetive Sherlock? Todos os colegas se voltariam para mim e aguardariam o castigo: - Hoje você ficará sem a sobremesa e não poderá brincar durante o recreio após o almoço. Era a senha para uma gargalhada geral.
O que fazer? Se eu escondesse o livro, seria tachado de hipócrita dissimulador. Terrível. Se não o fizesse, então seria descarado, desafiador, impertinente e sem-vergonha. Terrível, também. Minha imaginação trabalhou a todo vapor e inventei uma esperança: quem sabe o padre não percebera meu deslize, estaria olhando lá para frente e nem se dera conta de minha falta? Alívio!
Fingi que nada me perturbava e debrucei-me mais um pouco para tentar encobrir a prova de meu crime. É claro que não conseguia ler e um suor frio escorregou fronte abaixo, coração disparado e respiração suspensa. Com o canto dos olhos, contudo, ainda percebia o vulto a balançar logo ali atrás, um pouco à minha esquerda. O danado do padre não saíria dali nunca mais?
Resolvi enfrentar o inevitável. Arranquei do medo e da vergonha um resto de coragem: confessaria meu crime e acataria o castigo. Não seria a primeira vez. Voltei-me resoluto e já enunciava um "desculpe-me, sr. padre" quando descobri, aliviadíssimo, a origem daquela sombra balançante: era a ponta de meu cachecol, pendurado no encosto da cadeira, que oscilava ao sabor da brisa matinal. Não havia padre nenhum e, portanto, nada de castigo. O mundo continuava a girar, o silêncio imperava e eu só escutava o bater assustado de meu coração. Joguei Conan Doyle para a gaveta da estante e ri, ri muito de mim mesmo.
...ooo)000(ooo...
Ao lado, o que restou após o incêncio que destruiu parte do Colégio, em 1968. O salão de estudos ficava no segundo andar, acima dos arcos. Atualmente, funciona, aí, o museu do Caraça.
[Clique aqui para ver mais fotos]
Caraça-MG - Photo by Ana Letícia (Art director: Cláudio Costa)
20 junho, 2007
Um defeito de cor & Mothern
Compareci, a convite do Idelber e da própria, ao Encontro Marcado com Ana Maria Gonçalves, que escreveu "Um defeito de cor". Muita gente já escreveu e falou sobre a maravilhosa epopéia produzida por Ana Maria Gonçalves. - Se você é daqueles que desanimam diante de 952 páginas, faça o seguinte: comece a ler! Duvido que não fique 'possuído' pela escrita, pelo personagem, pelo clima, pela história, pela emoção e pela abrangência de "Um defeito de cor". É começar e não parar. Depois me conte. Antes de completar um ano de lançamento, "Um defeito de cor" já ganhou o Prêmio de Literatura da Casa de las Americas!
Ao final da entrevista, enquanto a Autora autografava seu romance, encontro o Idelber já bem acomodado numa mesa do "Café da Feira", em companhia das Mothern, Juliana e Laura. Acheguei-me, é claro. Lá estava eu entre as globais do GNT: afinal, Mothern é um blog que virou sitcom de canal pago. Se você ainda não lê Mothern, não sabe o que anda perdendo.
Juliana, Idelber, Cláudio e Laura
Foi uma noite e tanto, mermão!
18 junho, 2007
Passeio de domingo

O domingo foi dia de passear: a filhota Ana Letícia e eu resolvemos, num repente, fugir de Belo Horizonte e respirar oxigênio puro a 1400m de altitude. Em 90 minutos estávamos no alto da Serra do Caraça, usufruindo da paisagem preservada, do silêncio quase monástico e da comida caseira "que só padre come"!
Se você quiser mais fotos, clique bem aqui.
15 junho, 2007
Novos Amigos
Durou um átimo e devolvi-lhe a ligação:
O grande Milton, porém, de coração grande e alma generosa, prega-me supresa e tanto ao aparecer sorridente, ainda a tempo de entrarmos juntos: decidiram-se a compartilhar conosco o programa de sexta-feira, ele e Cláudia.
Reconhecemo-nos imediatamente e o virtual cedeu ao real. Tal como acontecera, na véspera, quando abracei Dom Afonso e sua família, no aeroporto.
O jantar foi maravilhoso: o bom humor e a espontaneidade do Milton e da Cláudia logo nos contagiaram e posso dizer, sem exagero, que nossa mesa era a mais loquaz, animada e estrepitosamente gargalhante do lugar.

O cardápio? Massas, of course. Precederam-nas os frios, outra marca registrada do lugar. Fui premiado com o Spaghetti Brody, exuberantemente guarnecido de camarões, champignons, ervas, brócolis... 07 junho, 2007
A Condessa e o Plebeu
Pois que tem alma de aventureiro não se intimida.
Arriei e montei no cavalo ao qual eu chamarei de Fokker 100, da raça TAM. Sacode um pouco, tem selas meio apertadas, veio na base do pinga-pinga (Campinas e Curitiba) e apeei no tal reino, ao sul do equador, mais ao sul do trópico. Setentrional, o reino? Não sou afeito a geografias mas voei pelos céus, sobre montanhas e rios, planícies e outros "acidentes geográficos".
Ao desembarcar, eis que sou recebido por uma condessa, a Condessa Clarissa, acolitada pelo papai e pela mamãe, nobres, todos eles muito nobres.


Palavras não há - socorram-me, poetas e trovadores!
Inspirem-me, musas e ninfas!
Forneçam-me significantes para um significado maior do que eu mesmo, plebeu das grimpas das Gerais, sendo recebido por tão ditoso séquito.

06 junho, 2007
De poetas, congresso e gentileza

04 junho, 2007
O futuro é a morte
Falcão – Meninos do Tráfico (MV Bill – “Mensageiro da Verdade”) reavivou as discussões acerca de uma realidade praticamente negada. A “negação” não significa desconhecimento, mas um “mecanismo de defesa” – quase sempre necessário – para que suportemos a vida.
Os temas violência, criança abandonada, ausência do Estado, falta de Educação, miséria se entrelaçam e provocam intelectuais, sociólogos e políticos a buscarem causalidades e apontarem soluções. Por outro lado, o senso comum – entidade abstrata e intangível, porém prevalente – aponta o dispositivo policial como melhor remédio: “são os traficantes; é preciso acabar com o tráfico; isso é coisa de bandido”.
Transgressões, com efeito, clamam por medidas corretivas e punitivas. Entretanto, mais do que o respeito (medo?) ao ordenamento jurídico da sociedade, a submissão à Lei é um dos componentes da subjetividade (“realidade psíquica, emocional e cognitiva do ser humano, passível de manifestar-se simultaneamente nos âmbitos individual e coletivo” – apud Houaiss).
O documentário de MV Bill é protagonizado por 17 crianças, das quais apenas uma sobreviveu. A crueza das cenas e das falas chocou a muitos, principalmente pelos pequenos “falcões” – os meninos usados pelos traficantes.
O desprezo à própria vida e a falta de senso do que é socialmente classificado como bom ou ruim, certo ou errado e a falta de identificação a modelos “éticos” de comportamento provocam-nos a interrogar:
- Qual o sentido da vida para esses meninos? De onde vêm tanta insensibilidade e ausência de temor à punição? Será que não sentem culpa? Não têm medo de morrer? Colocam-se no lugar do outro? São vítimas ou delinqüentes juvenis? De quem ou do que é a culpa?
As respostas não são simples, muito menos unânimes.
Ao apropriar-se da tragédia grega do Édipo, Freud toma o personagem criado por Sófocles como paradigma das vicissitudes de todo ser humano no caminho de entrada na cultura. Assim como “Falcão”, Édipo não tem nome, é simplesmente “aquele que tem os pés inchados” – conseqüência do furo em seus calcanhares, feito pelo pastor que o salvou da morte.
O “medo à castração” determina sua fuga para Corinto. O castigo seria aplicado pelo pai caso o filho realizasse os desejos incestuosos em relação à mãe. Isso remete à passagem da natureza à cultura, condicionada à relação com a Lei. O temor à Lei é condição para que o sujeito estabeleça uma “sociedade” com a cultura humana: é mister que se obedeçam as regras da linguagem, por exemplo, sob pena de não ser compreendido ou ser tachado de louco.
“Uma lei que não é temida – que não tenha potência de interdição e de punição – é uma lei fajuta, de fancaria, impotente. No entanto, o temor à lei, sendo necessário, é absolutamente insuficiente para fundar a relação do ser humano com a Lei. Uma lei que se imponha apenas pelo temor é uma lei perversa, espúria – lei do cão.” (Hélio Pellegrino).
A “civilização”, é verdade, provoca sempre um “mal-estar”. Embora garanta um certo ordenamento, exige uma dose de renúncia pulsional, controle dos instintos (erótico e agressivo). Mas também proporciona alguns ganhos, é claro.
Freud não chegou a fazer uma crítica à sociedade capitalista e não menciona que a violência da repressão em nossa sociedade existe também pela forte carga de injustiça social. Mas o mito é um paradigma.
A “solução” estaria num pacto: renúncia à onipotência (tudo é permitido) em nome de ganhos para o indivíduo e para a sociedade. Compensam-se as perdas com a conquista de certos direitos: ao nome, à filiação, à estrutura de parentesco, à sobrevivência digna. O pertencimento à cultura que acolhe o indivíduo supõe acordo a respeito de seus valores e ideais – até mesmo direito para criticá-los e denunciar as injustiças.
A compreensão do tal “complexo de Édipo” para além da construção da subjetividade pode iluminar um pouco as discussões acerca da tragédia que se abate sobre incontáveis “Falcões”. Estes nascem e morrem nas sombras. "Existem" apenas nas estatísticas que acusam índices assustadores: o enorme número de jovens entre 12 e 18 anos que são assassinados, vítimas da violência, caso não sejam atingidos, antes, pela mortalidade infantil por fome e doenças causadas por falta de saneamento básico, etc.).
A Lei imposta na micro-esfera do romance familiar (pai-mãe-criança) deve ser compensada pelo atendimento às necessidades da criança (afeto, sustento, educação, acesso aos bens materiais e culturais), do mesmo modo que as renúncias exigidas pela sociedade deveriam garantir a todos os cidadãos os direitos inalienáveis a cada um: trabalho, remuneração digna, expectativas de ascensão social, preservação da integridade física e psíquica, etc.
Sempre que fracassa a figura do Pai (não necessariamente o pai da realidade, mas o pai “simbólico”, representante da Lei e garantidor das compensações), a criança romperá o pacto estabelecido e as exigências da cultura serão insuportáveis: reaparecem os impulsos agressivos, incestuosos, predatórios.
Da mesma forma, quando falha o Estado – garantidor do que chamaríamos de “pacto social” – o que esperar senão a emergência dos impulsos delinqüênciais e homicidas? Com que autoridade pode a sociedade exigir o fim da verdadeira guerra civil travada em forma de assaltos, tráfico de drogas, desrespeito às normas, quando predominam as leis implacáveis do capitalismo selvagem, que mantém um número crescente de cidadãos sem nome, sem casa, sem trabalho, sem remuneração digna, sem esperança de inclusão social? As promessas e ofertas do Mercado não incluem os excluídos.
Os “Falcões”, de alguma forma, expressam o fracasso de políticas sociais excludentes. Em “nome-de-qual-Lei” adotarão os valores defendidos por uma sociedade – que somos nós mesmos – que lhes nega nome, identidade e futuro?
- O futuro é a morte.
_________
Referência: Pellegrino, Hélio. Pacto Edípico e Pacto Social in: Grupo Sobre Grupo - Luiz Alberto Py et alii - Editora Rocco, RJ, 1987.
02 junho, 2007
Blogar é Falar
30 maio, 2007
Evocações
- O melhor era colocar um barbante (cordinha) amarrado a um pedaço de carniça. Urubu comia e voava para bem alto. Aí eu dava linha, como quem solta uma pipa, pendurava-me no barbante e o grande pássaro preto me carregava pelos céus da cidade. Às vezes, ao "sobrevoar" o rio Piracicaba, eu caia em suas águas e tinha que nadar rápido, para fugir do jacaré. Um dia, um urubu bem grande me levou até a caixa dágua, no alto do morro atrás do Hospital São José. E como conseguia fugir de todos os jacarés e sempre cair em lugar macio, estou aqui a contar como acontecia.
# Meu pai, Soié, lembrou-se de quando eu saía de mãos dadas com o vovo Ilidinho. Ao passar próximo ao matadouro municipal, diante dos animais abrigados no pequeno curral anexo, apontava para um ou outro e perguntava:
- Vovô, aquele boi ali é boi ou vaca?
# Tia Irani, irmã de meu pai (Soié), relembrou um fato acontecido também na minha infância. Eu já aprontava das minhas, é claro. Tia Irani comentou assim:
- GOSTEI e lembrei-me da vaca que entrou na venda (armazém) que meu pai (Ilidinho) tinha aqui junto à nossa casa... Foi o seguinte:
Era costume que os fazendeiros conduzissem sua boiada pelas ruas da cidade. Às vezes, uma ou outra rês se desgarrava e investia sobre os passantes. Numa dessas ocasiões, gritaram:
- "Vaca braaaaava"!
Todos correram para apreciar o espetáculo e o pobre do Claudinho, que estava assentado na porta do Foto Irineu, defronte à venda, saiu em disparada atravessando a rua e gritou:
- Vovôôôôô me acode!!!.
Acontece que a vaca, que estava bem próxima, deve ter pensado que o menino fosse seu bezerrinho (!) e igualmente atravessou a rua e adentrou as instalações do meu pai que, num relance, puxou o menino que tremia e berrava alojado num canto. A vaca tentou passar para detrás do dentro balcão, ficando "engasgalhada" na porta, bufando e batendo c/as patas no assoalho.
Os vaqueiros logo chegaram com um laço e arrastaram a coitada para a rua, onde o povo aglomerado aplaudia. Cláudio, nos braços do avô, chorava e reclamava:
-"Vovô, a vaca queria me pegar".
Nesta hora, foi chegando minha mãe com um copo d’água e biscoitos para acalmar o bezerrinho... ou melhor, o netinho!!!. Boas lembranças, muitas saudades!!!
# Ah, lembro-me dessa minha tia Irani, mocinha nova, a fazer bordados juntos às outras tias. Eu, menino de calça-curta, zanzava pela sala de costuras, pois era casa do meus avós Nhanhá e Ilidinho. E não é que as danadas das tias, quando queriam que não entendesse o que diziam, principiavam a falar na língua do pê? Espertinho, logo logo decifrei o código. Pois então, inventaram mais uma:
Depemoporeipei apa depecopodipifipicarpar.
Quanpandopo despescopobripri quepe eperapa apa linpinguapa dopo pêpê, epelaspas copomepeçaparampam apa upusarpar apa linpinguapa dopo epefeperrepe:
Voforrocêfêrrê confonronheferreceferre afarra linfinringuafarra doforro eferreeferre?
24 maio, 2007
Cotidiano
- Continuo na escola, vou a algumas a festas, faço academia, tenho amigos; mas algo não vai bem comigo. Tenho um relacionamento afetivo há alguns anos, "mais sério que um namoro, menos sério que um noivado", mas... O pior é que os defeitos dela começaram a me incomodar, embora eu sempre compreendesse, pois houve um tempo em que estive mesmo apaixonado.
- Explique melhor o que você quer dizer com perder a alegria de viver, como é isso no dia-a-dia.
- E aí?
- Bem, aí comecei a dar corda para algumas conversas, principalmente com meninas que se propunham a conhecer alguém. Dei o telefone para uma pá de gente. Chegava da escola e corria pro computador, nem lanchava, nem conversava com meus familiares: minha mãe, coitada, ia chegando com um toddy e eu dizia: "espera aí, mãe, que 'tou ocupado'. Ela até reclamou, mas não mudei.
- E?
- Agora estou sentindo uma angústia danada, pois vou terminar com minha namorada-quase-noiva e não sei como falar. Sinto duas coisas: angústia e culpa.




